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É a pergunta mais irritante de todas, mas as pessoas não conseguem evitar fazê-la. Fazem-na nas reuniões familiares, principalmente nos casamentos. Os homens fazem-na logo no primeiro encontro. Os psicólogos fazem-na repetidamente. E nós fazemo-la a nós mesmas demasiadas vezes. É uma pergunta que não tem uma resposta aceitável e que nunca faz com que ninguém se sinta melhor consigo mesma. É a pergunta que, quando as pessoas deixam de a fazer, ainda nos faz sentir pior. E no entanto, não posso evitar fazê-la. Por que razão é solteira? Parece ser tão boa pessoa. E tão atraente. Não consigo entender. Mas os tempos estão a mudar. Em todos os países do mundo, a tendência é para que as pessoas se mantenham solteiras durante mais tempo e se divorciem com maior facilidade. À medida que as mulheres estão cada vez mais economicamente independentes, a sua necessidade de liberdade individual aumenta e muitas vezes o resultado é que não se casam tão rapidamente. O desejo do ser humano de acasalar, de encontrar o seu par, de ser parte de um casal, nunca se vai alterar. Mas a maneira como nos dedicamos a atingir esse objectivo, como o desejamos e o que estamos dispostas a sacrificar por ele, está definitivamente a mudar. Por isso, talvez a questão já não seja tanto: «Por que razão és solteira?» Talvez a questão que nos devemos colocar seja: «Como és tu solteira?» O mundo é um lugar imenso e as regras estão sempre a mudar. Por isso, digam-me, meninas, como estão a correr as coisas? — Julie Jenson

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Regra

1 Certifique-se de Que Tem Amigos

Como a Georgia É Solteira — EU SÓ QUERO DIVERTIR-ME! AGORA QUE ESTOU SOLTEIRA, SÓ QUERO DIVERTIR-ME! VOCÊS, AS PESSOAS SOLTEIRAS, ESTÃO SEMPRE A DIVERTIR-SE!! QUANDO É QUE VAMOS SAIR PARA NOS DIVERTIRMOS?!!

Ela está a gritar, a gritar comigo ao telefone. — SÓ ME APETECE ACABAR COM A VIDA, JULIE. NÃO QUERO VIVER COM ESTA DOR. A SÉRIO. QUERO MORRER. TENS DE ME FAZER ACREDITAR QUE VAI FICAR TUDO BEM! TENS DE ME LEVAR A SAIR E RECORDAR-ME QUE SOU JOVEM, QUE ESTOU VIVA E QUE POSSO DIVERTIR-ME À BRAVA! OU ENTÃO SABE DEUS O QUE SOU CAPAZ DE FAZER!

O Dale, o marido da Georgia, deixou-a há duas semanas por uma mulher mais nova e ela está, obviamente, um nadinha perturbada. O telefonema chegou às oito e quarenta e cinco da manhã. Eu estava no Starbucks da rua Quarenta e quatro com a Oito, a equilibrar um tabuleiro de cartão com os cafés numa mão, o telemóvel com esta conversa na outra, o cabelo a cair-me sobre o rosto, grandes mochaccinos a inclinarem-se perigosamente em direcção ao meu seio esquerdo, enquanto tentava pagar ao simpático funcionário de vinte e poucos anos que estava na caixa. Eu faço muita coisa ao mesmo tempo. Já estava levantada há quatro horas. Como agente publicitária de uma grande editora de Nova Iorque, a minha função é andar com os nossos autores de um lado para o outro enquanto eles dão entrevistas 13


e publicitam os seus livros. Naquela manhã estava encarregada de acompanhar a jovem escritora de trinta e um anos, Jennifer Baldwin. O seu livro Como Manter o Seu Marido Atraído por Si durante a Gravidez foi um êxito instantâneo. As mulheres de todo o país compraram o livro como se fosse pão quente. Porque, naturalmente, a maior preocupação de uma mulher naquela altura tão especial da sua vida é mesmo como manter o marido atraído por si. Por isso, naquela semana estávamos a fazer a ronda dos prestigiosos programas da manhã. Today, The View, Regis and Kelly. WPIX, NBC e CNN, até à data, todos a quiseram entrevistar. Como era possível não adorar uma reportagem com mulheres grávidas de oito meses a mostrar como se fazia um striptease aos seus maridos? Naquele momento, a autora, a sua agente publicitária pessoal, a agente literária e a assistente da agente, estavam todas ansiosamente à minha espera no carro estacionado lá fora. E eu tinha nas mãos a dose de cafeína que lhes daria vida. — Georgia, tens mesmo vontade de te matar? Porque se tiveres, ligo para o serviço de emergência e mando uma ambulância a tua casa — li algures que devemos levar todas as ameaças de suicídio a sério, embora estivesse quase certa de que o que a Georgia estava a fazer era certificar-se de que eu a levava a sair para beber uns copos. — DEIXA LÁ A AMBULÂNCIA, JULIE, TU ÉS A ORGANIZADORA, ÉS TU QUE FAZES COM QUE AS COISAS ACONTEÇAM — LIGA PARA AQUELAS TUAS AMIGAS SOLTEIRAS, AQUELAS COM QUEM TE DIVERTES A TODA A HORA — E VAMOS SAIR PARA NOS DIVERTIRMOS!!

Enquanto continuava com o meu número de equilíbrio em direcção ao carro, pensei como aquela ideia me fazia sentir cansada. Mas sabia que a Georgia estava a passar por uma fase difícil e que provavelmente ainda ia piorar bastante antes de começar a melhorar. Era a história mais comum do mundo. O Dale e a Georgia tinham filhos, deixaram de fazer sexo com regularidade e começaram a discutir. Afastaram-se e um dia o Dale disse à Georgia que estava apaixonado por uma reles-prostitutazinha, professora de samba de vinte e sete anos, que conheceu no Equinox. Chamem-me doida, mas cá para mim, o sexo escaldante deve ter tido qualquer coisa que ver com o assunto. A verdade é que, e não quero ser desleal, nem jamais sugeriria sequer que a Georgia pudesse ter tido alguma culpa, porque o Dale é um sacana e nós agora odiamo-lo, mas não posso evitar dizer que a Georgia tomou o Dale completamente por garantido. Agora, para ser honesta, sou particularmente crítica da Síndroma das Mulheres Casadas Que Tomam os Seus Maridos por Garantidos. 14


Quando vejo um homem encharcado a segurar o guarda-chuva para proteger a mulher, depois de ter caminhado cinco quarteirões para ir buscar o carro e ela nem sequer obrigada lhe diz, confesso que fico com uma certa azia. Por isso, reparei que a Georgia tomava o Dale por garantido, principalmente quando falava com ele naquele tom de voz. Aquele tom de voz que podemos perfeitamente tentar disfarçar o mais possível, mas que na verdade é pura e simplesmente desprezo. Aquele tom que é aversão. Que é impaciência. O tom de voz que é um revirar de olhos vocal. É a prova irrefutável de que o casamento é uma instituição terrivelmente falível, expressa numa simples frase como «Já te disse, a máquina das pipocas está na prateleira por cima do frigorífico». Se pudéssemos percorrer o mundo inteiro e recolher o tom de voz exactamente como é emitido pelas bocas dos homens e mulheres descontentes, trazê-lo para algum deserto do Nevada e libertá-lo — a terra afundar-se-ia literalmente dentro de si própria, implodindo com a força bruta da irritação global. A Georgia falava com o Dale nesse tom de voz. E claro que esse não foi o único motivo da sua separação. As pessoas são irritantes e o casamento é isso mesmo: uma sucessão de dias bons e de dias maus. Mas o que sei eu? Tenho trinta e oito anos e sou solteira há seis. (Sim, disse seis anos.) Não celibatária, não fora de serviço, mas definitiva, completa e oficialmente, lá-vou-passar-mais-um-Natal-sozinha, solteira. Por isso, na minha imaginação, eu iria tratar o meu homem sempre muito bem. Nunca ia falar torto para ele. Ia dizer-lhe todos os dias como o desejo, respeito e como ele é a minha prioridade número um. Ia andar sempre com um aspecto sensual, ia ser muito meiga para ele e se ele me pedisse, até ia fazer crescer uma cauda e guelras para nadar com ele no oceano em topless. Por isso agora a Georgia passou de mulher casada e mãe semi-satisfeita com a vida, para mãe solteira de dois filhos com instintos um tanto suicidas. E quer ir para a farra. Alguma coisa deve acontecer quando ficamos solteiras novamente. Deve accionar-se em nós um instinto de auto-preservação qualquer que se assemelha a uma lobotomia completa. Porque a Georgia acabou de fazer uma viagem no tempo até à altura em que tinha vinte e oito anos e tudo o que quer neste momento é ir «a uns bares, sabes, para conhecer rapazes», esquecendo-se que estamos no fim dos trinta anos e que algumas de nós andam a fazer exactamente isso há já alguns anos. E francamente, não me apetece sair para conhecer rapazes. Não me apetece dispender uma hora a manejar um daqueles apare15


lhos quentes que tenho para alisar o cabelo, para passar a sentir-me suficientemente atraente para sair e beber uns copos. Quero ir para a cama cedo, para me conseguir levantar cedo e fazer o meu batido, sair de casa e ir correr logo pela manhã. Sou uma maratonista. Não no sentido literal; só corro cinco quilómetros por dia. Mas como mulher solteira. Sei como controlar o meu passo. Sei como pode ser um caminho longo. A Georgia, como é óbvio, quer alinhar as armas e começar a correr em sprint. — TENS OBRIGAÇÃO DE TE IRES DIVERTIR COMIGO! NÃO CONHEÇO MAIS NENHUMA SOLTEIRA A NÃO SER TU, TENS DE SAIR COMIGO. QUERO SAIR COM AS TUAS AMIGAS SOLTEIRAS! VOCÊS SAEM O TEMPO TODO! AGORA QUE SOU SOLTEIRA TAMBÉM QUERO SAIR!!

Do que ela se esquece é que é a mesma mulher que olhava sempre para mim com pena quando eu começava a falar da minha vida de solteira e que exclamava de um só fôlego: «Ohmeudeusatuavidaétãotristequemedávontadedemorrer.» Mas a Georgia fazia coisas que as minhas restantes amigas bem casadas ou comprometidas jamais pensariam em fazer: pegava no telefone e organizava jantares para os quais convidava alguns homens solteiros para eu conhecer. Ou perguntava ao pediatra dos filhos se conhecia algum solteiro adequado para mim. Estava activamente envolvida na minha busca pelo Homem Ideal, por muito confortável e satisfeita que estivesse com a sua vida. E isso é uma qualidade rara e bonita. E foi por isso que naquela manhã de sexta-feira, enquanto limpava o café da minha camisa branca, concordei em ligar a três das minhas amigas solteiras para perguntar se elas queriam sair com a minha nova e ligeiramente histérica amiga solteira. Como a Alice É Solteira A Georgia tem razão. Nós divertimo-nos tanto, as minhas amigas solteiras e eu. A sério. Oh meu Deus, é hilariante. Por exemplo, deixem-me falar-vos do tumulto hilariante que é a Alice. No seu trabalho é incrivelmente mal paga para defender os direitos das pessoas mais desfavorecidas de Nova Iorque contra juízes insensíveis, promotores públicos implacáveis e um sistema sobrecarregado em termos gerais. Ela dedicou a sua vida a tentar ajudar os mais fracos, agitando o sistema, ultrapassando obstáculos e protegendo a nossa Constituição. Ah pois, e de vez em quando tem de defender um violador 16


ou assassino que sabe que é culpado e muitas vezes lá lhe consegue devolver a liberdade. Uups. Umas vezes ganha-se e outras... ganha-se também. A Alice é Advogada Oficiosa. Embora a Constituição garanta que todos os cidadãos têm direito a um advogado, infelizmente não pode prometer que todos serão defendidos pela Alice. Antes de mais, ela é linda. O que é completamente superficial, ninguém se preocupa com essas coisas. Mas os jurados que estão sentados na aborrecida e industrial sala verde do júri, iluminados com lâmpadas fluorescentes e o juiz de oitenta anos a presidir à miséria geral de toda a situação, bem, eles aceitam qualquer prazer estético que consigam encontrar. E quando a ruiva e sensual Alice fala para eles com aquela voz profunda e suave e a pronúncia carregada de mulher de Staten Island com raízes italianas que parece dizer eu-sou-uma-mulher-do-povo-mas-muito-mais-adorável, qualquer pessoa era capaz de entrar em Sing Sing e libertar cada um dos reclusos, se fosse isso que a Alice lhes pedisse para fazer. Ela é tão espantosa na sua perspicácia legal e tem um carisma tão forte que se tornou a professora de direito mais nova da NYU. Durante o dia, a Alice andava a salvar o mundo e de noite andava a inspirar yuppies e alunos de direito de famílias tradicionais a esquecer os seus sonhos dos belos condomínios de Manhattan e férias de Verão nos Hamptons para se tornarem Advogados Oficiosos e fazerem qualquer coisa de importante. Era tremendamente bem-sucedida. A Alice fez com que a insubordinação e a compaixão ficassem novamente na moda. Conseguiu fazer com que eles acreditassem realmente que ajudar as pessoas era mais importante que ganhar dinheiro. Era uma Deusa. Pois. Disse que era porque estou mais ou menos a mentir. A verdade dói demasiado. A Alice já não é Advogada Oficiosa. — Muito bem, esta é a única ocasião em que acredito na pena de morte. Sendo a fantástica amiga que era, a Alice estava a ajudar-me a transportar livros do meu escritório na rua Cinquenta com a Oitava Avenida para uma sessão de autógrafos na rua Dezassete. (O livro era O Guia Idiota para Ser Um Idiota e foi, claro, um enorme sucesso.) — A única excepção a esta regra aplica-se quando um homem que sai com uma mulher de trinta e três anos até ela ter trinta e oito, se apercebe de repente que tem problemas com compromissos; quem é que dá a impressão a uma mulher que não tem qualquer problema 17


com o casamento e com a ideia de ficar com ela para o resto da vida; quem é que diz constantemente que vai acontecer, até que um dia, decide finalmente dizer-lhe que afinal não acha que «o casamento seja para mim»? — A Alice leva um dedo à boca e dá um assobio capaz de parar o trânsito. Um táxi virou para nos apanhar. — Abra a mala, por favor — disse a Alice, tirando energicamente uma caixa dos livros Idiota dos meus braços e colocando-a dentro do carro. — Isso foi uma atitude merdosa — disse eu. — Foi mais que merdosa. Foi criminosa. Foi um crime contra os meus ovários. Foi uma perversidade contra o meu relógio biológico. Ele roubou cinco dos meus anos férteis e isso devia ser considerado como apropriação de maternidade, punível com o enforcamento. Agora já estava a arrancar-me as caixas das mãos, atirando-as para a mala do carro. Achei que era melhor deixá-la acabar a tarefa. Quando acabou, dirigimo-nos a lados opostos do táxi e ela continuou a falar comigo por cima do tejadilho, sem sequer parar para respirar. — Eu não vou aceitar isto pacificamente. Sou uma mulher poderosa e estou em controlo da situação. Posso compensar o tempo perdido, posso mesmo. — O que queres dizer com isso? — Vou despedir-me do meu emprego e recomeçar a sair. — Alice entrou no táxi e bateu com a porta. Confusa, deixei-me engolir pelo táxi. — Desculpa, o que disseste? — Para a Barnes and Noble da Union Square, por favor — berrou a Alice ao taxista. Depois virou-se para mim: — É isso mesmo. Vou inscrever-me em todos os sítios de encontros online, vou enviar um e-mail a todos os meus amigos para que me arranjem encontros com os homens solteiros que conheçam. Vou sair todas as noites e vou encontrar alguém depressa. — Vais despedir-te para poderes sair? — Tentei fazer esta pergunta com a menor quantidade de horror e crítica que me foi possível. — Exactamente. — A Alice continuava a abanar a cabeça vigorosamente, como se eu soubesse do que estava a falar. — Vou continuar a dar aulas, tenho de ganhar dinheiro em algum lado. Mas sair vai ser basicamente o meu novo emprego, sim. Ouviste bem. Por isso, a minha amiga boa samaritana, Super-mulher, Xena, a Princesa Guerreira, Erin Brockovich, a Alice, ia continuar a ajudar os mais desfavorecidos. Só que naquele momento a mais desfavorecida 18


era ela: uma mulher de trinta e oito anos, solteira em Nova Iorque. Ainda está a tentar libertar-se «do homem». Mas este homem chama-se Trevor, o tal que tirou aqueles anos tão preciosos da sua vida e que agora a fez sentir-se velha, mal-amada e assustada. E quando perguntamos à Alice o que faz agora com o tempo que tem livre, aquele que antes utilizava para ajudar a manter os jovens criminosos afastados de Rikers e do abuso físico iminente, é frequente começar com o seu pequeno discurso: — Além de navegar na Internet e de sair com conhecidos dos meus amigos, certifico-me de que compareço a todos os eventos para que sou convidada, a todas as conferências, almoços ou jantares. Por muito mal que me esteja a sentir. Lembras-te de quando estive com aquela gripe terrível? Mesmo assim saí de casa e fui para o Theatre Workshop de Nova Iorque para uma noite de solteiros. Na noite depois da cirurgia que fiz à mão, tomei uns Percocet e fui a uma enorme festa de beneficência na Central Park Conservancy. Nunca se sabe se é naquela noite que vamos conhecer o homem que pode mudar a nossa vida. Mas também tenho alguns passatempos. Faço propositadamente aquilo que gosto de fazer, porque, sabes, podes conhecer alguém quando menos esperas. — Quando menos esperas? — perguntei durante uma das diatribes da Alice. — Mas se decidiste deixar o teu emprego para dedicar a tua vida ao propósito de conhecer alguém, como é que alguma vez isso pode acontecer quando menos esperas? — Porque me mantenho ocupada. Porque faço coisas interessantes. Ando de canoa no Hudson, faço escalada em Chelsea Piers, tenho aulas de carpintaria na Home Depot, que já agora tu devias ter comigo, porque construí um armário fabuloso, e estou a pensar em fazer um curso de vela no South Street Seaport. Mantenho-me ocupada a fazer coisas que acho interessantes, para me enganar a mim própria e esquecer o facto de que na verdade ando só a tentar encontrar homens. Porque não podemos parecer desesperadas. Isso é o pior de tudo. Quando a Alice fala disto às pessoas, muitas vezes transmite a ideia de que é um pouco desequilibrada, principalmente porque engole Tums uns atrás dos outros enquanto fala. Acredito que os seus problemas de indigestão estão profundamente enraizados num pequeno refluxo ácido que se chama «tenho pavor de ficar sozinha». Assim, claro, a quem ligaria eu em primeiro lugar quando preciso de sair com um grupo de amigas, para me divertir? À Alice, que agora é praticamente uma profissional na matéria. Conhece todos os empregados de bar, os porteiros, os maître d’, os bares, clubes, lugares fora de 19


mão, locais mais frequentados por turistas, antros e actividades culturais de Nova Iorque. E, naturalmente, a Alice estava pronta para sair. — Conta comigo — disse. — Não te preocupes. Vamos certificar-nos de que amanhã à noite a Georgia tem a melhor noite da vida dela. Desliguei o telefone, aliviada. Podia contar com a Alice, porque não importava como a sua vida estivesse mudada, ela ainda adorava uma boa causa. Como a Serena É Solteira — Tem demasiado fumo, nem penses. — Nem sequer sabes onde vamos. — Pois não, mas vai ter demasiado fumo. Todos os lugares têm demasiado fumo. — Serena, há uma lei contra o tabaco em Nova Iorque; não se pode fumar nos bares. — Eu sei, mas mesmo assim parece que há sempre demasiado fumo. E esses lugares são sempre muito barulhentos. Estamos as duas no Zen Palate — o único lugar onde me encontrei com a Serena durante os últimos três anos. Ela não gosta de sair. Também não gosta de comer queijo, de produtos com glúten, de vegetais com erva-moura, vegetais que não sejam biológicos e ananás. Nenhum destes produtos combina com o seu grupo sanguíneo. Se ainda não adivinharam, posso dizer-vos que a Serena é muito, muito magra. Ela é uma daquelas raparigas louras muito bonitas mas de ar perdido que podemos encontrar nas aulas de ioga em todas as grandes cidades do país. É a chefe de cozinha vegetariana de uma família famosa de Nova Iorque, sobre quem não posso falar, devido ao acordo de confidencialidade que a Serena me obrigou a assinar, para que quando coscuvilhasse comigo não se sentisse culpada por quebrar o contrato de confidencialidade que assinou com eles. A sério. Mas vamos apenas dizer que os seus nomes são Robert e Joanna e que o filho se chama Kip. E para ser sincera, a Serena nunca diz nada desagradável sobre eles; eles tratam-na bastante bem e parecem apreciar a sua maneira de ser gentil. Mas por Deus, quando a Madonna vai almoçar com eles e lhe elogia a comida, a Serena tem de comentar com alguém. Afinal de contas é apenas humana. A Serena também é estudante do hinduísmo. Acredita na igualdade de espíritos entre todas as coisas. Quer ver a perfeição divina em 20


todas as formas de vida, até no facto de não ter tido literalmente um encontro ou sexo há quatro anos. Ela encara isto como perfeição, como a maneira que o mundo tem de lhe mostrar que precisa de se concentrar um pouco mais em si própria. Porque, como se pode ser um parceiro verdadeiro para alguém antes de se atingir um nível de realização pessoal completo? Por isso, a Serena trabalhou arduamente em si própria. Trabalhou de tal forma que hoje é o que se pode considerar de labirinto humano. Tenho pena do homem que alguma vez tentar entrar nos corredores tortuosos e becos sem saída que caracterizam as suas restrições dietéticas, horários de meditação, workshops de filosofia new age, aulas de ioga, regimes vitamínicos e necessidades de água destilada. Se ela trabalhar um pouco mais em si própria vai tornar-se uma inválida. A Serena é aquela amiga com quem nos encontramos sempre sozinhas; aquela que mais ninguém conhece. Aquela que, quando mencionamos casualmente o seu nome, as outras amigas perguntam de imediato: Serena, tens uma amiga chamada Serena? Mas as coisas não foram sempre assim. Conheci a Serena na universidade e ela era igual a toda a gente. Bem, sempre foi um bocadinho obsessiva compulsiva, mas nessa altura era mais uma mania e não um estilo de vida. Durante os vinte anos, conheceu muitos rapazes e saiu com eles. E também teve um namorado durante muito tempo — três anos. O Clyde. Ele era amoroso e adorava-a, mas a Serena sempre soube que o Clyde não era o tal. Ela deixou-se instalar numa rotina agradável com ele — e como já devem ter calculado, a Serena gosta bastante de rotinas. Por isso, nós encorajámo-la a não continuar a iludir o Clyde — nunca imaginando que ele seria o último relacionamento verdadeiro durante toda a sua vida livre de trigo. Depois de acabar com o Clyde, ela continuou a sair com rapazes — não de modo agressivo, mas quando surgia alguma oportunidade. Mas por volta dos trinta e cinco anos, quando percebeu que não encontrava ninguém que lhe interessasse de verdade, começou a concentrar-se em outros aspectos da sua vida. O que, justiça lhe seja feita, é o que a maior parte dos livros que publicito dizem que as mulheres devem fazer. Estes livros também nos dizem que devemos amar-nos a nós mesmas. Na verdade, se fôssemos obrigados a resumir estes livros em apenas três palavras, o resultado seria «ame-se a si própria». Não consigo explicar porquê, mas isto irrita-me solenemente. Então a Serena começou a concentrar-se em outras coisas, começando assim as aulas e dietas malucas. Ao contrário da Alice, pelo menos no que diz respeito à questão dos encontros com homens, a Serena decidiu 21


acalmar. É um percurso escorregadio, decidir que se vai prescindir do sonho do amor da nossa vida. Porque se for bem-sucedido, pode deixar-nos mais descontraídas, fazer-nos apreciar a vida e permitir realmente que a nossa luz interior brilhe com mais vigor do que nunca. (Sim, estou a falar da luz interior de uma pessoa; afinal estamos a falar da Serena.) Mas na minha opinião, se seguirmos essa estratégia incorrectamente ou durante demasiado tempo, ela pode fazer com que a nossa luz se apague, um pouco todos os dias. Podemos transformar-nos numa pessoa sem necessidade de sexo e isolada das restantes. Mesmo que ache um pouco de mais que alguém se despeça para começar a sair, também acho que não podemos recostar-nos e ficar à espera que o amor venha ter connosco. O amor não é assim tão inteligente. Na verdade, o amor não se preocupa assim tanto connosco. Acho que o amor anda por aí à procura de pessoas cujas luzes brilhem tão intensamente que até do espaço se podem ver. E francamente, algures entre as irrigações de cólon e as aulas de danças africanas, a luz da Serena apagou-se. Mas ainda assim, ela tem um efeito calmante em mim. É capaz de me ouvir queixar de como odeio o meu trabalho com uma paciência apenas igualável à de Gandhi. Além dos livros que já mencionei, ajudei também a publicitar obras como: O Relógio Não Pára! Como Conhecer e Casar com o Homem dos Seus Sonhos em Apenas Dez Dias; Como Saber Que o Seu Homem a Ama de Verdade e o sucesso que se lhe seguiu: Como Ser Adorável (que é supostamente o segredo para toda a felicidade feminina). Cresci em Nova Jérsia, que não fica terrivelmente longe, está apenas a uma ponte ou a um túnel de distância da cidade dos meus sonhos. Mudei-me para cá para ser escritora, depois achei que talvez pudesse ser realizadora de documentários; até fiz alguns cursos na área da antropologia, julgando que podia mudar-me para África para estudar os guerreiros Masai ou outra tribo quase extinta qualquer. Tenho um fascínio pela nossa espécie e adoro a ideia de poder escrever sobre ela de alguma forma. Mas admito que herdei um sentido prático muito forte do meu pai. Gosto de ter uma casa de banho dentro de casa e seguro de saúde. Por isso arranjei um emprego na área da edição. Mas agora, a novidade que era poder pagar as minhas mercearias já tinha definitivamente perdido uma parte da emoção inicial. E a Serena ouve calmamente todas as minhas lamúrias. — Mas por que não te despedes? — E faço o quê? Arranjo outro emprego em publicidade? Detesto publicidade. Ou fico desempregada? Sou demasiado dependente de um ordenado fixo para ser assim tão descontraída. 22


— Por vezes temos de correr alguns riscos. Se a Serena achava que eu me estava a afundar numa rotina, então a minha vida devia estar mesmo mal. — Como por exemplo? — perguntei. — Como... não disseste sempre que querias escrever? — Sim, mas o meu ego não é suficientemente grande para ser escritora. Eu estava um pouco parada na minha vida profissional. A minha «voz da razão», em que tanta gente confiava, estava a fazer com que descartasse praticamente todas as possibilidades. Mas todas as sextas-feiras a Serena me ouvia a choramingar sobre as frustrações do meu trabalho como se fosse a primeira vez que falava nelas. Por isso pensei, e por que não? As minhas amigas sempre demonstraram muita curiosidade em relação a ela. Por que não tentar convencê-la a sair connosco? — As probabilidades de qualquer uma de nós sair amanhã à noite e conhecer o homem dos seus sonhos é praticamente nula, por isso, para quê darmo-nos ao trabalho? — perguntou a Serena enquanto dava mais uma dentada no hambúrguer de soja. De um ponto de vista factual, a Serena até tem razão. Tenho andado a sair à noite com a esperança de encontrar o homem que me vai adorar para o resto da vida. Digamos que tenho vindo a fazê-lo duas ou três vezes por semana nos últimos... quinze anos. Já conheci homens e saí com eles, mas é evidente que, até hoje, ainda não encontrei aquele que pode ficar registado no meu livro como «O Tal». Isso resulta numa quantidade infernal de noites em que saí e não conheci o homem dos meus sonhos. Já sei, já sei que não queríamos sair apenas para conhecer homens. Queríamos sair para nos divertirmos, para celebrar o facto de sermos solteiras e mais ou menos jovens (ou pelo menos não velhas), de estarmos vivas e de vivermos na melhor cidade do mundo. É realmente engraçado como conhecemos finalmente alguém e começamos a namorar. A primeira coisa que ambos fazemos é ficar em casa aconchegados no sofá. Porque sair com os amigos era simplesmente divertido de mais. Por isso, não podia discordar muito da Serena. Todo o conceito de «sair» é bastante falível. Mas continuando com o meu pedido: — Não vamos sair para conhecer homens. Só vamos sair por sair. Para mostrarmos à Georgia como é divertido sair. Como é bom ser livre neste mundo, a comer, a beber, a conversar e a rir. Às vezes, 23


alguma coisa inesperada acontece, outras vamos simplesmente para casa. Mas mesmo assim saímos, sabes, para sairmos. Para ver o que pode acontecer. É essa a piada. O argumento sobre os benefícios da espontaneidade e do desconhecido normalmente não falavam muito ao coração da Serena, mas por algum motivo oculto, concordou comigo. — Está bem. Mas não quero ir para um lugar com demasiado fumo ou barulho. E certifica-te de que tem um prato vegetariano no menu. Como a Ruby é Solteira E depois temos a Ruby. Era sábado, duas da tarde e eu tinha ido ao apartamento da Ruby para a tentar recrutar para a saída dessa mesma noite — por isso e porque sabia que era capaz de ainda estar na cama. A Ruby abriu a porta de pijama. O cabelo estava seriamente desgrenhado, a um passo de se assemelhar com as tranças africanas. — Já saíste da cama hoje? — perguntei, preocupada. — Sim. Claro. Agora mesmo — respondeu-me, ofendida. Começou a caminhar em direcção ao quarto. O apartamento estava impecavelmente limpo. Não havia nenhum dos sinais óbvios de depressão, como as caixas bolorentas de gelado, donuts meio comidos e roupa suja espalhada por todo o lado. Ela era uma depressiva bastante arrumadinha, o que me dava uma certa esperança. — Como te sentes hoje? — perguntei, seguindo-a até ao quarto. — Estou melhor. Quando acordei, ele não foi a primeira coisa de que me lembrei. — Voltou a rastejar para cima da cama muito fofa, ondulante e florida e enroscou-se nos cobertores. Parecia realmente confortável. Até eu estava a começar a pensar em dormir uma sesta. — Óptimo! — exclamei, sabendo que estava prestes a ouvir falar muito mais daquele assunto. A Ruby é uma adorável morena de cabelos compridos, uma criatura curvilínea e feminina perfeita, de voz calma e palavras suaves. E gosta de falar dos seus sentimentos. Sentou-se na cama. — O meu primeiro pensamento foi «sinto-me bem». Sabes o que quero dizer, aquele momento que antecede a lembrança de quem és e de quais os verdadeiros factos que compõem a nossa vida? O meu primeiro pensamento, cá no fundo, no meu corpo foi «sinto-me bem». 24


Há muito tempo que não me sentia assim. Sabes, o mais normal é abrir os olhos já a sentir-me merdosa. Como se estivesse a sentir-me merdosa no meu sonho e acordar fosse apenas uma extensão dessa realidade, entendes? Mas esta manhã, o meu primeiro pensamento foi «sinto-me bem». Como se no meu corpo não existisse qualquer tristeza, sabes? — Isso é fantástico — disse alegremente. Talvez as coisas não estivessem tão mal como eu pensava. — Pois, mas é claro que mal me lembrei de tudo, desatei a chorar e só parei três horas depois. Mas acho que já foi uma melhoria, sabes? Fez-me perceber que estou a ficar cada vez melhor. Porque o Ralph não pode ficar marcado na minha memória com tanta força, simplesmente não pode. Em breve, vou acordar e demorar três minutos inteiros a começar a chorar por ele. E depois quinze minutos. Depois uma hora, depois um dia inteiro, até que finalmente vou conseguir ultrapassar isto, sabes? — A Ruby olhou para mim como se fosse recomeçar a chorar. O Ralph era o gato da Ruby. Tinha morrido com uma insuficiência renal há três meses. Desde esse dia que ela me mantinha informada sobre as repercussões físicas da sua depressão. Isto é particularmente difícil para mim, porque não faço a mais pequena ideia como é que alguém consegue aplicar toda a sua energia emocional numa criatura que nem uma massagem nas costas lhe podia fazer. E não é só isso, mas também o facto de me sentir um pouco superior. Acredito que todas as pessoas que têm um animal de estimação são, na verdade, mais fracas que eu. Porque quando pergunto a alguém por que razão amam tanto o seu animal de estimação, a resposta é invariavelmente: «Não vais acreditar no amor incondicional que o Beemie me dá.» Pois, adivinhem? Eu não preciso de amor incondicional. Preciso de alguém que consiga caminhar sobre duas pernas, que saiba formar frases, manejar ferramentas e que seja capaz de me recordar que é a segunda vez naquela semana que gritei com alguém num serviço de atendimento porque não consegui levar a minha avante e era melhor pensar um pouco nisso. Quero ser amada por alguém que ao ver-me fechada fora de casa, com a chave metida na porta pela terceira vez naquele mês, seja capaz de entender que essa talvez seja Uma Característica Minha Que Nunca Vai Mudar. E mesmo assim ele ama-me. Não porque é um amor incondicional, mas porque ele me conhece verdadeiramente e decidiu que a minha inteligência fascinante e o meu corpo escaldante valem provavelmente a pena perder um voo ou dois porque me esqueci da carta de condução em casa. 25


Mas não é bem isso que interessa agora. O que interessa é que a Ruby se recusa a sair para ir tomar um café, para ir às compras ou mesmo falar comigo, porque ela é um verdadeiro desastre a gerir as desilusões. Especialmente quando toca ao romance. A quantidade de momentos agradáveis que passa com alguém nunca serão merecedores da dor e tortura a que se sujeita quando as coisas não resultam. As contas não batem certo de maneira nenhuma. Se sair com alguém durante três semanas e depois se separa, a Ruby anda os dois meses seguintes a enlouquecer e a dar com toda a gente que a rodeia em doida. Como sou uma especialista no funcionamento emocional da cabeça da Ruby, posso dizer-vos exactamente o que acontece durante a sua descida aos infernos. Ela conhece alguém, digamos um homem, em oposição a um felino. E gosta dele. Sai com ele. O seu coração fica cheio de expectativas e entusiasmo provocados pelo facto de encontrar finalmente alguém de quem gosta, alguém que está disponível, é meigo, decente e parece gostar dela também. Como já disse, a Ruby é atraente; muito suave, muito feminina. Consegue ser interessada e atenciosa, uma excelente parceira para conversa. E quando conhece homens, eles gostam dela por estes motivos todos. A Ruby é realmente boa na questão dos encontros e quando tem algum relacionamento, está claramente no seu elemento. No entanto, vivemos em Nova Iorque, temos esta vida, e os encontros são assim mesmo. Na maior parte das vezes, as coisas não resultam. E quando isto acontece e a Ruby se sente rejeitada, seja lá por que razão for ou de que maneira a notícia lhe seja transmitida, inicia-se imediatamente um processo. Normalmente, no Momento da Desilusão, a Ruby está óptima. Como aconteceu quando um tal de Nile acabou com ela porque queria voltar para a antiga namorada. No momento do impacto, a Ruby foi muito filosófica sobre o assunto. Desce sobre ela uma onda de sanidade e auto-estima, quando me diz que sabe que aquilo significa que afinal ele não era o tal, que não pode levar a decisão dele a peito e que quem perde é ele. Depois passam-se algumas horas, o tempo afasta-a do momento de lucidez e a Ruby começa a descer o Poço da Loucura. O seu amado, aquele que outrora viu no seu tamanho normal, começa a crescer cada vez mais e numa questão de horas torna-se no Monte Everest do desejo e a Ruby fica inconsolável com a sua perda. Ele foi a melhor coisa que já lhe aconteceu na vida. Nunca mais vai conhecer ninguém como ele. Nile fez a coisa mais poderosa que alguém pode fazer à Ruby — rejeitou-a e agora ele é TUDO e ela é nada. 26


Habituei-me de tal modo a observar a Ruby a passar por isto, que faço sempre questão de estar perto dela naquelas horas críticas que se seguem a uma rejeição, para ver se consigo parar o processo antes que ela comece a descer as escadas do Poço. Porque, deixem-me dizer-vos, quando ela desce ao fundo, ninguém sabe quanto tempo demorará a voltar a cima. E não gosta de estar lá em baixo sozinha. A Ruby gosta de ligar às amigas e descrever detalhadamente, durante horas, como é estar na terra dos sonhos desfeitos. O papel de parede, o forro dos sofás, os mosaicos do chão. E não há nada que possamos fazer. Só podemos esperar que passe. Por isso, como podem imaginar, depois de alguns anos destes altos e baixos, sempre que recebo um telefonema da Ruby a dizer-me que conheceu «um homem fantástico» ou que o segundo encontro «correu mesmo, mesmo bem», não começo imediatamente aos pulos de alegria. Porque, mais uma vez, as perspectivas não são lá muito promissoras. Se três semanas de felicidade dão para dois meses de lágrimas, imaginem como fico apavorada quando a Ruby celebra quatro meses de namoro com alguém. Se um dia chegar a acabar a relação de alguns anos, bem, não sei se nesse momento ainda lhe restam anos suficientes de vida para ultrapassar o trauma. E foi por isso que decidiu arranjar o Ralph. A Ruby estava cansada de se sentir desiludida. E desde que mantivesse as janelas fechadas e as portas entreabertas, o Ralph jamais a abandonaria. E a Ruby nunca mais precisava de se sentir desiludida. Só que ela desconhecia que os felinos podem ter insuficiências renais crónicas. E agora, bem, agora o Ralph foi o melhor gato que já existiu. O Ralph fazia-a mais feliz que qualquer outro animal ou pessoa alguma vez podia ter feito e não faz ideia de como vai conseguir viver sem ele. Ainda consegue ir trabalhar. Tem o seu próprio negócio de recursos humanos e tem clientes que contam com ela para lhes arranjar empregos. E ainda bem que os tem, porque a Ruby é sempre capaz de sair da cama para ajudar aqueles que precisam de uma boa colocação no mundo do trabalho. Mas o sábado à tarde é muito diferente. A Ruby nem se mexe. Até que lhe contei o que se passava com a Georgia. Como o marido a tinha deixado por uma professora de samba, como está de rastos e quer sair para ver o lado bom da vida. Nessa altura, a Ruby entendeu perfeitamente. Entendeu que não importa que nos sintamos mal, é nosso dever sair de casa e ajudar a enganar uma mulher recentemente solteira e fazê-la acreditar que vai ficar tudo bem. Instintivamente, a Ruby percebeu que aquela era uma dessas noites. 27


Como Eu Sou Solteira Sejamos honestas. Eu não estou a sair-me muito melhor que as minhas amigas. Saio, conheço homens em festas, no trabalho ou através de amigos, mas as coisas parecem nunca «resultar». Não sou doida, não saio com homens doidos. Mas as coisas não «resultam». Quando vejo casais a caminhar pela rua, apetece-me abaná-los e implorar-lhes que respondam à minha pergunta. «Como é que vocês conseguem fazer isto?» Isto tornou-se uma espécie de Esfinge para mim, um mistério eterno. Como é que duas pessoas conseguem encontrar-se nesta cidade e fazer a relação «resultar»? E como reajo a isto? Fico perturbada. Choro. Paro de chorar. Depois animo-me e volto a sair, a ser absolutamente encantadora e a divertir-me tantas vezes quantas possível. Tento ser uma boa pessoa, uma boa amiga e um bom membro da minha família. Tento certificar-me de que não há um motivo inconsciente para ainda ser solteira. E continuo a andar com a minha vida. — És solteira porque agora és demasiado esquisita — é a resposta da Alice de cada vez que o assunto vem à baila. Entretanto, não a vejo casada com o bonitão que trabalha na loja de frutas da esquina da Doze com a Sete e que parece ter um enorme fraquinho por ela. Ela baseia esta opinião no facto de eu me recusar a arranjar encontros online. Antigamente, os encontros online eram considerados um embaraço horrendo, uma coisa que ninguém admitiria andar a fazer, nem morta! Adorava essa época. Agora, a reacção que obtemos das pessoas, quando dizemos que somos solteiras e não participamos em nenhuma espécie de encontros online é que não deves querer assim tanto encontrar alguém. Tornou-se no cerne da questão, no teste absoluto para determinar o que estamos dispostas a fazer por amor. Como se o nosso Sr. Certo esteja absoluta e garantidamente online. Ele está à nossa espera e se não estivermos dispostas a gastar 1500 horas, 39 cafés, 47 jantares e 432 copos para o conhecer, então é porque não estás suficientemente determinada a conhecê-lo e nesse caso mereces envelhecer e morrer sozinha. — Não me parece que estejas já disponível para o amor. Ainda não estás pronta — diz a Ruby. Eu nem sequer me vou dar ao trabalho de lhe responder — excepto dizer que não sabia que encontrar o amor se tinha tornado no equivalente à preparação para se ser um Cavaleiro Jedi. Não sabia que eram necessários anos de treino psíquico, experiências metafísicas de 28


resistência e anéis de fogo para atravessar antes de conseguir encontrar um par para ir comigo ao casamento do meu primo em Maio. E no entanto, conheço mulheres que devem estar tão fora de si que andam por aí a ladrar como cães, que ainda conseguem encontrar homens que as adoram e por quem elas, no meio da sua loucura, se sentem apaixonadas. Mas não importa. A minha mãe acha que eu sou solteira porque gosto da minha independência. Mas é raro debruçar-se longamente sobre o assunto. Ela é de uma geração de mulheres que não acreditava ter outra alternativa de vida além de casar e ter filhos. A minha mãe não teve outras escolhas. Por isso, acha que é espectacular eu ser solteira e não ser obrigada a depender de homem nenhum. Não me parece que os meus pais tenham tido um casamento particularmente feliz e depois de o meu pai morrer, a minha mãe transformou-se numa daquelas viúvas que parece ter começado finalmente a viver — as aulas, as férias, os jogos de bridge e os clubes de leitura. Quando eu ainda era uma miúda, a minha mãe achava que me estava a prestar um óptimo serviço, a oferecer-me um maravilhoso presente ao recordar-me que não precisava de nenhum homem para ser feliz. Posso fazer o que quiser, ser quem eu quiser, sem precisar de um homem. E agora... bem, não tenho coragem para lhe dizer que não sou realmente feliz solteira e se quisermos ser a namorada ou mulher de alguém, e se por acaso formos heterossexuais, então precisamos mesmo de um homem, desculpa lá, mãe; mas não lhe digo isto porque sei que ia ficar preocupada. As mães não gostam de ver os filhos tristes. Assim, desvio as conversas para bem longe da minha vida amorosa e ela não faz perguntas, já que nenhuma de nós quer saber ou revelar as tristezas incómodas uma da outra. — Oh, por favor — disse a Serena, que de entre todas as minhas amigas é quem me conhece há mais tempo. — Não é nenhum mistério. Tu saíste com todos os maus rapazes até meio dos trinta anos e agora que finalmente ganhaste juízo, os melhores já estão todos comprometidos. Bingo. O meu último namorado, há seis anos, foi o pior deles todos. Há homens com quem namoramos que são tão maus que quando contamos a sua história, ela se reflecte de modo igualmente desagradável em nós e não apenas neles. O nome dele era Jeremy e namorávamos há dois tumultuosos anos. Ele decidiu acabar comigo não comparecendo ao funeral do meu pai. Depois disso, nunca mais ouvi falar nele. 29


Desde essa altura, nada de maus rapazes. Mas também nada de grandes amores. A Georgia dedicou-se à questão por que permaneço solteira numa noite particularmente sombria, solitária e lamentosa. — Oh por amor de Deus, não há motivo nenhum para isso. Está é tudo fodido. Tu és bondosa, és linda, tens o melhor cabelo de toda a cidade de Nova Iorque. (É bastante comprido e encaracolado, mas sem ser frisado e quando o quero esticar, fica igualmente bonito. Tenho de admitir, é o meu melhor atributo.) — És sensual, inteligente, engraçada e uma das melhores pessoas que conheço. Tu és perfeita. Pára de te colocar essa questão horrorosa, porque não há porcaria de motivo nenhum para que o homem mais sensual, simpático e encantador de Nova Iorque não esteja loucamente apaixonado por ti neste preciso momento. E foi por isto que amei imediatamente a Georgia. Foi também por esse motivo que acabei por organizar uma saída para este fim-de-semana com o meu conjunto de amigas tão distintas; para podermos mostrar à Georgia que ainda vale a pena viver a vida. Porque quando o dia acaba... vem a noite. Em Nova Iorque, se há noite, há vida nocturna e onde há vida, como vos dirão os mais optimistas, há esperança. Acho que essa é uma grande parte de como é ser solteira. Esperança. Amigos. E fazer tudo por tudo para sair da porcaria do apartamento.

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Como_Ser_Solteira