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JUNIA No dia 31 de Maio de 1483, pelo fim da manhã, soube-se em Lisboa que D. Fernando, duque de Bragança, fora preso em Évora na antevéspera. Acusado de crime de traição, dizia-se. Abel Troncha soube-o no Rossio, onde estava com a sua hortaliça e fruta. Pensou em voltar para casa sem acabar de fazer a venda, mas era melhor não dar nas vistas, e mostrar pressa já seria notado. Se bem que a notícia não o afectasse só a ele, compradores e vendedores olhavam-se, muitos se apressavam a despachar a venda e as compras. Mesmo assim, Abel não se apressou. Mercadejou como sempre fazia, e só quando esvaziou o último cabaz virou costas a caminho de casa. Para levar o maldito recado. A mulher que o desse depois a Dona Junia, que recado daquele era para mulher dar a mulher. Elvira percebeu de imediato que qualquer coisa se passara, e nada de bom. Não espantava, nos últimos tempos só o pior se temia. — Avisa Dona Junia que prenderam o duque — disse-lhe Abel, e ela nem perguntou mais, saiu de casa, atravessou a correr a horta, passou a pequena porta que dava para o jardim de Junia, e chamou. Apareceu a velha Silvina. «Dona Junia está no quarto da varanda», disse, e Elvira não devia trazer nada que não soubessem. — Do duque? — Já sabemos. E bem cedo nos veio a nova, para nossos pecados. O Barba bateu-nos à porta pelas duas da madrugada. — Podia ter esperado, que para má notícia não há pressa. — Não veio só por isso, trouxe coisa que confiou à Dona Junia para ela guardar. Contanto que não a coloque em perigo a ela, foi o que eu lhe disse. — E ela? 9


— Nem me ouviu, se era coisa que podia colocar em perigo a Sua Senhoria, já se sabe que a guardaria mesmo que a colocasse em perigo a ela. Brites Manhoa costumava estar cedo a par dos acontecimentos. Necessitava-o como mercadora que era, mas também porque gostava de ser informada e de saber o que se passava. Do grande e do pequeno. Curiosamente, porém, naquele dia as notícias da rua chegaram-lhe tarde, a manhã já ia adiantada quando lhe vieram com a nova da prisão do duque. «Junia», pensou de imediato. «Meu Deus, Junia.» Avisou a sua gente que tinha de se ausentar, de ir aos arredores falar com um comprador. Que lhe arreassem a mula. O animal já ontem fizera caminho, resmungou o moço da cavalariça. Pois então, hoje faria outra caminhada, só lhe fazia bem. As ruas estavam cheias de gente, carros, cavalgaduras — havia dias assim, mais movimentados do que outros, sabia-se lá porquê — Brites demorou uma boa hora de sua casa à de Junia, fora de portas, e ao chegar hesitou em entrar, o coração apertado à ideia do que iria encontrar. — Dona Junia está no quarto da varanda — informou-a Silvina. Aberta de um dos lados, com colunas apoiando o telhado em espaços regulares, era mais depressa uma grande sala do que uma varanda. Obra do duque para Junia poder gozar da vista que daquele alto se abrangia: por cima de campos, pomares e jardins até às portas de Santo Antão. «Bem pode Sua Senhoria dar-te varanda com vista, já que te tem aqui presa, mais fechada que monja em mosteiro», dissera-lhe Brites uma vez. Havia monjas com vocação para mosteiro, retorquira Junia rindo. Que Brites não se preocupasse com a solidão dela, era solidão bem acompanhada. Não tanto como gostaria, era verdade, mas não se queixava. Junia estava sentada junto de uma das colunas, virou-se a ver quem entrava, e Brites, a quem a palavra não costumava faltar, ficou por momentos sem fala. Não saberia dizer o que pensava encontrar, choros, talvez. Antes fosse. — Sua Alteza vai reconsiderar, Junia. Ninguém acredita que não liberte Sua Senhoria. 10


— Não liberta, Brites. A um homem como o Duque não se prende para o libertar. Não podia saber que o mesmo dissera o duque, quando, horas antes, Ayres da Silva, ao prendê-lo, o pretendera sossegar, que a prisão não se alongaria, que em breve seria libertado. «A um homem como eu, não se prende para o soltar», retorquira o duque. Tinham-no avisado de que corria perigo, que não acreditasse em palavras conciliadoras, que fugisse enquanto era tempo. Fugir de quê? De que crimes? Se fugisse é que nunca se livraria da fama. Até o velho Libânio lhe pedira prudência havia dias, antes de ele sair de Portel para Évora. — Cuidado, meu Senhor. Com lágrimas nos olhos, mas era homem de lágrima fácil. Não acreditava que as coisas fossem levadas ao extremo, assustá-lo-iam, isso sim, e de todos os modos. Até certo ponto já o tinham conseguido, não tanto, contudo, que o fizessem fugir. Inquietado um pouco, sem dúvida. Antes de partir de Portel, subira à torre do castelo, olhara a vista que dali se abrangia — o dia mal nascera, ainda havia sombras sobre algumas terras — e pensara que talvez nunca mais visse dali o nascer do sol. Mas depressa sacudira a impressão. Quando o viu, el-rei fez-lhe sinal que se sentasse enquanto acabava de despachar. Que já vinha, dissera pouco depois, deixando-o com Antão de Faria. Em seguida mandou Ayres da Silva com o recado: «Que Sua Senhoria se deixasse ali ficar por um tempo, havia consultas que lhe queriam fazer.» — Cobarde, que me prende e não tem coragem de mo dizer na cara — pensara D. Fernando. Lembrou-se de Viriato que mandara selar antes de se vir despedir do rei. Quando fosse chamado daquele mundo para o outro, de duas coisas sentiria a falta: de Viriato e de Junia. Um cavalo, uma mulher. «Perdoas-me, Junia, de aliar o teu nome ao dele? Perdoas com certeza, porque és assim feita, toda indulgência, toda bondade, toda ternura.» Com os olhos da alma viu Junia no seu jardim. Bela como nenhuma, cuidando das suas flores, falando com elas. Arranjando-as em cestas e vasos com as suas mãos de fada. Um tesouro escondido, aquele. Sentiu um picotar nos olhos. Lágrimas, ele? 11


— Sua Alteza decerto em breve mandará soltar Vossa Senhoria — sossegou-o Ayres da Silva. — Não solta, a homem como eu não se prende para o mandar soltar. Brites sabia que assim era, só quem não conhecesse Sua Alteza acreditaria que libertaria o cunhado e primo. E também não o guardaria preso por muito tempo. O que podia ela dizer que Junia não soubesse? — Que razão deu Sua Alteza para a prisão, sabe-se? — perguntou. — Traição. Que meu senhor comunicou de traição com a rainha de Castela. Não sabia mais, o Barba, que trouxera a notícia e estava com pressa, pouco mais adiantara. E pouco mais devia saber. Coisa inventada por Sua Alteza não podia deixar de ser. — Com o ódio que tem a meu senhor. — O duque esperava coisa desta? — perguntou Brites. Junia pensava que não. Era verdade que D. Fernando sabia, quem não sabia, que Sua Alteza não ia com ele. Era coisa velha, que fora de mal a pior depois da morte d’el-rei D. Afonso. D. Fernando já sentira esse malquerer nas suas terras, mas não receava mais, dizia ele, que não fosse a continuação das maldades, a contradição em tudo que ele dissesse e a oposição ao que propusesse. Recomendara cuidado aos amigos e irmãos, que por nada provocassem a ira d’el-rei. Fora ouvido, dissera-lhe ele, mas receava-se do senhor marquês de Montemor. Àquele seu irmão era o mesmo que falar para o vento, dizia Sua Senhoria — pouco siso e maus humores, as duas coisas juntas, são coisa perigosa e com este rei mais do que com qualquer outro. — Mas fala-se que houve certas questões graves entre D. Fernando e el-rei — lembrou Brites. — Consta que sim, que as houve, mas a coisa passou, e meu senhor até se espantava da bonomia de el-rei para com ele nos últimos tempos. Disse-mo por várias vezes. A rir, «desconfio que tanta boa vontade e tanta cortesia trazem água no bico», dizia. Que da parte daquela peça, muita cortesia dava para desconfiar. «Para melhor o caçar», pensou Brites. E o matar em seguida. E Junia ali ficaria, só, sem protecção. 12


— Que vais fazer? — perguntou. Pergunta néscia, que podia Junia fazer? Porque não era mulher do duque não o podia acompanhar, consolar, como ninguém melhor que ela o podia fazer. Não era a pobre duquesa, tão mal amada, que o poderia. Junia parecia ter-lhe adivinhado os pensamentos, — Que posso fazer? Nada — disse. «É o destino de mulheres como nós», pensou Brites. Apesar do seu caso não ser o mesmo, ela fora casada com Lopo Ponce. Só depois da mulher dele morrer, era verdade, mas tinham casado. Dom Lopo insistira. Mais pelo filho. Não precisavam de papéis nem de igreja, eles dois. Mas Martim precisava. Brites sentou-se junto de Junia, sem palavras, o que esta requeria não era conversa, era a presença de alguém como ela. Junia contara-lhe que o duque chamava sua àquela varanda: «o meu quarto na tua casa», dizia-lhe ele. E ornara-lhe a parede com uma rica tapeçaria. Belas tapeçarias eram um dos seus vícios, confessava ele. Para aquele quarto encomendara uma tapeçaria de flores. Flores e árvores. Era a última coisa que de momento se produzia em França, dissera, e que mais adequado para Junia do que um pano semeado de flores para lhe ornar as paredes? «Foi provavelmente Martim quem tratou desta encomenda», pensou Brites ao ver agora a tapeçaria. O filho de Brites ocupava-se de compras do duque em França e na Flandres, e ela perguntara-se por mais de uma vez, se isso queria dizer que Martim ultrapassara o seu sentimento por Junia. Tinha de ser, os anos já deviam ter apagado aquele amor, e era bom que assim fosse. Mesmo que o duque morresse — e quem duvidava que isso sucederia? — Junia não cairia tão cedo nos braços de outro. Se é que alguma vez o faria. Amor como aquele não se apagava com a morte. Brites não tinha ilusões, não seria agora que haveria fim feliz para o que ela há anos não admitia e que agora, apesar de tudo o que se passara, aceitaria se isso tornasse Martim feliz. «E o pior», pensou, «é que sem mim nada disto teria acontecido.»

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Junia_Ou_Justiça_de_Trajano