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golpeou-o desastradamente e a lâmina vibrou agudamente contra a pedra molhada. Daevin pontapeou o inimigo no estômago, o que fez com que este se curvasse, e trouxe o calhau com ímpeto para baixo, partindo-lhe o crânio e caindo com ele. A força do Batedor estava a esvair-se-lhe pela perna, mas o contacto com a água gelada manteve os seus sentidos despertos e apressou-se a apoderar-se da espada do adversário morto, erguendo-se. Podia ouvir os restantes drahregs a aproximarem-se, incitados pelo mugir da trompa. O siruliano olhou em redor, avaliando as suas opções, e soube que estas haviam diminuído drasticamente quando viu o que descia pelo vale, lastrando como um edema na brancura do sopé. Um exército marchava a passo acelerado na sua direcção, as suas fileiras entusiasmadas com a trompa que parecia descer pela encosta abaixo. Fileiras. Desde a Guerra da Hecatombe que Daevin não via tantos: drahregs negros e terríveis, armados de farpas e aço cruel; catervas de pequenos e pardos ulkekhlens numa correria desenfreada, tentando evitar serem pisoteados, arrastando carretas de mantimentos e equipamento; enormes e massivos ogroblins, derribando todos para fora do seu caminho. Daevin soube então que não podia correr mais. Não correria mais. Morreria ali. Tomada esta decisão, o siruliano pegou com a mão livre num saquete que tinha preso ao pescoço por uma tira de couro e puxou, partindo-a. Com os dentes, tirou o que sobrou da tira e abriu o invólucro, despejando as folhas de teixo secas e pulverizadas que continha para dentro da boca. Iria morrer lutando, mas mesmo morto causaria baixas nas forças d’O Flagelo, pois sabia bem o que drahregs faziam com os corpos dos seus inimigos... Mastigando, o Batedor foi incapaz de evitar uma careta devido ao sabor amargo do suco venenoso, que teve dificuldade em engolir devido à secura da sua garganta. Drahregs irromperam dos pinheiros, urrando pelo seu sangue. Calmamente, o Batedor colheu um pouco de água com a mão e levou-a à boca, engolindo. As botas dos drahregs chapejaram no riacho. Brandindo a espada serenamente, o siruliano recitou a elegia dos caídos na batalha, sentindo o veneno a acalentar-lhe o estômago. — Eis chegada a minha hora; — aparou o golpe do primeiro adversário e girou em si, talhando-lhe as costas — Irmãos, de vós me despeço; — sem sequer olhar, impeliu a ponta da lâmina para trás, enterrando-a no ventre de outro — Todas as minhas faltas; — a ponta de uma lâmina puncionou-lhe a ilharga — Todos os erros que cometi; 21

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