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capítulo

1

Esta semana não tem sido grande coisa. Bem, a segunda-feira até nem foi má, se não contarmos com os hambúrgueres crus que comemos ao almoço nem com o facto de a mãe da Margarida ter ido buscá-la à escola. Nem com as coisas que aconteceram no gabinete da directora da escola, onde tive de ir explicar que o que acontecera ao cabelo da Margarida não fora culpa minha e que, além do mais, ela até ficava bem sem cabelo. Ou melhor, eu tentei explicar tudo isto à directora Coelho, mas não pude porque ela não estava lá; tinha saído para tentar acalmar a mãe da Margarida. 1


Alguém me devia ter explicado que não se pode atender o telefone do gabinete da directora, já que é assim tão errado. Pronto, está bem. Segunda-feira não foi um dia nada bom. Não estava nada à espera disso, porque o dia começou com dois sinais de sorte que me enganaram. Primeiro, o meu prato de cereais tinha o número exacto de fatias de banana: uma para cada colherada. Depois, quando cheguei à escola, a professora disse: — Os seguintes alunos têm autorização para não escrever o texto do diário, devendo dirigir-se à sala de arte para trabalhar no projecto «Bem-Vindos ao Futuro». E eu era um dos seguintes alunos! De maneira que, em vez de ter de inventar assuntos para escrever no diário, coisa que detesto fazer, pude colar e pintar, coisa que adoro fazer. 2


A Margarida também estava na sala de arte. Quando me sentei a seu lado, ela atirou-se para cima da máscara da «Princesa do Futuro», na qual colava brilhantes. — Não te esqueças das regras — avisou-me. A Margarida é do quarto ano e eu do terceiro, o que segundo ela faz com que possa mandar em mim. Odeio as regras da Margarida. — Não podes tocar nas minhas coisas — disse ela. Está sempre a dizer o mesmo. 3


— Porquê? — perguntei. Estou sempre a perguntar o mesmo. — Porque é a regra — disse ela. Está sempre a dizer o mesmo. — Porquê? — insisti. — Porque não podes tocar nas minhas coisas. Então apontei para a janela. Não se pode dizer que estivesse a mentir, porque nunca disse que estava ali alguma coisa. Enquanto a Margarida olhava para a janela, toquei sem querer na máscara dela. Pronto, toquei duas vezes. Em seguida apliquei-me no meu trabalho, para não ter de ouvir a professora com os seus «Clementina, presta atenção!». Ainda por cima, por acaso até prestava. Era injusto, porque eu era sempre a única pessoa na classe de Arte que prestava mesmo atenção. E por isso posso jurar por todos os santinhos que a senhora do refeitório e o 4


contínuo estavam no carro dele a beijar-se. Outra vez. Mais ninguém viu esta cena nojenta, porque ninguém estava a prestar atenção à janela! Depois, quando chegou a minha vez de passar o agrafador, percebi que o lenço da professora tinha uma mancha de ovo que parecia mesmo (se semicerrássemos os olhos) um pelicano. E mais ninguém reparou. — Clementina, tens de prestar atenção! — disse a professora de Arte mais uma vez. E, tal como de todas as outras vezes, eu estava a prestar atenção. Estava a prestar atenção ao lugar da Margarida, que se encontrava vazio. A Margarida tinha pedido licença para ir à casa de banho, e quando saiu tinha os olhos inchados e a boca a tremer, como fazemos quando estamos cheios de vontade de chorar mas não choramos. A Margarida demorou imenso tempo, mesmo para ela, que quando lava as mãos esfrega um dedo de cada vez. — Tenho de ir à casa de banho — disse à professora. 5


Era mesmo lá que estava a Margarida: encolhida debaixo do lavatório e com a cabeça enterrada entre os joelhos. — Margarida! — sussurrei. — Estás sentada no chão! A Margarida inclinou-se ligeiramente para o lado para que eu pudesse ver que, para se proteger dos germes, colocara uma camada de toalhas de papel debaixo de si. — Ah, está bem. Mas o que se passa? — quis saber. A Margarida pressionou ainda mais a cara contra os joelhos, que já reluziam com as lágrimas. Então, apontou. Pousada no lavatório, ao lado de um par de tesouras com uma etiqueta que dizia «Não Retirar da Sala de Arte», estava uma madeixa de cabelo castanho liso. Ui. — Vá lá, Margarida — pedi. — Deixa-me ver. A Margarida abanou a cabeça. — Só saio daqui quando ele tiver crescido. 6


— Olha, acho que estou a ver um germe a trepar-te pelo vestido acima. A Margarida deu um salto e pôs-se de pÊ.


Olhou para o espelho e tornou a chorar. — O meu cabelo ficou cheio de cola — soluçava. — Estava só a tentar tirá-la... O cabelo da Margarida chegava-lhe a meio das costas. Notava-se bem que por cima da orelha esquerda não havia nada. — Se calhar, se tirássemos um bocadinho do lado direito, ficava melhor... — sugeri. A Margarida limpou os olhos e acenou, enquanto me entregava a tesoura. Cortei, e em seguida ambas olhámos para o espelho. — É como se fosse uma franja — disse, para tentar animá-la. — Quer dizer, mais ou menos... — Só que as franjas ficam de frente e não dos lados — corrigiu-me a Margarida. Então, suspirou profundamente, pegou na tesoura e cortou o cabelo por cima da testa. Agora, a parte da frente da cabeça estava sem nada, ao passo que na parte de trás pendia um cabelo comprido, liso e brilhante. 8

Clementina  

capítulo 1 2 A Margarida também estava na sala de arte. Quan- do me sentei a seu lado, ela atirou-se para cima da máscara da «Princesa do Fu...

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