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Antes que me esqueça...

Antes que me esqueça... Há muitos anos… Esperem, já sei o que estão a pensar. Estão a pensar que um livro sobre dragões devia começar com «Em tempos que já lá vão» ou «Era uma vez», mas este não começa assim. Por isso, deixem-me começar a nossa história com isto: Há muitos anos, numa vila a oeste da tua, numa quarta-feira, um coelho agricultor, a mulher e o filho de ambos, Kenneth, preparavam-se para jantar. Kenneth parece ser um nome um pouco formal para um rapazinho, não parece? Nenhuma criança diria «Kenneth, podes emprestar-me o teu lápis?». Não, todos 8 


Antes que me esqueça... diziam «Ken» ou «Kenny, podes emprestar-me o teu lápis?». E, sem dúvida alguma, o nosso Kenny nem reparava quando os colegas lho tiravam de cima da carteira, pois tinha sempre a cabeça enfiada num livro. Adorava ler sobre todo o tipo de assuntos: ciências, mistérios, história e até contos de fadas. Na verdade, os contos de fadas e história natural eram dois dos seus temas preferidos e, na sua opinião, ambos tinham a mesma importância no mundo real. Não admira, portanto, que Kenny gostasse de andar na escola. Fazia sempre perguntas interessantes, fazia sempre os trabalhos de casa (com notas de rodapé, bibliografia e tudo) e tinha sempre ideias fantásticas sobre o que queria ser quando crescesse. Num dia queria ser astronauta e conhecer extra-terrestres de um planeta distante. No dia seguinte, decidia que iria ser explorador da selva e que iria procurar dinossauros vivos ou que iria construir um submergível que fosse capaz de mergulhar nas profundezas dos oceanos em busca de cidades subaquáticas desaparecidas. Cada dia era uma coisa diferente. — Aquele miúdo tem uma imaginação! — dizia a professora de Inglês. — Os seus conhecimentos sobre a fauna e a flora locais são impressionantes! — dizia o professor de Ciências. 9 


Antes que me esqueça... — O Coelho Kenny? Ele é muito estranho — diziam os colegas de turma. E, até certo ponto, tinham razão. Tal como eles, Kenny crescera numa quinta e tanto o pai como a mãe eram agricultores. Descendiam de várias gerações de agricultores que cultivavam vegetais e criavam gado. Por isso os pais, tal como a maioria dos seus vizinhos, não tinham tempo para ler — estavam sempre demasiado ocupados a cuidar da quinta. — Não se colhe milho com um livro — costumava dizer a mãe. — Nenhum livro nos vai recolher as ovelhas ao fim do dia — dizia o pai. No entanto, independentemente do que pudessem pensar, os pais de Kenny faziam os possíveis por o apoiar em tudo o que fazia, sujeitando-se mesmo às suas longas teorias sobre este ou aquele assunto durante o jantar. — Sabem — dizia-lhes Kenny —, vai chover porque o ar frio e o ar quente colidem um com o outro na atmosfera. Isto dá origem à trovoada e faz com que a humidade, contida nas nuvens, caia sob a forma de chuva. — Pensava que ia chover porque as vacas se estão a deitar — respondia-lhe o pai, e a maioria dos habitantes da vila teria concordado com ele. 1 0 


Antes que me esqueça... Esperem um pouco… como se chamava essa vila? Não acredito que me tenha esquecido. Se bem me lembro, ficava perto de um curso de água. Dunhill? Não, isso fica na província do Norte… Meadow Falls? Também não; mas era um ribeiro ou um rio… Roundbrook? É isso mesmo! A vila tinha um contorno meio arredondado e era atravessada por uma ribeira. (Céus, nem acredito que quase me esqueci do nome! Não é coisa que um indivíduo na minha posição deva permitir-se.) Certo, então Kenny vivia com os pais nessa pequena vila rural, Roundbrook, frequentava a escola, fazia as suas tarefas na quinta e passava o resto do tempo a ler. E é precisamente isso que o encontramos a fazer no início da nossa história.

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Kenny_e_o_Dragao  

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