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PRÓLOGO Hoje aconteceu uma coisa interessante. Morri. Que horror, dirão. Que trágico. E era tão nova, com uma vida toda pela frente. Virá um artigo no jornal, que vivi demasiado intensamente e morri demasiado nova. O meu funeral será pequeno... uns quantos amigos chorosos, alguns vizinhos e conhecidos consternados. Que efusivamente vão consolar o meu pobre marido, Gray. Prometer-lhe amparar a nossa filha, que crescerá sem mim. É tão triste, dirão uns para os outros. Mas que ideia a dela! Mas, passado um tempo, essa tristeza vai dissipar-se, as vidas regressam ao ritmo normal e transformar-me-ei numa recordação, uma recordação que os entristece um pouco, que lhes lembra o quão rapidamente tudo pode acabar, mas que também os fará sorrir. Porque houve bons tempos. Bons tempos em que bebemos em excesso, partilhámos gargalhadas francas e grandes bifes na grelha. Também vou sentir a falta deles e recordá-los bem. Mas não da mesma maneira. Porque a minha vida com eles é uma cortina de fumo, uma mentira cuidadosamente construída. E embora tivesse conhecido alguns, e gostado deles, nenhum me conheceu, de facto. Só conheceram as partes de mim mesma que decidi partilhar e mesmo algumas dessas coisas eram inventadas. Vou lembrar-me delas como nos lembramos de um filme preferido; belos momentos e frases que me virão à memória, voltando a enternecer-me. Mas acabarei por saber que o meu tempo com eles foi uma ficção, frágil e insubstancial como as páginas de um livro. Agora estou na proa de um cargueiro. Atravessa a noite com uma velocidade surpreendente para o seu tamanho, projectando enormes plumas de espuma sussurrante ao devorar as ondas altas. A água à minha volta é negra. Tenho a cara molhada dos salpicos e a pele tão seca pelo vento que começa a ficar dormente. Uma semana atrás tinha 11


tanto medo da água que não imaginaria sequer aproximar-me o suficiente para senti-la na pele. Com a miríade de coisas a recear agora, fui obrigada a vencer esta. O homem do leme já me avisou duas vezes, fez um gesto largo com o braço a mandar-me para dentro. Levanto a mão a mostrar-lhe que estou bem. Custa estar cá fora; é doloroso e é o que eu desejo. Mas, mais do que isso, a proa deste barco representa o ponto mais longínquo da vida que deixei para trás. Vou precisar de mais distância para conseguir voltar para dentro, dormir um pouco, talvez. Sinto o bafo quente do meu predador no pescoço. Para ele, nunca serei uma recordação. Serei sempre um objectivo, sempre aquilo que está fora de alcance. No que depender de mim, é lá que permanecerei. Mas conheço-lhe a avidez, a paciência, a perseverança. O seu coração bate dez vezes menos que o meu. E já estou exausta. Pergunto-me, aqui neste frio gélido, se a caçada vai acabar esta noite e qual de nós estará morto, realmente morto, quando ela acabar. Estou na proa e apoio-me na amurada, recordo a mim mesma que a morte é a minha fuga; posso ir quando quiser. Basta debruçar-me, passar o corpo por cima da grade e cair na escuridão. Mas não o farei, esta noite não. Apegamo-nos à vida, não é? Até os mais patéticos de nós, os com menos razões para continuarem vivos, se apegam. Ainda assim, dá-me um certo conforto saber que a morte é uma alternativa, a jeito e a postos. Por fim, o frio e o vento são excessivos. Volto-me para regressar à minha minúscula cabina e é nesse instante que o vejo, o olho branco e redondo de um holofote a perseguir-nos, as luzinhas de navegação encarnadas e verdes por baixo. A embarcação ainda está muito longe para se ouvir o motor. Só vislumbro o ponto branco a oscilar no negrume. Viro-me para fazer sinal ao comandante, mas ele já não está ao leme. Penso em ir lá acima avisá-lo, mas fico na dúvida se adiantará alguma coisa. Hesito por um momento e depois resolvo que o melhor é procurar um sítio para me esconder. Se ele me encontrou, não há nada que alguém possa fazer. Percebo então que não estou surpreendida; não me surpreende nada que ele me tenha encontrado. Já estava à espera. Há um martelar conhecido no meu peito quando olho para a vastidão do mar e penso de novo na macabra tentação. Seria a maior afronta, roubar-lhe a única coisa que ele sempre quis, a melhor maneira de lhe mostrar que a minha vida me pertence, a mim e a mais ninguém. Mas um rostinho redondo, com uns olhos castanho-escuros emoldurados por um desalinho de caracóis loiros, uma boquinha em coração, faz com que eu fique na coberta. Ela não sabe que a mamã morreu 12


hoje. Espero que não tenha de chorar por mim, crescendo triste e amargurada pela minha morte precoce. É por isso que tenho de continuar viva. Para que um dia, em breve, espero bem, possa voltar para ela e dizer-lhe por que lhe dei aquele nome, abraçá-la e ser para ela a mãe que sempre quis ser. Mas primeiro tenho de lutar e vencer. Não sei quanta combatividade ainda me resta, mas vou lutar. Não tanto pela mulher destroçada e vazia em que me tornei mas pela minha filha, Victory.

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