Page 1

PRIMEIRA PARTE Dan & Carmen


What the hell am I doing here, I don’t belong here…1 Radiohead, de «Creep» (Pablo Honey, 1993)

Um

O tempo médio da viagem está a diminuir a bom ritmo, penso enquanto atravesso a porta giratória do Hospital Sint Lucas pela terceira vez em muitos dias. Hoje temos de ir para o primeiro piso, sala 105, diz no cartão de marcação da Carmen. O corredor onde é suposto estarmos encontra-se pejado de pessoas e, quando estamos prestes a instalar-nos entre elas, um homem idoso com um capachinho em que é impossível não reparar aponta para a porta com a bengala. — Têm de ir ali dentro primeiro e dizer-lhes que estão aqui. Anuímos com a cabeça e entramos nervosamente na Sala 105. Dra. W. H. F. Scheltema, especialista em medicina interna, anuncia o pequeno letreiro junto à porta. O compartimento no interior é a sala de espera propriamente dita — vejo agora que o corredor é para a afluência excessiva de pessoas. Quando entramos, a média de idades subitamente diminui umas quantas décadas. Os outros pacientes lançam-nos olhares intensos e compassivos. Os hospitais também têm as suas hierarquias. Somos claramente novos neste lugar, somos os turistas da sala de espera e não pertencemos aqui. Mas o cancro no seio da Carmen tem outros planos. 1

Que diabo faço aqui, não pertenço aqui… (NT)

17


Sentada numa cadeira de rodas do hospital, uma mulher de sessenta anos, que agarra com a sua mão ossuda um cartão de marcação plastificado idêntico ao da Carmen, olha-nos descaradamente de cima a baixo. Quando me apercebo, tento adoptar um ar de superioridade — a minha mulher e eu somos jovens, bonitos e saudáveis, já o mesmo não posso dizer de ti, meu monte granuloso de rugas velhas. Que nem vos passe pela cabeça, por um segundo que seja, que vamos ficar aqui. Estaremos longe desta espelunca de cancros enquanto o diabo esfrega um olho — mas a linguagem do meu corpo recusa-se a colaborar, denunciando a minha insegurança. Sinto-me como se tivesse entrado num bar de província e notado claramente nos olhares trocistas que sou um tipo de Amesterdão demasiado janota para ali estar. Quem me dera não ter escolhido a camisa vermelha e folgada com cordões de pele de cobra esta manhã. Reparo que também a Carmen se sente desconfortável. Ponto da situação: de agora em diante, pertencemos mesmo aqui. Também há um balcão de recepção na Sala 105. A enfermeira sentada atrás dele parece ler as nossas mentes. Prontamente pergunta se não preferíamos sentar-nos na salinha contígua. Vem mesmo a calhar, porque pelo canto do olho consigo ver que a Carmen desata novamente a chorar. Que alívio não termos de nos encafuar no meio dos cadáveres andantes que estão na sala de espera ou no corredor. — Deve ter sido um golpe terrível anteontem — diz a enfermeira quando regressa com o café. De imediato depreendo que o caso Carmen van Diepen veio à baila na reunião de serviço. A enfermeira olha para a Carmen e, em seguida, para mim. Tento manter-me firme. Uma enfermeira que acabo de conhecer não precisa de perceber o quão patético me sinto.

18


Os homens que cobiçam um grande número de mulheres poderão facilmente ser divididos em duas categorias. Uns procuram em todas elas a ideia que eles próprios têm da mulher tal como lhes aparece em sonhos, o que representa algo de subjectivo e interminável. Outros são movidos pelo desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo. Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser (1984)

Dois

Sou um hedonista com monofobia grave. O hedonista que existe em mim deslumbrou-se com a Carmen e de imediato se deu bem com ela. Todavia, o entusiasmo da Carmen pela minha angústia aterrorizada em relação à monogamia desde o início se mostrou bastante menor. A princípio, de certa maneira compreendia esta minha inclinação e achava divertidas as minhas relações férteis em infidelidades, encarando-as mais como um desafio do que como um aviso. Mas isso só aconteceu durante um ano — não estávamos a viver juntos —, ao fim do qual veio à tona que eu tinha fornicado a Sharon, a recepcionista da BBDvW&R/Bernilvy, a agência de publicidade onde trabalhava na altura. Aí teve a certeza de que eu nunca lhe tinha sido fiel ou mesmo tentado sê-lo. Anos mais tarde, disse-me que após o episódio Sharon esteve à beira de me deixar, mas apercebeu-se de que me amava demasiado. Em vez disso, fez vista grossa às minhas infidelidades e tratou-as como um defeito de carácter que não podia ser evitado. Se não podes vencê-los, junta-te a eles. Algo do género. Isso dava-lhe protecção emocional contra a ideia de que o seu marido estava «constantemente a enfiar o pau noutras mulheres». 19


Ainda assim, continuou ao longo dos anos a ameaçar que me deixava se alguma vez voltasse a fazer algo como aquilo. Queria ter a certeza de que, no mínimo dos mínimos, eu manteria as minhas escapadelas futuras em segredo. E funcionou. Durante os sete anos que se seguiram, fomos o casal mais feliz do hemisfério ocidental e arredores. Até há três semanas, quando a Carmen me telefonou numa altura em que eu e o Frank lutávamos para nos mantermos acordados, enquanto o gestor de produto do Holland Casino tagarelava.

20

Love_Life  

PRIMEIRA PARTE Dan & Carmen What the hell am I doing here, I don’t belong here… 1 17 Radiohead, de «Creep» (Pablo Honey, 1993) 1 Que dia...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you