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Ant贸nio Torrado


Um A loja da florista tinha letreiro novo. Coisa apurada, de arregalar o olho, em letras luminosas, fluorescentes. O MILAGRE DAS ROSAS era o que anunciava, a toda a largura da porta e da única montra, embora, se mais coubesse, mais pudera anunciar: cravos, malmequeres, gladíolos, lírios, maravilhas, etc., tudo mercadoria fresca, fresquíssima, sobretudo os “etc.”, acabadinhos de colher. A florista Margarida contrariara a inovação, que representava mais despesa na conta da eletricidade. Mas, como o marido e os filhos tinham votado a favor, ela, derrotada por maioria de três a um, teve de conformar-se. 11


Três a um ou quatro a um? O filho Filipe batia-se pelo quatro a um, contando com o irmão André… Mãe – O André não tem voto na matéria… De facto, com um pouco menos do que um ano, o André ainda não se manifestava. De olhos muito atentos à discussão da família, ora poisando-os na mãe Margarida ora no pai Mourato ora na irmã Irene ora no mano Filipe, o André limitava-se a sorrir. Pai – Muito sorri esta criança… Irene – É porque a vida lhe corre bem. Filipe – Cá na minha, ele percebe tudo o que nós dizemos. Mãe – Tira daí o sentido. Essa história já passou e não deixou saudades. Quem a leu que diga1. Que os tempos são outros não haverá dúvida. O pai Mourato deixou de receber subsídio de desemprego e, agora, todas as manhãs salta da cama, feliz. Vai para o trabalho, pois então. Também, todas as manhãs, a Irene e o Filipe saem da cama, ainda que menos felizes, mas que remédio… A essa hora, já a mãe Margarida mudou as primeiras fraldas do André. Filipe – Que grande porcalhão! Mãe – Tanto como tu, quando tinhas a idade dele. Ou julgas que já se nasce ensinado e a saber puxar o autoclismo? 1

André Topa-Tudo no País dos Gigantes, 1.º volume desta coleção.

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Cada qual vai à sua vida, menos o André, que, na transportadora, aguarda que a mãe o leve para a loja das flores, ali a dois passos. Mãe – Faz-me muita companhia. Isto diz ela à D. Hortênsia, cliente habitual da florista. D. Hortênsia – Qualquer dia, também ele vai para a escola e fica a senhora sozinha, na loja. Os filhos criam-se num instante. Mãe – Quem me dera. Mas olhe que as crianças não são como os pintos. Até se fazerem galos, demoram mais tempo. Logo por coincidência, um franganito entrou na loja. Modo de dizer. Não seria frango, mas um miúdo que mal chegava ao balcão, de tão pequeno que era. A florista debruçou-se para ele, com carinhosa atenção, mas o garoto, fosse por que fosse, conservava-se mudo. Era gorduchinho e tinha um aspeto patusco. Vinha de chapéu de aba larga, castanho e de feitio bicudo, à conta de duas amolgadelas simétricas. Usava calções da mesma cor e uma camisa de caqui, que parecia de fardamento. Apesar de escondido pelo chapéu, enfiado até às orelhas, percebia-se que o cabelo era crespo, encaracolado e ruivo. D. Hortênsia – O menino é dos escuteiros? À pergunta da velha e curiosa senhora, o miúdo empertigou-se todo e respondeu, de queixo apertado 14

André Topa Tudo no País dos Minorcas  

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