Page 1

INTRODUÇÃO Pegada social

A ilha de Salina pertence ao arquipélago das Eólias, no Sudoeste de Itália, acima da Sicília. Visitei a ilha pela primeira e, até agora, única vez em 2000 quando estava a passar um Verão naquela zona do Mediterrâneo. O Etna estava em plena erupção e toda a Sicília se encontrava coberta de cinzas, o que tornava a nossa vida meio cinzenta. Estávamos na Catânia e insisti com uns amigos que queria conhecer a ilha onde foi filmado O Carteiro de Pablo Neruda. As Eólias são sete colinas verdes, de origem vulcânica, perdidas na vastidão do Mediterrâneo, como pontos num quadro minimalista. A casa de Pablo Neruda ficava do lado oposto ao do pequeno porto de betão armado onde o nosso barco atracou. Era um dia muito quente de Agosto. Tão quente que o calor parecia penetrar a nossa pele. O tipo de calor que provoca arrepios. Atravessámos a ilha ao som metálico de um motorino alugado e fomos parando em pequenos recantos precipitados sobre o mar. Almoçámos uma salada caprese numa dessas varandas. Sentados em toscas cadeiras de madeira, debaixo de uma videira acolhedora, pudemos desfrutar em pleno da magnífica vista sobre o arquipélago rodeado do azul sereno do céu e do Mediterrâneo. A ilha não deve ter mais de três ou quatro caminhos principais, pelo que foi muito fácil encontrar o que leva ao promontório e daí até à «praia das metáforas», aquela estreita língua de areia 13


INTRODUÇÃO

preta, debaixo de uma escarpa, onde Pablo Neruda ensinou ao carteiro Mario o efeito das «metáforas» no coração das mulheres. Pouco abaixo da varanda onde o poeta dançava com a sua Matilde, havia um pequeno porto de pescadores, com uma exígua plataforma em pedra que mergulhava na água e junto à qual se viam carcaças de velhos barcos a remos com a tinta a descascar. No regresso das Eólias, enviei um SOS, em forma de SMS, à minha namorada da altura, para que nunca me deixasse ficar demasiado submerso em trabalho a ponto de esquecer a beleza do mundo que nos rodeia e que a vida vale a pena ser vivida. Caiu bem, foi romântico e deve ter despertado nela mais do que um breve sorriso. Os reflexos do sol cintilavam no mar, como se cardumes de peixes assomassem à superfície proporcionando um quadro de beleza deslumbrante. Este foi um episódio isolado da minha vida que então se regia por uma única e simples orientação: trabalhar e acumular dinheiro. Tudo o resto deveria permanecer imperturbável até que essa primeira hercúlea tarefa estivesse realizada. «Acumular» é a forma convencional de colocar as coisas… porque na verdade, no meu caso, tratava-se mais de «ambicionar» do que «acumular». Assim vivi, sob o signo do cifrão, até ao fatídico ano de 2005. Reflectindo hoje sobre essa época, percebo que não vivi cinco anos, mas vivi cinco vezes o mesmo ano, num estado de dormência dos sentidos, na rotina insípida de casa-trabalho-trabalho-casa, sem contacto com amigos e pouco tempo para os filhos. Tinha montado duas empresas que iam de vento em popa, com negócios no Brasil, em Espanha e em Moçambique. Duas empresas antes dos trinta anos pode parecer significativo, mas para mim não era mais do que o fruto merecido das quase cem horas semanais que dedicava ao trabalho. * * * 14


HORIZONTES EM BRANCO

Às vezes, quando pensamos que temos tudo previsto para as próximas décadas e que já nada nos pode surpreender, vem a vida à socapa trocar-nos os planos. Não que com isso venha necessariamente grande mal ao mundo, mas há situações que nos obrigam a parar para pensar e algumas vezes a reequacionar as nossas opções. Entre Março e Julho de 2005, tudo mudou nas empresas devido a um conjunto de imponderáveis coincidentes. Nesse ano, no início de Agosto, foi diagnosticado à minha mãe um aneurisma no cérebro. Em poucas semanas vi-me mergulhado num turbilhão de problemas pessoais, profissionais e financeiros. Durante muitos meses seguidos, abatido pela doença e difícil recuperação da minha mãe, andei exaurido de toda a energia vital necessária para voltar a colocar de pé a minha vida profissional. Fui reagindo aos poucos, durante os dois anos seguintes, encontrando pequenas bolsas de energia em elementos da minha vida que tinha relegado para segundo plano. O meu dia-a-dia tornou-se uma manta de retalhos de pequenos prazeres que afastavam o meu pensamento da evidência desanimadora de que o meu trabalho simplesmente não estava a atingir o objectivo que eu havia traçado aos vinte anos — tornar-me rico antes dos trinta. Quando finalmente consegui voltar a suster-me nos meus próprios pés, no início de 2007, tinha encontrado realização em muitos outros campos da minha vida, e a carreira em si mesma já não me preenchia. Se por um lado gostava mesmo do meu trabalho (na maior parte do tempo), por outro não me reconhecia na resposta à corriqueira pergunta «o que é que tu fazes?». O trabalho passou a ser apenas mais uma componente de realização pessoal, no meio de várias outras que (pasme-se!) não me traziam absolutamente nenhum dinheiro a ganhar. Com grandes benefícios pessoais e grandes inconvenientes profissionais, tinha acabado de quebrar o paradigma taylorista 15


INTRODUÇÃO

da especialização e como que renasci orientando os meus interesses para a arte, a literatura, o desporto, a cultura, as viagens, etc. Desde muito cedo, senti que os meus valores e filosofia de vida chocavam com ávidos interesses económicos que pareciam ser a doutrina a seguir. Talvez tenha sido exactamente por isso que me forcei a imergir nesse mundo, repudiando qualquer pensamento que não fosse relacionado com dinheiro. Como num processo dialéctico, enveredei pela antítese daquilo que eu sou, na tentativa de que germinasse em mim algo de novo, que me identificasse mais com os meus pares. Esperava que, em última instância, essa atitude se tornasse um pouco mais natural para mim. Acho que fingi bastante bem, durante um tempo, mas nunca conseguir asfixiar o apelo interior de viver segundo os meus princípios. O que me inquietava principalmente era a ideia de entrega absoluta e incondicional, de abdicar de tudo o resto em função do trabalho. Sou um conciliador por natureza, com muito pouca inclinação para fundamentalismos histéricos. Acredito que se deve sempre almejar um equilíbrio, principalmente na dinâmica vida-trabalho. Ver o dinheiro como fim último parecia-me agora ser uma atitude pouco digna; só o produto final do trabalho deveria ser considerado um objectivo nobre. Comecei a sentir que pelo menos uma parte do meu tempo devia ser dedicada a uma actividade altruísta, que transcendesse o meu pequeno universo narcisista e que desse algum significado à minha breve passagem pela Terra. Por mais banal que possa parecer, queria que o mundo ficasse um pouco melhor depois de mim. Nessa altura, na ausência de causas válidas a que me dedicar, não tinha como canalizar esta energia, mas a semente estava lá, à espera que chegasse o tempo certo para medrar. * * * 16


HORIZONTES EM BRANCO

Para mim, nessa época, a catástrofe ecológica apregoada pelos media não passava de mais uma falácia exacerbada para gerar dinheiro, não sabia bem como. Provavelmente mais importante do que a minha pegada ecológica era a minha noção de «pegada social», o meu impacto nos outros seres humanos, a começar pelos meus filhos e pelas pessoas de quem gosto. Até que ponto a minha devoção cega ao trabalho era um benefício a longo prazo para os meus filhos? Até quando estaria disposto a ignorar as pessoas à minha volta por estar demasiado concentrado no trabalho? Em Outubro de 2007, perante a revelação chocante de que os glaciares do Quilimanjaro, apelidados de «eternos» por Hemingway, estavam a poucos anos da extinção completa, e ainda sem suspeitar das implicações humanas desse problema, comecei a sentir o desejo de dedicar as minhas energias a esta causa. Após uma breve pesquisa na Internet, percebi que, de acordo com o professor Lonnie Thompson, da Universidade de Ohio, alguns glaciares deverão desaparecer totalmente entre 2015 e 2020. No seguimento da minha pesquisa sobre o tema, compreendi também os efeitos nefastos que o desaparecimento desses glaciares terão na subsistência das populações locais (cerca de um milhão de pessoas que vivem na dependência das suas águas). Nesse momento apercebi-me de que a maioria das minhas ideias sobre o aquecimento global estavam erradas. Por um lado, o fenómeno estava a acontecer AGORA, não era algo com que apenas a geração de meus netos se iria preocupar. Por outro, tinha um impacto humano dramático, não era somente um flagelo paisagístico. Essa revelação abalou-me profundamente — como nenhum outro documentário, estudo ou gráfico me impressionara até então. Só aí tomei verdadeiramente consciência do problema e comecei a pouco e pouco a alterar os meus comportamentos diários. Imaginei que provavelmente, tal como eu, a maioria das pessoas não estivesse ciente das consequências reais da extinção dos 17


INTRODUÇÃO

glaciares — e constatei que estava certo. Pensei que, se conseguíssemos divulgar esta imagem de forma tão abrangente quanto possível, poderíamos criar nos outros o mesmo efeito que teve em mim. Tive a sorte de rapidamente reunir uma equipa de especialistas em áreas que eu desconhecia — um especialista de montanha, um engenheiro do ambiente e uma meteorologista. E com eles gizei o projecto de escalar o Quilimanjaro para dar visibilidade a este fenómeno dramático. Ao projecto demos o nome de Ice Care. Em dois anos, o projecto cresceu de forma considerável, visando não um, mas todos os cinco glaciares património da humanidade, identificados pela UNESCO como estando a ser severamente afectados pelo aquecimento global. Esses glaciares são os de Jungfrau-Aletsch, na Suíça; do Parque Nacional do Quilimanjaro, na Tanzânia; do Parque Huascaran, no Peru; de Illulissat Icefjord, na Gronelândia; e do Parque Nacional Sagarmatha, no Nepal. Depois da expedição ao Quilimanjaro e de encontros com as comunidades masai na savana africana, uma grande parte do trabalho da Associação Ice Care passou a ser orientada para apoiar as populações locais, afectadas por secas devastadoras, escassez de água e alimentos e catástrofes naturais, como inundações e derrocadas. O objectivo principal deste livro é o relato das primeiras duas expedições levadas a cabo pela Associação Ice Care: — Aletsch, nos Alpes suíços, em Junho de 2009, percorrendo seiscentos e cinquenta quilómetros de bicicleta em cinco dias, a partir da sede da UNESCO, em Paris; — Quilimanjaro, na Tanzânia, em Dezembro de 2009, que incluiu cinco dias acampados com uma tribo masai, no Quénia. O livro levanta ainda algumas questões, que me parece importante abordar, sobre a forma como vivemos actualmente, tanto do ponto de vista de equilíbrio com a natureza, como na perspectiva do nosso equilíbrio pessoal e daquilo a que dedicamos a nossa energia vital. 18

Horizontes_em_Branco  

Pegada social 13 preta, debaixo de uma escarpa, onde Pablo Neruda ensinou ao carteiro Mario o efeito das «metáforas» no coração das mulheres...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you