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Capítulo 1

A QUEDA

Jason e Julia Covenant estavam agarrados um ao outro, a poucos passos das escadinhas escavadas na encosta da falésia de Salton Cliff. Tinham corrido para ali quando a casa começou a tremer, abanada por um abalo que os acordou em sobressalto. Depois tinham­‑no visto, na enseada, em frente da praia de Kilmore Cove: um bergantim completamente negro, com as velas cor de alcatrão. E oito bocas de fogo apontadas para eles. Ouviram o rebentamento da pólvora dos disparos dos canhões, seguido por um assobio, e o céu, que a aurora iminente já clareava, riscado por chamas repentinas.

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— PARA BAIXO! — gritou Jason, derrubando a irmã para o chão e cobrindo­‑a com o próprio corpo. A torrinha da Vivenda Argo tinha sido atingida em cheio por uma bala de canhão que entrou por uma vidraça e saiu pela outra. — JASON! JULIA! — gritaram os senhores Covenant, dominados pelo pânico, enquanto a chuva de estilhaços de vidro caía no pátio à volta deles. Ouviu­‑se um segundo assobio, depois um terceiro, um quarto: um projétil desfez em pedaços a varanda da entrada e rolou para dentro de casa, sobre os tapetes, como uma gigantesca bola de bowling. Outro tiro atingiu novamente a torrinha e o último sacudiu com violência o tronco de uma árvore secular, indo enterrar­‑se, ainda fumegante, no terreno húmido do jardim. Julia olhava fixamente para aquele cenário com os olhos esbugalhados. — Não pode ser verdade — mur‑ murou, transtornada. — Põe­‑te para baixo e fica aqui! — ordenou­‑lhe o irmão, e logo a seguir levantou­‑se e afastou­‑se a correr. Um estrondo, uma chama, um assobio que cobriu o grito angustiado de Julia: — JASON! Outro tiro passou entre as árvores, onde em tempos tinha sido o anexo de Nestor, e deitou abaixo o pequeno muro de vedação.

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A senhora Covenant estava dominada por uma crise histérica e não conseguia parar de soluçar, apesar de o seu marido tentar acalmá­‑la de todas as maneiras. Também ele, contudo, olhava à sua volta, aterrorizado, incapaz de perceber o que acontecia. Depois a torrinha inclinou­‑se para um lado, gemendo como um animal ferido, e na velha parede da Vivenda Argo abriu­‑se uma brecha muito profunda. — JASON! — gritou Julia mais uma vez, o mais alto que pôde. — PARA ONDE VAIS? O irmão parecia nem a ouvir. Passou a correr junto dos pais, agarrados um ao outro no meio de uma nuvem de pó e estilhaços: o pai ainda estava de pijama, às riscas brancas e azuis, a mãe de camisa de noite comprida que até dava frio só de olhar para ela. — Depressa, o carro! — gritou Jason indo na direção da garagem. — Temos de ir para o carro! Onde estão as chaves? Porém, quando cruzou os olhos com os dos pais, só viu neles uma profunda confusão, como se tivesse dito aquilo numa língua desconhecida. Jason percebeu num instante que tinha de fazer tudo sozinho: entrou na cozinha, olhou à volta e viu as chaves no sítio onde habitualmente as deixavam quando despejavam os bolsos. Pegou nelas e atirou­‑as ao pai, que as agarrou no ar e se pôs a olhar para elas como se lhe tivessem aparecido na mão por magia.

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— Temos de sair daqui rapidamente! Estão a disparar contra nós! — explicou a ambos, com dramática tranqui‑ lidade. O senhor Covenant ainda estava a olhar fixamente para as chaves do carro. — O que estaria a dizer... Jason? O filho, no entanto, desaparecera novamente no interior da casa. Mais um estrondo, mais um assobio. E ainda outro estouro, que fez gritar de pavor os senhores Covenant. O carro na garagem. Sim, o carro era uma boa ideia. — Julia, corre! Por este lado! — gritou o senhor Cove‑ nant arrastando a mulher ao longo do jardim. Jason atravessou a cozinha numa espécie de transe, tão concentrado no seu objetivo que não ouvia qualquer outro barulho à sua volta. Correu para a primeira sala, onde viu a bala de canhão que rolara da alpendrada: tinha deixado nos tapetes um rasto ainda fumegante. Não resistiu ao impulso de lhe tocar, tentação essa que lhe vinha do tempo em que viu o primeiro filme sobre piratas e perguntava a si mesmo se aquelas esferas de metal... — Aiii! — exclamou retirando de repente a mão. Pelo menos, aquela curiosidade estava satisfeita: as balas de canhão acabadas de disparar queimavam. Recomeçou a correr. Passou a segunda sala, o quarto de pedra da Porta do Tempo, e chegou às escadas. Tentou

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ignorar a infinidade de bugigangas espalhadas pelo chão, os quadros caídos ou pendurados das paredes. Subiu os primeiros degraus e parou de repente: tinha ouvido uma espécie de mugido, longínquo, depois o assobio cada vez mais forte, porque se ia aproximando, de outro projétil de canhão. Por instinto, agachou­‑se na escada e esperou que reben­ tasse, protegendo a cabeça com as mãos. — Não, agora não! — rezou quando qualquer coisa explodiu a poucos metros da sua cabeça. O espelho no alto das escadas foi feito em cacos e uma chuva de afiados estilhaços de vidro bateu contra Jason. Esperou alguns segundos, sacudiu­‑os de cima dele e voltou a correr pelas escadas acima. A bala do canhão tinha batido precisamente no centro do espelho e cravara­‑se até meio na parede por trás dele. Cada fragmento espelhado devolvia­‑lhe a imagem refle­ tida do rosto. Estava deformado pela tensão, mas bri­ lhava-lhe nos olhos uma determinação furiosa. Virou­‑se: a porta que dava para a torrinha estava tom‑ bada de lado, arrombada, e uma corrente de ar gélido vinha do que restava do escritório de Ulysses Moore. Menospre‑ zando o risco, Jason entrou passando por cima da porta. A sala da torre estava perigosamente inclinada para um lado: o chão tinha­‑se rachado como uma casca de tangerina e as tábuas de madeira do soalho formavam um

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leque cortante e retalhado. A mesa, as cadeiras, a mala, as miniaturas de navios, os diários e todos os outros objetos que pertenciam a Ulysses Moore estavam amontoados no canto mais distante. Jason agarrou­‑se à cumieira da porta e teve um ataque de vertigens. — Não — impôs a si mesmo. — Agora não. Através das janelas arrombadas conseguia distinguir a baía de Kilmore Cove, o mar escuro e o barco ancorado no meio, com as velas completamente negras. Uma selva de tochas crepitantes iluminava a ponte do barco, onde uma absurda tripulação de macacos se movia frenetica‑ mente por trás das oito bocas de fogo. Jason tentou contar os tiros que tinha ouvido até àquele momento: o projétil que tinha acertado no espelho devia ser o sétimo. Aliás, o oitavo, contando também com aquele que os tinha acordado. Perguntou a si mesmo se no barco não estariam a recar­regar os canhões, uma vez que nos segundos que se seguiram não se ouviram quaisquer outros estrondos de rebentamentos ou de assobios de balas de canhão. Do exterior chegava apenas o barulho dos passos na praia, o roncar tranquilizante do automóvel a trabalhar e a voz, carregada de angústia, da mãe que o chamava: — Jason! Onde estás? Jason! Naquele momento o chão da torre estremeceu e inclinou­‑se ainda mais para um lado. O baú de Ulysses

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Moore começou a deslizar pelo declive inesperado, rolou e abriu­‑se, espalhando a toda a volta um montão de folhas de papel e de cadernos preenchidos. Jason, contra a sua vontade, viu que já não havia tempo para salvar também aqueles papéis. Cerrou os dentes, perscrutou a escuridão e conseguiu ver o objeto que se propusera recuperar. Viu­‑o no canto mais baixo, mesmo ao fundo, no meio da confusão de livros e copos partidos: uma caixa de música de forma estranha, octogonal, uma espécie de pequeno carrossel com oito barquinhos em vez dos habituais cavalos. Durante muito tempo, aquele tinha sido mais um dos mil objetos que atravancavam as gavetas, os armários, as estantes e os nichos da Vivenda Argo. Era um dos milhares de recordações que, durante anos e anos de viagens, haviam sido trazidas de lugares reais e imaginários. Contudo, precisamente na noite ante­rior, através de Black Vulcano, ele e Julia tinham descoberto que a caixa de música era um objeto de família, prenda de uma certa Elisabeth Kapler a John Joyce Moore, o pai de Ulysses. Um objeto que ocultava um grande segredo. Experimentou carregar com o pé em tudo o que estava inteiro na sala, e fazia­‑o com todo o peso do corpo para testar a solidez da torrinha. Ouvia­‑a ranger e fletir, como se estivesse prestes a desmoronar­‑se de um momento para

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o outro, mas, incrivelmente... resistia! As velhas paredes da Vivenda Argo resistiam! Jason arriscou mais um passo, baixou­‑se e continuou a avançar de gatas. Todos os seus movimentos eram muito, muito lentos, sempre com os olhos postos quer no chão, quer na baía. Seria que aquilo acontecera depois de ter posto a caixa de música em movimento? Era uma ideia absurda, mas Jason já tinha aprendido a não pôr de lado qualquer hipó‑ tese, por mais que parecesse mirabolante. E se tivesse sido a caixa de música a fazer com que aquele maldito barco aparecesse ali, talvez conseguisse também fazê­‑lo voltar para o sítio donde tinha vindo. Tinha apenas uma maneira de o descobrir. Deslizou pelo chão e aproximou­‑se mais dos objetos amontoados ao fundo da sala... — Jason! — Os gritos dos pais foram cobertos por um estrondo pavoroso. O rapaz voltou a olhar para fora pela janela e viu duas línguas a refletir­‑se no mar por uma fração de segundo. — Não — murmurou de dentes cerrados. Tinha posto o pé em cima do baú aberto, no canto da sala. Só teve tempo de pestanejar duas vezes, depois ouviu o barulho de vidros estilhaçados e de coisas a caírem. A primeira bala tinha acertado em cheio na biblioteca, na parte lateral da torre. — Pró diabo! — Com um golpe de rins, Jason esticou­ ‑se para a frente.

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Os seus dedos roçaram na cobertura em pele antiga do baú e nas tachas de latão, encontraram as páginas de um livro, o casco de madeira de uma das miniaturas de bar­cos que o velho proprietário gostava de construir e, por fim... A segunda bala de canhão caiu entre os canteiros do jardim, cavando um sulco profundo na terra ainda fresca. Toda a estrutura da torre voltou a tremer, inclinando­‑se ainda mais. Diários, quadros, estátuas e uma cadeira voa‑ ram para fora por uma das janelas arrombadas, rolaram pelo telhado e foram cair em baixo, no pátio. Jason viu­‑se de respiração cortada, com qualquer coisa a esmagá­‑lo de repente, impedindo­‑o de se mexer, con‑ tra a parede. Mas não desistiu: com a mão livre continuou a procurar entre os objetos amontoados e, finalmente, sentiu debaixo dos dedos as formas angulosas da caixa de música. Esticou o braço o mais que pôde e avançou com ele centímetro a centímetro, aflorou o lado oposto e, com uma série de pequeníssimos toques, conseguiu agarrá­‑la com a mão. — Sim! — exultou. — JASON! — desta vez tinha sido Julia a gritar. Jason, com a caixa de música bem segura na mão, disse de si para si: «Já vou», tentou libertar­‑se e disse uma segunda vez: «Já vou». Tentou mover­‑se na direção da porta por cima dele mas, logo que deu meio passo, as

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traves de madeira que prendiam a estrutura da torre ao corpo principal da casa partiram­‑se de repente. Depois de um instante em que o tempo pareceu ter parado, a pequena torre da Vivenda Argo rolou sobre si mesma ao longo do telhado e caiu.

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