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ÂŤProfundo e envolvente.Âť Daily Telegraph ÂŤHoffman tem o dom da escrita.Âť Financial Times ÂŤA visĂŁo de Hoffman ĂŠ cinematogrĂĄfica e a uma escala ĂŠpica.Âť The Scotsman ÂŤUma histĂłria sombria e bem arquitetada, com reviravoltas arrepiantes.Âť The Times

AS QUATRO ĂšLTIMAS COISAS Morte, JuĂ­zo, ParaĂ­so e Inferno. As Quatro Ăšltimas Coisas que nos reserva o Destino. Agora hĂĄ uma Quinta. O Seu Nome ĂŠ Thomas Cale.

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e regresso ao Santuårio dos Redentores, Thomas Cale parece aceitar o papel que lhe Ê atribuído: o destino escolheu-o como o Braço Esquerdo de Deus, o Anjo da Morte. O poder absoluto estå agora ao seu alcance; o terrível zelo e domínio militar dos Redentores Ê uma arma nas suas mãos e ele estå pronto para cumprir o objetivo supremo da Única e Verdadeira FÊ – a destruição da Humanidade.

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as talvez o sombrio poder dos Redentores sobre Cale não seja suficiente – ele vai do amor ao ódio num abrir e fechar de olhos, da bondade à mais brutal violência num segundo. A aniquilação que os Redentores procuram pode estar nas mãos de Cale – mas a sua alma Ê muito mais estranha do que alguma vez poderão imaginar‌

PAUL HOFFMAN

PAUL HOFFMAN

O BRAÇO ESQUERDO DE DEUS

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www.portoeditora.pt 04559.10



 

ISBN 978-972-0-04559-1

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PAUL HOFFMAN

AS

QUATRO

Ăš LTIMAS COISAS

Š Angus Muir

Hoffman criou um reino melancólico, ligeiramente medieval e sem elementos sobrenaturais. Este Ê um mundo fantåstico com histórias e tradiçþes muito próprias. The Telegraph

PAUL HOFFMAN

AS QUATRO ĂšLTIMAS COISAS

O que a imprensa disse sobre O Braço Esquerdo de Deus:

Escritor e argumentista britânico, Paul Hoffman colaborou durante algum tempo com o organismo responsåvel pela classificação de filmes no Reino Unido. Escreveu o argumento de três filmes, em coautoria, e trabalhou, entre outros, com Francis Ford Coppola. O seu primeiro romance, The Wisdom of Crocodiles, deu origem a um filme protagonizado por Jude Law e Timothy Spall. Seguiu-se The Golden Age of Censorship, uma comÊdia negra publicada em 2007. No catålogo da Porto Editora figura jå O Braço Esquerdo de Deus, o primeiro volume da trilogia que agora continua com As Quatro Últimas Coisas.

Morte, Juízo, Paraíso e Inferno BESTSELLER O BRAÇO ESQUERDO DE DEUS DO AUTOR DO

7/1/11 2:47 PM


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A Canção de Thomas Cale, o Anjo da Morte, é o segundo pior poema alguma vez produzido pelo Gabinete para a Propagação da Fé do Redentor Enforcado. A instituição tornou­‑se subsequentemente tão famosa pela habilidade com que tece grosseiras mentiras em louvor dos Redentores que a frase «contar um monge» passou a fazer parte da lin‑ guagem corrente. Livro O Quadragésimo Sétimo: O Argumento Acordai! Porque o sol nascente do alvorecer Revela a Mão Esquerda, Do Senhor do Poder. Eleito por Deus, como Anjo da Morte, O seu nome é Cale, perfeito no porte. Para encontrar os traidores que o Papa querem matar Do santuário escapou, pela corda a escorregar Para proteger o Papa, fingiu desinteresse Pelo calmo Santuário, seu conforto e benesse E afirmou malquerer a Bosco, seu mentor, Tornando­‑se do Papa o melhor protetor. Em Memphis, a cidade de Sodoma e do Vício,

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Uma princesa salvou, expoente do artifício Que com manhas e luxúria a sua alma tentou. Quando ele disse «Não!», a assassinos pagou. Logo a seguir o pai dela contra o Papa conspirou E para cumprir a demanda, os Redentores atacou. Mas em Silbury Hill, em sanguinária batalha Com Princeps e Bosco, Cale venceu o canalha. O império de Memphis soçobrou naquele dia E, assim, Bosco e Cale entram de novo em porfia Heréticos Antagonistas havia que matar. Pelo Papa e o Redentor, vamos todos rezar! É geralmente reconhecido que os acontecimentos verídicos passam à História e são transformados de acordo com os preconceitos de quem os regista. Então, pouco a pouco, a História torna­‑se lenda, onde todos os factos se esbatem ao sabor dos interesses daqueles que os relatam, que entretanto são muitos, vários e contraditórios. Finalmente, ao cabo de talvez mil anos, todas as intenções, boas ou más, todas as mentiras e todas as exatidões se fundem num mito de possibilidade universal em que tudo pode ser verdadeiro e tudo pode ser falso. Já não faz qualquer diferença. Mas a verdade é que, em muitos casos, o relato diverge da fac‑ tualidade logo que as coisas acontecem, e tudo se confunde na grande névoa do mito antes ainda que o sol se ponha sobre os acontecimentos propriamente ditos. A Canção de Thomas Cale, por exemplo, foi escrita dois meses depois dos incidentes que com tão pouca arte tenta imortali‑ zar. Examinemos então esta pobre rima verso a verso. Thomas Cale foi levado para o temível Santuário do Redentor Enforcado quando tinha três ou quatro anos (ninguém sabia ao certo, nem estava interessado em saber). Mal chegou, o rapazinho foi escolhido por um dos sacerdotes desta implacável religião, o Redentor Bosco, refe‑ rido quatro vezes no poema em grande parte por ter sido ele que o man‑ dou escrever. Não se julgue que o motivo foi qualquer coisa tão simples como vaidade humana ou ambição. Os Redentores eram notórios não só pela dura visão que tinham da pecaminosa natureza humana, mas também, e até sobretudo, pela von‑ tade constantemente demonstrada de impor essa visão através da

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conquista militar levada a cabo pelos seus próprios sacerdotes, a maior parte dos quais eram treinados para combater muito mais do que para pregar. Os mais inteligentes e piedosos (uma distinção mais ténue entre os Redentores do que em qualquer outra agremiação) eram responsáveis por garantir a pureza da crença e a administração da fé nos muitos Esta‑ dos conquistados e convertidos. Os restantes estavam destinados ao braço armado da Única Verdadeira Fé, a Milícia, e viviam – e frequente‑ mente morriam (os que tinham sorte, diziam os cínicos) – num dos inú‑ meros aquartelamentos religiosos, o maior dos quais era o Santuário. Foi no Santuário que Bosco escolheu Cale para seu acólito pessoal – uma forma de favoritismo a que só uma criança inumanamente dura poderia ter esperanças de sobreviver. Quando tinha catorze (ou quinze) anos, Cale era a criatura mais fria e calculista que se possa imaginar, e que nin‑ guém desejaria encontrar num beco escuro ou fosse onde fosse, e apa‑ rentemente movida por duas coisas: o ódio a Bosco e a indiferença em relação a todo o resto da humanidade. Mas a sua sorte estava prestes a mudar para pior quando abriu a porta errada no momento errado e des‑ cobriu o Senhor da Disciplina, o Redentor Picarbo, a dissecar uma jovem ainda viva, embora por pouco, e a preparar­‑se para fazer o mesmo a outra. Optando pela autopreservação em detrimento da compaixão e do horror, Cale fechou silenciosamente a porta e afastou­‑se. Todavia, num momento de loucura de que jurou arrepender­‑se eternamente, a expres‑ são dos olhos da jovem que esperava a sua vez de ser tão cruelmente eviscerada fê­‑lo voltar para trás e, na luta que se seguiu, matar o homem que era talvez o décimo na linha de sucessão ao papado. O que já sabe‑ mos a respeito dos Redentores não deixa qualquer dúvida quanto ao género de sorte com que Cale podia contar: uma que de certeza envolve‑ ria uma grande quantidade de gritos e uivos de dor. Se fugir do Santuário fosse fácil, Cale já teria fugido muito antes. Embora, como afirma A Canção de Thomas Cale, a proeza tenha envol‑ vido uma corda, não havia qualquer conjura para assassinar o papa – outra invenção de Bosco para encobrir a fuga de um acólito que tinha uma razão especial para querer recuperar, uma razão que nada tinha a ver com as bizarras e repugnantes atividades a que Picarbo se dedicava. O que o poema não refere é que Cale foi acompanhado por outros três: a rapariga que tinha salvado, Henri Vago, o único outro rapaz do Santuário

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que ele remotamente tolerava, e Kleist, que, como toda a gente, o enca‑ rava com suspeita e desagrado. Apesar de a inteligência de Cale, afinada pelo longo treino, lhes ter permitido escapar aos Redentores que tentavam recapturá­‑los, a sua habitual pouca sorte levou os quatro a cair nas mãos de uma patrulha da cavalaria Materazzi saída da grande cidade de Memphis, um lugar mais rico do que qualquer Paris ou Babilónia ou Sodoma, outra das poucas referências na «Canção» que contêm algum eco de verdade. Em Mem‑ phis, o quarteto atraiu a atenção do chanceler Vipond e do seu muito pouco recomendável meio­‑irmão IdrisPukke, que, por razões que nin‑ guém conseguiu compreender, nem sequer ele próprio, simpatizou com Cale e lhe manifestou algo que nunca antes o rapaz conhecera: um pouco de bondade. Seria, no entanto, preciso muito mais do que um toque de decência para dar a volta a Cale, cuja constante desconfiança e hostilidade depressa lhe granjearam o ódio de praticamente todos quantos o conhe‑ ciam, desde o menino de ouro do clã Materazzi, Conn, à encantadora Arbell Materazzi. Comummente conhecida como Colo­‑de­‑Cisne (não é por coincidência que o sonho assassino com que a nossa história começa tem um cisne como objeto do seu ódio), Arbell era filha do homem que governava o império Materazzi, tão vasto que sobre ele o sol nunca se punha. Bosco, porém, atribuía um grande valor à hostilidade de Cale e não fazia a mínima tenção de o deixar malbaratá­‑la num lugar onde o mais certo era acabar por lhe causar a morte. Muito naturalmente, apesar de toda a aversão manifestada pela jovem, um rapaz como Cale não podia deixar de se apaixonar por uma beleza distante como Arbell Mate‑ razzi. Ela continuou a considerá­‑lo um assassino mesmo, ou talvez até sobretudo, depois de ele lhe ter salvado a vida num ato de mortífera vio‑ lência (mais tarde apoucado pelos inimigos dele como uma mera forma de exibicionismo pretensioso). A principal queixa de Kleist contra Cale, a saber, que onde quer que ele aparecesse não tardava a seguir­‑se um funeral, começou a ser mais facilmente compreendida, sobretudo por IdrisPukke, que testemunhara a eficaz frieza assassina do salvamento de Arbell. No entanto, o diferente e o invulgar são sempre uma bebida ine‑ briante para os jovens, e daí a referência, na «Canção», à tentativa de sedução de Cale pela bela Arbell. Só que não houve sedução, se sedução

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implica vencer uma relutância, e em momento algum ele pronunciou a palavra «Não!», ou qualquer outra com o mesmo significado. Também nunca ela contratou fosse quem fosse para o assassinar – nem, como Kleist mais tarde declararia ironicamente ao ler o poema, isso seria necessário, dada a grande quantidade de pessoas dispostas a fazê­‑lo de borla. Igualmente falsa é a afirmação de que o pai de Arbell alimentara sequer a mais pequena intenção de atacar os Redentores. Não passou tudo de uma história criada por Bosco com o objetivo de arranjar uma desculpa que justificasse, aos olhos dos seus superiores, o facto de desen‑ cadear uma guerra que, na realidade, tinha como único propósito devol‑ ver Cale ao Santuário. Sendo a lei das consequências fortuitas aquilo que é, o exército de Bosco, desesperadamente enfraquecido pela doença e sob o comando do Redentor Princeps, vira­‑se encurralado por uma força Materazzi dez vezes superior em Silbury Hill. Cale (que, por razões demasiado complicadas para explicar aqui, estabelecera os planos de ata‑ que de ambos os exércitos) assistiu, incrédulo, à batalha que se seguiu e durante a qual uma mistura de má sorte, confusão, lama, estupidez e incapacidade de controlar movimentos de massas causou uma das mais mortíferas reviravoltas da sorte de toda a história bélica. Para seu grande espanto, Bosco deu por si conquistador de Mem‑ phis e na posse de todos os prémios que o mundo tinha para oferecer, exceto aquele que queria: Thomas Cale. Mas havia muito que Bosco estava envolvido no mais escuro e sórdido dos mais escuros e sórdidos negócios de Memphis, o que era gerido pelo temível traficante, homem de negócios e proxeneta Kitty, a Lebre. Kitty sabia que Cale tinha entre‑ gado o seu inexperiente coração à bela Arbell, tal como descobrira, a devido tempo, que a ardente paixão da jovem pelo peculiaríssimo rapaz começara já a extinguir­‑se – estranho fruto, como Kitty costumava dizer, trocista, para uma tal flor de estufa. Tanto melhor para Bosco, cujos homens a tinham capturado. Mal chegou a Memphis, Bosco usou o seu profundo conhecimento da natureza humana – demasiado avançado para uma bela e jovem princesa, por mais inteligente que fosse – para, muito convincentemente, ameaçar arrasar a cidade de uma ponta à outra se ela não desistisse do seu amor, ao mesmo tempo que lhe garantia, por sinal com perfeita sinceridade, que não tinha a mínima intenção de fazer

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mal a Cale. Por isso ela traiu­‑o, se traição se lhe pode chamar, mas seria difícil dizer até que ponto o fez conscientemente. E assim foi que Cale se entregou, impondo como preço adicional a libertação de Kleist e de Henri Vago, só para ficar a saber que a mulher que amava acima de tudo o tinha entregado ao homem que odiava acima de tudo. O que nos traz ao último dos falaciosos versos da Canção de Thomas Cale, em que o nosso herói parte para o inóspito deserto com dois ódios a queimarem­‑lhe o coração: um pela mulher que em tempos amou e o outro, mais familiar, pelo homem que acabara de lhe dizer mais uma coisa que lhe deixara o cérebro às voltas dentro da cabeça. Bosco dissera­‑lhe que parasse de ter pena de si mesmo porque nem sequer era uma verdadeira pessoa, alguém que pudesse ser amado ou traído, e sim, como a «Canção» assegura logo no início, nada menos do que o Anjo da Morte. E que era tempo de começar a dedicar­‑se a sério aos assuntos do seu Deus. A partir daqui, tudo o que se segue é a verdade. Há montanhas mais altas do que o monte Tigre, muitas bem mais perigosas de escalar, aquelas cujas estonteantes alturas e fundos precipí‑ cios fazem a alma tremer com a sua hostilidade a todas as coisas vivas. Mas não há nenhuma mais imponente, mais suscetível de elevar o espí‑ rito, de inspirar admiração com o seu solitário esplendor. O grande cone ergue­‑se da planície que a rodeia quase por completo e se estende a per‑ der de vista, de tal modo que, a oitenta quilómetros de distância, a sua majestosa simetria parece obra do homem. Mas nunca homem algum, nem mesmo o mais egocêntrico, um Akhenaten ou um Ozymandias, seria capaz de construir tão gigantesco cume. De mais perto, a sua vasti‑ dão inumana revela­‑se, mil vezes maior do que a grande pirâmide de Lincoln. Não é difícil compreender que tenha sido considerado por mui‑ tas religiões diferentes o único lugar da Terra de onde Deus falará direta‑ mente à humanidade. Foi no cimo do monte Tigre que Moisés recebeu as tábuas de pedra onde estavam gravados os seiscentos e treze manda‑ mentos. Foi ali que, a troco da vitória sobre os Amonitas, Jefté, o Gileadita, degolou – com considerável relutância, deve dizer­‑se – a sua única filha, depois de ter prometido ao Senhor sacrificar­‑lhe o primeiro ser vivo que o saudasse ao regressar a casa. A jovem acompanhou­‑o voluntariamente e até ao último instante o infeliz Jefté esperou uma compadecida suspensão

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da pena – uma voz, um mensageiro angélico, a severa mas misericor‑ diosa prova de que se tratava apenas de um teste à sua fé. Mas Jefté vol‑ tou sozinho do monte Tigre. Foi ali, na Grande Saliência logo abaixo da linha das neves eternas, que o Diabo em pessoa, instigado pelo Senhor, mostrou ao Redentor Enforcado o mundo que se estendia a seus pés e se propôs oferecer­‑lho. Por outro lado, os Montagnards, uma tribo sem grande espaço na sua vida para a religião, que controlara o monte Tigre durante oitenta e poucos anos, chamavam­‑lhe o Grande Testículo. Porque o faziam era a pergunta que começava a ocupar os pensamentos de Cale enquanto, acompanhado por Bosco, o Senhor da Milícia, e por trinta guardas, ini‑ ciava a subida dos contrafortes da montanha. Descrever o estado de espírito de Cale como tempestuoso seria fazer­‑lhe uma injustiça. Não há palavra em qualquer língua alguma vez falada para descrever o tumulto que lhe ia no coração, a aversão face à ideia de voltar ao Santuário e a amargura da raiva que causara a traição de Arbell Materazzi, por todos conhecida como Colo­‑de­‑Cisne e a res‑ peito de cuja beleza e graciosidade nada mais precisa de ser dito – nada a respeito da elegância das suas longas pernas, da cintura incrivelmente estreita, da curva dos seus seios (não eram orgulhosos, os seios de Arbell, eram positivamente arrogantes), nada disso era necessário. Era um cisne com forma humana. Nas trevas do seu ressentimento, Cale imaginava­‑se mil vezes a torcer o pescoço àquele cisne, para em seguida o ressuscitar graças a um qualquer miraculoso processo e voltar a assas­ siná­‑lo – desta vez um violento esticão, da próxima um demorado estrangulamento, e então talvez arrancar­‑lhe o coração e queimá­‑lo antes de o cortar aos pedaços, para ter bem a certeza. Nas duas semanas desde que tinham partido de Memphis, não falara uma única vez, nem sequer para perguntar por que razão tinham mudado de rumo a meio das Scablands e começado a afastar­‑se do San‑ tuário. Ao princípio, e vistas bem as coisas, Bosco achara que o melhor era deixar o seu ex­‑acólito recozer no seu próprio molho, mas subesti‑ mara o talento de Cale para alimentar uma raiva muda e acabou por decidir pôr fim àquele silêncio. – Vamos para o monte Tigre – disse numa voz baixa e quase gentil. – Há uma coisa que quero mostrar­‑te.

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Poder­‑se­‑ia pensar que alguém cujo coração fervia de tanto ódio por uma pessoa talvez não tivesse intensidade de sentimento para odiar outra da mesma maneira. Isto era em parte verdade, mas o coração de Cale, em se tratando de ódio, era feito de uma matéria particularmente resistente e elástica: a sua aversão a Bosco fora apenas um pouco afastada do centro do fogo, para a extremidade da grelha, por assim dizer, para continuar quente enquanto não chegava a sua vez de voltar ao lume. No entanto, e a despeito de estar de momento extremamente ocupado a odiar, Cale não pôde impedir­‑se de estranhar a profunda mudança na ati‑ tude de Bosco para com ele. Desde que se lembrava, Bosco sempre o governara como um barco em plena tempestade – com mão de ferro, implacável, impiedosa, cruel, sem nunca ceder, sem lhe conceder um sítio onde descansar. Dia após dia, anos após anos, espancara­‑o até o dei‑ xar coberto de nódoas negras da cabeça aos pés, ensinando e castigando, castigando e ensinando até parecer não haver diferença entre as duas coi‑ sas. Agora havia apenas contenção, uma grande suavidade, qualquer coisa que era quase ternura. O que seria? Não havia resposta, mesmo quando podia dispensar alguma energia da sua ocupação: assassinar mentalmente Arbell Materazzi (espancá­‑la até à morte com um pau, martirizá­‑la na roda, afogá­‑la num lago de montanha). Mas apesar do estrépito dos martelos que lhe enchiam a alma com a sua cacofonia, uma parte dele prestava atenção ao terreno que atravessavam, do que resultou um momento de compreensão, ainda que não de divertimento – estava num local demasiado sombrio para isso. Naquele instante, compreendeu porque lhe chamavam o Grande Testículo. Visto de perto, a suavidade de linhas que aparentava a cinquenta quilómetros de distância desaparecia para dar lugar a uma paisagem profundamente sulcada por ravinas, sem‑ pre na direção da água que descia e as escavara, mas ao mesmo tempo espalhando­‑se para os lados e entrecruzando­‑se, encurvando­‑se e inclusi‑ vamente voltando para trás nos sítios onde a rocha era mais dura. De tão perto, a experiência era como a mais minúscula das pulgas a tentar atra‑ vessar o escroto do mais colossal dos gigantes. Avançar por aquele intricado labirinto teria sido muitíssimo difícil, apesar de não ser particularmente íngreme, não fora a ajuda oferecida pelo caminho construído pelos Montagnards e que serpenteava por cima das cristas e das numerosas ravinas e desfiladeiros entulhados de

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pedregulhos. Isto fora feito não como um sacrilégio intencional, mas como uma maneira de ter acesso aos depósitos de sal que se espalhavam pela encosta da montanha, até meia altura. Ao longo dos oitenta anos do seu domínio sobre o lugar mais sagrado dos Redentores, os Montagnards tinham criado uma vasta rede de túneis. Sacrilégio intencional ou não, ao reemergirem como potência depois da relativa fraqueza resultante de um longo período de guerras religiosas, os Redentores tinham castigado a blasfémia exterminando os Montagnards até ao último homem, mulher e criança. Passado o Grande Testículo, a encosta tornava­‑se mais íngreme, mas mesmo assim sem exagero. Apesar de alto, o monte Tigre não era parti‑ cularmente difícil de escalar. Naquele terreno menos agreste, abria­‑se uma grande quantidade de pequenos buracos, as entradas degradadas para os depósitos de sal que se situavam entre dez e trinta metros abaixo da superfície. Apesar do seu péssimo humor e sombrio silêncio, Cale não conseguiu evitar deixar­‑se distrair pelas intrigantes características daquela paisagem sagrada. Embora não houvesse grandes fendas, nem escarpas perigosas, o avanço tornou­‑se inevitavelmente mais difícil, e não tardou que tivessem de desmontar e levar os cavalos pelas rédeas por trilhos mais duros e incómodos. Até que por fim chegaram a um estreito desfiladeiro entre altas e precipitosas paredes de rocha. Bosco ordenou aos seus homens que montassem o acampamento, apesar de a tarde estar apenas no início, e então voltou­‑se para Cale e dirigiu­‑se­‑lhe diretamente pela segunda vez: – Eles ficam aqui. Nós temos de continuar. Há uma coisa que pre‑ ciso de te mostrar. E há também uma coisa que devemos esclarecer. A única maneira de sair da montanha é através deste desfiladeiro. Se ten‑ tares voltar a descer sozinho, já sabes o que acontece. E com este aviso, feito no mais suave dos tons, começou a subir o trilho. Cale seguiu­‑o. Treparam durante cerca de trinta minutos, com Cale a manter­‑se dez metros atrás do seu antigo mestre, até chegarem a uma plataforma que ocupava aproximadamente vinte metros. De um lado havia um altar de pedra, simples mas magnificamente construído. – Foi aqui que Jefté cumpriu a promessa feita ao Senhor e sacrifi‑ cou a sua única filha – disse Bosco, num tom de voz estranho, nada reverencial.

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– E suponho – replicou Cale – que aquela mancha ali de lado é suposto ser o sangue. Devia ser forte porque se consegue ver mil anos depois de ter sido derramado a meio da encosta de uma montanha. – Com Deus todas as coisas são possíveis. – Ficaram a olhar um para o outro durante algum tempo. – Ninguém sabe onde ele a matou. Este altar foi erguido para benefício dos fiéis, alguns dos quais são auto‑ rizados a vir até aqui na Sexta­‑Feira Maldita. No dia seguinte à visita vem cá um pintor e volta a pintá­‑la, para ter tempo de envelhecer para o ano seguinte. – Então não é verdade. – O que é a verdade? – perguntou Bosco, e não esperou por uma resposta. Duas horas mais tarde, estavam a escassos quinhentos metros da linha das neves eternas e na última etapa da escalada antes de poderem falar com Deus. Mas foi nesse ponto que Bosco se voltou para um lado e começou a caminhar à volta da montanha, paralelamente ao limite da neve. Ali, o ar rarefeito tornava mais penoso caminhar, apesar de já não estarem a subir. Cale começou a sentir dores de cabeça. Ao contornar um pequeno promontório rochoso atrás de Bosco, perdeu­‑o de vista por instantes, e quando voltou a estabelecer contacto quase o derrubou. O Redentor tinha­‑se detido e estava a olhar fixamente para uma rocha lisa que se projetava do flanco da montanha como o primeiro lanço abandonado de uma ponte. – Esta é a Grande Saliência, onde Satanás tentou o Redentor Enfor‑ cado oferecendo­‑lhe poder sobre todo o mundo. – Voltou­‑se para olhar para Cale. – Quero que vás até ali comigo – disse, apontando para a Saliência. – Vá à frente. Bosco sorriu. – Estou a pôr a minha vida nas tuas mãos tanto como tu estás a pôr a tua nas minhas. – Não exatamente – respondeu Cale –, considerando que há lá em baixo trinta guardas cheios de más intenções. – É verdade. Mas achas que me dei a este trabalho todo só para te empurrar do alto de uma montanha? – Não estou interessado em pensar nada a seu respeito.

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No passado, Bosco tê­‑lo­‑ia castigado severamente por lhe falar naquele tom. E Cale teria deixado. Foi então que compreendeu qualquer coisa, embora não soubesse dizer exatamente o quê, a respeito de como fora grande a mudança que se operara em ambos no espaço de poucos meses. – E se eu disser que não? – Não poderei obrigar­‑te e não tentarei fazê­‑lo. – Mas mandar­‑me­‑á matar. – Para ser franco… não. Mas por maior que seja o ódio que sentes por mim… algo que me causa um enorme desgosto… tens de compreen‑ der que, a partir de agora, tu e eu estamos presos um ao outro por laços que nem Deus pode quebrar… Julgo que foi esta a expressão que usaste em relação à Arbell Materazzi quando saímos de Memphis. Talvez Bosco se tenha apercebido de quão perto estava de um pes‑ coço partido. Se foi o caso, não o mostrou. Mas havia ali ansiedade, a ansiedade, incompreensível para Cale, de alguém que quer desesperada‑ mente que acreditem nele, que o compreendam, e receia que isso não aconteça. – Além disso – continuou Bosco –, tenho uma coisa para te dizer a respeito dos teus pais. Com isto, começou a caminhar pelo áspero granito da Grande Saliên‑ cia. Cale ficou a observá­‑lo por um instante, chocado, como seria de esperar, pelo que Bosco dissera. Não é fácil imaginar os sentimentos de alguém como Cale, para quem a noção de mãe e de pai era tão irreal como o mar para um habitante do interior. Que sentiria uma tal pessoa no momento em que lhe dissessem que o mar ficava do outro lado da colina seguinte? Cale avançou pela Saliência, com passos bem menos confiantes do que os de Bosco – não tinha medo de alturas, mas também não era grande apreciador. Além disso, quando se caminhava sobre ela, a Saliência parecia muito mais frágil do que quando se estava apenas em frente dela. Quando se aproximou de Bosco, por trás, o seu antigo mes‑ tre afastou­‑se um pouco, tão despreocupadamente como se estivesse no campo de treino do Santuário, e fez sinal a Cale para que se colocasse a seu lado, a poucos centímetros do abismo sem fundo. Cale olhou para o mundo com a sensação de estar suspenso em pleno céu; com o coração a martelar­‑lhe o peito, os olhos espantados, via

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tudo a uma distância de quilómetros em redor, o vasto céu azul em cima e a terra amarela em baixo a juntarem­‑se num arco de cintilante bruma púrpura. Era como se estivesse a ver o mundo inteiro e não apenas uma fatia de circunferência com cerca de oitenta quilómetros de raio. Bosco permaneceu calado durante vários minutos, enquanto Cale era esma‑ gado pela vastidão. Finalmente, Cale voltou­‑se para ele. – Então? – Em primeiro lugar… os teus pais. Ouvi os rumores… – Fez uma curta pausa. – … Os rumores que nos chegaram de Memphis, pouco depois de teres liquidado o Solomon Solomon. – Teve o que merecia, o que é mais do que se pode dizer a respeito dos homens que me obrigou a matar. – De todas as muitas recordações desagradáveis que os dois partilhavam, aquela era a pior. Convencido de que os dotes assassinos de Cale eram inspirados por Deus, não passara sequer pela cabeça de Bosco que ser forçado a lutar até à morte com meia dúzia de soldados experientes, é certo, mas nem por isso menos infelizes, pudesse ser profundamente traumático para um rapaz de doze ou treze anos, por mais hábil e calejado que fosse. – Vivi com o coração apertado cada segundo que te julguei em perigo. – Isto não era bem a mentira que parecia. De início, Bosco ficara extasiado com a prova sangrenta do incrível talento do rapaz para matar. Era de uma excelência apenas justificável por uma inspiração religiosa. Mas a partir da sexta morte, apercebera­‑se de que Deus podia considerar ofensivo aquele desejo de mais provas e punir a sua presunção permi‑ tindo que Cale fosse ferido. Fora isto que o levara a temer por Cale e pôr finalmente fim à matança. Foi mais o espanto do que a contenção que impediu Cale de o atirar do alto da Saliência naquele preciso instante. O homem que o espancara por todas as razões que a maldade podia inventar, e outras tantas vezes por razão nenhuma, estava a professar preocupação por ele num tom de voz capaz de comover o mais duro dos corações. Mas o coração de Cale era muito mais duro do que isso. Se deixou Bosco viver, foi apenas por‑ que, no seu espírito, a curiosidade se sobrepôs ao ódio. E, além disso, havia trinta filhos da mãe à espera lá em baixo, prontos para o matar. – Fale­‑me desses rumores.

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– Depois de o teres matado, disse­‑se que os Redentores te tinham roubado, quando ainda eras bebé, a uma família diretamente aparen‑ tada ao doge de Memphis… que tu és um Materazzi, e um dos mais importantes. Poderá o silêncio ser atordoado? Quem estivesse ali na Grande Saliência, naquele momento, acreditaria que sim. – É verdade? – A voz de Cale foi um murmúrio involuntário. Seguiu­‑se uma breve pausa. – De modo nenhum. Os teus pais eram camponeses analfabetos, gente sem a mínima importância. – Mataram­‑nos? – Não. Venderam­‑te por seis pence, e acharam que tinha sido um excelente negócio. Até Bosco ficou surpreendido pela gargalhada que se seguiu a estas palavras. – Pensei que ias ficar desapontado… por causa daquilo dos Materazzi, quero dizer. Mas agrada­‑te saber que foste comprado por seis pence? – Não importa o que me agrada ou deixa de agradar. Porque é que estamos aqui? Bosco olhou para a grande planície que se estendia lá em baixo. – Quando Deus decidiu fazer a humanidade, tirou uma costela da sua primeira grande criação, o anjo Satanás. E com a costela de Satanás e pó do chão moldou o homem. Desagradado por Deus lhe ter tirado uma costela enquanto ele estava a dormir e sem o consultar, Satanás rebelou­ ‑se contra o Senhor Deus e foi expulso do paraíso. Mas Deus apiedou­‑se do homem, porque agira mal ao fazê­‑lo com a costela de um servidor tão traiçoeiro. E, porque o erro fora seu, mandou muitos profetas para salvar a humanidade da sua própria natureza, na esperança de trazer à superfí‑ cie todas as coisas boas com as quais tinha sido formada. Finalmente, e em desespero, mandou o seu próprio filho. – Bosco voltou­‑se ligeira‑ mente de lado, com uma expressão de absoluto espanto no rosto, os olhos cheios de lágrimas. – Mas eles enforcaram­‑no. Mais uma vez, ficou calado durante dois ou três minutos. – O Senhor Deus ficou a remoer esta terrível ofensa durante mil anos, tão grande é o seu amor. Durante todo esse tempo, pesou e mediu no seu espírito tudo o que os homens tinham de bom, de generoso. Mas

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ouvia e via constantemente a intolerável disputa entre o que neles era divino e o veneno instilado pelo seu erro bondoso mas terrível. Novamente um curto silêncio enquanto Bosco contemplava a eston‑ teante paisagem. Quando voltou a falar, a voz dele foi ainda mais suave e mais razoável. – O coração do homem é minúsculo, mas aspira a coisas imensas. Não é suficientemente grande para o jantar de um cão, mas o mundo inteiro não é suficientemente grande para ele. O homem não poupa nada que viva; mata para se alimentar, mata para se vestir, mata para se ador‑ nar, mata para se defender, mata para se instruir, mata para se divertir, mata apenas por matar. Ao cordeiro, arranca as tripas para fazer uma harpa; ao lobo, o dente mais mortífero para polir as suas obras de arte; ao elefante, as presas para fazer um brinquedo para o filho. Voltou­‑se para Cale, os olhos a brilharem com todo o amor e toda a esperança de um pai extremoso que deseja ser compreendido pela pes‑ soa que mais ama no mundo. – E quem exterminará aquele que extermina todos os outros? Tu. Foi­‑te confiada a missão da matança do homem. Da Terra inteira, farás um vasto altar onde tudo o que vive deve ser sacrificado, sem fim, sem medida, sem pausa, até à aniquilação de todas as coisas, até o mal ficar extinto, até à morte da morte. Sorriu a Cale, tolerante, genuinamente compreensivo. – Porque hás de fazer uma coisa tão terrível? Porque está na tua natureza fazê­‑lo. Não és um homem, és a ira de Deus feita carne. Há em ti humanidade suficiente para te fazer desejar ser outra coisa diferente daquilo que és. Queres amar, queres mostrar bondade, queres ser miseri‑ cordioso. Mas, no fundo do coração, sabes que não és nenhuma dessas coisas. Por isso as pessoas te odeiam e, quanto mais tentas amá­‑las, mais elas te temem. Por isso a rapariga te traiu e por isso serás sempre traído enquanto viveres. És um lobo a fingir para si mesmo que é um cordeiro. »De onde julgas que te vem esse teu génio para a destruição e para a morte? Matas tão facilmente como respiras. Chegaste à maior cidade do mundo e, apesar de todas as tuas boas intenções, precisaste apenas de seis meses para a deixar em ruínas. Tu não trazes contigo o desastre, tu és o desastre. És a Sombra, o Anjo da Morte, quer queiras, quer não. Mas, se não quiseres, é bom que te habitues a deambular por lugares

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onde todos te desprezarão e todos quererão matar­‑te sem saberem sequer porquê. Vem comigo e, quando o teu trabalho estiver feito, quando tudo o que hoje vive estiver morto, virás até aqui e serás levado para o paraíso. É a única maneira de teres paz de espírito. Isto é uma promessa. Três horas mais tarde, os dois tinham voltado para junto dos Reden‑ tores que os esperavam e, nessa noite, um respeitoso Bosco falou com um silencioso Cale até altas horas. – Sabes porque foi que Deus fez o homem? – Era uma citação facil‑ mente reconhecível do Catecismo do Redentor Enforcado. A resposta de Cale, apesar de cautelosa, foi a prescrita: – Fez­‑nos para o conhecermos e amarmos. – Achas que Deus o fez bem? – A minha experiência pessoal diz­‑me que não – respondeu Cale. – Mas talvez eu tenha tido azar. – Mas a tua experiência tem sido muito mais vasta nos últimos oito meses. Na realidade, diria que foi única. Muito claramente, Deus orde­ nou­‑te que fugisses, e todas as coisas extraordinárias por que passaste aconteceram-te precisamente para que pudesses responder a esta per‑ gunta. Andaste de mão dada com os grandes deste mundo, foste amado de todas as maneiras possíveis pela mais bela das mulheres, prestaste grandes serviços e foste recompensado com uma grande traição. Do ponto de vista de Bosco, tudo isto tinha a enorme vantagem de corresponder mais ou menos ao que Cale acreditava ser o caso: a verdade e a autocomiseração formavam um conjunto harmonioso. – Eu diria – continuou Bosco – que tu, mais do que qualquer outra pessoa, tiveste oportunidade de confirmar que o homem é o lobo do homem. – Hipócritas – respondeu Cale. – Tenho encontrado muitos, nestes últimos tempos. Quero com isto dizer que sei agora como são numerosos. – Isso tem qualquer coisa a ver comigo, suponho – disse Bosco, sem parecer ofendido. – Se sim, receio que tenhas de explicar porquê. – Como é que consegue olhar­‑me nos olhos e falar de traição? – Continuo a não compreender. Imagina que te tinha deixado nas mãos do género de pessoas dispostas a vender­‑te por seis pence. A partir do dia em que conseguisses andar, estarias agarrado a um arado a olhar

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para o rabo de um cavalo quinze horas por dia… estúpido, ignorante, provavelmente morto, por esta altura… uma espécie de coisa nenhuma. – Deus foi misericordioso. Além disso, pensava que era especial. – São muitos os que nascem especiais. Como o Redentor Enforcado disse: «Muitas flores nascem e desabrocham sem serem vistas e desperdi‑ çam a sua doçura no ar do deserto.» Cale riu. – Uma flor? Sou, é verdade, mais doce e mais florido do que muita gente pensa. – Licença poética, certamente, mas deixa­‑me pôr a questão de uma maneira ainda mais clara: nasceste para patinhar no sangue e na chacina até ao trono de Deus. Muitos são os chamados, poucos os escolhidos. Mas eu escolhi­‑te e preparei­‑te para ser o agente do fim prometido. – Faz alguma ideia de como isso soa a loucura? – Claro que sim. Acontece­‑me, em momentos de dúvida, considerar a questão da minha sanidade mental – disse Bosco, e sorriu com uma surpreendente e cativante expressão de embaraço e troça. – E? – E então considero como é o homem. Como é deficiente no racio‑ cínio, fraco em competências, feio na forma e no movimento, seme‑ lhante a um demónio na ação e a uma vaca na compreensão. A beleza do mundo? O epítome dos animais? Para mim, a quinta-essência do pó. – Bosco pareceu perdido em pensamentos por um instante, mas então olhou fixamente para Cale. – Discordas? Cale não respondeu. – Esquece por um instante o ódio que sentes por mim e considera a tua experiência do mundo. Discordas, do fundo do coração? Seguiu­‑se uma longa pausa. – Conte­‑me mais. – Não é a primeira vez que o Senhor aniquila a humanidade pelos seus pecados. Poucos sabem que houve uma outra espécie de homem antes de Adão. Deus destruiu­‑a num grande dilúvio com que afogou o mundo e começou de novo. – Tudo? – Tudo. Até à última folha de erva. – Não parece muito difícil. Porque não fazer o mesmo outra vez?

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– Demasiadas pessoas, água insuficiente. Demasiada erva. – O papa acredita nessas coisas? – Não exatamente – respondeu Bosco. – Mas o que ele perde na Terra será perdido no paraíso. – Não compreendo… Oh, estou a ver. – Cale pensou no que julgava perceber. – Vai matar o papa e tomar o lugar dele. – Se não soubesse o contrário, diria que és mais demónio do que anjo. Acreditas verdadeiramente que é possível matar um papa ungido por Deus e não ser imediatamente condenado? – Suponho que não. Ficaram sentados em silêncio, Bosco a desejar que Cale pedisse uma explicação. Sabendo­‑o, e apesar da sua curiosidade, Cale recusou dar­‑lhe essa satisfação. – O papa não é ele próprio – disse Bosco. – Quem é, então? – perguntou Cale, espantado. Era uma afirmação que nunca tinha ouvido. – Não, quero dizer que não está bem. É velho e sofre de uma doença do espírito… uma fraqueza que se vai tornando gradualmente pior. Esquece coisas. – Eu esqueço coisas. – Ele esquece quem é. – Se está assim tal mal, em breve morrerá. – Está assim tão mal, mas as pessoas com esta doença vivem fre‑ quentemente muito tempo… muito tempo. – Olhou para Cale, sabo­ reando a sensação de ser, mais uma vez, o mestre do seu pupilo. – Que devo fazer? – disse. Não era uma pergunta, era uma maneira de incitar Cale a demonstrar o seu bom discernimento. – Deve estar presente quando ele morrer e tornar­‑se papa. Bosco riu. – Um pouco mais fácil de dizer do que fazer. – Pode rir – disse Cale. – Mas estou enganado? – Não… olhemos com simplicidade para coisas complicadas. Esse é, sem dúvida, o fim, mas qual é o princípio? Mesmo para os mais inteli‑ gentes, pode ser doloroso manterem­‑se afastados de uma coisa que esteve à sua frente toda a vida.

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– Qual é a verdadeira medida do seu poder? – perguntou Cale pas‑ sado muito tempo. – Excelente – riu Bosco. – Quando mataste o Redentor Picarbo, tiveste a bondade de me promover a, digamos, décimo na linha de suces‑ são, talvez nono. – Não me teria castigado? – Não te sei dizer com certeza. As tuas ações foram, na altura, inconvenientes. Os meus planos para ti… para tudo isto… situavam­‑se a anos no futuro. Ser décimo na linha de sucessão ao papado é o mesmo que não estar sequer na linha. O facto de tu teres desaparecido e de eu ter vindo à tua procura precipitou tudo de uma maneira muito peculiar e inesperada. Memphis caiu. Fiquei com muitos dos louros, e os que não são meus são teus. Sou, agora, o quarto na linha de sucessão ao papado. Infelizmente – sorriu –, ser quarto pouco melhor é do que ser décimo ou décimo segundo. – Quem são o segundo e o terceiro? – Sem mais rodeios! – troçou Bosco. – O Gant e o Parsi. – Nunca ouvi falar deles. – Não havia razão para teres ouvido. Errei ao pensar que estas coisas eram prematuras em se tratando de ti. – E agora vai dizer­‑me? – Agora vou pedir­‑te que o deduzas por ti mesmo. – Porque não dizer­‑me, simplesmente? – Porque verás tudo mais claramente se fores tu a deduzi­‑lo. E tam‑ bém porque me dará um maior prazer. Se o demónio que o atormentou toda a sua vida lhe dissesse que ia deixá­‑lo adivinhar os seus segredos, que rapaz inteligente, por mais pro‑ fundo que fosse o seu ódio, não sentiria curiosidade? – Havia na biblioteca um livro com uma fechadura especial… o censo. Consegui abrir outras, mas não aquela. – Mas conseguiste estragá­‑la ao tentar. – Qual é a extensão do império dos Redentores? – Não é um império, é uma federação. A federação conseguiu a enosis com quarenta e três países e, de acordo com o último censo, tem a possibilidade de redimir cem milhões de pessoas. – Qual é o tamanho do mundo?

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– Não tenho uma ideia exata. No que respeita às Índias e à China, pouco sabemos. Mas considerando os quatro quadrantes, sem incluir Memphis, somos, talvez, quatro vezes maiores e quatro vezes mais ricos do que geralmente se pensa. – O poder de Memphis advinha das suas forças armadas. Conquis‑ támos Memphis e destruímos os Materazzi, mas não conquistámos o império: esse desmoronou­‑se. Os vários países que o constituíam decla­ raram­‑se livres e começaram a discutir com os vizinhos por causa de mais ou menos as mesmas coisas por que já discutiam antes da chegada dos Materazzi. Conquistar Memphis acabou por se revelar uma bênção dúbia e, com o tempo, pode bem vir a tornar­‑se uma maldição. – Se o império dos Redentores é tão maior do que toda a gente pensa… – Federação – interrompeu­‑o Bosco. – … do que toda a gente pensa, porque é que continuam encravados na luta contra os Antagonistas? – Excelente. É exatamente isso. A federação dos Redentores não é apenas grande, é enorme… cheia de contradições. Algumas partes da federação são pouco firmes nas suas crenças e tão cheias de blasfémias que pouco melhores são do que os Antagonistas. Muitas recebem mais de nós em subsídios do que pagam em impostos. Outras são fanáticas nas suas crenças, mas passam a vida a discutir entre si este ou aquele ponto doutrinal. Há inúmeros cismas que ameaçam tornar­‑se heresias como o Antagonismo. – Se as coisas estão assim tão más, porque é que os Antagonistas ainda não os derrotaram? – Mais uma vez, boa pergunta. A verdade é que eles enfrentam os mesmos problemas. Não é a falta de religião que está a destruir a huma‑ nidade, é a humanidade que está a destruir a religião. Uma tal criatura é incompetente para aspirar a ter sido feita à imagem e semelhança de Deus. Deus tentou mas falhou. Vai voltar a tentar. – Julgava que Deus era perfeito – observou Cale. – Deus é perfeito. – Nesse caso, como foi que fez uma borrada tão grande com a humanidade?

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– Porque é perfeitamente generoso. Deus não é nenhum criminoso capaz de fazer batota no seu próprio jogo. Quer que nos empenhemos livremente, por opção. Nem mesmo Deus pode desenhar um círculo quadrado. Deus sente­‑se sozinho… quer que a humanidade escolha a obediência, não que seja levada a ela pelo medo. Compreendes o que estou a dizer? – Compreendo o que está a dizer, sim. – Nem eu nem o Deus que ambos servimos precisamos da tua con‑ cordância. Não és um homem e não és um deus, és raiva e desilusão fei‑ tas carne. O que fazes é aquilo que és. O que pensas é irrelevante. – E quando acabar? – Foi­‑me dito, nos meus sonhos, que serás levado e posto de lado na ilha de Avalon, um lugar onde correm o leite e o mel. Ficarás lá, vestido de samito branco, até que chegue o tempo, se chegar, em que Deus volte a ter necessidade de ti. Depois disto, Cale não disse nada durante algum tempo. – Fale­‑me de Chartres. – O Santuário é o coração militar da Fé, mas é por isso que está situado aqui, atrás do sol-posto… para lhe limitar o alcance. Apesar de todo o meu poder, eu ou qualquer outro comandante do Santuário que não res‑ peitasse a distância mínima de sessenta e cinco quilómetros de Chartres seria excomungado por decreto do papa. Só posso lá entrar com uma autorização expressa… raramente concedida… e nunca acompanhado por mais de doze sacerdotes. Mesmo assim, não voltei a encon­trar­‑me a sós com ele desde que o Gant e o Parsi o isolaram do mundo como uma ervilha numa vagem. – Não sei o que isso é. – Uma pausa. – Porque é que eles não o matam? – Direito à questão, como sempre. Consideram­‑me um rival, mas um rival eficazmente neutralizado, uma vez que todo o meu poder está no exército e não em Chartres. Com a tua fuga, Cale, as coisas começa‑ ram a acontecer demasiado depressa. – Ou o senhor deixou que acontecessem. – Não é verdade. Quase desde o dia em que aqui chegaste, tenho vindo a recrutar trezentos oficiais do exército que estão, como eu, con‑ vencidos de que a humanidade não tem cura e de que tu és a solução.

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Chegarão em breve. Tu treinarás esses homens já consideravelmente capazes, eles treinarão outros, e assim por diante. Dentro de dois anos, terás preparado quatro mil oficiais e eu estarei pronto para avançar con‑ tra o Gant e o Parsi. Se for bem-sucedido, seremos convidados para entrar em Chartres e salvar o papa. – E como o fará? – Não precisas de te preocupar com isso. – Mas preocupo­‑me. – Então preocupa­‑te. – O que é samito? – Seda. Seda branca pesada. Não que Cale acreditasse em Bosco no respeitante a Avalon, embora o Redentor fosse claramente sincero na sua certeza da existência do lugar, mas não gostava da imagem que estava a emergir daquilo que o satisfaria. – A última vez que vi alguém usar seda branca e pesada foi um arce‑ bispo a rezar missa solene em louvor a Deus. Quatro horas foi mau que chegue. Caso não tenha reparado, não sou do género de cantar louvores. – Porque havias de ser? Em Avalon, setenta e duas criaturas que não são exatamente anjos cuidarão de ti. – O que significa… – Fazem parte dos anjos rebeldes que desafiaram Deus e foram expulsos para o inferno. Mas setenta e dois deles arrependeram­‑se antes da vitória final do Senhor e foram enviados para Avalon em reconheci‑ mento desse arrependimento e como castigo por terem vacilado na sua fé. Estão à tua espera e prontos para te servirem de todas as maneiras que desejares. – Como as monjas no convento. – Serás tu a decidir… pelo que assumo que de modo algum como as monjas no convento. – E como é que sabe estas coisas? – Foi­‑me revelado no deserto.

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ÂŤProfundo e envolvente.Âť Daily Telegraph ÂŤHoffman tem o dom da escrita.Âť Financial Times ÂŤA visĂŁo de Hoffman ĂŠ cinematogrĂĄfica e a uma escala ĂŠpica.Âť The Scotsman ÂŤUma histĂłria sombria e bem arquitetada, com reviravoltas arrepiantes.Âť The Times

AS QUATRO ĂšLTIMAS COISAS Morte, JuĂ­zo, ParaĂ­so e Inferno. As Quatro Ăšltimas Coisas que nos reserva o Destino. Agora hĂĄ uma Quinta. O Seu Nome ĂŠ Thomas Cale.

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e regresso ao Santuårio dos Redentores, Thomas Cale parece aceitar o papel que lhe Ê atribuído: o destino escolheu-o como o Braço Esquerdo de Deus, o Anjo da Morte. O poder absoluto estå agora ao seu alcance; o terrível zelo e domínio militar dos Redentores Ê uma arma nas suas mãos e ele estå pronto para cumprir o objetivo supremo da Única e Verdadeira FÊ – a destruição da Humanidade.

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as talvez o sombrio poder dos Redentores sobre Cale não seja suficiente – ele vai do amor ao ódio num abrir e fechar de olhos, da bondade à mais brutal violência num segundo. A aniquilação que os Redentores procuram pode estar nas mãos de Cale – mas a sua alma Ê muito mais estranha do que alguma vez poderão imaginar‌

PAUL HOFFMAN

PAUL HOFFMAN

O BRAÇO ESQUERDO DE DEUS

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AS

QUATRO

Ăš LTIMAS COISAS

Š Angus Muir

Hoffman criou um reino melancólico, ligeiramente medieval e sem elementos sobrenaturais. Este Ê um mundo fantåstico com histórias e tradiçþes muito próprias. The Telegraph

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AS QUATRO ĂšLTIMAS COISAS

O que a imprensa disse sobre O Braço Esquerdo de Deus:

Escritor e argumentista britânico, Paul Hoffman colaborou durante algum tempo com o organismo responsåvel pela classificação de filmes no Reino Unido. Escreveu o argumento de três filmes, em coautoria, e trabalhou, entre outros, com Francis Ford Coppola. O seu primeiro romance, The Wisdom of Crocodiles, deu origem a um filme protagonizado por Jude Law e Timothy Spall. Seguiu-se The Golden Age of Censorship, uma comÊdia negra publicada em 2007. No catålogo da Porto Editora figura jå O Braço Esquerdo de Deus, o primeiro volume da trilogia que agora continua com As Quatro Últimas Coisas.

Morte, Juízo, Paraíso e Inferno BESTSELLER O BRAÇO ESQUERDO DE DEUS DO AUTOR DO

7/1/11 2:47 PM

As Quatro Últimas Coisas  

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