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PRÓLOGO

Oh, mas é verdade... Não é necessário que as coisas aconteçam para serem verdade. Os contos e os sonhos são as verdades-sombras que permanecerão quando os meros factos se tornarem pó e cinzas e forem esquecidos. NEIL GAIMAN, A Midsummer Night’s Dream


Do diário pessoal de William Townshend, médico, a bordo do navio de Sua Majestade, Berkeley. 17 de Agosto de 1794 O simples facto de ser capaz de escrever estas palavras é para mim uma enorme surpresa: se me tivessem perguntado há apenas doze horas se eu acreditava que iria sobreviver e ver uma nova aurora, a minha resposta teria sido claramente negativa. No entanto, aqui estou eu, vivo e, pelo menos em grande parte, intacto. A noite que ora passou foi, deveras, a mais aterrorizadora que alguma vez vivi e, mais do que uma vez, ofereci as minhas preces ao Senhor Todo-Poderoso, com a forte convicção de que as minhas horas nesta terra tinham chegado ao seu fim. O navio deu à costa num local desconhecido para a tripulação e para o capitão, no entanto estamos a umas cem léguas ou mais a sul de Port Jackson. Espero que este local não seja indicativo do verdadeiro temperamento desta terra, visto ser em absoluto miserável; frio e ventos extremos, com pouco para oferecer em termos de consolo ou socorro após a nossa longa viagem. Mais tarde Estou a escrever estas linhas várias horas mais tarde, com o desejo de registar uma visão assaz perturbadora e curiosa que eu e vários outros testemunhámos. Tendo os mares acalmado um pouco, o capitão e um grupo de mais ou menos uma dúzia de homens, incluindo o repulsivo Colvey, que parece tornar-se mais repugnante a cada dia que passa, dirigiram-se para terra firme no escaler. Acompanhei-os a convite do capitão, que continua a tratar-me como 13


um cavalheiro, embora eu tenha detectado na sua oferta para «deixar-me ver o temperamento do meu novo lar», uma nota de malícia. O mar, embora com menos ondas, estava longe de se apresentar calmo e foi com grande dificuldade que o barco alcançou terra; ficámos todos encharcados até aos ossos quando chegámos a terra firme e o vento, que parecia soprar directamente das terras geladas do Antárctico, penetrava-nos até à medula. Uma vez em terra, porém, os meus pensamentos não se detiveram no meu desconforto físico. Não, pois foi um prazer deveras singular pôr os pé em terra seca novamente depois de tantos meses de mares agitados, e o simples facto de estar em terra foi mais que suficiente para me distrair do vento e da minha roupa encharcada. Mais uma vez, passei por aquele mesmo fenómeno que experimentara na Cidade do Cabo, onde a terra sólida assumira a sensação do oceano, parecendo ondular-se e mover-se debaixo dos nossos pés. Mas estou a divagar. Uma vez em terra, todos nós corremos e cabriolámos como crianças, tão agradável era a sensação de estarmos novamente em terra firme. Até mesmo o austero capitão Bell não conseguiu resistir a um sorriso e a alguns passos rápidos. A paisagem em si é nua e miserável ao extremo, a areia da praia invade as encostas baixas, cobertas por uma mancha sombria de ervas e arbustos rasteiros. Em pouco tempo, porém, os jogos dos homens levaram-nos até à primeira elevação, mas, quando chegaram ao cume, os seus risos e gritos de alegria estancaram subitamente. Este silêncio súbito chamou-me a atenção a mim e ao capitão Bell e, olhando para cima, vimos os homens, sem proferirem palavra, reunidos no topo da colina, a olharem fixamente, em silêncio, para o que ficava do outro lado. Durante algum tempo, não aconteceu mais nada; eu e o capitão ficámos parados de pé, a olhar para os homens que estavam a observar fosse lá o que fosse que tivessem visto. Até que um deles, o repugnante Colvey ou talvez o jovem Berridge, nos chamou e fez um gesto para que nos juntássemos a eles. Estugámos o passo, tomados por um sentido de urgência, e, ao chegarmos ao topo da colina, fomos saudados pela visão que me levou a fazer este registo: um navio, muito danificado pela força da natureza e pela passagem do tempo, mas que era, ainda assim, um navio; e até mesmo para um olhar tão destreinado nestes assuntos como o meu, era um navio bastante antigo. Ao descermos até onde se encontrava, houve muita discussão entre o capitão e os mais inteligentes dos nossos homens, e percebi que acreditavam tratar-se de um navio português ou espanhol, tendo a sua construção de mogno 14


avermelhado confirmado a sua origem ibérica; porém, e esta é a fonte do meu espanto, tratava-se de um modelo que não se via há mais de duzentos anos. A descoberta do navio foi fonte de grande entusiasmo entre os homens, que treparam pelos destroços com a intenção clara de descobrirem alguma coisa de valor para si próprios. Facilmente se encontraram muitos pequenos objectos espalhados na areia e entre os restos do navio, mas também se fizeram outras descobertas mais sombrias. Na popa descobrimos as ossadas de diversos homens. Digo que eram ossadas de homens, embora duvide que um olhar menos perito do que o meu tivesse sabido isso com toda a certeza, uma vez que deviam estar ali há muito e tinham sido revolvidas por bestas ou saqueadas por selvagens e espalhadas por aqueles tristes compartimentos. Na proa, havia restos carbonizados e provas de uma tentativa malsucedida de incendiar o navio. A descoberta dos restos mortais, juntamente com as provas de uma tentativa de destruição do navio, fizeram com que o estado de espírito dos homens se alterasse e crescesse uma preocupação relativamente à possibilidade de um confronto com os nativos. O capitão Bell colocou Berridge de guarda, com uma espingarda, e permitiu que os seus homens continuassem as buscas durante mais ou menos meia hora. Nessa altura, numerosas relíquias pequenas, garrafas, moedas e um punho de uma faca requintadamente esculpido, aparentemente de origem tamil, tinham sido encontrados, juntamente com os restos de instrumentos de navegação, muito corroídos, e uma caixa de madeira estreita que continha diversos papéis, muito danificados pela água, mas ainda legíveis em certas partes. Nesses papéis, encontrámos um nome, Cueva, e uma data em que, ainda agora, tenho dificuldade em acreditar, concretamente, 1519. Finda esta meia hora, o capitão procurou o meu conselho, o que encarei como um sinal da sua confiança e do seu respeito crescentes pela minha pessoa e pelo meu posto. Confidenciou-me a sua opinião de que o navio era ibérico e que teria mais de duzentos anos, uma opinião que eu tive dificuldade em contrariar. Porém, não foi por este motivo que me pediu a opinião. Pelo contrário, ele estava preocupado, sendo um homem de artimanhas estratégicas, com as implicações da presença deste navio em Nova Gales do Sul. Uma vez que, se os marinheiros portugueses tivessem estado nesta terra mais de duzentos anos antes do Sr. Cook, então a pretensão do nosso Rei a esta terra poderia ser posta em causa. 15


Reflectindo sobre o assunto, partilhei desta preocupação do capitão e, após breve discussão, aconselhámos os homens a não deixarem transpirar uma única palavra acerca do que tinham visto. De modo a prevenir os seus inevitáveis protestos, o capitão concedeu-lhes os pequenos tesouros que tinham encontrado, na condição de que cada um deles ocultasse com dissimulação, caso fosse interrogado, a proveniência dos ditos objectos. O capitão tomou posse dos papéis e ofertou-me o sino e várias moedas. Quando estávamos de partida, tomei a liberdade de soltar uma lasca da madeira encarnada do navio com a minha faca, escondendo-a na minha pessoa quando voltávamos para o escaler. Ao regressarmos ao navio, os homens mantiveram-se, como lhes competia, em silêncio, e eu tenho a certeza, tanto quanto podemos ter certezas relativamente a pessoas deste tipo, de que compreendiam a importância do seu silêncio. Esta nossa descoberta tem de permanecer em segredo, trancada a sete chaves, tal como este diário.

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Destroços  

Oh, mas é verdade... Não é necessário que as coisas aconteçam para serem verdade. Os contos e os sonhos são as verdades-sombras que permanec...

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