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GABRIEL MAGALHテウS


POÉTICAS DO VIVER CRENTE COLEÇÃO O termo «poéticas» remete para um duplo domínio: o da experiência e o da linguagem. Antes de tudo a Fé descreve-se como experiência e é no processo complexo do viver que ela se constrói. Mas a experiência crente aspira a uma linguagem que a traduza e a amplie, conservando intactas as margens do indizível.

Coordenação da coleção: José Tolentino Mendonça

Capa Pré-impressão Impressão e acabamentos Depósito legal ISBN

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Departamento Gráfico Paulinas Paulinas Editora – Prior Velho Artipol – Artes Tipográficas, Lda. – Águeda 354 008/13 978-989-673-286-8

Janeiro 2013, Inst. Miss. Filhas de São Paulo Rua Francisco Salgado Zenha, 11 2685-332 Prior Velho Tel. 219 405 640 – Fax 219 405 649 e-mail: editora@paulinas.pt www.paulinas.pt

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O DIREITO AO DESÂNIMO

Se eu tivesse de escolher um texto, meu preferido, dos quatro Evangelhos, a minha escolha recairia sobre o apêndice do Evangelho de São João. Há textos que, quando os lemos, tornam tudo possível na nossa vida: este é um deles. Muitas vezes este episódio faz-me pensar naquelas passagens narrativas de Flaubert em que se diz algo de muito profundo sem nada se explicar concretamente: mostrando apenas as reações dos personagens – a sua maneira de olhar, por exemplo. Para um leitor distraído, este excerto não passa de mais uma das aparições do Senhor depois da sua Ressurreição. Devo dizer que, para mim, é muito mais do que isso. O texto começa por nos contar que Pedro resolve ir pescar: «Vou pescar», diz ele a Tomé, a Natanael, aos filhos de Zebedeu e a outros dois discípulos que o evangelista não identifica. «Também nós vamos contigo», respondem eles. Isto de resolve3


rem ir pescar pode parecer algo insignificante: eles não eram pescadores? A verdade é que eles tinham sido pescadores – o que é muito, mesmo muito diferente. Agora, já não o eram. Jesus chamara-os a uma nova missão. O facto de irem pescar configura um enorme passo atrás na sua vida: um arrependimento da sua vocação. Que estes homens se encontram num estado de absoluta falta de Fé, de imenso vazio espiritual, nota-se nos resultados da pescaria. Segundo o autor, naquela noite «nada apanharam». O nosso vazio de dentro, normalmente, prolonga-se no vazio dos acontecimentos que nos rodeiam. Uma alma esvaída não se consegue encher através da ação. Esta última transforma-se unicamente no prolongamento desse esvaziamento interior. É isto que se passa com os Apóstolos: não pescam nada na sua vida de fora, porque nada poderiam pescar na sua vida de dentro. Eu não sei se o leitor compreende a gravidade da decisão que eles tomaram: estes homens que viveram com Jesus, que o conheceram, estes homens que, mais ainda, falaram com Ele após a sua Ressurreição; estes homens, que tinham todas as razões e mais uma para acreditarem, resolvem voltar 4


para trás. Como se nada se tivesse passado. E isto na altura em que a Ressurreição já tinha acontecido – Ressurreição de que, ainda por cima, eles eram privilegiadas testemunhas. Neste ir pescar, há uma traição imensa: uma fragilidade imensa. Também nós, muitas vezes, nos recusamos a Deus, mesmo depois de Ele nos ter dado amorosas provas da sua companhia. Fazemos isso sobretudo nos momentos de desânimo. Este texto é um texto sobre o desânimo – e sobre o direito ao desânimo. Trata-se de algo que nos acontece: pode mesmo acontecer-nos, como é o caso aqui, quando já tínhamos todas as razões para nunca mais desanimarmos. O desânimo é como que um órgão do nosso corpo que, por vezes, se nos revela – e que pode surgir até naqueles que mais perto se encontram de Deus. (...)

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O CULTIVAR DA INSEGURANÇA

Uma das palavras que nós mais ouvimos, na vida contemporânea, é a palavra «segurança». Este é um termo discreto, pouco cromático, e a verdade é que se esconde bastante bem – de modo que, embora estejamos quase sempre a escutá-lo, acabamos por não lhe dar muita atenção. De qualquer modo, fala-se na «segurança rodoviária», na «segurança social», na «segurança no trabalho» – e estas são apenas algumas das ocorrências de um vocábulo que parece estar na matriz da nossa forma de falar, da nossa forma de pensar mais atual. Com efeito, não seria errado dizer que o homem contemporâneo substitui a Fé pela Segurança. De facto, é isto que eu vejo em muitos dos meus alunos: todos tomados pelo desejo de terem um «emprego fixo», um «lugar estável». É também o que eu vejo em mim próprio: durante muitos anos, procurei uma relação vincular com a Universidade. 6


Durante muito tempo, também eu quis a minha segurança. Talvez fosse útil citar aqui alguns provérbios, e entre eles: «O seguro morreu de velho.» Mas, na verdade, encontramo-nos perante um péssimo negócio espiritual. Quando as pessoas alcançam estas seguranças, normalmente de natureza profissional, surgem outros problemas de que não estavam à espera: problemas de saúde, ou familiares. Existe toda uma panóplia de acasos e acidentes que acabam por nos desconstruir as estabilidades criadas. E é nessa altura que se descobre que a insegurança é a nossa condição. Que somos inseguros por natureza, e que essa insegurança é, por assim dizer, a nossa pátria. Toda a luta do homem contemporâneo pela sua estabilidade, por aquilo a que chama «segurança», constitui uma imensa batalha perdida – e dá uma certa pena ver os outros, ver-me a mim mesmo a construir castelos de areia que a mais mínima onda existencial deitará irremediavelmente por terra. Jesus propunha algo diferente. (...) Dizia aos Apóstolos que, quando partissem, não levassem nem calçado, nem mochila: nada a não ser a sua Fé (Lucas 10,4). O que o Salvador pretendia é que eles 7


aprofundassem este sentimento de entrega a Deus, de confiança em Deus. Depois, com os anos, aprende-se uma coisa: os caminhos das seguranças humanas são um labirinto sem fim, entra-se e nunca mais se encontra uma límpida saída. Pelo contrário, este entregarmo-nos a Deus vai fazendo a nossa vida florescer. E há um momento em que a nossa biografia chega a uma energia, a uma felicidade avassaladoras. As pessoas têm hoje com os seus empregos uma relação excessiva – e, em certo sentido, corruptora. Deixam-se escravizar por eles. A essa escravidão, por vezes, dá-se o nome de «competência». A «competência» é uma coisa boa em si, na medida em que serve o outro. Mas há uma dimensão dela que é já medo: puro medo. Medo multiplicando-se em medo. E isso é negativo. Devemos ser competentes e livres: estar sempre dispostos a todas as partidas. (...) Convido as pessoas a fazerem pequenas experiências de insegurança, só para experimentarem. A ideia é a de que se libertem de alguns cadeados da nossa vida quotidiana. De alguns daqueles rituais que nos fazem sentir seguros. Se assim procederem, recomeçarão a descobrir a própria liberdade, a própria felicidade. E percebe8


rão também que Deus os ampara, ali, onde parecia que estavam completamente desamparados. O Senhor quer que nós aprendamos a voar. Por isso, às vezes abre imensos abismos sob os nossos pés – cada vez que os descobrimos é no nosso voo que devemos pensar: não na nossa queda. Tudo o que nos acontece de pior na vida é um leve empurrão divino para tomarmos consciência das nossas asas. Fui tão infeliz sempre que construí um percurso de cálculos e de seguranças. Tão, mas tão infeliz. E o pior é que esses percursos são como um vício. Uma pessoa continua e continua a tentar resolver um problema que não para de se complicar. É uma coisa horrível. Uma espécie de pesadelo sem fim, de pesadelo de que não conseguimos, de modo nenhum, acordar. Transformar a vida num jogo de xadrez põe a nossa alma em forma de tabuleiro. Não queiram isso. Pelo contrário, sempre que me entreguei a Deus, a felicidade veio – e a alegria e a leveza de estar vivo. Deixei ficar para trás os cálculos, as ponderações cobardes: dei a minha vida ao Senhor – e ela abriu-se, como se fosse uma flor. E os meus dias cresceram e ficaram imensos. 9


A MALDADE DAS «BOAS PESSOAS»

Existe uma figura arquetípica da cultura portuguesa que é a «boa pessoa». Todos nós ouvimos, todos os dias, coisas como esta: «Fulano [ou Sicrano] é muito boa pessoa.» Sei que, de mim mesmo, haverá gente que diz: «É boa pessoa.» Durante muitos anos da minha vida, fui uma «boa pessoa» muito militante da sua bondade. Hoje em dia, nem toda a gente dirá isso de mim. Convém talvez recordar que houve quem não considerasse Jesus, no seu tempo, como uma «boa pessoa». Julgavam-no pretensioso porque se fazia igual a Deus (João 10,33). Seria curioso escutar todos os comentários dos seus conterrâneos de Nazaré quando, no templo da sua cidade de origem, Jesus se proclamou como o ungido por Deus (Lucas 4,16-21). Repetimos: a figura de Jesus não corresponde ao nosso paradigma da «boa pessoa». (…) 10


Se toda a gente achar que nós somos «muito boas pessoas», decididamente algo deve estar mal na nossa vida. Provavelmente, se isso acontece, é porque o nosso comportamento se apresenta mais moldado aos preconceitos que nos rodeiam, do que propriamente aos mandamentos que Jesus nos deu. Se formos cristãos a sério, somos sempre um pouco escandalosos. Façamos, pois, da nossa vida um escândalo. Mas atenção: um escândalo de bondade, um escândalo de amor, um escândalo de fé. Não estou a pensar em escândalos vanguardistas, ou de vestuário: esses constituem um modo de tudo continuar na mesma de uma maneira diferente. Eu refiro-me, sim, àqueles comportamentos estranhos que levam os outros a pensarem que nós somos «parvos». Porque, quando se dá esmola, quando se é generoso a fundo, quando tudo se perdoa amplamente, muitas vezes é isso que pensam, ou podem pensar de nós: que somos «parvos». Pelo amor de Deus, não tenhamos medo de parecer «parvos»: indo pelo caminho da nossa parvoíce, chegaremos à nossa felicidade. Devemos ter mais medo de sermos considerados «boas pessoas» do que de sermos considerados «parvos». 11


Normalmente, as «boas pessoas» são o que são por ambição ou por insegurança. A sua bondade omnipresente, ou revela um desejo de trepar socialmente, ou então configura o reflexo de uma vergonha, de uma timidez, que leva o sujeito a tudo fazer para ser benquisto da estrutura social. Eu fui uma «boa pessoa» do segundo tipo. De qualquer modo, em ambos os casos o sujeito acaba por se fiar mais nas estruturas sociais do que em Deus. No fundo, é isso que está errado nas «boas pessoas»: sem darem por ela, divinizam as estruturas sociais em que se integram, chegando mesmo a aceitar os erros, as podridões da sociedade que lhes coube. Pactuam com muita coisa que está mal neste mundo. E fazem isso porque acreditam mais nos poderes de uma cumplicidade com a esfera social do que nos efeitos de uma cumplicidade com Deus. (…) Contudo, eu não tenho nada de muito grave contra as «boas pessoas»: frequentemente, são melhores do que os seres humanos normais. Simplesmente, não são um modelo de perfeição, ao contrário do que se costuma pensar. Representam um modo incompleto de bondade – tão condicionado pela sociedade quanto pelo Espírito. E, em muitos casos, é preciso ter cuidado com elas. 12


LEVAR JESUS A SÉRIO

Uma das coisas mais curiosas que acontece aos cristãos é lerem os Evangelhos e relativizarem aquilo que foi por eles lido. Dizem: «Isto é simbólico: não se deve entender à letra.» Ou então afirmam: «Estas palavras do Senhor são exageradas. Exigem uma santidade radical de que eu não sou capaz. Estava bem arranjado se me comportasse deste modo!» E é como se o Novo Testamento se transformasse numa hipérbole moral, num exagero da virtude, que um ser humano normal e razoável não deverá pôr em prática. Quando isto acontece, é terrível. Tornamo-nos uma coisa dupla: passamos a ser pessoas falsas, enganadoras. Lemos uma coisa, defendemos publicamente essa mesma coisa, mas depois fazemos outra, procedendo de um modo oposto àquele que se configura nas nossas convicções oficiais. Tornamo-nos, na verdade, uns grandes hipócritas. Proce13


demos assim por «realismo»: porque o mundo não se compadece com os «idealismos» evangélicos. Contudo, quando começamos a avançar por este caminho «pragmático», «calculista», quase sempre descobrimos que não somos felizes, e que nunca mais encontraremos a paz. O tal nosso «realismo» só nos conduz a anos e anos de angústia, de inquietação, de tensa incerteza. De um modo geral, porém, mesmo que a sua infelicidade seja evidente, os homens não costumam voltar atrás na sua ponderação primeira, não confessam a si mesmos: «Se calhar, o caminho evangélico, que parecia tão disparatado, seria aquele que me daria a felicidade.» Quanto a mim, hoje em dia eu sei que isso é assim: que devemos levar o Evangelho rigorosamente a sério; que devemos incorporar nos nossos comportamentos diários aquilo que dizem as palavras sagradas. Ao princípio, parecer-nos-á que nos estamos a atirar de uma ponte para um vazio incerto, mas, com o tempo, a nossa felicidade, a nossa serenidade, a nossa paz irá crescendo de um modo intenso: maravilhoso e irreversível. (...) Por conseguinte, o que Jesus nos diz, ao dar-nos conselhos radicais, não é o que se costuma interpretar: «Sede palermas e sofrei, sofrei estupida14


mente.» Não é nada disso. É precisamente o contrário disso: «Sede felizes, tão felizes que possais chegar a um ponto em que, confundidos com o Espírito, nada vos importem as ofensas dos outros.» Deste modo, o Salvador tem razão: mais uma vez Ele tem razão. E aqui duas últimas reflexões se impõem. Primeira: o ódio ou o ressentimento constituem sempre manifestações de falta de fé. Na verdade, nós só acreditamos que alguém nos pode fazer mal se pensarmos que Deus não nos ampara completamente. Se tivermos fé, se nos sentirmos intensamente ajudados por Deus, o mal que o outro nos procura fazer só desperta em nós piedade – e preocupação pela infelicidade que, na maldade desse nosso irmão, se revela. Contudo, esta reação generosa e amante só é possível se sentirmos, se tivermos a certeza da presença efetiva do amor de Deus nos nossos dias. Se não tivermos essa certeza absoluta, já esse mal que nos é feito nos parece perigoso. E essa sensação de perigo tem como consequência o nascer do ódio e do ressentimento. Como não acreditamos mesmo em Deus e no seu poder de amor, acreditamos 15


então no poder do mal, e no modo como esse poder pode ensombrar a nossa vida. E é assim que o ódio nasce: como um prolongamento, um eco no nosso interior do mal que nos é feito. Podemos até dizer que o ódio que sentimos pelo mal é uma das maiores vitórias do mal em nós. Preservar o nosso interior de qualquer reflexo do mal que nos fazem deve constituir sempre a primeira preocupação da nossa vida quando se nos deparam situações malignas. Segunda reflexão: devemos, pois, levar Jesus a sério, mas tendo alguma paciência connosco. Nem sempre somos capazes da melhor atitude: por vezes, demoramos a instalar na nossa vida um determinado comportamento. Mas, no fundo, nós estamos vivos precisamente para fazermos esta aprendizagem. Nós estamos vivos simplesmente para aprendermos a viver – e, quando essa aprendizagem estiver concluída, teremos posto o pé na nossa eternidade. Viver é isso: corrigirmo-nos pouco a pouco até que, na nossa brevidade, se instale a nossa eternidade.

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Espelho meu  

A leitura diária do Evangelho pode mudar a vida.

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