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arquivo

2.0 desmemรณrias_fotogrรกficas

flavya_ mutran Kamara Kรณ Fotografias


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Ao longo de seus 74 anos, que serão comemorados em 9 de julho de 2016, o Banco da Amazônia tem exercido um papel fundamental no país por ser a principal Instituição Financeira da região e executora das políticas públicas do Governo Federal para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. No decorrer desse período, contribuímos com ações que elevam a Amazônia a patamares cada vez mais destacados no cenário nacional, além de colaborarmos para a diminuição das desigualdades regionais e para a melhoria da qualidade de vida da população que aqui vive. Nesse contexto é que, ao longo desse período, nos tornamos uma das instituições que mais realizam investimentos na área cultural da região, contribuindo para a democratização do acesso aos bens culturais, materiais e imateriais amazônicos, possibilitando que inúmeros projetos se tornem realidade. Para apoiar essas iniciativas, desde 2007 o Banco da Amazônia lança editais públicos e patrocina projetos que aliem o respeito à sustentabilidade – econômica, social ou ambiental – nos nove Estados que constituem a base territorial da Amazônia Legal. Na edição 2016 do Prêmio Banco da Amazônia de Artes Visuais, o projeto ARQUIVO 2.0 – DESMEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS, da fotógrafa Flavya Mutran foi selecionado e nos apresenta duas séries distintas: RASTER e DELETE.use. Levando-nos a criar memórias – em contraposição ao que sugere o nome da exposição –, a artista nos faz lembrar do caráter social das reminiscências, visto que são produzidas na coletividade. Memórias refl etem a cultura de um povo, suas realizações, história e identidade, daí o apoio do Banco da Amazônia a esse belo projeto, que merece ser conhecido pelos amazônidas e por todos os apreciadores das artes visuais. > > > Banco da Amazônia █


Desmemoriar o fotográfico

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> > > A memória, comumente comparada à noção geral de arquivo, é um território movediço para onde enviamos ou de onde evocamos o que sabemos de melhor e de pior sobre a vida. Mas ao contrário do que parece, não é o acúmulo incessante de conhecimentos que define o bom funcionamento da memória, e sim o fl uxo alternado entre lembranças e esquecimentos. A Era Digital, principalmente a partir do que se convencionou chamar de web 2.0, nos permitiu testar e atestar essa vocação da memória para viver entre opostos, ora construindo, ora desconstruindo informações. E no digital, assim como no campo das idéias, não há o que não possa ser feito, desfeito e talvez refeito muitas vezes. Graças ao casamento da fotografia digital com a internet, há forte tendência que nossos arquivos individuais – principalmente os fotográficos – migrem para grandes Bancos de Dados da web. Cada vez mais confiamos nossas lembranças mais caras à esses guardiões remotos, borrando ainda mais as fronteiras do espaço íntimo e da esfera pública. Foi pensando assim que em 2012 dei inicio ao projeto ARQUIVO 2.0, em busca de fotografias que considero fundamentais à memória. Interessava-me apenas o que supostamente pode ser visualizado por todos, então a web foi a minha plataforma de viagens. E o que salvar nessa empreitada? Até que ponto uma seleção, seja ela qual for, permite-nos criar um denominador comum, sinalizar padrões, estabelecer consensos? Decidi construir meu trajeto a partir do olhar alheio e fui mapeando fotografias de vários gêneros, autores e períodos, tomando-as como pontos de referência para ativar novas questões, não propriamente relacionadas aos temas que lhes deram origem. Apaguei a figura humana de fotos que se tornaram monumentos históricos através dos canais de


comunicação e da cultura de massa, em fl agrantes de guerra, fotos de viagens, moda, arquitetura e da arte contemporânea. Todas as imagens selecionadas, sem exceção, estão disponíveis em baixa resolução na web, muitas de domínio público, e nenhuma formalmente teve seu uso autorizado pelos autores. É importante salientar que ao contrário de querer apagar as fontes originais, busco ampliar o alcance das imagens de referência adotando-as como fototerritórios compartilhados. Muito mais que fotografias, considero-as como espaços de encontro. Minhas incursões fototerritoriais foram se definindo em duas frentes: DELETE.use e RASTER. A primeira série trata do visível e é claramente denotativa, embora repleta de conotações questionáveis. A segunda é uma imersão sobre a invisibilidade intraecrã, pura especulação, inversão total nos protocolos que tratam das relações entre imagem e texto digitais. DELETE.use nomeia e autodefine o duplo risco do apagamento e (re)uso de algo, que neste caso não exclui, e sim sugere novas conexões, inclusões. Sugere também um meio termo entre os extremos da memória, ativando o benefício da ficção em favor do que nos fortalece frente à realidade. Já RASTER decodifica clássicos da fotografia universal na tentativa vã de mensurar o que não tem medida. Ambas me ajudam a lidar com o fato de que nem mil palavras, sequer imagens, são capazes de valer mais que o tempo ou o espaço dos afetos. As palavras - ditas ou escritas - e imagens - vistas ou sugeridas -, do conjunto de experiências aqui reunido não deve ser encarado como uma exposição formal ‘de’ fotografias. Mais justo seria pensar que tudo isso é ‘sobre’ fotografias. Sobre as imagens que me habitam e pelas quais sempre vejo bons motivos para lembrar e esquecer. > > > > Flavya Mutran █

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DELETE.use

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Horror Plenui 1.0 > > > >

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“Uma estrada de terra. Uma árvore. Entardecer.”1 Samuel Beckett

Como lidar com a frieza aparente das máquinas, com a ordem binária somente traduzível pela razão, do cálculo duro, invariável? Como esvaziar de sentido o sensível do mundo? Há sim, há sim beleza na resolução matematizada do universo. Disso nos fala lindamente Mário Pedrosa ao apontar vasos comunicantes entre ciência e arte. Onde, cada qual a seu modo, compartilha o reino da criação, diz ele, onde seus praticantes ficariam entregues “ao prazer da pura especulação.”2 Isto é poesia. Descuidar deste domínio é descurar do que há de mais belo na mente humana: criar, compreender e dar sentido à vida. Estes são os mesmos motes que impulsionaram, desde sempre, Flavya Mutran em sua longa caminhada como alguém que ama e persegue imagens. E de tanto amá-las, de tanto persegui-las, sempre as provocou, sempre as escandiu ou colocou em cheque seus estatutos. Do ontem-memória, das interferências analógicas da superfície do acetato fílmico, onde ranhuras, escritos feitos à mão desassossegaram o fim previsível de seu significado primeiro, ao hoje-agora, no qual imagens intangíveis do universo virtual somente se tornam tangíveis através da codificação de bits e interfaces que as podem revelar. O desassossego tornou-se impulsos elétricos. Uma estrada de terra. Uma árvore. Entardecer. 1 Indicação cênica do primeiro ato da peça Esperando Godot (1952), do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). 2 PEDROSA, Mário. Ciência e Arte, Vasos comunicantes, 1960. IN: Ferreira, Glória (Org.). Crítica de Arte no Brasil: temáticas contemporâneas. - Rio de Janeiro : Funarte, 2006. Pp. 49-54.


O antigo pavor ao vazio, o horror vacui3, talvez tenha sido substituído na nossa atualidade pelo horror ao pleno, ao que poderíamos denominar de horror plenue. Ao repleto, ao transbordante, respondemos com o desejo íntimo de amainar o gigantesco caudal informacional em que estamos mergulhados. Pleno ou vazio, o humano padece com a falta de sentido. Necessitamos dos entremeios, do entre. Diante do estonteante tráfego de dados a que somos submetidos, vemos surgir Pozzo cego, Lucky mudo.4 Cegueira e mudez. A desmemória, termo fundamental para compreendermos as questões aqui propostas, decorre justamente destas condições incômodas: cegueira e mudez. Da invisibilidade e incomunicabilidade contidas nela e, por conseguinte, da pulsão incontida de visibilização e comunicabilidade além e através dela. O projeto ARQUIVO 2.0 trata justamente do atravessar deste esborramento, de como podemos lidar com uma quase-memória - algo que nunca se estabelece por completo -, ou de uma memória que tende eternamente a esvair-se: “Desmemórias fotográficas”. Desmemória aqui, é esquecimento ou impossibilidade de se construir na totalidade memória? Fechar e abrir os olhos, perceber imagens. Tocá-las, ouvílas. Decodificá-las. Testemunhá-las. Podemos senti-las no ambiente expositivo proposto pela artista. É alentador. O corpo todo vibra em busca da imagem, se locomove pelo espaço, analisa, para e escuta. A chave está na mente, no jogo de reconstrução da inteligência e da sensibilidade. Imaginação. Através destes murmúrios somos capazes de novamente formar imagens. Recompô-las, retirá-las da latência de pulsação simplesmente maquínica. Palavra por palavra, sentido por sentido, imagem por imagem: palavra-sentido-imagem. Uma estrada de terra. Uma árvore. Entardecer. 3 Horror Vacui, termo associado ao crítico italiano arte e estudioso Mario Praz, que usou-o para descrever a atmosfera sufocante e desorganização do design de interiores na era vitoriana, extensivo a manifestações artísticas em que todos os espaços vazios são exaustivamente preenchidos. 4 Personagens da peça Esperando Godot, citada acima.

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Aqui estão imagens consagradas pela história da fotografia. Assim como, aquelas que se confundem com o acervo mnemônico pessoal de cada um de nós. Vão e desvão desta arquitetura intrincada, não linear, fio de Ariadne e labirinto. Fragmentos de imagens que sugerem outras e outras. Friccionadas, postas à prova de sua verossimilhança, de sua autoralidade ou não-autoralidade, apropriação ou desapropriação, aleatoriedade ou intencionalidade de compartilhamento via Web. Todas. Todas se perdem na noite dos tempos e avançam às escuras para um futuro incerto. Não à toa a primeira imagem permanente que conhecemos nos apresenta o ponto de vista de uma janela5, uma metaimagem. Uma janela para ver e discutir sobre o próprio ato fotográfico. Ato insistentemente atualizado a cada nova volta do novelo, a cada dispositivo tecnológico que a sustenta viva, muitas vezes silente. Chega o momento em que não apenas falamos de imagens fotográficas. A fotografia está na fala, no dizer, na codificação binária de uma publicação, na textura de uma placa de offset. Basta que possamos aprender a beleza que tudo isso nos apresenta. Aprender a ver novamente. Se percebida, veremos com todos os olhos uma estrada de terra. Uma árvore. Entardecer. > > > > > > > > Armando Queiroz BH, outono de 2016 █ 5 “View from the Window at Le Gras”, a primeira fotografia reconhecida é uma imagem produzida em 1826 pelo francês Joseph Nicéphore Niépce.


METAL MASTER

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Flavya, querida > Escrever esse texto para a tua exposição mexeu com todos os meus demônios. Deixo que eles falem contigo. Têm momentos em que sinto que fizeste esse trabalho para mim, para me tirar de centro, para me fazer lembrar, para exigir de mim um esforço de trabalho imaginativo. Uma infinidade dos pensamentos que me habitam tomaram forma em tuas fotografias. Elas me fizeram desver e rever o universo fotográfico. Porque essas obras todas são fotografias, né? Mesmo quando não são. Comecei olhando a imagem aqui ao lado, cópia daquela do Boulevard du Temple feita pelo Daguerre em 1839. Ela eu conheço, primeira fotografia onde aparecem seres humanos. Aqueles dois sujeitos que ficaram parados no mesmo lugar, os minutos necessários para que suas silhuetas ficassem registradas. Aliás, muita gente também deve lembrar. Há mais de quatrocentas versões disponíveis na pesquisa do Google Imagem para ‘daguerre boulevard du temple’. Me fizeste pensar em todos que não apareceram na foto: pessoas, animais e veículos cujos deslocamentos, no ritmo da cidade do século XIX, não foram gravados na superfície sensível à luz e não podem mais ser lembrados. Desde o início, a memória da fotografia é composta de lembranças e esquecimentos. Só posso lembrar dos dois, engraxate e cliente, na esquina. Todo o resto precisa do trabalho da imaginação. É isso? Imaginei também como essa imagem chegou aqui. Alguém com certeza reproduziu o original que está no Münchner Stadtmuseum, Alemanha. Será que a reproduziu em filme? Alguém escaneou? Será que fotografaram de um livro? Como foi parar na internet? De que site baixaste ela? Quantos deslocamentos antes de ir parar no teu computador para que pudesses manipulá-la e transferi-la para a chapa de cobre. Mais um deslocamento. O que se perdeu no meio desse caminho? O que sobrevive como essência que ainda me permite ver a fotografia? Desmontas, a partir de um pensamento

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agudo e gestos poéticos, os procedimentos através dos quais as imagens se reproduzem e se deslocam na sociedade contemporânea. Aliás, o processo todo do Daguerre, há 177 anos, começava com uma plaquinha de cobre, certo? Minha vontade é de reproduzir tua imagem, ainda que saiba que alguma coisa vai se apagar. O cobre não vai ser cobre na minha fotografia, vai se parecer com ele, verdade, mas a informação vai mudar de suporte, vai tornar-se digital e pra ser vista como imagem dependerá sempre de um computador, de um aplicativo e de um dispositivo com tela. Ainda assim vai ficar parecida com tua chapa de cobre onde o pigmento preto cria uma imagem parecida com a do Daguerre. Quantas pessoas veriam isso se eu publicasse no Facebook? Não seria a mesma coisa que ver na tua exposição, mas tem uma amiga minha que mora em Paris que talvez gostasse. Não vou contar teus truques, ok? Mas percebo que há uma costura elaborada, nem sempre visível, que conecta todas as escolhas que fizeste para a exposição existir desse modo. E o melhor é que ninguém precisa ver a linha e os pontos para entrar na sala e se deixar contaminar e se instigar pelas imagens. Dá para simplesmente olhar as paisagens desertas, os lugares vazios, as luzes e sombras. Há nisso suficientes possibilidades de ver. Bastam os olhos, as lembranças de tudo que já foi visto e, talvez, uma pitada de tempo e imaginação. E se eu disser que essas chapas metálicas que dão substrato às imagens foram originalmente usadas em serviços gráficos para reproduzir e fazer circular informação? E se o pigmento preto que constrói as aparências vier de máquinas copiadoras que reproduzem livros, revistas e jornais? Muda o que se vê? Achei corajoso invadires essas imagens públicas, algumas clássicas, territórios de outros fotógrafos, baixadas da rede e recheá-las de esquecimentos. Tem uma poesia malandra nisso: roubar o que parece mais importante, fabricar desmemórias. Porque é justamente o que falta, os vazios e silêncios, que ativam minha lembrança e provocam a imaginação. Inútil o roubo, eu lembro! Mas vejo o quanto o substrato da memória é impreciso, movediço. Não lembro tudo, não tenho certeza, parece que sei, mas, sei lá! E tem, é claro, as fotos que não conheço. Para essas resta


olhar e adivinhar, preencher as lacunas dessa memória que foi impressa em fotografia com o que acho que deveria ser. Me deixou feliz ver que inventaste um laboratório de testes e que incorporas na exposição os lampejos da lembrança e da imaginação alheia. É daí que vem a poesia mais forte: do modo como essas fotografias invadem cada um, das respostas individuais que surgem no momento em que as pessoas são afetadas por elas. O relato que gravas quando as pessoas reagem às imagens te faz ver diferente? Vídeo feito de fotografia e voz, sem ter sido filmado, é vídeo? Quando as fotografias ganham o movimento e o tempo do vídeo elas deixam de ser fotografias? Sofri para enfrentar a aridez dos teus fotolivros ilegíveis. Trabalhosos, repetitivos, incômodos, refratários a qualquer interpretação. Um erro impresso em muitas páginas. Como ler um livro composto de caracteres que não formam um texto e que só podem ser lidos como uma imagem que não faz sentido? A forma corrompe a imaginação. Me veio à mente o conto A Biblioteca de Babel, do Borges, onde o narrador afirma não ser possível “combinar certos caracteres […] que a divina Biblioteca não tenha previsto e que em alguma de suas línguas secretas não encerrem um sentido terrível”1. Tenho certeza que há cópias dos teus livros nas prateleiras das infinitas galerias hexagonais. Não sei se dá para entrar nos livros sem que expliques que provocaste um acidente de tradução. Como dar-se conta de que há uma fotografia em cada volume? Que uma imagem digital muito pequena, um thumbnail, gera esse tanto de informação quando lida por um aplicativo de texto? É preciso saber que toda informação digital funda-se em códigos binários, um denominador comum, matéria prima de tudo que circula hoje: fotografias, vídeos, palavras escritas, gráficos, sons e tudo mais. Que no mundo digital tudo tem que ser traduzido para essa linguagem de ‘zeros’ e ‘uns’ e retraduzido de modo que possam ser vistos, lidos e ouvidos. Que dependemos completamente dos dispositivos e aplicativos para acessar o 1 BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo, Companhia das Letras, 2012. (P. 77)

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substrato impenetrável de que são compostos os arquivos digitais e suas memórias. Que os erros são fatais para legibilidade e compreensão. E se os tradutores falharem? Teus livros fazem com que eu me sinta frágil. A sorte é que me fazes rir. Arranjas um programa que consegue traduzir texto em voz. Se não houver disposição para a empreitada de ler o incompreensível, acionando o QR-CODE da folha de rosto, pode-se ouvi-lo. Ainda incompreensível. Na voz pré-gravada com delicado sotaque de Portugal de uma leitora máquina, a única com a paciência necessária para transformar cada caractere em som e ler o livro ilegível. Estás de sacanagem, né? Será que vale a pena buscar ou inventar um tradutor que converta voz em imagem para, por fim, poder ver o que o livro contém? Antes de ir embora pedes que eu acredite em ti e digite uma sequência interminável de um código hermético acreditando que o tradutor certo fará surgir uma imagem. Trabalho de máquina, literalmente. Ato de fé, preciso crer que nesses caracteres mora uma fotografia que preciso ver. Tradução reversa dos livros. Mas qual o volume de trabalho para formar uma imagem? Quanto tempo essa fotografia exige para aparecer? Qual fotografia vale esse trabalho e tempo? Desconfio que a urgência do contemporâneo vai dificultar a aparição. Olho de novo a fotografia do Daguerre. Inquieto. Enxergo com clareza a grande mescla promíscua de informação onde ela está imersa hoje. Percebo as fronteiras entre linguagens que atravessaste, pra lá e pra cá, demonstrando que fazem pouco sentido hoje e que, ainda assim, mapeiam o lugar das imagens. Fui deslocado para o mesmo lugar onde estou, de onde não saí, e que não é mais o mesmo. Beijo grande. > > > > > > Fernando Schmitt Porto Alegre, Março de 2016 █


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fotoLAB_ Inventário audiovisual a partir de experiências voluntárias diante de imagens da série DELETE.use, coletadas entre outubro de 2015 e março de 2016. Vídeos (duração aproximada de 10’ cada) Vozes de Célia Pereira, Claudia Paim, Cristano Sant’Anna, Daniel Sasso, Edy Kolts, Dirnei Prates, Fabio Del Re, Fernando Schmitt, Flavia Azambuja, Jacqueline Ávila, Joselito Khun, Julio Appel, Lauro Barbosa, Marcelo Gobatto, Marisa Larré, Nelton Pellenz, Rafael Gamba, Tôni Rabello e Viviane Gueller. RASTER.dump Instalação interativa - 32 etapas para visualização de imagem a partir da obra ‘The two ways of life’ (1857) de Oscar Gustav Rejlander. Participação voluntária, duração variável. Flavya Mutran e Tiago Duarte, Porto Alegre /RS (2016)


fotoLAB_

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RASTER.doc

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A série RASTER

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> > Presente em grande parte da obra de artistas atuantes na contemporaneidade, o livro de artista apresenta-se através das mais diferentes possibilidades. Conforme Paulo Silveira, o “conceito de leitura da obra de arte, caro ao nosso universo, precisará ser relativizado”, visto que “Os fundamentos estéticos, linguísticos, funcionais e estratégicos que configuraram o livro de artista stricto sensu (uma publicação) são os mesmos dos principais eixos estruturantes da arte contemporânea” (O livro de artista como assunto acadêmico, :Estúdio, Lisboa, 3, 6, 276 2012). Trabalhando com arquivos digitais e com arquivos analógicos, estes últimos logo decodificados digitalmente, Flavya Mutran refl ete sobre os processos aí envolvidos: Cada foto digital é formada por um conjunto de pixels que corresponde a uma estrutura única de ‘zeros e uns’, como também de outros caracteres e algoritmos em combinações decimais, hexadecimais e octadecimais da imagem. Mesmo que os arquivos sejam reconfigurados, reduzidos, ampliados, alterados em cor ou matiz, ainda assim seus códigos estruturais guardam todas as suas características originárias, e dependendo do programa que será usado para sua interpretação, passam a ter significados e correspondências próprias, passíveis de leituras, ainda que esta leitura seja inteligível apenas por máquinas. (Escrituras fotográficas no futuro analógico do pretérito digital. (In: 22º Encontro da ANPAP, Belém: UFPA, 2013, 1458) 1 Extrato de apresentação feita no VII Congresso Internacional CSO’2016 Criadores Sobre outras Obras, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em Março de 2016-Portugal.


É justamente pensando nesta codificação de imagens em caracteres – sobretudo os códigos binários que são a base de toda informação digital, que Flavya concebe a série RASTER. A célebre imagem Vista da janela em Le Gras, de Joseph Nicéphore Niépce (1826), foi ponto de partida para a criação do primeiro livro da série que reúne 202 páginas, impressas em impressora caseira (sem edição definida), que são geradas a partir da leitura digital da imagem, sem no entanto que seja oferecida a visualidade desta como imagem impressa. A artista coloca maiores informações sobre sua fonte primeira sob forma de um QR-CODE que pode ser consultado via web. Como procedimento de base, Mutran abriu a imagem em arquivo de extensão jpg em programas de leitura de texto gerando, assim, um arquivo de caracteres de leitura incompreensível, que lembra os sinais de corrupção de arquivos por vírus ou outras anomalias. Depois, formata estas informações em páginas assemelhadas às de livros tradicionais que são apresentadas encadernadas e também em folhas soltas. Mutran desdobra esta imagem primeira em outras combinações gráficas, corrompendo-a novamente sob novos aspectos e formas. Uma caixa arquivo com cartões tipo fichário integra um possível dispositivo onde, supostamente, a digitalização destes códigos (sem erros) poderia recriar virtualmente a imagem original. Assim, esta série, consagrada integralmente à imagem, em nenhum momento oferece a visualização da mesma nos objetos que dela resultam. > > Maristela Salvatori █

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RASTER.doc

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fototerritório de Walker Evans, série DELETE.use (2014) >capa fototerritorio de Robert Doisneau, série DELETE.use (2015)

>p.13

fototerritório de Eugéne Atget, série DELETE.use (2015)

>p.14

>p.07

METAL MASTERS: Diane Arbus (N/DATA), da série DELETE.use (2015)

fototerritório de Marc Riboud, série DELETE.use (2015) fototerritório de Lewis Hine, série DELETE.use (2015) fototerritório de Charles C. Ebbets, série DELETE.use >p.15 (2016)

>p.26 METAL MASTERS: Sebastião Salgado (1985), da série DELETE.use (2015)

fototerritório de Boris Kossoy, série DELETE.use (2015)

METAL MASTERS: Jousef Koudelka (1973), da série DELETE.use

fototerritório de Malcom Browne, série DELETE.use (2016) >p.18

fototerritório de Robert Frank, série DELETE.use (2015)

METAL MASTERS: Nelifur Demir (2015), da série DELETE.use >p.28

>p.17

>p.10

>p.27

fototerritório de José Medeiros, série DELETE.use (2016)

fototerritório de Eddie Adams, série DELETE.use (2016)

>p.11

>p.25

>p.15 fototerritório de Elza Lima, série DELETE.use (2014)

>p.08/09

METAL MASTERS: Miguel Chikaoka (1987), da série DELETE.use

fototerritório de André Kertész, série DELETE.use (2015)

fototerritório de Henri Cartier-Bresson, série DELETE.use (2014)

>p.06

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>p.24

>p.12

>guarda

>p.03

METAL MASTERS: Alexander Gardner (1863), da série DELETE.use

fototerritório de Helmut Newton, série DELETE.use (201)

>p.28 METAL MASTERS: Robert Capa (1936), da série DELETE.use

fototerritório de Nick Ut, série DELETE.use (2015) >p.19

>p.28


METAL MASTERS: Alberto Bitar (2013), da série DELETE.use >p.28 METAL MASTERS: Paulo Santos (1990), da série DELETE.use

fotoLAB_01 – vídeo, duração 10’32”, in URL https://youtu.be/OA95VhaAy3Y Roteiro e edição: Flavya Mutran Vozes de: Jacqueline Ávila, Tôni Rabello, >p.40/41 Marisa Larré, Viviane Gueller, Rafael Gamba, Edy Kolts, Nelton Pellenz, Célia Pereira, Dirnei Prates, Fernando Schmitt, Fabio Del Re, Marcelo Gobatto, Claudia Paim. Porto Alegre, Março de 2016.

>p.30 METAL MASTERS: Cindy Sherman (N/data), da série DELETE.use >p.31 Boulevard du Temple, de Louis Jacques Mandé Daguerre (1839) in URL https://upload. wikimedia.org/wikipedia/ >p.33 commons/d/d3/Boulevard_du_ Temple_by_Daguerre.jpg file00, da série DELETE.use. Impressão sobre placa de circuito elétrico. Flavya Mutran, Porto Alegre/RS >p.37 (2014) fotoLAB_02 - vídeo - duração 07’32” in URL https://youtu.be/2eD7AEMsvkA Roteiro e edição: Flavya >p.39 Mutran Vozes de: Cristiano Sant’Anna, Daniel Sasso. Dirnei Prates, Célia Pereira, Joselito Kuhn, Lauro Barbosa, Rafael Gamba, Cristiano Sant Anna, Julio Appel, Tôni Rabello, Claudia Paim e Fernando Schmitt. Porto Alegre, Março de 2016.

>p.42/43

RASTER.dump, trecho de instalação interativa. Flavya Mutran e Tiago Duarte. Porto Alegre/RS (2016)

Vista do casal pelo teto (1980-2013) RASTER.doc - Descodificação algorítmica de extensão .jpg para .txt >p.46 Flavya Mutran, Porto Alegre/RS (2013/2016) Folha de rosto com QR-CODE com audiodescrição do fotolivro Anjo (1872 – 2013) da série RASTER.doc. Descodificação algorítmica de extensão .jpg para .txt - Flavya Mutran, Porto Alegre/RS >p.47 (2013/2016) RASTER.doc - Flavya Mutran, Porto Alegre/ RS (2013/2016) >p.48/49 Impressão a laser em papel color plus 90g, costurado em capa e verso em couro sintético em clicheria manual prata. Formato 13,50 x 21,50 cm.

>p.50/51

RASTER.doc Flavya Mutran, Porto Alegre/RS (2013/2016) fototerritório de Elliott Erwitt, série DELETE.use (2014)

>guarda 2 fototerritório de August Sander, série DELETE.use (2015) > > >contracapa > █

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Flavya Mutran

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> > > > > > É paraense e atua no campo da arte e comunicação desde 1989. Mestre em Artes Visuais pelo PPGAVI do IA-UFRGS (Porto Alegre/RS), ARQUIVO 2.0 é sua pesquisa de doutorado com estágio no Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa/PT (PDSE, BOLSISTA CAPES), com ênfase sobre compartilhamentos de fotografias via web. Participa de exposições no Brasil e no exterior desde os anos 1990, tendo recebido prêmios e com obras nos acervos da Coleção Pirelli/MASP (São Paulo/SP); na Coleção Joaquim Paiva em comodato no MAM-RJ (Rio de Janeiro/RJ); na coleção de Fotografia Contemporânea Paraense do Museu de Arte Contemporânea do Pará (Belém/PA); no MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul e MAC-RS (Porto Alegre/RS). Para saber mais acesse www.arquivodoispontozero.com.br Contatos – fl avyamutran@delete-use.photos Homepage – www.fl avyamutran.com.br


Diretoria do Banco da Amazônia Marivaldo Gonçalves de Melo Presidente Antonio Carlos de Lima Borges Diretor de Infraestrutura de Negócio – DINEG Luiz Otávio Monteiro Maciel Júnior Diretor de Controle e Risco – DICOR Marco Aurelio de Queiroz Campos Diretor de Análise e Reestruturação – DIARE Wilson Evaristo Diretor Comercial e de Distribuição – DICOM

arquivo 2.0 fl avya mutran > >

Coordenação Editorial ▫ Alberto Bitar Textos ▫ Armando Queiroz ▫ Fernando Schmitt ▫ Flavya Mutran ▫ Maristela Salvatori Edição ▫ Alberto Bitar e Flavya Mutran Projeto Gráfico ▫ Márcio Alvarenga Assessoria de Comunicação ▫ Elianna Homobono Este livro foi impresso em papel Alta Alvura 150g/m² pela gráfica Pallotti 55

Agradecimentos > >

Alberto Bitar ▪ Alexandre Santos ▪ Armando Queiroz ▪ Associação Fotoativa ▪ Angela Venturella ▪ Carlos Guerreiro ▪ Célia Pereira (Rio Grande PhotoFluxo) ▪ Celso Eluan (Sol Informática) ▪ Claudia Paim (Espaço N) ▪ Cristiano Sant’Anna ▪ Daniel Sasso ▪ Dirnei Prates ▪ Edy Kolts ▪ Elaine Tedesco ▪ Elianna Homobono ▪ Elza Lima ▪ Emanuel Franco ▪ Fabio Del Re ▪ Fatinha Silva ▪ Fernando Schmitt ▪ Flavia Azambuja ▪ Jacqueline Ávila ▪ João Paulo Queiroz (CIEBA - FBAUL) ▪ Joselito Kuhn ▪ Julio Appel ▪ Ionaldo Rodrigues e Irene Almeida (Café Fotográfico) ▪ Kamara-Kó Galeria ▪ Lauro Barbosa ▪ Makikó Akao ▪ Marcelo Gobatto (ILA – FURG) ▪ Marcia Souza ▪ Márcio Alvarenga ▪ Marcus Mello ▪ Maria Tereza e Valmyr Mattos Pereira ▪ Maria Amélia Bulhões ▪ Marriba Mutran ▪ Marisa Larré ▪ Maristela Salvatori (orientação da pesquisa) ▪ Miguel Chikaoka ▪ Nelton Pellenz ▪ Orivaldo Rodrigues ▪ Orlando Maneschy ▪ Paula Almozara ▪ Pedro Rodrigues ▪ Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS ▪ Rafael Gamba ▪ Rafael Duarte ▪ Roseli Nery ▪ Teresa Siza ▪ Tiago Duarte ▪ Tôni Rabello ▪ Vânia Leal ▪ Viviane Gueller e Walda Marques.


Realização > > > >

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Apoio > > > >

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) M993a Mutran, Flavya [1968] Arquivo 2.0 – Desmemórias fotográficas/ Flavya Mutran – Belém, Kamara Kó Fotografias, 2016. 56 p. Textos: Flavya Mutran, Fernando Schmitt, Maristela Salvatori e Armando Queiroz. ISBN: 978-85-62035-09-8 1. Fotografia – Pará. 2. Fotografia – Apropriação. 3. Fotografia artística I. Título. II. Schmitt, Fernando. III. Salvatori, Maristela. IV. Queiroz, Armando. CDD – 779


Profile for Flavya Mutran

AQRUIVO 2.0 - DES_MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS  

catálogo da mostra Arquivo 2.0 (Espaço Cultural Banco da Amazônia, Belém/PA) de Flavya Mutran. Kamara Kó Fotografias ed.. (2016)

AQRUIVO 2.0 - DES_MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS  

catálogo da mostra Arquivo 2.0 (Espaço Cultural Banco da Amazônia, Belém/PA) de Flavya Mutran. Kamara Kó Fotografias ed.. (2016)

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