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CUFFNELLS, 1932 Mas, ó minha querida, eu estou farta de ser Alice no País das Maravilhas. Parece-te ingratidão da minha parte? E é. Só que estou mesmo farta. Só que estou mesmo farta. Faço uma pausa, pouso a caneta junto à página e massajo as minhas mãos doridas; as articulações dos dedos, em particular, estão rígidas, frias e feias, como os nós duma árvore. Uma pessoa farta-se de tantas coisas, está claro, quando tem oitenta anos, entre as quais se inclui responder a cartas intermináveis. Todavia, não posso dizer isto, não ao meu próprio filho. Embora não esteja absolutamente certa do que pretendo dizer por meio desta carta ao Caryl, que teve a amabilidade de querer saber notícias da minha saúde depois da nossa viagem atribulada. Ele acompanhou-me à América, naturalmente; para ser totalmente sincera, tenho de admitir que o meu filho se mostrou muito mais entusiasmado com a perspectiva de acompanhar a Alice no País das Maravilhas ao outro lado do Atlântico que a própria Alice por fazer a viagem. — Mas, mamã — insistiu o Caryl num tom dissimulado (completamente descabido para um homem da idade dele, como lhe fiz ver). — Nós... a mãe... deve isso ao público. Este interesse todo em volta de Lewis Carroll, apenas porque estamos no centenário do seu nascimento, e toda a gente quer conhecer a verdadeira Alice. Um doutoramento honoris causa da Universidade de Columbia. — Consultou o telegrama que tinha na mão. — Entrevistas na rádio. A mãe não pode deixar de ir. Irá passar uns dias maravilhosos. 13


— O que tu queres dizer é que tu irás passar uns dias maravilhosos. — Eu conhecia o meu filho melhor que ninguém, conhecia-lhe as qualidades e os defeitos, e, infelizmente, estes últimos excediam em número as primeiras, e sempre assim fora. Quando pensava nos irmãos dele... Não, não irei por aí. É injusto para o Caryl e penoso para mim própria. Surpreendentemente, quando o momento chegou, passei de facto uns dias maravilhosos. Tanto espalhafato só por minha causa! Bandas a tocar quando o navio atracou, bandeiras por toda a parte, até mesmo confetes; um sem-fim de fotografias comigo a beber chá — tão enfadonhas, mas os americanos pareciam nunca se dar por satisfeitos. A Alice no País das Maravilhas num chá! Imagine-se! Só por milagre não pediram ao Caryl que se mascarasse de Chapeleiro Louco. Todavia, o facto de ser tão festejada pelos intelectuais fez-me recuar, duma forma completamente inesperada, à minha infância, em Oxford. Não tinha consciência das saudades que sentia do ambiente estimulante da academia, da pompa e da circunstância, das discussões intermináveis que ninguém poderia vencer, mas também não era esse o objectivo; o objectivo era meramente o amor ao diálogo, o calor da batalha. Para minha grande surpresa, e contrariamente ao que me tinham avisado, achei toda a gente na América perfeitamente encantadora, com a excepção dum jovem que me ofereceu uma coisa qualquer chamada «pastilha elástica» quando a cerimónia na Columbia estava prestes a começar. «E o que é que fazemos com isso?», perguntei-lhe, ao que ele me respondeu, sem rodeios, mastigar. «Mastigar? Sem engolir?» Um aceno de cabeça. — Mas com que fim? Que propósito poderá isso ter? O jovem não me soube explicar e retirou a oferta com um sorriso envergonhado. Apesar de tudo, o que mais me incomodou (o que nunca deixa de me incomodar) foi a desilusão, breve e gentilmente disfarçada, evidente em todos os rostos. A desilusão de virem à espera de encontrar uma menina, uma menina esperta com um avental branco engomado e depararem, ao invés, com uma senhora idosa. 14


Eu compreendo. Eu própria sofro de cada vez que me vejo ao espelho, admirando-me como será possível que o espelho esteja tão sujo e rachado — e depois me apercebo, com uma pontada de desespero, de que afinal o defeito não é do espelho. Não se trata de mera vaidade, embora reconheça que vaidade seja coisa que não me falta. Outras viúvas idosas, porém, não foram imortalizadas num livro em crianças, e não apenas em crianças, mas como a personificação da própria Infância. E, por conseguinte, não se vêem confrontadas com pessoas que lhes pedem, sempre cheias de ansiedade, para ver «a verdadeira Alice» — e que não disfarçam o espanto, a incredulidade, de a verdadeira Alice não ter sido capaz de deter o curso do tempo. Por isso, sim, fico mesmo farta. De fingir, de me lembrar de quem sou e de quem não sou, e se por acaso as confundo a ambas — à semelhança da Alice na história —, dão-me um desconto. Porque tenho oitenta anos. Tal como fico farta de que me perguntem: «Porquê?» Por que foi que vendi o manuscrito, a versão original d’As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, que Mr. Dodgson mandou imprimir propositadamente para mim? (Quanto a Lewis Carroll, não o conhecia; são meras palavras escritas numa página — da autoria de Lewis Carroll. Não têm nada que ver com o homem que guardo na memória.) Por que haveria a musa de se separar da prova da devoção do artista? Até mesmo os americanos, com a sua ânsia de atribuir um preço a tudo, se mostraram incapazes de compreender. Dirijo o olhar para lá das janelas — as janelas pesadas de vidro de chumbo, não tão reluzentes como eu desejaria — da minha sala de estar, que dá para os terrenos luxuriantes e densamente arborizados de Cuffnells. Hoje as nuvens estão baixas, ocultando da vista a cintilação tentadora do estreito de Solent. Vejo o relvado onde os rapazes costumavam brincar, o Alan e o Rex (e, sim, o Caryl também); o campo onde jogavam críquete; os carreiros onde aprenderam a montar a cavalo e por onde regressaram a casa com o primeiro veado que caçaram, acompanhados pelo pai, tão orgulhoso — e sei que tomei a única decisão possível. Este lugar é a infância dos meus filhos, a sua herança, e é tudo o que me resta. 15


O outro, o manuscrito modestamente encadernado que me foi enviado numa manhã fria de Novembro, anos volvidos sobre a tarde gloriosa da sua criação — esse, sim, era a minha infância. Só que nunca me pertenceu verdadeiramente; Mr. Dodgson, melhor que ninguém, compreendia isso. O relógio de mesa por cima da lareira deu as duas; há quanto tempo estarei aqui de olhar perdido à janela? A tinta no aparo da minha caneta secou. Ultimamente, vou dar comigo a fazer umas coisas tão inúteis e descabidas; ultimamente, quando os pensamentos se dispersam como bolas de bilhar a entrar nas respectivas ventanilhas; ultimamente, quando ando tão cansada, tão inexplicavelmente cansada; chego mesmo a dar por mim a dormitar nas ocasiões mais inusitadas, como sejam a hora do chá ou o final da manhã, quando devia a estar a conferir as minhas contas. A mera contemplação da minha eterna fadiga arranca-me um bocejo, e olho ansiosamente para a chaise longue a um canto, com a manta oriental vermelha desbotada caída por cima dum braço. Consigo conter o bocejo e digo peremptoriamente a mim própria que ainda são só duas horas e que há muito que fazer. Dobro a carta para o Caryl cuidadosamente em três; terminá-la-ei mais tarde. Abro a gaveta da escrivaninha e retiro um maço de cartas atadas com uma fita de seda preta gasta, cartas que comecei mas que não acabei, por uma variedade de razões. Fui aprendendo, ao longo dos anos, que, muitas vezes, são as cartas que não enviamos as mais valiosas. Ali, mesmo em cima do maço, encontra-se a missiva que comecei vai para quase dois anos: Querida Ina, recebi a tua amável carta de terça-feira passada... E foi tudo quanto consegui escrever. A amável carta da Ina de terça-feira passada também se acha neste maço; separo-a, ajeito os óculos (não há dúvida: as afrontas da idade são de facto penosas) e leio-a uma vez mais com toda a atenção. Calculo que já não te lembres de quando Mr. Dodgson deixou de visitar o Decanato. Que idade tinhas tu? Eu disse que ele se mostrava demasiado afectuoso para contigo, agora que estavas a ficar crescida, e 16


que a mamã teve uma conversa com ele a esse respeito, e ele ficou de tal maneira ofendido que nunca mais nos veio visitar, pois tínhamos de apresentar alguma razão para o corte de relações... É a esta carta que estou desejosa de responder, não à que o Caryl gentilmente me enviou a saber notícias da minha saúde. Não, esta carta, esta missiva fantasmagórica da minha irmã, a minha querida irmã, falecida há quase dois anos. Todavia, as recordações confusas que ela avivou — as recordações que ela conseguia sempre avivar, ou forjar, como se fosse uma ilusionista ou uma bruxa ao invés duma perfeita senhora vitoriana — não irão morrer com ela. Morrerão elas com a Alice? Muitas vezes me pergunto. Antes de eu desaparecer deste mundo, antes de os meus ossos jazerem no cemitério junto à igreja, tão longe donde aqueles outros ossos jazem, tenho a sincera esperança de que as recordações dos outros por fim esmoreçam e eu me consiga lembrar, com uma clareza muito minha, do que aconteceu naquela tarde. Aquela tarde de Verão aparentemente agradável, em que, entre nós dois, nos decidimos a destruir o País das Maravilhas — o meu País das Maravilhas, o País das Maravilhas dele — para sempre. E, sim, fico mesmo farta; farta de continuar a fingir que sou a Alice no País das Maravilhas, constantemente. Embora não tenha sido mais fácil ser a Alice Pleasance Hargreaves. Sinceramente, interrogo-me; sempre me interroguei... Qual é a verdadeira Alice, e qual é a imaginária? Valha-me Deus! Já pareço um daqueles poemas absurdos de Mr. Dodgson. Ele tinha tanto jeito para este género de coisas; de longe mais jeito que eu, que nunca tive paciência, nem então, nem agora. Tiro os óculos; massajo a cana do nariz no sítio onde me apertam. Sinto a cabeça a latejar, ameaçadoramente, e não gosto de estar neste estado. A viagem foi esgotante, para ser absolutamente franca. Estou farta de ser a Alice, ponto final; porém, as minhas recordações não me deixam descansar, não enquanto insistir em ler cartas antigas, o que, até à data, é o sinal mais seguro de que me tornei uma velha tola e trémula. A chaise longue tem um ar tão convidativo; está uma tarde tão fria. Talvez, afinal, me vá recostar. 17

Alice_Eu_Fui  

Mas, ó minha querida, eu estou farta de ser Alice no País das Maravi- lhas. Parece-te ingratidão da minha parte? E é. Só que estou mesmo far...

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