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PRIMEIRA PARTE


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Chamou-lhe Café Pappas & Filhos. Os filhos tinham só 8 e 2 anos quando o abriu em 1964, mas calculou que um deles viesse a substituí-lo na sua velhice. Como qualquer pai que não fosse um malaka1, desejava que os filhos se saíssem melhor do que ele. Queria que fossem para a universidade. Mas, que diabo, nunca se sabia como correriam as coisas. Um deles poderia ter interesse num curso superior, o outro talvez não. Ou talvez se licenciassem os dois e tomavam conta do negócio juntos. Assim como assim, fez a sua aposta e acrescentou-os no letreiro. Para os clientes saberem que tipo de homem ele era. Ou seja, eis um homem dedicado à família. John Pappas está a pensar no futuro dos filhos. O letreiro era bonito: imagens pretas sobre um cinza-pérola, o «Pappas» com o dobro do tamanho do «& Filhos», em grandes letras pretas juntamente com o desenho de uma chávena de café num pires, o fumo a subir. O fulano que fez o letreiro pôs um elegante P no bojo da chávena, a itálico, e John gostou tanto que mandou fazer as verdadeiras iguais. Tal como os janotas usavam o monograma bordado nos punhos de uma bela camisa. John Pappas não possuía camisas dessas. Tinha umas duas azuis de algodão para ir à igreja, mas, na maioria, eram simples camisas brancas. Todas de lavar e usar para não terem de ir à lavandaria. Mais, a mulher, Calliope, não gostava de passar a ferro. Cinco de manga curta para a Primavera e Verão e cinco de manga comprida para o Outono e Inverno, penduradas umas ao lado das outras no estendal que ele colocara na cave da casa. Nem sabia para que era preciso tanta variedade. Estava sempre calor dentro do café, principalmente de serviço ao grelhador, e mesmo de Inverno andava de mangas arregaçadas acima

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Imbecil, idiota (calão grego). (NT)

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do cotovelo. Camisa branca, calças de popelina, sapatos pretos impermeáveis da Montgomery Ward. Um avental por cima das calças, um porta-canetas no bolso da camisa. A sua farda. E era bem apessoado, com um nariz proeminente. Fizera 48 anos em finais da Primavera de 1972. Usava o cabelo preto alto em cima e penteado para trás nos lados, um bocadinho por cima das orelhas, a puxar para o comprido, como a malta nova. Nos últimos anos adoptara o visual sem brilhantina. Já grisalho nas têmporas. Como muitos homens activos na Segunda Guerra Mundial, nunca mais fizera abdominais ou flexões desde que fora desmobilizado, já lá iam vinte e sete anos. Um marine que sobrevivera à campanha do Pacífico não precisava de dar provas da sua virilidade. Fumava, hábito que apanhara na guerra por lhe juntarem cigarros à ração de combate, e os pulmões não estavam muito bons. Mas a natureza física do seu trabalho mantinha-o em boa forma. A barriga era quase lisa. Orgulhava-se sobretudo do peito. Chegava ao estabelecimento às cinco da manhã, duas horas antes da abertura, o que implicava levantar-se todas as manhãs às quatro e quinze. Tinha de receber o homem do gelo e outros fornecedores, tinha de fazer o café e adiantar algumas coisas. Podia ter pedido as entregas para mais tarde para poder dormir mais uma hora mas aquela era a sua altura do dia preferida. De resto, acordava sempre esperto e pronto, sem precisar de despertador. Descer as escadas sem fazer barulho para não acordar a mulher ou os filhos, conduzir o seu Electra 225 pela Rua Dezasseis, faróis acesos, cigarro na mão dependurada da janela, a rua livre de trânsito. E depois o sossego, só ele e o rádio Motorola lá dentro, ouvir os locutores calmos da WWDC, homens da sua idade que tinham a mesma experiência de vida que ele, não os amalucados das estações de música rock ou os mavres2 da WOL ou da WOOK. Beber o primeiro dos muitos cafés, sempre num copo de papel, trocar uns dedos de conversa com os tipos das entregas que iam aparecendo, a camaradagem que havia já que todos gostavam daquela hora entre a noite e o amanhecer. Era um pequeno restaurante, não um café, mas café soava melhor, «mais fino», dizia Calliope. Em família, John chamava-lhe magazi3. Ficava na Rua N, abaixo do Dupont Circle, mesmo à ponta da Avenida Connecticut, à entrada de uma ruela. Lá dentro havia uma dúzia de 2 3

Pretos (calão grego). (NT) Loja, estabelecimento comercial. (NT)

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bancos altos em volta de um balcão em forma de ferradura com tampo de fórmica e algumas mesas de quatro lugares ao longo da grande montra que oferecia uma vista desafogada da Connecticut e da N. As cores dominantes, como em muitos estabelecimentos de gregos, eram o azul e o branco. O número máximo de lugares sentados era vinte. Havia uma breve afluência ao pequeno-almoço, duas horas de enchente ao almoço e muitos tempos mortos em que os quatro empregados, todos negros, conversavam, descontraíam, pensavam na vida e fumavam. E o seu filho mais velho, Alex, se estivesse a trabalhar. O sonhador. Não havia cozinha «nas traseiras». O grelhador, a tábua das sanduíches, a vitrina das sobremesas frias, a arca dos gelados, as máquinas dos refrigerantes e os bules de café, até a máquina de lavar loiça, estava tudo atrás do balcão para os clientes verem. Embora o espaço fosse pequeno e a capacidade limitada, Pappas incluíra um bom serviço de pronto-a-levar e entregas ao domicílio que representava uma parte significativa da receita diária. Facturava cerca de trezentos, trezentos e vinte e cinco por dia. Às três da tarde, fechava a caixa e cortava a fita. O grelhador era desligado e limpo às quatro. Havia pouco movimento depois das duas e meia, mas estava aberto até às cinco para se poder fazer a limpeza, tratar das encomendas e atender alguém que por lá aparecesse para uma sanduíche fria. Desde a hora de chegada até à de fecho, doze horas de pé. E, no entanto, não se importava. Nunca desejara ganhar a vida de outra maneira. A melhor parte, pensava ao aproximar-se da loja, o céu nocturno começando a clarear, é agora: dobrar-se para apanhar o pão e os pãezinhos deixados pelo homem da Ottenberg, depois meter a chave à porta. Sou dono de mim mesmo. Isto pertence-me. Pappas & Filhos. Alex Pappas estava a pedir boleia apenas há uns minutos, na berma da University Boulevard, em Wheaton, quando uma carrinha Volkswagen parou. Alex correu para a porta do passageiro e deu uma olhadela ao condutor quando lá chegou. Pelo vidro entreaberto, viu um fulano novo, cabelo comprido, bigode de pontas viradas. Um drogado, se calhar, mas Alex não se ralava com isso. Entrou e deixou-se cair no banco. — Boas — disse Alex. — Obrigado por parares, pá. — De nada — respondeu o fulano, arrancando da berma, engatando a segunda e seguindo para a zona financeira de Wheaton. — Para onde vais? 13


— Sempre pela Connecticut até ao Dupont Circle. Vais para aqueles lados? — Vou só até à Calvert. Trabalho lá, no Sheraton Park. — Bestial — respondeu Alex, animado. De lá eram só uns dois quilómetros e meio ou coisa assim até ao Circle e sempre a descer. Fazia-se bem a pé. Era raro conseguir uma boleia mesmo até à baixa. Num suporte debaixo do tabliê, fora montado um leitor de cassetes. Com a do concerto dos Humble Pie Rockin the Fillmore lá metida e o «I Walk on Gilded Splinters» a tocar. A música saía triplamente ampliada por umas colunas baratas postas no chão, ligadas ao leitor. Alex teve o cuidado de não enredar o pé nos fios. O carro cheirava a marijuana. Alex viu um monte de charros amarelados no cinzeiro aberto, juntamente com pontas de cigarros. — Não és dos narcóticos, pois não? — perguntou o fulano, vendo Alex olhar em volta. — Eu? — respondeu Alex, com uma risadinha. — Não, pá, está descansado. Como é que ele podia ser polícia? Tinha só 16 anos. Mas era do conhecimento geral que, se perguntassem a um agente dos narcóticos se ele era, ele tinha de responder com sinceridade. Caso contrário, qualquer detenção seria sempre anulada em tribunal. Pelo menos era o que diziam Pete e Billy, amigos de Alex. O tipo estava só a ser cuidadoso. — Queres dar umas passas? — Até queria — respondeu Alex —, mas vou ter com o meu pai. Tem uma tasca na baixa. — Miúfa do papá, não? — Pois — replicou Alex. Não quis dizer àquele desconhecido que nunca ia ganzado para o trabalho. O café era sagrado, como se fosse a igreja pessoal do pai. Não seria correcto. — Importas-te que fume? — Força. — Porreirão — replicou o fulano com um abanar de cabeça e, esticando o braço para o cinzeiro, escolheu o maior charro no meio das pontas de cigarro e cinzas. Foi uma boa boleia. Alex tinha o disco dos Pie em casa, sabia as canções todas, gostava da voz esquisita de Steve Marriott e das guitarras de Marriott e Frampton. O fulano pediu a Alex para fechar o vidro enquanto ele fumava, mas o dia nem estava muito quente, por isso 14


também não havia azar. Ainda bem que o tipo não mudou de feitio depois da ganza. Simpático como até ali. Em matéria de boleias, Alex nunca tivera problemas. Era um puto magro com buço e cabelo encaracolado, pelos ombros. Um adolescente de cabelo comprido vestindo jeans e T-shirt com bolso não era uma imagem estranha para os condutores, tanto novos como de meia-idade. Não tinha cara de mau nem grande corpulência. Podia ter apanhado o autocarro para a baixa, mas preferia a aventura de pedir boleia. Apanhavam-no todo o tipo de pessoas. Marados, certinhos, pintores de paredes, canalizadores, gajos novos e miúdas, até gente da idade dos pais dele. Raramente ficava muito tempo à espera. Nesse Verão, poucas tinham sido as beras. Uma vez, perto da Military Road, quando estava à espera da segunda boleia, um carro cheio de universitários apanhou-o. O carro tresandava a erva e eles a cerveja. Alguns começaram logo a gozá-lo. Quando disse que ia para o trabalho, na firma do pai, chamaram estúpido ao emprego e ao pai. Só de ouvir falar no pai ficou vermelho e um deles comentou: «Oh, olhem para ele, está danado.» Perguntaram-lhe se já tinha papado alguma miúda. Perguntaram-lhe se tinha papado algum gajo. O condutor era o pior de todos. Disse que iam parar numa transversal para verem se Alex aguentava um murro. Alex respondeu: «Deixem-me ficar ali naquele semáforo», e alguns riram-se quando o condutor passou com o encarnado. «Encosta», disse Alex com mais firmeza e o condutor respondeu: «Está bem. E depois vamos papar-te.» Mas o rapaz ao lado de Alex, que tinha uns olhos bondosos, disse: «Encosta e deixa-o sair, Pat», e o condutor obedeceu ante o silêncio dos outros. Alex agradeceu ao rapaz, obviamente o chefe do grupo e o mais forte, antes de sair do carro, um bruto Pontiac com um autocolante a dizer «The Boss». Alex tinha a certeza de que o carro tinha sido comprado pelos pais do rapaz. Quando a University mudou para a Connecticut, na Kensington, o fulano do bigode de pontas viradas pôs-se a falar de uma cantilena que ele conhecia, que repetindo-a mentalmente uma data de vezes tinha-se um dia bom de certeza. Disse que fazia isso muitas vezes, a trabalhar na lavandaria do Sheraton Park, e que lhe trazia «vibrações positivas». — Nam-myo-ho-rengay-kyo — disse o fulano, deixando-o ficar ao pé da Ponte Taft que atravessava o Rock Creek Park. — Fixa, está bem? 15


— Vou fixar — respondeu Alex, fechando a porta da Volkswagen. — Obrigado, pá. Obrigado pela boleia. Alex deu uma corrida pela ponte. Se fosse sempre a correr até ao café não se atrasava. Enquanto corria, ia cantando. Mal não fazia, como acreditar em Deus. Mantendo o ritmo, desceu a longa encosta, passou por restaurantes e bares, atravessou o Dupont Circle, deu a volta à fonte central, cruzou-se com os poucos hippies que já começavam a parecer ultrapassados e fora de moda, com empregados de escritório, secretárias e advogados, e passou depois pelo Dupont Theater e pela Bialek’s, onde muitas vezes comprava discos difíceis de encontrar e deambulava pelos sobrados a olhar para os montes de livros, a pensar: Quem são estas pessoas com os nomes nas lombadas? Quando chegou ao prédio do sindicato dos maquinistas, no 1300 da Connecticut, já se esquecera da lengalenga. Atravessou a rua e seguiu para o café. Dois buxos em vasos de cimento defronte do café ladeavam um murete de noventa centímetros de altura. Alex podia dar a volta, como faziam os adultos, mas pulava-o sempre quando chegava. E assim fez hoje; aterrou com firmeza sobre as solas das Chucks pretas e, olhando pela montra, viu o pai atrás do balcão, com uma caneta entalada na orelha, de braços cruzados, a olhar para ele com um misto de impaciência e gozo nos olhos. «Talking Loud and Saying Nothing, Part 1» era o que estava a tocar no rádio quando Alex entrou. Onze e pouco da manhã. Alex nem precisou de olhar para o relógio da Coca-Cola pendurado na parede por cima da máquina dos cigarros para saber que horas eram. Às onze, o pai deixava o pessoal mudar para a estação deles, de música soul. Também sabia que era a WOL, e não a WOOK, porque Inez, com 35 anos e a empregada mais velha, tinha primazia na escolha e gostava mais da OL. Inez, a alcoólica que fumava Viceroy, pele escura, olhos congestionados, cabelo desfrisado, encostada à tábua das sanduíches ainda a recuperar de uma tosga de uísque marado na noite anterior, a fumar um cigarro languidamente. Já lhe teria passado a ressaca, como sempre, quando chegasse a hora de ponta. — Epitelos — disse John Pappas quando Alex entrou e foi sentar-se imediatamente num banco alto de assento azul. Queria dizer qualquer coisa do tipo «Já não era sem tempo». — Que foi, não me atrasei. — Se achas que dez minutos não é atraso. 16


— Cheguei — replicou Alex. — Já está tudo em ordem. Por isso não tens de te preocupar, pai. O negócio está salvo. — Tu — disse John Pappas, o máximo que o pai conseguia ser efusivo. Fez-lhe um pequeno gesto com a mão. Põe-te a andar. Aborreces-me. Adoro-te. Alex estava com fome. Nunca acordava a horas de tomar o pequeno-almoço em casa e nunca chegava a tempo de o tomar ali. O grelhador era ligado para os almoços às 10.30 e depois ficava quente de mais para estrelar ovos sem os queimar. Alex tinha de contentar-se com outra coisa qualquer. Entrou para trás do balcão pela abertura do lado direito. Cumprimentou Darryl «Junior» Wilson, cujo pai, Darryl Wilson, era o homem da manutenção do prédio por cima deles. Junior estava atrás de uma grossa cortina de plástico transparente destinada a tapar a vista para a lavagem da loiça e isolar também a humidade e o calor dessa zona. Tinha 17 anos, alto e magricela, sossegado, apreciador de bonés estilosos, bocas-de-sino com bolsos de chapa e sapatos de plataforma Flagg Brothers. Andava sempre com um cigarro entalado na orelha. Alex nunca o vira tirar nenhum do maço. — Boas, Junior — disse-lhe. — Novidades, calmeirão? — replicou Junior, o seu cumprimento habitual embora tivesse o dobro do tamanho de Alex. — Nicles batatóides — respondeu Alex, no mesmo tom gozão. — Boa, pá — replicou Junior, a sacudir os ombros, a rir-se para dentro. — Boa. Alex levantou o canto da cortina e foi ter com Darlene, que pré-cozinhava hambúrgueres no grelhador. Virou-se quando ele se aproximou, com a espátula na vertical. Mirou-o de alto a baixo e fez um sorrisinho maroto. — Que foi, querido? — perguntou. — Olá, Darlene — disse Alex, perguntando-se se ela teria reparado na tremura da voz. Ela não acabara o liceu. Tinha 16 anos, como ele. O pessoal feminino usava os vestidos simples da farda tradicional, mas o dela assentava-lhe de maneira diferente. Tinha ancas curvilíneas, peitos grandes e um rabo espetado e firme. Tinha um penteado afro e uns bonitos olhos castanhos que sorriam. Atrapalhava-o, deixava-o com a boca seca. Dizia a si mesmo que tinha namorada e que lhe era fiel, por isso nunca poderia haver nada 17


entre ele e Darlene. Conscientemente, sabia que isso era mentira e que estava era com medo. Medo porque ela de certeza que tinha mais experiência do que ele. Medo porque ela era negra. As negras exigiam que as satisfizessem. Pareciam gatos bravos quando se excitavam. Era o que Billy e Pete diziam. — Queres comer qualquer coisa, não queres? — Sim. — Vai lá falar com o teu pai — disse ela apontando com o queixo para a zona da caixa. — Eu arranjo-te um petisco. — Obrigado. — Também tenho fome. — Darlene deu uma risadinha e acrescentou: — E apetecia-me... Alex corou e, incapaz de falar, afastou-se. Passou por Inez, que embalava uma série de encomendas, preparando-se para as mudar para «a prateleira», o sítio onde Alex iria buscar os pedidos de entregas. Inez não o cumprimentou. Mais adiante, cumprimentou Paulette, a empregada de balcão que atendia os clientes habituais. Tinha 25 anos, gordinha, cara grande e muito religiosa. Depois do almoço, açambarcava o rádio para a hora de gospel, que toda a gente aguentava por ela ser tão querida. Com a sua voz estridente, passinhos de rato, era quase invisível dentro do café. Paulette estava a encher os frascos Heinz com ketchup Townhouse, a marca branca mais barata do Safeway. O pai de Alex ia todas as noites ao Safeway comprar artigos mais em conta do que nos grossistas. — Bom dia, Mr. Alex — disse ela. — Bom dia, Miss Paulette. Alex foi ter com o pai à caixa. Só John Pappas e o filho podiam mexer na caixa registadora. Tinha uma tabela de preços afixada na parte da frente e ao lado duas filas de teclas para dólares e cêntimos. Se a conta chegasse aos vinte dólares, o que raramente acontecia, tinha de se bater duas vezes na tecla dos dez dólares. Nas laterais, havia papéis colados com fita gomada, nos quais Alex apontara partes de letras de canções que achava poéticas ou profundas. Um dos clientes, um advogado fumador de cachimbo, de rabo gordo e dentes saídos, pensou que tinha sido o próprio Alex a escrever as letras e, no gozo, disse a John Pappas que como escritor o filho «dava um bom empregado de balcão». Pappas respondeu, com um sorriso que não era sorriso: «Não se preocupe com o meu rapaz. Ele vai safar-se.» Alex nunca mais se esqueceu dessa tirada do pai e adorava-o por isso. 18


John entregou ao filho algumas notas de um e de cinco. Empurrou rolos de moedas de vinte e cinco, dez e cinco cêntimos sobre o tampo de fórmica. — Toma lá o teu banco, Alexander. Já tens entregas. — Estou pronto. Primeiro vou comer uma bucha. — Quero-te a andar daqui para fora mal os pedidos estejam prontos. Não quero que te atrases. — A Darlene está-me a fazer uma sanduíche. — Tem mas é juízo. — Hã? — Eu tenho olhos. Já te disse que não quero grandes intimidades com o pessoal. — Estava só a falar com ela. — Faz o que eu te digo. — John Pappas olhou para a prateleira por cima da zona de lavagem de loiça, onde Junior estava a puxar para baixo uma mangueira com jacto forte, preparando-se para lavar uma panela à mão. Inez empurrou-o para o lado e pôs na prateleira dois sacos de papel pardo etiquetados. — Lá estão as tuas entregas. — Não posso comer primeiro? — Comes pelo caminho. — Mas, pai... John Pappas apontou com o polegar para as traseiras: — Põe-te a andar, rapaz. Alex Pappas devorou uma sanduíche de bacon com alface e tomate lá atrás, junto do posto de trabalho de Junior, depois tirou os dois sacos da prateleira. Cada um tinha agrafado à frente uma factura verde-clara. Na primeira linha, com a letra cheia de floreados mas legível de Inez, estava a morada de entrega. Por baixo, o pedido detalhado, item por item, com preços, impostos e o total com um círculo à volta. Alex gostava de calcular o imposto com base no subtotal. Não era fácil já que o imposto era sempre uma percentagem e uma fracção, nunca um número inteiro. Mas arranjou uma maneira de o fazer por etapas de multiplicação e adição. Sempre fora fraco a matemática na escola, mas aprendera as percentagens a mexer na caixa registadora. Trabalhar ali era mais vantajoso que estudar em muitos aspectos. Aprendia matemática prática. Aprendia a dar-se com adultos. Conhecia pessoas que de outra maneira nunca conheceria. O mais importante 19


era que aprendia observando o pai. Trabalhar era o que os homens faziam. Nada de jogar, viver à custa dos outros ou meter-se em esquemas. Trabalhar. Alex saiu pela porta de trás para um corredor onde havia uma arrecadação e uma casa de banho de serviço que o pessoal usava (ele e o pai iam à do edifício de escritórios por cima). Subiu um pequeno lanço de escadas e saiu pelas traseiras para uma ruela. A ruela era em forma de T e tinha três saídas: a Rua N para norte, a Jefferson Place para sul e a Rua Dezanove para oeste. A primeira paragem de Alex era no Prédio Castanho, uma construção maciça assim chamada por causa da cor, que albergava repartições públicas, no 1220 da Rua Dezanove. Ganhava bem. Era melhor do que qualquer salário mínimo de um dólar e sessenta à hora que tivesse conseguido arranjar sozinho. O pai pagava-lhe quinze dólares por dia. Fazia outros quinze, vinte em gorjetas. Tal como ao resto do pessoal, o pai pagava-lhe semanalmente num pequeno envelope de papel pardo, em dinheiro. Alex não pagava impostos. Ao contrário dos amigos, andava sempre abonado. Após todos estes Verões, conhecia todas as ruelas, todas as rachas do passeio nos quarteirões a sul do Dupont. Há cinco Verões que trabalhava como estafeta para o pai. Começara aos 11 anos. O pai insistira nisso, embora a mãe o achasse muito novo. Foi para ele uma surpresa verificar, após uns dias tremidos, que conseguia dar conta do recado. O pai nunca lhe deu abébias. Quando lhe faltou dinheiro, algumas vezes nas primeiras semanas, o pai descontou-lhe as faltas no salário. Depois disso passou a contar cuidadosamente o troco dos clientes. Aos 11 anos, era um típico cabeça-de-vento. Distraía-se facilmente, parava a ver as montras na avenida e atrasava-se muitas vezes. Um ingénuo quanto à cidade e seus predadores. Nesse primeiro Verão, ao fazer uma entrega próximo do Circle, um homem deu-lhe um beliscão no rabo e, quando Alex se virou para trás a ver quem lhe tinha feito tal coisa, o homem piscou-lhe o olho. Alex ficou perplexo, a pensar: Porque é que o homem me fez aquilo? Mas achou melhor não contar o incidente ao pai quando voltou para o café. Tinha a certeza de que o pai ainda ia à procura do fulano para lhe dar uma sova. Havia grandes firmas de advogados nas imediações do café. A Arnold e Porter, a Steptoe e Johnson, e outras. Alex não gostava da maneira como alguns dos advogados, tanto homens como mulheres, falavam de alto com o pai dele. Não sabiam que ele era um marine e ex-combatente? 20


Não sabiam que ele era capaz de lhes dar um enxerto de porrada. Alguns julgavam-se, nitidamente, melhores que o pai, o que gerava em Alex um profundo ressentimento. Mas também os havia simpáticos. Não raro, atardavam-se a tomar o café ao balcão só como pretexto para uns dedos de conversa com o velho. John Pappas era mais do que calado; era um bom ouvinte. Para funcionarem, essas firmas de advogados precisavam de secretárias e excêntricos na secção da correspondência e Alex foi fazendo amizade com as raparigas e os marados, barbudos que usavam calções e camisolas Transformer, e com os tipos da garagem que vigiavam os carros dos patrões. Na Jefferson Place, uma rua estreita de moradias em banda convertidas em lojas, situavam-se firmas e sociedades mais pequenas que aceitavam causas como a dos direitos dos índios e salários mais altos para os vindimadores. Hippies chiques, chamava-lhes o pai. Mas não eram como os hippies, os poucos que restavam no Circle. Estes usavam fato e gravata. E as mulheres que trabalhavam nessa rua pareciam em pé de igualdade com os homens. Sem sutiã e com saias curtas, mas mesmo assim. Nos primeiros anos, Alex andara no seu mundo dos sonhos, mas quando as hormonas dispararam começou a reparar nas jovens funcionárias, mais ou menos na altura em que o rock and roll e a música soul passaram a significar alguma coisa para ele. Percebeu, no fundo, que tudo isso estava de certa maneira ligado. Cantava os temas que ouvia nas estações de música soul quando ia fazer as entregas, e às vezes cantava-os em elevadores vazios, descobrindo, por experimentação, os que tinham melhor acústica. «Groove Me.» «In the Rain.» «Oh Girl.» E escolhia as rotas para poder apreciar as raparigas que mais lhe agradavam, sabendo onde elas estariam a certas horas do dia. Muitas delas achavam-no um miúdo, mas ele às vezes sorria-lhes e conseguia um sorriso em troca que insinuava algo mais: és novo mas tens qualquer coisa. Tem paciência, Alex. Há-de chegar a tua vez. Já não te falta muito. Tudo isso pela frente e novo.

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