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O RAPAZ, O COMBOIO E A TAPEÇARIA Max McDaniels encostou a fronte à janela do comboio e olhou para as nuvens pesadas que deslizavam rapidamente pelo céu amarelado. Com um tamborilar leve, a chuva começou a cair no vidro e o céu escureceu até ficar com o tom de uma nódoa negra. Embaciando a janela com a respiração, Max pestanejou rapidamente quando viu o seu reflexo no vidro molhado e este lhe mostrou o seu próprio piscar de olhos; na janela, viu um rapaz de olhos escuros, com cabelo preto ondulado e as maçãs do rosto salientes, iguais às da mãe. A voz do pai ribombou ao lado de Max e este virou-se. — Qual preferes? — perguntou o pai com um sorriso entusiasmado no rosto. Segurava com os seus dedos grossos dois folhetos impressos em papel fotográfico. Max olhou para os anúncios publicitários e o seu olhar fixou-se na imagem de uma mulher elegante que estava ao lado de um lava-loiças e tinha a cabeça inclinada para trás, numa pose de puro deleite. 11


— Esse não — respondeu ele. — É muito piroso. O sorriso rasgado do Sr. McDaniels desapareceu. Grande como um urso, o pai de Max tinha olhos azul-claros e um queixo pequeno, com uma pequena cova. — Não é piroso — contra-argumentou ele, olhando atentamente para o anúncio e alisando o cabelo castanho ralo. — O que tem de piroso? — Ninguém fica assim tão feliz por ter de lavar a loiça — respondeu Max, apontando para a mulher sorridente que tinha os braços mergulhados em água com espuma até aos cotovelos. — E ninguém lava a loiça usando um vestido elegante… — Mas a ideia é mesmo essa! — interrompeu o pai de Max, abanando o folheto fino. — O Ambrosia é o primeiro detergente topo de gama! A sua espuma celestial é suave nas mãos, mas também suficientemente forte para os mais exigentes… — Pai… — interrompeu Max, corado de vergonha. O Sr. McDaniels parou de falar alguns segundos e reparou que os outros passageiros olhavam curiosamente pelo canto do olho para ele e Max. Abanando a cabeça, colocou novamente os folhetos publicitários no bolso da gabardina. O comboio parou numa estação, algures nos subúrbios da cidade. — Não é assim tão mau — disse Max, para o alegrar. — Talvez possas pedir-lhe para sorrir menos. O Sr. McDaniels deu uma risadinha e deslizou no seu traseiro amplo pelo banco, para dar um abraço apertado ao filho. Max afastou-o com os cotovelos, enquanto entravam mais pessoas no comboio, fechando guarda-chuvas e afastando o cabelo molhado dos olhos. Da locomotiva saiu um som pesado e o comboio recomeçou a andar. Os passageiros soltaram pequenos gritos e gargalhadas quando aquela carruagem ficou às escuras. Max apertou o braço do pai, mas as luzes amarelas acenderam-se lentamente poucos segundos depois. A chuva caía com maior intensidade agora que se aproximavam de Chicago, que ao longe viam erguer-se imponentemente em aço e tijolo, com a tempestade estival como fundo. Max ainda estava a sorrir quando viu o homem. Este estava sentado do outro lado do corredor, num banco atrás do seu; era pálido, tinha um aspecto desmazelado e cabelo preto, curto e 12


molhado pela chuva. Parecia estar exausto, pestanejando de sono e encolhendo-se no casaco sujo, balbuciando silenciosamente algo com o rosto encostado ao vidro. Max virou-se para trás para melhor olhar para ele. O que viu fê-lo ficar sem fôlego. O homem estava a olhar fixamente para ele. Imóvel, focava-se em Max com os seus dois olhos de cores diferentes. Um era verde e o outro brilhava molhado e branco como um ovo cozido descascado. Max não conseguia desviar o olhar, fascinado. Aquele olho parecia algo cego e morto… algo saído de um pesadelo. Porém, Max tinha a certeza, apesar de não saber como, de que o olho não era cego ou morto. Sabia que estava a ser analisado por ele, avaliado, da mesma maneira que a mãe costumava avaliar um copo de vinho ou uma fotografia antiga. Sem desviar o olhar de Max, o homem desencostou a cabeça da janela e inclinou-se para o corredor que havia entre os bancos. O comboio entrou num túnel e a carruagem ficou às escuras. Max sentiu-se invadido por uma onda de medo e escondeu o rosto no casaco quente do pai. O Sr. McDaniels exclamou e deixou cair vários folhetos publicitários. O comboio parou e Max ouviu a voz do pai. — Estás a adormecer, Max? Pega nas tuas coisas; chegámos, rapaz. Max ergueu a cabeça e viu que a carruagem estava iluminada e que os passageiros se apressavam para sair. Olhou apressadamente de rosto em rosto. Não havia sinal do estranho. Corado, Max pegou no guarda-chuva e no caderno de esboços e apressou-se, seguindo o pai. A estação estava apinhada e várias pessoas entravam e saíam das gares. Um rumor de vozes mescladas ouvia-se acima dos altifalantes; pessoas que aproveitavam o fim-de-semana para fazerem compras passavam rapidamente com sacos, apressando os filhos. O Sr. McDaniels levou Max até às escadas, que desceram, chegando à saída da estação. Parara de chover, mas o céu tinha ainda nuvens ameaçadoras e jornais esvoaçavam pela rua quando sopravam rajadas súbitas de vento. Chegando a uma praça de táxis, o Sr. McDaniels abriu a porta de um dos carros e recuou, para deixar Max entrar e passar para o outro lado do banco de vinil. — Para o Instituto de Arte, se faz favor — disse o pai. Max esticou o pescoço para tentar ver o topo dos arranha-céus, enquanto o táxi avançava para a zona leste, na direcção do lago. 13


— Pai — disse Max —, viste o homem que estava no comboio? — Qual homem? — Estava sentado no outro lado do corredor, no banco atrás do nosso — respondeu Max, estremecendo. — Não, acho que não — respondeu o pai, dando um piparote num pedaço de cotão que tinha no casaco. — O que tinha o homem de especial? — Não sei. Tinha um aspecto assustador e estava a olhar fixamente para mim. Pareceu-me que ia dizer qualquer coisa ou que queria aproximar-se quando entrámos no túnel. — Bem, se estava a olhar fixamente para ti, deve ser porque estavas a olhar fixamente para ele — respondeu o Sr. McDaniels. — Vais encontrar muitos tipos diferentes de pessoas na cidade, Max. — Eu sei, pai, mas… — As aparências iludem, não é? — Eu sei, mas… — Ouve, há um tipo que trabalha no meu escritório. É um rapaz novo, ainda um pouco inexperiente. Bem, quando comecei a trabalhar lá, vi o miúdo perto da máquina do café; tinha os olhos maquilhados, um anzol espetado no nariz e música aos berros a sair-lhe dos auriculares… Max olhou pela janela, enquanto o pai recontava uma história já conhecida. Max reparou finalmente naquilo que ansiava ver: dois leões de bronze imponentes e orgulhosos, um de cada lado da entrada do museu. — Pai, chegámos ao Instituto de Arte. — Pois chegámos, filho. Ah, antes que me esqueça — disse o Sr. McDaniels, virando-se para Max com um sorriso triste no rosto —, obrigado por vires comigo, Max. É muito importante para mim. E para a tua mãe também. Max acenou de forma solene e apertou a mão do pai com força. A família McDaniels sempre comemorara o aniversário de Bryn McDaniels visitando o seu museu favorito. Apesar de a mãe de Max ter desaparecido há já dois anos, ele e o pai mantinham essa tradição. No interior do museu, perguntaram a uma jovem que usava uma pequena etiqueta com o seu nome onde podiam encontrar os quadros de alguns dos artistas favoritos de Bryn McDaniels. Max ouviu o pai ler atrapalhadamente os nomes que escrevera numa folha: Picasso, Matisse e Van Gogh soaram bem, mas, quando chegou ao último, o pai parou. 14


— Gáu-guin? — perguntou ele, contorcendo a fronte e olhando para o papel. — Gauguin. É um pintor incrível. Acho que vai gostar muito dos seus quadros — respondeu a mulher, sorrindo e apontando-lhes uma escadaria de mármore que dava acesso ao segundo andar. — A tua mãe conhece-os todos. Não tenho jeito para isto, não interessa quantas vezes cá venhamos — disse o Sr. McDaniels, rindo e batendo levemente no ombro de Max com o guia do museu. As galerias do andar superior estavam repletas de cor… grandes pinceladas de tinta espessa cobriam as telas. O Sr. McDaniels apontou para um quadro grande onde se via peões a caminharem por uma rua chuvosa de Paris. — Parece o dia de hoje, não parece? — A chuva parece, mas, para ficares parecido com ele, precisavas de um bigode e de uma cartola — respondeu Max, olhando pensativamente para uma figura que via no primeiro plano. — Eh! Costumava usar bigode. A tua mãe fez-me cortá-lo quando começámos a namorar. Alguns quadros ocupavam paredes inteiras, enquanto outros assentavam modestamente em pequenas molduras douradas. Pai e filho passaram mais ou menos uma hora apreciando os quadros e tendo o cuidado de se demorarem mais nos que a Sr.ª McDaniels preferia. A Max agradava especialmente um Picasso em que um homem de idade tocava guitarra. Estava a apreciar o quadro quando ouviu o pai a exclamar. — Bob? Bob Lukens! Como está? Max virou-se e viu o pai a apertar vigorosamente a mão a um homem magro e de meia-idade, que usava uma camisola preta. Com ele vinha uma mulher e ambos sorriam de forma hesitante, vendo-se encurralados pelo Sr. McDaniels. — Olá, Scott. É um prazer vê-lo — respondeu educadamente o homem. — Querida, este é o Scott McDaniels. Está a trabalhar na conta Bedford Bros… — Oh, que boa surpresa. É um prazer conhecê-lo, Scott. — Vão mudar a sua opinião acerca da sopa! — disse o Sr. McDaniels numa voz ribombante, com o indicador apontado para o tecto. A Sr.ª Lukens soltou um grito de susto e deixou cair a carteira. — Imagine um dia de Inverno — continuou o Sr. McDaniels, baixando-se para apanhar a mala, enquanto a senhora recuava para se 15


esconder atrás do marido. — Está constipado, o vento sopra com força e a única coisa que tem para aquecer a barriga é uma daquelas sopas aborrecidas de pacote. Bem, não há sopas aborrecidas com as bolachas estaladiças para sopa da Bedford Bros.! O seu formato chique e massa estaladiça vão dar vida à sopa e fazer as suas papilas gustativas baterem continência! O Sr. McDaniels levantou depois a mão aberta e tocou na têmpora, pondo-se em sentido. Max sentiu vontade de ir para casa. O Sr. Lukens deu uma pequena risada. — Já te tinha dito que o Scott é fanático, querida? A Sr.ª Lukens esboçou um sorriso tímido quando o pai de Max lhe apertou a mão; depois, o Sr. McDaniels virou-se para o filho. — Max, apresento-te o senhor e a senhora Lukens. O senhor Lukens é o director da agência onde trabalho… é o chefão. Eu e o Max viemos ao museu para absorvermos uma dose de cultura, não foi? Max sorriu nervosamente e estendeu a mão para cumprimentar o Sr. Lukens, que a apertou de forma amigável. — É um prazer conhecer-te, Max. É bom ver um jovem longe dos jogos de vídeo e da MTV! Viste algum quadro de que gostasses? — Gosto deste Picasso — respondeu Max. — Sempre gostei desse. Tens um bom olho… O Sr. Lukens deu uma palmada amigável no ombro de Max, virando-se para o Sr. McDaniels. — Gostava que o comparasses com um dos meus preferidos, mas infelizmente o quadro desapareceu. — Desapareceu? — perguntou o Sr. McDaniels. — Foi um dos três quadros que foram roubados deste museu na semana passada — respondeu o Sr. Lukens, franzindo o sobrolho. — Li no jornal que roubaram outros dois no Prado na noite passada. — Oh — surpreendeu-se o Sr. McDaniels. — Que horror. — É mesmo um horror — disse o Sr. Lukens, de forma conclusiva, olhando depois para Max. — Scott, traga o Max lá ao escritório, um dia destes. Tenho um poster de um dos quadros roubados e veremos se Rembrandt dá cabo de Picasso! — Está combinado — respondeu o Sr. McDaniels, rindo e ajoelhando-se para ficar da altura de Max. «Olha, rapaz — disse ele, piscando o olho —, o pai tem de falar de negócios e não quero que morras de tédio. Porque não vais esbo16


çar aquelas armaduras que tu e a mãe costumavam desenhar? Encontramo-nos na livraria do andar de baixo daqui a meia hora. Que tal? Max assentiu e despediu-se do Sr. e da Sr.ª Lukens, que rapidamente se encolheram quando Scott McDaniels começou a gesticular energicamente. Max pegou no caderno de esboços e no lápis e caminhou pelo corredor com passos pesados, sentindo-se invadido por uma fúria silenciosa por o pai nunca perder uma oportunidade de falar de negócios, mesmo no dia de aniversário da mãe. A galeria onde estavam as armaduras era mais escura do que as restantes e os artefactos reluziam com um brilho suave atrás das vitrinas polidas. Nesta galeria havia menos pessoas e Max ficou contente por poder desenhar em paz e sossego. Caminhou em redor de um cordão de veludo, parando de vez em quando para olhar atentamente para um arco ou um cálice. Havia toda a espécie de armas nas paredes: maças pretas de ferro, machados de lâminas largas e espadas compridas. Max parou diante de alabardas cerimoniais, antes de se deparar com o objecto ideal para desenhar. A armadura era enorme, fazendo as que estavam ao seu lado parecerem minúsculas, e brilhava como prata no interior de uma vitrina espaçosa. Max deu alguns passos para a observar de outro ângulo e inclinou a cabeça para ver melhor o elmo. Alguns minutos depois, Max já fizera um esquisso da armadura. Quando se esforçava por desenhar a couraça, que era especialmente elaborada, o barulho que lhe chegou vindo do extremo do corredor chamou-lhe a atenção. Max espreitou pela vitrina e ficou petrificado. O homem do comboio estava ali. Max agachou-se e viu o homem, que era muito mais alto do que o segurança do museu, a conversar com este, na entrada daquela galeria. O homem gesticulava, fazendo gestos firmes com a mão. A sua voz tornava-se mais ruidosa e os seus movimentos cada vez mais rápidos. — Desta altura — dizia severamente o homem, que tinha pronúncia da Europa de Leste. Tinha a palma da mão virada para baixo, mais ou menos à altura de Max. — Um rapaz de cabelo preto, com mais ou menos doze anos; tem um caderno de esboços. O guarda estava encostado à porta e olhava para o homem de alto a baixo. Depois esticou a mão para pegar no rádio, mas o estranho 18


aproximou-se e sussurrou algo que Max não conseguiu ouvir. O guarda, estranhamente, acenou que sim e apontou com o polegar gordo por cima do ombro, na direcção das armaduras atrás das quais Max se escondia. Aterrorizado, Max olhou em volta e reparou numa porta escura à sua direita. Um cordão de veludo e um aviso, onde se lia: SOB REPARAÇÕES, ENTRADA PROIBIDA, impediam a passagem. Ignorando o aviso, Max passou sob o cordão e escondeu-se no canto. Ficou rigidamente encostado à parede, esperando a qualquer momento que o homem o encontrasse. Nada aconteceu. Max só se lembrou de que deixara o caderno de esboços na outra galeria quase um minuto depois. Ficou em pânico; o homem seguramente encontraria o caderno e adivinharia onde Max se escondera. Passou-se um minuto, depois outro e mais um. Max ouviu passos a aproximarem-se e conversa informal de pessoas que passavam diante da porta. Espreitando, viu que o homem já se fora embora e que o caderno também desaparecera. Deslizando pela parede até se sentar no chão, Max lembrou-se do seu nome e morada distintamente escritos na parte de dentro da capa. Levantando a cabeça, olhou desmoralizadamente em volta para a sala onde se escondera. Esta era surpreendentemente pequena para uma galeria. O ar estava abafado e havia um brilho âmbar e suave por toda a divisão. Na sala havia apenas uma tapeçaria esfarrapada pendurada na parede em frente a Max. Estranhamente, a luz suave irradiava da própria tapeçaria. Max aproximou-se. A tapeçaria era antiga. A luz do Sol e os séculos haviam-na desbotado e agora os únicos vestígios de cor eram algumas manchas de ocre ténue. Quando se aproximou, Max reparou que, sob a superfície pobre, vibravam algumas cores. O estômago de Max começou a formigar como se ele tivesse engolido abelhas vivas. Os pêlos dos seus braços levantaram-se um a um e ele ficou imóvel, respirando rapidamente. Pim! Um fio acendeu-se com uma luz dourada e forte. Max gritou e saltou para trás. O fio brilhava como fogo, fino e delicado como a seda das aranhas. Vibrou como a corda de uma harpa, soltando uma única nota musical que ecoou pela galeria, antes de se desvanecer e tudo ficar novamente em silêncio. Max olhou para trás, para a porta. As pessoas 19


que visitavam o museu continuavam a passar, mas pareciam estar longe e nem sequer reparavam naquela pequena galeria, na única pessoa que lá estava e naquela estranha tapeçaria. Outros fios ganharam vida, sendo acordados do seu sono e erguendo-se num festival de luz e música. Alguns ganhavam cor e som individualmente, outros emergiam numa harmonia tecida de prata, verde e ouro. Max sentiu-se como se tivesse descoberto um instrumento antigo e estranho que agora recomeçava a tocar uma canção desconhecida e esquecida. A canção tornou-se mais rica. Quando o último fio ecoou, Max soltou uma exclamação de dor. A dor que sentia era mais contundente do que uma mera pontada e era causada por algo que estava bem fundo nele. Esse algo sempre vivera em Max. Era uma presença oculta, enorme e selvagem e Max temia-a. Max fizera grandes esforços, durante toda a sua vida, para a manter enclausurada dentro de si. Estes esforços tinham-lhe causado dores de cabeça, algumas das quais tinham durado vários dias. Max soube que esses dias haviam terminado quando sentiu que a presença se libertara. Finalmente solta, deslizou lentamente pela consciência de Max, antes de soar nas profundezas do seu ser, para agitar os sedimentos que lá repousavam. A dor desapareceu. Max respirou fundo e escorriam-lhe livremente lágrimas quentes e grossas pela face. Passou então os dedos pela superfície tecida. A luz e as cores transformaram-se e formaram padrões dourados e entrelaçados que emolduravam três palavras estranhas, que brilhavam perto do topo.

TÁIN BÓ CUAILNGE Centrada, sob as palavras, estava uma imagem tecida que representava um touro a pastar, rodeado por dezenas de guerreiros, que dormiam. Pela direita, aproximava-se uma legião de homens armados; um trio de aves negras voava em círculo no céu. Observando a cena no cume de um monte próximo, estava a silhueta de um homem alto, que tinha uma lança na mão. Max observou toda a imagem, mas o seu olhar fixava-se sempre na figura que estava no cume do monte. Lentamente, a luz da tapeçaria começou a brilhar com maior intensidade; as imagens tremeluziram 20


e dançaram sob ondas difusas de calor. Numa cacofonia crescente de som, a tapeçaria acendeu-se com uma radiância tão quente e clara que Max temeu que esta o consumisse. — Max! Max McDaniels! A sala estava novamente escura. A tapeçaria, pendurada na parede, parecia desbotada, feia e ficara imóvel. Max recuou, confuso e assustado, e passou por cima do cordão de veludo, voltando à galeria de artefactos medievais. Viu então o seu imponente pai, acompanhado por dois seguranças, caminhando no extremo oposto da galeria. Max chamou-o. Quando o Sr. McDaniels ouviu a voz do filho, correu para onde ele estava. — Oh, graças a Deus! Graças a Deus! — exclamou o Sr. McDaniels, limpando as lágrimas, baixando-se e agarrando as mangas do casaco do filho. — Max, onde raios estiveste? Ando à tua procura há duas horas! — Desculpa, pai — respondeu Max, confuso. — Estou bem. Fui para a sala ali ao lado, mas só lá estive vinte minutos. — O quê? Qual sala? — perguntou o Sr. McDaniels numa voz trémula, olhando por cima do ombro de Max. — A que está em obras — respondeu Max, virando-se para apontar para o aviso. Max calou-se, começou a falar e calou-se novamente. Não havia qualquer porta, aviso ou cordão de veludo. O Sr. McDaniels cumprimentou os guardas com apertos de mão firmes. Quando estes se afastaram e já não o podiam ouvir, ajoelhou-se ao lado de Max. Os seus olhos estavam inchados e espelhavam apreensão. — Max, diz-me a verdade. Onde estiveste nas últimas duas horas? Max respirou fundo. — Estive numa sala desta galeria, pai, juro que não me pareceu ter passado lá tanto tempo. — Onde é a sala? — perguntou o Sr. McDaniels, desdobrando o guia do museu. Max sentiu-se subitamente enjoado. A sala onde vira a tapeçaria simplesmente não constava do mapa. — Max… é a última vez que te pergunto. Estás a mentir? — Não, pai. Não estou a mentir. Antes que Max tivesse acabado a frase, o pai puxava-o rapidamente em direcção à saída. Algumas raparigas da idade dele soltaram risa21


dinhas e sussurraram quando o viram a ser arrastado, caminhando pesadamente e com a cabeça curvada pela entrada do museu e descendo as escadas. O único som que se ouviu durante a viagem de táxi para a estação de caminhos-de-ferro foi o que o Sr. McDaniels fez ao folhear rapidamente os panfletos publicitários. Max reparou que alguns estavam ao contrário ou de pernas para o ar. O vento soprava mais intensamente e a chuva voltara a cair quando o táxi parou perto da estação. — Certifica-te de que trazes as tuas coisas — disse o Sr. McDaniels, suspirando e saindo pela outra porta. Parecia estar cansado e triste. Max ficou cabisbaixo e achou melhor não dizer ao pai que também perdera o caderno de esboços. Quando entraram no comboio, dirigiram-se em silêncio para um compartimento almofadado. O Sr. McDaniels mostrou o bilhete de regresso ao revisor e depois encostou-se ao banco, fechando os olhos. O revisor olhou então para Max. — O seu bilhete, por favor. — Ah, tenho-o aqui — balbuciou Max distraidamente. Pondo a mão no bolso, procurou-o, mas acabou por encontrar um pequeno envelope. Quando viu o seu próprio nome escrito claramente neste, parou. Confuso, Max tirou o bilhete do outro bolso e entregou-o ao revisor. Olhando para o lado, certificou-se de que o pai continuava a descansar e depois concentrou-se no envelope. À luz amarelada e ténue este parecia pardo e o papel grosso era agradável ao toque. Virando o envelope, olhou para a caligrafia elegante, escrita a azul-marinho. Sr. Max McDaniels O pai respirava agora pesadamente e Max passou o dedo pela aba do envelope. Dentro deste estava uma carta dobrada. Caro Sr. McDaniels, Os nossos registos indicam que provou ser um Potencial esta tarde, às 15.37, do calendário C&T, hora dos Estados Unidos. Parabéns, Sr. McDaniels, deve ser um jovem extraordinário e estamos ansiosos por conhecê-lo. Um dos nossos representantes 22


regionais contactá-lo-á dentro em breve. Até lá, agradecíamos a sua completa discrição e silêncio no que diz respeito a este assunto. Com os melhores cumprimentos, Gabrielle Richter Directora Executiva Max leu a carta várias vezes, antes de a colocar novamente no bolso. Sentia-se completamente esgotado. Não sabia como o envelope lhe viera parar às mãos e não fazia a mais pequena ideia do que era um «Potencial» ou porque lhe estava a acontecer tudo aquilo. Desconfiava que estivesse relacionado com a tapeçaria escondida e com a presença misteriosa que agora se movia livremente dentro de si. Max olhou pela janela. Raios fortes de luz brilhavam a oeste, fazendo os farrapos de nuvens desaparecerem. Exausto, encostou-se ao pai e mergulhou lentamente no sono, agarrando firmemente o envelope misterioso.

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11 1 12 13 No interior do museu, perguntaram a uma jovem que usava uma pequena etiqueta com o seu nome onde podiam encontrar os quadros de a...