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Palavra, falado pelos sirulianos e pelos eahlan, e era um dos seus segredos mais bem guardados, capaz de se servir do poder da própria Essência, embora a um grau muito inferior ao daqueles que faziam uso da verdadeira Palavra. Com a tarefa provisoriamente cumprida, Daevin tapou o recipiente com um pedaço de casca e recolheu as penas para isolar o seu leito, pois iria passar mais uma noite naquele local que ainda não chegara a explorar minuciosamente: podia haver sinais, mensagens ou mesmo avisos deixados por outros Batedores, potenciais esconderijos, rastos de drahregs, vestígios de migrações... um sem-número de coisas de importância oscilante, mas todas elas de uma forma ou de outra relevantes para um Batedor. Enquanto o quadril da perdiz cozia, Daevin manteve-se ocupado substituindo com a penugem branca da ave as penas molhadas que protegiam a manta sobre a qual dormia. Finda mais uma tarefa — pois assim eram os seus dias definidos, pelo cumprimento de tarefas — o homem saiu do seu abrigo e permitiu-se um dos seus poucos e breves momentos diários de relaxamento, contemplando o horizonte ruborizado pelo sol poente e inalando profundamente o ar fresco do vale. Os gravetos crepitavam atrás de si enquanto Daevin pousava as mãos nas ancas e principiava a entoar em voz baixa uma canção em Eridiaith, uma cantiga de paz e sossego que aprendera enquanto recruta e que lhe afagou os sentidos, acalentando-lhe os membros como um balsâmico elixir espiritual. Qualquer fadiga ou cansaço que pudesse ter sentido foram expelidos pela boca numa longa condensação, e o batedor fechou os olhos, deixando-se mergulhar no silêncio crepitante da encosta. Daevin não era servo da Mãe — sirulianos serviam apenas Sirulia e não se deixavam reger por nada mais além dos seus votos sagrados — mas ao longo dos anos no ermo aprendera sozinho a entrar em sintonia com o que o rodeava, acompanhar o pulsar da terra, a sua respiração, o seu fluxo vital. Assim fez naquele local, um ser isolado no meio de uma entibiante massa de vida que se aprontava para repousar, entrando lentamente numa sonolenta modorra que se prolongaria pela noite fora. O merecido descanso da terra aproximava-se, esperando apenas que o sol se recolhesse... Tremura. Daevin franziu o cenho. Uma batida desregulada? Não... um tremor... um vibrar constante no solo... passadas? Os olhos do batedor abriram-se, focando o vale, mas nada parecia destoar da serenidade bucólica do local, da vertente calma e queda, do moroso fluir do riacho que cindia as montanhas sobre as quais o sol assentava... po15

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