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para ajudar vocĂŞ a descobrir que o Natal ĂŠ para a vida


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Fabinho está na igreja, no primeiro banco. Com o queixo apoiado nas mãos, ele está olhando o presépio. Um presépio grande como se montava antigamente. Um presépio que é um mundo em ponto pequeno. No centro está a gruta iluminada. Ali está o Menino Jesus, rodeado por Maria, José, o burrinho e o boi.

O olhar do Fabinho é puxado pela estrela de cauda longa e prateada. Vê o anjo, depois o paredão de pedras, depois o morro de musgo verde. Com a imaginação, ele vai subindo o morro pela estrada de areia.


Quase no fim da estrada, bem lá em cima, quase fora do presépio, ele vê um menino sentado. Está soprando uma flauta. Os carneirinhos brancos estão pastando perto. — Oi, menino, como é seu nome? — Eu sou o Davi. E você? — Eu sou o Fabinho. — Que bom. — Por que você está aí tão longe? Alguém esqueceu você? — Não esqueceu não. Estou aqui sozinho porque estou pensando. — Pensando no quê?

O Davi se levanta, ajeitando o saiote de pano grosso e cheio de remendos. Enterra os dedos no cabelo crespo e diz: — É difícil explicar. Só mesmo você vivendo o que eu vivi!

— De que jeito? — Faça de conta que você é eu... Nesse ponto o Fabinho está sonhando. E sonhando ele já é o Davi.


O Davi tem oito ou dez anos, ele nem sabe direito. Sentado sobre uma pedra no alto da colina, ele está tomando conta do seu rebanho. Um punhadinho de ovelhas com suas crias e uns dois ou três carneiros maiores. Para aquela ovelha mais gorda ele deu o nome de Raquel, o nome da tia.

E como de fato a tia Raquel parece uma ovelha calma com o seu carneirinho ao lado!

Aquela ovelhinha sapeca é Débora, a abelha. O seu cão-pastor ganhou o nome de Zeeb, o lobo.


O dia inteiro ele está fora de casa; quando volta é só de tardinha. Lá embaixo está a cidade de Belém. O Davi não sabe. Mas naqueles morros por onde ele anda já havia gente morando há mais de três mil anos. Mas ele já ouviu falar de Jerusalém, uns sete quilômetros para lá daqueles morros. O seu mundo é Belém, aqueles morros, aqueles vales onde há um pouco de terra plana.

E quando volta gosta de ver sua casinha na beira de Belém. As paredes são de adobe, o teto é de palha, algumas aberturas são portas e janelas. A mãe assa o pão, chato e redondo, num forno do lado de fora. Ele leva os animais para um cômodo, mal separado do outro, onde vive a família. Mas ele gosta de sua casa, do cantinho onde dorme sobre uns panos atirados no chão.


Davi sopra contente sua flauta. Daqui a pouco é hora de voltar para casa. Subindo a colina vem vindo outro menino tocando seu rebanho. O Zeeb levanta a cabeça e fica de orelhas atentas.

— Oi, Davi! Hoje não vou voltar para a cidade. Vou ficar com os outros ali na aguada do outro lado. Vamos? — Sabe que é bom? Podemos ficar escutando as histórias do velho Ezequiel.


Faz tempo que o velho Ezequiel já acabou suas histórias, cheias de guerras e de anjos. Enrolado numa velha manta o Davi está olhando as estrelas. Conversa com elas e conversa consigo mesmo. — É. O mundo não mudou nada desde o tempo das histórias do Ezequiel. Se a gente encontra gente boa, a maior parte mesmo parece que não presta. Parece que a maior parte só pensa em si mesmo, em ganhar dinheiro, em tirar a terra e o gadinho dos outros. Mexe-se um pouco, esticando a perna que está formigando. Puxa um pouco mais a coberta. — E eu mesmo não sou lá grande coisa. Vivo tirando vingança e ontem mesmo bati no Samuelzinho.


Quando será que vai chegar o tempo novo que também aparece nas histórias do velho Ezequiel?

Não dá para continuar pensando, porque o sono é mais forte. Mas nos sonhos, lá pelas tantas, ele está vendo anjos que cantam. Um até vem sacudi-lo.


Mas o anjo é apenas o Tobias. O Davi abre os olhos. E logo ergue as duas mãos para se proteger, porque a luz é muito forte. Ainda ouve um resto de cantos de anjos, enquanto a claridade vai se apagando, como que sumindo no céu escuro. — Vamos, Davi, vamos logo!!! — Vamos logo para onde? — Então você não escutou? — Não escutei o quê?

— O que os anjos disseram. Que o Salvador nasceu. O Salvador prometido nas histórias que o Ezequiel contou! Vamos logo, os outros já estão descendo para Belém.


Na friagem da noite é curta a caminhada. Logo os pastores, homens, rapazes e meninos, estão chegando à Belém esbranquiçada e quieta.


Só então o Davi percebe que os outros todos estão trazendo algum presente. Um punhado de tâmaras, um pouco de coalhada, um pedaço de queijo, alguns pães redondos e escuros. Ele nem pensa em voltar, porque tudo o que tem está ali no embornal de pele de carneiro, de tira cruzando o peito. Tem certeza que ali estão um pedaço de pão, a funda de pele macia, algumas pedras redondas, uns tentos de couro bem tirados, um botão de bronze que, polido, até parece ouro.

Ali está principalmente seu maior tesouro, a faquinha montada em cabo de chifre. Por enquanto não adianta pensar. Na hora ele escolhe. Como todos sabem onde procurar gente pobre que veio de longe, é fácil encontrar o Menino. É no abrigo, metade gruta, metade rancho de palha, onde ficam os animais dos viajantes, ao lado da pensão logo na entrada sul do povoado.


Quando chegam todos se afastam e deixam que o velho Ezequiel passe à frente, porque é ele quem sabe o que fazer nessas horas. O Davi aproveita e entra logo depois do velho. Uma candeia, colocada a um canto, derrama uma luz amarela que brinca com as sombras. Sobre uns restos de capim no chão está sentada uma moça. No seu colo está a criança bem enrolada em panos. Ao lado, de costas apoiadas num esteio, está sentado um homem.


Os pastores chegam sem barulho. Mas a moça e o homem estão quietos, olhando o Menino. E por isso logo erguem os olhos e, com um sorriso, cumprimentam os que chegam. Levanta-se o homem e vai apanhar a candeia para que vejam melhor a criança. O velho Ezequiel vai agachar-se bem pertinho e fica olhando. Os outros vão se ajeitando ao redor. Todos quietos.

O Davi, que de novo acabou ficando para trás, está de pé para ver alguma coisa. Há pouca coisa para ver. A criança, aninhada no colo da moça, é igual a todas as outras. A única luz que lhe dá contornos ao rostinho vem mesmo é da candeia que de vez em quando dá uns estalinhos. A moça e o homem sorriem mansamente quando os pastores vão passando de mão em mão os presentes que são postos ali no chão.


A cabecinha de Davi está funcionando. — Este Menino é o salvador esperado? Mas nas histórias do Ezequiel há tantos trovões, tantos brilhos, tantos milagres. Há reis valentes na guerra, ajudados por anjos armados de espadas de fogo. E aqui não vejo nada disso.

Parece que só nós sabemos que o Salvador chegou.


Os outros já deram seus presentes. Agora é a vez do Davi. Enfia a mão no embornal e logo encontra o botão de bronze. Disso o Menino vai gostar, pois não é menino? Chega perto e quando estende a mão, com o botão entre o polegar e o indicador, a luz da candeia faz que o botão pareça uma estrela de ouro. A moça estende a mão para receber o presente e o Davi é capaz de jurar que o menino abre de leve os olhinhos.

O Davi fica meio sem jeito e para disfarçar cata no chão um pedaço de palha que ele fica rolando entre os dedos. Responde ao sorriso da moça e se levanta porque os outros já vão saindo.


Todos estão novamente ao redor da fogueira na aguada do outro lado da colina. Ainda comentam alguma coisa, mas a maioria já está dormindo. O Davi está sentado, encostado a uma pedra grande, olhando para o lado onde o sol vai nascer. Ainda continua pensando.

— O Salvador precisa mudar o mundo. E certamente ele está contando com a gente. Mas, o que é que a gente pode fazer? A gente não tem dinheiro, não manda, não sabe. Será que o Ezequiel é capaz de explicar?


Enquanto metade pensa e metade sonha, sem perceber o Davi está revirando as coisas dentro do embornal.

O pedaço de pão é pouco para a fome dos pobres. A funda é arma pouca para tanta guerra. Os tentos de couro são pequenos e fracos para tantos maus. As pedras... como é que acabou guardando no embornal aquela palha apanhada no chão lá da gruta?


Antes de jogar fora aquela coisa inútil, o Davi a deixa um pouco na palma da mão. Ergue a mão para olhar mais de perto. Será mesmo que a palha está se transformando numa estrela, ou será apenas o sol que está nascendo? O certo é que logo o Davi se levanta e seu rosto está brilhando, ou da estrela ou do sol. E de pé, olhando por sobre os montes, ele tem certeza. Certeza completa que o mundo vai ser diferente, porque com o Menino ele pode mudar o mundo.


Nesse ponto, o pastorzinho, perdido lá no alto do morro do presépio, estende a mão onde uma estrela está brilhando.

O Fabinho estica o braço e a estrela de palha pinga na sua mão.

E ele também começa a ter certeza.


ESTRELA DE PALHA  

CONTO DE NATAL

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