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AO PRÍNCIPE NOSSO SENHOR

Senhor.

Obediência, com que Vossa Alteza foi servido mandar-me dar à estampa os meus Sermões, é a que põe aos Reais pés de Vossa Alteza esta Primeira parte delles, tão diferentes na matéria, e lugares, em que foram recitados, como foi vária, e perpétua a peregrinação de minha vida. Se Vossa Alteza por sua benignidade, e grandeza, se dignar de os passar pelos olhos; entenderey que com a Coroa, e Estados del-Rey, que está no Céu, passou também a Vossa Alteza o agrado com que Sua Majestade, e o Príncipe D. Teodósio (enquanto Deus quis) os ouviam. Mas porque os afectos se não herdam com os Impérios; ainda será maior a mercê que receberei da clemência de Vossa Alteza se estas folhas, que ofereço cerradas, e mudas, se conservarem no mesmo silêncio, a que os meus anos me têm reduzido. Então ficará livre a rudeza destes discursos da forçosa temeridade, com que os exponho à suprema censura do juízo de Vossa Alteza tanto mais para se temer por sua agudeza, e compreensão, quanto o mundo presente o admira sobre todos, os que o passado tem conhecido. Deus nos guarde, e conserve a Real Pessoa de Vossa Alteza por muitos anos, para que nas gloriosas acções de Vossa


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Ao Príncipe Nosso Senhor

Alteza se desempenhe a nossa esperança do que em tantos dotes da natureza, e graça nos está prometendo. Colégio de Santo Antão em 21. de Julho de 1677.

António Vieira.

LEITOR

A folha que fica atrás (se a leste) haverás entendido a primeira razão, ou obrigação, por que começo a tirar da sepultura estes meus borrões, que sem a voz que os animava, ainda ressuscitados são cadáveres. A esta obrigação, que chamei primeira, como vassalo, se ajuntou outra também primeira como Religioso: que foi a obediência do maior de meus Prelados, o Reverendíssimo P. João Paulo Oliva, Prepósito Geral de nossa Companhia. Se conheces a Eminência desta grão cabeça pela lição de seus escritos (como não podes deixar de a conhecer pela fama, sendo o Oráculo do púlpito Vaticano em quatro sucessivos Pontificados) esta só aprovação te bastará para que me comeces a ler com melhor conceito daquele, que formarás depois de lido. Assim lisonjeia aos pais o amor dos filhos, e assim honram os sumamente grandes aos pequenos. Sobre estas duas razões acrescentavam outros outras, para mim de menos momento. E não era a menos delas a corrupção, com que andam estampados debaixo do meu


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Leitor

Leitor

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nome, e traduzidos em diferentes línguas muitos Ser-

tante é a formar doze corpos desta mesma, e ainda maior

mões, ou supostos totalmente, não sendo meus; ou sendo

estatura. Em cada um deles irei metendo dois, ou três Ser-

meus na substância, tomados só de memória, e por isso

mões dos já impressos, restituídos a sua original inteireza:

informes; ou finalmente impressos por cópias defeituo-

e os que se não reimprimirem entre os demais, supõe que

sas, e depravadas, com que em todos, ou quase todos, vie-

não são meus.

ram a ser maiores os erros dos que eu conheci sempre nos próprios originais.

Os que de presente tens nas mãos (e mais ainda os seguintes) serão todos diversos, e não continuados, espe-

Este conhecimento (que ingenuamente te confesso) foi

rando tu porventura, que saísse com os que chamas Qua-

a total razão, por que nunca me persuadi a sair a luz com

resmas, Santorais, e Mariais inteiros, como se usa. Mas

semelhante género de Escritura, de que o mundo está tão

o meu intento não é fazer Sermonários, é estampar os

cheio. Nem me animava a isto (posto que muitos mo ale-

Sermões que fiz. Assim como foram pregados acaso, e

gassem) o rumo particular que segui sem outro exemplo,

sem ordem, assim tos ofereço. Porque hás-de saber que

porque só dos que são dignos de imitação se fizeram os

havendo trinta e sete anos que as voltas do mundo me

Exemplares. Se chegar a receber a última forma um Livro,

arrebataram da minha Província do Brasil, e me trazem

que tenho ideado com título de Pregador, e Ouvinte Cris-

pelas da Europa, nunca pude professar o exercício de Pre-

tão, nele verás as regras, não sei se da arte, se do génio, que

gador, e muito menos o de Pregador ordinário, por não ter

me guiaram por este novo caminho. Entretanto se quise-

Lugar certo, nem tempo: já aplicado a outras ocupações

res saber as causas, por que me apartei do mais seguido, e

em serviço de Deus, e da Pátria, já impedido de minhas

ordinário no Sermão de Semen est verbum Dei, as acha-

frequentes enfermidades, por ocasião das quais deixei de

rás: o qual por isso se põe em primeiro lugar, como pró-

recitar alguns Sermões, não poucos, que já tinha preveni-

logo dos demais.

dos, e também agora se darão à estampa.

Se gostas da afectação, e pompa de palavras, e do estilo

Além desta diversidade geral acharás ainda neles outra

que chamam culto, não me leias. Quando este estilo mais

maior, pelas diversas ocasiões, em que os sucessos extra-

florescia, nasceram as primeiras verduras do meu (que

ordinários da nossa idade, e os das minhas peregrinações

perdoarás quando as encontrares) mas valeu-me tanto

por diferentes terras, e mares, me obrigaram a falar em

sempre a clareza, que só porque me entendiam, comecei a

público. E assim uns serão Panegíricos, outros Gratula-

ser ouvido: e o começaram também a ser os que reconhe-

tórios, outros Apologéticos, outros Políticos, outros Béli-

ceram o seu engano, e mal se entendiam a si mesmos.

cos, outros Náuticos, outros Funerais, outros totalmente

O nome de Primeira parte, com que sai este Tomo, promete outras. Se me perguntas quantas serão? Só te pode

Ascéticos, mas todos, quanto a matéria o permitia (e mais do que em tais casos se costuma) Morais.

responder com certeza o Autor da vida. Se esta durar à

O meu primeiro intento era dividir estas matérias, e

proporção da matéria, a que se acha nos meus papéis, bas-

reduzi-las a Tomos particulares, havendo número em cada


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Leitor

muitos mais dias para esta separação, e para estender, e

LICENÇAS.

vestir, os que estão só em apontamentos: por não dila-

Da Religião.

uma para justo volume; mas como seriam necessários

tar o teu desejo (o qual tanto mais te agradeço, quanto menos mo deves) irão saindo diante, e à desfilada, os que estiverem mais prontos. E creio te não será menos grata esta mesma variedade para alternar assim, e aliviar o fastio que costuma causar a semelhança. Por fim não te quero empenhar com a promessa de outras obras; porque se bem entre o pó das minhas memórias, ou dos meus esquecimentos, se acham (como na oficina de Vulcano) muytas peças meio forjadas; nem elas se podem já bater por falta de forças, e muito menos aperfeiçoar, e polir, por estar embotada a lima com o gosto, e

Eu Luís Álvares da Companhia de Jesu, Provincial da Província de Portugal, por particular concessão, que para isso me foi dada de Nosso Muito Reverendo Padre João Paulo Oliva, Prepósito Geral, dou licença, para que se imprima este Livro, Primeira Parte dos Sermões do Padre António Vieira da mesma Companhia, Pregador de Sua Alteza. O qual foi examinado, e aprovado por Pessoas doutas, e graves da mesma Companhia. E por verdade dei esta assinada com meu sinal, e selada com o selo de meu Ofício. Dada em Lisboa aos 18. de Setembro de 1677. Luís Álvares

gastada com o tempo. Só sentirei que este me falte para pôr a última mão aos quatro Livros Latinos de Regno Christi in terris consummato, por outro nome, Clavis Prophetarum, em que se abre nova estrada à fácil inteligência dos Profetas, e tem sido o maior emprego de meus estudos. Mas porque estes vulgares são mais universais, o desejo de servir a todos, lhes dá por agora a preferência. Se tirares dele algum proveito espiritual (que é o que só pretendo) roga-me a Deus pela vida: e se ouvires que sou morto, lê o último Sermão deste Livro, para que te desenganes dela: e tomarás o conselho que eu tenho tomado.

Do Santo Ofício. Vistas as informações, que se houveram, pode-se imprimir esta Primeira Parte dos Sermões do Padre António Vieira da Companhia de Jesu: e impressos tornarão, para se conferirem com o original, e se dar licença, para correrem, e sem ela não correrão. Lisboa 15. de Julho de 1678. Manuel Pimentel de Souza.

Manuel de Moura Manuel.

Fr. Valério de S. Raimundo.

Deus te guarde.

Do Ordinário. Pode-se imprimir o Primeiro Tomo de sermões do Reverendo Padre António Vieira da Companhia de Jesu, e Pregador de Sua Alteza. Lisboa 6. de Agosto de 1678. Fr. Cristóvão Bispo de Martyria.


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Licenças

PRIVILÉGIO REAL:

Do Paço. Pode-se imprimir vistas as licenças do Santo Ofício, e Ordinário: e depois de impresso tornará a esta Mesa, para se conferir, e taxar, e sem isso não correrá. Lisboa 30. de Agosto de 1678. Marquês Presidente.

Magalhães de Meneses.

Carneiro.

Mousinho.

da Graça 15. de Setembro de 679. Fr. Diogo de Teive.

Parte dos Sermões que oferece em um Tomo, que contém quinze: pedindo-me lhe fizesse mercê conceder privilégio por tempo de dez anos nenhum Livreiro, nem Impressor possa imprimir, nem vender o Livro dos Sermões referidos, nem mandá-lo vir de fora do Reino, sob pena de perdimento dos Volumes, que lhe forem achados, e de cinquenta

e valerá posto que seu efeito haja de durar mais de um ano,

Taxam este Livro de Sermões do Padre António Vieira, em mil e duzentos réis. Lisboa 18. de Setembro de 1679. Lampreia.

que tinha impresso com as licenças necessárias a Primeira

acusador. Este Alvará se cumprirá, como nele se contém,

F. C. B.

Rego.

o Padre António Vieira me representou por sua petição,

cruzados, a metade para minha Câmara, e a outra para o

Pode correr. Lisboa 15. de Setembro de 1679.

Magalhães de Meneses.

e Senhorios de Portugal, e Algarves. Faço saber, que

na forma do estilo, e visto o que alegou, hei por bem que

Está conforme com seu original. Convento de N. Senhora

Marquês P.

E

u o Príncipe como Regente, e Governador dos Reinos

Roxas.

Basto.

sem embargo da Ordenação do Livro 2 Título 40 em contrário. E pagou de novos direitos quinhentos, e quarenta réis, que se carregaram ao Tesoureiro deles Pedro Soares a folhas 63 do Livro 4 de sua receita. Luís Godinho de Niza o fez em Lisboa a trinta de Setembro de mil seiscentos setenta e nove. Joseph Fagundes Bezerra o fez escrever.

PRINCIPE. Marquês Mordomo-Mór. Alvará do Padre António Vieira, porque V. A. há por bem de lhe conceder privilégio por tempo de dez anos, para nenhum Livreiro, ou Impressor vender, nem imprimir, ou mandar vir de fora do Reino o Livro de Sermões de que trata, na maneira declarada. Para V. A. ver.


Abuzo

OAP

Dar-se por razão: não é costume na nossa terra, quão grande abuso seja.

Em outras ocasiões de negar se costuma escusar um Não com outro, e porque é modo muito ordinário, e usado, não é bem que passe sem exame, e sem censura. Negou Labão a Jacob o prémio de sete anos de serviço, em que se concertaram, e em lugar de Raquel (que foi pior que negar) como quem paga com moeda falsa, lhe introduziu a Lia. Descobriu a luz do dia o engano: queixou-se Jacob a Labão de lhe não ter dado a Raquel: Nonne pro Rachel servivi tibi? E que satisfação lhe daria Labão, que quer dizer o cândido? Desculpou um Não com outro Não, dizendo que não era costume da sua terra casarem em primeiro lugar as filhas segundas: Non est in loco nostro consuetudinis, ut minores ante tradamus ad nuptias. E é costume da


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das couzas mais notaueis

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vossa terra não cumprir o prometido? É costume da vossa

das dos tempos com a mesma pontualidade, e certeza

terra enganar? É costume da vossa terra mentir? É cos-

com que até agora se tinham observado, e estabelecido

tume da vossa terra faltar à justiça, e à razão, e dar por

na suposição contrária. O mesmo passa sem erro, e com

escusa, que não é costume? Passemos da terra de Labão

verdade nesta passagem nossa, e do mundo. Escolhei das

à nossa. Em toda a terra, como demostra Aristóteles, é

duas opiniões qual quiseres. Ou seja o Sol, o que se move,

Lei natural, que os Sábios governem, e mandem, e os que

ou nós os que nos movemos; ou o Sol se ponha para nós, ou

menos sabem, obedeçam, e sirvam. Em toda a terra é Lei

nós para ele; os efeitos são os mesmos. Ou no dia do Juízo

natural, confirmada com as Civis, que os que forem mais

o Ocaso seja do mundo, ou no dia da morte seja meu; ou

eminentes em cada género, subam aos maiores lugares, e

o mundo então acabe para todos, ou eu agora acabe para

tenham os primeiros prémios. Mas tira-se por excepção

o mundo; tudo vem a ser o mesmo, porque tudo acaba.

a nossa terra, na qual para alcançar estes prémios, e para

Assim como o mundo hoje ainda não é para os que hão-de

subir a estes lugares, não basta eminência dos talentos,

nascer, porque eles ainda não são; assim o mesmo mundo

nem dos merecimentos, se falta certo grau de qualidade;

já não é para nós, quando morremos, porque já não somos.

bastando só essa qualidade sem outro merecimento, nem talento, para pretender, e alcançar, ou alcançar sem pretender os mesmos lugares. Sermão da terceira Quarta-Feira da Quaresma, pregado no ano de 1670.

Acabar

. Tanto monta que o mundo se acabe

para mim, como eu para ele.

Sermão da primeira Dominga do Advento, pregado no ano de 1652.

Acerto

. Dos erros, e dos acertos, como do aço, e do cris-

tal se compõe o espelho cristão, ou político.

A melhor, e a pior coisa, que há no mundo, qual será? A melhor, e a pior coisa, que há no mundo, é o conselho. Se é bom, é o maior bem: se é mau, é o pior mal. A maior

Copérnico insigne Matemático do próximo século, inven-

maldade, que cometeu neste mundo a cegueira, e obsti-

tou um novo sistema do mundo, em que demostrou, ou

nação dos homens, foi a morte de Cristo: a maior miseri-

quis demostrar [posto que erradamente] que não era o

córdia, que obrou neste mundo a bondade, e piedade de

Sol o que se movia, e rodeava o mundo, senão que esta

Deus, foi a redenção dos homens. E ambas estas coisas

mesma terra, em que vivemos, sem nós o sentirmos, é a

tão grandes, e tão opostas, saíram hoje resolutas de um

que se move, e anda sempre à roda. De sorte, que quando

conselho: Expedit vobis, ut unus moriatur homo, ne tota

a terra dá meia volta, então descobre o Sol, e dizemos, que

gens pereat. Suposta esta primeira verdade de ser o con-

nasce, e quando acaba de dar a outra meia volta, então

selho o maior bem, e o maior mal do mundo, ou quando

lhe desaparece o Sol, e dizemos, que se põe. E a maravilha

menos a fonte dos maiores bens, e dos maiores males, qui-

deste novo invento, é, que na suposição dele corre todo o

sera eu hoje, que fosse matéria do nosso discurso a consi-

governo do universo, e as proporções dos astros, e medi-

deração dos bens, e males, que concorreram neste conse-


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das couzas mais notaueis

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lho. Este conselho, ou se pode considerar pela parte, que

meritórios como estes, como também o não foram outros,

teve de político, ou pela parte, que devia ter de Cristão.

que a mesma Senhora fez em sua vida. Bem se infere logo,

Pela parte, que teve de político, mostrou alguns ditames

que a Senhora teve maior graça do que houvera de ter, se

acertados: pela parte, que devia ter de Cristão, cometeu

Adão não pecara.

o mais enorme de todos os erros. E porque dos erros, e dos acertos, como do aço, e do cristal se compõem, e formam os espelhos; dos acertos, e dos erros deste conselho, determino formar hoje um espelho à nossa Corte. Será este espelho de tal maneira político para os Cristãos, e

Sermão de Nossa Senhora da Graça, pregado no ano de 1651.

Adonias

Por uma petiçãozinha que fez, perdeu a cabeça.

de tal modo Cristão para os políticos, que se possa ver, e

Oh se os Reis tantas vezes, e tão injuriosamente tentados,

compor a ele um Conselho, e um Conselheiro, e também

ao menos, não consentissem na tentação! Não digo, que

um Aconselhado.

castiguem severamente algumas petições, posto que imi-

Sermão da Sexta-Feira de Quaresma, pregado no ano de 1662.

Adam

Se Adão não pecara, sendo Maria Mãe de Deus, não havia de ter tanta graça como hoje tem.

tariam nisso a Salomão, o qual por uma petiçãozinha [que assim lhe chamou a intercessora: Petitionem parvulam] mandou cortar a cabeça a Adonias. E verdadeiramente há petições, que bem interpretadas, são libelos infamatórios dos mesmos Príncipes, em cujas mãos se metem. Por-

Mais. Em caso que Adão não pecara, como podia não

que se são dolosas, como era esta de Adonias, supõem que

pecar, perguntam os Teólogos, se havia Deus de fazer-se

são néscios: se são exorbitantes, supõem que são pródigos:

homem? E resolvem mais comummente, que sim. Neste

se são contra os Cânones Apostólicos [como são muitas]

caso a Virgem Senhora nossa havia de ter graça propor-

supõem que não são Católicos: E de qualquer modo que

cionada à dignidade de Mãe de Deus, e contudo não havia

peçam, o que não é justo, supõem que são injustos. Mas

de ter muita parte da graça, que hoje tem. Provo. Porque

se antes de fazerem as petições supuserem, e se desenga-

naquele estado não havia de haver os desamparos do Pre-

narem que nenhuma coisa hão-de conseguir senão o que

sépio, nem as perseguições de Herodes, nem os desterros

ditar a inteira, e recta justiça, eles se comporão com a sua

do Egipto, nem a espada de Simeão, nem as peregrina-

ambição, e tomarão por partido o não pedir: Non petam.

ções de Judeia: não havia de haver Pretório de Pilatos, nem

Notai onde está o Non: e vede quanto mais conveniente é

Calvário, nem Cruz, nem espinhos, nem lança, nem Sole-

para o vassalo, e mais expediente para o governo, e mais

dades, nem outras tantas ocasiões de padecer, e merecer,

decente para o Rei o Não antes do petam, que depois

que foram consequências do pecado de Adão. É verdade,

da petição. É mais conveniente para o vassalo, porque

que em lugar destes actos sempre a Virgem havia de fazer

melhor lhe está, que desenganado tome por si mesmo o

outros muitos dignos de graça; mas não haviam de ser tão

Não, e o ponha antes das suas petições, que ouvi-lo depois


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Indice

das couzas mais notaueis

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delas. É mais expediente para o governo, porque cessando

cidas ainda são piores; porque um entendimento agudo

o tumulto, e inundação dos requerimentos, que verdadei-

pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agu-

ramente o afogam, terão, mais fácil expedição os negó-

deza com outra maior, mas contra vontades endureci-

cios. E finalmente é mais decente, e decoroso para o Rei,

das nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais;

porque nenhum que vier buscar o prémio, ou o remé-

porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facil-

dio aos pés da Majestade, se apartará deles descontente.

mente se despontam na pedra. Oh Deus nos livre de von-

Virão a ser por esta via todas as petições da nossa Corte,

tades endurecidas, que ainda são piores que as pedras.

como as que se despacham na do Céu. David dizia a Deus: Intret postulatio mea in conspectu tuo: Entre, Senhor, a minha petição ao vosso conspecto. Nas Cortes da terra deseja o pretendente que saia a sua petição, na do Céu deseja que entre; porque uma vez que a petição foi tal que

Sermão da Sexagésima, pregado no ano de 1655.

Aguia

A grande Águia do mundo é Espanha, as duas asas desta Águia Portugal, e Aragão.

pudesse entrar, infalivelmente sai despachada. Assim

Et datae sunt mulieri alae duae Aquilae magnae, ut vola-

será cá também, se ninguém pedir senão o que for justo;

ret: E a esta mulher, diz S. João, foram-lhe dadas duas asas

porque o Rei justo à petição justa nunca pode dizer Não.

da Águia grande, para que voasse com elas. A Águia é a

Sermão da terceira Quarta-Feira da Quaresma, pregado no ano de 1670.

Agudeza

Entre uns, e outros, piores os duros, que os agudos.

Rainha das Aves: e mulher com asas de Águia, é mulher com prerrogativas Reais, é mulher com circunstâncias de Rainha. Mas notai que não só diz, que se deram à mulher duas asas de Águia, senão duas asas de Águia grande: Datae sunt mulieri duae alae Aquilae magnae. Agora per-

Os piores ouvintes, que há na Igreja de Deus são as pedras,

gunto: qual é neste mundo a Águia grande, e quais são as

e os espinhos. E porquê? Os espinhos por agudos, as pedras

duas asas desta Águia? A Águia grande não há dúvida que

por duras. Ouvintes de entendimentos agudos, e ouvintes

é Espanha, a mais dilatada Monarquia de todo o universo:

de vontades endurecidas, são os piores que há. Os ouvin-

Águia Real coroada de tantas coroas. As duas asas desta

tes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque

Águia também não há dúvida que são o Reino de Aragão de

vêm só a ouvir subtilezas, a esperar galantarias, a avaliar

uma parte, o Reino de Portugal da outra. Não é divisão, ou

pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não

distinção minha, senão de todos os Cosmógrafos, os quais

pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espi-

dividem a Espanha em três partes, ou três Espanhas: His-

nhos, antes os espinhos o picaram a ele: o mesmo sucede

pania Betica, Hispania Tarraconensis, Hispania Lusita-

cá. Cuidais que o Sermão vos picou a vós, e não é assim;

nica. O corpo, e a cabeça desta grande Águia é a Espanha

vós sois o que picais o Sermão. Por isto são maus ouvintes

Bética, que compreende as duas Castelas. Uma das asas é

os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endure-

a Espanha Tarraconense, isto é, Aragão, que de Tarragona


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das couzas mais notaueis

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se disse Aragona: a outra asa é a Espanha Lusitânica, isto

nio a vos entregar? Vós aos pés de Judas, a quem chamas-

é Portugal, que de Luso se disse Lusitânia. Ao ponto agora.

tes Demónio: Ex vobis unus diabolus est? Ainda é maior,

Tendo o Céu engrandecido tanto a Isabel, tendo-a subli-

e mais fundada a minha admiração. Diz expressamente

mado a um lugar tão alto de perfeição, tendo depositado

S. Lucas, que antes deste acto, e deste dia já o Demónio ti-

nela tudo o precioso, e lustroso de seus tesouros, e graças;

nha entrado em Judas. Intravit Satanas in Iudam, & quae-

que fez Deus? Datae sunt mulieri duae alae Aquilae mag-

rebat oportunitatem, ut traderet illum: venit autem dies

nae: ajuntou, e acrescentou a esta prodigiosa mulher as

azimorum, in quo oportebat occidi Pascha. Pois se Judas

duas asas Reais da grande Águia de Espanha, por nasci-

não só é Demónio por maldade, mas em Judas está por rea-

mento a de Aragão, e por casamento a de Portugal. E para

lidade o mesmo Demónio, como se ajoelha Cristo diante de

quê? Ut volaret: para que levantada sobre estas duas asas a

Judas? A figura em que o Demónio tentou a Cristo quando

santidade de Isabel, o grande dela crescesse à maior gran-

disse: Si cadens adoraveris me: era de homem, e não de

deza, o alto subisse à maior altura, o luminoso à maior luz,

Demónio: Judas, em quem agora está o Demónio, também

o celeste à mais celeste, e à mesma santidade a mais Santa.

é homem: como pois se ajoelha Cristo a um homem, que

Santa Isabel, porque Santa, e maior Santa, porque Rainha.

é Demónio, e dentro do qual está o Demónio? Aqui vereis

Sermão da Rainha Santa Isabel, pregado no ano de 1674.

Ajuelhar

Não conseguiu o Demónio, que Cristo

se lhe ajoelhasse, quando lhe ofere-

ceu o mundo; mas quando lhe quis tirar uma Alma, se não conseguiu, que se ajoelhasse a ele (o que não podia ser) conseguiu que se ajoelhasse diante dele. Esta foi a tentação que o Demónio reservou para a última batalha. Mas ainda que nesta ocasião fez o tiro a Cristo com muitas almas, já antes dela o tinha feito com uma só, não oferecendo-lha, mas querendo-lha roubar. Para o Demónio roubar a Cristo a alma de Judas, persuadiu-

-lhe a traição. E que fez o bom Pastor, para tirar dos den-

quanto vale uma alma; e quanto vale mais que o mundo todo. Por todo o mundo não dobrou Cristo o joelho, nem o podia dobrar a um Demónio transfigurado em homem: e por uma alma lançou-se de joelhos aos pés de um homem, que era Demónio, e tinha dentro de si o Demónio. Por todo o mundo não conseguiu o Demónio, que Cristo se ajoelhasse a ele: por uma alma, se não conseguiu, que se ajoelhasse a ele, conseguiu, que se ajoelhasse diante dele. Sermão da primeira Dominga da Quaresma, pregado no ano de 1655.

Alexandre

Filipe de Macedónia gostava que em sua vida lhe tirassem os vas-

salos o nome de Rei, e o dessem a seu filho Alexandre.

tes do lobo aquela ovelha? Lançou-se aos pés do mesmo

Do descanso desta vida, passemos ao da outra. Todos dize-

Judas para lhos lavar. Cum jam diabolus misisset in cor,

mos, que queremos ir ao Céu, e não há dúvida, que todos

ut traderet eum Iudas, caepit lavare pedes Discipulorum.

queremos. Mas noto eu, que parece, queremos chegar lá

Senhor meu, vós aos pés de Judas, persuadido pelo Demó-

com a cabeça. Os Castelos, que formamos nas nossas, são


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das couzas mais notaueis

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como zimbório da Torre de Babel: Cujus culmen pertin-

o seu pão com o suor do seu rosto. Boa razão parece tam-

gat ad Caelum. Subir, e mais subir, crescer, e mais cres-

bém esta. O pregador há-de pregar o seu, e não o alheio.

cer. Os pequenos querem ser grandes, os grandes querem

Por isto diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho

ser maiores, os maiores não sei, nem eles sabem o que

o trigo seu: Semem suum. Semeou o seu, e não o alheio,

querem ser: Superbia eorum ascendit semper. Ninguém

porque o alheio, e o furtado não é bom para semear, ainda

se contenta com a estatura, que Deus lhe deu: e não há

que o furto seja de ciência. Comeu Eva o pomo da ciência,

homem tão pigmeu, ou tão formiga, que não aspire a ser

e queixava-me eu antigamente desta nossa Mãe, já que

Gigante. Para conquistar o Céu, assim o dizem as Fábu-

comeu o pomo, porque lhe não guardou as pevides. Não

las, mas não são estes os Textos do Evangelho, olhai o que

seria bem que chegasse a nós a árvore, já que nos chega-

diz Cristo: Nisi efficiamini sicut parvuli, non intrabitis in

ram os encargos dela? Pois porque o não fez assim Eva?

Regnum Caelorum. Se vos não fizerdes pequeninos, não

Porque o pomo era furtado, e o alheio é bom para comer;

haveis de entrar no Reino do Céu. Notai muito a palavra:

mas não é bom para semear: é bom para comer, porque

Non intrabitis: Que é muito para notar, e para tremer.

dizem que é saboroso: não é bom para semear, porque

Se a dúvida estivera em ser pequeno, ou grande no Céu,

não nasce. Alguém terá experimentado que o alheio lhe

bem creio eu da nossa devoção, que não fizéramos muito

nasce em casa; mas esteja certo, que se nasce, não há-de

escrúpulo de ser pequenos no Céu, contanto que fôramos

deitar raízes: e o que não tem raízes, não pode dar fruto.

grandes na terra. Grandes digo, porque falo pela vossa lin-

Eis aqui porque muitos pregadores não fazem fruto, por-

guagem. Um Gentio, que sabia melhor que nós medir as

que pregam o alheio, e não o seu.

grandezas, dizia, que indignamente se dera a Alexandre Magno, o nome de Grande, posto que tivesse dominado a terra: porque ninguém pode ser grande em um elemento tão pequeno. Grandes, só no Céu os pode haver. Mas a dúvida (como dizia) não está em ser grande, ou pequeno no Céu, está em entrar lá, ou não entrar: Non intrabitis. Sermão da quinta Dominga da Quaresma, pregado no ano de 1651.

Alheio

O Pregador há-de pregar o próprio, e não o alheio.

Sermão da Sexagésima, pregado no ano de 1655.

Alma

Não há coisa, porque se possa vender, ou trocar a Alma, ainda que seja por todo o mundo.

Caio César, como refere Séneca, mandou de presente a Demétrio duzentos talentos de prata, que fazem hoje da nossa moeda mais de duzentos mil cruzados. Não creio, que haveria na nossa Corte quem não beijasse a mão Real, e aceitasse com ambas as mãos a mercê. Era porém Demétrio Filósofo Estóico, como se disséssemos, Cristão daquele

Muitos pregadores há, que vivem do que não colheram, e

tempo: E que respondeu? Si tentare me constituerat, toto

semeiam o que não trabalharam. Depois da sentença de

illi fui experiundus imperio. Andai, levai os seus talentos

Adão, a terra não costuma dar fruto, senão a quem come

ao Imperador, e dizei-lhe, que se me queria tentar, que


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