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Introdução

Como se sabe, Virgílio, pouco antes de morrer, encarregou os seus amigos de reduzirem a cinzas o inacabado manuscrito da Eneida, que sintetizava onze anos de nobre e delicado labor; Shakespeare nunca pensou reunir num só volume as inúmeras peças que compunham a sua obra; Kafka pediu a Max Brod que destruísse os romances e contos que lhe asseguravam a fama. A afinidade destes três episódios ilustres é, se não me engano, ilusória. Virgílio não podia ignorar que contava com a piedosa desobediência dos seus amigos; Kafka, com a de Brod. O caso de Shakespeare é diferente. De Quincey conjectura que para Shakespeare o reconhecimento consistia na representação e não na impressão; para ele o importante era o cenário. Para além disso, o homem que realmente quer o desaparecimento dos seus livros não delega a um outro essa tarefa. Kafka e 9


Virgílio não desejavam a sua destruição; eles apenas ansiavam desligar-se da responsabilidade que uma obra sempre nos impõe. Virgílio, creio, agiu por razões estéticas; teria querido modificar esta ou aquela cadência ou um ou outro epíteto. Mais complexo é, segundo me parece, o caso de Kafka. Todo o seu trabalho poderia ser definido como uma parábola ou uma série de parábolas cujo tema é a relação moral do indivíduo com a divindade e com o seu incompreensível universo. Apesar do seu ambiente contemporâneo, está menos próximo daquilo que se convencionou chamar literatura moderna do que do Livro de Job. Pressupõe uma consciência religiosa e, antes de mais, judaica; a sua imitação formal noutros contextos carece de sentido. Kafka encarava a sua obra como um acto de fé e não queria que ela desalentasse os homens. Foi por essa razão que encarregou o seu amigo de a destruir. Podemos ainda suspeitar de outros motivos. Kafka, sinceramente, só conseguia sonhar pesadelos e não ignorava que a realidade se encarrega, sem cessar, de os fornecer. Mesmo assim, tinha-se apercebido das possibilidades patéticas da postergação, que se notam em quase todos os seus livros. Ambas as coisas, tristezas e postergações, acabaram, sem dúvida, por cansá-lo. Teria preferido a redacção de páginas felizes e a sua honradez não condescendeu em elaborá-las. Nunca esquecerei a minha primeira leitura de Kafka numa certa publicação profissionalmente moderna de 1917. Os seus redactores 10


— que nem sempre careciam de talento — haviam-se dedicado a inventar a falta de pontuação, a falta de maiúsculas, a falta de rimas, a alarmante simulação de metáforas, o abuso de palavras compostas e outras tarefas próprias daquela juventude e, provavelmente, de todas as juventudes. Entre tanto estrépito impresso, uma narrativa que tinha a assinatura de Franz Kafka pareceu-me, apesar da minha docilidade de jovem leitor, inexplicavelmente insípida. Ao fim de todos estes anos, atrevo-me a confessar a minha imperdoável insensibilidade literária; passei diante da revelação e não dei por ela. Ninguém ignora que Kafka nunca deixou de se sentir misteriosamente culpado perante o seu pai, à maneira de Israel com o seu Deus; o seu judaísmo, que o afastava da generalidade dos homens, deve tê-lo afectado de uma maneira complexa. A consciência da morte próxima e a exaltação febril da tuberculose certamente agudizaram todas as suas faculdades. Estas observações são laterais; na realidade, como disse Whistler, «a arte acontece». Duas ideias — melhor dizendo, duas obsessões — regem a obra de Franz Kafka. A subordinação é a primeira das duas; o infinito, a segunda. Em quase todas as suas ficções há hierarquias e essas hierarquias são infinitas. Karl Rossmann, o herói do primeiro dos seus romances, é um pobre rapaz alemão que abre caminho num inextrincável continente; por fim, é admitido no Grande Teatro Natural de Oklahoma; esse teatro infinito não é menos 11


populoso que o mundo e prefigura o Paraíso. (Característica muito pessoal: nem sequer nessa figura do Céu os humanos acabam por ser felizes e há ligeiras e diversas demoras.) O herói do seu segundo romance, Josef K., progressivamente oprimido por um insensato processo, não consegue averiguar o delito de que o acusam, nem sequer enfrentar o invisível tribunal que deve julgá-lo; este, sem julgamento prévio, acaba por mandar degolá-lo. K., o herói do terceiro e último dos seus romances, é um agrimensor chamado a um castelo, onde não consegue penetrar e onde morre sem ser conhecido pelas autoridades que o governam. O motivo da infinita postergação rege também os seus contos. Um deles trata de uma mensagem imperial que nunca chega, devido às pessoas que atrasam o trajecto do mensageiro; outro, de um homem, que morre sem ter conseguido visitar uma aldeia vizinha; outro ainda de dois vizinhos, que não conseguem juntar-se. No mais memorável de todos eles — «Ao Construir a Muralha da China», de 1919 —, o infinito é múltiplo: para deter o avanço de exércitos infinitamente longínquos, um imperador infinitamente remoto, tanto no tempo como no espaço, ordena que gerações infinitas edifiquem infinitamente um muro infinito que dê a volta ao seu infinito império. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para a impressão perdurável bastam-lhe uns breves apontamentos. Por exemplo: «O animal arranca o chicote das mãos do dono e castiga-se para se conver12


ter no dono, sem compreender que isso não é mais do que uma ilusão produzida por um novo nó no chicote». Ou então: «No templo irrompem leopardos que bebem o vinho dos cálices; isto sucede repetidamente; por fim, consegue prever-se que acontecerá e integra-se na liturgia do templo». A elaboração, em Kafka, é menos admirável que a invenção. Homens, há apenas um em toda a sua obra: o homo domesticus — tão judeu e tão alemão —, desejoso de encontrar um lugar, nem que seja o mais humilde, numa qualquer ordem; no universo, num ministério, num asilo de lunáticos, na prisão. O argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia dos seus contos sobre os seus romances; daí o direito de afirmar que esta compilação de narrativas nos dá integralmente a medida de um tão singular escritor. Jorge Luis Borges

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O Abutre


O Abutre

Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas do abutre: «Mas se estou indefeso...», justifiquei-me. «Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade, até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados.» «Como pode permitir que o torturem dessa maneira», insistiu o senhor, «um tiro e acabou-se o abutre.» «Acha que sim?», per17


O Abutre

Era um abutre que não parava de me dar bicadas nos pés. Já me tinha rasgado as botas e as meias e começava agora a atacar-me os próprios pés. Investia sem parar, levantava voo, esvoaçava inquieto à minha volta, em círculos, e retomava o seu trabalho. Apareceu então um senhor que ficou a observar aquilo durante algum tempo, até que me perguntou porque é que eu suportava as investidas do abutre: «Mas se estou indefeso...», justifiquei-me. «Ele apareceu e quando começou com as bicadas é claro que o quis enxotar. Na verdade, até tentei estrangulá-lo, mas um bicho destes tem imensa força. E depois também já tentou saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar os pés, que agora já estão quase despedaçados.» «Como pode permitir que o torturem dessa maneira», insistiu o senhor, «um tiro e acabou-se o abutre.» «Acha que sim?», per17

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