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Introdução

Imaginamos fatalmente Dostoiévski (1821-1881) como um personagem de Dostoiévski. A sua vida comporta a pobreza, a conspiração, a condenação, a deportação na Sibéria, a humilhação, o álcool, o jogo, a epilepsia e, como a de todos os homens, a ventura e a desventura; mas estes factos, que parecem confirmar a nossa primeira impressão, anulam-se e agrupam-se num só: a sua vasta e múltipla obra literária. O típico herói de Dostoiévski passa da angústia à culpa, à confissão expansiva e ao arrependimento; não o imaginamos entregue dia após dia à complexa execução das invenções. Se Dostoiévski foi Raskólnikov, isso aconteceu na medida em que Shakespeare foi as Três Parcas ou Hamlet, ou que Cervantes foi Alonso Quijano, que queria tornar-se Dom Quixote. Vemo-lo através dos seus sonhos, que são, afinal, o que perdura do estranho destino do escritor. Dir-se-ia até que 9


o nosso tempo atribui uma importância desmesurada às vicissitudes políticas; a burocrática e hierárquica Rússia que nos é mostrada nos livros de Dostoiévski não é forçosamente muito diferente da de hoje. Quando fala da estepe parece falar da pampa; as grandes e ramificadas famílias que imaginou poderiam ser as do Sul do nosso continente. A minuciosa burocracia, exaltada satiricamente, é o tema essencial da inacabada fantasia de O Crocodilo. O ambiente é de sonho, prestes a cair no pesadelo, mas não se afunda nos seus muitos abismos graças ao tom de humorismo e à inconsistência e vulgaridade dos protagonistas. O leitor suspeita de que Dostoiévski não saiba sair do seu crocodilo, o que explicaria que as suas páginas não tenham encontrado um desfecho e se tenham perdido em episódios específicos. É curioso que Rafael Cansinos-Assens, no prefácio à tradução espanhola, pareça não ter avisado que a obra é um fragmento. Prefigurando Kafka, a situação gira sobre si mesma e é efectivamente uma só, que vai revelando os caracteres. O mesmo sucede em Dom Quixote, que consta de uma única aventura com variações, que vão apresentando e aprofundando as almas de Alonso Quijano e de Sancho. Pode ser considerada arbitrária a vizinhança, neste volume, de Andréev e de Dostoiévski. Deveria no entanto observar-se que os dois coincidem no ímpeto patético e na desconsolada visão de um mundo hostil. É habitual falar-se da polémica entre realismo e simbolismo. Esquece-se que estas escolas 10


assumiram traços e significados diversos nos diferentes países e em cada caso. Leonid Andréev (1871-1919), foi, à sua maneira eslava, um devoto eminente de ambas as paróquias. Ao realismo correspondem Savva e Anfissa; ao simbolismo, A Vida do Homem, Anátema, O Oceano e As Máscaras Negras. Escolhemos para este livro a história intitulada Lázaro. Em 1855, o escritor inglês Robert Browning tratara o mesmo tema numa curiosa e longa poesia. O Lázaro de Browning volta a descobrir, como uma criança apavorada, as coisas pequenas e evidentes deste mundo; o de Andréev, depois de passar pela morte, sente que aqui na terra tudo é inconsistente e que o aniquilamento é o fim. Desolado e aterrorizado, foge da companhia dos homens; no seu olhar atroz, que para os outros é insuportável, parece estar escrito o fim. Esta história admirável, que pode, como se fosse um facto pessoal, modificar a nossa concepção do mundo, reflecte no seu espelho o doloroso destino de Andréev. Conheceu a pobreza de muito perto e foi perseguido pela vontade de se suicidar. O sucesso literário obtido por Os Sete Enforcados e por Abismo foi obscurecido pelas perseguições políticas que sofreu. Partidário da Revolução e incompreendido pelos companheiros, fugiu para a Finlândia , sob a ameaça de ser assassinado. Ali morreu pobre, como Lázaro, o seu protagonista, o seu duplo, desprovido de qualquer esperança. Não é uma hipérbole afirmar que a última história que escolhemos é uma das mais admirá11


veis que a literatura nos pode oferecer. Em termos teológicos poderíamos dizer que o seu argumento essencial é a salvação pela graça, e não pelas obras. Mas esta definição abstracta corre o risco de profanar a segurança e o inesperado esplendor das últimas páginas. Nos dois textos precedentes, o elemento fantástico é claro desde o princípio: Em A Morte de Ivan Illitch, de Lev Tolstói (1828-1910), a revelação sobrenatural chega ao fim, inevitável e surpreendente, como a última experiência de uma alma. Não nos devemos privar da leitura desta excelente história de Tolstói, tão merecidamente famoso, onde marcam encontro o conhecimento do homem e a perfeição literária. Jorge Luis Borges

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Contos_Russos