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Estava então o velho refastelado no cadeirão da morte a ruminar memórias, dessas que se confundem com as dos outros e com as próprias inventadas, quando o foram interromper com a frase maldita que não deixa indiferente de irritação um homem distraído com os seus pensamentos: «Está na hora, paizinho.» O esforço implicado naquele aviso era de tal ordem complexo que não restou ao velho outro sentido senão o de ignorá-lo e retomar o seu exercício da saudade. Mas a voz parecia disposta a estragar-lhe a viagem e outra vez veio à carga: «Paizinho, está na hora.» Não podia ele imaginar de que hora se tratava, apesar de a rotina lhe ter ensinado os procedimentos correctos de calar semelhante insistência. Levantou-se com esforço do cadeirão, um pequeno balanço de ranger os ossos, depois o equilíbrio lento com a mão apoiada no braço do assento, e dirigiu-se à retrete para esvaziar a bexiga que há duas horas o reclamava, porém sem a urgência merecida para se fazer valer. Regressou ao quarto com o mesmo passo achinelado com que nestes dias se arrastava apenas pelas divisões fundamentais da casa, desde que deixara de visitar aquelas cuja utilidade o cansaço determinara enganosa. Apertou o cinto das calças, gesto antigo também o de o soltar sempre que a sesta lhe exigia espaço de manobra no resvalar do corpo sobre o cabedal polido do cadeirão, e entalou a camisa na cintura. Sobrava-lhe folga para uma mão-travessa embora o cinto fosse já no segundo furo improvisado. Estava a desaparecer aos poucos, devorado por dentro a partir de si mesmo, ou como se diz: definhando-se. Vestiu um casaco comprido que lhe vergou as costas num só esforço e pôs-se então 11


à procura da voz inoportuna. Parecia apressada e depois, quando o viu, impaciente. «Os sapatos, paizinho.» De facto, os que calçava, de trazer por casa, não resistiriam à contrariedade das ruas. Com a ajuda do casaco de chumbo, dobrou-se a custo e trocou os chinelos por armadura digna do desafio. Apresentou-se em seguida no vestíbulo, ostentando um orgulho intocável de criança e fazendo-se anunciar com um estridente «Vamos» numa encenação da autoridade vital que lhe vinha faltando. Reconheceu nas curvas e voltas do automóvel o trajecto para o centro da aldeia e, depois de o passarem, sem sinal de abrandamento, até à estação dos comboios. Quem os visse passar haveria de dar com ele carrancudo por causa das pressas, mas bem seguro na pega lateral que os engenheiros alemães inventaram para os velhos se estribarem nas estradas esburacadas. A voz perguntou «Nervoso, paizinho?» e foi quando lhe ocorreu um susto rápido mas sem motivo aparente. Abriram-lhe a porta do carro, sinal de educação, ou talvez de piedade, tal seria a sua atrapalhação com o manípulo, e fizeram-no esperar num banco corrido, sob o sol abençoado da primavera alentejana. «Boa tarde, senhor Sebastião», ouviu dirigido a si sem perceber de onde veio. Ameaçaram trazer-lhe alguém, já não faltava muito, mas que teriam ainda assim de aguardar mais um pouco. E ali ficou sentado o velho, outra vez a fazer tempo com as suas memórias confusas, chegado esse momento na vida em que não tem mais um homem para onde ir senão para trás.

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A_Patria_dos_Loucos  

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