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PRÓLOGO Tiros. Como ossos a estalar. Estamos em Nova Iorque, com o seu ruído incessante, o seu ritmo metálico áspero, o som de passos apressados, cadenciado e contínuo, as suas estações de metro, os seus engraxadores, engarrafamentos e táxis amarelos, as suas querelas de namorados, a sua história, paixões, promessas e aspirações. E Nova Iorque engoliu sem esforço o som dos tiros, como se nada mais fosse do que uma simples pulsação de um coração solitário. Ninguém ouviu aquele som, por entre tal profusão de vida. Talvez por causa de todos os outros sons... Talvez porque simplesmente ninguém estivesse a ouvir. Até o pó, iluminado pelo fio de luar que penetra pelas frestas das janelas deste quarto, no terceiro andar do hotel, ainda que brevemente perturbado pela deslocação do ar provocada pelos disparos, logo retomou o seu trajecto errante mas imparável. Não aconteceu nada porque estamos em Nova Iorque e tais fatalidades, solitárias e obscuras, são o pão nosso de cada dia nesta cidade, são-lhe quase endémicas, acontecimentos brevemente lembrados e logo esquecidos. A vida prossegue, no seu ritmo normal. Um novo dia se avizinha e não seria uma coisa tão insignificante como uma morte que impediria o Sol de nascer. Afinal não passava de uma vida, apenas isso.

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Sinto-me um exilado. Agora, ao olhar para a minha vida passada, tento analisá-la objectivamente. Por entre toda a loucura que encontrei pelo caminho, por entre as investidas, os choques e a brutalidade que testemunhei nas relações humanas, também tive alguns momentos bons: amor, paixão, promessas, a esperança de algo melhor... Tive tudo isto. Porém, atormenta-me uma visão, uma visão que me acompanha para onde quer que vá. Eu era o «apanhador» de Salinger 1, sempre atento, na extremidade de um campo de centeio que me chegava aos ombros, aos sons de crianças «invisíveis» a brincarem no meio de um mar de cores, ao seu riso de quem brinca à apanhada, aos seus jogos — às suas brincadeiras, se quisermos — sempre a zelar para que não se aproximassem demasiado da extremidade do campo, pois este campo flutuava, como se estivesse no espaço, e, se os miúdos chegassem à beira do precipício, jamais teria tempo de evitar que caíssem 2. Por isso zelava por eles, esperava, ouvia atentamente e tentava por todos os meios evitar que o precipício os engolisse, pois se se despenhassem já não haveria remédio. Morreriam. Morreriam, mas jamais seriam esquecidos. Tem sido isto a minha vida. Uma vida esticada como um fio de que não se sabe a resistência nem o comprimento. Um fio que não se sabe se terminará de repente ou se continuará indefinidamente, ligando cada vez mais vidas à medida que se desenrola. Por vezes não é mais do que um filamento 1 Jerome David Salinger foi um símbolo da juventude norte-americana, retratando-a e captando a sua linguagem, problemas e experiências. A sua obra mais conhecida é The Catcher in the Rye. In Diciopédia 2008, Porto Editora. (N. do T.). 2 Este período refere-se à obra The Catcher in the Rye de J. D. Salinger. Esta obra, inicialmente publicada em Portugal com o título Uma Agulha no Palheiro e, recentemente, com o título À Espera no Centeio, relata-nos três dias na vida de um adolescente de 16 anos, Holden Caulfield, que acabou de ser expulso do seu colégio, Pencey, e decide fazer uma gazeta em Nova Iorque, a duas semanas do Natal. A personagem principal é um jovem na idade do «armário». Holden é um adolescente chocado com a indiferença que o rodeia, mas também dolorosamente deprimido pela sua incompreensão do mundo. A ideia está relacionada com crianças que brincam à «apanhada»

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de algodão, tão frágil que parece querer desfazer-se, outras um cabo — daqueles de trançado triplo, com nós de cabeça de turco e com cada fibra alcatroada e torcida até se tornar impermeável à água, ao sangue, ao suor, às lágrimas... Um cabo com que se poderia erguer as paredes de um celeiro, uma bolina capaz de domar as velas de um navio, uma corda com que se pudesse trazer para terra uma criança prestes a afogar-se ou domar um cavalo, atar um homem a uma árvore e vergastá-lo pelos seus crimes ou enforcar um pecador. Uma vida para cuidar ou para ver esvair-se por entre mãos negligentes e insensíveis, mas sempre uma vida. E tendo vivido uma, desejamos sempre uma segunda, e uma terceira, ou até mais, tão depressa nos esquecemos da que gastámos em vão. O tempo passa depressa e corta a direito como um foguete. As semanas num ápice se transformam em meses e os meses em anos... Porém, mesmo dispondo deste tempo ilusoriamente alargado, basta um momento de hesitação para se deitar tudo a perder. As ocasiões especiais — esporádicas como nós num cordel e irregulares como corvos poisados num cabo telefónico — recordamo-las sempre, não nos atrevemos a esquecê-las, pois são amiúde a única coisa que nos resta. Lembro-me de todas (e até de mais algumas) e chego a perguntar-me se a imaginação não terá desempenhado um papel importante na minha vida. É isso que ela foi e sempre será: uma vida. Agora, que cheguei ao capítulo final, sinto que é tempo de contar tudo, porque isso é o que eu sempre fui e serei... um contador de histórias, um narrador de contos, e se tiver que ser julgado pelo que sou ou pelo que fiz, que o seja! A minha história terá, pelo menos, o mérito de vos apresentar a verdade dos factos — assim como um testamento, se quiserem, ou mesmo uma confissão. Sento-me em silêncio. Sinto o calor do meu próprio sangue nas mãos e pergunto-me quanto tempo mais terei de vida. Fito o cadáver que tenho à minha frente e consola-me a certeza de que, pelo menos em parte, foi feita justiça.

ou que se escondem no mesmo jogo, no meio de um campo de centeio. É a ideia central o ser humano que prolonga a «escondida», que se protege dos outros, que rejeita um mundo deprimente, que não compreende a morte e tenta adiar o abandono da liberdade da infância. Mas, do ponto de vista do protagonista, é também uma espécie de missão: junto ao centeio há um abismo e o «apanhador» terá de impedir as crianças de caírem no vazio. In Diário de Notícias, secção Artes (livros), «Em busca de um sentido para isto na idade do «armário» — Uma nova e excelente tradução de um imortal americano», de Luís Naves. (N. do T.).

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Viajemos agora no tempo, até ao princípio... Acompanhem-me, por favor. Não peço mais do que isto. Apesar de ter feito tantas coisas erradas, creio que também fiz bem suficiente para merecer esta réstia de tempo que vos peço. Inspirem. Sustenham a respiração. Expirem. Tudo tem que estar no mais absoluto silêncio para que os possamos ouvir quando chegarem, quando finalmente me vierem buscar.

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A_Sombra_do_Medo  

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