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Kammer no Attersee 21 de Outubro de 1944 Quando deixei Viena, levei comigo uma única coisa: um grosso portefólio de cabedal com uma fivela de prata. Parti à pressa e tive de deixar muitas coisas para trás. Um armário em pau-rosa que Koloman Moser1 tinha feito de encomenda para mim. Doze conjuntos de prato, copo e talheres de mesa em prata dos Wiener Werkstätte2, desenhados por Hoffmann3. A minha colecção de roupa. Um dos famosos vestidos Delphos de Fortuny. Um vestido enviesado de cetim amarelo-pálido assinado por Madame Vionnet. As calças de harém azul-safira de Paul Poiret e os seus chinelos adornados com jóias. E os quadros. Os mais valiosos de todos eram demasiadamente volumosos e pesados para serem transportados no comboio. E quando me apercebi de que não ia poder transportar os quadros, pareceu-me ridícula a ideia de levar metros e metros de tecido, ou um alfinete de chapéu, ou recortes de 1

Koloman Moser (Kolo Moser) nasceu em Viena em 1868. Foi co-fundador da Secessão Vienense e dos Wiener Werkstätte, tendo-se destacado como um dos artistas mais criativos do seu tempo. A sua obra, que abarcou todas as áreas das artes decorativas, teve uma influência notável nas artes gráficas do século XX. (NT) 2 Wiener Werstätte (Ateliês de Viena) — Associação fundada em 1903 por Josef Hoffmann e Koloman Moser, entre outros, que deliniou alguns dos princípios da estética modernista. Era um grupo de arquitectos e artistas que tinha como objectivo a fusão da arquitectura e do design de interiores numa obra de arte total. (NT) 3 Josef Hoffmann — Arquitecto e designer, foi co-fundador dos Ateliês de Viena e teve uma contribuição determinante para a percepção e a compreensão estéticas do século XX. (NT)

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jornal e revistas de moda. Afinal, o que iria eu fazer, um relicário com o que sobrara da minha antiga vida, enquanto as suas peças de tecido ficavam fechadas no armário de um apartamento abandonado? A minha sobrinha Helene elaborou as listas das coisas de que iríamos necessitar, e arrumou as malas, e foi comprar meias de algodão e de lã, e unguento de cânfora. Disse a mim mesma que ela precisava de se sentir ocupada, que lhe estava a fazer um favor ao deixá-la ocupar-se de todos os preparativos, mas tratava-se, pura e simplesmente, de uma mentira que eu tinha inventado, uma desculpa para a minha catatonia de olhar vazio. Não poderia tê-la ajudado, porque, se o tivesse feito, teria sido obrigada a admitir que estávamos de facto a partir. Entrei no comboio como se fosse atravessar a cidade para ir entregar o portefólio a uma galeria, e esta segunda mentira era a única coisa que me impedia de me atirar para a linha. Receava morrer sem voltar a ver a cidade. — Desde quando é que é assim tão histriónica? — perguntou a minha sobrinha. É filha da minha irmã Helene, e sua homónima, mas por vezes faz-me lembrar mais a minha outra irmã, a prática, Pauline. — Está a começar a ficar como a avó — comentou ela. — Não vamos para longe e, tanto quanto sabemos, dentro de seis meses a guerra já terá terminado. — Passou-me um pãozinho duro com um grande pedaço de manteiga no meio. O comboio estava a abarrotar de crianças transpiradas, que usavam casacos por cima das jaquetas, e jaquetas por cima das camisolas, e de mulheres transportando embrulhos angulosos com chaleiras para chá, e panelas de sopa, e facas embrulhadas em panos de linho. As mulheres eram magras e austeras, os seus rostos, cinzentos. Apesar de a roupa que levavam vestida ser provavelmente a melhor que tinham, quase todas as saias estavam manchadas e coçadas, e as jaquetas das crianças estavam remendadas com pedaços de tecido que não condiziam e com um fio preto grosseiro que apenas servia para acentuar a sua condição miserável. Rolámos lentamente através da cidade, passámos os subúrbios e as cidades da periferia, parando com frequência para deixar entrar mais e mais destas famílias. De cada vez que parávamos, eu pensava que o comboio não poderia acomodar mais ninguém, mas então, em cada estação, via a multidão e sabia que não teríamos outro remédio senão arranjar lugar para eles. Empilhavam-se na zona da bagagem; amontoavam-se como tigelas, ao colo uns dos outros. 10


Passámos por montes despidos, onde noutros tempos cresceram uvas. Passámos por campos lamacentos onde acampavam centenas de pessoas, construindo todos os abrigos que conseguiam, por mais toscos que fossem, a partir de pedaços de lata e de jornais. Passámos por tendas do Exército. Camiões cheios de soldados atafulhavam as estradas. Dei o meu pãozinho a uma criança de faces gretadas que estava no chão junto a mim. Pôs tudo na boca e pareceu engolir sem mastigar. A gratidão fervorosa da mãe envergonhou-me. Cinco horas mais tarde o nosso comboio chegou à nossa estação, duas paragens a leste de Salzburgo, e depositou-nos no nosso exílio. Não consigo fingir que estamos aqui para passar o Verão: as nuvens estão plúmbeas e o lago está gelado. As bétulas estão despidas e tremem. Neva no cimo das montanhas. Sinto-me sozinha sem as minhas coisas. Disponho de tanto tempo nas minhas mãos. Guardo o estojo de couro dentro do armário Biedermeier, no quarto. O meu pai amava o estilo Biedermeier da mesma forma que amava um cachimbo bem construído. Permanece ali, tão bem talhado, e perfeito, e correcto, uma repreensão a tudo aquilo que eu não sou. Por vezes, à tarde, quando o caminho para o lago se encontra demasiado lamacento até para mim, e os trovões ribombam pelo vale como granadas mortais, ou talvez sejam as granadas mortais que ribombam pelo vale como trovões, não consigo, efectivamente, distingui-los, tiro o portefólio do armário e coloco-o em cima da cama. O couro grosso está gasto e quebrado e cheira aos fiacres que costumavam formar fila ao lado da Stephansdom4. Parece fora de contexto sobre o edredão arrendado que tenho desde pequena. Fico a contemplá-lo durante um minuto, passo a minha mão sobre ele como se fosse uma corça que eu tivesse matado, em seguida desaperto a fivela e abro a pasta de forma a que todos os desenhos que se encontram no seu interior caiam sobre a cama. Cento e doze desenhos, para ser precisa. Sento-me ali, em cima da cama, junto à pilha, e pego neles folha a folha. Formo pilhas menores, subconjuntos, organizando-os de acordo com as poses, os modelos, as datas. Classifico-os por ordem dos que gosto mais e coloco os meus favoritos em cima. Todos eles são diferentes: alguns foram desenhados a carvão, e outros a grafite, e outros ainda a tinta de óleo colorida. Alguns são

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Catedral de Santo Estêvão, em Viena. (NT)

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do tamanho da palma da minha mão e outros foram dobrados várias vezes para poderem caber dentro da pasta de couro. Alguns foram feitos num papel grosso e pesado e têm um acabamento rugoso, enquanto outros foram feitos num papel fino que escorrega dos meus dedos para o chão. Alguns dos desenhos já estão baços e quebradiços e partem-se nas minhas mãos como renda velha. No entanto, eles são todos o mesmo, também, porque são todos de mulheres em vários estados de nudez. São esboços rápidos, informais, meia dúzia de linhas, sem contorno ou sombreado, executados rapidamente, num ou dois minutos. Mulheres sem peso, vazias, como figuras num livro infantil para colorir. Aqui está uma mulher sobre o braço de um divã, torcendo o tronco num espreguiçamento lânguido. Aqui está uma mulher envergando um vestido de gola alta e botas, levantando camadas interiores de combinações para se poder tocar através de um buraco aberto na sua roupa interior. Aqui está outra, uma mulher com um olhar directo, usando ligas, e meias, e uma blusa. Aqui está o desenho de uma mulher deitada de costas com as pernas atiradas para o lado, as suas nádegas a dominarem a página enquanto os seus ombros e a sua cabeça, desenhados numa dimensão reduzida, passam praticamente despercebidos. Conheço todos os seus nomes, destas mulheres. Temos a Alma, e a Maria, e a Mizzi, e a Adele. Algumas delas conheci bastante bem, com outras costumava cruzar-me quando entrava ou saía do estúdio, e outras ainda nunca vi na vida, mas pensei tanto nelas e ouvi falar tanto delas ao longo dos anos que me sinto íntima de cada uma. Conheço as suas vidas. Quando disse que os desenhos eram todos o mesmo, não fui muito precisa. Há um que é diferente. Mostra-nos um homem a abraçar uma mulher, que volta o rosto para o observador com uma expressão de pura felicidade. Mantenho esse no fundo porque me é demasiadamente doloroso olhar para ele. Isto foi tudo o que pude trazer de Viena, os desenhos de Gustav. Ele nunca os teve em grande conta nem os levava a sério enquanto arte, eram preparatórios, exploratórios, eram planos, projectos, enganos. Mas agora é possível que sejam as únicas coisas dele que sobreviverão, e eu devo tomar conta deles na falta de algo mais importante ou acabado. Devo examiná-los, e traçar paralelos entre eles, e colocá-los num contexto histórico para alguém, alguém que no futuro se possa vir a interessar. Enquanto esse momento não chega, eles são meus, e eu estou sozinha com eles, e olho para eles para os manter vivos. 12


Encontro o meu caminho até ao escritório tacteando e acendo o candeeiro a óleo. Dirijo-me ao toucador e sento-me defronte do espelho. O meu cabelo está branco, mas ainda forte e ondulado. As minhas feições já não são tão pronunciadas como foram outrora. Um artista ignoraria algumas pregas no meu queixo e no meu pescoço para não me ferir a susceptibilidade. Mas os meus olhos continuam tão penetrantes como eram quando eu tinha doze anos. Retiro as travessas do meu cabelo, travessas de marfim que pertenceram a minha mãe, que meu pai lhe comprou em Veneza, e deixo-o cair sobre os ombros. Cabelo de velha, como lhe chama Helene. Ela acha que as mulheres de uma certa idade deviam cortar o cabelo muito curto, como a Gertrude Stein. Ela costuma dizer-me isto enquanto brinca com a sua trança escura e grossa, apenas tocada pela mais ténue geada. Penso que, quando tiver setenta anos, sentirá as coisas de outra forma, mas eu apenas lhe digo que quando estiver morta ela pode fazer comigo o que quiser. As cerdas da minha escova de cabo de prata estão amareladas e amaciadas pelo tempo e o seu toque superficial não produz qualquer efeito sobre o meu cabelo e os seus emaranhados. Abro a gaveta e retiro uma tesoura. Podia goivar a minha coxa cortando um buraco na minha modesta roupa interior. A pele da minha coxa é fina com um tecido leve. Não seria necessário muito para acabar comigo, uma pequena ferida perfurante que dá origem a uma infeção, um pequeno envenenamento do sangue. Podia cortar o tecido de algodão como se estivesse a abrir uma caixa. O pedaço cortado cairia para o chão como um floco de neve de papel. Podia deitar-me sobre a cama e abrir as pernas, puxando a saia do meu vestido por cima das ancas. Podia colocar a minha mão no buraco que tivesse cortado e esfregar os meus dedos para cima e para baixo. Podia pôr-me nas mesmas poses do portefólio. Se o fizesse, talvez Gustav aparecesse, envergando a túnica encarnada que lhe fiz, parecendo João Baptista. Posaria de modelo para ele de um modo como nunca fiz durante a sua vida, e ele iria desenhar-me da mesma forma que desenhou as outras. Mas não faço nenhuma destas coisas, e Gustav não aparece. Em vez disso, volto a colocar a tesoura na gaveta, sopro para apagar a luz e arrasto-me até à cama. Talvez no sono eu possa regressar a Viena, ao estúdio. Talvez em sonhos os desenhos junto da cama possam tornar-se mais do que fragmentos baços de papel.

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NU RECLINADO, 1888

Está uma tarde muito fria no estúdio, mas as janelas que encimam as travessas das portas devem ser mantidas abertas para se evitar que a terebintina e outros químicos envenenem o ar. Gerta, de ossos tão leves quanto a palha e carnes pálidas como a parafina, mantém os pulsos cruzados em frente aos seios, à espera das instruções. Gustav não vê a nudez dela. Ela mal conta para ele enquanto mulher. O que ele vê é um problema de luz e sombra, de geometria, de volume que exige a sua atenção. — Não se importa de cobrir o seio? O esquerdo, não o direito. Óptimo. E agora, não se importa de se reclinar sobre a paleta? Afaste as pernas uma da outra. Volte esse joelho para dentro. Muito bem. Gerta faz tudo isto sem qualquer comentário, com o aborrecimento paciente das mulheres que ganham dinheiro à custa do corpo. Ele desenha-a uma e outra vez, articulações e joelhos, cotovelos e estômago. Ela faz poses de dois minutos e poses de trinta minutos. Gustav vira as páginas do seu bloco de desenho vezes sem conta. Estamos no início da tarde, mas já está uma luz crepuscular, e ele trabalha febrilmente para vencer a escuridão invasora. Quando já não consegue trabalhar mais, diz-lhe que já chega. Ele repara que a pele dela está arrepiada e com uma palidez doentia. A carne sob as unhas dos seus pés é purpúrea. Ela volta a ser uma mulher, mais do que um exercício visual e, de alguma forma, também menos. Ele sobe a escada e fecha as janelas que encimam as travessas das portas. Ela veste a camisa, as meias. Abotoa o vestido e as botas. A ele, tudo aquilo lhe parece um esforço em vão. Gostaria de ficar?, pergunta-lhe. Ela assente com a cabeça. Há uma cama a um canto e ele condu-la até ela. Enquanto ele se despe, ela espera, a cabeça amparada numa mão esguia. Ele senta-se na cama, junto a ela, e desabotoa, desaperta e desata até ela se encontrar novamente nua. Então, ele passa a palma sobre a pele dela como se a sua mão fosse uma escova.

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No aniversário dos meus doze anos, fui com meu pai e minhas duas irmãs, Pauline e Helene, ver uma procissão imperial. Para os vienenses, uma procissão imperial era o acontecimento mais importante do calendário. Era mais importante que a Páscoa e o Natal juntos, e os vienenses eram, de uma forma geral, muito devotos. Era como se o próprio Deus tivesse escolhido vir a Viena e se passeasse pela cidade no dorso de um cavalo. Para mim, como criança, ter a oportunidade de presenciar um tal espectáculo era a coisa mais maravilhosa que podia imaginar. Saímos do nosso bloco de apartamentos para a rua ao som do repique do meio-dia dos sinos da igreja de Santa Ana, na esquina. Tenuemente, como se de um eco se tratasse, podíamos distinguir os sinos da catedral de Santo Estêvão, a cerca de um quilómetro e meio. Estavam a martelar a mesma melodia de Bach. Virámo-nos todos para olhar para a janela do terceiro andar onde estava a Mãe. Ela não viria connosco, por mais que lhe implorássemos. Achava toda aquela ostentação inútil, segundo dizia. O nosso prédio era tão novo que ainda cheirava a cedro e a cal. Era de estuque amarelo com sereias de pedra que se espraiavam grotescamente das cornijas. Ficava entre dois prédios mais antigos e mais pequenos, lembrando um grande gato a brincar com dois delicados ratinhos cinzentos. Tínhamo-nos mudado para lá no ano anterior, vindos de um lugar mais degradado, a apenas alguns quarteirões de distância. Os tectos eram tão altos que nem mesmo em cima do escadote o Papá conseguia tocar-lhes. Cúpidos de gesso, nas molduras, drapejavam cachos de uvas. Havia um fogão de cerâmica em cada assoalhada. Acenámos adeus a nossa mãe e ela correspondeu-nos, mas eu sabia que não nos estava a ver. Não estava sequer a ouvir os sinos. O seu olhar 15


estava fixo num ponto para além dos telhados dos edifícios, na direcção do rio, e ela entoava, de lábios fechados, uma área que estava a compor para ver se poderia resultar. A acústica do nosso novo apartamento era excelente e o seu piano de cauda de concerto em tamanho inteiro era a única coisa que nós tínhamos que parecia adequada ao contexto. Do outro lado da rua, o homem da tabacaria estava a fechar as suas venezianas; ia sair mais cedo para se juntar às festividades. Meu pai correu a comprar um maço de tabaco. Comprou um tipo de tabaco turco que vinha num papel translúcido às riscas encarnadas. Iria fumá-lo em casa, mais tarde, depois de nós já termos ido para a cama. — Precisa de alguma coisa, Georg? — perguntou o pai enquanto examinava a selecção de cachimbos do homem. — Hoje é feriado, Sr. Flöge — respondeu Georg com um sorriso rasgado. — Porque é que não deixa as preocupações para amanhã? Aproveite o dia de hoje. Ele deu a cada um de nós um rebuçado de leite e disse que nos veríamos mais tarde. O pai continuava a tirar apontamentos para um pequeno caderno de notas. Disse ao homem da tabacaria que mandaria lá alguém de manhã. Meu pai era dono de uma fábrica que produzia cachimbos com o fornilho feito de espuma do mar. Tinha dezasseis empregados num pequeno armazém junto ao rio. A partir do momento em que tive idade para passear, foi sempre uma alegria muito especial ir visitá-lo lá, e observar os artesãos a trabalhar. Vi muitas vezes um homem a puxar um bloco de espuma do mar de um tubo de água. A pedra era macia e branca como queijo. O homem esculpia-a com a sua faca, sabendo sempre de antemão o sítio exacto onde devia cortar. Ele conseguia fazer surgir do mineral um cavalo, ou um boi, ou um homem de rosto rechonchudo, tal como o faria um escultor. O homem tinha diversas especialidades: reis, caricaturas de políticos, animais. Depois de as cabeças dos cachimbos terem sido esculpidas, eram ajustadas às respectivas hastes e iam para o forno. De seguida, eram polidas e enceradas. Estas eram as tarefas que cabiam aos aprendizes. Quando terminados, os cachimbos eram leves e macios como cascas de ovo, mas mais fortes que a porcelana. As palavras Flöge Meerschaum eram gravadas em relevo em cada peça em pequenas letras douradas. Os cachimbos eram muito populares, e o pai costumava dizer que o próprio imperador tinha um. Ele nunca se cansava de nos dizer o quanto éramos afortunados. O seu pai fora um ferreiro pobre e morrera vítima da tuberculose antes 16


de nós termos nascido, ao passo que nós vivíamos num apartamento de seis assoalhadas em Viena, a cidade mais bonita e cosmopolita do mundo. As ruas de empedrado medieval e os edifícios da cor do marzipã eram mágicos, e as lojas suavemente iluminadas que vendiam música impressa em folhas soltas ou globos de cristal eram encantadas, mas eu ainda não o sabia. Era tão-somente o local onde vivia. Eu pensava que todas as outras grandes e pequenas cidades deviam ser semelhantes. Mas aquele dia foi diferente. Juntámo-nos às multidões que afluíam como água da chuva das ruelas estreitas para as largas avenidas e por fim para o Ring, a avenida que tinha sido construída apenas algumas décadas antes para substituir as antigas fortificações medievais. Rodeava a cidade antiga como um colar, passando pelo palácio do imperador, pelos edifícios do governo e pelo novo museu de arte. Todo o tipo de pessoas se dirigia para ver a procissão. As fábricas estavam fechadas. Era feriado para as escolas. Até mesmo os estudantes universitários tinham sido dispensados de ir às aulas. Carroças e carruagens que a multidão impedia de avançar entupiam as ruas, e os condutores faziam estalar os seus chicotes nas rodas das carruagens e gritavam às pessoas que andassem, mas ninguém parecia verdadeiramente zangado. Acorriam crianças às ruas com maçãs para os cavalos agitados. O dia estava brilhante e quente. À medida que nos íamos aproximando do Ring, as ruas sombrias onde o musgo crescia nos telhados davam lugar a avenidas despidas de árvores onde os monumentais edifícios de pedra tinham pouca sombra para nos oferecer. Eu ia sentindo o pavimento por baixo das solas das minhas botas. Pauline comentou que devíamos ter trazido guarda-sóis. Todas as senhoras os tinham trazido consigo. Ameaçavam decapitar qualquer um que estivesse por perto a cada passo que davam. — As meninas pequenas não andam de guarda-sol — repreendeu o nosso pai. — O que virá a seguir? Vestidos de noite compridos e namorados? — Agarrou-me com firmeza com uma mão e a minha irmã Helene com a outra, como se alguém nos pudesse levar se ele relaxasse o seu aperto por um momento que fosse. Se pudesse ter levado Pauline às costas, tenho a certeza de que o teria feito, mas como isso não era possível, ordenou-lhe que agarrasse a minha outra mão, o que tornou a navegação através das multidões uma valsa deveras complicada. 17


Pauline estava com ar de quem se preparava para lhe recordar que a Mãe tinha apenas dezassete anos quando casou, pouco mais velha do que ela era agora, mas sabia que não valia a pena e portanto, em vez disso, mordeu o lábio com força. Eu vi a gota de sangue da cor da cornalina no centro do seu lábio inferior. O Pai ficava tomado pela ansiedade perante a ideia de conduzir três raparigas em segurança ao casamento, e a sua solução parecia ser a de se negar completamente a ver que nós tínhamos crescido. Até Pauline tinha de usar uma gola alta de renda de menina, apesar de ter acabado de completar os dezassete anos. O desafio consistia em conseguirmos não nos coçarmos e não nos contorcermos desconfortavelmente. A Mãe dizia que era uma boa prática. Dizia que as golas de renda não eram nada comparadas com os espartilhos. Do outro lado da ópera, passámos por uma tenda de seda. Moviam-se sombras por detrás dela. Podíamos apenas adivinhar quem estava lá e o que estava a acontecer. A nobreza estava a reunir-se ali, sentados em almofadas de veludo e a comerem ostras. Os seus criados de libré enchiam os seus copos de cristal com cidra. As pessoas movimentavam-se por ali e aguardavam para ver quem iria descer das carruagens que não paravam de chegar. Observámos um homem magro com um monóculo e uma faixa de várias cores que escoltava uma mulher roliça de turbante até à tenda. Na multidão, os rapazes vendiam jornais comemorativos e confetes, os velhotes vendiam salsichas com mostarda doce e as velhotas vendiam rosas. O meu pai comprou quatro rosas vermelho-sangue a uma mulher de gorro dourado para nós lançarmos quando o imperador passasse. Algumas das pessoas que se encontravam à nossa volta seguravam buquês embrulhados em papel. A rua cheirava a carne frita e a esterco de cavalo. O número de pessoas que ali se encontravam ia crescendo, e as multidões moviam-se cada vez mais lentamente. Desejei ser ainda suficientemente pequena para o meu pai me colocar aos seus ombros. Eu era baixa para a idade que tinha e havia gente apinhada à minha frente e de ambos os lados. Não conseguia ver a avenida onde a procissão não tardaria a passar. — Não te preocupes — disse Pauline. — Quando chegarmos aos degraus, ficaremos bem altas. Então conseguiremos ver. Ao pé de mim, Helene estava a atormentar o seu pescoço através da gola de renda, e eu vi-lhe os arranhões vermelhos semelhantes a pinceladas de tinta sobre a sua pele. Toquei-lhe no braço; se o Pai visse, 18


O_Beijo