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PARTE I

O CURIOSO BARBEIRO DE F. F.


O SENHOR TACITURNO

O barbeiro Diamantino Neto aparara a barba, na Ao Corte Superior, vezes sem conta, àquele circunspecto cavalheiro que jamais declinara a identidade completa ou quase (respondia apenas a uma sóbria onomástica: Honório; outros o conheciam por F. F., mas já lá vamos). Nunca denunciara o estatuto social a que pertencia. Nunca derramara comentários sobre questões de família, casos de polícia ou faits divers de notória ou diluída actualidade. Jamais deixara novas ou mandados sobre o que pensava da humanidade, da política, das moléstias recentes que o obrigavam, por lei, a ele, mestre cabeleireiro de homens, sob pena de ser cassado o alvará ao patrão, a aparelhar a navalha com lâmina descartável para os acabamentos de cada corte de cabelo ou arranjo capilar do queixo. Nunca revelara a ocupação fixa, não obstante trajar com o aprumo de quem leva para casa, todos os meses, uma boa quantia. Nada de nada. Três mais seis, noves fora. Zero vezes zero. Nada. No começo, Neto bem propusera diálogo ao senhor taciturno. Dissertava longamente sobre os horrores dos tempos modernos: a ascensão das mulheres a profissões exclusivamente masculinas, no passado — incluindo, obviamente, a sua —, o aquecimento global, o degelo da Antárctida, o tsunami que vem aí, enfim, tudo quanto tivesse feito manchete no seu jornal favorito, O Correio. E sempre na mira de espevitar a veia coloquial de habitué de feitio tão reservado. Barbeiro de pergaminhos ensina, aos utilizadores, menos esclarecidos, dos seus serviços, noções apanhadas aos mais doutos. Gabava-se de servir de correia de transmissão de 11


saberes, exibindo pose de mestre ante os primeiros e uma humildade de aprendiz, de cortar o coração, face aos segundos. Em ambos os casos dispersava no discurso uns laivos de erudição bebidos no tablóide preferido, devorado nos intervalos de rarefacção clientelar como se fosse um farol de intensa luz varrendo o mar na penumbra cerrada das lástimas do nosso tempo. Algo no foro íntimo lhe segredava, ao ajuizar o potencial de criatura de aspecto tão distinto e ar tão inteligente, que aquele crânio seria portador de matéria sábia capaz de o ajudar a melhorar a sua cultura geral. Convencera-se de que se pudesse arrancar do lúgubre ser uma confidência, uma dor de alma, um desabafo, isso preludiaria novo estádio de relacionamento baseado na permuta de experiências, pois que ele, barbeiro havia trinta e tantos anos (só ali, já ultrapassara a dezena) a ouvir histórias apologéticas, também tinha algumas de reserva para quando o excelentíssimo se dignasse mostrar-se mais afável e comunicativo. O alvo do seu interesse, porém, ou se fechava num mutismo obstinado, ou respondia por monossílabos, ou viajava por outros mundos, talvez cósmicos, em demanda não se sabia de que planeta novo ou de que buraco negro glutão capaz de nos riscar do mapa do universo no afogo de um susto. Por muito que lhe espicaçasse a veia coloquial, ora com pouco tacto, ora com finura e infinita paciência, daquela alminha nada de nutrido conseguira arrancar. Cansara-se, por fim, de puxá-lo ao paleio. E ambos cultivavam actualmente uma delicada flor, constrangido um, indiferente o outro: o silêncio. Um silêncio às vezes cortante, só alterado, a espaços, por falatório vazio de conteúdo, utilitário e inútil, entendia Neto, quanto a satisfazer-lhe as precisões conviviais. Um silêncio de longos silêncios cerzido. Um silêncio global, espesso, irritante e neutro. Uma tortura. Certa vez recebeu a barbearia a visita inusitada de Porfírio Inverno, crítico literário de primeira geração, no quadro das gerações sobreviventes à invasão dos jovens turcos universitários, responsáveis pelo colapso, nos idos de oitenta, da crítica nos jornais a favor de discursos codificados para seu recreio exclusivo em nome de uma profissionalização que excluía o leitor comum do comentário opinativo expresso em linguagem acessível, isto é, de amadores, segundo os juízos dos novos juízes das salsas letras. Cliente ocasional. Era 12


a primeira vez que Inverno ali entrava. E logo numa altura particularmente crítica, como com certeza o adjudicará quem resista até final ao conto do ocorrido. F. F., de olhos fechados, à mercê da navalha do mestre afadigado no apuro, aparo, melhor dizendo, dos fios rebeldes da barba, não deu pela chegada do plumitivo nem este apreendeu logo quem era a pessoa que o antecedia no lugar ocupado. Só pouco depois, sentado no banco corrido dos que aguardam vez, procedeu, pelo espelho, à identificação da figura reflectida. Num instintivo gesto de autodefesa corrigiu a posição, saindo do enfiamento letal que o deixava à mercê do olhar indesejado, e lançou mão do Correio, abrindo-o a toda a largura e transformando-o na cortina protectora que o poupou à delicada operação do mútuo reconhecimento. Apanhado de surpresa numa esquina do tempo, ainda lhe custava vergar-se sem aviso prévio ao triunfo do homem do espelho. Quando crítico emergente, mimoseara F. F. com o epíteto de «poeta que veio do escuro» numa crónica venenosa, sarcástica, neo-realista e tudo. O receio de ver essa ferida, nunca completamente suturada, reavivada naquele instante, apesar dos lustros transcorridos sobre o incidente e das correcções de perspectiva já publicamente assumidas, levou-o a manter-se escondido por detrás da parede de papel, à espera que o vate, acabado o afago da mandíbula pilosa, ao afastar-se do local lhe acabasse de vez com o pesadelo. Escovado dos pêlos vadios, intrometidos por cavidades auriculares e átrios do nariz, F. F. distendeu as pernas, levantou-se, sacudiu-se, pagou e esportulou gorjeta (sempre o mesmo xis não inflacionado, no aparte jocoso de Neto, entredentes). Deixou a barbearia mais leve, talvez mais reconciliado com a vida. Um sorrisinho trocista desabotoava-lhe o semblante, traindo o mal escondido comprazimento de alguém subitamente aliviado por se sentir livre de um tipo munido de arma branca que durante minutos — uma eternidade — o mantivera refém pelo maxilar, na antecâmara de improvável mas não tecnicamente impossível acto tresloucado. Só então o crítico literário baixou o jornal, erguendo-se lentamente, à espera que Diamantino Neto lhe higienizasse a cadeira, fosse buscar o penteador lavado e tomasse no apreço devido a sua qualidade de sujeito pagante por atender. Neto estava noutra onda, 13


prisioneiro do magnetismo emanado do vulto a afastar-se. De olhos fixos naquele andar sumptuoso, no talhe daquele corpo de equilibradas proporções (ex-atleta ou marujo na reforma eram hipóteses que afluíam à grelha classificativa dele, D. N., como projecção de uma identidade plausível) encimado por uma auréola (ou seria uma coroa de louros?), simultaneamente perto e distante, tangível e longínquo, anjo e demónio, mantinha-se imobilizado junto do vidro panorâmico numa inexplicável atitude escrava, sem raízes na esfera do desejo mas vinculada aos pequenos desesperos de classe em que navegam os atingidos pelas assimetrias sociais, ofuscados pela pompa dos que se têm na conta de serem de fabrico topo de gama, generoso apodo que no caso vertente, como seremos elucidados mais adiante, até nem seria destituído de certo cunho de veracidade. F. F., qual ente imponderável de ânimo reforçado depois de superada a ameaça de degola, percorria a imensa estrada cintilante, de piso macio, a abrir-se espontaneamente aos seus leves, mágicos, passos ritmados pela inefável melodia que porventura então assobiasse baixinho. Inverno ainda pensou provocar, borrifando o caldo quase entornado com umas gotas de ironia: Venho para o sacrifício da «tosquia» com máquina a zero, a imitar futebolistas e fauna balideira com lã de sobra — desistiu, porém. Afinal as coisas não podiam eternizar-se. O homem paralisado por despiste na sua rotina de trabalho não tardaria, por certo, a recuperar da momentânea abulia, talvez fruto de uma indisposição, de um mal-estar fortuitos, cujo fim dependesse de dois ou três minutos de pausa extra no serviço. Não ocorrera a Inverno tratar-se de uma ruminação e muito menos que fosse uma obsessão a causa do insólito interregno. Tirou o casaco, trauteou uma canção dos setentas (E depois do Adeus), aguardou a ordem do barbeiro para avançar. Em vão. Neto voltara a ter de engolir a despedida lacónica — Até à próxima — da esfíngica individualidade, ficando a matutar que nunca seria capaz de vencer a barreira do som e pô-la a contar-lhe a história da sua vida; estava de saída da casa, o prazo para o conseguir expirara, por assim dizer. Censurava-se por ter desbaratado grandes oportunidades de modificar a relação com o «urso», o «bicho-do-mato», o «mal-encarado». Imaginara surpreendê-lo num dia de defesas frouxas, de língua solta por disfunção etílica ou desaustinado 14


por justa amorosa mal resolvida — e zás! — caía-lhe em cima de garras de fora sem lhe dar tempo a esboçar a mínima reacção — assim congeminara o golpe muito lá para trás, muito ontem, quando o seu futuro na Ao Corte Superior se confundia com a vida eterna. Depois sempre queria ver se aquele sorriso cínico aguentaria a parada de uma curiosidade miudinha como a sua em busca de resgate honroso para tanto jejum de palavras. Adiara o despacho da pendência, no entanto, por julgar que o momento tinha de ser bem escolhido, que apressar as coisas podia deitar tudo a perder, que o que era preciso era calminha jejé pois que saber esperar era uma grande virtude, etc., etc. Assim reza a sabedoria popular, que tem a força que tem, mas se a tem a sério, meu Deus!, é de fugir dela a sete pés. Metaforicamente falando, mil vezes jurara atrever-se, mil vezes recuara, por desencontro com esse momento nuclear em que todas as tensões corporais e psicológicas convergem amigavelmente para a acção que leva qualquer débil pessoa a superar-se e a triunfar num contexto adverso. Sim. Desperdiçara boas ocasiões ao esperar pela ocasião, como a núbil rapariga que aguarda o príncipe encantado que a pedirá em casamento nas franjas do sonho e ele se esquece de lhe aparecer para a conduzir ao altar, na prosaica realidade. Agora, à beira de mudar de ares, todos estes projectos se reduziam a cisco. Tinha muitas dúvidas de vir a ser procurado pelo homem em sítio afastado do centro, dado o incómodo de subir a ladeira íngreme de paralelepípedo irregular no topo da qual se localizava A Brilhante. Alterar os hábitos pedestres na zona da Baixa, para ir tão longe cortar o cabelo e aparar a barba, parecia-lhe irrealista, porquanto, apesar de todos esses anos de relação próxima, o grau de intimidade, cordialidade, afectividade, entre um e outro, rondava, como sublinhado, o zero absoluto. Quem sabe, até, se não seria a última vez que o via e se a ausência não faria em estilhaços animosidade tão cinzenta, doentia e caricata. — Então, vamos a isto? Não acha que já é tempo? — esperneou o cliente acidental, sobrancelha de mau agoiro arqueada, pregas de cicatriz na testa franzida e uma tremura esquisita nos dedos, incapaz de prolongar por mais tempo a ficção da indiferença, que se desdobrara, entretanto, numa energia irritadiça cuja evidência aconselhava as maiores precauções a fim de não degenerar em protesto violento. 15


Neto, finalmente, sobressaltou-se, à interpelação agastada do crítico literário, de pé junto da cadeira, aguardando com cara pouco cordata que saísse do efeito de hipnose com que F. F. lhe secara os movimentos. — Vamos a isto — balbuciou Diamantino Neto, antes de poder ajuizar a que grau de desdouro correspondia a admoestação da vítima do seu olvido.

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