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INTRODUÇÃO

Eu não sei se é este o seu caso, mas, quanto a mim, gosto de andar por cá. É óbvio que por vezes a vida é capaz de se complicar, de nos apresentar situações difíceis de ultrapassar, e nem sempre é agradável; isto, porém, não é suficiente para que eu deseje ser convidada a retirar-me dela nos tempos mais próximos. Se existirem maneiras de melhorar a minha saúde e longevidade através de hábitos saudáveis, se houver exames de rastreio adequados à minha faixa etária, se surgirem novos tratamentos capazes de me salvar a vida a que eu possa ter acesso, então quero estar informada a seu respeito de modo a poder chegar aos noventa com saúde para dar e vender. Há porém um desafio que nos toca a todos: para que nos possamos manter saudáveis e viver até mais tarde, precisamos de compreender e avaliar certos «mitos da medicina» e aprender a agir consoante as verdades que escondem. Os dicionários definem «mitos» como crenças amplamente partilhadas mas erróneas, concepções falsas e interpretações erradas da verdade ou ideias exageradas a respeito de pessoas e instituições. Os mitos são como cortinas de fumo. Impedem-nos de nos concentrarmos claramente nos problemas e opções genuínos e, na maior parte das ocasiões, não temos consciência de até que ponto eles condicionam os nossos pensamentos e orientam as nossas acções. Em Mitos da Medicina Que Nos Podem Matar, irei ajudá-lo a descobrir o que é verdade, o que não é e a identificar as falhas dos mitos em que fomos ensinados a acreditar. Talvez sempre lhe tenham dito para não sair de casa sem casaco quando faz frio para não apanhar uma pneumonia, ou que é possível contrair doenças sexualmente transmissíveis nos assentos das sanitas, ou que, se tiver um ataque apopléctico, corre o sério risco de engolir

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a língua. Ou, num caso mais grave, talvez tenha um familiar idoso que tenha sofrido um acidente vascular cerebral de consequências debilitantes e que o leitor, com trinta e poucos anos, diga a si próprio: «Graças a Deus que ainda sou jovem. Pelo menos desse perigo estou livre.» Mitos como estes têm vindo a ser transmitidos ao longo das gerações, repetidos sem cessar pelos nossos pais e demais membros da família. Alguns tiveram origem em associações remotas observadas entre as forças da natureza e o estado de saúde (por exemplo, as constipações e as gripes são mais frequentes no tempo frio); outros são colhidos a dedo na Internet. O meu mito internáutico predilecto é aquele que defende que beber uma grande quantidade de água fria depois duma refeição provoca o cancro. De acordo com este mito, a bebida fria congelaria qualquer gordura que tivéssemos ingerido, atrasando a digestão. Supostamente, este «depósito» misturar-se-ia então com os ácidos do estômago, seria decomposto e depois absorvido pelos intestinos, onde, inexplicavelmente, causaria o cancro. Alguns mitos são da nossa própria lavra. A natureza humana exige explicações e, assim, dada uma oportunidade, partimos do princípio de que a causa duma doença reside no que quer que tenha precedido o seu aparecimento. Isto explica provavelmente por que motivo tantas pessoas que sofrem de dores nas articulações atribuem os seus achaques à humidade, aos temporais ou a qualquer alteração da pressão atmosférica. Este mito da medicina deriva da nossa tendência para procurar identificar padrões em acontecimentos aleatórios. Se chove e as articulações nos doem, atribuímos as dores ao estado do tempo, esquecendo-nos de todas as outras ocasiões em que choveu e não nos doía nada. Os mitos resultam amiúde duma fusão do senso comum com meias-verdades, o que dificulta ainda mais a descoberta da verdade plena. É óbvio que nos devemos agasalhar antes de sairmos de casa num dia frio; isto, porém, não tem nada que ver com o perigo de apanhar uma constipação ou uma pneumonia, uma vez que as constipações são provocadas por vírus e a maior parte das pneumonias, por bactérias. (E em resposta aos mitos acima mencionados: do ponto de vista anatómico, é impossível engolir a língua durante um ataque apopléctico, visto que esta se encontra presa ao fundo da boca. E não é possível apanhar uma doença sexualmente transmissível no assento da sanita.

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As hipóteses de isto acontecer são nulas, uma vez que o contágio da maior parte destas doenças se faz por meio das relações sexuais.) Alguns mitos são mais verdadeiros que falsos. Por exemplo, já todos nós ouvimos dizer que o ciclo menstrual das mulheres repercute os ciclos da Lua. Será isto verdade ou mentira? Este mito é quase verdade, dado que as paredes do útero se dilatam e diminuem a um ritmo semelhante ao do corpo celeste. Também sabemos que actualmente, tal como em épocas remotas, as mulheres que vivem e trabalham em grande proximidade têm ciclos simultâneos. Acontece em casa a mães e filhas e, no emprego, entre colegas. O facto da existência de ritmos corporais, quer sejam eles horários, diários ou mensais, proporcionou o aparecimento da área entusiasmante da «cronoterapia» — o método de administrar os remédios aos doentes de acordo com o momento do dia, do mês, do ano, bem como das fases do sono ou do ciclo menstrual, de modo a potenciar-lhes o efeito. A cronoterapia considera os ritmos biológicos das pessoas ao determinar o momento — e muitas vezes a dosagem — dum dado medicamento a fim de lhe aumentar os benefícios e minimizar os efeitos secundários. A sua aplicação tem vindo a ser estudada numa ampla variedade de doenças, incluindo a asma, a artrite, as doenças cardiovasculares e o cancro. Alguns mitos são perfeitamente disparatados, outros bastante prejudiciais, com um lado nitidamente negro, mas todos merecem a nossa avaliação. E porquê? Porque conhecer a diferença que separa a realidade do mito nos pode ajudar a melhorar a nossa vida e até mesmo a salvá-la; a respeito disto não há qualquer dúvida. Quando foi a última vez que ouviu dizer, e talvez até tenha acreditado, que é possível sobreviver a um ataque cardíaco «tossindo várias vezes e com muita força» até à chegada dos paramédicos? Que, caso seja diabético, não pode fazer exercício físico? Que só porque alguma coisa é natural significa que é inofensiva e isenta de efeitos secundários? Que os medicamentos para o colesterol fazem mal ao fígado e que, por conseguinte, não os devemos tomar? Ou que só as mulheres é que têm de prestar atenção à saúde dos ossos? Felizmente, alguns mitos médicos limitam-se a desvanecer-se depois de terem sido refutados com provas incontestáveis de como tratar eficazmente ou, nalguns casos, mesmo de curar uma doença. Por exemplo, quando eu era médica interna, acreditava-se que o facto de uma criança

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ter febre era sinal dum sistema imunitário saudável. O corpo estava a «cozinhar» o vírus ou a bactéria para os expulsar do corpo. Nós vivíamos segundo o mito de que era preferível deixar a febre «seguir o seu curso». Mas isso era antes. Hoje em dia, um vasto manancial de provas médicas sugere-nos que processos inflamatórios como a febre, os inchaços, as queimaduras provocadas pelo sol, as infecções prolongadas ou estados inquestionavelmente associados a inflamações, como sejam a asma e a artrite reumatóide, podem propiciar o aparecimento de doenças graves nunca antes associadas a inflamações — tais como as doenças cardiovasculares, o Alzheimer, a diabetes e até mesmo o cancro. Apesar de a inflamação resultar do empenho do corpo em curar-se, sempre que ocorre um processo inflamatório, dá-se igualmente um certo desgaste, comparável a uma espécie de enferrujamento no interior do organismo. A longo prazo, essa ferrugem torna-se perigosa. Como tal, faz todo o sentido tratar a inflamação — o que podemos fazer não apenas através do recurso a medicamentos como também mediante certas alterações do estilo de vida respeitantes ao exercício físico e à alimentação, que se têm demonstrado capazes de ajudar o nosso corpo a manter-se tão protegido das inflamações quanto possível. Os mitos da medicina — e há-os aos milhares — mantêm-se bem presentes na nossa cultura. Enquanto escrevia este livro, reduzi a mitologia médica a sete dos mais comuns — e perigosos — mitos relacionados com a nossa saúde, cuidados médicos e longevidade. Para além disto, ofereço-lhe uma ampla série de verdades médicas — sugestões, conselhos e a última palavra sobre como melhorar a sua saúde e salvar a sua vida. Estes vão sendo fornecidos ao longo do texto e muitos resultaram de problemas que os meus doentes me foram apresentando no decorrer de mais de trinta anos de carreira. Dar-lhe-ei ainda «novidades úteis» — informações médicas vitais saídas directamente dos títulos de primeira página e destinadas a ajudá-lo a organizar-se e a orientar-se rumo a uma vida mais saudável. Irei apresentar-lhe todos estes mitos, verdades e novidades tal como tenho feito aos meus doentes e aos telespectadores a quem chego através do meu trabalho como correspondente televisiva na área da medicina. Comprometo-me, neste livro, a dar-lhe acesso a informações médicas vitais duma maneira simples, prática e directa. Numa época em que sentimos necessidade de simplificação, ou somos inundados de

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excesso de informação, esta obra pode servir-lhe como guia de tradução para o mundo extremamente complexificado da medicina, e eu disponho-me a ser a sua intérprete. Terá ainda acesso a uma perspectiva a partir de dentro do modo como os médicos pensam e falam, a fim de que possa compreender a nossa linguagem e o que ela significa para si. Estar de posse destas informações é essencial para manter um estilo de vida saudável — para toda a vida. Dois dos nossos maiores inimigos na batalha contra as doenças que implicam risco de vida são a ignorância e as convicções pessoais que levamos para o consultório médico. Há algum mito em que acredite fervorosamente? Há alguma «história da carochinha» em que deposite a sua confiança? A disponibilidade para modificar a sua maneira de pensar e acolher novas ideias pode não ser suficiente para erradicar completamente o risco de contrair doenças, mas poderá constituir o primeiro passo com vista a implementar alterações na sua vida que, essas sim, serão capazes de o fazer. Este livro irá proporcionar-lhe todas as informações médicas de que necessita para o ajudar a tomar decisões informadas a respeito do seguinte: • Estabelecer a ligação com o processo dos cuidados de saúde que deve seguir (sim, existe um processo) — de que exames, testes de rastreio e vacinas precisa para se manter saudável — e tomar as decisões médicas susceptíveis de lhe trazer maiores benefícios. • Exigir respeito e um tratamento adequado a um sistema de saúde que nem sempre é justo. • Prevenir e tratar três das principais causas de morte quer nos homens quer nas mulheres — as doenças cardiovasculares, o cancro e os acidentes vasculares cerebrais — mediante a consciencialização, os cuidados a prestar a si próprio, a prevenção e o tratamento. • Aprender a inverter factores de risco controláveis e a acrescentar sete anos potenciais de vida saudável à sua existência. • Descobrir como uma mente saudável influencia um corpo saudável, de modo a poder sentir-se bem, manter-se activo e aproveitar a vida em toda a sua plenitude. A compreensão dos mitos médicos desimpede o caminho em direcção à verdade e ajuda-o a perceber o que precisa de fazer por si próprio tendo em vista uma vida mais saudável, mais feliz e mais realizada.

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Em simultâneo, irá descobrir que há inúmeros problemas de saúde sobre os quais detém muito mais controlo que pensa. Quanto maiores forem os seus conhecimentos, mais bem preparado ficará e melhor será o seu estado geral — e maiores hipóteses terá de sobreviver a qualquer desafio de saúde com que a vida o confrontar. Este livro não pretende ser um ensaio nem um artigo de opinião de vulto acerca dos mitos da medicina — em cada página, são apresentados conselhos e programas de acção destinados a ajudá-lo a tirar o melhor partido possível da existência que leva. Incentivá-lo-á a tratar o seu corpo como a um amigo querido, com informações suficientes para o ajudar a modificar os hábitos que o têm afligido até agora e corrigir quaisquer informações erróneas que, inadvertidamente, o tenham impedido de aproveitar ao máximo o seu potencial de saúde. Independentemente da forma como opte por usar as informações contidas nesta obra, a minha intenção é que as use como uma chamada de atenção encorajante e tranquilizadora do que é importante para a sua saúde — e do que não é. Espero que aquilo que tenho para lhe dizer traga saúde e energias renovadas à sua vida, a prolongue e, eventualmente até, a possa salvar.

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