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Mostra Cine Privê resgata a cinebiografia do erotismo desde os primórdios da sétima arte

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ompreender o erotismo dentro de um complexo jogo de valores históricos, simbólicos e culturais por meio de obras cinematográficas das mais diversas épocas. Essa é a ideia que norteia a Mostra Cine Privê, que terá início no dia 2 de maio e se estenderá até 28 de julho no Sesc Vila Mariana. A programação especial inclui atividades que vão desde exibição de filmes e exposição até cursos, cineconcertos e discussões. Tal conjunto de atrações e obras trata de períodos cinematográficos específicos, desde o “primeiro cinema” silencioso até o contemporâneo, encontrando subtemas dentro do campo do erotismo. Dessa forma, traz algumas representações do corpo e do erotismo com intenção de questionar a intimidade, o caráter privado do desejo e o frisson do público diante da telona. O técnico de programação do Núcleo da Imagem e da Palavra do Sesc Vila Mariana, Rodrigo Gerace, esclarece que o cinema erótico não deve ser visto apenas como representação estética do prazer, mas como “dispositivo histórico permeado de valores que se reinventam de acordo com o status da obscenidade das épocas”. A importância cultural do gênero cinematográfico abordado na mostra está em sua característica ao mesmo tempo subjetiva e histórica. “Como pensar, por exemplo, que um tímido beijo na boca já fora obsceno no cinema mudo (Kiss, 1896, de Thomas Edison) e hoje não passa de ‘sessão da tarde’? Como refletir sobre grandes obras-primas do cinema mundial (como Laranja Mecânica, Persona, Sou Curiosa, Amarelo, Um Cão Andaluz, Decameron, Pink Flamingos etc.) 34

que outrora já foram consideradas malditas e profanas pela política da censura?”, questiona o técnico. Nesse sentido, a mostra busca uma reflexão sobre os efeitos estéticos e ideológicos que fixam padrões em torno da imagem do sexo e do corpo. O esteticismo das obras é bastante presente no Cine-Proibido, ciclo de filmes polêmicos em suas épocas de lançamento por conta das representações do sexo via erotismo, blasfêmia e discurso político. Com classificação indicativa predominantemente voltada para maiores de 18 anos, tais exibições visam mostrar ao público que o cinema europeu se utiliza do sexo explícito (antes fechado ao circuito pornográfico) em suas narrativas como mote dramático. “Isso já não assusta tanto o público moderno. Contudo, ao mesmo tempo, esse mesmo público se mostra conservador ao falar ou ver temas tabus. Muito da violência explícita no cinema atual é metáfora da condição sexual da sociedade. As punhaladas, as penetrações com facas, o sangue jorrando, as dentadas, a escatologia, tudo serve de metáfora à sublimação sexual”, ressalta Gerace. “O mainstream aceita melhor a violência extrema do que o sexo e sua realização na forma de prazer. Assim, a violência é a nova pornografia, que estimula e excita o público reprimido.”

Erotismo em debate Dentre as diversas atividades propostas pela mostra Cine Privê, destaca-se o Cinema-Falado – ciclo de palestras com profissionais ligados às áreas de sociologia, antropologia, estética e história do cinema, como Paulo Santos Lima, Nuno César Abreu, Luiz Nazario e Jorge


Primitive Motion Studies (1884-1887), série de imagens experimentais captadas pela técnica de múltiplas câmeras do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge

Leite Jr., a ser realizado em junho. Os especialistas vão discorrer sobre temas envolvendo erotismo e pornografia na história do cinema em diferentes períodos, linguagens, abordagens ideológicas e estilos. O professor adjunto do departamento de sociologia da Universidade Federal de São Calos (Ufscar) Jorge Leite Jr. abrirá o ciclo sob o tema A Invenção do Erotismo X Pornografia. “Existem diversas formas de representação da sexualidade e algumas delas são perigosas, ofensivas, vulgares. O nome geral que se deu pra isso foi pornografia. Pensando nisso, eu gostaria de levantar a questão: em pleno século 21, com tanto acesso ao conhecimento e às produções voltadas à sexualidade, ainda faz sentido a gente querer acreditar que existe uma distinção entre erotismo e pornografia? A quem ela serve e para que ela serve?”, indaga o professor. Segundo ele, não há nada mais anacrônico do que propagar conceitos criados há dois séculos para categorizar o tema. “Quer dizer que existe uma representação da sexualidade legítima, aquela que dá status: a arte erótica; e, por outro lado, a representação da sexualidade ilegítima, que, quando alguém é a ela associado, perde distinção social: a pornografia? Não faz sentido”, complementa. Outra questão a ser levantada no Cinema-Falado será o aspecto econômico e artístico do cinema da Boca do Lixo, realizado nos anos 1970. O professor de multimeios da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Nuno César Abreu foi o convidado a realizar a palestra Sexo à Brasileira: das Pornochanchadas à Boca do Lixo, na qual pretende mostrar que, a despeito de suas precariedades e contradições, o país também conseguiu produzir um cinema popular com excelente resposta de público. “Voltada explicitamente para o mercado, produzindo entretenimento, o cinema da Boca do Lixo desenvolveu uma ‘identidade’ atravessada pelas mesmas questões que mobilizavam todos os setores do campo do cinema, como criatividade, censura, relações com o mercado e modo de produção”, explica. A intenção será abrir o debate acerca da “revolução sexual” à brasileira num cinema de extração popular. Imagens dos filmes do Cineprivê – O Erotismo no Cinema, no Sesc Vila Mariana

Cine-Proibido Conheça alguns dos filmes polêmicos que irão compor a mostra Pink Flamingos (Estados Unidos, 1972), de John Waters – 16/5, às 20h. Divine, musa dragqueen, é a estrela deste longa, que representa o cinema underground norte-americano. Divine e sua família têm prazer em ser extremamente perversos, gerando competição e ciúmes entre os vizinhos.

Último Tango em Paris (Itália, França, 1972), de Bernardo Bertolucci – 17/5, às 17h. Enquanto procura um apartamento em Paris, uma jovem (Maria Schneider) conhece um homem (Marlon Brando), cuja esposa havia se suicidado. O desejo é instantâneo e os dois iniciam um caso.

A Comilança (França, Itália, 1973), de Marco Ferreri – 18/5, às 16h30. O cineasta questiona a sociedade de consumo e a ostentação da riqueza por meio de metáforas escatológicas e sexuais. No filme, quatro senhores (interpretados por Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Philippe Noiret), cansados da vida, passam um fim de semana trancados em uma mansão com o objetivo de comer e transar até a morte.

Querelle (Alemanha, França, 1982), de Rainer Werner Fassbinder – 8/6, às 14h45. Na cidade portuária de Brest, na França, Querelle (Brad Davis), um marujo que desperta sentimentos de amor e morte em homens e mulheres, planeja crimes e procura satisfazer os seus desejos.

Crash – Estranhos Prazeres (Reino Unido, Canadá, 1996), de David Cronenberg – 22/6, às 14h45. James Ballard (James Spader) se envolve em um acidente de trânsito. No outro carro está um casal. O homem morre e a mulher fica bastante ferida, mas ela acaba se tornando amante de James. Eles começam a frequentar um grupo que tem como fetiche a reconstituição de acidentes de carros sem nenhuma segurança.

Acompanhe a programação completa pelo Em Cartaz.

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Revista E (192)