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PRÓLOGO

As robustas botas de um homem afundavam-se na neve macia do entardecer, deixando para trás um rasto de pegadas molhadas por entre os pinheiros de ramos vergados pela brancura. O sol era espicaçado pelos cumes alvacentos das montanhas a oeste, raiando a encosta do vale com parcimonioso calor. A Primavera começava por fim a dar de si no Norte, embora não parecesse muito motivada em se fazer sentir nos vales gélidos que o caminhante diariamente calcorreava. Daevin, um Batedor da Fronteira, tinha uma postura rígida como a de um tronco enregelado e o porte de um homem que era o seu próprio pior crítico e mais impiedoso juiz, os preceitos sirulianos que nem após anos no ermo esquecera ou renegara. Alto e espadaúdo, embora adelgaçado pelos rigores e provações da vida que escolhera, com cabelos negros listrados de branco pelo ombro, vestindo uma camisa de cabedal forrada a pêlo de lebre e uma capa verde revestida de variadas peles quentes, Daevin portava uma lança às costas, um arco curto ao ombro e o fruto do seu uso numa mão: uma perdiz branca cujas asas pendiam frouxamente. Os animais principiavam a despertar, sentindo o silente chamamento da Natureza a afoitá-los para a prolificação da espécie, o que era bom, pois o Inverno fora longo e o batedor tivera dificuldades em arranjar comida durante o seu frígido predomínio. Os tempos mais difíceis já haviam passado, mas não seria isso a fazer com que Daevin relaxasse de alguma forma ou se permitisse gozar da vindoura relativa abundância. O seu dever, a sua vida, era a de um infiltrado em terreno hostil, constantemente em perigo, jamais em segurança. Somente aos melhores e mais devotos dos sirulianos lhes era permitido escolher o caminho dos Batedores, o mais arriscado dos 13


mesteres, o mais importante serviço prestado aos seus e a Allaryia. Era também a única forma directa de um Ajuramentado se opôr às adormecidas, embora sempre latentes, forças da Sombra, a oportunidade pela qual todos ansiavam de embeber as suas lâminas na carne dos filhos do Flagelo. Mester algum era mais prestigioso. Apesar de viver no ermo, a cara de Daevin estava impecavelmente barbeada e as lâminas do seu facalhão e machada eram diariamente afiadas com quartzo, que, apesar de deixar sulcos brilhantes no aço, era forçado a usar por ser o único material de que dispunha para amolar as armas. A disciplina siruliana nunca o abandonara, mesmo após ter passado a primavera da sua vida longe da civilização, ou talvez por isso mesmo, pois precisava dela para sobreviver no perigoso território que adoptara como seu. As suas feições eram nobres e altivas, os seus olhos cinzentos e penetrantes, vivos apesar da cor pardacenta, dois orbes de granito polido ladeados por pés-de-corvo e outras linhas cinzeladas pela idade, pelo frio e pelas provações. Era neles visível um cansaço impossível de esconder, mas também uma vontade indómita, um brilho determinado que ofuscava quaisquer sinais de fadiga do corpo ou do espírito. Daevin fora escolhido, e o seu dever era claro. Apenas a morte o impediria de o cumprir. Chegou por fim ao seu acampamento: um buraco cavado na neve a servir de fogão subterrâneo e uma cova em redor de um pequeno pinheiro com um alpendre de ramos cobertos de neve. Daevin ajoelhou-se perante o buraco e, com a sua mão livre e enluvada de pele de toupeira, começou a desentupir os pequenos buracos que serviam como tubos de ventilação, cuja função era fornecer tiragem ao fogo que iria fazer debaixo da neve. Era trabalhoso preparar a comida daquela forma, mas pelo menos o fumo era reduzido, e os rastos que deixaria para trás seriam mínimos, o que era essencial para quem queria passar despercebido em terreno hostil. Sacudindo a mão e pousando a perdiz, o batedor ergueu-se e foi buscar ao seu abrigo gravetos secos que colocou dentro do «fogão», polvilhando-os com aparas de casca de árvore. Procedeu a depenar, descabeçar e eviscerar a ave, arrancando-lhe uma perna e um quadril, que meteu dentro de um recipiente de casca de bétula com água, e enfiando o resto na neve. Pendurou o tosco receptáculo sobre os gravetos e pronunciou uma curta frase em Eridiaith, originando uma faísca que cedo ateou pequenas chamas pelas aparas de madeira, pegando fogo aos gravetos. O Eridiaith era uma língua mágica, um dialecto abastardado da 14


Palavra, falado pelos sirulianos e pelos eahlan, e era um dos seus segredos mais bem guardados, capaz de se servir do poder da própria Essência, embora a um grau muito inferior ao daqueles que faziam uso da verdadeira Palavra. Com a tarefa provisoriamente cumprida, Daevin tapou o recipiente com um pedaço de casca e recolheu as penas para isolar o seu leito, pois iria passar mais uma noite naquele local que ainda não chegara a explorar minuciosamente: podia haver sinais, mensagens ou mesmo avisos deixados por outros Batedores, potenciais esconderijos, rastos de drahregs, vestígios de migrações... um sem-número de coisas de importância oscilante, mas todas elas de uma forma ou de outra relevantes para um Batedor. Enquanto o quadril da perdiz cozia, Daevin manteve-se ocupado substituindo com a penugem branca da ave as penas molhadas que protegiam a manta sobre a qual dormia. Finda mais uma tarefa — pois assim eram os seus dias definidos, pelo cumprimento de tarefas — o homem saiu do seu abrigo e permitiu-se um dos seus poucos e breves momentos diários de relaxamento, contemplando o horizonte ruborizado pelo sol poente e inalando profundamente o ar fresco do vale. Os gravetos crepitavam atrás de si enquanto Daevin pousava as mãos nas ancas e principiava a entoar em voz baixa uma canção em Eridiaith, uma cantiga de paz e sossego que aprendera enquanto recruta e que lhe afagou os sentidos, acalentando-lhe os membros como um balsâmico elixir espiritual. Qualquer fadiga ou cansaço que pudesse ter sentido foram expelidos pela boca numa longa condensação, e o batedor fechou os olhos, deixando-se mergulhar no silêncio crepitante da encosta. Daevin não era servo da Mãe — sirulianos serviam apenas Sirulia e não se deixavam reger por nada mais além dos seus votos sagrados — mas ao longo dos anos no ermo aprendera sozinho a entrar em sintonia com o que o rodeava, acompanhar o pulsar da terra, a sua respiração, o seu fluxo vital. Assim fez naquele local, um ser isolado no meio de uma entibiante massa de vida que se aprontava para repousar, entrando lentamente numa sonolenta modorra que se prolongaria pela noite fora. O merecido descanso da terra aproximava-se, esperando apenas que o sol se recolhesse... Tremura. Daevin franziu o cenho. Uma batida desregulada? Não... um tremor... um vibrar constante no solo... passadas? Os olhos do batedor abriram-se, focando o vale, mas nada parecia destoar da serenidade bucólica do local, da vertente calma e queda, do moroso fluir do riacho que cindia as montanhas sobre as quais o sol assentava... po15


rém, pareceu-lhe ver a penumbra da encosta sombria em frente mexer-se, um movimento subtil, quase imperceptível no local do sopé onde o riacho curvava, desaparecendo da vista. Aí, as sombras formigavam, agitadas, indistintas. O siruliano estendeu a mão enluvada em pala sobre os olhos semicerrados de modo a resguardá-los da claridade poente e ver melhor, e o que viu inflamou-lhe o peito. Aves levantaram voo dezenas de passos à sua esquerda, açoitando o ar com asas a soltarem neve, e Daevin virou a cabeça instintiva e bruscamente, sem nada ver. Inclinando o ombro para baixo, fez com que o arco lhe deslizasse pelo braço e torceu o pulso para o agarrar, preparando uma flecha num movimento instintivo. A sua respiração repentinamente acelerada e rítmica saiu-lhe condensada pela boca, e os seus penetrantes olhos dardejaram em redor. Sabia agora que alguém se aproximava; e esse alguém não estava sozinho. A neve arfava com os passos que a pisavam, e Daevin apercebeu-se de que se dirigiam ao fumo e ruídos estalantes originados pela sua fogueira. Ciente da futilidade do gesto, o siruliano correu mesmo assim a chutar neve para dentro do buraco, suscitando um sibilante e vão protesto do fogo, que se apagou. O fumo fora escasso, mas certamente teria destoado no vale deserto, e os passos aproximavam-se, afoitos, cercando-o. Daevin sabia quem dele se acercava, reconhecia muito bem as passadas sonantes de ânsia e antecipação, a marcha de predadores para os quais a caça era um fim em si, os descuidados movimentos de quem sabia ter encurralado a presa para além de qualquer fuga. O Batedor era o veado, não tinha onde se esconder e os lobos não estavam longe. Mas este veado tinha hastes afiadas e, curvando-se furtivamente, correu por entre os pinheiros na direcção de uma das frontes que se aproximavam, mantendo a seta apontada para baixo. O coração retumbava-lhe no peito, todos os seus sentidos estavam agudamente despertos e movia-o um imprudente desejo figadal de enterrar as suas hastes bem fundo na carne daqueles que se aproximavam. Uma pinha estalou seca e sonoramente ao ser pisada a escassa distância do pinheiro coberto de neve atrás do qual Daevin aproveitou para se esconder. Através dos ramos e agulhas, distinguiu um vulto que corria a curta distância, acompanhado de outros que apenas podia ouvir. Não iria esperar que lhe caíssem em cima. O fio do arco vibrou e uma seta singrou, sibilante, perfurando o ombro esquerdo do drahreg, que caiu de lado ao chão devido à força do impacto. Quatro mais estavam à vista e outros tantos moviam-se indistintamente na sua visão periférica, humanóides de tez negra e 16


longos cabelos entrançados, envergando peles e armaduras de couro fervido e malha de ferro. O instante de surpresa permitiu-lhe disparar outra seta, que se alojou na barriga de mais um inimigo, mas a última encalhou em cota de malha, e por essa altura os drahregs já estavam perto de mais para um quarto disparo. Daevin atirou o arco curto ao chão, puxou a lança detrás das suas costas e enristou-a para receber a investida. Dois drahregs atacaram o Batedor de lados opostos, urrando em Olgur e brandindo as espadas de lâmina larga, e os seus companheiros estavam perto. Esporeando o ar com a lança, Daevin deixou a sua guarda direita aberta para que um drahreg o atacasse enquanto mantinha o outro à distância. O idiota assim fez, e o Batedor girou em si, virando a extremidade grossa da lança para o drahreg que ameaçara e orientando a ponta para a barriga do que o atacara, furando couro fervido, carne e entranhas. O companheiro do moribundo não se deixou intimidar e tornou a atacar, mas Daevin passou por baixo da lança, agarrando-a pela ponta, e a espada do drahreg partiu a haste, originando um urro de agonia do seu congénere e deixando o batedor com pouco mais que um pau na mão. Daevin não precisou de mais nada para partir os dedos do drahreg ao interceptar-lhe um golpe subsequente e tombando-o com uma sonora cacetada na nuca. Enquanto um inimigo baqueava de cara na neve e outro se contorcia enrolado no chão, agarrando a haste da lança cuja ponta lhe incendiava as vísceras, outros dois se aproximavam com mais uns quantos atrás de si, rejubilando com o derramar de sangue. Daevin desembainhou o seu facalhão e machada e enfrentou, temerário, a desigual investida. O primeiro tencionava fender-lhe a cabeça, porém o batedor desviou o golpe com a cunha e cabo firme da sua machada e retribuiu com um varar o seu facalhão no estômago do drahreg, finalizando com uma machadada nas costas que lhe despedaçou a coluna. Rodopiando em frente, Daevin deixou o morrente para trás e desviou com o facalhão o corte que o visava, trazendo então a machada num arco descendente de encontro à fronte do drahreg, escachando-lha. Com um pontapé e um violento puxão, o humano arrancou a cunha do crânio do adversário, que caiu vertendo sangue e fluidos cranianos da fenda na testa. Cruzando ambas as armas, Daevin virou-se e aparou uma espadeirada de um outro drahreg vindo do seu flanco, empurrando a arma para baixo com lâmina e cunha e passando-lhe de seguida o gume do facalhão pela garganta negra. Sangue quente respingou-lhe a face afogueada e urros de drahregs vindos de trás encheram-lhe os ouvidos. Uma lâmina evitada com uma passada 17


lateral rasgou o braço do drahreg que gorgolejava, agarrado à garganta, e quem a empunhava viu o seu controlo contestado pela cunha da machada que nela se enganchou. Daevin torceu o pulso e forçou o adversário a compensar, desequilibrando-se na tentativa de libertar a arma e criando uma aberta que o humano foi rápido a aproveitar, empurrando-lhe a ponta do facalhão debaixo do queixo pela boca até ao cerebelo. Uma dor lancinante ardeu atrás da perna do batedor, dobrando-lhe o joelho, e Daevin soube que fora atingido. O breve vislumbre que se permitiu ao seu ferimento revelou um farpão que fora arremessado pelo drahreg que agora corria na sua direcção, prestes a arrojar outro dardo. Com um possante arremesso, a machada do humano guinou até à cara do adversário, arrancando-lhe os pés do chão com o violento impacto e deitando-o por terra na qual ficou, vasquejando de costas arqueadas com a cunha embebida na cabeça. Desarmado, Daevin viu mais drahregs correrem por entre os pinheiros na sua direcção, revoltos e sedentos de sangue. O local era demasiado exposto, nunca os conseguiria enfrentar a todos. Arrancando o doloroso farpão da coxa tensa, que soluçou um quente jorro vermelho, o siruliano virou as costas aos atacantes e principiou a correr tropegamente pela encosta abaixo, com os uivos dos seus perseguidores a morderem-lhe os calcanhares. Uma trompa soou, um lamento ominoso e sonoro a ditar a sua sentença de morte. Pequenos vultos negros subiam a vertente na sua direcção e outros corriam por ela abaixo a alguma distância a seu lado, apertando o cerco. O chofre de um objecto arremessado fez-se sentir ao seu ouvido, mas o siruliano ignorou-o e aos que se lhe seguiram em rápida sucessão, acompanhados de praguejos, urros e berros. A adrenalina que lhe corria nas veias tolhia-lhe a dor na parte posterior da coxa, cujos músculos haviam sido perfurados, mas não impediu a perna de ceder com o esforço, o que fez com que o batedor caísse contra um pinheiro, cujos ramos lhe arranharam a cara enquanto passava através dele, vergando o tronco e rebolando descontroladamente pela encosta abaixo de encontro a uma árvore mais sólida que o reteve bruscamente. Atordoado, Daevin ergueu-se, escorregando e deslizando às cambalhotas para baixo apesar de se tentar apoiar no farpão, e ao conseguir, por fim, parar, viu que vários drahregs se aproximavam, afoitados pelo soar da trompa, subindo a largas passadas o sopé, enquanto os seus companheiros praticamente patinavam pela encosta abaixo. Avaliando as suas probabilidades, o siruliano soube que apenas na zona mais arborizada da base da montanha poderia sequer considerar a hipótese de 18


sobreviver, o que o levou a seguir em frente, descendo na diagonal em direcção aos pinheiros. Os algozes que subiam já estavam próximos o suficiente para que o batedor lhes conseguisse ver os olhos vermelhos, e apercebeu-se de que o iriam interceptar a meio do caminho se continuasse a seguir a sua trajectória, pelo que optou por uma abordagem diferente. Apelando a toda a força da sua perna boa, saltou como um bode da montanha, aterrando com todo o seu peso em cima de um drahreg mais ousado e impulsionando-se para longe dele com as pernas, empurrando-o para trás e contra alguns dos seus companheiros. Completamente desequilibrado, o siruliano caiu ele também e tornou a rebolar pela neve, lesionando as costelas ao tentar manter um aperto firme no cabo do farpão, a sua única arma. Quando conseguiu, por fim, controlar a sua descida, Daevin ergueu-se desajeitadamente, esbofeteando a neve para fora do cabelo e da cara de modo a poder ver os seus agressores. Não pôde deixar de reparar no rasto de sangue que deixara pela encosta e que os drahregs espezinhavam, e mesmo com a dor tolhida pela adrenalina, o Batedor sentia o calor húmido que lhe escorria pela perna abaixo, calor esse que o ia abandonando gradualmente. Rilhando os dentes, Daevin bradou uma exclamação belígera em Eridiaith e, apesar de não pararem, os drahregs que estavam prestes a cair-lhe em cima vacilaram por um instante que o Batedor não desperdiçou. Varreu as pernas de um inimigo do chão, derrubando-o, e cravou a ponta do farpão na barriga de outro, calcando a cabeça do que tombara enquanto o fazia. Um terceiro ainda oscilou desajeitadamente a sua espada curva, mas Daevin evitou o golpe, baixando-se e, acompanhando o movimento, deixou que o ímpeto da descida fizesse com que o drahreg esbarrasse e passasse por cima de si. O siruliano baixou-se e crispou os dedos no punho da espada embainhada do drahreg cuja cabeça pisoteara, pulando para trás de modo a evitar uma espadada e desembainhando a arma ao mesmo tempo. Brandindo a cruel lâmina com as duas mãos, o Batedor bateu-se brevemente contra dois adversários, atingindo um com uma finta alta seguida de um corte baixo no joelho, bloqueando o golpe do outro com uma parada dura na qual aproveitou a proximidade para agarrar o pulso do adversário, torcendo-lho bruscamente. O drahreg uivou e arqueou as costas, deixando-se vergar pela dor e convidando a ponta da espada do siruliano para o seu pescoço exposto. Antes que pudesse libertar a arma da garganta do moribundo, um corpo abateu-se pesadamente sobre Daevin, levando-o consigo a rebolar pela encosta abaixo uma vez mais. O fedor azedo do drahreg encheu-lhe as narinas, e a 19


sua boca ficou tapada por cabelos ensebados enquanto o mundo andava às voltas e uma voz rouca e vil grunhia pela sua morte. Algo frio e afiado enterrou-se no flanco do Batedor. Agindo puramente por instinto, o siruliano conseguiu agarrar a cabeça do adversário com as duas fortes mãos e, aquando de uma cambalhota de costas, partiu-lhe o pescoço. O curto trajecto terminou em dor quando Daevin baqueou sobre o punhal cravado no flanco, sentindo o gume roçar-lhe uma costela. Tirando o drahreg desajeitadamente de cima de si, o Batedor crispou os dedos no punho do punhal, puxando-o com um brusco grunhido, pois o gume da lâmina tinha falhas que agiram como farpas na sua carne e pele. Agarrando a pequena arma pelo pomo, Daevin arremessou-a contra o inimigo mais próximo, atingindo-o em cheio na traqueia e virou as costas aos que vinham atrás dele, continuando a sua cambaleante descida, empurrando ramos de pinheiros para fora do seu caminho. Já ouvia a água a correr; estava perto do riacho, mas o soar da trompa e os urros perseguiam-no e naquele momento o siruliano soube que não conseguiria escapar. As passadas e os arquejos de um drahreg atrás de si deixavam bem claro que estava a abrandar fatalmente e que a sua hora se aproximava. Pois que fosse. O Batedor chegou por fim ao riacho, mas não teve sequer tempo de se virar ou olhar em redor antes que o seu perseguidor lhe saltasse para as costas, caindo com ele dentro da água rasa, cujo frio lhe queimou a cara, alastrando-se através da gola pelo peito abaixo. Unhas fincaram-se-lhe no couro cabeludo e duas mãos grosseiras empurraram-lhe a cara contra os seixos do rio, mantendo-lhe a cabeça dentro de água. Instintivamente, a mão direita de Daevin ergueu-se e procurou algo, encontrando uma nuca e cerrando os dedos em cabelo entrançado. A esquerda foi de imediato ao seu encontro e ambas envolveram a nuca do drahreg num possante amplexo, começando a puxar-lhe a cabeça. O seu adversário resistiu, empurrando a cara do Batedor para baixo, e os membros de humano e drahreg tremeram por breves instantes, mas a força do siruliano acabou por provar ser superior e o seu oponente cedeu, indo com a cara de encontro às próprias mãos, esborraçando o nariz contra elas. Daevin estrebuchou, batendo na água com braços e pernas antes de se conseguir erguer, vacilante, e o drahreg fez o mesmo, cambaleando para trás com uma mão no nariz e a outra freneticamente à procura do punho da espada. O Batedor baixou-se e pegou num pesado calhau enquanto o seu adversário se distanciava, cego de lágrimas e dor. Quando investiu, o drahreg 20


golpeou-o desastradamente e a lâmina vibrou agudamente contra a pedra molhada. Daevin pontapeou o inimigo no estômago, o que fez com que este se curvasse, e trouxe o calhau com ímpeto para baixo, partindo-lhe o crânio e caindo com ele. A força do Batedor estava a esvair-se-lhe pela perna, mas o contacto com a água gelada manteve os seus sentidos despertos e apressou-se a apoderar-se da espada do adversário morto, erguendo-se. Podia ouvir os restantes drahregs a aproximarem-se, incitados pelo mugir da trompa. O siruliano olhou em redor, avaliando as suas opções, e soube que estas haviam diminuído drasticamente quando viu o que descia pelo vale, lastrando como um edema na brancura do sopé. Um exército marchava a passo acelerado na sua direcção, as suas fileiras entusiasmadas com a trompa que parecia descer pela encosta abaixo. Fileiras. Desde a Guerra da Hecatombe que Daevin não via tantos: drahregs negros e terríveis, armados de farpas e aço cruel; catervas de pequenos e pardos ulkekhlens numa correria desenfreada, tentando evitar serem pisoteados, arrastando carretas de mantimentos e equipamento; enormes e massivos ogroblins, derribando todos para fora do seu caminho. Daevin soube então que não podia correr mais. Não correria mais. Morreria ali. Tomada esta decisão, o siruliano pegou com a mão livre num saquete que tinha preso ao pescoço por uma tira de couro e puxou, partindo-a. Com os dentes, tirou o que sobrou da tira e abriu o invólucro, despejando as folhas de teixo secas e pulverizadas que continha para dentro da boca. Iria morrer lutando, mas mesmo morto causaria baixas nas forças d’O Flagelo, pois sabia bem o que drahregs faziam com os corpos dos seus inimigos... Mastigando, o Batedor foi incapaz de evitar uma careta devido ao sabor amargo do suco venenoso, que teve dificuldade em engolir devido à secura da sua garganta. Drahregs irromperam dos pinheiros, urrando pelo seu sangue. Calmamente, o Batedor colheu um pouco de água com a mão e levou-a à boca, engolindo. As botas dos drahregs chapejaram no riacho. Brandindo a espada serenamente, o siruliano recitou a elegia dos caídos na batalha, sentindo o veneno a acalentar-lhe o estômago. — Eis chegada a minha hora; — aparou o golpe do primeiro adversário e girou em si, talhando-lhe as costas — Irmãos, de vós me despeço; — sem sequer olhar, impeliu a ponta da lâmina para trás, enterrando-a no ventre de outro — Todas as minhas faltas; — a ponta de uma lâmina puncionou-lhe a ilharga — Todos os erros que cometi; 21


— oscilando a espada com as duas mãos, decapitou o drahreg que o ferira — Atenuo agora com a minha vida; — desviou uma estoqueadura, que mesmo assim lhe lacerou o braço — a elevado preço vendida à Sombra; — estocou em frente, penetrando a defesa e o peito do seu algoz — Por Sirulia, por Allaryia; — uma possante varredela sua retiniu nas espadas de quatro oponentes, afastando-os, e Daevin caiu de joelhos — Pela memória de Sirul... Um urro, e uma lâmina cruel ceifou-lhe a face. O seu corpo iria ser profanado e devorado. O veneno mataria muitos mais. Cumprira o seu dever.

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Mares_Negras  

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