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PRÓLOGO

De pé sobre as rochas escorregadias, a mulher magra com o sari verde contemplava as águas escuras que a rodeavam. O vento quente desprendera-lhe algumas madeixas do seu cabelo esparso, soltando-as do coque. Atrás de si, os sons da cidade chegavam-lhe abafados, silenciados pelo marulhar constante da água junto dos seus pés nus. Com excepção dos caranguejos que ouvia e sentia a correr pelas rochas, estava ali sozinha, acompanhada apenas pelo murmúrio do mar e a Lua distante, uma linha fina como um sorriso no céu nocturno. Até as mãos estavam vazias, agora que as abrira e libertara a carga de hélio. Ficara a ver até o último balão ter sido engolido pela negrura da noite de Bombaim. Tinha agora as mãos vazias, tão vazias como o seu coração, também ele uma casca de coco à qual haviam retirado o conteúdo. Oscilando cautelosamente sobre as rochas e sentindo a água lamber-lhe os pés, a mulher ergueu o rosto para o céu negro, em busca de uma resposta. Atrás de si, espraiava-se a cidade perdida e uma vida que naquele preciso momento lhe parecia fictícia e irreal. À sua frente, ficava a linha quase invisível do ponto onde o mar tocava o céu. Podia rastejar pelas rochas, trepar o muro de cimento e reentrar no mundo, voltando a partilhar o pulsar louco, latejante e errático da cidade. Ou podia avançar para o mar expectante, deixá-lo seduzi-la, inundando-a com os seus sussurros íntimos. Olhou de novo para o céu, em busca de uma resposta, mas conseguia apenas ouvir o bater habitual do seu próprio coração obediente…

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LIVRO I


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Apesar de ser madrugada, dentro do coração de Bhima estava escuro. Virando-se para o lado esquerdo sobre o fino colchão de algodão estendido no chão, senta-se abruptamente, como todas as manhãs. Ergue a mão ossuda acima da cabeça, boceja e espreguiça-se. Um odor forte a mofo sobe dos sovacos e assalta-lhe as narinas. Por um momento, senta-se, ociosa, na beira do colchão com os pés calejados no chão de terra, os joelhos dobrados, e apoia a cabeça nos braços cruzados. Naquele instante, sente-se quase em paz, o espírito em branco e grato, esvaziado dos problemas que a aguardam nesse dia, e no seguinte e no outro… Para prolongar aquele estado de graça despojada, estende distraidamente o braço para a lata de tabaco de mascar que guarda ao pé da cama. Enfia uma tira na boca, fazendo-a sobressair no rosto esquelético qual bola de críquete. O idílio de Bhima dura pouco. À luz esbatida e delicada do novo dia distingue a silhueta de Maya que se agita no colchão, ao fundo, do lado esquerdo da cabana. A rapariga murmura baixinho, adormecida, uns sons lamurientos e, contra sua vontade, Bhima sente o coração amansar e amolecer, como acontecia havia tanto tempo, quando dava de mamar a Pooja, a mãe de Maya. Instigada pelos lamentos de Maya, que faziam lembrar um cachorrinho, Bhima levanta-se do colchão com um gemido e encaminha-se para onde a neta dorme. Todavia, no segundo que leva a atravessar a pequena cabana, algo se modifica no seu coração, transformando o sentimento maternal e langoroso de há pouco num outro, impiedoso e duro, um sentimento de raiva que se instalou dentro de si 15


faz algumas semanas. Agiganta-se sobre a rapariga adormecida, que agora ressona levemente, afortunadamente inconsciente da raiva que luz nos olhos da avó, quando esta contempla o ligeiro inchaço da barriga de Maia. «Um pontapé rápido», diz Bhima para si própria, «um pontapé rápido na barriga, seguido de outro e de outro, e acaba tudo. Olhem para ela, ali a dormir, qual puta desavergonhada, como se nada a preocupasse. Como se não tivesse dado cabo da minha vida.» O pé direito de Bhima estremece de desejo e os músculos da barriga da perna retesam-se ao levantá-lo ligeiramente. Seria tão fácil. E, comparado com o que outras avós fariam a Maya — um encontrão brusco para dentro de um poço sem protecções, uma lata de querosene e um fósforo, ser vendida a um bordel —, aquilo seria tão humano. Desta forma, Maya viveria, continuaria a ir à universidade e poderia escolher uma vida diferente da que Bhima conhecera. Era assim que devia ser, como fora até a estúpida da rapariga, com o seu grande coração e agora uma grande barriga, se ter deixado engravidar. Maya solta de súbito um pequeno ronco e o pé erguido de Bhima regressa ao chão. Agacha-se ao lado da rapariga adormecida para lhe sacudir os ombros e a acordar. Quando Maya ainda frequentava a universidade, Bhima deixava-a dormir até ser possível, fazia-lhe gaajar halwa todos os domingos, dava-lhe a dose maior do jantar todas as noites. Se Serabai oferecia qualquer coisa a Bhima — por exemplo, um chocolate Cadbury, ou aquele doce branco com pistácios que vinha do Irão —, guardava-a para a trazer para Maya, embora, verdade seja dita, Serabai lhe desse também um pedaço para Maya. Porém, desde que Bhima descobrira a vergonha da neta, passara a acordá-la cedo. Nos últimos domingos, não houvera gaajar halwa e Maya não pedira a sua sobremesa preferida. No princípio daquela semana, Bhima até mandara a rapariga ir para a fila a fim de encher os dois cântaros na torneira comunitária. Maya protestara, afagando inconscientemente a barriga, mas Bhima desviara o olhar e dissera que, afinal, em breve toda a gente do basti saberia da sua desonra e, portanto, não valia a pena esconder. 16


Maya vira-se no sono, e o seu rosto fica apenas a milímetros do ponto onde Bhima se agacha. A mão jovem e rechonchuda toca na mão magra e engelhada e aconchega-se contra ela, segurando-a entre o queixo e o peito. Um fio de baba cai na mão cativa de Bhima e a mulher mais velha enternece-se. Maya sempre foi assim desde bebé — carente, afectiva, confiante. Apesar de toda a dor que viveu na infância, não perdera a doçura e a inocência. Com a mão livre, Bhima afaga o cabelo luxuriante e sedoso da jovem, tão diferente do seu, já escasso. O som fraco de um rádio invade o quarto e Bhima pragueja baixinho. Normalmente, quando Jaiprakash liga o rádio, ela está já na fila da água. Significa que está atrasada e que Serabai vai ficar furiosa. Aquela rapariga estúpida e preguiçosa atrasou-a. Bhima afasta bruscamente a mão, sem se importar que o gesto acorde Maya. A rapariga, porém, continua a dormir. Bhima põe-se de pé num salto e a sua anca esquerda produz um estalo audível. Imobiliza-se por momentos, à espera da onda de dor que se segue ao estalo, mas aquele é um bom dia. Nada de dor. Pega nos dois cântaros de cobre e abre a porta da frente. Curva-se para conseguir passar pela porta baixa e fecha-a. Não quer que os jovens lascivos que vivem no bairro-de-lata espreitem a neta adormecida ao passarem. Um deles deve ser o pai da criança… Abana a cabeça para dissipar os pensamentos tenebrosos e tortuosos que a invadem. Os seus intestinos dão sinal e Bhima solta um som de desagrado. Agora tem de se dirigir à casa de banho comunitária antes de ir à torneira e a fila será ainda maior. Normalmente, tenta controlar os intestinos até chegar a casa de Serabai, que tem uma casa de banho a sério. Contudo, ainda é suficientemente cedo e as condições talvez não estejam muito más. Mais algumas horas e quase não haverá espaço para caminhar por entre os inúmeros montes de caca que os residentes do bairro-de-lata deixam no chão de terra da casa de banho comunitária. Após tantos anos, as moscas e o cheiro ainda dão voltas no estômago de Bhima. Os habitantes passaram a pagar à mulher Harijan que vive na extremidade do bairro para recolher a caca todas as noites. Bhima vê-a por vezes, agachada no solo, 17


a varrer os montículos de merda com a vassoura para um cesto de verga forrado com jornais. Por vezes, os seus olhares cruzam-se e Bhima faz questão de lhe sorrir. Ao contrário da maioria dos habitantes do bairro-de-lata, não se sente superior à pobre mulher. Bhima termina o que tinha a fazer e dirige-se à torneira. Geme ao ver a longa fila que serpenteia para lá das barracas negras e desalinhadas, com os seus telhados de lata remendada. A luz matinal torna a sordidez do bairro-de-lata ainda mais marcante. Os esgotos a céu aberto com o seu cheiro acre e húmido, as filas sinistras de barracas de telhados inclinados, os homens esqueléticos, de bocas escancaradas, que preguiçam por ali num estupor alcoólico, tudo aquilo parece pior à luz límpida do novo dia. Contravontade, o espírito de Bhima relembra os velhos tempos em que vivia com o marido, Gopal, e os dois filhos, num chawl, onde a água gorgolejava da torneira da cozinha e partilhavam a casa de banho com apenas duas outras famílias. Bhima está prestes a juntar-se ao fim da fila da água quando Bibi a avista. — Ae, Bhima mausi — cumprimenta-a. — Vem cá, na. Tenho estado a guardar um lugar especialmente para ti. Bhima sorri, agradecida. Bibi é uma mulher gorda e asmática que se mudou para o bairro-de-lata há dois anos e que adoptou de imediato Bhima como sua velha tia. Enquanto Bhima é calada e reservada, Bibi é ruidosa e gosta de dar nas vistas. Ninguém consegue ficar zangado com ela por muito tempo. A sua vontade de ajudar, o apoio que dá a velhos e novos fazem dela uma das residentes do bairro mais populares. Bhima dirige-se para junto de Bibi. — Pronto — diz a outra, tirando-lhe um dos cântaros, apesar de já carregar com dois. — Vem para aqui. O homem que está atrás delas sente-se obrigado a protestar. — Ho, Bibi, isto não é o Expresso de Deccan, onde há reservas para ranhosas de primeira classe — resmunga. — Ninguém pode passar à frente desta maneira. Bhima sente o rosto corar, mas Bibi ergue uma mão apaziguadora e dá meia-volta, enfrentando o detractor. 18


— Wah, wah — brada. — Aqui o Sr. Expresso de Deccan está preocupado com os que passam à frente, mas daqui a uma ou duas horas, enquanto a mausi Bhima trabalha no duro, ele vai direitinho ao taberneiro cá do sítio. E, se hoje houver falta de bebida, que Deus nos proteja, veremos então se ele passa ou não à frente dos outros. — Em seu redor, a multidão solta risos abafados. O homem arrasta os pés. — Pronto, pronto, Bibi, não vale a pena atacares-me assim — resmunga. A voz de Bibi soa ainda mais alto. — Arre, bhaisahib, quem é que te está a atacar? Só disse que és obviamente um homem ocioso, um homem com uma grande fortuna. Se queres passar os teus dias no taberneiro, é lá contigo, mas aqui a pobre da Bhima não tem um belo marido como tu para a sustentar. Todos sabemos como sustentas bem a tua mulher. Portanto, seja como for, a mausi Bhima tem de chegar a horas ao emprego e pensei que um cavalheiro como tu não se importaria que ela enchesse os cântaros antes de ti. Agora a multidão grita, deliciada. — Ae, Bibi, és demais, yaar. És mesmo o máximo — declara um jovem vadio. — Quem precisa de armas nucleares? — pergunta alguém. — Se querem saber, yaar, deviam soltar a Bibi em Caxemira. Até a neve se derrete com o fogo da língua dela. — Esperem, esperem — diz Mohan, um rapaz de dezassete anos que vive na barraca um pouco abaixo da de Bhima, do outro lado. — Sei a canção perfeita para a ocasião. Ei-la: Esqueçam a bomba atómica, diz a Índia A nossa nova arma destruirá o Paquistão Tal como o fez ao Sr. Expresso de Deccan Bibi deixá-los-á numa confusão. Um outro homem, que Bhima não conhece, dá uma palmada nas costas de Mohan. — Arre, ustad, és o máximo. O poeta da corte aqui do nosso bairro. Com o teu ar de estrela de cinema, devias estar a escrever e 19


a cantar as tuas próprias canções. Imaginem, com o físico de um Sanjay Dutt e a voz de um Mohammad Rafi. No Filmfare de hoje à noite serias, sem dúvida, o único vencedor. Bhima sorri, um pouco contrariada. — Pronto, seus palradores — diz Bibi com um sorriso aberto. — Agora, deixem-nos em paz. Quando Bhima regressa à barraca, Maya está levantada e pôs a água a ferver para o chá no fogão a parafina. Enquanto a rapariga acrescenta as folhas de menta, Bhima sente o estômago protestar. Do lado de fora da barraca, ambas lavam os dentes rapidamente. Maya usa uma escova, mas Bhima limita-se a mergulhar o dedo indicador no pó dental e esfregar vigorosamente os dentes que lhe restam. Cospem para o esgoto a céu aberto que corre perto do seu lar. Rapidamente e com eficiência, Bhima enche um copo de plástico num dos cântaros de cobre e lava-se por debaixo da roupa. Arde-lhe o rosto ao reparar no homem da barraca em frente a olhar para ela ao pôr a mão debaixo da blusa para lavar os sovacos. «Badmaash sem vergonha», murmura para si própria, «a portar-se como se não tivesse nem mãe, nem irmã.» Quando volta a entrar na barraca, Maya está a servir o chá em dois copos. Agacham-se, de frente uma para a outra, e sopram o chá quente, enquanto molham um pão na infusão. — Bom chá — comenta Bhima. São as primeiras palavras que dirige a Maya naquela manhã. Depois, como se não conseguisse suportar o ar de gratidão da rapariga, acrescenta: — Parece que, pelo menos, não esqueceste tudo o que te ensinei. Maya retrai-se e o ar prudente e cauteloso assoma-lhe de novo ao rosto. Ao reparar nisso, Bhima arrepende-se, sentindo, porém, uma estranha satisfação. Domina-a a necessidade de fazer correr sangue. — E então, que vais fazer durante todo o dia? Maya encolhe os ombros. O gesto enfurece Bhima. — Oh, é verdade, esqueci-me de que a memsahib já não vai à universidade — declara, falando para as paredes. — Não, agora limita-se a ficar sentada durante todo o dia, como uma rainha, 20


alimentando-se, a ela e ao bastardo do filho, enquanto a pobre da avó trabalha como uma escrava na casa dos outros. Tudo para poder alimentar o demónio que cresce na barriga da neta. Se queria sangue, conseguiu. Maya geme ao erguer-se do chão, afastando-se para o canto mais recuado do pequeno quarto. Encosta-se ligeiramente à fina parede de lata, abraçando a barriga com as mãos, e soluça baixinho. Bhima tem vontade de puxar a rapariga em lágrimas de encontro ao peito, de a abraçar e acariciar como costumava fazer quando Maya era criança, de a perdoar e de lhe pedir perdão. Mas não consegue. Se sentisse apenas raiva, conseguiria escalar esse muro e chegar junto da neta. A raiva, porém, é apenas o início. Por detrás da raiva vem o medo, um medo tão infinito, vasto e cinzento como o mar Arábico, medo por aquela rapariga grávida, estúpida e inocente, ali a soluçar na sua frente, e por aquele bebé por nascer que virá ao mundo e terá uma mãe que não passa de uma criança e uma avó velha e cansada até aos ossos, uma avó farta de perder, de amar e de perder, que não suporta a ideia de mais outra perda e de mais outro ser para amar. Assim, contempla, entorpecida, a rapariga em lágrimas, forçando o coração a não receber as setas dos seus soluços. — Até as lágrimas são um luxo — afirma, sem a certeza de ter falado em voz alta ou para si própria. — Invejo as tuas lágrimas. Quando volta a falar, fá-lo conscientemente. — Se te sentires suficientemente bem, mais tarde passa pela casa de Serabai. Ela está sempre a perguntar por ti. Todavia, por entre as lágrimas, Maya abana a cabeça numa negativa. — Já te disse, ma-ma — declara. — Não saio de casa o dia inteiro, enquanto estás fora. Bhima desiste. — Muito bem, então fica sentada, enquanto a tua velha avó trabalha todo o dia — diz, pondo-se de pé. — Engorda o teu bebé com o meu sangue. — Ma-ma, por favor — soluça Maya, tapando os ouvidos com as mãos, como costumava fazer quando era pequena. 21


Bhima sai e fecha a porta. Tem vontade de bater com ela, mas controla-se. Não vale a pena toda a gente do basti ficar a saber os seus problemas familiares. Em breve saberão da desgraça que Maya arranjou para si própria e, então, atacá-la-ão como abutres. Não vale a pena apressar esse dia. Ao iniciar a sua caminhada até à casa de Serabai, a brisa fresca da manhã sopra contra ela e Bhima arrepia-se. Pelo ângulo do Sol, vê que já é tarde. Serabai estará ansiosa por saber o que se passou no dia anterior. Bhima apressa o passo.

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Bombaim  

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