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rém, pareceu-lhe ver a penumbra da encosta sombria em frente mexer-se, um movimento subtil, quase imperceptível no local do sopé onde o riacho curvava, desaparecendo da vista. Aí, as sombras formigavam, agitadas, indistintas. O siruliano estendeu a mão enluvada em pala sobre os olhos semicerrados de modo a resguardá-los da claridade poente e ver melhor, e o que viu inflamou-lhe o peito. Aves levantaram voo dezenas de passos à sua esquerda, açoitando o ar com asas a soltarem neve, e Daevin virou a cabeça instintiva e bruscamente, sem nada ver. Inclinando o ombro para baixo, fez com que o arco lhe deslizasse pelo braço e torceu o pulso para o agarrar, preparando uma flecha num movimento instintivo. A sua respiração repentinamente acelerada e rítmica saiu-lhe condensada pela boca, e os seus penetrantes olhos dardejaram em redor. Sabia agora que alguém se aproximava; e esse alguém não estava sozinho. A neve arfava com os passos que a pisavam, e Daevin apercebeu-se de que se dirigiam ao fumo e ruídos estalantes originados pela sua fogueira. Ciente da futilidade do gesto, o siruliano correu mesmo assim a chutar neve para dentro do buraco, suscitando um sibilante e vão protesto do fogo, que se apagou. O fumo fora escasso, mas certamente teria destoado no vale deserto, e os passos aproximavam-se, afoitos, cercando-o. Daevin sabia quem dele se acercava, reconhecia muito bem as passadas sonantes de ânsia e antecipação, a marcha de predadores para os quais a caça era um fim em si, os descuidados movimentos de quem sabia ter encurralado a presa para além de qualquer fuga. O Batedor era o veado, não tinha onde se esconder e os lobos não estavam longe. Mas este veado tinha hastes afiadas e, curvando-se furtivamente, correu por entre os pinheiros na direcção de uma das frontes que se aproximavam, mantendo a seta apontada para baixo. O coração retumbava-lhe no peito, todos os seus sentidos estavam agudamente despertos e movia-o um imprudente desejo figadal de enterrar as suas hastes bem fundo na carne daqueles que se aproximavam. Uma pinha estalou seca e sonoramente ao ser pisada a escassa distância do pinheiro coberto de neve atrás do qual Daevin aproveitou para se esconder. Através dos ramos e agulhas, distinguiu um vulto que corria a curta distância, acompanhado de outros que apenas podia ouvir. Não iria esperar que lhe caíssem em cima. O fio do arco vibrou e uma seta singrou, sibilante, perfurando o ombro esquerdo do drahreg, que caiu de lado ao chão devido à força do impacto. Quatro mais estavam à vista e outros tantos moviam-se indistintamente na sua visão periférica, humanóides de tez negra e 16

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