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ANO 5 | NUMERO 13 | FEVEREIRO DE 2009

Azeite

Um tempero para a boa saúde

Transplantes

Como funciona a captação de órgãos

Parto

Hospital oferece programa especial para gestantes bolivianas

A fórmula do amor O que sentimos quando estamos apaixonados.


EDITORIAL | SAÚDE SÃO PAULO

Amor, sentimentos

e um toque feminino Esta edição da Saúde São Paulo chega com um quê de romantismo, sentimentos e um toque feminino. Tudo começa com a nossa matéria de capa. Neste número, falamos sobre o que sentimos quando estamos apaixonados, quais alterações ocorrem em nosso organismo e também contamos um pouco porque o coração foi eleito o protagonista quando o assunto são as relações amorosas. Mas é justamente isso que revela um sentimento do ser humano: a sensação de posse. A repórter Roberta Rodrigues traz uma reportagem que explica quando o ciúmes foge do controle e se torna amor doentio. Como em março é comemorado o Dia Internacional da mulher, a revista também traz dois textos sobre elas. Um deles mostra o serviço oferecido pelo Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, que realiza 20% de seus partos em imigrantes bolivianas que vivem e trabalham em situação ilegal em São Paulo. Já o outro, traça o perfil de Sueli Alves, uma mulher que com muita coragem e determinação assumiu um cargo dominado pelos homens: o de motorista de ambulância. Vanderlei França Coordenador de Comunicação

Expediente Saúde SP é uma publicação produzida pela Assessoria de Comunicação Social da Secretaria de Estado da Saúde Coordenador de Comunicação: Vanderlei França Coordenadora de Imprensa: Vanessa Silva Pinto Editor: Denilson Oliveira (Mtb 044747) Coordenador de Marketing: Denis Zanini Lima

Direção de Arte: Flávio Hypólito e Gustavo Palladini Fotos: Paulo Alexandrowitsch / Denilson Oliveira / Willian Pereira / Photos.com / IO Redação: Arthur Chioramital, Danusa Etcheverria, Fernanda Mizzin, Flavia Queiroz, Pâmela Kometani, Roberta Rodrigues e Thais Mirotti Contatos: (11) 3066-8712 - dloliveira@saude.sp.gov.br CTP, impressão e acabamento: Imprensa Oficial


Fevereiro/Março - 2009

2

Editorial

4

Entrevista: José Sanchez de Aquino

8

Por dentro da Secretaria: Hospital Brigadeiro

10

Por dentro da Secretaria: Hospital Regional Vale do Ribeira

12

Terceira idade

14

Transplantes

17

Tire suas dúvidasBem-estar

18

Comportamento

20

Matéria de capa: A lógica da paixão

25

Recomendo

26

Imigração

30

Nomes da saúde: Emílio Ribas

31

Evento: Agita São Paulo

32

Alimentação

34

Perfil

36

Saúde em dois tempos: Mandaqui

37

10 perguntas

38

Artigo


 | Fevereiro de 2009

Paulo Alexandrowitsch/SES - SP

ENTREVISTA | JOSÉ SANCHEZ DE AQUINO


O responsável pela

saúde tricolor José Sanchez de Aquino, chefe da equipe médica do São Paulo, conta como é trabalhar num dos maiores clubes do Brasil e fala da importância da medicina no futebol Denilson Oliveira

H

á 23 anos anos no São Paulo, José Sanches de Aquino, chefe da equipe médica do clube, só tem o que comemorar: além dos títulos do time, ele lidera uma das equipes médicas voltadas para o futebol mais respeitadas do Brasil. Formado em clínica médica, Aquino chegou ao São Paulo por acaso. No começo, ele confessa que não tinha muitas pretensões dentro do clube. “Mas como vi que as coisas iam muito bem, resolvi me especializar em medicina esportiva e me firmei na área”, conta. Na época, os profissionais de saúde não eram figuras fáceis nas grandes equipes do Brasil e cursos na área acadêmica também eram raros. Hoje, ele garante que o Brasil está entre as maiores potencias na medicina esportiva. “Não devemos nada para os grandes times da Europa. Tanto que muitos atletas vem se recuperar aqui”, diz. São-paulino desde a infância,

com direito a levar na carteira uma foto usando o uniforme do time com 1 ano de idade, ele confessa que é difícil separar o lado torcedor do lado profissional. “Fico no banco e me controlo a todo tempo”, brinca. Nessa entrevista, Aquino fala como é trabalhar com os jogadores, sobre os avanços da medicina no esporte e dos problemas e lesões que os atletas enfrentam hoje em dia.

Saúde São Paulo - Como o senhor foi parar na equipe médica do São Paulo? Aquino - Minha formação é em clínica. Mas vi que depois do terceiro ano de formado apareceu a oportunidade de trabalhar aqui no São Paulo. Vim meio despretensioso, porque realmente os vencimentos não eram muito bons e eu não tinha certeza se queria continuar nessa área. Mas acabou dando certo, e eu fiquei ainda algum tempo para ter uma definição. Naquela época, muitos médicos trabalhavam em clubes, mas tinham outras formações, como pediatria e até ginecologia. Não achava muito certo. Quando senti que a coisa estava realmente bem,

“equipe médica é como o time. NÃO DÁ CERTO se vive mudando ”

procurei fazer uma especialização na área esportiva e em 1990 fiz um curso na Escola Paulista de Medicina.

Saúde São Paulo - E naquela época como era a medicina no futebol? Como os clubes viam esse assunto? Aquino - Eu tive o privilégio de trabalhar em um clube como o São Paulo, que sempre deu muita importância. Antes de eu vir para cá, o time já tinha uma preocupação de profissionalizar a área, que acabou acontecendo com o decorrer dos anos. O Marco Aurélio Cunha, que na época era o médico responsável pelo profissional, montou um centro de fisiologia, que foi sendo ampliando e aos poucos tornou-se referência entre os grandes clubes.

Saúde São Paulo - E como é trabalhar no São Paulo? Aquino - É ótimo trabalhar no clube. Aqui tenho todas as condições de exercer um bom trabalho. Além disso conto com uma equipe de profissionais competentíssimos e todos se beneficiam com essa troca de experiência.

Saúde São Paulo - O departamento médico do clube é o maior do Brasil? Aquino - Em número de profissionais acredito que não somos a maior equipe do Brasil. Isso tudo é muito relativo. Minha dedicação é Fevereiro de 2009 | 


Fotos: Paulo Alexandrowitsch/SES - SP

exclusiva ao tricolor. Tem clube com quatro, seis médicos, mas que ficam pouco. No São Paulo, até porque a exigência é muito grande, somos dois e suprimos isso bem.

Saúde São Paulo - Como é feito o acompanhamento da saúde de um atleta profissional? Aquino - Quando recebemos o atleta, seja ele vindo de fora ou do amador, fazemos uma avaliação inicial, que inclui consultas e uma série de exames. Feito isso, temos um histórico do que o atleta é em termos clínicos e médicos. A partir de então é feito um acompanhamento diário, uma vigilância total. Eles ficam completamente na

dependência da equipe no aspecto médico. Tudo que acontece nós sabemos. Por algumas restrições que o dopping impõe eles tem uma ordem de não procurar nenhum serviço médico, exceto em situação de emergência, e não administrar nenhum tipo de medicamento sem o nosso conhecimento. E nós ficamos “full time” a disposição deles. Se precisarem de nós às 4 da manhã, vamos atende-los.

Saúde São Paulo - Um jogador de futebol sabe cuidar bem de sua saúde? Aquino - Hoje sim. Um jogador se preocupa muito com isso. Claro que depende das orientações que ele recebe dentro do clube. Os atletas

“Não adianta operar o joelho e largar o atleta, por isso muitos voltam para o brasil”  | Fevereiro de 2009

da atualidade estão muito mais conscientes em relação aos do passado. A única coisa que ainda tem um pouco de dificuldade e que lutamos para mudar, é o hábito alimentar.

Saúde São Paulo - Qual é o desafio da equipe médica do SPFC em 2009? Aquino - Não existe nenhum desafio. Nosso objetivo é deixar os atletas em condições de ser escalado e bem utilizado. A palavra de ordem em nosso trabalho é prevenção. Procuramos ter o menor número de atletas no departamento médico durante o ano. Quanto menos tempo eles ficam no departamento medico, mais estamos colaborando com o atleta e o treinador.

Saúde São Paulo - Por que cada vez vemos mais jogadores com contusões? Aquino - Algumas lesões graves, que antigamente eram muito mais raras, hoje acontecem mais. É uma coisa simples de se analisar: o campo con-


tinua do mesmo tamanho e as regras são as mesmas, só que se formos ver a capacidade física de um atleta em 1980 e hoje, é absurda a diferença. Isso significa que os espaços se reduziram para quem joga. Significa que quando alguém pega a bola em um curto espaço de tempo, logo virão dois em cima dele. Ou seja: aumentou o contato, o toque, a velocidade, a força e a exigência. Mas na verdade, quem continua jogando bola é o ser humano, que apesar de bem preparado, tem algumas limitações que são impossíveis de se mudar. Então começam a acontecer problemas articulares e de traumas com mais frequência. Antigamente, eram raros os traumas da cabeça e da face. Hoje em dia, a coisa mais comum é ver atleta com nariz quebrado, cabeças com corte, atleta sair do campo e ir direto para o hospital. A disputa está muito mais vigorosa.

Saúde São Paulo - E por que o centro de treinamento do São Paulo é procurado por atletas em recuperação? Aquino - Talvez pela propaganda boca a boca entre eles. Mas o fato de sermos pioneiros nisso, fez surgir centros muito bem equipados e com profissionais muito bons, como Palmeiras, Corinthians e Santos. Nós nos orgulhamos que termos dado o ponta pé inicial no sentido dos clubes formarem bons departamentos médicos.

Saúde São Paulo - E fora do Brasil? Aquino - Lá fora, lamentavelmente, os clubes não tem essa preocupação. Tanto que o motivo dos atletas procurarem nosso CT é por isso. Não que não tenham equipamento, mas não tem profissionais da medicina esportiva. A reabilitação deixa muito a desejar na Europa. Não adianta operar o joelho de um jogador e largar ele. Por isso que muitos jogadores voltam para o Brasil.

de alguns profissionais do Instituto Dante Pazzanese, da Secretaria.

Saúde São Paulo - Quem é o atleta mais bem preparado no futebol? Aquino - Há tantos. No São Paulo, a maioria está bem preparada. Também não posso falar de gente que não está aqui. O Junior César, que veio do Fluminense, chegou ao futebol paulista com um preparo absurdo. Hoje, a medicina no futebol se profissionalizou muito.

Saúde São Paulo - No início da década, houve vários casos de morte súbita em campo. Como o senhor vê isso? Aquino - Desde os anos 80, quando comecei a trabalhar com futebol, tenho uma verdadeira paranóia com esse assunto. Nunca se deu muita importância. Mas de um anos para cá, sim. Sempre houve um discurso de que jogador de futebol não sofre do coração. É difícil convencer as pessoas que um rapaz de 19 anos possa morrer de um ataque cardíaco. Mas se não for feita uma avaliação criteriosa ele pode estar em risco sem saber. Já cheguei a receber atletas de 30 anos que nunca tinha feito um teste ergométrico. Ou seja, eles se sujeitavam a ter algo dentro de campo. No São Paulo, fazemos avaliações cardiológicas desde o amador. Para isso, contamos com a ajuda

Saúde São Paulo - O senhor acredita na recuperação do Ronaldo? Aquino - Potencial, ele tem. A cirurgia feita no joelho dele foi maravilhosa. No Corinthians, o Ronaldo está na mão de uma equipe competentíssima. Ele é um cara sensacional também. Acho que dá e ele já provou em 2002. Ninguém tem motivo para duvidar. Mas tudo depende da motivação dele. Torço por ele.

Saúde São Paulo - O senhor sempre foi são paulino? Aquino - Sempre. Muita gente me pergunta isso e acha que sou demagogo. Até carrego na carteira uma foto minha com 1 ano e usando o uniforme do São Paulo. Foi um presente de minha mãe.

Saúde São Paulo - E outros clubes brasileiros, estão tão bem preparados nessa área como os paulistas? Aquino - Não conheço muito bem os outros clubes. Mas ouço falar na estrutura do Internacional e do Grêmio. O Cruzeiro também tem boa estrutura há tempos. Mas outros clubes mandaram uma dezena de médicos embora em poucos anos. Isso é como a equipe em campo. Nunca vão acertar se vivem mudando. E isso não acontece no São Paulo. Fevereiro de 2009 | 


MATÉRIA DE CAPA |

SAÚDE SÃO PAULO

Alterações no organismo,

químicas e hormônios, c

O que muda em no

estamos ap

20 | Fevereiro de 2009


Denilson Oliveira/SES - SP

, produção de substâncias

coração mais acelerado.

osso corpo quando

paixonados

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Arthur Chioramital

E

ntão você está lá, tocando a vida sem maiores preocupações e sem mais nem menos alguém chama sua atenção de forma inesperada. O primeiro órgão de nosso corpo a sentir essa mudança é o o coração. E não dá mesmo para subestimar o poder de um coração apaixonado. Bem, o problema é que esse personagem que recebe tanto destaque nas histórias de amor não é o grande protagonista em todas as sensações que inebriam amantes pelo mundo a fora. Se você quer entender como o amor verdadeiramente acontece é melhor voltar sua atenção para outra parte do corpo. Abandone agora mesmo o lado esquerdo do peito e rume ao cérebro. A adrenalina, a noradrenalina, a feniletilamina e a oxitocina, são os neurotransmissores responsáveis, normalmente, por provocar sensações como ansiedade e atração sexual, além de colocar o coração para bater mais rápido. Detalhe: no cérebro de uma pessoa apaixonada elas estão presentes em concentrações muito maiores do que seria normal. São elas que trabalham duro para que toda aquela euforia, empolgação e desejo (inclua nessa lista os possíveis ataques de pânico) tomem conta dos pombinhos. De acordo com a psiquiatra Márcia Regina Urias, o amor causa transformações fisiológicas e comportamentais tão grandes que, em muitos pontos, se aproxima dos distúrbios e doenças mentais. “Algumas teorias apontam que o amor entre duas pessoas nada mais é do que o encontro entre suas neuroses. De um lado temos, por exemplo, alguém que precisa ser cuidado e do outro alguém com uma inclinação patológica para cuidar de alguém. Porém, nada disso é gratuito. Para cada suspiro de admiração ou crise de ciúmes há a ação de uma substância no nosso cérebro que influencia o nosso comportamento. Muitas delas em concentrações e combinações muito semelhantes àquelas encontradas 22 | Fevereiro de 2009

em quadros de desequilíbrio.” Ela não é a única a pensar assim. Pesquisas realizadas pela Universidade de Pisa, na Itália, revelaram que a paixão e a psicose obsessivo-compulsiva apresentam estados cerebrais semelhantes. Ambas são caracterizadas, por exemplo, por níveis muito baixos de serotonina no cérebro, o que compromete nossa capacidade de lidar com situações estressantes. Ou seja, o amor é algo tão ligado ao cérebro que pode até ser considerado como uma espécie de “distúrbio”. Claro que o coração não fica completamente de fora do processo. De acordo com cardiologista do Instituto Dante Pazzanese, Carlos Gum, como órgão responsável pelo bombeamento de sangue para todo o corpo, o coração tem um papel importante na história. “Quando nos apaixonamos há um aumento da concentração de testosterona na corrente sanguínea. Esse hormônio funciona como motivador da libido. Os níveis de dopamina e norepirefrina também crescem, o que nos leva a taquicardia, perda do sono, do apetite e o rubor na face. É o coração, que ao levar o sangue para todo o corpo que permite que essas circunstâncias atuem de forma sistêmicas.” CULTO AO CORAÇÃO Se você quiser mesmo culpar alguém por todos esses anos de idolatria ao órgão errado prepare-se para colocar o dedo na cara dos egípcios. É com eles que você terá que tirar satisfações. A propósito, se você pretende, realmente, levar esta empreitada em frente, terá que voltar uns 5 mil anos no passado. Isso mesmo, foi às margens do rio Nilo, uns 3 mil anos antes de Cristo, que as pessoas começaram a pensar que, quando o assunto é sentimento, o coração tem toda essa importância. Isso porque, na religião egípcia, com todos aqueles deuses com corpo de homem e cabeça de animal, o coração era considerado uma peça central na existência. Não que isso seja mentira, afinal, sem ele bombear o sangue por todo o corpo nós não estaríamos aqui. A


diferença é que para o povo egípcio o coração desempenhava também uma função metafísica. Era nele que todos os sentimentos das pessoas eram gerados. Mais do que ser um órgão vital para o corpo, ele era imprescindível para a alma. Por acreditarem na vida após a morte, os egípcios mumificavam os corpos de seus faraós para que eles ficassem preservados para a próxima vida. Depois de mortos, os espíritos eram julgados no tribunal de Osíris. O deus da morte pesava os corações e condenava a uma vida de expiações aqueles cujo órgão era pesado (o que significava seu dono tinha feito muitas coisas ruins) e para uma boa vida aquele com o coração leve. Ironicamente, eles embalsamavam todos os órgãos para que eles pudessem ser utilizados na próxima encarnação, com exceção do cérebro, que era descartado “por não possuir nenhuma utilidade”. Daí para frente, a idéia do coração como sendo o centro das emoções e, principalmente, do amor ganhou força à medida que o próprio sentimento conquistava espaço e importância nas sociedades ocidentais. Para os gregos, o amor era um elemento e um objetivo tão importante que não cabia em um deus só. Afrodite e Eros, mãe e filho, agiam juntos para espalhar o romance por aí. Ela, uma mulher de beleza incomparável, era a manifestação do amor sensual. Ele, um sujeito que se divertia disparando suas flechas a torto e a direito e atingindo os corações (sempre eles) desavisados, formando os casais mais improváveis, representava a face passional do sentimento. De lá para cá muita coisa mudou. O amor, assim como os demais sentimentos, assumiu a cor e a forma da ideologia reinante em cada época. O homem medieval enxergava o amor como algo contemplativo. Para ele, a mulher era uma substituta à adoração de Deus, ou seja, o amor carnal estava fora de cogitação. Alguns séculos mais tarde o romantismo vira o jogo, tira o sentimento dessa esfera exclusivamente espiritual e prega justamente o contrário. A realização do amor

não seria possível sem o encontro dos corpos. O amor passa de uma dimensão de pureza e assume ares revoltos e atormentados. O sentimento que antes trazia paz e acalentava o espírito, agora tirava o juízo e o sossego de homens e mulheres. Depois dos românticos vieram os realistas e mudaram todas as regras de novo. Ficava combinado que, dali em diante, as idealizações com relação ao amor estavam proibidas. Quem quisesse se apaixonar teria que encarar o amor e o mundo como eles realmente são: com defeitos, brigas, ciúmes, desavenças, desencontros e maldade. E tem sido assim até hoje. Em seu artigo “O Mito do Amor Romântico”, a mestre em Ciências da Religião, Maria Célia Menezes, acompanha os diversos conceitos de amor ao longo dos séculos e nos mostra que, como todo produto da interação social, ele também é fruto do seu tempo. Para ela, as diferentes formas de se entender o que é amor conferiu a cada época certas maneiras de expressálo e senti-lo. O ser humano se deixa conduzir pelas discretas sugestões que o social lhe oferece, tornando-se alienado, embebido nestas maneiras de pensar e sentir a vida, as quais lhe dirigem a mente através dos mitos e da religião, que juntos reforçam a sua alienação. Mais ou menos arrebatados. Humanos ou divinos. Os amores não saíram da berlinda em nenhum momento da história humana. Em todos os relatos e histórias de amor é o coração que

Num cérebro apaixonado, substâncias como a adrenalina estão presentes em concentrações maiores que o normal

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aparece como astro principal. Grande parte disso se deve àquela história ancestral de que todas as emoções nasciam no lado esquerdo do peito. Mas essa não é a única explicação possível. Há de se considerar a total falta de informações sobre o papel do cérebro no organismo. Afinal, as descobertas sobre neurônios, neurotransmissores, sinapses e toda a sorte de coisas que acontecem dentro das nossas cabeças são relativamente recentes. Somem a isso a inércia em que vive o nosso cérebro se comparada com a vibrante e movimentada rotina do coração, sempre bombeando sangue para todo o corpo. Não é de se estranhar que os egípcios pensassem que não valia a pena guardar o cérebro para a encarnação seguinte. Maria Célia levanta mais uma razão para a nossa “resistência” em aceitar que o cérebro é o verdadeiro ninho do amor. No mesmo artigo ela afirma que de uma certa forma, todos nós somos famintos por histórias de amor e, de uma certa maneira, queremos fazer parte delas nem que seja secretamente. Os contemporâneos se aproximam dos cortesões da Renascença, pois consideram o amor um valor em suas vidas. Esse padrão de amor ocidental, diferente de outras culturas primitivas, é atraente, pois tenta combinar atração sexual, procriação e família em um só relacionamento entre dois parceiros heterossexuais. Assim, o amor está em alta como sempre esteve, pois ainda associamos a felicidade com a união entre duas pessoas que se amam. E é preciso concordar que um coração pulsante e vivo combina muito mais com essa idéia de encontro apaixonado do que algumas reações químicas realizadas por substâncias de nomes complicados. Que seja eterno enquanto dure Os especialistas ainda não entraram em um acordo sobre o prazo de validade da paixão, mas todos eles concordam que ela não dura para sempre. As alterações fisiológicas resultantes dos encontros românticos são tão grandes e mexem de forma tão significativa com o equilíbrio do 24 | Fevereiro de 2009

organismo que esfriar os ânimos e voltar ao “normal” é uma questão de sobrevivência. “Apaixonar-se é uma experiência absurdamente extenuante para o organismo. Qualquer pessoa apaixonada fica em estado de alerta permanente. Diminuem as horas de sono e o apetite. A freqüência cardíaca. São tantas diferenças que ninguém suportaria permanecer sob o signo da paixão por tempo indeterminado”, afirma a Dra. Carmita Abdo, coordenadora do Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ok, o amor é resultado de um punhado de reações químicas que acontecem na cabeça e nada tem a ver com o coração. E mais, nosso organismo tem todo esse trabalho só para embotar nossos sentidos durante um período de tempo limitado com o objetivo de garantir a perpetuação da espécie, certo? Mas o que dizer daqueles casais que estão juntos há anos, felizes e satisfeitos muito depois que a fase mais “animada” da paixão acaba? Eles são exceção à regra? Seus organismos funcionam de forma diferente? Nada disso. Os relacionamentos duradouros e tranqüilos também fazem parte de um arranjo da mãe natureza para garantir a continuação das nossas linhagens. De acordo com a bióloga Márcia Gutierrez de Souza a dificuldade de se arrumar um parceiro viável forçou a natureza a dar um empurrãozinho para garantir a permanência dos casais e, assim, aumentar as chances de uma prole numerosa. “Alguns animais escolhem seus parceiros e os mantém por toda a vida. Com os seres humanos acontece mais ou menos assim. Homens e mulheres levam em conta inúmeros fatores na hora de escolher um parceiro. O que torna o processo longo e demorado. Uma vez que a escolha é feita, é mais interessante em termos evolucionários, que eles permaneçam juntos pelo maior tempo possível para que tenham a chance de ter muitos filhos. Para isso o cérebro secreta substâncias que tornam atraente a tranquilidade da vida a dois em detrimento da competitiva e agitada rotina dos solteiros”.

Revista Saúde São Paulo / fevereiro 2009  

Revista trimestral feita para Secretaria da Saúde, circulação em todos os hospitais e postos de saúde do Estado de São Paulo.