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mesteres, o mais importante serviço prestado aos seus e a Allaryia. Era também a única forma directa de um Ajuramentado se opôr às adormecidas, embora sempre latentes, forças da Sombra, a oportunidade pela qual todos ansiavam de embeber as suas lâminas na carne dos filhos do Flagelo. Mester algum era mais prestigioso. Apesar de viver no ermo, a cara de Daevin estava impecavelmente barbeada e as lâminas do seu facalhão e machada eram diariamente afiadas com quartzo, que, apesar de deixar sulcos brilhantes no aço, era forçado a usar por ser o único material de que dispunha para amolar as armas. A disciplina siruliana nunca o abandonara, mesmo após ter passado a primavera da sua vida longe da civilização, ou talvez por isso mesmo, pois precisava dela para sobreviver no perigoso território que adoptara como seu. As suas feições eram nobres e altivas, os seus olhos cinzentos e penetrantes, vivos apesar da cor pardacenta, dois orbes de granito polido ladeados por pés-de-corvo e outras linhas cinzeladas pela idade, pelo frio e pelas provações. Era neles visível um cansaço impossível de esconder, mas também uma vontade indómita, um brilho determinado que ofuscava quaisquer sinais de fadiga do corpo ou do espírito. Daevin fora escolhido, e o seu dever era claro. Apenas a morte o impediria de o cumprir. Chegou por fim ao seu acampamento: um buraco cavado na neve a servir de fogão subterrâneo e uma cova em redor de um pequeno pinheiro com um alpendre de ramos cobertos de neve. Daevin ajoelhou-se perante o buraco e, com a sua mão livre e enluvada de pele de toupeira, começou a desentupir os pequenos buracos que serviam como tubos de ventilação, cuja função era fornecer tiragem ao fogo que iria fazer debaixo da neve. Era trabalhoso preparar a comida daquela forma, mas pelo menos o fumo era reduzido, e os rastos que deixaria para trás seriam mínimos, o que era essencial para quem queria passar despercebido em terreno hostil. Sacudindo a mão e pousando a perdiz, o batedor ergueu-se e foi buscar ao seu abrigo gravetos secos que colocou dentro do «fogão», polvilhando-os com aparas de casca de árvore. Procedeu a depenar, descabeçar e eviscerar a ave, arrancando-lhe uma perna e um quadril, que meteu dentro de um recipiente de casca de bétula com água, e enfiando o resto na neve. Pendurou o tosco receptáculo sobre os gravetos e pronunciou uma curta frase em Eridiaith, originando uma faísca que cedo ateou pequenas chamas pelas aparas de madeira, pegando fogo aos gravetos. O Eridiaith era uma língua mágica, um dialecto abastardado da 14

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