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Eu sinto-a nos pés, à vida, no vaivém dos dias. São sete e meia e estou pronta. Dou um beijo à minha mãe e outro a Milla, roubo três bolachas da caixa e como-as na paragem. Três bolachas, nem uma a mais, nem uma a menos. A corrida do costume para arranjar um lugar no autocarro, uma conquista que dura poucos segundos. — Menina, deixa-me sentar? Doem-me as costas — o velhote do costume que tenta roubar-me o lugar. Dou uma olhadela à minha volta: ninguém se levanta, porque é que havia de ser eu a fazê-lo? Tentativa do costume de fazer como os outros, mas vence outra vez a diversidade: levanto-me e ofereço-lhe o meu lugar. E, é claro, até digo o «de nada» do costume. O liceu ainda não acordou: a campainha das oito e meia será o seu primeiro bocejo. Mas eu gosto mais desta escola assim, sem os gritos e as fitas das raparigas, sem as calças com a cintura baixa e as franjas perfeitinhas. Prefiro-a assim, silenciosa como um montão de cimento adormecido. Sento-me no muro do pátio, tiro a agenda da mochila, pego numa Bic azul, e começo a escrever. 11


Escrevo histórias de acordar, o que é estranho porque as histórias costumam ser para adormecer. Nunca ninguém pensou nisso: histórias de acordar, uma grande invenção, uma carga de energia, muito melhor do que os pães com cinco cereais... Não haveria tantas guerras se as pessoas acordassem com uma história. — E a receber o prémio Nobel da paz... ... Alice Saricca, no último ano de liceu, que é o melhor, dizem. Para mim é igual aos outros, talvez pior, porque temos muito para fazer, porque fingem todos que já são grandes, profissionais do sexo e das mentiras. Cheio de obrigações, porque temos os exames. Mas afinal sobrevive-se a tudo, ao sexo, às mentiras, aos exames... É a filosofia do «aguento». Pronto, está bem, aguenta-se, e depois o que é que se faz com as cicatrizes? Pois, porque estando ali, até se gosta de brincar com o fogo, mas cuidado que pode queimar. E eu não quero cicatrizes. A Carolina já me repetiu milhares de vezes: «Tu não voas porque tens medo de cair!» Não me apetece voar, nasci sem pára-quedas. — Mas, assim, nunca hás-de voar! — E explica-me que na vida é melhor ter más recordações do que remorsos. Eu acho que são melhores os remorsos, porque pode pensar-se neles, imaginar o fim de que mais se gosta, ao passo que, com as más recordações, o fim já existe. Mais vale uma história não resolvida, podemos agarrá-la com as mãos, apertá-la e mudar-lhe a forma como no «pongo». 12


Pois, é melhor assim, diminuo os riscos: nem sexo, nem mentiras. O fogo não foi feito para mim. São oito menos um quarto. Também chegou aquele rapaz. Levanta a cara, «olá» e senta-se nas escadas. Mete os auscultadores do walkman nos ouvidos e começa a levantar e a baixar a cabeça ao compasso das notas teimosas de uma guitarra eléctrica. Kurt Cobain, está sempre a ouvir o Kurt Cobain. Até tem uma camisola preta com Nirvana escrito em relevo, que deve ter comprado num dos concertos. Em teoria, não o conheço; na prática, sei tudo sobre ele: Giorgio Battaglia, décimo segundo B, pele morena, olhos cor de peixe, cabelo preto, meio despenteado, e barbicha. É um daqueles que, quando passa, as pessoas viram-se, parece vir de outro planeta, é um daqueles que está sempre na dele... e não percebo porque é que olha assim para mim. Tira um maço de Marlboro do bolso e, durante uns segundos, acho bem que se fume: se ele fuma, é porque é bom. Às oito e vinte também chega a namorada dele. O que é que andam a fazer juntos? Ela tem a boca amuada e os olhos azuis, mas parados, que não vão longe; tem olhos que ficam à superfície, os olhos dele são outra coisa... Ele dá-lhe um beijo e, se ela lhe pedir outro, ele responde: «Um chega...» e olha para mim. E eu sinto-me uma intrusa entre eles, mesmo que entre ele e eu não haja nada: nem nos conhecemos. 13


Não devia, mas sinto-me intrusa na mesma, porque ele me coloca entre eles com os seus olhos de peixe. A escola manda o primeiro bocejo do dia: ponho a agenda e a caneta na mochila e vou em direcção à entrada. Sento-me onde calha: não tenho vizinho fixo, não gosto de me ligar. Por isso tenho poucos amigos, poucos mas verdadeiros, daqueles em que se pode confiar. Em primeiro lugar, a Carolina. Conhecemo-nos há oito anos e sei que, se lhe contar um segredo, a língua dela não se mexe e não lhe sai da boca. É um ano mais velha do que eu e estuda psicologia na Sapienza, quer salvar a cabeça das pessoas, ora eu penso que cada um deve salvar-se sozinho. As pessoas ficam de olhos arregalados quando nos vêem juntas porque eu e a Carolina somos diferentes em tudo, desde a marca de sapatos ao amaciador para o cabelo. Porque eu tenho pés de chumbo e ela não. Porque ela é corajosa e eu não. Carolina é mesmo descarada: quando descobriu que Marco, o seu namorado, andava com outra, foi falar com ela e percebeu que ela não sabia que o Marco já tinha namorada. Tinham sido enganadas as duas. Foi então que a Carolina teve uma ideia. Foram as duas juntas ter com Marco e disseram-lhe que estavam grávidas. — E agora, o que vais fazer? — A primeira coisa que fez foi desmaiar, depois acordou, percebeu a piada, sentiu-se nojento e pediu desculpa. — És um génio do mal — disse-lhe eu quando me contou a história. 14


— Eu sei, obrigada — disse ela, satisfeita. Mas, às vezes, muitas vezes, Carolina ainda pensa no Marco. E de vez em quando, ele liga-lhe, encontram-se, lá lhes escapa um beijo ou outra coisa, chateiam-se e ela volta a dizer para si mesma: «É um cabrão!» É um cabrão mas ela ama-o! E eu não percebo: que sentido tem amar uma pessoa assim? Mas é mesmo assim: o amor é assim, não se sabe que direcção segue, e de vez em quando aparece uma personagem nova e complica-se tudo. — Chega, Caro, qual é o interesse de gostar de uma pessoa como o Marco? É um filho da puta! — Mudou imenso, juro! Mas depois descobre-se que aquele imenso é pouquíssimo e que o Marco é sempre o mesmo. Acabou-se, chega, é a última vez que se encontram. Eu finjo que acredito, mas já sei que não será a última vez, que ainda há-de haver outra e outra... Carolina é feita assim: escuta as ordens do coração e obedece. Eu não, eu controlo-me toda. E de cada vez que tenho de tomar uma decisão, faço uma reunião de condomínio: coração, cabeça, corpo e alma encontram-se e decidem. Costumo dar mais poder à cabeça: parece-me que é a que tem as melhores ideias. Andrea senta-se ao pé de mim. Cabelo no ar, tipo Beckham, calças rasgadas da Cavalli, T-shirt de grande marca cor-de-rosa, o melhor que se usa nos bairros «bem», sapatos vela da Prada, óculos de sol tipo mosca. 15


Tem o nariz à francesa, mais falso do que as notas do Monopólio; foi o pai que lho fez, é cirurgião plástico. Andrea não se sente bem se não suar dinheiro, o dinheiro do pai, se não for tomar um aperitivo todas as noites, se não se chatear com os colegas alternativos da escola. — O velho também te roubou o lugar hoje? Faço sinal que sim com a cabeça. — Cá por mim, é de propósito, não tem dores de costas nenhumas... Andrea não confia em ninguém, diz que, no fundo, somos todos vigaristas. E, com pessoas como eu, é mesmo verdade. Carlo chega atrasado como sempre. — Carlo Rossi, tem séculos de atraso! — diz-lhe o professor. Ele faz uma cara estranha e vai sentar-se. As expressões fisionómicas de Carlo são incríveis, são caras de pessoa que não te quer enganar, de pessoa que não mente: nem autocarro atrasado, nem chave de casa perdida, nem acidente na Colombo, nem despertador avariado. Uma vez até disse: — Desculpe o atraso, é que estava na cama. — Carlo é assim, transparente como um copo de água, daquela que tem bolinhas, que faz cócegas na garganta. Não é como a Ludovica... Se a Ludovica chegar atrasada, inventa histórias, cada uma mais absurda do que a outra: uma vez, houve um acidente enquanto ela estava no autocarro e teve de sair para ajudar, porque ela tem um diploma da Cruz Vermelha; outra vez, param-na à frente de casa dela para uma entrevista, uma entrevista sobre o quê? Não se sabe. 16


Eu só estou à espera de que, um dia, a Ludovica passe aquela porta a dizer: «Desculpe, senhor professor, mas hoje foi o julgamento universal...» ou uma coisa do género. E tenho a certeza de que vão todos acreditar, porque ela mente de maneira tão convincente que não se pode não acreditar. Carlo vira-se e olha para mim. Tem as mãos a suar, cola-as na capa do livro de grego, tenta dizer um «o-olá», olha para a folha branca e vira-se para o outro lado. Tem certas dificuldades com a velocidade, é o que lhe faz mexer a língua muito depressa e não conseguir acabar as frases. Andrea diz do Carlo: — Aquele até faz espuma a olhar para ti. Levanto os ombros. — Pois, e a ti, o que é que interessa, é um coitado... Mexo-me ligeiramente para o lado com a cadeira, olho para a cara de Carlo. E queria dizer ao Andrea que o Carlo me interessa, que se tirasse aqueles óculos, se arranjasse o cabelo e se se vestisse melhor, ficava um borracho. Mas será que também eu tenho dificuldades, será que não gosto de me expor? Então olho para Andrea e digo: — Pois... Que grande resposta: «Pois...»! Não podias ter arranjado qualquer coisa melhor, Alice? Ricci, o professor de latim e de grego, dá-nos uma tradução de quarenta linhas para o dia seguinte. Arrumo os livros na mochila e avanço para a saída do liceu. Tiro o telefone do bolso de baixo e mando uma mensagem à Caro: Hoje não posso ir ao cinema. Tenho uns quilómetros de tradução para fazer. Cumprimenta o Brad Pitt. 17


No ecrã aparece um envelope: Mensagem enviada. Continuo a andar para casa e vejo-o ao lado das campainhas, em frente da porta de minha casa. É o Giorgio com a T-shirt dos Nirvana e os auscultadores nos ouvidos. E durante uns segundos penso: veio para me ver! Mas convenço-me imediatamente de que é impossível, que está ali por acaso e que é inútil criar expectativas. O telefonema de Carolina chega mesmo ali em frente da porta de casa, exactamente quando se encontram os nossos olhos. Do telefone jorra um samba. Mas o volume está tão alto que aquele toque parece um apito para chamar os golfinhos. Giorgio olha para mim e sorri. — És surda? E eu gostaria de lhe explicar que o ponho a tocar assim tão alto porque, se a minha mãe ligar e eu não ouvir, ela fica preocupada. Mas não explico nada, fico a olhar para ele e mais nada. Entretanto Carolina continua a piscar no ecrã do telemóvel. — Então, não respondes? Não, fico a olhar para ele e mais nada, vítima de uma bruxaria. — Dá cá isso! — E tira-me o telefone da mão. — Estou? — Estou? Quem fala? — pergunta Carolina. Estico o braço, tento reagir e controlar a situação. — Dá-me o telefone. Mas ele põe o dedo à frente da boca, para dizer «Chh... não te preocupes, eu trato disto» e pisca o olho. 18


— É o Giorgio, querias falar com a Alice? Disse «Alice»! Percebo que ele sabe como me chamo e que não está ali por acaso. — E tu quem és? — pergunta a Carolina, que nas situações estranhas se safa sempre optimamente. — Roubaste-lhe o telefone? — Não, não, a Alice está aqui mesmo à minha frente. — Então diz-lhe que não há nada a fazer... passo em casa dela às quatro e vamos ao cinema. Ele olha para mim, tapa o telefone com a mão e diz-me: — Vem-te buscar na mesma, estás lixada! — Diz-lhe que não posso! Se amanhã me chamam para a tradução, o que é que digo à Ricci? Falo-lhe do Brad Pitt? Giorgio tira a mão do telefone. — Não, a Alice não pode. Hoje sai comigo. Carolina insiste: — A desculpa da tradução desta vez não pega. — Pois não, realmente é porque hoje vai sair comigo. Eu arregalo os olhos e sorrio. Mas a Carolina quer perceber: — Mas quem és tu? És o tipo estranho que anda na turma dela? Fico branca e penso que a Carolina não podia arranjar pior momento para falar de Carlo. Por sorte, Giorgio não percebe e continua a falar. — Não, não sou da turma dela. Mesmo assim, hoje a Alice sai comigo. — E desliga. Giorgio devolve-me o telefone, eu sorrio. — Safas-te muito bem com mentiras — digo-lhe eu. — Que mentiras? Venho buscar-te às quatro. 19


Pega na mochila e vai-se embora. Pego também eu na minha mochila e entro no prédio. O telefone ainda está quente, coberto da sua respiração. Mando uma mensagem à Carolina: Tenho de fazer uns quilómetros de tradução e depois vou sair com um rapaz giríssimo...

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Quantas_Estrelas_Tem_O_Céu  

O liceu ainda não acordou: a campainha das oito e meia será o seu primeiro bocejo. Mas eu gosto mais desta escola assim, sem os gritos e as...

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