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Texto: AmĂŠlia Domingues de Castro


A Educação pela pedra

João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, frequentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de poética, sua carnadura concreta; a de economia, seu adensar-se compacta: lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma.


Numa antiga acepção, o termo ensinar era entendido como assinalar, mostrar, enunciar... O processo de ensino poderia ser examinado como especial modalidade de comunicação e informação? Exemplo da televisão: noticiário X “vídeoaula” ◦ Intenção de produzir aprendizagem X intenção de aprender...


A primeira peculiaridade do processo de ensinar seria a intencionalidade, ou seja, pretender ajudar alguém a aprender. Não corresponde a uma certeza, mas a um esforço; Se refere sempre a quem recebe a comunicação didática.


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“de dentro para fora” – se aprende sem que ninguém tenha ensinado. As descobertas das crianças, na interação com o mundo físico e social, de propriedades dos objetos e características do comportamento humano e que contribuem para a construção da inteligência; Os adultos continuam aprendendo com as experiências; Autodidatas – sujeitos que organizam seu processo de aprendizagem. Papel de “ensinante e aprendiz”.


Ensinantes – pessoas que assumem, em alguma circunstância, a deliberação de ensinar. Profissionalmente – o professor. Longo caminho entre ensinar e aprender.


Didática espontânea ou difusa – responsáveis pelas crianças passam a elaborar modos de agir e falar especificamente destinados a facilitar-lhes o domínio de hábitos, habilidades e conhecimentos considerados importantes para o convívio social. O ensino se dá por participação, por experiências compartilhadas ou por meio de atos que convidam à imitação.


Didática espontânea ou difusa ◦ Lista de procedimentos sobre o que pode ou não “dar certo” ◦ Infelizmente, por vezes, este processo se desdobra numa cadeia de condicionamentos positivos ou negativos, atuando por meio de prêmios e castigos, sem relação com o que se pretende que a criança aprenda, redundado numa verdadeira patologia didática.


Didática como campo de pesquisa e conhecimentos sobre o Ensino (Comenius) ◦ Busca garantir a eficiência do processo de ensino; ◦ Principal território: escola; ◦ Assume aspecto formal; ◦ Situações didáticas são organizadas, planejadas, deliberadas, escalonadas em etapas e subdivididas conforme as características dos produtos do ensino. São de “fora para dentro” ◦ Ideal da Didática - todo ensino produza uma transformação no aprendiz: melhor, mais capaz, mais sábio.


◦ Os processos de ensino estão ligados à Educação; ◦ Ensino educativo – mesmo referencial proposto no passado; ◦ Situações didáticas em grupos marginais? ◦ Não, devido à estreita relação entre os procedimentos de ensino com o processo de socialização do educando, o nível ético que permeia seus propósitos e o respeito à dignidade humana. ◦ Ensino educativo – fator de desenvolvimento moral, intelectual e/ou físico.


◦ Ensino educativo – qualidade didática (objeto, conversa, discurso, texto) ◦ Passa a ter dois componentes que formam um só requisito: intenção educacional ;


Instrução – não tem um significado preciso: ◦ Homens instruídos – cultos – saberes, atitudes, valores culturais; ◦ Instrutor - destreza, habilidades ou hábitos; ◦ Remete ainda à idéia de instrução como transmissão de saberes. ◦ Questão profissional (instrutor X professor) – educação corporativa.


Conhecer? ◦ Uso comum, banalizado ◦ Reconhecimento - Indicar que a memória de alguém registrou uma informação (uma pessoa, música, situação); ◦ Modos sarcástico (“eu te conheço bem”, “conheço suas intenções”)


Conhecimentos Escolares – Também existe ambiguidade: ◦ Reconhecer superficial: indicativo de situações memorizadas; ◦ Conhecer racional: fruto de experiência, reflexão, envolve ampliação da capacidade de pensar daquele que o possui.


◦ Conhecimento como produto do ato de conhecer: resulta sua designação como um saber especial que agrega a condição de veracidade, a exigência racional e elementos de prova.


Passo decisivo – Piaget – Construtivismo integral (epistemológico e psicológico) – dupla face do conhecimento: ◦ Primeira (epistemológica): processo de construção e reconstrução do objeto do conhecimento devido às possibilidades e instrumentos intelectuais de que dispõe o sujeito (signos); ◦ Segunda (psicológica): as próprias coordenações internas que se mobilizam para tornar possível o ato de conhecer e que, por esse intercâmbio com os desafios cognitivos que enfrenta, desenvolve. Diferencia e integra seus diferentes aspectos


“O conhecimento escolar não se confunde com informações ou conteúdos programáticos, mas implica no próprio processo de sua construção pelos alunos. Essa conotação ultrapassa os limites do que se entende usualmente por instrução e releva do esforço intelectual para sua conquista, já que cada aquisição envolve o funcionamento da inteligência e, assim fazendo, a fortalece e a aperfeiçoa, ampliando suas possibilidades de conhecer.


Entendendo-se conteúdos como aquisições por meio de aprendizagem, que no caso ideal deveriam tornar-se permanentes, observa-se que nem sempre esse resultado é alcançado? Será que nada resta na mente do aprendiz quando esquece o que aprendeu? A autora reconhece que as questões ficam na dependência de muitos e variados fatores...


Entretanto, ela aponta como necessário admitir que a construção de “instrumentos intelectuais” que permitam aprender e expandir tais aquisições tornando-as elementos disponiveis para o pensamento e a ação do sujeito é a meta maior do ensino educativo. A escola espera que pelo menos essas ferramentas, para continuar a aprender, permaneçam quando a memória não consegue reter boa parte do aprendido na escola.


Quando as situações didáticas não dão espaço para que o sujeito construa sua inteligência, fixam-se no sentido mais restrito da atividade do ensino, ignorando seu potencial para desenvolver as condições de aprendizagens futuras. O ensinar deve transformar-se em incentivar, provocar, desafiar o interlocutor a pensar sobre algo.


Segundo a autora, “talvez o ponto de partida da Didática seja inacessível, pois não podemos saber em que momento da vida de cada um de nós sofremos ou inventamos procedimentos didáticos.”


O objeto da Didática, no caso o Ensino, durante a evolução da disciplina sofreu certas flutuações, ora sinalizando excessivamente seu aspecto pragmático e ordenador (o “como ensinar” preso à designações metodológicas), ora refugiando-se em reflexões de caráter genérico e abstrato.


Curiosamente, a maior parte dos fracassos é atribuída ao aluno: “não tem maturidade”, “sua inteligência é limitada”, “faltam-lhe as informações anteriores”, enquanto os sucessos são atribuídos ao professor ou ao método.


Conceituando Ensino ◦ De fora para dentro – entrega de bens culturais aos alunos, pela sociedade e seus representantes: os educadores. Corresponde à ideia de “passar”, “transmitir” algo, doar, entregar, “dar aula”; ◦ De dentro pra fora – pouca dependência dos referenciais externos, remetendo ao paltonirmo e a ideia socrática da maiêutica, que assemelha a função docente à da parteira, pois ajuda a dar à luz as idéias.


Conceituando Ensino ◦ Uma terceira posição: epistemologia interacionista e construtivista de Piaget explica o processo por uma construção endógena (interna) de instrumentos para conhecer e a possibilidade do indivíduo, reagindo às perturbações do meio ou a suas inquietações internas, assimilar o “ensinado”.


Conceituando Ensino ◦ Outras oposições: o natural e o artificial:  Naturalismo (Rousseau)  “natural”, espontâneo, prazeroso, fácil e desejável;  Sequência de desenvolvimento indicada pela biopsicologia;  ensino/aprendizagem participativo e automatizado;  aprender fazendo;


Conceituando Ensino

◦ Outras oposições: o natural e o artificial:  Artificialismo  desconfiança do espontâneo;  exigência do ensinante de um esforço de organização metodológica, parte lógica, parte psicológica, que conduz o processo sem permitir desvios.  Ensinar semelhante ao domesticar, treinar, condicionar;  Processo apoiado em exercícios, repetições e memorização  Reforço por prêmios e sanções;  A transmissão prevalece sobre a participação ativa;


Conceituando Ensino

◦ Outras oposições: o natural e o artificial:  Terceira posição:  Possível harmonia entre o prazer e o esforço;  Interesse e esforço (Dewey);  Reconhecimento que a autêntica aprendizagem exige atividades de conquista motivada do conhecimento;  Ao naturalismo – acrescentam-se atitudes consciente diante das relações homemnatureza;  Incorpora-se o artificial, condicionando-o como função amplificadora do potencial humano (tecnologias)


Conceituando Ensino ◦ Outras oposições: pressão social X excesso de liberdade  Pressão social sobre os currículos e programas escolares – representando a cultura do grupo dominante e da época (Poderia o ensino determinar sobre o que deverá pensar o indivíduo e quais os critérios de seus julgamentos?)  Desenvolvimento pessoal de aptidões e promoção do individualismo, da autonomia, paralelamente ao liberalismo político.


Conceituando Ensino

◦ Outras oposições: pressão social X excesso de liberdade  Terceira posição – democracia pedagógica – combate os excessos da pressão social, mas também os excessos de liberdade considerando que o poder de decisão das crianças não é inato, mas evolui, é construído, na medidad em que dispoe de informações amplas e honestas e de estímulo ao poder de reflexão que lhe permita assimilá-las e avaliálas.  O ensino desdobra no âmbito social seu duplo compromisso: com o conhecimento e o desenvolvimento.


DidaticaSumare  

Didatica Sumare

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