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Louisa May Alcott

Mulherzinhas O famoso clássico que conta a história da família March!

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www.oficinadolivro.pt © 2011, Oficina do Livro, Sociedade Editorial, Lda. uma empresa do grupo LeYa Rua Cidade de Córdova, 2 2610-038 Alfragide Tel.: 210 417 410, Fax: 214 717 737 E-mail: info@oficinadolivro.leya.com Título original: Little Women Tradução: Dina Antunes Revisão: Oficina do Livro Paginação: PAGELAYOUT Capa: Maria Manuel Lacerda / Oficina do Livro, sobre ilustração de Sonja Danowski / Illustopia.com Impressão e acabamento: Rolo & Filhos II, S.A. – Indústrias Gráficas 1.ª edição: Novembro de 2011 2.ª edição: Fevereiro de 2012 ISBN: 978-989-555-821-6 Depósito legal: 339 392/12


CAPÍTULO UM

BRINCAR AO PEREGRINO — Este Natal sem presentes nem vai parecer Natal — resmungou Jo, estendida ao comprido sobre o tapete. — É tão horrível ser pobre! — suspirou Meg, olhando para o seu vestido já gasto. — Não acho justo umas raparigas terem muitas coisas bonitas e outras não terem nada — acrescentou a pequena Amy, com uma expressão magoada. — De qualquer maneira, temos o pai e a mãe e temo-nos umas às outras — contrapôs Beth, com satisfação, do canto onde se encontrava sentada. Os quatro jovens rostos nos quais se refletia o brilho da lareira iluminaram-se ao escutar estas palavras animadoras, mas voltaram a entristecer-se quando Jo disse pesarosamente: — Não temos o pai perto de nós e não voltaremos a vê-lo tão cedo. Não acrescentou «e talvez nunca mais o vejamos», mas cada uma completou a frase em silêncio, pensando no pai lá bem longe, onde grassava a guerra. Ficaram todas em silêncio por instantes, mas, logo em seguida, Meg disse com uma voz comovida:

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— Sabem muito bem que a mãe nos propôs que este ano passássemos sem prendas de Natal porque o inverno vai ser muito duro, e ela acredita que não devemos gastar dinheiro em coisas fúteis quando os nossos homens estão a sofrer tanto na guerra. Não podemos fazer grande coisa, mas podemos fazer pequenos sacrifícios com uma cara alegre. Embora eu não acredite ser capaz. — E Meg abanou a cabeça, lembrando-se de todas as coisas bonitas que desejava. — Não sei como pode ajudar o pouco que íamos gastar. Cada uma de nós tem um dólar, e essa quantia pouco interessa ao Exército. Concordo que não devemos pedir nada à mãe, nem umas às outras, mas eu gostava de comprar o Undine e Sintram. Há tanto tempo que desejo lê-lo — disse Jo, que adorava livros. — Planeio gastar o meu dólar em música — revelou Beth com um pequeno suspiro que ninguém escutou, à exceção da vassoura das cinzas e da pega da chaleira. — Eu vou comprar uma caixa de lápis. Fazem-me muita falta — declarou Amy, decididamente. — A mãe nada disse sobre o nosso dinheiro e não haveria de querer que desistíssemos de tudo. Proponho que cada uma de nós compre aquilo que desejar e se divirta um pouco. O dinheiro bem nos custa a ganhar — exclamou Jo, examinando os saltos dos sapatos. — Eu que o diga! Passo o dia a ensinar aquelas crianças maçadoras, quando preferia ficar em casa a divertir-me — declarou Meg num tom lamentoso. — Não te cansas tanto quanto eu — argumentou Jo. — Queria ver se aguentavas ficar o dia todo com uma

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senhora de idade nervosa e rabugenta, que não te deixa parar um segundo, nunca está satisfeita e te aborrece ao ponto de te apetecer saltar pela janela ou gritar. — Não é bonito lamentarmo-nos, mas acredito que lavar pratos e tratar da casa é o trabalho mais enfadonho do mundo. Irrita-me e deixa-me as mãos tão ásperas que depois não consigo tocar piano. — E Beth observou as mãos com um suspiro que todas conseguiram ouvir. — Não acredito que alguma de vocês sofra tanto como eu — exclamou Amy. — Não têm de ir à escola com raparigas insolentes que nos atormentam quando não sabemos a lição, que troçam dos nossos vestidos, rotulam o nosso pai com nomes desagradáveis por ele não ser rico e ainda nos insultam por não termos um nariz bonito. — Se queres dizer que o difamam, concordo, mas só podiam rotular o nosso pai se ele fosse um frasco de conserva — comentou Jo com uma gargalhada. — Eu sei bem o que quero dizer. Não é preciso seres sarcástica. Fica bem empregarmos palavras diferentes e aperfeiçoarmos o nosso vocabulário — contrapôs Amy com uma expressão régia. — Não discutam, meninas! Não gostavas de voltar a ter o dinheiro que o pai perdeu quando éramos miúdas, Jo? Meu Deus! Como seríamos felizes e bem-educadas se não tivéssemos preocupações! — declarou Meg, que se recordava de tempos mais favoráveis. — Disseste no outro dia que éramos bem mais felizes do que os filhos dos King, porque eles, apesar de serem ricos, passavam a vida a discutir.

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— E é verdade, Beth. Apesar de termos de trabalhar, sabemos divertir-nos, e formamos uma pandilha gira, como diria a Jo. — A Jo fala de um modo tão vulgar! — comentou Amy, observando com um olhar reprovador a figura da irmã estendida no tapete. Esta levantou-se de um pulo e, metendo as mãos nos bolsos, começou a assobiar. — Não assobies, Jo! Isso é próprio dos rapazes. — É por isso mesmo que o faço. — Não gosto nada de raparigas mal-educadas e pouco femininas. — E eu detesto as afetadas e presunçosas. — «Os passarinhos nos seus ninhos não discutem» — cantarolou Beth, a apaziguadora, com uma expressão de tal modo divertida que as irmãs desataram a rir e a disputa terminou por ali. — Com franqueza, meninas, deviam ser ambas castigadas — ralhou Meg, dando início a um sermão ao estilo de irmã mais velha. — Já tens idade suficiente para deixares esses modos arrapazados e te portares melhor, Josephine. Não tinham tanta importância quando eras mais nova, mas agora que já estás tão crescida e usas o cabelo apanhado, devias lembrar-te de que és uma senhora. — Não sou nada! E se é o cabelo apanhado que faz de mim uma senhora, usarei tranças até aos vinte anos — reclamou Jo, puxando pela rede que lhe segurava o cabelo e abanando a sua abundante cabeleira castanha. — Nem quero pensar que tenho de crescer, ser uma Menina March, usar vestidos compridos e ser empertigada como

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uma flor, quando prefiro os jogos dos rapazes, o trabalho e os seus modos descontraídos. Não me conformo com o facto de não ser rapaz, e muito mais agora, que gostava de lutar ao lado do nosso pai e tenho de ficar em casa a tricotar como uma velhinha preguiçosa! — E Jo agitou a meia azul até as agulhas chocalharem como castanholas e a bola de lã saltitar pelo chão. — Pobre Jo! É uma pena que assim seja, mas não há nada a fazer, por isso terás de te contentar em dar uma forma arrapazada ao teu nome e fingir que és nosso irmão — disse Beth, afagando a cabeça encostada ao seu joelho com uma mão que nem todos os pratos e vassouras do mundo poderiam tornar indelicada no toque. — Quanto a ti, Amy — continuou Meg —, és demasiado afetada. Os teus modos são engraçados agora, mas, se não te corrigires, corres o risco de ficar ridícula. Aprecio as tuas maneiras amáveis e o teu modo refinado de falar quando não tentas ser requintada, mas as palavras rebuscadas que usas são piores do que o calão de Jo. — Se a Jo é uma maria-rapaz e a Amy uma afetada, podes dizer-me então o que sou eu? — inquiriu Beth, disposta a participar no sermão. — Tu és uma querida e mais nada — respondeu Meg, calorosamente. E ninguém a contradisse, pois a «Mascote» era a predileta da família. Uma vez que os jovens leitores gostam de conhecer o «aspeto das pessoas», vamos aproveitar este momento para fazer uma pequena descrição das quatro

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irmãs que se encontravam sentadas a tricotar ao crepúsculo enquanto a neve de dezembro caía lá fora e a lareira crepitava alegremente no interior. Era uma sala confortável, embora o tapete estivesse gasto e o mobiliário fosse bastante simples. Nas paredes viam-se um ou dois quadros de algum valor e as estantes estavam repletas de livros. Havia crisântemos e rosas de natal a florir no parapeito das janelas, e reinava um ambiente agradável de paz familiar. Margaret, a mais velha, tinha dezasseis anos e era muito bonita, rechonchuda e de tez clara. Exibia uma abundante cabeleira castanha, uma boca meiga e mãos muito brancas, que eram o seu orgulho. Jo, com quinze anos, era alta, esguia e morena. Fazia lembrar um potro, pois nunca parecia saber o que fazer com o seus braços compridos e as pernas longas, dando a impressão de que só a atrapalhavam. Tinha uma boca de expressão decidida, um nariz cómico e olhos cinzentos e penetrantes que pareciam tudo ver, e que eram, à vez, cruéis, alegres e pensativos. O cabelo comprido e forte era a sua maior beleza, mas ela trazia-o quase sempre preso numa rede para não a incomodar. Jo tinha os ombros arredondados, as mãos e os pés grandes, uma maneira de vestir descuidada e a aparência incomodada de uma rapariga que rapidamente se transformava numa mulher, sem que essa ideia lhe agradasse. Elizabeth, ou Beth, como todos lhe chamavam, era uma rapariga de treze anos, de faces rosadas, cabelos macios e olhar vivo, modos acanhados, voz tímida e uma expressão tranquila que nada parecia perturbar.

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O pai tinha por hábito chamar-lhe a sua «Pequena Tranquilidade», uma alcunha que lhe assentava como uma luva, pois parecia viver num mundo feliz que era só dela, aventurando-se apenas a sair quando encontrava pessoas de quem gostava e nas quais confiava. Apesar de ser a mais nova, Amy era uma pessoa muito importante, ou pelo menos assim se considerava. Uma perfeita boneca de porcelana, de olhos azuis e cabelos de ouro que lhe caíam em caracóis sobre ombros, era pálida e delgada e exibia sempre uma atitude de senhora constantemente atenta aos seus modos. Quanto ao caráter das quatro irmãs, teremos de descobri-lo mais tarde. O relógio bateu as seis e, depois de ter varrido a cinza, Beth foi colocar um par de chinelos a aquecer frente à lareira. Sem saberem muito bem explicar porquê, a visão daqueles chinelos gastos exercia uma boa influência sobre as raparigas, pois significava que a mãe estava prestes a chegar e todas se animavam para a receber. Meg deu por terminado o seu sermão e acendeu o candeeiro, Amy levantou-se da poltrona sem que tivessem de lhe pedir e Jo esqueceu-se de como estava cansada quando aproximou do calor os chinelos da mãe. — Já estão tão gastos. Temos de lhe comprar uns novos. — Pensei em comprá-los com o meu dólar — disse Beth. — Quem os compra sou eu! — exclamou Amy. — Eu é que sou a filha mais velha — começou por dizer Meg, mas Jo interrompeu-a com ar decidido:

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— Agora que o pai não está, o homem da família sou eu, por isso cabe-me a mim comprar os chinelos. Para além disso, o pai pediu-me que cuidasse da mãe na sua ausência. — Já sei o que podemos fazer — sugeriu Beth. — E que tal comprarmos prendas de Natal para a mãe e nada para nós? — É uma excelente ideia! — exclamou Jo. — E o que haveremos de lhe comprar? Todas pensaram afincadamente durante um minuto e depois Meg anunciou, como se a ideia lhe tivesse sido sugerida ao ver as suas bonitas mãos: — Vou oferecer-lhe um lindo par de luvas! — E eu um bom par de botas — declarou Jo. — Eu compro-lhe uns lencinhos, todos bordados — afirmou Beth. — Vou oferecer-lhe um frasco de água-de-colónia. Sei que ela gosta e, como não é muito caro, ainda me sobrará algum dinheiro para comprar os lápis — acrescentou Amy. — E como lhe daremos as prendas? — quis saber Meg. — Podemos colocá-las sobre a mesa e depois vamos buscá-la para abrir os embrulhos. Lembram-se do que fazíamos nos nossos aniversários? — respondeu Jo. — Eu tinha sempre tanto medo quando chegava a minha vez de me sentar na cadeira grande com a coroa na cabeça. Depois entravam vocês com as prendas e davam-me um beijo. Eu gostava das prendas e dos beijos, mas era terrível ter-vos a todas a olhar para mim enquanto abria os embrulhos — contou Beth,

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aquecendo-se e simultaneamente fazendo umas torradas para acompanhar o chá. — Deixemos a mãe pensar que vamos comprar coisas para nós e depois fazemos-lhe uma surpresa. Temos de ir às compras amanhã à tarde, Meg. Ainda há tanto para fazer para a peça de Natal — comentou Jo, andando de um lado para o outro com as mãos atrás das costas e o nariz no ar. — Não tenciono entrar em mais nenhuma depois desta. Já estou a ficar muito velha para estas coisas — replicou Meg, que, apesar do que dizia, continuava a gostar daquelas brincadeiras de faz-de-conta. — Não vais desistir, eu sei. Não enquanto puderes andar de um lado para o outro num vestido branco, com o cabelo solto e enfeitada com joias feitas com papel dourado. Tu és a melhor atriz que temos, e será o fim de tudo se resolveres abandonar o palco — disse Jo. — Devíamos ensaiar esta noite. Chega aqui, Amy, e faz a cena do desmaio. Ficas muito tesa nessa parte. — Não tenho culpa. Nunca vi ninguém desmaiar e não consigo ficar negra e azul e cair redonda, como tu fazes. Se puder tombar com facilidade, assim farei. Caso contrário, cairei numa cadeira de forma graciosa. Pouco me importa se o Hugo me ameaça com uma pistola — argumentou Amy, que não era dotada para as artes dramáticas e fora escolhida apenas por ser pequena o suficiente para ser carregada aos gritos pelo vilão da peça. — Faz assim: aperta as mãos desta maneira e cambaleia pela sala a gritar freneticamente «Roderigo! Salva-me! Salva-me!» — E lá foi Jo, com um grito melodramático e deveras emocionante.

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Amy imitou-a, mas esticou as mãos frente ao corpo de uma forma demasiado rígida e caminhou aos arrancos, como se fosse uma máquina. Os seus «ais» lembravam alguém a ser picado com alfinetes, ao invés de medo e angústia. Jo soltou um gemido desesperado e Meg riu-se às gargalhadas, ao mesmo tempo que Beth deixava queimar as torradas enquanto observava com interesse aquela divertida cena. — É escusado! Quando chegar o momento, faz o melhor que souberes e não me culpes se os espectadores desatarem a rir. É a tua vez, Meg. Depois tudo correu bem, pois Dom Pedro desafiou o mundo num discurso de duas páginas sem uma única paragem; Hagar, a bruxa, entoou um feitiço terrível sobre a sua chaleira repleta de sapos a ferver, com um estranho resultado; Roderigo rebentou as correntes com valentia e Hugo morreu cheio de remorsos e de dores, e com um grito selvagem de «Ah! Ah!». — Foi o melhor que tivemos até agora — comentou Meg, enquanto o vilão acabado de morrer se levantava e esfregava os cotovelos. — Não sei como consegues escrever e representar coisas tão fantásticas, Jo. És uma autêntica Shakespeare! — exclamou Beth, que acreditava piamente que as irmãs eram dotadas em todas as artes. — Também não é tanto assim — replicou Jo, com modéstia. — Acho que A Maldição das Bruxas, uma Tragédia Lírica, é muito interessante, mas gostava de experimentar o Macbeth, se ao menos tivéssemos um alçapão para o Banquo. Sempre desejei representar a parte da morte. «É um punhal que vejo?» — murmurou

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Jo, revirando os olhos e erguendo as mãos para o ar, como vira fazer a um famoso ator trágico. — Não. É o garfo de cabo comprido com o sapato da mãe lá espetado, em vez do pão. A Beth está apanhadinha de todo pelo teatro! — exclamou Meg, e o ensaio terminou com uma gargalhada geral. — Ainda bem que vos encontro tão bem-dispostas, minhas filhas — disse uma voz alegre à porta, e tanto as atrizes como a plateia se viraram para dar as boas-vindas a uma senhora de estatura alta e ar maternal com uma expressão de «estou aqui para ajudar» verdadeiramente encantadora. Não vinha vestida de forma elegante, mas tinha um aspeto distinto, e as raparigas acreditavam que a capa cinzenta e a touca já fora de moda agasalhavam a mãe mais fantástica do mundo. — Então, minhas queridas, como correu o vosso dia? Havia tanto para fazer, tantas caixas a preparar para amanhã, que acabei por não vir almoçar. Chegou algum recado, Beth? Como estás da constipação, Meg? Jo, pareces morta de cansaço. Anda cá dar-me um beijo, meu amor. Enquanto fazia este inquérito maternal, a Sr.ª March despiu a roupa molhada, calçou os chinelos aquecidos, sentou-se na poltrona e puxou Amy para o seu colo, preparando-se para apreciar a melhor hora do seu dia atarefado. Cada uma à sua maneira, as raparigas apressaram-se em seu redor, tentando tornar as coisas o mais confortáveis possível. Meg pôs a mesa, Jo foi buscar lenha e dispôs as cadeiras, entornando e derrubando tudo aquilo em que tocava. Beth andava

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para trás e para a frente entre a sala e a cozinha, muito silenciosa e ocupada, enquanto Amy dava ordens a todas, sentada de braços cruzados. Quando se reuniram em redor da mesa, a Sr.ª March disse, com uma expressão radiante: — Trago-vos uma surpresa para depois do jantar. Um sorriso de alegria espalhou-se em volta da mesa como um raio de sol. Beth bateu palmas, apesar de estar a segurar um biscoito, e Jo atirou o guardanapo ao ar e gritou: — Uma carta! Uma carta! Três vivas para o pai! — É isso mesmo. Uma longa carta. Ele diz que está bem e acredita que passará o inverno melhor do que pensávamos. Manda as boas-festas e uma mensagem especial para as suas filhas — disse a Sr.ª March, dando palmadinhas no bolso como se ali guardasse um tesouro. — Despachem-se e terminem! Não percas tempo, Amy — exortou Jo, engasgando-se com o chá e deixando cair o pão, com a manteiga para baixo, sobre o tapete, na pressa de chegar à surpresa. Beth parou de comer e foi sentar-se no seu canto, matutando sobre o deleite que estava por vir, à espera de que as irmãs estivessem despachadas. — Acho magnífico que o pai tenha ido como capelão, já que era demasiado velho para ser recrutado e pouco forte para servir como soldado — comentou Meg, calorosamente. — Quem me dera ter ido como tocadora de tambor ou como enfermeira, para poder estar perto dele e ajudá-lo — exclamou Jo, com um gemido.

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— Deve ser tão desagradável dormir numa tenda, comer todo o tipo de coisas mal saborosas e beber de uma caneca de lata — lamentou Amy. — Quando regressa ele a casa, Mãe? — inquiriu Beth, com um pequeno tremor na voz. — Só daqui a muitos meses, querida, a não ser que adoeça. Ele ficará o tempo que for necessário para cumprir a sua missão fielmente e não pedirá para regressar antes do previsto. Agora venham ouvir o que diz a carta. Aproximaram-se todas da lareira A mãe continuava sentada na poltrona com Beth aos seus pés, Meg e Amy penduradas em cada um dos braços do cadeirão e Jo reclinada contra o encosto, onde ninguém poderia ver qualquer reação à sua carta, caso esta se revelasse mais comovente. Naqueles tempos difíceis, poucas eram as cartas que não se tornavam comovedoras, principalmente as enviadas pelos pais. Naquela, o Sr. March não aludia a desconfortos, nem a perigos, nem a saudades de casa. Era uma carta otimista e encorajadora, repleta de descrições da vida em campanha, marchas e notícias militares, e só no último parágrafo expressava o seu amor pelas filhas e o desejo de regressar para junto delas. «Manda muitos beijos e todo o meu amor às minhas filhas. Diz-lhes que penso nelas durante o dia, rezo por elas à noite e que elas são o meu maior consolo. Este ano que passarei sem as ver parece-me interminável, mas recorda-as de que, enquanto esperamos para nos rever, podemos todos trabalhar para que estes tempos difíceis não sejam um desperdício. Sei que se recordarão de

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tudo o que lhes disse, que serão boas para ti, cumprirão os seus deveres e procurarão lutar para vencer os seus defeitos, para que, quando eu voltar, me possa sentir ainda mais orgulhoso das minhas mulherzinhas.» Ficaram todas muito comovidas quando a carta chegou a essa parte. Jo não sentiu vergonha da grossa lágrima que lhe correu pelo nariz e Amy nem sequer se preocupou com o despentear dos seus caracóis quando escondeu o rosto no ombro da mãe e soluçou: — Sei que sou egoísta! Mas vou tentar emendar-me, para que o pai não fique desiludido comigo. — É o que faremos todas! — exclamou Meg. — Eu sou muito vaidosa e detesto trabalhar, mas vou esforçar-me por mudar. — Tentarei ser aquilo que ele adora chamar-me, «uma mulherzinha», e deixarei de ser grosseira e rebelde, cumprirei as minhas obrigações aqui em vez de desejar estar noutro lugar — declarou Jo, ao mesmo tempo que pensava que controlar o seu temperamento em casa era uma tarefa tão árdua como enfrentar um ou dois rebeldes no Sul. Beth nada disse. Limpou as lágrimas com a meia azul militar e começou a tricotar com toda a energia, prometendo para si mesma ser tudo aquilo que o pai esperava encontrar quando regressasse a casa dali a um ano. A Sr.ª March quebrou o silêncio que se instalou depois das palavras de Jo e recordou, na sua voz alegre: — Lembram-se de quando eram pequenas e brincávamos ao Peregrino1? Vocês adoravam que eu vos amarrasse sacolas 1 O Peregrino — A Viagem do Cristão da Cidade da Destruição para

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às costas, a fazer de fardos, vos colocasse chapéus na cabeça, vos desse paus e rolos de papel e vos deixasse viajar pela casa, desde a cave, que era a Cidade da Destruição, até ao sótão, onde encontravam muitas coisas bonitas que iam colecionando para fazer a Cidade Celestial. — Era tão divertido! Principalmente passar pelos leões, lutar contra o Anjo da Destruição e atravessar o vale onde estavam os duendes — recordou Jo. — Eu gostava do sítio onde os fardos caíam e desciam pela escada aos trambolhões — acrescentou Meg. — Já não me lembro muito desse jogo, apenas de que tinha medo da cave e da sua entrada escura, e que preferia o leite e a fatia de bolo que nos esperavam no sótão. Se não fosse demasiado crescida para essas coisas, gostava de voltar a brincar ao mesmo — declarou Amy, que, com apenas doze anos começara a falar em renunciar às coisas de criança. — Nunca somos demasiado crescidas para isso, minha querida, porque é algo que estamos sempre a fazer, de uma forma ou de outra. Os nossos fardos estão aqui, neste mundo, o caminho estende-se à nossa frente, e desejar a bondade e a felicidade é o que nos ajuda a ultrapassar as dificuldades e os erros até atingirmos a paz, que é a verdadeira Cidade Celestial. Agora, minhas pequenas peregrinas, imaginem que começam de novo, não a brincar, mas a sério, e vejam até onde conseguem chegar antes que o vosso pai regresse a casa. Jerusalém Celestial, livro escrito por John Bunyan que conta a história de um jovem peregrino, chamado Cristão, que deseja ver-se livre do pesado fardo que carrega às costas. Pelo caminho em direção à Cidade Celestial, vai aprendendo as lições fundamentais da vida. (N. da T.)

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— A sério, mãe? Onde estão os nossos fardos? — perguntou Amy, que levava sempre tudo à letra. — Já cada uma de vocês se referiu ao seu, com exceção da Beth. Acho que ela não tem nenhum — disse a mãe. — Tenho pois! O meu fardo são os pratos e o espanador, e ter inveja das raparigas com pianos bonitos e ser demasiado tímida. O fardo de Beth era tão engraçado que todas sentiram vontade de rir, mas nenhuma o fez, para não ferir os sentimentos da irmã. — Vamos fazer issso — retorquiu Meg, pensativamente. — É apenas uma forma diferente de tentarmos ser melhores, e a história pode ajudar-nos. Apesar de querermos ser boas, é uma tarefa difícil, e por vezes esquecemo-nos disso e não nos esforçamos o suficiente. — Esta noite estávamos no Pântano do Desespero até que a mãe apareceu e nos ajudou a sair de lá, tal como a Boa-Vontade fez no livro. Devíamos ter um rolo de pergaminho, tal como o Cristão. Como vamos resolver isso? — inquiriu Jo, encantada com aquela ideia que emprestava um pouco de lirismo à enfadonha tarefa de cumprir o seu dever. — Na manhã de Natal procurem debaixo da almofada e encontrarão um livro que será o vosso guia — prometeu a Sr.ª March. Falaram sobre aquele novo plano enquanto a velha Hannah levantava a mesa. Depois, pegaram nas suas cestas de costura e puseram as agulhas a trabalhar, de modo a poderem continuar a fazer os lençóis para a tia March. Era um trabalho de costura sem interesse,

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mas naquela noite nenhuma delas reclamou. As quatro aceitaram a ideia de Jo de dividir em partes iguais as longas bainhas de cada lençol e de lhes dar o nome de Europa, Ásia, África e América, respetivamente. Dessa forma, deram-se às mil maravilhas e o trabalho correu admiravelmente, em particular quando trocavam impressões sobre os diferentes países, à medida que alinhavavam através deles o caminho que iam percorrendo. Às nove da noite pararam de trabalhar e cantaram um pouco, como sempre faziam antes de se deitar. Ninguém conseguia tocar aquele velho piano tão bem quanto Beth, já que tinha um modo meigo de pressionar as teclas amareladas e acompanhar de forma agradável as canções simples que entoavam. A voz de Meg assemelhava-se a uma flauta, e era ela e a mãe quem liderava o coro. Amy fazia lembrar um grilo e Jo seguia a seu gosto, acabando sempre por desafinar. Desde pequenas, quando apenas balbuciavam músicas infantis, que lhes ficara o hábito de cantar em família. A mãe era uma cantora nata. O primeiro som que ouviam de manhã era a sua voz, enquanto ela cirandava pela casa cantando como uma cotovia; e à noite era a mesma voz alegre o último som que ouviam, pois as raparigas nunca seriam demasiado crescidas para aquela familiar canção de embalar.

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