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Trabalho de Conclus達o de Curso (Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP) MARQUES, Flavia Arquitetura como Transposi巽達o Entre Cotas Urbanas S達o Paulo, 2013


POSTURAS DE PROCESSOS do fragmento à totalidade; do temporal ao espacial:

À melhor parte de mim. Ana, Marcos e Frederico.


A descoberta é parte da nossa formação como indíviduos. Descobrir é coletar, questionar e adivinhar. Mas é, sobretudo, motivar. E é motivante. Esse trabalho aconteceu com muita naturalidade e carinho. Nessas páginas ficam as memórias de um percurso que vai além de um trabalho acadêmico, mas uma soma do que me fez poder chegar até aqui.

Se cada um tem si seus prazeres. Descobri recentemente que esse pode ser um dos meus...

O pensamento é a ideologia e a execução é o que faz o símbolo tomar forma, que faz da essência, existência.


Existe Humano em sp ?

Em folha anterior, cenas retiradas do clipe ‘Linhas Tortas’_______Gabriel O Pensador Releitura da frase da música ‘Não Existe Amor em SP’_____________________Criolo


Introdução

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1. Geomorfologia de São Paulo

10 13 21 26

A | Evolução da Discussão em Período e Escala B | Caracterização Geomorfológica do Sítio C | Os Elementos Constitutivos Espaciais

30 33 35 40

2. Postura dos Processos A | Técnica – tempo e espaço B | Escala – fragmento e totalidade C | Postura Humanizada do Processo

46

3. Re-significações do Lugar A | B | C | D |

49 51 57 67

Fundação e Concentração Expansão da Ocupação Plano de Avenidas No Contexto da Cidade Território

74

4. Re-inversão da Postura A | Arquitetura como Transposição entre Cotas Urbanas B | Quanto à Urbanidade - Cenário Destacado

78 82

5. Arquitetura como transposição. Transposição sem Arquitetura

90

A | Percurso. Escadarias da Av. Nove de Julho, Galeria Prestes Maia e Estação São Bento do Metrô.

93

B | Ficaram no Papel. Edifício Taba Guaianases Conjunto Comercial IAPI

e

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6. Estratégias de Processos de Posturas. Para acabar em... Projeto.

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7. Conclusão

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8. Bibliografia

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ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


INTRODUÇÃO O ambiente urbano pode ser enxergado por um conjunto de artefatos e infra-estruturas que condicionam uma espacialidade, engendram possibilidades e estabelecem paisagens. Ao mesmo tempo em que um sítio é resultado, é também o ponto de partida das ações, configurando um ciclo, onde o resultado das ações dos usuários da cidade está para o ambiente assim como a configuração do ambiente é pano de fundo para as intervenções desses usuários, sejam eles usuários habitantes, sejam usuários arquitetos. É um processo, onde a não dissociação entre ‘arquitetura na paisagem’ e ‘arquitetura da paisagem’ possa fazer com que essa tal paisagem seja algo incorporado como pano de fundo, de modo a embasar todas as análises e estratégias. O que se deseja é discutir a fundo a postura de processo que se teve diante de um sítio tão específico e característico como o da cidade de São Paulo, em função de sua topografia, buscando com isso, entender os resultados que hoje permeiam esse ambiente urbano e promovem novos questionamentos. É estabelecer os elementos que compõe essas posturas de processos para tentar definhar as verdades absolutas pré-estabelecidas que foram usadas como normas na ocupação ao longos das ações de intervenções na cidade. Diante disso, a problemática abordada salienta os rebatimentos desse comportamento para com as cotas baixas, buscando principalmente colocar em pauta para o debate o tema da transposição entre as cotas urbanas, tentando chegar a um resultado investigativo de como a arquitetura pode embasar a questão crônica do perfil irregular de assentamentos da cidade, em função de prover urbanidade e possibilidades palpáveis de deslocamentos. É uma busca por uma postura de processo que estabeleça estratégias, que não se resumam a um resultado formal. É colocar na roda de discussão um tema que foi deixado à margem, mesmo compondo uma condição de existência para o tecido urbano e geográfico de São Paulo.

POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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1.geomorfologia de s達o paulo


“A cidade é, ao mesmo tempo, fonte – o que demanda ações -, alvo – a que as ações se dirigem para transformar – e é também meio – o meio em que as ações operam”1 Frase do arquiteto Ângelo Bucci propícia para esse início, pelo fato de colocar a configuração da cidade como personagem principal em três momentos de ações, entendendo, no entanto, que entre eles haja um primeiro momento. Mesmo se encararmos como ações seqüenciais, a consideração dos três momentos se faz necessária para a compreensão da composição dos resultados que permeiam o ambiente urbano, no hoje e no decorrer dos momentos passados. Por uma questão até que cronológica do próprio caráter da ação, a cidade como pano de fundo, ou seja, como fonte, vem em primeira ordem, no sentido de que essa fonte é a coletânea de informações a serem incorporadas pelos usuários da cidade. A compreensão das entranhas da malha urbana deveria estar na raiz de quem a habita e usufrui, não em um sentido de obrigatoriedade, mas de idealização, para que as ações dos usuários pudessem se moldar à cidade de tal maneira a incorporar suas patologias e dificuldades urbanas, em uma boa conformação espacial e existencial. Por dificuldades urbanas entendem-se as questões que fazem da cidade um ambiente pedinte de soluções estratégicas, que através das tais ações, trazem uma outra configuração: a da cidade como resultado, onde as relações interpessoais e as materialidades implantadas coexistem. O ambiente urbano é quase como um livro, minucioso, detalhado e às vezes incompreensível em suas entrelinhas, até que se releia por vezes a mesma página, e que ainda é submetido a interpretações pessoais de cada leitor. Dentro desse tal livro, a topografia da cidade seria um desses capítulos mais exaustivos, daqueles que se contam as páginas que faltam, com a consciência de que pular alguma delas poderá trazer insatisfação na compreensão do todo. Entretanto, ela é essencial e assim como nesse livro imaginário, na dissertação presente é a ela que tem que ser dedicado o primeiro capítulo, afinal, é ela a fonte da cidade, principalmente para o tema da transposição entre as cotas urbanas. Em folha anterior, ilustrações retiradas do livro: AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo. As citações, com excessão da frase de John Locke, também são do livro de Aziz Ab’Saber e aparecerão com os devidos créditos mais a frente. 1. BUCCI, Ângelo. São Paulo, razões da arquitetura. Da Dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes, p. 14.

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ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


A | EVOLUÇÃO DA DISCUSSÃO Constituição, do verbo constituir é base, composição e formação de algo. É também existência e presença. A Geomorfologia é o campo da Geografia que estuda esse algo em sua composição, tendo como critério de análise as tipologias constitutivas de relevo e os elementos que formam o subsolo, estabelecendo comparações e panoramas. Foi a Geomorfologia que estabeleceu para São Paulo estudos aprofundados que buscaram entender quase que o skyline das terras desnudadas da cidade e é a ela que se faz necessário recorrer para entender essa cidade como fonte. Os estudos de geólogos e pesquisadores com essa finalidade, assim como em outros campos acadêmicos, são no momento do hoje resultado de uma série de avanços que, como se fossem layers, vão se sobrepondo para somar e subtrair. Têm como embasamento, uma série de concordâncias e confrontamentos, que cada estudo em sua época particular, conseguiu como colaboração para o campo. O geógrafo Aziz Ab’Saber, claramente entendedor da indissociável relação de estreitamento entre geografia, arquitetura e estruturas urbanas, deixa claro em seu livro sobre a Geomorfologia do Sítio Urbano 2 de São Paulo, que essa ramificação da geografia, a Geomorfologia, é justamente essa sobreposição de análises e registros, deixando escapar, mais do que a conclusão particular como geógrafo, de que a evolução dos estudos geográficos foi se afinando com os anos e completando-se conforme as técnicas disponíveis. É através da reunião de estudos que ele apresenta, que se faz possível concluir, e aí a conclusão não é feita por ele, que a interpretação do que é compreendido como fonte da cidade está diretamente relacionada com o grau de detalhamento da observação. Ou seja, a interpretação da trama está diretamente relacionada ao recorte e à escala que se propõe a observar. Aqui não se fala em ver a topografia em seu sentido bruto, em um sentido de olhar as composições constitutivas somente em sua forma nativa, mas sim, de modo a compreender a inter-relação que as tipologias de relevo, que se fazem na macro espacialidade, têm com a massa dos artefatos construídos. Do contrário, quando se ignora as relações, se excluí, se desconsidera e se corrompe a análise do ambiente urbano. Como quando descrevemos uma pessoa com suas características físicas mais marcantes para que a adivinhação da

2. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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mesma seja certeira, o sítio urbano de São Paulo, no que diz respeito a sua geografia não deixa espaço para dúvidas. Pode ser descrito por um morador da cidade, por um observador à distância, com base em fotografias ou através de registros de estudos técnicos. O fato é que a variação entre as cotas urbanas será sempre recorrente na caracterização. Primeiramente deve-se estipular o domínio que foi colocado no livro de Ab’Saber para o sítio urbano e que foi adotado como parâmetro para que a compreensão da espacialidade a discutir ficasse clara. “A expressão sítio urbano foi tomada em seu sentido geográfico mais simples, ou seja, o de um pequeno quadro de relevo que efetivamente 3 aloja um organismo urbano”, delimitando para o tal sítio o perímetro entre o Maciço da Bolina, formação montanhosa próxima a São Bernardo e as extensões para além dos rios Pinheiros e Tietê, até suas formações montanhosas mais imponentes, o Pico do Jaraguá e a Serra da Cantareira, respectivamente. A malha desse sítio não foi feita ao acaso, é a região que concentra certa homogeneidade em suas combinações de variações de relevos, compondo situações que se repetem ao longo do perímetro, em macro escala. Não por coincidência, essa delimitação surge muito relacionada às condições de observação que se faziam disponíveis para embasar as pesquisas na época. É claro que hoje se tem uma coletânea de dados técnicos, que são o resultado de uma série de tentativas e erros como metodologia de pesquisas. Mas, para a compreensão do panorama de comportamento que se teve ao longo da historia desse sítio, para com o sítio, é fundamental entender como foi esse processo investigativo evolutivo, uma vez que se tomou como base que as ações são fruto do compreendimento da fonte. Aqui haverá sempre a tendência de exaltar os estudos e informações relacionados à topografia e à constituição geográfica, nos variados recortes observatórios que se fizeram possíveis, não sendo, portanto, debatidas as evoluções e descobertas em relação à composição da matéria do subsolo da cidade, que foi feita em paralelo pelos geógrafos nas suas pesquisas. O intuito com isso é colocar o tema da cota baixa em discussão, seja olhando diretamente para ela, seja olhando para a questão de deslocamento entre essa cota às cotas altas vizinhas, que

BACIA DE SÃO PAULO Seção do Perímetro do Sitio Urbano de São Paulo

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se faz intrínseca em função da condição geográfica de formação do sítio. Juntamente com essa delimitação do perímetro é que a análise pode tomar rumo diferente quando feita apenas na totalidade. No fundo, uma escala é configurada a partir das informações que sua aproximação ou afastamento fornecem em comparativo à outra escala adjacente. Sendo assim, duas análises de sítio urbano se fazem possíveis, uma quando se propõe a observar São Paulo do alto, de longe, considerando como recorte todo esse seu perímetro de sítio urbano, e a outra, quando se propõe a observar do chão dos seus relevos, seja do alto de colinas, seja nas cotas baixas, onde a perspectiva de alcance de observação sugestiona diferentes conclusões, que são pautadas, quase que, sempre baseadas em elementos de comparação. É fundamental estabelecer o parecer, ainda que um pouco generalizado, dessas duas metodologias de escalas, para que se entenda como o processo analítico interfere na condição interpretativa de um lugar. A São Paulo na totalidade do perímetro do sítio, portanto em macro escala, comparada às suas formações adjacentes, mostra um relevo com poucas variações altimétricas, chamada inclusive de topografia modesta pelo geógrafo Aziz Ab’Saber na variedade 4 da movimentação do terreno. A essa impressão de pouca diferença altimétrica tem-se muita influência a proximidade com as montanhas da Serra do Mar paulista, que tem significativa amplitude de cotas de níveis para com seus respectivos vales, como a Serra de Cubatão. Ao comparar essa amplitude às diferenças de níveis, mesmo que da região de cota mais alta da cidade para o seu respectivo vale, dentro desse perímetro, o resultado conclusivo não deixa negar que a diferença altimétrica de dentro do perímetro é bem menor e mais uniforme do que nas conformações para além dele. Com isso, a outra metodologia de análise de escala é a fragmentação e o recorte, para que se veja, dentro desse perímetro, maiores diferenciações. Essa conclusão precisa estar sempre fundada em um comparativo para com a totalidade e para com fragmentos próximos, num constante quadro de relações. 3. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.13 4. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.15 Imagem- AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo.

MACIÇO BOLINA

BAIXADA SANTISTA

17 SERRA DO MAR


Tendo como entendimento que a evolução da discussão a respeito da Geomorfologia da cidade foi sempre apoiada nas técnicas disponíveis, é compreensível o recorte inicial de análise de sítio que foi instaurado pelos geógrafos e que embasaram o pioneirismo de suas pesquisas. Havia uma limitação da disponibilidade de escala, fazendo com que os primeiros registros a respeito da cidade de São Paulo ficassem limitados ao perímetro da implantação onde a cidade começou a se configurar. Os aspectos urbanos e arquitetônicos dessa ocupação e sua evolução serão discutidos mais a frente, por hora se faz necessária a compreensão de que a evolução dos recortes de análises compõem diferentes relatos investigativos e conclusivos. As descrições dos estudos iniciais a respeito da geomorfologia paulista, que o geógrafo Aziz Ab’Saber em seu livro faz evidenciar, sempre creditando aos geógrafos os méritos, ou os seus deméritos, diga-se de passagem, dá a impressão, até por conta da diferença em relação aos estudos detalhados atuais, que os pesquisadores estão sentados em uma das colinas da cidade a observá-las não tão de longe, até onde o olhar é capaz de alcançar, e relatando suas experiências, quase que como uma conversa informal. Isso, porque não havia para a época, que data por volta do início do século XIX, base cartográfica ou instrumentos de aproximação e deslocamentos no território. É também compreensível que qualquer temática demanda um tempo entre início de pesquisas e desenvolvimento das mesmas, como um processo natural, a fim de que se possa gerar, aos poucos, uma pesquisa mais detalhada. É nessa data que surgem as primeiras produções que parecem minimamente satisfatórias para o autor em termos de geomorfologia. As escolhidas, para ilustrar aqui esse caráter observatório e um tanto quanto cru, são do geólogo e pesquisador inglês John Mawe, em 1812 e de Aires de Casal, outro pesquisador, em 1817, respectivamente:

“São Paulo, situada num agradável planalto, com cerca de duas milhas de extensão, é banhada, na base, por dois riachos que, na estação das chuvas, quase a transformam em ilha; ligando-se ao planalto por um caminho estreito. Os riachos desembocam em largo e belo rio, o Tietê, que atravessa a cidade, numa milha de extensão, tomando a direção sudoeste. As ruas de São Paulo, devido à sua altitude (cerca de 50 pés acima da planície), e à água, que quase a circunda, são, em geral, extraordinariamente 5 limpas (...)”

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ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


“São Paulo, Paulópolis, cidade medíocre, vistosamente assentada em terreno pouco levantado, no ângulo da confluência do rio Tamanduateí com o ribeiro do Anhangabaú, que a banham, este pelo lado ocidental, aquele pelo oriental, meia légua do rio Tietê (...)[Légua = 6.600m] 6 Com essas descrições se faz possível, mesmo que em recorte limitado, perceber a existência de uma conformação geográfica natural da cidade baseada em rios, que sugestionam perfis de cotas baixas onde ficam os vales, e que fazem sobressair a existência da cota alta, através do que se coloca por planalto. Essa topografia, marcada por diferenciação de níveis, começa a ser percebida e registrada, ainda na época sem dados técnicos ou recortes um pouco mais focados, que pudessem dramatizar a topografia tão particular do sítio. Fornecer esses dados, que pudessem retratar fielmente situações básicas da geografia, tais como a amplitude numérica das cotas e os núcleos populacionais, é que trariam a importância do discurso e a atenção necessária a essa particularidade do ambiente da cidade e que teriam o poder de engendrar possibilidades estratégicas de projetos urbanos. Não se estabelece aqui uma crítica a esses estudos, pelo contrário, é uma exaltação à importância dos mesmos e uma ênfase na sua evolução, que precisou respeitar as condições técnicas de cada época em que se materializaram. Estabelece-se no fundo importância de colocar o assunto em pauta, pois quando se fala sobre um tema da cidade é que ele passa a ter chances de ser incorporado pela própria cidade, sendo, de fato, fonte de consideração. Para ser incorporado, precisa, primeiro, ser estudado e evidenciado. A cidade é feita de pautas e é a partir do momento em que são colocadas em evidência, é que se atraem os olhares para o debate. É nesse contexto de século XIX, em seu final, que parece nascer o registro de um estudo mais conciso e que se importa, até por ter as fontes necessárias, em descrever minuciosamente as entranhas da cidade e as relações entre as cotas nos diferentes pontos da mesma. Poderia até haver mais delongas em algumas citações dos estudos pioneiros, ainda genéricos, como os de John Mawe e Aires do Casal, mas interessa muito mais a compreensão da importância dessa evolução, do que precisamente a quantidade do que surgiu em cada um dos momentos do estudo. Com isso, foi com base nos trabalhos topográficos da Comissão Geographica e Geologica de São 5. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.30 6. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.30 POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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Paulo, que por volta do final do século XIX já era capaz de se fazer um trabalho de registro das cotas urbanas (vê-se aqui a periodização de um entre século do momento que se iniciou o registro do parecer geomorfológico para quando, de fato, ele teve condições técnicas para se desenvolver), que um expoente pesquisador e geólogo baiano, tendo por nome Teodoro Sampaio, se apossou de dados técniconuméricos para, nas linhas de seus registros, mostrar a relação que eles tinham com a infra-estrutura de formação da cidade. Observa-se que o avanço das possibilidades de deslocamentos, através de arruamentos e desbravamento de territórios, que são fruto do desenvolvimento urbano, faz possível agora imaginar o pesquisador não mais ao alto da colina observando com o olhar na perspectiva da totalidade, mas quase que se escuta o passeio do geógrafo por entre as cotas, sendo possível imaginar o som de seus passos caminhando, ainda que muito em terra fofa, e adotando o seu olhar de observador aproximado, percorrendo o que havia de construído na cidade. Foram essas informações técnicas e a possibilidade da somatização das experiências de percurso, que foram abertos novos caminhos analíticos, uma vez que, foi dado embasamento para iniciar a relação entre geografia e infra-estruturas urbanas, percebendo dessa forma a relação entre cidade-fonte e ações. Vale a transcrição fiel dos textos, justamente para a imaginação dessa sensação do caminhar na São Paulo do final do século XIX e vale também pela possibilidade conclusiva de comparativo de abordagem das duas citações, vindas de um mesmo geólogo, diferidas pelo recorte de análise.

“A cidade de São Paulo é situada, como já disse, a 23º33’10’’ de latitude sul, sobre uma eminência que termina a planície elevada que se percorre quando se vem das montanhas do Jaraguá e que a mesma planície só está ligada por um dos lados. Abaixo se estendem vastos terrenos planos e pantanosos (várzeas); é muito irregular em seus contornos, que tem forma um tanto alongada, e ocupa o delta (sic) formado pelos ribeirões Hinhangabaú e Tamanduatahy; os quais, depois de reunidos, deságuam no Tietê. Se, para ter uma idéia justa de extensão e da posição da cidade de São Paulo, se fizer um passeio em seu derredor, verse-a que, do lado do norte, o horizonte é fechado, pouco mais ou menos de oeste a leste, por uma cadeia de pequenas montanhas, em meio das quais se destaca o pico do Jaraguá, que dá seu nome a toda a cadeia (sic); mais elevado do que os morros vizinhos, esse pico apresenta, de um de seus lados, um intervalo sensível 20

ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


e, visto de longe, parece terminar por uma cúpula arredondada, em cuja extremidade se erguesse uma pequena ponta. Do lado de leste, o terreno, mais baixo do que a cidade, estende-se, sem desigualdade, até a vila de Nossa Senhora da Penha, que se avista no horizonte. Em outros lugares notam-se no terreno movimentos mais ou menos sensíveis, e, para sul e o oeste, o 7 mesmo se eleva acima da cidade”. “A topografia da região hoje ocupada pela cidade de São Paulo revela-se, parte, em planícies que se estendem desde o sopé da colina do Ipiranga até a foz do Tamanduateí e pelas margens direita do Pinheiros contornando as elevações da futura metrópole, desde as encostas do espigão divisor do Tamanduateí e Anhangabaú, extremos da derradeira projeção da Serra do Mar sobre a região de Piratininga, até os outreiros da Penha e de Sant’Ana e parte, no chamado planalto onde a Companhia de Jesus fundou seu colégio, relevo topográfico numa sucessão de morros que nivelamentos posteriores transformam em disfarçada ladeiras. (...) Das várzeas davam subida ao planalto, a leste da ladeira do Carmo na declividade de 9,7%; a do General Carneiro na de 7%; a da Porto Geral na de 15,6% (...) trilho em zig zague pela encosta quase a pruma da montanha em que está a rua Florencio de Abreu, interrompida abrutamente junto ao rio Anhangabaú que, em diagonal corria metros abaixo do seu nível (...). A parte ocidental é ainda divida pelo ribeiro Anhangabaú, afluente do Thamanduatehy, em duas partes iguais: a parte velha, a antiga São Paulo, de fundação jesuítica, hoje transformada em centro comercial construída sobre o espigão central intermédio àquelles dois rios, desde a ponte de Miguel Carlos, na altitude de 731m294 até o fim da rua da Liberdade na altura aproximada de 780m200 é a mais densa em edificações e abrange uma área de 89 hectares e meio. (...) A parte nova para além do ribeiro Anhangabaú, compreendendo os bairros de Santa Cecília, Consolação (...), conquanto mostre muitas falhas e largos trechos de rua sem construção alguma é já a parte mais interessante da cidade. A altitude alí é na Luz 737m6 e na Consolação, que é o 8 ponto mais alto, 788m. (...)” 7. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.30 8. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.30

POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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______800

espigão central

rio cubatão

______800

____830

RIO TIETÊ

PRAÇA DA REPÚBLICA ____750

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vale anhangabaú

RIO PINHEIROS

LARGO SÃO BENTO

baixada sanista

Interessante é perceber como os “movimentos mais ou menos sensíveis” do terreno na primeira citação de Saint Hillaire, ganham diferente proporção e peso quando descritos através de cotas e inclinações de arruamentos, que evidenciam as diferenças altimétricas desses movimentos do relevo. Esse comparativo ajuda a entender a tal evolução do estudo que se quer chegar, assim como quem hoje se desloca na cidade de São Paulo, que situa atividades necessárias ao cotidiano em bairros distintos, pode se impressionar com a suavidade pela qual o platô da tal Paulópolis de John Mawe foi descrita em comparativo ao seu vale, pois ele usa a escala da totalidade. Tais considerações serão retomadas em outro momento com a finalidade de comentar a questão urbana das implantações e surgimentos desses bairros, e são ambíguas em sua pertinência na dissertação, pois é quase impossível anular o fato de que o desbravamento do território, em função do crescimento demográfico, foi sim grande responsável por fazer surgir a evolução dos estudos da geomorfologia, oferecendo mais do que a técnica, o campo e a fonte. Como dito, poder-se-ia colocar mais delongas de citações e registros de outros geógrafos, mas a questão é que em termos de evolução parecem essas citações serem suficientes para a ilustração da divisão do que parece ser configurada em três momentos qualitativos. Dividido em observação do próprio perímetro definido como sítio urbano como macro região em comparativo com o olhar do que estaria adjacente


para além dessa delimitação, em escala que fornece um panorama generalizado compositivo; limitação da análise geomorfológica do território perante observação do plano de fundação da cidade de São Paulo, com um olhar perspectivado em média escala e limitado; e a observação fragmentada, fruto do olhar do passeio, somado a dados numéricos, como que em uma tomada seqüencial de fotografias. Esses procedimentos são interligados, onde um se faz conclusivo a partir da conclusão de seu outro próximo.

B | Caracterização Geomorfológica do Sítio Entendida a multiplicidade de observação através de possibilidades diferentes de escalas, é fato que, por conseqüência, são geradas também múltiplas análises descritivas em relação às características geomorfológicas do sítio urbano. É, principalmente, através do instrumento gráfico arquitetônico de seções, os cortes urbanos, que páginas e mais páginas de explicações ou citações, como as que foram transcritas no tópico anterior, são resumidas a traçados. Entretanto, as palavras ainda se fazem necessárias para nortear a observação dos desenhos e expressar possíveis conclusões importantes que poderiam passar despercebidas. É nesse sentido, que o livro de Aziz Ab’Saber se faz tão expressivo e fonte, ao que parece, fundamental para um entendimento mais sólido do caráter geográfico da cidade de São Paulo. A riqueza de seu material está justamente em fornecer mais do que os dados finais, mas em fazer possível perceber e entender a importância do processo pelo qual se chegou a eles. Se é intenção ou não do autor a vontade de colocar o processo e o método como algo de suma importância em seu texto, não se faz claro, mas uma vez que pelo leitor isso é apreendido, a esse cabe usufruir dos métodos para ampliar a sua rede própria de pesquisas. Independentemente disso, e com o perdão do trocadilho do título da dissertação, entender as entrelinhas do que se lê em uma temática, seja em qual disciplina for, e transpor o método apreendido para outras vertentes de estudo é motivante em função da possibilidade de obtenção de novos resultados. Qualquer estudo se faz mais rico quando permite entendimento tal, que seja apenas um início para pulsar novas análises conclusivas. Sendo assim, comentários sintéticos absorvidos do parecer do autor para os perfis topográficos da cidade estarão aqui acompanhados de suas ilustrações gráficas nos seus variados recortes, bem como tentativas de conclusões intermediárias e finais. POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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tietê

pinheiros

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A percepção de que o tal sítio urbano de São Paulo coincide, quase que em totalidade com a sua bacia não se faz ao acaso, uma vez que os rios acabam por orientar o crescimento das aglomerações urbanas, tanto pelo fato das aglomerações fazerem usufruto das águas dos rios para consumo e navegação, como por uma questão de orientação espacial e demarcação no território. Para esse sítio são definidas tipologias de relevos para cotas altas e tipologias para as cotas baixas, que variam de acordo com a cota literal em si e com a configuração do platô de cada uma delas. Sendo assim, em linhas macros de definição, a cidade de São Paulo, como o próprio Aziz Ab’Saber coloca em seu livro, é formada pela “existência de um pequeno mosaico de colinas, terraços fluviais e planícies de inundação pertencentes a um compartimento restrito e muito bem individualizado do relevo da porção 9 sudeste do Planalto Atlântico Brasileiro” (entendendo como Planalto Atlântico Brasileiro um recorte maior que tem para si uma faixa do sudeste do Brasil). Quase que na metade dessa bacia está o espigão central da cidade, conhecido pelo trecho que compreende a Avenida Paulista e que avança em um sentido para o Jabaquara e no outro sentido para a Doutor Arnaldo. A expressão ‘central’ talvez seja mais no sentido de imponência e marcação na paisagem urbana, do que propriamente dita por estar no meio de um grid da cidade, onde sua localização confere-se exatamente ao meio. Essa localidade do espigão, que varia de 810 a 830 metros de altitude, o faz o principal distribuidor das calhas da cidade para os seus principais rios. A formação dessa colina, sendo a principal da cidade em termos de altura e de localização quase central, traz à tona a constatação de que, querendo ou não, é o espigão central que gera os rebatimentos para o restante do sítio como formação geomorfológica. É a partir dele que a formação de outras tipologias são configuradas, se tornando o responsável por possíveis

Imagem da vista do espigão em 1920 | Belvedere Urbano ajorb.com.br_____ Acessado em jun/2013


modificações de relevos próximos, resultantes da combinação da terra e argila dessas localidades com a água. Antes de chegar às tipologias de relevo, que se seguem a partir do espigão, se faz importante constatar que a seqüência geomorfológica existente em São Paulo é no fundo, um sistema natural de drenagem que apresenta uma seqüência escalonada de colinas até os rios principais, que estão nas cotas mais baixas da cidade (720m). Interpretações como essa são quase que argumentos que a cidade traz para justificar sua topografia particular, quase que recebendo uma absolvição por compor um terreno tão desnivelado, se olhado por fragmento. Isso é totalmente associável à cidade como fonte, no sentido de entender a complexidade natural, e porque não dizer inteligente, através da qual ela foi formada, se fazendo fundamental para perceber que a massa construída de artefatos e estruturas urbanas, como ações, deveriam se instalar na cidade de modo a continuar a permissão desse processo natural de drenagem das águas urbanas, encaixando-se na lógica que a natureza mesma criou. O que Aziz chama de rebordos e flancos de espigão pode ser descrito também como o escalonamento das cotas mais altas da colina principal, que vão decaindo sem a interrupção de alguma cota baixa muito significativa, a ponto de interromper o perfil em declive, variando entre os 830 máximos do espigão até as cotas de 750 metros. Exemplo para ilustrar esse caimento se dá com a Avenida Brigadeiro Luis Antônio para o lado do Rio Pinheiros ou com a Consolação para o Rio Tietê, sem esquecer as diferenças de inclinação que elas têm entre si. Transpondo isso para a materialidade da construção na arquitetura, novamente tomando a cidade como fonte, dever-se-ia compreender que o sítio urbano de São Paulo, como natureza, se organizou como 9. AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo, p.51 Imagem retirada do livro de Aziz Ab1Saber

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um grande mirante contemplativo e de unidade espacial, composto de um mirante principal e “sub-mirantes” que olham para cada um de seus rios. Dentro dessa consideração de fonte de cidade, que traz consigo uma questão extremamente poética de relação da natureza da terra com a das águas, as tais ações nesse meio poderiam, e porque não dizer, deveriam, se fazer presentes respeitando esse caráter para engendrar essa potencialidade no cenário urbano. É como se a cidade de São Paulo em sua formação tanto entendesse isso, que seu espigão, novamente de forma poética, além da questão da funcionalidade de drenagem, não está ao acaso no centro da bacia, parecendo respeitar com igualdade de justiça o alcance da observação para os dois rios que presentearam a cidade com seu fluxo de águas. Cabe ligar aqui a idéia de que os rios se tornaram um grande paradoxo, pois ao mesmo tempo em que tem o brilho das águas cristalinas e se encontram em perspectiva livre dos mirantes, estão naturalmente implantados em vales, cota que teve um comportamento de negação pelas ações de implantação na cidade. A conclusão a cima é pedinte de continuidade de discussão, e será feita em capítulo próximo, por hora cabe guardála, com a certeza de que será lembrada naturalmente no momento em que a pauta da postura que se teve com os rios da cidade for colocada em debate. Continuando a observação da secção através do olhar, o corte urbano que vai do SW, com o Rio Pinheiros, até o NE com o Tietê, agora não é claro para a compreensão das entranhas particulares que a próxima tipologia de relevo constitui, no entanto, se faz importante para localizar essa composição dentro da macro trama de relevos e perceber que faz parte do sistema de drenagem da cidade e da configuração de sub-mirantes para as cotas baixas. O olhar aproximado se deve à necessidade de entender a configuração tubular e ondulada dessas colinas que, tanto à Pinheiros quanto à Tietê estão em cotas aproximadas de 735 a 750 metros, sendo intervaladas por afluentes dos rios principais. Como exemplo da primeira situação estão o Jardim Europa e Jardim Paulista e da segunda, o Triângulo Histórico e a Praça da República. Essas colinas, na verdade, se incorporam ao sistema de drenagem das águas da cidade como formação primitiva natural, sendo antes de se constituírem como perfis tubulares, constituírem-se como terraços fluviais, áreas de escalonamentos suaves antes das áreas dos rios, mas que com o passar do tempo sofreram processos de erosões, que foram responsáveis por conformar vales entre esses perfis, onde ficaram alojados os afluentes dos rios principais da cidade, como o 26

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Tamanduateí e o Anhangabaú. Sendo assim, aqui se pode conferir à cidade mais uma absolvição para sua formação geográfica acidentada sob esse recorte, tendo em vista que por formação natural essas colinas fragmentadas eram na verdade um único escalonamento compondo a calha-eixo de drenagem da cidade. Tomado esse processo natural como fato irreversível, essa nova configuração de ambiente (entendendo-se por nova não o tempo recente, mas a sucessão da formação inicial) constitui-se como fonte e a ela que se pode engendrar a potencialidade poética de encarar essas colinas como mais uma seqüência de sub-mirantes, que mais potentes ficam ao pegar para suas bordas os córregos dos afluentes. Ainda nessa configuração de relevo, a fim de não deixar a caracterização dessas colinas incompleta, ao passo que se coloca que elas existem em dois momentos, uma para cada direção das cotas baixas da cidade, deve-se salientar o fato de que suas declividades se fazem de maneiras diferentes, tanto em termos de cotas propriamente ditas, onde 20 metros de altimetria se encaixam na situação para a direção do Tietê, e de 5 a 10 metros na direção do Pinheiros. A diferenciação ainda se soma com o perfil da declividade, sendo mais íngremes próximas à direção onde estão os afluentes Anhanangabaú e Tamanduateí e mais escalonadas onde estão as colinas dos Jardins. Essa questão vem, por hora, mais como constatação do que caracterização, mas será retomada, pois além de estar nas colinas o projeto acadêmico que é fruto da investigação da dissertação, é também importante para a discussão da ocupação no território da cidade de São Paulo. Amarrando a configuração da bacia paulista, antes de chegar às cotas mais baixas do sítio, onde estão os rios e para onde as águas decorrentes do processo de drenagem são encaminhadas e depositadas, depois das colinas tubulares tem-se os terraços fluviais, popularmente chamados de várzea, que justamente estão implantados às margens desses rios para servir-lhes de calha-eixo. Diferentemente dos perfis topográficos de tendência de colinas, esse perfil de calha-eixo é configurado em plataformas de cotas baixas, elevados apenas em média de 3 a 7 metros da cota de 720 dos Rios Pinheiros e Tietê, e tem ribeiro formado ou por um escalonamento suave ou por um pequeno talude em relação à próxima cota baixa. É essa topografia que no inicio da formação natural da cidade moldava o espaço compreendido pelas colinas tubulares, fazendo com que se possa atribuir ao contraste altimétrico entre a cota dessas colinas e dos seus vales a ausência desse terraceamento, que acaba por eliminar um escalonamento mais POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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natural previsto pela própria formação geográfica. Tanto o Anhangabaú, como os demais afluentes do Rio Tietê e do Rio Pinheiros, e eles próprios, conformam as planícies aluviais e não variam mais do que 4 metros em amplitude altimétrica na totalidade. O Pinheiros e o Tietê são os principais depósitos de drenagem e formam um ângulo de confluência ao se encontrarem. Do mais, dentro do sítio urbano, o afluente Tamanduateí é o único que tem proximidade de comparação a esses rios, visto que em origem de grandeza é o terceiro maior em extensão da cidade e percorre 16km, comparados aos 20km aproximados que os dois principais rios têm como distância.

C | Os Elementos Constitutivos Espaciais A tal fonte que demanda ações foi apresentada em seu sentido descritivo, pautado por análises conclusivas intermediárias. Essas análises conclusivas são resultantes de observações derivadas de experiências particulares presenciais somadas às experiências de leituras, onde a fonte aparece traduzida em linhas que, por sua vez, baseia-se em experiências outras, que não mais as particulares. É no sentido de um método acumulativo, através da somatória de perspectivas de olhares e escalas, que a observação de temas, espaços, ideologias, ou qualquer que seja o ramo, deva ser conferida. A compreensão satisfatória surge quando se compreende de fato o todo, suas entranhas e relações, quase que através do definhamento do mesmo em partes outras, que se relacionam em separado e em conjunto. A importância da percepção dessa análise de método acumulativo transpõe-se para o campo do objeto a ser analisado, onde também se faz importante a investigação e compreensão da sua parte de todo e de suas entranhas. Para esse processo consegue-se reportar a citação do geógrafo Milton Santos, que tanto parece valorizar o processo investigativo e o meio pelo qual estuda os objetos, ao colocar que “essa tarefa supõe o encontro de conceitos, tirados da realidade, fertilizados reciprocamente 10 por sua associação obrigatória, e tornados capazes de utilização sobre 11 a realidade em movimento”. Ou, ao falar que “a discussão é sobre o espaço e não sobre a geografia, isto pressupõe o domínio do método”. De tal modo, assim como o método deva estar composto de associações e subdivisões compositivas claras a quem o quer utilizar, o objeto para o qual se dirige a investigação deve, a seu modo, compor-se de subdivisões analíticas e perceptivas para que some 10,11. SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço, p.20

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um todo posterior. É nesse sentido que se faz de suma importância para a justificativa da temática proposta no estudo, entendê-la nas mais variadas partes que a compõe. Se já foi falado a respeito de sua composição geomorfológica, não foram deixadas de lado outras questões como poética espacial e funcionalidade de sítio, aproximando e afastando através de associações e dissociações para entendimento. É de fundamental importância compreender que está embutido no caráter de transpor entre as cotas urbanas da cidade a existência de duas condições que orientam a espacialidade: o plano horizontal e o eixo vertical. Apesar de a temática sugerir, através de sua composição gramatical de título, um possível pensamento de deslocamento físico apenas no eixo vertical, deve ser atentado o fato de que essa discussão está sendo desenvolvida sob um cenário urbano de sítio e que, por constituir um ambiente de cidade, pressupõe, por essência, deslocamentos a serem percorridos no plano horizontal. O que se quer dizer é que é intrínseco do organismo urbano o percorrer distâncias para alcançar as atividades localizadas nos mais diversos pontos da cidade e que, por conta do pano de fundo onde o sítio estudado está localizado, também se faz intrínseco deslocar no eixo vertical para cumprir o deslocamento do plano horizontal. Sendo assim, o percurso na vertical é, na verdade, conseqüência do percurso horizontal, devendo ser tratado, portanto, como natural e necessário de pautar e buscar estratégias, uma vez que é parte do ato de se deslocar. Claro que sob o ponto de vista de deslocamentos, onde ponto de partida e destino compartilham de mesmo perfil topográfico, ainda que intervalados por outra cota, o percurso pode ser feito apenas no plano físico horizontal, possibilitado através de infra-estruturas urbanas de conexão em nível. Essas transposições, agora em e não entre níveis, configuram ações que tentam responder às condições que a cidade dá como existência, em contrapartida às necessidades do habitar essa cidade. Pode-se pensar aqui que a consideração da transposição em nível, em contraste com a entre os níveis, que embute uma clara composição de plano vertical e horizontal, se faz apenas no horizontal, já que interliga duas cotas numericamente semelhantes, num mesmo eixo. Entretanto, é aqui que mora grande patologia da urbanidade, pois ao separar qualquer aspecto urbano da totalidade para análise fragmentada sem considerar o restante do todo, se deixa de lado rebatimentos conseqüenciais que essas ações configuram no restante dos fragmentos. É um esquecer o compreendimento das questões urbanas como uma associação de elementos constitutivos, que por mais que não sejam evidentes em um fragmento, o são na totalidade POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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que esse recorte está inserido e se relaciona. Ou seja, as transposições em nível compõem-se, sim, dos dois eixos, são materializadas no horizontal e geram rebatimentos no horizontal abaixo dela por causa da composição de verticalidade da cidade. A composição de elementos constitutivos em duas atmosferas está presente não só na ambientação urbana, mas também na essência da construção civil dos artefatos, dividindo-se em linha de nível e fio de prumo, e de infra-estrutura mecânica de deslocamentos, através dos 12 trens/metrôs e dos elevadores, como Ângelo Bucci coloca em seu livro de bolso. Tal abordagem parece surgir para o arquiteto a partir de suas observações da obra de intervenção do arquiteto Paulo Mendes da 13 Rocha em uma exposição da Arte/Cidade III em São Paulo, 1997, no Moinho Central. Nessa intervenção, Paulo Mendes parece sintetizar a lógica de funcionamento mecânica da cidade ao implantar um elevador de obras sobre um trecho de linha férrea. A isso, Bucci associa esses dois elementos expostos dentro da lógica de funcionamento da cidade, atribuindo a metáfora da presença da linha férrea ao engendrar das atividades produtivas e de mobilidade e ao elevador, à possibilidade da construção de edifícios verticais, onde se concentra a dimensão do habitar. A conclusão que se faz é a da possibilidade de associação ao imaginar que a relação entre plano horizontal de distâncias e eixo vertical de cotas estão para a lógica de funcionamento da cidade como geografia natural de sítio em seus aspectos de deslocamento, drenagem e mirante; assim como as ações de intervenções de ferrovias e elevadores estão para o funcionamento da cidade no sentido de produção urbana e humana. Ou seja, independente do caráter do ambiente, há por trás uma composição desses dois elementos de sustentação, o horizontal e o vertical, que são no fundo categorias analíticas que fazem possível capturar a dinâmica de um resultado final como conjunto de associações. Faz-se possível, portanto, associar que as ações de implantações de arquitetura, como os artefatos ou infra-estruturas, poderiam por si constituir e fazer esboçar um sistema de plano horizontal e eixo vertical de modo a acomodar-se na composição do sítio, contribuindo para a lógica geográfica e a lógica urbana, através de estratégias da sua própria arquitetura. É nesse sentido que a pauta da Arquitetura como Transposição entre Cotas Urbanas tenta discutir como pode materializar possibilidades espaciais de ações em artefatos, que em sua escala, atingiriam escalas maiores ao fazer parte dos elementos compositivos da cidade. 12,13. BUCCI, Ângelo. São Paulo, razões da arquitetura. Da Dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes, p. 24

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imagem da vista dos platôr urbanos ajorb.com.br_____ Acessado em jun/2013

croqui de ângelo bucci retirado do livro BUCCI, Ângelo. São Paulo, razões da arquitetura. Da Dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes, p. 57.

O QUE ESTÁ ÀBAIXO DE NÓS? escadaria nove de julho acervo pessoal

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2. POSTURAS DOS PROCESSOS


“Um olhar que não se pode mais ver, colado contra o muro, deslocando-se pela sua superfície, submerso em seus despojos” 14 Mais do que conhecer as condições do que é ponto de partida e do que é resultado, interessa a investigação do processo e do método que se tornam responsáveis pelo encaminhamento aos quais as ações são engendradas. A condição de cidade é de ser entendida como algo associativo por condição de existência, entre a espacialidade e os indivíduos que com ela se relacionam. É algo complexo e a sua redução tende ao perigo da compreensão superficial e à verdades absolutas, se tornando ponto negativo quando é preciso caminhar por entranhas para perceber relações complexas embutidas. De tal modo, interessa o definhamento das situações e suas rejunções, feitas para que se tenha a possibilidade de compreender o todo a partir das partes, para, de fato, incorporar o seu sentido e significados. A visão de algo, seja o que for, é multifacetada, possível em ângulos e recortes espaciais e temporais, que são pautados pela escolha daquele que olha. A intenção é mergulhar 15 o olhar no objeto, entendo esse objeto como algo amplo e também multifacetado por essência, sendo pedinte de dissociação e reassociação. O que aqui se quer evidenciar é o caráter do olhar. Longe de ser o caráter algo simplório que se divide entre o bem e o mau, o que se espera desse caráter é como algo que se configurasse por um fio elástico, tendendo a longo alcance para ambos os lados, estendendo-se o mais que consiga para visualizar o máximo que pode, retornando a sua posição confortável, já não tão confortável assim, depois do estiramento. O que talvez se deseje é provocar a saída da zona formada pelas conceituações existentes nas mentes de cada um para, através de um pleno entendimento da composição complexa do processo, deixar insatisfeito tanto a ponto de desejar um pensamento outro, que não mais o que se tinha, sem até ter a dimensão do por quê. Com isso, a intenção aqui é mais do que apresentar aquela ou essa conclusão pautada em observações particulares, mas buscar caminhos que, ao serem compreendidos e incorporados, possam possibilitar a busca e o encontro de tantas outras conclusões dentro das mais variadas temáticas. Em paralelo, vale adiantar, que o processo, assim como tudo que permeia a dissertação tende à aproximação da humanização


das coisas, do ambiente, dos artefatos e até mesmo do indivíduo para com o próprio indivíduo, no sentido de mostrar uma saudável necessidade de fazer valer seu sentido humano existencial para poder aflorá-lo. A dimensão da existência humana, por vezes, acaba se perdendo na proporção do sítio urbano, é deixada de lado na correria das atividades do dia-a-dia e se esconde no medo instaurado de violência no ambiente. Seu resgate, em somatória a uma perspectiva de olhar que seja, no fundo, também humana no sentido de entender o que é o olhar por essência e enxergar de tal modo, remete à brincadeira urbana tanto estampada pelos muros da cidade, onde o trocadilho VERacidade soa quase como um grito de quem vive nessa cidade e pede para vê-la de verdade.

A | Técnica - Tempo e Espaço “Acredito que é a essência mesma de cada problema conter e sugerir sua própria solução” 16 Sullivan com essa citação parece que conseguiria enxergar a cidade como fonte, alvo e meio. Na verdade, ele parece enxergar qualquer coisa formada por cadeias cognitivas de situações como campo e objeto; problema e estratégia. A maneira pela qual o processo de solução de Sullivan em um ambiente pode ser dada para um determinado problema se faz através da técnica do geógrafo Milton Santos. A técnica é o que Milton Santos define como algo que faz parte e é capaz de se moldar ao território e transformá-lo, sendo no fundo o fazer do ser humano para se ajeitar ao sítio, tendo-o como pano de fundo e, portanto também, o meio pelo qual irá materializar suas ações. Dessa forma, cabe como costura a citação de Álvaro Puntoni, 17 quando diz que “nossos corpos são a extensão do meio e vice e versa”, ampliando mais ainda a discussão ao fazer em sua metáfora menção ao fato de que essas intervenções humanas acabam modificando o panorama do lugar e refletindo em novos relacionamentos do indivíduo, para com esse lugar e com os outros indivíduos que o habitam. Tal associação entre esses autores se faz possível, pois o que amarra

Imagens de acervo pessoal. 14. BRISSAC, Nelson. Paisagens Urbanas, p. 149 15. SANTOS, Milton. A natureza do espaço, p. 57 16. Sullivam, Louis H. (1896). Charlas com um arquitecto. El alto edifício de oficinas considerado artisticamente, p. 199. 17. Entrevista do arquiteto Álvaro Puntoni para documentário da Nova Biblioteca Brasiliana da USP. POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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o pensamento de cada um deles é a importância que é dada para essa tal ação e para a plena compreensão do campo onde ela se fará materializar. Faz-se, também, pois a técnica aqui não é referida em um sentido puramente mecânico, mas, sobretudo de comportamento do indivíduo para com o ambiente que se traduz em ações, sendo a mecânica, eventualmente, embutida em determinadas técnicas, algo secundário para esse pensamento. Essa ambigüidade compositiva da técnica, quando falada com caráter humano e mecânico, faz admitir mais de uma interpretação, quando entendido que toda a técnica em si varia em função de duas componentes fundamentais, que se complementam como uma cadeia associativa: o tempo e o espaço. Sim, porque a fonte, expressão tão utilizada no estudo, não pode ser encarada apenas como seu nome tende a reduzi-la, em uma delimitação espacial que traz consigo informações visuais, palpáveis e mensuráveis, como as que foram apresentadas ao falar dos aspectos físicos da geomorfologia da cidade. Essa interpretação de caráter físico não se constitui em si unicamente como composição da fonte, pois o caráter físico espacial dá as mãos ao caráter temporal. É tal composição analítica que permite que sejam analisados mais do que as imagens das paisagens concretizadas, mas também a evolução de determinado espaço ao longo de determinados tempos, fazendo possível entender comportamentos históricos que trouxeram um resultado presente de ambiente. A cidade é por si um conjunto de ações sobrepostas no espaço ao longo do tempo, através das técnicas, e é fundamental que se entenda isso antes de começar a contar a história da cidade de São Paulo, em termos de ocupação do espaço. Sem esse compreendimento do processo, o objetivo do estudo poderia se perder, ao passo que teria grande inclinação a se tornar frágil ou superficial demais, reportandose somente por relatos e datações de intervenções. A intenção é que aqui se consiga ter uma apreensão do está entre o ponto de partida e o resultado para que conclusões particulares possam ser extraídas além das que se apresentam como comentários ao longo da dissertação. Conclusões alheias também devem ser usadas, e uma citação que cabe inclusive, perfeitamente, para o tempo e espaço desse texto, é de 18 Milton Santos: “as técnicas são um fenômeno histórico”. Isso porque ele coloca de maneira bastante interessante as possibilidades de datar um determinado lugar, fazendo com que se possa separar e organizar, ao longo do tempo, as configurações dos resultados espaciais. As datações podem ser feitas, segundo ele, através da idade cívica, ou seja, da data de fundação de um lugar. Podem também ser feitas em 36

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relação à mutação dos processos naturais e geográficos desse lugar, como o que se constatou na análise geomorfológica de São Paulo, que tinha em um determinado tempo uma conformação de terraços fluviais e em outro momento, colinas tubulares. A terceira determinação da idade de um lugar se faz em função das paisagens elaboradas pelo homem, a partir de suas ações dentro de um espaço, ou seja, a partir da soma entre indivíduo e técnica, relações interpessoais e mecânicas. Por isso, que é corriqueira a periodização da história pautada por fatos marcantes conferidos pelo homem, como guerras, revoluções, construções, descobertas, planos urbanos etc. Para o estudo, também se recorre a essa ultima tipologia de datação, com exemplos que ainda serão dados, quando for ser discutida a maneira pela qual a técnica foi implantada no sítio urbano de São Paulo e como isso se relacionou com a temática da transposição. Essa datação em termos de técnica se torna mais expressiva ainda, pois pode se dividir em mais dois momentos, como elementos constitutivos. Um, seria a aplicação da técnica propriamente dita, e o outro, o momento em que “essa técnica se incorpora à vida de 19 uma sociedade”, sendo na maioria das vezes, não possível de datar. 20 As cidades são plásticas por natureza. Isso faz com que, no fundo, uma re-significação passe a ser um novo cenário para outras re-significações. É um ciclo, onde fonte, meio e alvo mudam constantemente seus papéis e posições. O cenário é parte do processo, sendo a técnica, fora do contexto dele, apenas algo mecânico como produto ou como projeto em folhas de papéis e maquetes, derivados dos pensamentos humanos. Sua real dimensão somente é percebida a partir da sua aplicação. O pensamento é a ideologia e a execução é o que faz o símbolo tomar forma, que faz da essência, existência.

B | Escala – Fragmento e Totalidade Outra dimensão do processo analítico encaminha a compreensão dos estudos. Essa dimensão, assim como a técnica, composta por tempo e espaço, também existe pela composição de duas cadeias associativas. O termo escala já foi usado em demasiado grau nas análises e descrições da geomorfologia da cidade de São Paulo, iniciando, já naquele capítulo, a percepção de que usar essa metodologia, de ver através de recortes variados se faz natural, ou deveria, para entender qualquer espaço. Se o capítulo desejava plena

18, 19. SANTOS, Milton. A natureza do espaço, p. 57 20. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna, p. 17. . POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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compreensão do panorama espacial da cidade, a análise não poderia ser superficial, e para que não o fosse, aproximações e afastamentos foram feitos a toda a hora. Assim como a abordagem de textos pode se encaminhar para uma partitura mais poética, outros tendem a incorporar uma linguagem mais objetiva. Adotar a um e excluir o outro, em qualquer segmento, principalmente quando se fala de arquitetura, faz perder o paradoxo que a disciplina é como existência, ao compor-se, ao mesmo tempo, de materialidade e construção e de dissolução e simbologia. Os elementos constitutivos do que é complexo tendem à oposição, ao paradoxal e ao confrontamento, pois no fundo embutem em si o desejo de uma soma. É essa soma, com a fiel consideração das duas partes, independente de adotar a uma para abordar com mais destaque, que pode trazer a compreensão mais plena do que se deseja. Do mesmo modo, a escala, no fundo, é uma questão problemática, ao passo que deve ser pensada e alisada com a finalidade de escolher por qual víeis uma fonte será enxergada em um primeiro momento. No entanto, cabe dizer que apesar de uma escolha nesse primeiro momento, as outras escalas se fazem indispensáveis no processo analítico e de proposta, pois toda e qualquer intervenção em alguma escala provoca rebatimentos nas demais. Quando algo é observado apenas em escala macro, por exemplo, as pulsações intrínsecas da vitalidade da cidade, tão complexa em suas entranhas, se deixam passar, escapando da compreensão e porque não dizer, quase que sendo ignoradas sem querer. A visão macro deixa margem à interpretação de que nesse grande espaço o tempo é nulo, pois é como se todas as coisas e pessoas permanecessem estáticas para essa observação. É aí que a análise se torna frágil pela indissociável relação entre tempo e espaço e é aí que uma única folha para o traçado de qualquer estratégia espacial perde o sentido, sem ver o que está de fato sob os traços e o que os traços materializados podem acabar por coibir. Na verdade, esse olhar coloca em choque a idéia de cidade, e se há a fragilização da compreensão dessa idéia, quando a análise é transformada em estratégia, tende a não engendrar aspectos vitais para a existência da mesma. Tal como está no livro de David Havey em uma descrição de Jonathan Raban, “a cidade é um lugar demasiado 21 complexo para ser disciplinado dessa forma”. Não deve ser esquecido, no entanto, que a dimensão da escala é algo de composição mútua e que o caminho inverso isolado também traz solução precária. A observação da totalidade é necessária para a compreensão do organismo do sítio urbano como um todo, no sentido 38

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de entender o seu caráter e as condições que ele carrega. A análise da geomorfologia de São Paulo se tornaria fraca se fosse apresentada, por mais que analisada minuciosamente, apenas em seus recortes de perfis, pois foi a totalidade que fez possível enxergar o caráter de composição de drenagem funcional e de mirante poético de unidade espacial, bem como delimitar um perímetro de sítio urbano. Nesse sentido, por mais que ações projetuais sejam feitas em pequenos recortes de terrenos, só se fazem realmente urbanas, ao dialogarem com as macro malhas, introduzindo-se na cidade como algo natural, pertencente e parte da sua lógica. Estendendo a questão para o sítio urbano de São Paulo, quando se olha a totalidade, tem-se numericamente e por perfil de corte urbano, número e imagem que de certa forma assustam ao evidenciar uma diferença altimétrica de 110 metros da cota mais alta à mais baixa, ou seja, do espigão central às planícies aluviais. Entretanto, quando se olham os fragmentos vê-se que as diferenças altimétricas por entre os perfis geomorfológicos ficam em torno de 20 a 40 metros, sendo as de 40 metros mais suaves, em termos de escalonamentos, do que as de 20 metros. No entanto, a micro escala evidencia uma necessidade de projeto que incorpore a transposição entre as cotas à medida que é a escala que se aproxima do indivíduo e compreende sua dificuldade de mobilidade nesse cenário de 20 metros. Essa transposição, deve estar embutida no projeto de tal forma que esse tenha estratégias que considerem e façam refletir em projeto condições para que o sistema de drenagem e a desejável condição mirante de unidade espacial sejam possíveis, abraçando a macro escala. Nesse sentido, além da contribuição da micro escala para com o todo, a soma de bons projetos com estratégias de transposição também contribuem para o funcionamento da cidade, à medida que deixa fluir seus deslocamentos e faz evitar entroncamentos urbanos. Importante é destacar que quando se fala em mirante, se coloca o mirante muito além de sua idéia de contemplação, mas na sua idéia de unidade e continuidade espacial, fatores que contrapõem a segregação do cenário urbano. Quando é entendido que toda a malha é única, é que ela é incorporada, de fato, como um único tecido e com igualdade entre as suas partes, encarando chãos de diferentes planos altimétricos como um mesmo chão urbano. Sendo assim, o processo pelo qual o próprio processo das escalas se dá é o que faz caminhar para o êxito da observação, onde “a totalidade não é uma simples 22 soma das partes (...) a totalidade é a realidade em sua integridade”.

21. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna, p. 45. 22. SANTOS, Milton. A natureza do espaço, p. 57 POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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As partes, os fragmentos, os recortes são tentativas de adaptar o olhar pelo olhar do indivíduo, quase que saindo de um corpo e entrando em um corpo outro de quem se utiliza e necessita daquela espacialidade. É deixar de lado conceitos pré-estabelecidos da realidade particular para admitir-se em outra realidade, como pertencente e dependente dela para compreender suas patologias e colocá-las como prioritárias para qualquer existência. Por isso, que não bastar recortar e fragmentar se o comportamento do olhar ainda for distante, é preciso mergulhar na escala que se propõe a adotar. Isso tem total relação à consideração da idéia macro de mirante como unidade espacial urbana, pois a ausência dessa percepção tende a fragmentar os recortes não somente para uma leitura de escala, mas fragmentar o sítio em espaços como partes distintas, cada uma com dinâmica própria, sem dar importância ao rebatimento com a parte adjacente. Essa não percepção é o que potencializa a segregação do tecido urbano e que pode transcender a divisão do espaço em uma segregação social, considerando a totalidade, aí sim, como uma simplória soma das partes para o todo. Por isso é que o fragmento talvez seja algo instável, por isso que quando se fala em fragmento, ele não tenha um recorte exato, visto que seu perímetro é ora de um tamanho, ora de outro, quando confrontado a um próximo fragmento. Ainda na idéia de adotar o olhar do indivíduo para a observação, se faz crucial entender a postura de humanização que se deseja dar a qualquer observação. Quando se fala em adotar essa ou aquela escala, é no fundo, adotar uma postura para o processo. Por mais que artefatos e meios de deslocamentos sejam utilizados como organismos nas cidades, esses o são conduzidos e usufruídos pelo real habitante do urbano, o ser humano. Quando se inverte o usuário da cidade e se coloca, seja o automóvel ou sejam as edificações, tem-se outra postura que não a condizente com a dimensão humana na cidade. Os mapas, os traçados urbanos e as fotografias aéreas enxergam as grandes construções, não conseguem captar os passos, os apertos de mão, nem captar o movimento labial das conversas. Se não houver a postura de considerar essas técnicas de observação em conjunto com a humanização dos fragmentos, aquilo que é humano se perde. A consideração do recorte enxerga esses passos, vê os apertos de mão e capta os movimentos labiais, mas é quando se aproxima ainda mais, e quase que se coloca nesse lugar da observação, é que os passos e os movimentos labiais ganham som, tendendo à real compreensão do que está acontecendo nas dinâmicas das entranhas da cidade. Quando a noção de que o ser humano deixa de ser a real

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significação da cidade e se assumem protagonistas outros, é que o sentido de pensar a cidade parece se perder. Então, “como propor 23 projetos numa cidade que parece já ter perdido o sentido?”. Pode ser um desabafo de Ângelo Bucci e é desse mesmo arquiteto que pode ser extraída uma exemplificação. O material escolhido para ver a cidade de São Paulo, nessa ocasião, é uma imagem de satélite, que faz algo “impossível” ao congelar, ao mesmo tempo, centenas de milhares de fragmentos espaciais fotografados em um mesmo momento e os juntando, de tal modo, que parece que esse globo, espacialmente constituído por uma esfera, se torne um grande plano. O arquiteto toma essa imagem ainda como uma imagem noturna, onde quer explicar através dos pontos de iluminação a fragilidade do material. A imagem estática com todas essas luzes, na cidade de São Paulo, não faz perceber a movimentação das mesmas, em decorrência dos deslocamentos e, não faz enxergar ou ouvir conversas e passos que estão presentes na calçada. As luzes de maneira estática podem nortear a compreensão da totalidade de áreas mais ricas do planeta, que se utilizam em maior grau de uma técnica universal, podem enxergar núcleos urbanos e ocupações sem infra-estrutura. Entretanto, são as mesmas luzes que, vistas ao longe, fazem coibir ausência de luzes que estão sob esses pontos, coibindo as cotas baixas e os baixios dos viadutos. Essa conclusão da observação da totalidade, por exemplo, se não conferida e comparada a uma escala aproximada pode ocultar retratos de desigualdade urbana em áreas tão próximas. São desigualdades que podem estar sendo coibidas porque o material não evidencia o eixo vertical da cidade, que é constituinte vital da espacialidade paulista. A isso competem as áreas que estão sob as infra-estruturas urbanas dos planos horizontais mais altos da cidade, os espaços que ficam a deriva embaixo dos viadutos de ligações de cotas em níveis. Da interpretação pode ser retirada a noção de totalidade a fim da apreensão das espacialidades quantitativas e de conexões que bairros e infra-estruturas configuram, para com isso, seguir para um novo recorte. Esse novo processo pode ser constituído de novos papéis ou novas fotografias, conquanto que não mais sejam aéreas ou distantes. A importância de ser deixada de lado a possibilidade do olhar por cima do ambiente, como único processo, é vital para que o olhar nos dois eixos

23. BUCCI, Ângelo. São Paulo, razões da arquitetura. Da Dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes, p. 15. POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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seja considerado e que possa compreender as dinâmicas na essência tridimensional da cidade. Entretanto, esse processo não substitui o que Bucci coloca como mais importante: o percurso. É no processo do percurso que a dimensão humana da existência atua, pois tem consigo a essência da experiência sensorial, que é insubstituível quando se fala em humanização. Não fosse verdade, talvez a experiência do passeio de Saint Hillaire pela São Paulo do século XIX não tivesse sido transcrita fielmente no primeiro capítulo da dissertação. Não fosse isso também, Walter Benjamin não se tornaria tão expoente para o estudo da cidade como se tornou ao descrever as sensações do seu flanear que passeava pelas ruas parisienses. A arquitetura vai além da construtibilidade material, existe através da dimensão humana, com isso deve-se ter o devido cuidado para que o avanço de recursos e materiais investigativos não provoquem uma alienação urbana de quem estuda as cidades.

C | Postura Humanizada dos Processos Se técnica e escala são resultados de associações mútuas, sendo técnica como junção de tempo e espaço e escala a junção de totalidade e fragmento, a postura dos processos pode adotar como seus elementos constitutivos próprios, justamente, a técnica e a escala, carregadas pelos seus significados. Isso, porque, como essência, postura está relacionada à idéia de comportamento e que, por tanto, está enraizada na idéia de configurar-se como uma ação para uma determinada fonte, advinda da relação que se tem com essa fonte. No fundo, o que embasa esse comportamento é o processo de postura pelo qual a fonte é encarada, foto escadaria acervo pessoal foto meninos da favela: gacappeleti


composta por um determinado tempo e espaço e por uma localização em relação ao que se observa. A postura é determinante não só no processo de consideração das dimensões da técnica e das escalas, mas no adotar de uma postura de incorporação do indivíduo, de modo a de fato humanizar as possibilidades de ações. O que se coloca é que não importa a escala utilizada em primeiro grau e a usada em associação e comparativo em segunda ordem, mas a humanização de todas as possíveis escalas no processo de observação e de ação, pois somente assim a possibilidade de construção das cidades para aquele que é o principal usuário dela, pode se engendrar. Diante de uma construção ininterrupta da cidade de São Paulo, onde a lógica instaurada acabou por ser aceita e repetida, com construções que de longe dialogam com a necessidade das transposições, tornando a questão dramática, é que o caos gerado pela falta de urbanidade soa como um estopim. Os constantes resultados da construção de um cenário urbano onde problemáticas de cidade se fazem exalar é que parece não haver outra solução, a não ser, resgatar o processo de se fazer as cidades, e portanto, resgatar a discussão de qual a postura que se deve ter para com esse ambiente urbano, seja na temática das transposições, seja em outras ordens da cidade. É claro que esse questionamento deveria ter sido recorrente, sempre feito, estando presente no momento inicial, seja por aqueles que fazem a cidade pontualmente, através de políticas urbanas, projetos arquitetônicos e infra-estruturais, seja por aqueles que constroem diariamente o ambiente de cidade nas suas relações humanas e construções. Talvez a toda essa questão muito se possa atribuir o fato de que o protagonista dessa construção, ainda mais na cidade de São Paulo, foi tudo aquilo que aproximava a cidade a um lugar de produção e trabalho, deixando tudo o que pudesse protagonizar um cenário de vivência e experimentação humana como figurantes. O grande rebatimento que essa instauração de lógica pode ter causado, mais do que um cenário físico de falta de urbanidade, é um cenário psicológico na mente daqueles que vivem a cidade. As ocupações urbanas, o compartilhar do espaço público ou a relação interpessoal das conversas de rua acabaram por parecer desnecessárias e muitas vezes até estranhas ou repelidas por alguns usuários da cidade; da mesma maneira, que intervenções impactantes e degradantes acabam sendo aceitas como naturais e sem questionamentos, por estarem dentro dessa lógica de produtividade. A colocação dessas intervenções, através de exemplificação será feita logo menos. É claro que aqui não se está generalizando, e que ao passo que a inércia dos questionamentos de POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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processos seja, infelizmente, recorrente, existe um contingente que vê a extrema necessidade de, uma vez perdido em um momento inicial, fazer questionamentos da postura de processo. Como saber qual postura foi exercida ao longo das datações das técnicas aplicadas? Uma estratégia seria olhar para o ambiente urbano construído na sua atualidade e confrontar com a idéia de cidade. As patologias, que indicam um vazio da pulsação de dinâmicas do tecido urbano e que claramente induzem a uma problemática de segregação social e espacial, que gera resíduos urbanos, pode alertar que a escala usada na construção da cidade e sua postura podem ter se distanciado do que é humano. Por vezes, a escala utilizada foi tal que inverteu a proporção de construção da cidade, onde um olhar único, a cima e de longe, imaginou que conseguiria incorporar as cidades existentes em cada canto da própria cidade, para propor uma nova cidade, tal como foi feito no primeiro plano urbano paulista, que será explicitado. Claro que, assim como a evolução da geomorfologia permitiu análises e percepções, as cidades construídas foram e vão sendo aos poucos novos materiais para a análise do fazer a cidade. Deve ser por isso que Jane Jacobs diz que:

“As cidades são um imenso laboratório de tentativa e erro, fracasso e sucesso, em termos de construção do desenho urbano. É nesse laboratório que o planejamento urbano deveria aprender, elaborar e testar suas teorias. Ao contrário, os especialistas e os professores dessa disciplina (se é que ela pode ser chamada assim) têm ignorado o estudo do sucesso e do fracasso da vida real, não têm tido curiosidade a respeito do sucesso inesperado e pautamse por princípios derivados do comportamento e da aparência de cidades (...) – qualquer coisa que não sejam cidades reais”24 Faz-se clara a vontade de indagação da postura de processo que foi tida, de modo a tentar entender sob qual ponto de vista essas cidades têm sido construídas e com isso, vislumbrar uma metodologia que pudesse reunir aspectos, que analisados diante de sucessos e fracassos de re-significações anteriores, pudessem propor novos processos e novas posturas de construção de urbanidade. A essa constatação de Jane Jacobs pega-se principalmente o fundamento da tentativa de desestabilização de algo tido como verdade para tentar chegar a resultados outros, diferentes dos insatisfatórios, pautados por aspectos tidos como inquestionáveis. Sendo assim, a partir da constatação de que as cidades tem se afastado do que se 44

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pressupõe para elas como urbanidade, é fundamental, em primeira ordem, mostrar-se apto a enxergar outras formas de cenários a partir da indagação e até mesmo da inversão dos cenários atuais. Sendo os cenários-fonte gerados a partir das ações-técnicas conseqüenciais de alguma postura é, portanto, necessário questionar, no fundo, essa postura. Ainda na pauta do questionamento das verdades absolutas é com muita propriedade que Igor Guatelli toma para si, em seu livro 25 Arquitetura dos Entre-Lugares, uma citação de Michel Foucault que se faz pertinente tanto para ele, como para o momento dessa dissertação. Igor é questionador dos conceitos que são aceitos a priori como absolutos e que com isso não trazem possibilidades outras de situações que, se não, as limitadas por esse sentido. Diante disso, o que ele parece pretender é o ato de questionar enraizamentos, aproximando-se da filosofia pós-estruturalista, que justamente é questionadora dos por quês das estruturas convencionais. Trazendo para o campo da arquitetura e urbanismo, é como se fosse a mudança da estrutura do sentimento que o pós-modernismo trazia sobre a 26 redução do ser humano como algo universal do movimento moderno. Tomando emprestada do livro de Guatelli, é colocada aqui a frase de Foucault que se faz auto-explicativa.

“Se ele [o pensamento] tem em si seu princípio de coerência, donde viria o elemento estranho capaz de recusá-lo? Como pode um pensamento esquivar-se diante de outra coisa que ele próprio? Que quer dizer, de modo geral: não mais poder pensar um pensamento? E inaugurar um pensamento novo? 27

O pensamento pode ser aqui substituído por postura. A fim de uma explicação mais ilustrada é que agora o empréstimo é da percepção de Ângelo Bucci ao fazer um comparativo entre Rio de Janeiro e São Paulo. Ele nota que em termos de perfis topográficos uma cidade é a outra ao contrário, sendo, uma formada por interrupções de vales e a outra, por interrupções dos morros. O processo de ocupação em cada uma das cidades caracterizou-se por jogar á cota que aparentemente não interessava, a população pobre, levando essa população ladeira 24. JACOBS, Janes. A Morte e Vida das Grandes Cidades, p.27. 25. GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual - SP: Editora Senac, 2012 26. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna, p. 45 27. GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual, p. 13 POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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abaixo em São Paulo e morro a cima no Rio de Janeiro. Esse canário construído ao longo da história das técnicas é hoje percebido pelo acúmulo da tipologia das favelas nas cotas altas do Rio e pela falta de urbanidade gerada pela sucessão de viadutos, escadarias e tipologias muradas de edifícios nas cotas baixas de São Paulo. A questão é que quando se trata de cidades, trata-se da coexistência das ordens de classes sociais e econômicas distintas, que invariavelmente pautam as ações e as implantações no espaço. Não somente são colocados à margem aqueles grupos menos favorecidos, como também a essa classe é conferido o caráter de culpa e de impotência a alcançar classes sociais e localidades outras, justamente para que sejam convencidos a permanecer às margens. É com muita propriedade que Alain de Button faz com que se perceba que a segregação social é potencializada por uma tentativa de implantar uma sensação mental de conformismo e impotência, através da recusa, para justificar e acentuar o afastamento dos que estão marginalizados. No fundo, é uma postura de segregação que foi instaurada, e que, assim como a idéia de cidade não para os indivíduos pareceu psicologicamente se instaurar em muitas mentes humanas, essa segregação social, exercida através do meio espacial, também fez com que fosse uma postura aceita na construção da cidade. A questão embutida nessa postura se torna de maior gravidade quando, ao tentar conformar uma população desfavorecida a um local instaurado como geograficamente ruim, se faz instaurar que a essas áreas outros setores da cidade não precisam se relacionar, nem chegar lá, sendo ignoradas e justificadas como resíduos. Essa postura prejudica a idéia de totalidade da cidade, pois ao isolar as diferentes Croqui retirado do livro de Ângelo Bucci da série Razões da Arquitetura.

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áreas, por julgamentos de postura, sem que se proponham interligações entre esses tecidos, ficam prejudicados os deslocamentos, as relações inter-pessoais e as condições de funcionalidade de drenagem e da poética de mirante e unidade espacial. Esse momento de questionamento, que deveria ter sido feito nos momentos iniciais de observações para as ações, é chamado por Bucci de inversão da razão do agora, mas na verdade poderia ser chamado de re-inversão da razão, visto que, na verdade, a razão foi invertida quando se afastou a idéia de cidade para o cidadão. Com isso, na verdade, o que se deseja não é a resposta em si, e sim o entendimento da postura do processo.

Atual foto da Avenida Nove de Julho /fonte: São Paulo Antiga

Proposta para o afloramento do córrego canalizado. Obs. a foto foi armazenada antes desse trabalho, não sendo encontrada a fonte.


3. Re-significações do Lugar do Sítio


“A realidade geográfica é, para um arquiteto, alguma coisa de absoluto e primordial. Para os demais é, de certa forma, uma matéria de escolha ou de interpretação.” 28

Frases soltas introdutórias geram possibilidades múltiplas de interpretações. É verdade que gera o efeito desejado de atenção, pois induz o leitor, com ou sem querer, a buscar os motivos pelos quais a citação foi colocada e qual pode ser o seu significado para o autor, até numa tentativa inconsciente de acertar esse pensamento. Com isso, nunca se sabe ao certo os significados reais que o autor quer imprimir em sua própria citação, mas deve ser reconhecida sua importância justamente para esse processo investigativo de análise e a possibilidade de surgirem outras conclusões particulares. Talvez esse raciocínio tenha sido colocado aqui por uma desconfiança da frase, de alguém que tanto se importa sobre as questões do comportamento humano com a geografia do espaço, parecer não ter em um primeiro momento significados mais abrangentes do que de fato poderia conter. Em sentido de interpretação, talvez coubesse reescrevê-la equalizando o sujeito ‘arquiteto’ e o sujeito ‘os demais’, pois são os dois quem constroem a cidade, ou seja, no fundo, são todos os sujeitos que constroem a cidade. Dessa maneira, a geografia se faz primordial e absoluta, não somente para o sujeito ‘arquiteto’, mas para todos os que nela vão sitiar, não devendo ser encarada como algo opcional a ser considerada. A interpretação dessa geografia também não se relaciona a apenas um sujeito, ‘os demais’, porque antes de tudo, o arquiteto é um sujeito entre os demais da cidade, e suas interpretações também podem ser múltiplas dentro da classe. Equalizar os dois sujeitos é, no fundo, salientar a importância de que todo e qualquer indivíduo, por existência, se relaciona com o meio urbano e que seu comportamento, portanto, sua postura, leva em consideração essa cidade. É aí que o indivíduo ganha voz de ação e também ganha responsabilidade pelo que hoje se conhece como resultado de todas as técnicas que se sobrepuseram e foram dando ao sítio significados ao longo da história. Como indivíduo, qualquer um dos sujeitos é antes de tudo cidadão. Talvez ao sujeito arquiteto caiba responsabilidade e potencialidade de motivar a discussão, tentando fazer com que os sujeitos demais, inclusive ele, questionem-se dos por quês das 28. BUCCI, Ângelo. Viaduto, o Chá e a Metrópole.

________colina fundação

50 anhangabaú______________________

tamanduateí


paisagens urbanas atuais e históricas e se coloquem responsáveis no processo de construção das mesmas. Com isso, tal questionamento poderá levar às raízes das fundamentações tomadas como verdades absolutas e pode ser o pontapé inicial para que a inversão da razão instaurada se re-inverta e, através de técnicas outras, agora com real consideração ao sítio geomorfológico e à idéia de cidade como dimensão humana de existência, façam uma nova datação e resignifiquem o lugar. O sítio urbano e as posturas dos processos foram apresentados antes desse capítulo para que fique mais fácil a associação entre eles no entender das posturas imprimidas, através de técnicas ao longo da historia de São Paulo, no que diz respeito à temática da transposição entre as cotas urbanas. Para isso será tomado o conceito de resigficação e periodização do geógrafo Milton Santos na divisão dos tópicos.

A.

Fundação e Concentração

A primeira técnica que parece dar início a compreensão do processo de construção das paisagens urbanas atuais pode ser relacionada à chegada dos colonizadores europeus no Brasil, que em termos históricos fundaram a cidade em 1554. Vale ressaltar que antes dessa consideração de intervenção portuguesa, uma técnica de relação para com o meio já se fazia valer. A implantação indígena se relacionava com a geografia e tomava uma postura para com ela de relação direta de dependência e consideração. Os índios nativos da região já habitavam o sítio paulista e se utilizavam de sua geografia, não só como sítio a serem implantadas suas habitações, mas no sentido de tomar para si os pontos positivos que essa geografia poderia fornecer, estabelecendo uma relação de postura que considera o sítio geográfico e que, portanto, se relaciona com ele. Os rios são constantes fundadores de cidades, ao passo que contém em sua composição o aspecto básico que possibilita a vida. São também os que possibilitam os deslocamentos no sítio, que é uma dimensão da existência humana. Diante disso, os índios se localizaram na cidade de São Paulo de modo a aproveitar o que seus rios tinham para fornecer, conciliando a característica do rio de secção estreita, da onde retiravam água para consumo, ao perfil do afluente de maior secção, do qual se utilizavam para navegação, instalando-se assim no entre-rios configurado pelo platô da colina tubular entre o Anhangabaú

POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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e o Tamanduatéi, ambos afluentes do Rio Tietê. A chegada dos portugueses mobilizou-se nessa área por questões tanto culturais de domínio dos indígenas, como também de aproveitamento dos elementos fundamentais a vida que os rios tinham por fornecer. O que, entretanto se instaura aqui e que, talvez, possa ser a chave para o entendimento do momento no qual a crônica inversão da razão de comportamento com as cotas da cidade tenha nascido, foi o modo pelo qual os jesuítas conformaram suas construções. Claramente diferentes das ocas indígenas em termos de artefato, a técnica construtiva das capelas e habitações trazidas com os europeus constituíam-se por paredes. Essas paredes materializaram o pensamento jesuíta de que aquele ambiente, onde se conformava aquele pequeno grupo de indivíduos, deveria configurar-se como um sítio protegido, com barreiras que pudessem, através do isolamento e do ato de dar as costas ao entorno, fornecer a segurança para a morada. Nesse sentido, além do intuito da colonização e do usufruto dos rios, aquele platô de colina tubular foi tido e encarado como um lugar seguro que, estabelecendo relação única com ele mesmo, era protegido pelo que foi encarado como barreira física de proteção – os vales, 20 metros abaixo. A segregação estaria nesse momento instaurada, até parecendo ingênua, mas com clara ideologia de que a proteção vem da separação daquilo que é diferente. Ao compreender que os rios orientavam a implantação indígena, pode-se imaginar que esses nativos estariam implantados também ao longo de suas margens, se dissipando para além da espacialidade desse platô, numa mesma relação de dependência que existe do trecho fluvial com suas matas ciliares. É esse o conjunto pré-existente que representa em si uma interligação de caminhos de aldeias que se colocavam ao longo, principalmente, do afluente Anhangabaú. Somado isso à potencialidade existencial que os rios têm como expansão de caminhos, por serem quase que guias territoriais, os jesuítas limitaram, ao se encastelarem em único sítio, as possibilidades de conexões naturais para com o restante da cidade que o rio poderia fornecer. Nota-se ainda que a ideologia de se enclausurar para obter proteção era maior do que a ideologia de se estabelecer na cota mais alta da cidade, fazendo com que os jesuítas não fossem procurar o espigão central, por exemplo. Levando à dimensão das escalas, pode-se dizer que através da postura de consideração do fragmento como parte isolada do todo, a dimensão da totalidade do sítio geográfico fez-se limitar naquela colina e instaurar uma relação de segregação para com o resto do ambiente. 52

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Foi, sobretudo o momento de inversão da razão, ao fechar os olhos para o que eles poderiam naturalmente ver nos vales, e com isso, proteger o campo colonizado, na lógica do ver e ser visto de Jane Jacobs. Diante da ausência de estudos e discussões do urbano que poderiam engendrar uma implantação que respeitasse a totalidade de cidade, o que prevaleceu foi uma postura instintiva carregada por uma ideologia e conceitos pré estabelecidos que elegem a segregação como algo seguro e fundamental. Eis que surgiu então a colina jesuíta, onde hoje é o Largo São Bento da cidade de São Paulo.

B | Expansão da Ocupação Desde essa tal colonização, durante quase trezentos anos, o sítio enclausurado desse platô, que ficou conhecido como Triângulo Histórico, por uma conformação geográfica das ruas que o cercavam, abrigou os indivíduos habitantes da cidade. Contudo, certos expoentes da dinâmica de cidade tomavam forma e à medida que o crescimento demográfico, em função da economia da atividade cafeeira, característica do século XIX, era provocado pela vinda de produtores e trabalhadores da indústria do café, houve a necessidade de expandir territorialmente o sítio paulista, configurado até então em uma colina para alojar uma pequena população. Diante disso, ou seja, de uma necessidade de novas implantações de artefatos de moradia e deslocamentos em um meio geográfico, posturas foram exercendo resultados finais. As cotas da cidade se aliaram à diferenciação das classes sociais de tal modo que a elite cafeeira passou a se implantar nos flancos do espigão central, caracterizados por cotas altas, como por exemplo, o bairro de Higienópolis, e simultaneamente, a parcela mais pobre dos trabalhadores foi implantada às margens dos rios, nas áreas de várzea, pautadas pela lógica de colocar no local de exclusão geográfica, os que são excluídos socialmente. Essa estruturação de bairros nas cotas altas fez com que o que antes era tido como barreira física de proteção a favor passasse, com a expansão territorial, a ser considerada uma barreira física contrária a necessidade de alcançar novas fronteiras e conexões. Com isso, a postura que antes negava a cota baixa numa ideologia de proteção e que a associava ao bom funcionamento da segurança do sítio, potencializa-se e continua a negá-la, agora, em um sentido de que ela é barreira física contrária ao desenvolvimento desse mesmo sítio no viés da cota alta. É claro que a tipologia da cidade faz emanar um sentido construtivo que não é ignorante ao ponto de desconsiderar a POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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necessidade que São Paulo tem em se estruturar através de conexões nas cotas altas, construindo elementos que se caracterizassem como pontes para que o destino de quem partia e desejava chegar a uma cota alta não precisasse descer e subir os platôs. A fonte da cidade traz, involuntariamente, essa resposta de ação urbana e foi nesse sentido que em 1892 foi construída a primeira transposição em nível da cidade de São Paulo, e que não por coincidência conectava os flancos da elite cafeeira ao centro comercial do triângulo histórico da cidade, o Viaduto do Chá. O projeto, feito por Jules Martin, representa a aplicação da técnica a partir de uma necessidade urbana, pautada pela possibilidade de novos recursos mecânicos da indústria, de modo a gerar uma resignificação e rebatimento novo espacial para o local. Através do uso do aço e de treliças, ao viaduto coube uma sensação de leveza e transparência, conferindo-lhe permeabilidade visual que enxergava o fragmento próximo. A impressão que se tinha era de uma rua que flutuava suavemente pela cidade, sem edifícios a emparedar como acontece nas ruas em terra firme. Era um mirante dentro da condição natural de mirante do sítio geográfico, e compunha-se na totalidade da mobilidade de percorrer a cidade. A transposição em nível é um fato derivado da formação geográfica primordial. Por mais que se tente passar aqui a importância do respeito para com a cota baixa, entende-se que o deslocar entre duas cotas altas possa ser feito de maneira direta, em uma conexão horizontal. No entanto, essa primeira formatação do Viaduto do Chá, parece, através da sua materialidade, compreender a composição urbana não só através de um eixo horizontal, mas também do eixo vertical, olhando para a cota que está logo abaixo. É nesse sentido que sua configuração, através de permeabilidade visual, amenização de sombras e ausência de emparedamentos de sustentação, como bem se conhece na atual formatação do viaduto em concreto, fazem evitar os resíduos tão característicos dos baixos dos viadutos, basta ir hoje ao Vale do Anhangabaú. Mais a frente será discutido o porquê da mudança do Viaduto do Chá para uma materialidade em concreto. Jules Martin parece ter conferido uma postura inédita para a São Paulo que era acostumada a recusar a cota baixa, encarando-a como parte e se relacionando com ela. Dentro dessa implantação de infra-estrutura de deslocamento, certas responsabilidades urbanas passaram a ser encaradas como responsabilidades públicas para que estruturassem e possibilitassem

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o crescimento territorial. A lógica capitalista sempre pautou decisões na cidade estando presente constantemente nas políticas públicas. Dentro de uma questão que se faz crônica em São Paulo, havia nessa época o endividamento dos cofres públicos e foi encontrada, por essa instituição, na lógica capitalista, a especulação do território uma resposta para preencher seus cheques sem fundo. A postura de recusa da cota baixa pelos motivos que a cercavam, instaurada no século XVI, foi potencializada durante esse processo de crescimento da cidade de São Paulo, deixando a população carente nas áreas de várzea. Essa medida, em paralelo, acentua o comportamento de esquecimento e recusa da natureza do sítio, principalmente no que diz respeito aos rios. Com a facilidade de expulsar essa população carente que estava às margens, a diretriz da canalização das águas, para que mais tecido urbano pudesse ser aterrado, loteado e vendido, foi argumentada com justificativas sanitaristas. A água começou a chegar às residências dos bairros altos e, como o inteligente Documentário Entre Rios coloca, provocou ainda maior distanciamento na relação se tinha com os rios. Ao não enxergar e não conhecer o processo de abastecimento, a importância das águas fica ainda mais distante dessa população que não as enxerga. Para onde ia a água ao sair das casas da elite como esgoto? Essas águas desejavam ser esquecidas e, por isso, eram jogadas onde estavam as pessoas esquecidas, nos lugares esquecidos, nos rios das cotas baixas. É um deixar à margem tudo que é considerado marginal em seu sentido de não pertencente. Essas cotas baixas, onde estava essa população, são os terraços fluviais, já descritos como componentes da geomorfologia de São Paulo, ou as planícies de inundações periódicas. Essa ultima tipologia faz referência, em termos de nomenclatura, às planícies de inundação (os rios), pois se caracterizam como uma área de inundação periódica decorrente do volume das chuvas, fazendo, em algumas épocas do ano, aumentar o raio dos rios, avançando nos terraços fluviais. Essas áreas, quando tomadas pelas chuvas, que a alagavam, compunham um cenário sanitarista extremamente caótico, desalojando populações inteiras e evidenciando questões de salubridade. Em meio a essa situação patológica, a instituição pública encontra um forte argumento para que a especulação imobiliária pudesse preencher os seus cheques, e que, disfarçada, fosse considerada como uma solução desejada, sendo no imaginário dos indivíduos uma inteligente resolução para um problema que tanto abalava a vida na cidade: as inundações. Como o urbanista Alexandre Delijaicov bem sintetiza, “Os

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argumentos sanitaristas e hidráulicos serviram com verdadeiro objetivo 29 mercantilista”. A tal solução constitui-se, portanto, em limitar o perímetro dos rios, através de canalizações e afundamentos do seu curso, para que a água das chuvas ficasse contida nesse espaço estipulado. No fundo, era uma ação que possibilitava lotear áreas até então conformadas por essas planícies. O que não se enxergou, contanto, era o fato de que a geografia conforma seu espaço para suprir as necessidades naturais do seu próprio espaço, como se a geografia fizesse a própria arquitetura de sua geografia. Se havia uma área naturalmente destinada a abrigar a água excedente do leito fluvial dos rios, a área prevista para o escoamento das águas, ao delimitar um perímetro mínimo, se fez insuficiente e se faz cada vez mais à medida que as áreas permeáveis da cidade se esgotam e que o único destino de escoamento são as 30 secções concretadas. No fundo, “quem criou as enchentes fomos nós”, por achar que se poderia anular uma área destinada ao recolhimento fluvial periódico. Novamente assim, se faz com que os rios participem menos ainda da vida urbana e sejam encarados como um problema que a geografia traz para a cidade, em contraponto à essência que esses mesmos rios têm de origem e abastecimento das próprias cidades. Porque também não relacionar a simbologia que o muro traz consigo fazendo-se presente ao afastar os rios do que é urbano, através de contenções de concreto com altura que chegam bem a cima deles. Essa configuração faz com que os rios não possam ser vistos, entrando na lógica de que aquilo que não é visto, não é considerado como parte da totalidade. Torna-se um fragmento independente, o que em termos de cidade faz com que seja um fragmento residual. É lamentável tal postura de recusa, em detrimento de outra espacialidade urbana que poderia ter sido gerada, caso outra postura de processo fosse adotada. É pouco anterior à época da efetivação da canalização dos rios, que em 1912, outra proposta foi colocada em pauta por Francisco Rodrigues Saturnino de Brito, em oposição à de seu colega da Escola Politécnica, Francisco Prestes Maia, que sugeria o esquecimento desses rios. Saturnino de Brito incorporava a relação com os rios da cidade, onde o grande segredo para a valorização deles, nada mais era do um possibilitar de entretenimento dos usuários para com as suas águas. Isso seria possível ao fazer, segundo Saturnino, um bolsão de parques nessas áreas de várzea 29. Alexandre Delijaicov para o Documentário ‘Entre Rios’, 2009. 30. Odete Seabra para o Documentário ‘Entre Rios’, 2009. ambos acessados em jul/2013, http://www.youtube.com/watch?v=Fwh-cZfWNIc

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das planícies de inundação, que teriam como núcleos a formação de lagos, onde os leitos da trama hidroviária da cidade se encontram. Esses lagos seriam a comporta para as inundações periódicas, onde por exemplo, se tem hoje o Anhangabaú e o Terminal Dom Pedro II, perímetros de constantes inundações ao longo da história de São Paulo. Essa proposta respeitaria a área que a natureza mostra precisar para comportar a água das chuvas em alagamentos periódicos, e que quando alagada não traria as conseqüência de destruição de moradias e afetação do cotidiano das pessoas. Mais do que isso, a proposta mostra um enxergar a cidade como fonte, compreendendo a questão de drenagem que ela embute em sua formação primordial. Ao passo que os rios estavam sendo canalizados, não havendo espaço para a proposta dos lagos e bolsões de parques, coube uma tomada de decisão em relação ao que estava justamente vinte metros abaixo da colina de fundação, o Vale do Anhangabaú e o Vale do Tamanduateí. Encará-los como parque era estabelecer uma relação com a cota baixa, dando àquele fragmento de cidade diálogo com a totalidade, de modo a carregar para eles valores simbólicos de espaço público. Era conformar esses vales como um destino, que poderiam fazer parte do itinerário do percurso urbano, assim como é o Estádio do Pacaembú, por exemplo. O projeto do arquiteto francês Joseph Bouvard que transformava em parques esses vales não foi conformado com fidelidade. Assim como na historia dos registros da Geomorfologia, onde há um ponto de partida para uma temática entrar em pauta e sobre ela serem discorridos estudos posteriores em busca de evoluções do tema, até esse momento não se tem registros quanto às transposições entre as cotas urbanas, assim como ainda não se falava sobre Geomorfologia antes de John Mawe. Muito se pesquisou e se escreveu sobre o Viaduto do Chá e a transposição em nível que ele constituía, porém a pauta das transposições entre as cotas urbanas é escassa nesses escritos. Apesar de se considerar que a maneira pela qual o viaduto foi desenhado interagisse com respeito à cota baixa, não considerar a ligação entre as duas cotas invalida a idéia de cidade como sistema de conexões.

Imagem retirada da coletânia da Comissão de Melhoramentos do Tietê - projeto dos bolsões de parque | planta tietê [1924-25]

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Foto acervo Matheus Martini

E se fosse um parque, tal como o Ibirapuera... ? Mesmo que com elementos àcima dos rios...

“E SE...”

À cima, várzea do carmo século XVII À esquerda, primeira planta de São Paulo em 1810, concentrada na colina de fundação

Parque Anhangabaú e Tamanduatéi no XVII Parque Dom Pedro no final do século XVII retirado do Documentário entre Rios retirado do Documentário entre Rios

Viaduto de chá de Jules Martin. Canalização dos rios retirada do Documentário entre Rios Retirada do Documentário entre Rios. [imagem com resolução precária.]

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ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


C | Plano de Avenidas Entendida a postura de recusa para com a cota baixa, através da negação dos rios da cidade, deve-se entender que ela continuou sendo uma constante e se expandiu ainda mais através daquele que seria o primeiro plano urbano paulista e o grande responsável por rebatimentos da aplicação da sua técnica no tempo e no espaço até os dias atuais. Saindo das mãos do então nomeado prefeito (chamado 31 de presidente da província na época) Francisco Prestes Maia, junto a seu colega da Escola Politécnica, Ulhôa Cintra, o Plano de Avenidas carregava em sua ideologia uma série de significados simbólicos que se queria imprimir para a São Paulo do século XX e foi pautado pelo processo de especulação imobiliária do território e pela indústria automobilística. Prestes Maia talvez seja mais evocado por ter sido, na época, o administrador público representante da instituição, ganhando maior destaque do que o colega, ao colocar em vigor o plano durante seu mandato. Algumas discussões e desenhos já haviam sido feitos previamente por outros administradores, mas foi durante o tempo que esteve no poder público que, de 1938, ano que passou a reassumir esses desenhos ao lado do colega, até 1945, que o plano, derivado das folhas em papel em branco que sua habilidade manual fazia desenhar, teve seu processo de projeto e execução. A responsabilidade de desenhar um plano urbano, que por si consiste em um conjunto de intervenções que remodelam toda uma cidade, composta por cadeias de relações dos seus vários indivíduos e elementos constitutivos, é de certa forma uma grande responsabilidade, ao passo que se torna uma linha tênue entre a compreensão pessoal do que se entende como cidade e a real cidade conformada pelas experiências pessoais de cada um desses todos indivíduos. Os indivíduos, assim como o arquiteto ou, no caso, o engenheiro Prestes Maia, são os tais sujeitos da interpretação da frase de Ângelo Bucci, que devem considerar a geografia, e através de processos interpretativos, discorrerem suas ações. Pelo menos é como se desejaria. Porque para o engenheiro, o sujeito que ele considerou foi ele próprio, com suas vontades particulares de aproximar São Paulo das cidades de modelo europeu, pulando, com isso, a etapa da interpretação geográfica do sítio local em detrimento de um modelo de técnica pronto ao qual ele desejava seguir. 31. MAIA, Francisco Prestes. Estudo de um Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo, p. 10. POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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Havia ainda uma boa parte da elite, os especuladores imobiliários e os investidores das indústrias automobilísticas. Talvez, então, não tenha sido ele o único sujeito, pois esses outros sujeitos pensavam da mesma maneira, cada qual a sua razão. Aos especuladores, fazia valer o capital que seria obtido com a venda dos novos loteamentos gerados, aos investidores da indústria automobilística, o retorno com a compra dos carros e à elite, o ilusório status de morar nos moldes europeus e usufruir do automóvel. Interessante é ver os mais diversos fatos que compõe uma história e as perspectivas pelas quais ela toma forma. Prestes Maia documenta em um livro recheado de imagens de 32 época uma espécie de relato breve das diretrizes do plano e como ele foi sendo implantado. Nas entrelinhas de seus textos quase que é possível imaginá-lo com braços e mãos se articulando, cheio de entusiasmo, mostrando extrema convicção do que estava fazendo. Era, sobretudo, um discurso que falava o que esses sujeitos citados queriam ouvir, ao aliar o plano à idéia de uma cidade moderna, facilitando sua aceitação. Deve-se comentar que a idéia de cidade moderna, nessa visão, era a cidade do automóvel e era ele o privilegiado. Ao passo que os automóveis passam pelas ruas e não as vivenciam, foi dessa maneira que a escala do fragmento com as considerações das vivências nas calçadas, as conversas dos bares e as relações de encontro nos espaços se perderam em meio aos traçados. O que se deixou de lado é que a idéia de cidade do automóvel como cidade moderna já era inadequada, pois o que estaria sendo implantado naquele momento, com base em modelos europeus, já havia sido implantado há tempos nesses lugares. A essência do plano estava em abrir vias para descongestionar as ruas da cidade. No entanto, essa estratégia é um ciclo vicioso, onde essas vias abertas, na verdade, dão espaços para mais carros, tal qual é o exemplo das recentes vias abertas das Marginais Tietê, na cidade de São Paulo. O automóvel particular traz como essência o contrário da essência de cidade. É certo que ele proporciona, em partes, a essência do deslocamento, sendo restrito e entroncado, mas, sobretudo, a relação interpessoal intrínseca do meio urbano é perdida. Tem o carro uma postura de exclusão para o que o rodeia e talvez seja nisso que encontrou seu meio favorável para crescer em São Paulo, tão pautada por comportamentos de exclusão. O plano desconsiderou os processos de dimensão humana, ao passo que pega um modelo europeu de cidade de um determinado tempo e coloca em tempo outro e espaço outro, sem haver, portanto a equivalência devida quando se faz alguma ação em determinado sítio. 60

ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


Essa desconsideração, somada ao fato de que o Plano de Avenidas limitou-se a desenhar os traçados viários da cidade olhando-a de cima, fez com que a relação entre as micro escalas das diferentes cotas altimétricas e fragmentos do tecido urbano não fossem considerados em si e em relação com o todo, tornando o plano frágil em termos de urbanidade. Os modelos de cidades européias pelos quais o engenheiro tanto se baseava continham no plano de suas vias sistemas radio concêntricos, tais como Paris e Moscou, que eram compatíveis à formação concêntrica de seus sistemas hidroviários e ferroviários, onde o segundo compreende a expansão e desenvolvimento da cidade e é conseqüente do primeiro, e o primeiro, consiste-se como ‘fazedor’ das cidades. No entanto, em São Paulo, as ferrovias, que foram instaladas nos terraços fluviais com áreas industriais próximas dos rios, acompanhando-os, não estavam configuradas nesse mesmo modelo, mostrando clara dissociação entre sítio geográfico e ação de infra-estrutura, além de mais uma vez a recusa do sistema hídrico como parte do processo. A confusão entre automóvel e identidade era tanta que a vontade de transformar São Paulo em uma cidade de autopistas acabou por coibir os espaços que engendravam essa São Paulo como cidade, causando o assassinato de locais onde a vivência da mesma se fazia fundamental para a pulsação do indivíduo. Diante disso, o desejo de ter o Anhangabaú como parque articulador de urbanidade se perdeu no sistema de avenidas que Prestes Maia chamou de Y e que tinha seu núcleo nesse recinto de fundo de vale. O encontro interpessoal deu vez para o encontro do automóvel, fazendo do Anhangabaú ponto de origem e destino das avenidas criadas como o sistema Y. A Avenida 23 de Maio, Tiradentes e Nove de Julho, passaram a conectar o centro da cidade ao limite do seu perímetro. Aqui estão embutidas duas questões que se tornaram crônicas para a cidade. A primeira, no que diz respeito ao vale-‘parque’ e a segunda, às vias de cotas baixas desenhadas. Quando se dá esse ou aquele exemplo, não se faz no sentido de descrição, mas no sentido de identificação de posturas. Em relação à nova configuração do Anhangabaú, as vias radiais que se encontravam no antigo parque dificultavam a chegada dos indivíduos naquele recinto. Quando se fala em parque, como o Parque do Ibirapuera, por exemplo, se faz necessário que um perímetro relativo isole infra-estruturas urbanas para que o parque possa se relacionar 32. MAIA, Francisco Prestes. Estudo de um Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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com a totalidade, em termos físicos e de perspectivas visuais, além da conformação da acessibilidade a ele. Ao não considerar o sítio como formação e essência, e em contrapartida, considerar apenas a sua folha de papel em branco, vendo os traçados originais de cima, parece lógico para Prestes Maia colocar em um ponto de diâmetro significativo dentro da cidade, em termos de dimensão e contorno, o encontro e as alças das vias radias que ele criou. Isso já seria uma sentença assinada para o Anhangabaú, não fossem outras duas posturas que acabassem com seu sentido humano de vez. O Viaduto do Chá, outrora tão elogiado em coexistência com a cidade, foi remodelado em 1938, fruto de um concurso, justamente promovido por Prestes Maia, no qual o projeto do arquiteto Elisário Bahiana ganhou por re-configurar formalmente o viaduto. Para o prefeito, não bastava a boa funcionalidade de transposição em nível e a sua leveza para com o entorno da cidade, pois o que ele queria era que esse viaduto, localizado em área central do encontro das avenidas, possuísse o mesmo discurso formal europeu pelo qual ele fazia guiar suas intervenções. É inclusive, sem delongas de justificativas, que em seu livro, usa por vezes o termo “embelezar” para descrever as modificações dessa infra-estrutura. As antigas treliças em aço ficaram na história para darem lugar ao concreto arqueado, que confere à cota baixa do antigo parque tamanha sombra e espaço residual. É bem verdade que se poderia até tirar como um ponto positivo o projeto de mercado de flores, galeria de exposição e sanitários que estariam embaixo do tabuleiro, porém tal reversão do uso do Anhangabaú afastou tanto a escala humana do lugar que essa positividade se perdeu em meio ao que havia de austero diante de toda aquela massa de concreto. O acesso que conecta o piso do Chá com as galerias abaixo dele, através de escadas, se tornava mais um resíduo diante do panorama de abandono humano que estava começando a ser delineado. É dentro desse panorama de modificações de cenários urbanos, que o Plano de Avenidas interfere diretamente nas cotas baixas e nas transposições entre elas. São diversos os rebatimentos que o plano gerou dentro dessa temática em futuro não tão distante. Houve uma re-significação imediata e uma re-significação gerada a partir da relação da sociedade com aquela espacialidade. Acompanhando a sua remodelação, vieram as escadarias, que ainda se concentram no local. São soluções a priori para transpor os níveis do Viaduto para o Anhangabaú. Quando se fala em soluções a priori, antes da atribuição de qualquer sentido pejorativo da coisa em si, está o sentido do não 62

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pensamento ou da não indagação para que se busque alguma solução que possa ser mais coerente. Mesmo que não se encontre tal solução, o questionamento é fundamental, porém, talvez questionar tenha sido algo que realmente não foi feito na aplicação desse plano, que somente copiou modelos. O que se quer colocar aqui, não é ainda uma crítica ao resultado final da implantação da escadaria. Coloca-se na verdade o panorama que se encontrava a evolução do tema da transposição entre as cotas para a construção de bons resultados de ação. Contudo, o que na verdade se vê, é que tal temática encontrava-se inexistente no campo da discussão e, por isso, a justificativa da solução a priori. Poderia acontecer de o resultado ser exatamente o mesmo, se houvesse uma discussão sobre o tema, sendo a postura de processo a responsável pela conformação. Nesse sentido, não há como dizer que, em paralelo, não foi discutida a transposição em nível, pois foi feita com tal exaustão de maneira a promover a remodelação de um viaduto. Esse é um exemplo claro da adoção de uma postura de processo, que mesmo com extensivo debate, foi contrária às questões essenciais e constitutivas da cidade. Com outros cenários não foi diferente. Na verdade, próximo à data de remodelação do viaduto, é que foi desenhado o segundo viaduto da cidade. Dentro do que foi chamado pelo autor do projeto como perímetro de irradiação, era uma estratégia concêntrica na qual ele justificava o desafogamento do transito na região central, caracterizada pelo comércio. Com 1.650.000 habitantes que a cidade de São Paulo 33 reunia em 1938, esse perímetro, que configurava um contorno maior das ruas do triângulo histórico, tinha parte de seu trecho composto por viaduto maciço de concreto. Eis aqui, portanto, uma compreensão que justifica a incompatibilidade entre o sistema viário radial concêntrico, adotado por Prestes Maia, em relação a sua formação original dos rios nos fundos de vale. À medida que os rebordos dos rios, já canalizados, orientaram o desenvolvimento da cidade, seja da classe mais pobre nas imediações, seja da classe mais rica, nas cotas altas das colinas, ambas se utilizaram do rio e de seu vale como orientação para seu desenvolvimento, até inconscientemente. À medida que o traçado concêntrico ignora esse fato, estabelece cicatrizes sobre ele. À luz dos rebatimentos do Viaduto do Chá, o Viaduto Maria Paula, originário do Plano de Avenidas, provoca conseqüências tais que também distanciam o lugar da urbanidade ao adotar as mesmas configurações e soluções de transposições para o segundo viaduto paulista. 33 MAIA, Francisco Prestes. Estudo de um Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo. p,12 POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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Outros viadutos também foram construídos sobre as vias arteriais do sistema Y, na verdade, uma porção deles. Essas vias consistem, em si, mais uma representação da postura de exclusão dos rios. Os leitos fluviais dos córregos da cidade, como o rio Saracura, sob a feita Avenida Nove de Julho e o córrego Itororó, onde está a 23 de Maio, por exemplo, não representaram qualquer empecilho para que suas canalizações fossem feitas para dar lugar a uma via arterial. Fato é que não foi pensado um traçado urbano que englobasse os córregos e os fizesse presentes na cidade. A postura de aterrá-los veio em paralelo à possibilidade que essa ação traria de mais tecido urbano para loteamentos, uma vez que o procedimento era facilitado pela possibilidade tranqüila de desapropriação da população mais pobre, que estava às margens, diante das imposições da instituição pública. O discurso de que essas vias trariam facilidade para que os automóveis desenvolvessem suas performances em direção às vias marginais principais da cidade, era pautado justamente pelo fato de estarem em fundo de vale. Essa configuração fez com que, quase em totalidade, não fossem feitos cruzamentos no nível das vias, potencializando seu caráter arterial de fluxo rápido. Os cruzamentos foram, na verdade, viadutos que transpunham em cota alta e que, portanto, não ocasionavam paradas no trânsito nas avenidas. A inversão da postura é tão irônica, que para atravessar para o outro lado das avenidas, há de se usar passarelas, subindo-as e descendo-as para percorrer uma mesma cota. Essa idéia ganhava cada vez mais sentido, para quem nela via vantagens, e até para uma população que era cada vez mais coagida a acreditar que São Paulo se encaminhava para a modernidade. “O carro em São Paulo é carregado de uma carga simbólica que talvez 34 não seja em outros lugares”, por isso que se valer do argumento automobilístico era sempre boa saída para os empreendedores, que no fundo, também pareciam ser seduzidos por esse meio de transporte e á idéia de status que ele tentava trazer consigo. O que está embutido em toda essa questão é o que seria gerado como urbanidade para a cidade de São Paulo com essas intervenções, já que foi algo instaurado em praticamente todo o tecido, com a sucessão de vias concêntricas cortando as vias radiais de modo a gerar uma série de viadutos residuais. Cabe aqui pedir licença à Prestes Maia com seu olhar superior, que vê somente de cima, para VERacidade. Olhar para os seus layers em separado e em conjunto para enxergar o que passaria a acontecer embaixo dessas infra-estruturas que cegam 34. Documentário Entre Rios, 2009.

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olhares superiores, numa composição de eixo horizontal e vertical. Ver algo além do que é considerado como esteticamente preferido para entender que a cidade não funciona a partir de uma imagem, e sim cria sua imagem a partir de seu funcionamento. Abaixo, sempre abaixo, estão aqueles que historicamente foram colocados nessa posição, que foram convencidos a estarem lá e que, por isso, conformam-se nessas áreas encarando-as como local para viver. São os resíduos da cidade. Resíduos que se encontram com as mesmas patologias dos resíduos que se vê nos muros. É nesses locais que se encontram grandes proporções de isolamento, ausência de dinâmica de atividades e encontros de diversidade, e é aí que o espaço deixa de existir como cidade, sendo considerado por essa cidade algo além da própria cidade, fora de sua lógica. As diferenças de cotas em si são algo tão à margem e fora da lógica, que poeticamente falando, até hoje, se apresentam ainda em terra e mata dentro de um contexto todo pautado por construções. Configuram-se como lugares da não possibilidade e da falta de segurança, ao passo que os olhares que vêem e são vistos são cegos e inexistentes, muito aquém da pulsação do indivíduo. E se é adjacente aos viadutos que muitas das escadarias, que fazem as transposições das cotas urbanas, estão, esse é o cenário que também é encontrado nelas. Ás escadarias faltam materiais de discurso ou descrição, sendo apresentadas apenas em desenhos do Plano de Avenidas. Feitas da mesma materialidade das conexões em nível, essas escadarias apresentam-se nas mais variadas formas, largas ou estreitas, paralelas ou perpendiculares aos arruamentos. São, no entanto, semelhantes no que diz respeito à falta de uma infra-estrutura de suporte quanto à iluminação e seus guarda-corpos são como conformações de muradas. Suas pisadas são estreitas, seu percurso, cansativo e medroso. No fundo, foram duas as condições de cidade esquecidas, a cota baixa em si, e a transposição para a sua cota alta. O que interessa aqui é tratar sob o ponto de vista da técnica aplicada, mostrando que essa datação de implantação do Plano de Avenidas, somada aos outros dois momentos de re-significação, fez instaurar um panorama de rebatimentos, que até outra técnica ser aplicada, irão perdurar por tempos. Não existe uma data cronológica que localize no tempo o exato momento que a degradação dessas áreas residuais ficou evidente, justamente pelo fato desse ser um processo conseqüencial de uma ação precisa, datada pelo Plano de Avenidas. Se hoje existe um panorama que grita por socorro, no quesito

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das áreas das transposições, há de se perceber que houve grande falha ao não se considerar os elementos constitutivos de cidade. E se a cidade é feita por tentativas que provocam os erros e acertos que Jane Jacobs pede que sejam olhados, para pautar novas atitudes de projeto, parece que apesar da escassez da discussão da temática da transposição entre os níveis há uma significativa quantidade de material de resultado urbano para analisar. É nesse sentido que talvez caiba à cidade uma nova aplicação de técnica que pudesse marcar uma nova postura para com a transposição entre as cotas urbanas e com isso engendrar possibilidades de urbanidade. É pensar o que podem ser essas escadas além de sua solução a priori de vencer níveis através de uma sucessão de degraus. É à arquitetura que possa caber esse engendrar, justamente pela potencialidade de colocar em pauta o tema da transposição dentro da cidade. No entanto, de nada servirá a arquitetura com a mesma postura, mas uma arquitetura que se aproxime do tema e use as dimensões humanas e os elementos constitutivos para buscar novas estratégias que possam reverter o cenário dos resíduos urbanos. A Arquitetura como Transposição Entre Cotas Urbanas não se reduz a um objeto, e sim às estratégias espaciais novas, provenientes de questionamentos das verdades absolutas que podem, passando a ser incorporadas, resultar em uma série de intervenções nos mais variados terrenos e infra-estruturas urbanas existentes. É no fundo, a tentativa de re-inversão de uma postura que se utiliza de valores e de questões da arquitetura para tentar resgatar o senso de cidade, que foi e está sendo perdido e dissociado dos seus usuários. Imagens retiradas do Documentarios entre rios; do livro do Prestes Maia, mencionado a cima e acervo pessoal.

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Viaduto Nove de Julho.

Viaduto do ChĂĄ remodelado.

Viaduto Nove de Julho.

TĂşnel Nove de Julho.

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Imagem da Planta do Plano de Avenidas retiradas do livro do Prestes Maia, mencionado a cima.

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D | No Contexto da Cidade Território As tais avenidas de cotas baixas e os viadutos modelados no Plano Prestes Maia passam a ser fragmentos da cidade, carregando consigo os outros fragmentos das transposições entre as cotas e dos baixios dos viadutos. São todos esses, feitos em momento específico e com postura específica, submetidos à outra postura: a postura de consideração do papel da cidade como um todo. Pode-se dizer que essa postura se isola da visão macro de cidade. “Para o bem ou para o mal, [a cidade] o convida a refazê-la, a consolidá-la numa forma em que você possa viver nela. Você também. Decida quem você é, e a cidade mais uma vez vai assumir uma forma fixa ao seu redor. Decida o que ela é, e a sua própria identidade será revelada, como um mapa fixado por triangulação”.35 A interpretação de Jonathan Raban, colocada por David Harvey em seu ‘Condição PósModerna’, pode ser emprestada para ilustrar esses vários momentos de consideração da cidade. Pode também se referir à maneira como o próprio sujeito encara essa cidade. As intervenções no meio urbano, por vezes, estão diretamente ligadas ao papel que eles estão configurando, assim como o Plano de Avenidas dialogava com uma idéia de cidade para a época. Se esse papel constantemente assume novas interfaces, suas intervenções também o deveriam assumir, na tentativa, inclusive, de corrigir posturas de modelações feitas outrora. Dentro da discussão das transposições entre as cotas e em níveis, não há outra datação significativa que não seja a do Plano, nada que pudesse dialogar com as transformações que a cidade de São Paulo, em termos de consideração de seu próprio papel como cidade assumiu. Nesse sentido, ainda resta no hoje, os rebatimentos de uma época passada, com considerações passadas, que tornam ainda mais residuais as áreas de transposições, principalmente no que diz respeito ao eixo tratado no trabalho final de graduação em questão, a Avenida Nove de Julho e suas cotas adjacentes. Talvez valha fazer assim como fez Massimo Cacciari. Talvez valha uma retrospectiva dos diferentes papéis da cidade, porém de forma sucinta, para entender qual o papel que se tem no hoje em São Paulo e como as cotas baixas e suas transposições existem meio a tudo isso. Tal retrospectiva, talvez, ajude a entender como duas condições do urbano, quase como se fossem dois elementos constitutivos, coexistem, co-existiram ou não co-existiram nos papéis de cidade. Essas 35. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna, p. 17 POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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duas condições, chamadas aqui como elementos constitutivos, podem ser o que Cacciari coloca como a mobilidade da produção e a noção do lugar do habitar, que se entende como uma ordem dupla de desejos, “desejamos a cidade como ‘seio’, como ‘mãe’ e em simultâneo, como ‘máquina’, como ‘instrumento’. (...) Querer ultrapassar essa 36 contraditoriedade é má utopia”. As noções de uma e de outra nasceram junto às primeiras noções de cidade, através da Grécia, com sua pólis grega e de Roma, com 37 a civitas romana. À primeira, a pólis grega, a noção de cidade como lugar do habitar, lugar da morada, onde a terra assumia forte papel de propriedade e pertencimento, fazia da cidade algo formado como sede, na qual seus cidadãos eram acolhidos e deveriam compor-se em uma mesma razão étnica de semelhança. Tais fatores se fizeram cruciais para que a idéia de cidade como enraizamento, como algo quase que sanguíneo, se instaurasse para os gregos e por isso, a cidade era quase imutável em termos de perímetro, visto que aquelas seriam as dimensões consideradas suficientes para atender aos seus habitantes de semelhança étnica. Diferentemente, a civitas em Roma ideologizava em sentido inverso. A civitas era a cidade formada a partir da relação de vivência de seus civis, de seus cidadãos que vinham de etnias diversas, por vezes expulsos de suas cidades, e que se confluíam através da concordância das leis. Nesse sentido, a cidade se fazia como ambiente secundário, onde a vivência era pautada por essas tais leis, chamadas por Cacciari de concórdia. O valor de enraizamento era nulo, a noção da terra como pertencente e quase intransferível também, e foi assim que a cidade foi encarada como um pano de fundo para o que se pretendia como estratégia de vivência e produção, mais do qualquer noção de pertencimento. A civitas, diferente da pólis, queria se expandir, era mobilis, eliminava as suas próprias fronteiras para conquistar fronteiras outras e fazer valer suas leis e suas estratégias. Pólis (cidade) origina polítes (cidadãos), civitas (cidade) é originado de civis (cidadãos) e foi justamente essa relação gramatical de origem e derivação que constituiu as noções de cidade na Grécia e em Roma. Se à pólis for atribuída a noção da micro escala, da humanização e do olhar aproximado e à civitas o olhar totalitário, de macro escala e sem consideração daquilo que é humano e fragmentário por natureza, logo percebe-se a insuficiência na existência de uma e da outra, que considera apenas um dos elementos constitutivos de sedeinstrumento, seio-máquina. É da essência psique do ser humano a idéia de pertencimento, de reconhecimento da sua própria dimensão, 70

ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


mas também é de sua essência a existência de prática de suas atividades e seus deslocamentos. É nesse sentido que ignorar uma ou a outra é insuficiente para a qualidade urbana da vida nas cidades e se contrapõe à lógica de vivência de quem habita essa cidade. É à idéia de civitas mobilis que a expansão da cidade de São Paulo e a própria ocupação jesuíta parecem se associar. É á continuação do modelo de civitas mobilis que o Plano de Avenidas pode se fazer pertencer, onde a intenção de eclodir naturalmente as duas dimensões de existência da cidade ficaram em detrimento de uma prevalência de sua interface como algo a se destinar somente à produção. Verdade seja dita que além da produção, a idéia de mobilidade também se fez instaurada na intervenção do Plano, que, aliás, tem como partido justamente os arranjos de mobilidade da cidade. A questão é novamente, qual o usuário dessa mobilidade, que foi o automóvel e não o cidadão, e com isso, a mobilidade de questão vital para a cidade, que é a transposição entre as cotas e nas mesmas cotas foi resolvida a priori. Ao papel da cidade que se teve no Plano de Avenidas, é o papel característico da idéia de cidade Metrópole, continuação da idéia de civitas mobilis, onde o que a rege são outros dois elementos constitutivos, nada humanizados: a indústria e o mercado, que destruíam tudo o que pudesse impedir a produção. A essa indústria cabem tanto as construções destinadas diretamente à produção, quanto as vias arruadas de Prestes Maia que, à sua maneira, faziam possíveis a produção e valorizavam a indústria automobilística. Ao mercado, cabia o processo de especulação e loteamento, grande responsável inclusive pelas quadras superdimensionadas para a escala humana, que além de dificultarem qualquer transpor de vias, colaboram para um cenário de falta de urbanidade. Não é por acaso que, “a quantidade de ruas e esquinas é determinante na qualidade dos territórios: quanto mais ruas e esquinas, mais aprazível o ambiente urbano”, como mostra Alan Jacobs no livro de Carlos Leite. Isso faz ver 38 que o “mais importante é a rua” e que sendo as transposições ruas com composição vertical e horizontal, cabe pontuá-las não com intervalos por demasiado longos, onde estão as escadarias, mas com sucessões intervaladas minimamente de modo a conferir a essas transposições a vitalidade e a urbanidade das39 ruas. Também é no livro de Leite que a colocação de Rem Koolhaas dizendo que no fundo, nas cidades, o

36. CACCIARI, Massimo. A Cidade, p. 7. 37. Idem, p. 8 38, 39. LEITE, Carlos. Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes. Prefácio. ( citação de Alan Jacobs e de Rem Koolhaas, respectivamente). POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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que existe é um problema de escalas e que o desafio é equacionar os interesses em jogo, quase como um tabuleiro complexo e com inúmeros jogadores de interesses diversos, clama pela associação daquilo que é essencialmente civitas com aquilo que é essencialmente polis. Aquilo que é simbólico, humano foi e vai sendo substituído por um viés de produtividade. Há uma clara troca do que é tradicional e de identidade, ficando delimitados para a preservação da memória 40 os centros históricos, pois aquilo que é feito no novo nada tem de proximidade com o humano que possa lhe atribuir identificação. A identidade que se quis construir com o Plano de Avenidas é uma identidade de imagem de cidade, não de pertencimento do indivíduo, pois quando se constrói algo fora da dimensão humana, destinado apenas para a mobilidade, é que a identificação fica defasada, pois o usufruto de tal artefato é feito para produzir para alguém e não para si próprio. Qual seria, então, a consideração da existência das transposições entre as cotas urbanas e das cotas baixas em si, no contexto atual de cidade? Para levantar a questão é crucial entender qual o papel e o contexto de cidade que São Paulo, assim como outras cidades, estão vivendo. A fonte desse pensamento também é tirada do livro de Cacciari, onde ele faz seqüenciar os vários papéis de cidade, que aqui foram assumidos como fonte de embasamento para todas as relações e conclusões com a temática já apresentadas e a apresentar. Para começo de conversa, as cidades metrópoles se transformaram em pós-metrópoles, ou em cidades-territórios. A mesma ideologia de expansão de cidade sob a concórdia de leis da velha civitas mobilis é o que rege o ambiente urbano dos territórios, porém o que na cidade romana era um crescimento definido, espacial, com começo e fim, no território é contínuo e sem demarcações. É, sobretudo, “um espaço indefinido, homogêneo, indiferente nos seus lugares, onde se dão acontecimentos que se baseiam em lógicas que já não correspondem a 41 um desenho urbano de conjunto”. O território está totalmente associado à rede de comunicações, sendo o alcance dessa rede o que acaba por limitar. Como essa fronteira é algo a ser vencido42constantemente, no fundo, os territórios tendem a se desterritorializar. As delimitações, outrora espaciais, são agora apenas administrativas e que cada vez mais enfrentam dificuldades e não conseguem planejar, justamente por essa perda de mensurar o espacial. As funções não podem mais ser pragmaticamente dispostas, pois são todas simultâneas, podendo acontecer a qualquer momento do tecido, no centro ou na periferia, 72

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sendo inclusive centro e periferia palavras que aos poucos vão perdendo o seu significado pragmático de localidade. É nesse sentido que a cota baixa e as transposições entre as cotas acabam por se configurar, novamente, fora da lógica da cidadeterritório. Dentro do que hoje se entende como contínuo e homogêneo, as cotas baixas são verdadeiras rupturas que fazem lembrar, através de suas transposições marcadas, o mensurar do espaço que já não mais está em lógica. No contexto de cidade território, onde as periferias já não são mais consideradas como tal, as cotas baixas são, talvez (ainda), as periferias da cidade. Mas não as periferias dinâmicas, que se auto-organizam, repletas de atividades, e sim, periferias deixadas à margem, sem qualquer indício de vida urbana. A temática se faz tão excluída, que o perguntar sobre ela em relação à distância ainda se faz presente em um momento onde o questionar se faz sobre o tempo. O território é hoje moldado pelo tempo, não se pergunta mais a qual distância e sim quanto tempo uma rua da outra está e, no entanto, a condição de segregação entre as cotas faz, a quem para lá precisa passar, constantemente lembrar os 20 metros espaciais que se devem, sem urbanidade, percorrer. Configuram-se fora da lógica, pois a rede de comunicações não é algo que não permeia essas cotas baixas, tão próximas de suas cotas altas, fazendo com que a fronteira se faça, sobretudo, no campo da postura de processo de negação. Até a produtividade, algo tão sobressalente nas posturas exercidas para com a cidade de São Paulo, quase inexistem na cota baixa, tão esvaziada com térreos abandonados e espaços residuais, que geram mais ainda esse panorama. A dimensão humana da existência, que se faz através da noção do habitar, do lugar, da sede e do seio, também se faz perdida, no entanto, ela parece se perder não só para a temática, mas para a cidade-território como um todo. É possível viver sem um lugar? Habitar onde não existem lugares? A rede de comunicações que faz de todos tão presentes em todos os lugares faz com que o ser humano tenha noção de sua própria presença? “É possível a 43 eliminação do espaço enquanto formos corpos”? Dentro de um contexto quase anti-espacial, a dimensão do espaço, do palpável, do pertencente e do humano fazem valer o que é a dimensão física mais primitiva do indivíduo. É no tal do lugar que as relações interpessoais podem ocorrer com mais intimidade, onde o descanso em meio a toda essa produtividade pode se fazer perene e onde o silencio precisa ser por vezes instaurado, como uma válvula de escape meio à turbulência do produtivo. No entanto, é preciso

40, 41,42, 43. CACCIARI, Massimo. A Cidade POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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decidir que seja dessa forma, é preciso reconhecer a outra interface do urbano, a do espaço de convívio, que soa perene na mobilização da multidão. Não se fala aqui do lugar da exclusão. Fala-se de um lugar de agregação, um momento antes do momento mais íntimo do indivíduo em sua morada. A falta do apego com a noção de lugar fez com que a existência, por vezes, seja encarada nos extremos, ou em seu contexto de cidade, onde se é mais um na multidão, ou em seu contexto de exclusão total de morada, onde esse se faz único e principal. Nisso, a dimensão dos espaços/lugares públicos, onde o indivíduo tem presença tanto quanto os outros indivíduos, foram deixados à margem no que diz respeito a sua importância e freqüência. Talvez às cotas baixas e nos cenários residuais das transposições entre elas e suas cotas altas adjacentes, essa idéia de não-lugar tenha sido mais potente. Em outras cotas da cidade ou em outros momentos do tecido, por mais que não se esteja em lugar público, onde se possa perceber a si como indivíduo de importância e de mesma importância para com os demais, exercendo relações interpessoais diretas ou indiretas, ainda sim se está rodeado de gente. Por mais que se possa se sentir mais um naquele meio de contexto de cidade, onde quase que se é levado por inércia junto a um contingente grande de pessoas que não se relacionam diretamente, ainda assim há gente, há urbanidade e há possibilidades de descobertas de lugares de dimensão humana em meio a esse tecido. Por mais que se esteja no Viaduto do Chá em meio à multidão, as escadarias do Teatro Municipal se fazem como um recorte público de lugar, onde se possa parar e perceber um pouco mais de si próprio e do indivíduo, antes de voltar para a leva de pessoas do viaduto. No entanto, quando se está logo abaixo, no Vale do Anhangabaú, por mais que o contingente de pessoas seja reduzido quase ao extremo, e justamente por causa disso, a proporção entre a conformação do vale para com a escala humana, não faz nem com que se perceba a si como dimensão humana, nem como indivíduo em acolhimento. Torna o indivíduo perdido meio àquele espaço sem saber qual o seu real papel ou qual o papel daquele espaço. Mais ainda pode se sentir perdido na Avenida Nove de Julho, perto de sua conformação do centro da cidade, onde tamanha ausência de usos e pessoas, portanto de urbanidade, faz com que se perceba a exclusão total do indivíduo em relação ao resto da cidade. A grande questão, porém é que tal exclusão não é compatível com a exclusão da intimidade do indivíduo, pois esse não está em seu íntimo, está em um espaço de cidade, e diante disso torna-se solitário em um ambiente onde se presume a 74

ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


coexistência de pessoas. Essa é a grande propulsora da insegurança que faz com que esse indivíduo sinta-se fora de escala e medroso diante do cenário que está a sua volta. A cidade só pode ser habitada quando se propõe a ser de fato habitada, quando disponibiliza de forma gentil paradas, respiros e confraternizações em formas de lugares para que seus habitantes se percebam como pertencentes da cidade. É preciso entender que dentro de uma questão de complexidade por natureza, as respostas das estratégias arquitetônicas e urbanísticas para essa cidade não podem, e nem mais conseguem, ser redutivas. Dissociar mobilidade, produtividade e lugar compromete a existência de qualquer artefato nessa cidade. É nesse sentido, que dialogar com as escalas que englobam essa existência pode contribuir para a busca de discursos que se materializem como, de fato, urbanos na cidade. É nesse sentido ainda que, a batalha da diferenças de cotas possa ser traduzida como arquitetura e infra-estrutura e que com isso traga consigo o ato de transpor, de produzir e de estar em um lugar de acolhimento, fazendo com que as relações de passagem e permanência possam tentar sintetizar uma dinâmica de cidade.

vale do anhangabaú

nove de julho

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4. Re-invers達o da postura


imagem de projeto feito em outro ano da faculdade.


“Como propor projetos numa cidade que parece já ter perdido o 44 sentido?” “Trata-se de (...) procurar ativar o pensamento crítico por intermédio de um questionamento de estruturas estáveis do pensamento, visando um deslocamento de pressupostos teóricos e conceituais que perfazem e que ainda atestam e prescrevem o 45 fazer arquitetônico.” A combinação entre as citações dos arquitetos Ângelo Bucci e Igor Guatelli, quase que como pergunta e resposta, culminam na busca da desconstrução do pensamento para recuperar o significado de cidade. É, além de ‘apenas’ fazer novos questionamentos, colocar questionamentos de novas pautas. São essas novas pautas, que quando colocadas em evidência, se fazem incorporar e não mais serem deixadas de lado pelos que habitam a cidade. Se dentro da busca de questionamento está a tentativa de reencontrar o significado de cidade, introduzir a pauta das transposições entre as cotas urbanas parece ser uma estratégia, tanto pela discussão escassa que se tem a respeito do tema, quanto pelo que ele carrega como essência dentro da existência de cidade. Claro que essa única temática não é suficiente para resolver todos os problemas do urbano, afinal nada deve ser pautado e considerado apenas como fragmento, sendo imprescindível que outros tantos temas da cidade sejam colocados ou recolocados na mesa de discussão. Além da consideração de vencer a diferença das cotas como algo constituinte do deslocamento, assim como previsto pela Constituição em 1988, ao garantir acesso a todo o território, lidar com o obstáculo da diferença de cotas se faz essencial para que as atividades dos indivíduos nos campos econômicos, sociais e de lazer possam se desenvolver. Se não há uma vontade de ter como destino a cota baixa para uma parcela da população, que cronicamente a renega, a cota alta é destino para quem está nas regiões de vale. A conexão pragmática ao colocar escadarias ao lado dos viadutos ou soltas pelas quadras das cidades foi uma intervenção urbana que causa patologia em termos de tratamento de cidade, onde o caminhar por ela é encarado não mais A imagem anterior é de acervo pessoal e se refere à projeto acadêmico de outro ano e que carrega alguns significados presentes na dissertação. 44. BUCCI, Ângelo. São Paulo, razões da arquitetura. Da Dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes, p. 24 [já citada] 45. GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual, p.13

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com o prazer do flaneur, mas num sentido de obrigatoriedade, que faz perder a dimensão da poética humana. Privou-se, com isso, o caráter das calçadas e é a esse tecido de calçadas que se estendem as escadarias, constituindo-se no fundo como calçadas verticais, parte do passeio público. Ao passo que é desconsiderado o caráter de espaço público das calçadas e das escadarias de transposição, perde-se a idéia de que esse espaço é a extensão do indivíduo, onde ele exerce suas atividades. Quando se perde a dimensão da cidade como casa é que ela se torna estranha e distante para os indivíduos que não a vêem como parte de sua identidade, com isso não a incorporam e dela não se utilizam com prazer. Ilustrando essa questão, o geógrafo Eduardo Yázigi coloca em seu livro, O Mundo das Calçadas, essa alusão de casa-cidade ao relatar um comentário diante de uma exposição-concurso, que ele mesmo organizou. Tal concurso, cujo título era “A Cidade também é sua Casa”, pedia que fotógrafos retratassem o que não queriam ver destruído nas suas cidades. Isso gerou uma pergunta de uma 46 jornalista: “mas a cidade também é minha casa?” Cabe colocar aqui que à falta de identidade soma-se outra questão que dificulta o referido questionamento: o cotidiano. É o cotidiano, que pelas repetições das relações e dos comportamentos, não faz sobrar tempo ou razão para que se questionem as bases desse próprio cotidiano. É nesse sentido que aparece a frase: “O meu conhecimento pode estar seriamente comprometido pela rotina, 47 hábitos ou estereótipos”. Claro que essa não abertura ao pensamento diante do cotidiano pode se relacionar, muitas vezes, ao fato de que os indivíduos da cidade nem tem como noção a real dimensão de seu significado, por não estarem acostumados a vivenciá-la. Por isso é que aos arquitetos, urbanistas e administradores públicos cabe a responsabilidade de instigar os indivíduos da cidade, não somente com discursos, mas com projetos em que os discursos estejam embutidos, para que até sem perceber, a noção de cidade ganhe identidade na vida das pessoas que irão usufruir esses locais. É nesse sentido que se coloca a arquitetura como agente dessa transposição entre as cotas urbanas. Muito por entender que a ela cabe uma concentração de discurso que encara a essência de cidade como algo existencial no urbano. É, sobretudo, um novo processo resultante de um questionamento de pauta e postura, a fim de se estabelecer um novo cenário. 46. YAZIGI, Eduardo. O Mundo das Calçadas, p.48 47. VELHO, Gilberto. “Observando o familiar”. – A Aventura Sociológica. Objetividade, Paixão, Improviso e Método na Pesquisa Social. Rio de Janeiro: Zahar POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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A | Arquitetura como Transposição entre Cotas Urbanas Dentro disso, o que se coloca aqui é que a arquitetura possa embasar as transposições entre as cotas urbanas do sítio de São Paulo para evitar os espaços residuais configurados por elas. É bem verdade que, sendo infra-estruturas urbanas, as escadarias das atuais transposições não deixam de ser arquitetura. A questão que se aborda aqui, então, é a do embasamento da arquitetura no seu sentido mais amplo de possibilidades, que não as trazidas como a priori e que nessa situação se reduzem a uma tipologia estética e uma conexão banal. É um questionar do sentido de arquitetura na constituição do seu próprio significado, verificando o que pode, através dela, ser engendrado para além do que é pragmático, sem deixar de ser infra-estrutura urbana. Dentro disso, a principal questão que se deseja romper é o caráter de resíduo que essas estações de transposição configuraram, muito em função de serem uma conseqüência do que os viadutos trazem como inóspito, mas também por representarem conseqüências de sua própria formatação. Quando as escadarias não são adjacentes a viadutos, também são representados cenários de abandono. Se está no deslocamento uma atividade da essência humana, como poderia um lugar, onde foi projetado algo que possibilitasse justamente esse deslocamento, se tornar algo tão sem identidade e de configuração residual? Independente dos adjacentes viadutos que potencializam esses resíduos, fez-se perceber que, assim como os elementos constitutivos da existência são formados por situações antagônicas, mas que se complementam, tais como fragmento-totalidade, tempoespaço, horizontal-vertical, é ao deslocamento desses locais que devem ser atribuídas possibilidades de permanência. É através de uma combinação gerada por diferenças que se consegue fazer com que, a todo o momento, existam no local os olhares que Jane Jacobs nos ensinou, pautados por diferentes atividades em um mesmo espaço. É nesse sentido que está a potencialidade da arquitetura, pois pode ser múltipla em elementos e conter a multiplicidade desses próprios


elementos, provendo em um mesmo espaço, diferentes dinâmicas, de modo a gerar a pulsação que um lugar tem de ter para existir. Quando se estabelece uma arquitetura que é ao mesmo tempo fragmento e totalidade, permanência e passagem, mobilidade e lugar, e que faça essas associações ocorrem em um mesmo tempo durante tempos diferentes, dentro de seu espaço, é que se consegue o caráter múltiplo que está embutido na idéia de cidade como relação dos indivíduos. A multiplicidade dessa arquitetura está na essência da temática. Essa arquitetura aparece muito mais como uma combinação de estratégias do que como formalidade de artefato, devendo ser, sobretudo, resposta aos questionamentos urbanos e não constituindo em si uma receita ou um rebatimento de projeto, conformando-se a cada situação geomorfológica e de contexto no qual está inserida. É nesse sentido que vem à tona, mais uma vez, as tais posturas do fazer a cidade, porém re-invertidas, para na verdade zerarem ao que deveriam ser. A configuração final dessa arquitetura independe. O que realmente importa é a adoção dos processos em sua maneira aproximada de cidade. É a compreensão da geografia somada à humanização propriamente dita das posturas, de tal modo a proporcionar um lugar a se apropriar. Cabe começar, então, entendendo, antes de tudo, quais serão as atividades que irão gerar essa contraposição com as ações de passagem. O programa na arquitetura é constituído de combinação de atividades que geralmente giram em torno de uma mesma temática. Quando se tem um cinema, por exemplo, é preciso amparálo com algumas atividades que o façam funcionar, sejam atividades necessárias, ou aparentemente não tão necessárias assim. Dentro das atividades necessárias está o que pode comprometer a funcionalidade, como a administração e a bilheteria, e o que não compromete, como o foyer e os costumeiros cafés. Não compromete? Essa afirmação não poderia passar sem um questionamento, afinal é do ato de questionar Abaixo, trabalho acadêmico anterior com temática de transposição entre as cotas urbanas

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que se está tratando. Portanto, o que é essencial, de fato, para o funcionamento de uma determinada atividade? Será que são somente essas questões aparentemente mais vitais que são de fato vitais? As relações de maior significado dos indivíduos no cinema não ocorrem dentro da bilheteria ou na sala de administração, mas sim, no foyer e nos cafés. É nesses lugares que as pessoas, diferentes, vão em horas diferentes assistir a filmes diferentes com propósitos diferentes. É nesses ambientes que elas se encontram, se olham, são olhadas, realizam suas relações interpessoais e geram a segurança do próprio ambiente. Ignorar a importância desses lugares é reduzir os espaços à sua funcionalidade a priori, assim como reduzir as transposições às escadarias. De mesmo modo, quando, saindo desse fragmento de projeto e o transpondo para a totalidade, enxerga-se que dentro desse todo ele pode ser macro em seu significado urbano. Dessa maneira, o programa da arquitetura na sua totalidade, não precisa se reduzir a uma única atividade, como o cinema por exemplo. Algumas pessoas vão ao cinema, mas mais pessoas vão a um lugar que além do cinema possa conter outra atividade. Esse outro contingente de pessoas, que se interessa por essa outra atividade, se soma aos amantes do cinema e as pessoas que simplesmente se deslocam para vivenciarem todos a experiência do encontro dentro desse espaço conjunto de atividades. É nesse sentido que a arquitetura como transposição pode gerar urbanidade. É claro que é essencial a boa resolução da conexão entre as cotas, afinal é, uma infra-estrutura urbana de deslocamento. Cabe aqui indagar, então, se são as escadarias as melhores soluções para transpor a média de vinte metros entre as colinas e os terraços fluviais do sítio. Há de se ter, com isso, atenção devida, pois é um deslocamento que gera em grande parte das pessoas, principalmente em subida, sensação de cansaço e desconforto. Pensar em usufruir das técnicas mecânicas de elevadores e escadas rolantes se faz essencial para fornecer ao cidadão as condições de deslocamento fluido. A partir dessa consideração, o elemento da escadaria pode entrar em outro contexto que também é fruto de questionamento. A escada, assim como outros elementos projetuais, pode ganhar novo significado ao ser engendrada de outra maneira, que não com dimensão e configuração que a caracterize apenas como uma estrutura de passagem. Chama-se atenção para a multiplicidade de significados que um mesmo elemento de projeto pode ter e possibilitar. Isso vai totalmente ao encontro da multiplicidade de cidade, onde esse elemento pode comportar as mais 82

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diversas ações que os mais diversos indivíduos podem conferir em um mesmo espaço. Com isso, as escadas, que por ora eram só passagens, podem se tornar, porque não, mobiliário urbano, ao serem ao mesmo tempo bancos e platéia. Essa nova função permite a vivência sensitiva da arquitetura, aproximando a categoria dos indivíduos, que por vezes a encaram como algo distante e intocável. Aqui toma forma o título do livro Arquitetura dos Entre - Lugares que tem incrível sensibilidade de perceber a potencialidade do entre na arquitetura. O entre-lugar de Guatelli é um espaço sem programa a priori, que gera múltiplas possibilidades ao ser colocado entre duas situações programáticas, que mesmo antagônicas, se relacionam através desse espaço. É como se fosse um elemento surpresa, ao qual não se pode projetar as ações humanas que serão rebatidas ali, afinal acaba se tornando um local de n possibilidades, ao justamente não designar nenhuma. A atenção que se deve ter é que essa ausência é pautada por presença, diferentemente da ausência das escadarias das transposições do sítio de São Paulo. Há nesse entre-lugar uma reunião de questionamentos e conceitos, um parar para pensar arquitetura. Saindo da escala do projeto e indo para a escala da totalidade, é importante observar, como muito bem coloca Ângelo Bucci, cujas conclusões, aliás, são sempre motivadoras e inteligentes, que São Paulo na verdade, possui mais do que um chão em cota baixa e um chão em cota alta. O chão da cidade é o que ele chama de “chão 48 espesso”, cuja espessura tem aproximadamente 20 metros na região central. Essa constatação chama atenção para o fato de que os entrelugares das cotas são um único componente urbano, que como térreo, tem por essência o caráter público de pertencente do tecido da cidade. É nesse sentido que as tais atividades múltiplas dessa arquitetura infraestrutural devam ser públicas nesse térreo espesso, de maneira a conferir o real acesso dos indivíduos. Com isso, é possível, com o perdão do trocadilho mais uma vez, transpor esse entre-lugar para o espaço da transposição pautada pela arquitetura. Ao considerar que essa arquitetura infra-estrutural está localizada entre uma cota alta e uma cota baixa, embasadas por uma programação, além da conexão, pode haver um entre-lugar de arquitetura infraestrutural, onde as possibilidades dos espaços de entre-lugar de Guatelli se configuram e podem engendrar a mesma potencialidade de encontros e situações surpresas, afinal “A vida é a 49 arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. 48. BUCCI, Ângelo. São Paulo, razões da arquitetura. Da Dissolução dos edifícios e de como travessar paredes, p. 20. 49. PESSOA, Fernando POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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B | Quanto à Urbanidade – Cenário Destacado Dentre os vários vales da cidade, aqui um será destacado no intuito de pautar suas transposições para com as cotas altas e o panorama de sua urbanidade, resultante de um conjunto de resultados de resignificações do lugar. É a esse capítulo que o tópico pertence para que, depois de colocada a questão da arquitetura como transposição, associações quanto a sua potencialidade como infra-estrutura possam ser feitas quase que de imediato à medida que patologias dessa área forem colocadas em destaque. Não deixam de serem estudos de caso também, mas aqui essas transposições terão análise potente à medida que serão sempre destacadas em meio ao contexto e à medida que serão naturalmente comparadas por serem colocadas em seqüência. Não se trata de um mapeamento, nem das transposições, nem do entorno, é uma tentativa de chamar atenção para um resultado de cidade, onde essas infra-estruturas de conexão aparecem com freqüência e são somadas a uma quantidade significativa de viadutos e arquiteturas de muradas. O vale que se coloca é extensão do Anhangabaú e compreende o que, na formação geográfica da cidade é o córrego do Saracura, que nasce no flanco do espigão da Avenida Paulista e se conforma entre as altas cotas para chegar a seu destino final, onde deságua abaixo do Anhangabaú. A região de cota baixa, em suas significações de lugar primeiras, foi marcada por povoamentos de operários e populações de baixa renda que se ocupavam das áreas de várzea, marcadas por extensos matagais. Com a re-significação do Plano de Avenidas, o córrego foi retificado e aterrado para dar lugar a uma das vias radiais do sistema Y, a Avenida Nove de Julho, que além de ligar o Anhangabaú à Paulista, vai até a Marginal Pinheiros. Os matagais deram lugar a loteamentos e o vale se viu coberto por viadutos em concreto que transpunham em nível as cotas altas. Durante esse trecho, Anhangabaú-Paulista, justamente onde o córrego hoje só é visto por bueiros, é que se deseja recortar e pautar a urbanidade. O trecho da Paulista até a Marginal não será analisado com minúcia, por não corresponder ao mesmo panorama, uma vez que as cotas adjacentes a Av. Nove de Julho nessa região tem menor diferença altimétrica e não compõe um cenário constituinte ou necessário de transposições entre cotas, nem de viadutos. Dentro do recorte a analisar, cabe perceber uma possível divisão para que o estudo fuja do genérico ao ser em demasiado abrangente, utilizando-se do método de análise fragmento-totalidade, tempo-espaço, 84

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para captar posturas de processos. Talvez haja, contudo, uma maior abordagem para um de seus trechos, que compõe o pior panorama de urbanidade e que é, inclusive, local do projeto acadêmico. Contudo os fragmentos a serem analisados em si e em totalidade compreendem a Av. Nove de Julho, da Paulista até o começo do Viaduto Dr. Plínio de Queiroz; ao longo desse viaduto; e do final dele até o Terminal Bandeira. A divisão não é pragmática, mas sim, interpretativa, perante o assunto ao qual se quer conferir. O primeiro trecho, Paulista – Viaduto Dr. Plínio de Queiroz, já configura um quadro interessante de analisar, pois compõe cenário que, por si, exemplifica o comparativo de urbanidade nas cotas altas e nas cotas baixas. Isso porque o local é a cota mais baixa adjacente à Avenida Paulista, onde por baixo dela, a Nove de Julho continua em túnel para a direção da, ainda distante, Marginal Pinheiros. À céu aberto, porém “rio fechado”, caminha sentido aos outros dois recortes, rumo ao Anhangabaú. Logo nessa adjacência, a céu aberto, é possível perceber um conflito urbano moldado pela somatória de viaduto, transposição entre cotas e espaços públicos residuais. A cota baixa da avenida, cuja relação foi respeitada com a cota alta da Avenida Paulista, inicialmente, pela condição de mirante conferida ao térreo do projeto do MASP, se perdeu com a construção de um viaduto quatro anos depois da construção do museu. A consideração da geomorfologia da cidade como condição de projeto do museu, ao integrar visualmente as duas cotas teve sua potencialidade deferida com a construção de um viaduto em 1972, fruto de traçado paralelo à Paulista, para desafogar o seu transito. A esse viaduto, de nome Professor Bernardino Tranchesi, são conferidas novas re-seignificções. A condição de mirante do térreo do museu se fez quase que totalmente interrompida por essa barreira física. É como se, além da perda da totalidade de mirante da cidade, o ponto de condição do mirar para a totalidade e para a cota baixa tivesse perdido a escala humana e fosse transferido para esse viaduto. No entanto, quem mira, a partir do viaduto, são os automóveis que por ele passam, sendo à escala humana algo incompatível de atribuir esse sentido, dentro de um contexto estreito de calçadas, buzinas, fumaça e ausência de mobiliário urbano. Na verdade, não colabora nem para a unidade da totalidade, pois representa em si uma cicatriz urbana. Além dessa fragilidade, são pontos de não-urbanidade as transposições entre as cotas que acontecem nesse trecho. A necessidade do deslocamento pelas escadas que ligam a Nove de Julho ás ruas paralelas, que são alças de acesso para a Avenida POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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Paulista, ao invés de potencializar o uso dos bolsões de calçadas públicas configurados ali, se tornam quase que inertes a eles. Isso ocorre devido a duas questões. Uma delas é a fragilidade de reunião de pessoas que uma escadaria como essa tem como capacidade, se comparada à potencialidade de uma conexão de arquitetura infraestrutural. Caberia até pensar aqui na possibilidade de um projeto de transposição que pudesse englobar além dessas duas cotas, a cota da Praça Rodrigo Lefreve, em frente ao MASP, e a própria cota da Avenida Paulista, conectando múltiplos platôs da cidade. No entanto, tal fragilidade de conexão acaba por não gerar a permanência que se desejaria aos espaços públicos dos bolsões. É bem verdade que, além da ausência de atividades programáticas, os bolsões se encontram, como espaço público, em uma área onde a pulsação para tal condição se torna quase impossível de acontecer. Tais bolsões são mais um lugar entre do que o potente entre-lugar, pois estão praticamente enclausurados entre um acesso de túnel de automóveis, sob um viaduto de automóveis e frente direta para uma via de automóveis, que inclusive priva o acesso ao outro lado da avenida, pela condição de via arterial de automóveis. Isso não os dá o caráter público da existência, pois os torna incapaz de acumular pessoas para permanência. Não há conforto sensorial no ambiente, não há o que e nem para quem olhar. O que diria Prestes Maia dessa conexão a que se pretende no estudo, se não pudesse colocar suas cascatas e suas fortalezas de concreto, com colunas destacadas, como as desses verdadeiros paredões que seus bolsões fizeram existir na Nove de Julho. É fácil crer que ele nunca tenha sido visto sentado nesses espaços, que considerou como públicos, mas com certeza por horas passava a ver seus desenhos comprimidos na escala de suas folhas de papéis, que o afastavam bastante dessas condições de não urbanidade. O trecho analisado não conforma uma diferença topográfica tão acidentada como a colina de fundação da cidade, pois a diferença das cotas é escalonada. Menos confrontamento topográfico ainda se faz no trecho que entrará agora em destaque, e que compreende as adjacências da Nove de Julho ao longo do Viaduto Dr. Plínio de Queiroz. Na verdade, essas adjacências são como se fossem terraços fluviais que rumam para a parte alta das colinas da Bela Vista e Bairro do Bexiga, de um lado; e do outro, o Bairro da Consolação. É justamente esse escalonamento ligeiramente mais suavizado, por caracterização geomorfológica, que não conformou viadutos que cruzassem a Avenida Nove de Julho, por uma questão de altura básica 86

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que os viadutos devem sobrepor. As transposições entre as cotas urbanas através das escadarias são mais escassas nesse trecho, quase inexistentes, são as próprias ruas perpendiculares que acabam sendo caminho através de suas inclinações naturais (não que isso substituísse a necessidade de infraestruturas arquitetônicas de transposições, seria preciso questionar a pertinência caso a caso). Se dentro do que se colocou como essencial para as arquiteturas de transposição estavam configurações que permitissem além do deslocamento, a permanência pautadas por diferentes atividades, pode-se dizer que, em tais condições de pequena amplitude altimétrica, as ruas acabam por desempenhar de modo satisfatório essas transposições. No fundo, as ruas são por natureza uma reunião de térreos ativos que embasam um deslocamento verticalhorizontal. As transposições das entre cotas são nada mais do que ruas em um chão espesso público, com a diferença de que as técnicas mecânicas são substituídas pela inclinação das ruas, enquanto os artefatos de transposição podem muito bem utilizar das rampas para trazer essa sensação de percurso arruado urbano. Tomando essas ruas como estruturas urbanas de transposições, a condição de espacialidade que se deseja para engendrar a conexão entre as cotas, no sentido de estratégias espaciais, se perde quando elas sofrem as re-significações do Viaduto Plínio de Queiroz, construído em 1970. A condição de escalonamento suave poderia até fazer imaginar a ausência de viadutos no local, como realmente não foram feitos no plano concêntrico da década de trinta. Porém, a lógica automobilística grita e aqui faz uma nova re-significação de lugar ao implantar o viaduto longitudinalmente na própria avenida. O intuito era desviar os veículos que precisassem apenas passar pela avenida dos que precisassem permear pelos bairros. Tal viaduto causou uma série de conseqüências, principalmente às tais atividades de permanência naturais conferidas ao vale e àquelas ruas inclinadas, pois os resíduos do viaduto, a segregação físico-espacial e a concentração de uma população colocada à marginalidade acabaram por tornar a região evitada e aos poucos abandonada, sendo cada vez menos praticadas as atividades daquelas calçadas de extensão dos indivíduos. Basta caminhar por ali, na condição de fragmento-escala humana para ver os térreos das lojas fechados e os muros dos edifícios residencias que, à sua lógica, se protegem de tudo que foi colocado como marginal, acabando, inclusive, por potencializar a degradação. A condição de espaço público como algo que embase a vivência na cidade e da própria temática da transposição se fragiliza à medida que POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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o viaduto colocou em cheque um espaço ícone do bairro, a Praça 14Bis, trazendo para a ela toda a questão de resíduo, sombra, inutilidade e enclausuramento entre carros, que tanto foram responsáveis pela morte do Anhangabaú. Os mirantes que haviam sido conferidos, inclusive por um bairro cujo nome, que não por acaso, é Bela Vista, se encontram bloqueados pelo viaduto, assim como o viaduto que bloqueou a condição de mirante do MASP. A gentileza que a natureza conferiu ao local ao ser mais suave em suas transições de platôs acabou sendo perdida à medida que as ações humanas acabaram por inverter suas posturas. Ao último trecho de análise, configuram-se outras características constantes. A seqüência de viadutos que cortam transversalmente a Avenida Nove de Julho, a sucessão de escadarias e o parcelamento das quadras; ações quase que em totalidade derivadas do Plano de Avenidas, com exceção do Viaduto da Radial Leste, inaugurado em 1971 pela gestão de Paulo Maluf, diga-se de passagem, com filosofia automobilística, tal qual Prestes Maia. É um desses viadutos em seqüência, que, inclusive, foi o segundo viaduto do sítio urbano de São Paulo, apenas depois do Viaduto do Chá. O Viaduto Maria Paula faz parte do que foi chamado de perímetro de irradiação pelo Plano. Parece ser esse o trecho onde, ao aproximar-se como escala humana, constate-se maior quantidade de áreas residuais e inversões de razão em relação aos outros dois. Aqui, cabe uma descrição do caminhar para aproximação do que realmente sente a escala humana quando precisa passar por essa região, tal como fez Saint Hillaire ao retratar o seu percurso. Precisa, porque aqui é o retrato fiel da relação de negação à cota baixa, onde nenhum espaço público ou acesso para tal fora conferido, onde os espaços residuais e os paredões configuram cenas de medo e violência e onde não há nada que se classifique como atividade de permanência. O que se quer é quase que passar correndo por essa região, onde além de tudo não se vêem rajadas de Sol, nem tão pouco outra coisa que não empenas de prédios e paredes de contenção de concreto. Qualquer dia de Sol se torna mais gélido nesse lugar e qualquer sensação próxima à angústia e confinamento pode ser atribuída aos que por esse trecho de vale precisam caminhar. Os viadutos somam-se em quatro, quase que agrupados em dois, onde o intervalo entre esses dois se faz mínimo, aproximadamente de um lote. A sensação de confinamento se potencializa à medida que, além de ter nas cabeças de quem passa a ausência de ver e de ser visto, ter nos os lotes intermediários, ao inverterem a razão, nenhuma possibilidade de ver e ser visto por alguém, compondo-se em muros, 88

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sem nenhum indício de entrada, já que ela se faz pela fachada na rua de cota alta, ou terrenos inteiros vazios residuais. É quase que um nada perdido no meio da cidade, um vazio sem significado. É na verdade muito menos do que um vazio, pois um vazio ainda pode ser um entre-lugar, é uma massa de sobreposição de camadas que quase engolem esse pedestre que por ali atravessa. É aí que a ausência de identidade de um lugar o faz ausente em significado, com isso, se distanciando ainda mais da escala humana no sentido poético, além do que já faz distanciar no sentido espacial. Quanto às transposições entre as cotas urbanas, há um cenário diferente do qual foi descrito no trecho anterior, pois as ruas que nele faziam, através de suas inclinações, a conexão com as ruas de outras cotas, aqui não existem. No trecho marcado por esses viadutos, são eles os únicos que fragmentam as quadras, portanto, não há ruas de conexão, o que faz diminuir mais ainda a escala humana, ao passo que o contato entre deslocamento e a permanência das atividades dessas quadras é diminuído pela ausência de caminhos. O contato do deslocamento para com as atividades da quadra, dessa maneira, se faz a distância, por cima, e longe de adquirir alguma relação de dependência e significado. É, justamente, essa não dependência que potencializa a fragilidade dessas quadras e que faz com que os muros dos edifícios sejam constantes, pois ao passo que não há relação humana, os térreos perdem a sua essência de existência como espaços públicos. A configuração desse trecho da Avenida Nove de Julho se faz parecida com a colina que fundou a cidade de São Paulo, em termos de geomorfologia, onde os escalonamentos mais suaves do trecho anterior dão lugar aqui a confrontamentos de cotas mais expressivos, fazendo de uma infra-estrutura de transposição algo vital. Para suprir esse quadro, é o trecho que contém o maior número de escadarias, que como já visto, acabam por acentuar mais ainda a condição de resíduo urbano, tanto por estarem implantadas soltas nas quadras, como a que conecta a Nove de Julho à Rua Caio Prado, quanto por estarem adjacentes aos viadutos, como é o caso das escadarias do Viaduto Maria Paula. Essas escadarias adjacentes conformam-se de duas maneiras nesse trecho, as de percurso perpendicular ao vale e as que formam seus caminhos paralelamente à avenida. Vale destacar ainda, que a negação com a cota baixa se refletiu mais do que nas muradas dos térreos, mas em sua própria configuração espacial. Tanto nos edifícios que tem a possibilidade de conformarem seus acessos para a rua paralela de cota alta POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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quanto nos que apresentam único acesso para a Nove de Julho, é uma constante perceber como sua volumetria e arranjo espacial se configurou em blocos extremamente sólidos em termos de poética e espaço, acentuando o confinamento na região. No primeiro trecho descrito é comum ver prédios altos, com extensas larguras, suficientes para bloquear qualquer perspectiva, ainda que espaçados por recuos laterais. Já no segundo e terceiro trecho da avenida, além da altura conferida aos prédios, é constante a ausência de recuos laterais, que só aparecem em escalonamento a partir de certa altura. Isso potencializa a sensação de confinamento, não deixando nenhuma perspectiva a vista, nenhum vestígio de que essa cota exista para o restante espacial e nada que lembre a condição existencial de mirante. Claro que a questão dos recuos é discutível, por configurarem-se, às vezes, como resíduos espaciais, mas nessa discussão há de se considerar fatores que permeiam o lugar, tais como a geografia e o entorno. Se analisados os prédios de Franz Heep de frente à Praça Roosevelt, sem recuos laterais, a situação já outra, visto que de frente a eles não há uma caixa de rua de aproximados 35 metros, e logo depois outra empena de prédios. Há uma conformidade espacial configurada por uma praça símbolo, que afasta construções próximas e há também o que está atrás desses prédios, mas isso já é outra história. A colocação desse exemplo não se fez no sentido de defender ou atacar a questão dos recuos e sim evidenciar a necessidade de consideração do sítio. Talvez a discussão nem precisasse chegar à questão dos recuos, caso a preservação da condição de mirante fosse respeitada. Por fim, outra constante que deve ser apresentada é a própria dificuldade de atravessar a avenida em nível pelos pedestres, por vezes tendo que subir as passarelas para atravessar algo que poderia ser feito em nível, tudo para não atrapalhar o fluxo arterial destinado ao antigo córrego do Saracura, mostrando que a essência do deslocamento na cidade sempre foi encarada como algo a ser feito pelo automóvel e não por quem de fato a habita, que são os indivíduos. primeiro trecho

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av nove de julho_ paulista ao terminal bandeira

primeiro trecho_pr贸ximo ao masp

segundo trecho_pra莽a quatorze bis

terceiro trecho_pr贸ximo ao anhangaba煤

terceiro trecho

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5. Arquitetura como transposição. Transposição sem Arquitetura.


Dentro da complexidade constitutiva dos elementos, ao texto, o interesse de compor-se em poética e técnica se faz plausível ao tentar aproximar a discussão conceitual das possibilidades. Possibilidades tais, que em um primeiro momento interessam as que se materializaram e não se materializaram, no intuito de enxergar possíveis respostas estratégicas através de distintas posturas adotadas, percebendo a relação entre postura e processo. Entretanto, cabe também, um outro momento, feito em paralelo, de separação entre projetos que foram materializados e que não o foram, para investigar a relação entre a postura de processo de quem projeta para com a postura de quem aceita e usufrui. A condição de aceitação é dada, de início, por um contingente pequeno de habitantes da cidade, entre os quais podem ser destacados os que participam dos tramites de legitimação de obras públicas ou os que geram construções particulares, através de processos especulativos, mesmo que essas tenham caráter públicocomercial. A postura desse grupo em viabilizar ou vetar projetos, acaba por potencializar a relação que a sociedade virá ou viria a ter com determinada tipologia estratégica arquitetônica. O que se quer dizer é que alguns projetos que ficaram no papel, por representarem uma postura diversa de quem os viabilizariam, poderiam, ao materializarem-se, engendrar um comportamento dos indivíduos para com aquele espaço que pudesse potencializar a postura de processo que ele carrega. O engendrar aqui não se faz no sentido de exercer controle ou de condicionar, visto que as manifestações particulares dos sujeitos são suficientemente fortes para acontecerem ou não onde se sentiram a vontade. O engendrar surge através do pensamento de fazer possível esse ‘se sentir a vontade’, onde possam ocorrer acontecimentos e manifestações desses indivíduos. Quando a postura do projeto é a mesma de quem o viabiliza e ele se materializa, a potencialidade também acontece, restando investigar se de maneira positiva ou negativa dento das questões das escalas da cidade e da aplicação das técnicas perante a localidade geográfica. Talvez, posturas concentradas nesse pequeno contingente possam ter engendrado a postura de uma sociedade em termos de contingente majoritário, por vezes excluindo experiências de outras posturas que poderiam ser vividas, caso o veto ideológico não tivesse acontecido. Ao vetar projetos como o projeto original da Estação São Bento, que trazia consigo uma infra-estrutura de transposição com um elemento programático arquitetônico, que pensava na condição geográfica como fonte e aliava a dimensão humana do lugar através de uma 94

ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


condição programática e a dimensão da mobilidade e produtividade através da transposição; e viabilizar as escadarias de caráter residual espalhadas pelos vários cantos da cidade, em nome de sua condição estética, sua falsa alusão à mobilidade e do seu pouco pensar sobre a questão topográfica da cidade, é que esse contingente privou um comportamento perante esses espaços, fazendo gerar um resultado de extrema falta de urbanidade. Talvez seja colocada aqui uma parcela de responsabilidade do panorama urbano da cidade para esse grupo... As análises virão no sentido de fazer o caminho inverso, partindo do resultado de urbanidade (ou falta de) para investigação dessa postura na tentativa de aproximar a suposição de que a humanização do processo e a consideração da cidade como fonte, junto com a arquitetura como algo que embasa a infra-estrutura urbana, possam ser o caminho a ser buscado. É impossível desconsiderar Jane Jacobs ensinando a todos que o planejamento urbano deva aprender e se renovar no laboratório das cidades, através dos resultados das materializações dos planos e artefatos. Entretanto, diante da escassez de bons resultados urbanos com o que já foi feito, serão esses referências como o que se quer mudar e os projetos arquivados ou intenções de novos projetos os que se querem adotar como referência de discussão de urbanidade.

A | Percurso: Escadaria da Av. Nove de Julho, Galeria Prestes Maia e Estação São Bento do Metrô. As experiências de percurso na cidade se incorporam aos indivíduos. A cidade vem para dentro de casa, por mais que se tenha tentado deixar clara a dimensão de cidade e de lugar. A cidade entra em casa no cheiro da roupa, na sujeira do sapato, na sede da boca e no cansaço das pernas e vai sendo deixada à medida que as atividades da morada vão se desenrolando. À medida que se tira o sapato, se toma água e se abandona a roupa que usou para entrar no banho e descansar. No entanto, a cidade ainda fica. Não sai por completo pelo ralo do banheiro. Nos momentos de exclusão e individualidade dentro da morada, ainda se refletem os momentos do dia urbano, através de pensamentos, reflexões e extensões das atividades diárias, onde um pouco da produtividade da cidade é trazida para dentro de casa. A cidade ainda perdura até a hora que se dorme, para quando acordar, vivenciar um novo dia de cidade. Habitar os fragmentos da cidade que contenham as tais transposições entre cotas urbanas, a fim de viver suas urbanidades, ou falta de urbanidades, e a fim de tentar vivê-los como lugar, se faz natural POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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quando se quer falar sobre eles. Além de soar como prepotência, não vivenciar esses lugares para alguém que tanto fala da humanização dos processos, pode fazer perder o sentido humano e as possíveis impressões que só a experiência do percurso pode carregar. Os livros, por mais que tentem, não conseguem ser fiéis ao que se passa nos lugares, não conseguem demonstrar cheiros, vozes, sensações de cansaço e com isso, não conseguem fazer sentir o que realmente se sente nesses lugares. Nem essa dissertação conseguiria. Porque o que se sente é relativo, muda de pessoa pra pessoa, muda de atividade para atividade que a pessoa exerce no lugar. Por mais que a seguir se relate um percurso cheio de impressões, isso nunca substituirá a impressão pessoal de quem está lendo, nem substituirá a impressão de quem nunca leu sobre o assunto e ouve falar da temática ou de fato vive essa temática no seu dia-a-dia. Seria, então, por demasiado contraditório querer que esse relato se fizesse suficiente para quem está lendo ter a real dimensão e sensação dos lugares, entretanto, consegue trazer um panorama comparativo de urbanidades. Traz sim impressões, traz sensações, traz sentimentos e tenta, com muita vontade, mostrar o que foi sentido no percurso, a fim de contar e dividir esse processo de aproximação com esperança de que seja ouvido com credibilidade. Para isso, tentar-se-á descrever, ao máximo que der, os tais cheiros, as tais vozes e a sensação de cansaço pessoal. Entretanto, a vivência de um cenário de cidade em apenas um dia não substitui uma vivência diária desse alguém que dorme e acorda para viver uma tal cidade todos os dias. A condição patológica das cotas urbanas que foi enfrentada em um dia para uma atividade de estudo e de relato do percurso não é a mesma da atividade diária ou da atividade periódica de um lugar. Foi por isso, que o olhar do percurso se ateve ao máximo para capturar os indivíduos das mais variadas atividades, nos seus mais variados personagens, e contar as sensações urbanas através dos seus cheiros, vozes e cansaços. Que comece o relato...

A | 1. Escadarias da Nove de Julho na altura do Viaduto Maria Paula Plano Prestes Maia, 1938-1945. As Escadarias da Nove de Julho, tão massacradas na dissertação quanto à sua urbanidade foram colocadas à prova. São escadarias que se fazem presentes desde o trecho próximo à Avenida Paulista, como dito nas descrições do capítulo dos cenários destacados. Justamente pela escala do fragmento é que foram escolhidas duas para caminhar, 96

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a escadaria que liga as cotas da Rua Álvaro de Carvalho e Av. Nove de Julho, diferença de aproximados 10 metros, e a escadaria logo ao lado, adjacente ao Viaduto Maria Paula, que interliga o viaduto e a avenida, com uma diferença de 15 metros. O percurso foi feito com alguém a acompanhar, justamente pelo fato de temer a não urbanidade do lugar e os perigos que ela traz consigo. Talvez isso tenha enriquecido a análise, à medida que no momento do percurso foram pinceladas impressões, através de expressões, de alguém que nunca se debruçou sobre o assunto, nunca se ateve para as questões geográficas da cidade, e para alguém que com isso, por demais se assustou com o que estava encarando. O percurso foi feito partindo da cota baixa da Avenida. Antes disso, o caminhar pela Avenida Nove de Julho, naquele trecho, confirmou as suspeitas de sensação de perda de dimensão humana e de individualidade amedrontada. Confirmou também a sensação de claustrofobia e escuridão que os altos prédios e verdadeiras muradas acabam por configurar. Suas alturas fogem das perspectivas do olhar humano, assim como tentam fugir da relação com a cota. Não havia ninguém nos térreos. Na verdade, quase ninguém, mas para a dimensão de cidade, aquele contingente caracterizava algo perto de nulo. Quem passava, o fazia com pressa, olhava para baixo ou, desconfiado, olhava para o lado. Os olhares se cruzavam, ou com a desconfiança, ou com certa esperança de não estar sozinho naquele vale abandonado, mas de longe se caracterizavam como olhares a admitir algum tipo de relação interpessoal. As pessoas andam, ou sozinhas, ou no máximo em duplas, não vão em grupos que passeiam. A conversa é quase impossível, na verdade, o que se percebeu é que não se conversa, diante da preguiça de repetir qualquer palavra que pode não se fazer ouvida de primeira, diante do barulho alto e constante dos escapamentos e buzinas dos automóveis. A urbanidade não existe, não há elementos de cidade, nem de lugar nesse fragmento de cidade. No entanto, ainda há uma quantidade significativa de terrenos vazios que parecem implorar por infra-estruturas de transposição com embasamento arquitetônico na tentativa de trazer um pouco de cidade e de lugar para aquela região. O percurso de subida para a Rua Álvaro de Carvalho foi quase tão tenso que o percurso da escadaria que conecta ao viaduto. A adjacência com os viadutos fazia aglomerar nas cotas das duas ruas um número de moradores de rua que caracterizavam mais ainda o resíduo. Lá era o lugar dos moradores de rua. Lá é o lugar dos moradores de rua, aquele lugar que fora chamado de habitar. Talvez eles se revezem, POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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mas o fato é que estão sempre por lá. Esse é o lugar que tomam como morada e como contraponto da cidade, é o aconchego, nada aconchegante: são os baixios dos viadutos. Quanto às escadarias, as pisadas são estreitas e exalam urina por causa do seu abandono, um cheiro forte que chega a causar náusea. A escadaria que conecta ao viaduto faz-se ainda mais tensa devido à largura estreita, a murada do viaduto e ao guarda-corpo em concreto que tira qualquer visão. Não se sabe quem ou o que está a diante, pois não se enxerga, não se ouve, não se vê e nem se é visto naquele percurso, que parece ser mais temeroso nas noites, devido à ausência de qualquer infra-estrutura de iluminação. A sensação de demarcação espacial que foge da lógica da cidade território ou da poética de mirante unificado da formação geográfica é claramente percebida pela sensação de cansaço de vencer uma sucessão de planos horizontais dispostos verticalmente e que fica mais acentuada diante da tensão do percurso. Não há nada de civitas e também nada de polis. Na verdade, parece não haver nada. Os viadutos e as vias arteriais, que outrora tentavam imprimir uma identidade de imagem da cidade, se fazem por demasiado fora da mobilidade urbana que as cidades-territórios buscam imprimir em termos de deslocamentos e com isso, o Plano de Avenidas de longe tem uma identidade com a imagem da cidade. Não se fazem nem como memórias, pois para ser memória há de se ter a sensação de pertencimento, que algo feito tão em macro escala e para o automóvel não consegue se compatibilizar com a dimensão humana da apropriação. Nesse sentido, a postura de recusa tão relatada confirmou-se e não há como não gerar o sentimento de recusa a quem por ali passa, pois tudo que se deseja é não estar ali. Talvez o sentimento de recusa de alguém que estudou tanto e vislumbra no momento do percurso o que poderia ter sido aquele lugar, se outra postura de processo fosse exercida, quase que com um olhar de compaixão, tenha sido menor do que o daquele alguém que só acompanhava e que realmente dali não conseguia extrair qualquer beleza ou esperança e que jamais terá vontade de retornar. Parecem poucas as descrições das escadarias percorridas. Dentro de uma intenção de estudo, parece que o objeto estudado deveria ser descrito à exaustão. Mas o fato é que elas se limitam a isso. Reduzemse de tal maneira com o seu pragmatismo e sua verdade absoluta de mobilidade, que pouco tem de complexidade a ser descrita. Não está somente nas suas pisadas, dimensões ou implantações a problemática da questão. Quando um recurso arquitetônico em um ambiente de cidade limita-se à sua condição pragmática é que ele se torna 98

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POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento Ă  totalidade | do temporal ao espacial.

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incompatível com a essência do indivíduo e da cidade em si. Passa a apenas existir, sem de fato ser parte da cidade, e assim assumir ou suportar as múltiplas possibilidades que um ambiente urbano carrega em si. Pensar em novos cenários para essas transposições de escadarias não devem trazer como estratégias apenas ações reparadoras. A condição programática que tanto é defendida aqui pode ser insuficiente, caso a conformação dos espaços onde elas estão inseridas continuem assim. Um simples programa no baixio do viaduto adjacente ou alguma modulação de containeres com atividades implantadas ali não parece promover um cenário de urbanidade. Assim como também parece insuficiente algum acoplamento de artefato mecanizado ou acréscimo de elementos básicos de cobertura e iluminação. E a soma desses? Também parece insuficiente, se a alma do recorte permanecer a mesma. A tal alma é a essência que compatibiliza as escalas da existência, tanto da cidade como do ser humano. Para ser lugar e para ser cidade um cenário deve conter em si todo um conjunto de discussões e pensamentos compostos por relações de escalas de seus elementos para com o indivíduo, de modo que a postura de processo possa engendrar um contexto onde as atividades de passagem e permanência possam ser quase que constantes. Dentro disso, à arquitetura além da combinação do programa e da fluidez, cabe também o arrojo espacial. Cabe entender que as percepções do indivíduo para com o contexto ao qual ele se relaciona muito têm a ver com questões de proporções e, novamente, afastamentos e aproximações, que a espacialidade, com ele, confere. As escalas micro e macro não são, nem podem ser reduzidas em duas dimensões, como se de uma para a outra fosse dado um salto. Um indivíduo em um ambiente de cidade com urbanidade se percebe quase como coletivo, em meio à multidão, já um lugar tende a fazer com ele se perceba como dimensão humana, não no sentido da individualidade ao extremo, como num ambiente de morada, mas uma dimensão capaz de assumir presença tal quanto as outras dimensões humanas que estão presentes. A própria troca de olhar traduz essa questão. No ambiente de cidade os olhares se cruzam, mas cruzamse com velocidade diferente do que no ambiente de lugar, onde por vezes os que estão ao redor parecem acostumar o individuo com suas presenças, se tornam quase como figuras reconhecidas durante àquela vivência. Com isso, a interação desses dois ambientes se faz principalmente na transição estratégica de ambientação entre eles, 100

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geralmente nos acessos, onde a dissolução das escalas prepara e relaciona o individuo para o ambiente que se segue. Nesse raciocínio, se faz natural ver que as escadarias descritas não se encaixam, nem, contudo, se encaixariam nessas percepções do indivíduo, com ações reparatórias, apenas. O que agrava a questão é que, além da patologia do fragmento, a patologia da avenida de cota baixa como cenário urbano acaba por causar o efeito inverso da percepção do humano na cidade. Isso porque a falta de urbanidade dessa cota baixa, descrita mais a cima, faz com que o indivíduo se perceba extremamente individual num contexto de cidade, onde ele deveria estar em meio a um contingente coletivo. Quando essa percepção se individualiza a ponto de se aproximar de uma sensação solitária é que a insegurança vem à tona. Uma coisa é o individuo estar na sua exclusão em seu ambiente de morada, onde existe uma relação saudável intimista, outra situação é ficar em evidência e solitário em um ambiente de cidade. A relação de causa e conseqüência é tamanha que aqui pode surgir a dúvida da onde se deve começar a propor, intervir, debater. Se pelo olhar dessa cota baixa patológica ou dessas transposições que se encontram em mesma instabilidade urbana. Contudo, esse caminho, por um lado ou pelo o outro, é em si fragmentado. Optar por um foco ou por um começo tende a desconsiderar toda a discussão de unidade espacial que o tecido geográfico carrega em si, e com isso, desconsiderar a cidade como fonte escapa com facilidade. É preciso olhar para essa cota baixa da mesma maneira que se olha a diferença de cotas à transpor para a cota alta. Por outro lado também é preciso fragmentar, aproximar e desconsiderar possíveis considerações que se reduzem à mobilidade. É um processo. Algo que precisa ser incorporado como postura. Um incorporar que possa de tão absorvido pautar toda e qualquer estratégia de modo à invariavelmente ser condizente com ela. E para isso, a vivência se faz fundamental. Então, que continue o percurso da vivência...

A | 2. Galeria Prestes Maia Plano Prestes Maia, 1938-1945. Sendo essas percepções de escalas e proporções espaciais para com o indivíduo algo presente tanto em sua relação com a cidade como em sua relação com um lugar, desejava-se encontrar algum exemplo que combinasse a transposição entre cotas urbanas com o POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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que a arquitetura pudesse trazer como condição programática e de ambientação. Para isso, o próximo percurso compreende a Galeria Prestes Maia, numa tentativa de encontrar algo que conciliasse a mobilidade e produtividade à sensação de pertencimento, que pudesse sobreviver num contexto de cidade território. A Galeria Prestes Maia conecta a cota alta da Praça do Patriarca, extensão do Viaduto do Chá, mediana entre a Rua Direita e a Rua São Bento, à cota do Vale do Anhangabaú, com aproximados 20 metros de diferença e que também foi projetada durante o Plano de Avenidas, cujo autor do plano doou seu nome para a galeria. Outras conexões entre as duas cotas também foram realizadas, porém através de escadarias de mesma configuração das citadas na Avenida Nove de Julho. A Galeria Prestes Maia traz em seu projeto além das escadarias, algumas escadas rolantes, que foram colocadas quinze anos depois da sua inauguração e que suprem um pouco a questão da mobilidade, ainda que defasada sem elevadores mecânicos. Suas proporções mais intimistas conseguem dialogar um pouco mais com a proximidade da escala da dimensão humana num contexto de cidade, estabelecendo uma sensível relação de percepção dos demais indivíduos durante a passagem das cotas naquele ambiente coberto. Contudo, a galeria ainda herda a postura que foi usada ao concebê-la, e o fato daquele cenário ser um ambiente de quase urbanidade, mas que beira longe, parece ter suas razões no ano de 1940. É claro que feita na década de 40, época em que ainda não se falava de cidade-território, a percepção da espacialidade através do tempo, de modo que essa espacialidade não se fizesse percebida, ainda não dominava a mente dos planejadores, tão pouco a condição natural geográfica de unidade espacial. Talvez esses planejadores, inclusive Prestes Maia, poderiam argumentar que estavam dentro de uma discussão pairada por uma cidade-imagem baseada em verdades universais, totalitárias no sentido da escala do planejamento e racionalizadas. A consideração do homem como algo universal, tentando correspondê-lo à imagem de cidade moderna que se queria imprimir em São Paulo na época, copiando modelos europeus, numa visão automobilística macro em detrimento da escala humana poderiam soar como desculpa. Entretanto, parecem não serem justificativas plausíveis ao passo que por trás de toda essa argumentação estava a fundamentação da recusa da cota baixa pautada por preconceitos sociais, questões crônicas de postura de segregação, preferências estéticas e ações especulativas. A discussão programática no sentido de sua mistura também não era pauta, ao passo que o funcionalismo 102

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estava em vigor. A noção da complexidade humana era sintetizada por um ideal de indivíduo que se desejava que habitasse a cidade, como se ele fosse universal, sem mergulhar a fundo em sua figura. Contudo, a essência do indivíduo o presume por demais complexo, de tal modo que a Galeria não se demorou a deteriorar e configurar em si um semiresíduo urbano anos depois de sua abertura. Semi, porque ainda há uma situações de passagem na Galeria. Antes disso, é preciso dizer que se queria fazer da Galeria também uma imagem. Na tentativa de aproximá-la a uma situação de status, obras artísticas de médio porte foram pontuadas pelo percurso, sobre os luxuosos revestimentos em mármore. O próprio nome Galeria tem como raiz tanto a exposição de obras, quanto o percurso do passeio, tal como o flanear fazia pelas galerias de Paris... Contudo, tal configuração e ausência de situação programática não fazem daquele espaço algo que tenha a potencialidade de uma galeria, nem no seu sentido de vivência de percurso, nem no seu estar para apreciação. A galeria por si não se faz suficiente para ambientar uma permanência desejada. É preciso pensar em apoios programáticos que dialoguem, ou até mesmo, se contraponham a esse programa, mas que possibilitem situações de permanências diversas, não só as de passagem entre as cotas. Tentativas de recuperação foram realizadas ao passar dos anos, com instalações de um ou outro serviço para a sociedade, entre os quais hoje funciona um órgão de atendimento da Prefeitura, que é capaz de reunir um número agradável de pessoas durante a semana, porém somente durante a semana e em apenas em ponto da galeria. Na verdade, houve uma seqüência de tentativas de re-apropriações do lugar com estratégias de ocupações que nunca saíram do papel, como estações de alimentação e auditórios, mostrando uma clara incompatibilidade de postura de quem possibilita para com a postura de quem tenta discutir e engendrar novas posturas à essas arquiteturas. O que saiu do papel foi algo que parece não ter sido suficiente para a urbanidade da Galeria: a intervenção do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Talvez o que se precisava não era algo com aquela monumentalidade externa à galeria, mas algo que nela entrasse e fizesse urbanizar o que ali dentro acontecia ou poderia vir a acontecer. Contudo, parece haver lá dentro pequenos espaços que de repente possam ser ocupados com uma nova postura. Se esses espaços são suficientes para tal urbanidade, só a aplicação e o resultado, tal como Jane Jacobs ensina, é que poderão dizer... No entanto, ali na Galeria havia mais gente e gente mais relaxada, POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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mesmo que apreçada. Havia mais vozes, mesmo que a passagem subterrânea com ausência de iluminação natural fizesse abafar o som. De certa forma a sensação era de maior segurança, através das velocidades com as quais os olhares se cruzavam e o próprio contingente de pessoas que estavam se olhando. Havia também menos cansaço do que o que foi sentido nas escadarias, diante de um percurso mais fluido, contínuo e relaxado. No entanto, ainda não é de fato urbanizada, e parece que todas essas possibilidades de sensações não se fazem do mesmo modo aos finais de semana, onde o centro de atividades da Prefeitura fica fechado. Nesses dias de ausência total de uma condição programática de existência, esse local de quase lugar configura-se como área residual e sem nenhuma urbanidade que confira segurança na passagem. Tal esperança de um cenário urbano mais vívido, afinal se saiu de um contexto de Viaduto do Chá, extremamente rico em pessoas realizando as mais diversas atividades e de Praça do Patriarca, com os resquícios da agitação da Rua Direita e São Bento, logo se acaba no encontro com a realidade do Vale do Anhangabaú, tão comentado em capítulo anterior. Todas as vozes que se ouviam no Viaduto do Chá deram lugar para apenas algumas vozes e uma soberania do silêncio. Claro que a dimensão do vale, por ser relativamente grande e sua ausência programática, colaboram para uma dissipação das pessoas e das vozes, bem como para a perda da noção da relação entre espaço e indivíduo, cuja responsabilidade talvez tenha sido do Plano de Avenidas. O Vale soa como um espaço indefinido, um entre ser de coletivo e de lugar, pois não consegue juntar frequentadores que adensem aquele perímetro. Talvez seja essa indecisão, essa não definição de uma relação de escala, que a figura humana se sente deslocada e com o vale não consegue se identificar. O cheiro, que até então não se sentia, começa a ser sentido como aquele das escadarias, porém de forma a causar menos náuseas do que o forte odor no cenário da Avenida Nove de Julho. Ouvia-se uma ou outra conversa de alguém que passava ou de grupos que no Anhangabaú ficavam a conversar. Mas a densidade de pessoas naquele vale era por demais pequena, nada que se compare a Avenida recém citada, mas nada que se compare com o Praça do Patriarca ou com qualquer parque com crianças, cachorros, gente correndo, se exercitando e jogando conversa fora. Contudo, à cidade território pode-se até relacionar em termos, uma vez que a transposição no sentido da mobilidade é fluida e não demarcada com as rolantes da galeria, que traz uma em si 104

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uma vontade quase que obscura de ser um lugar de cidade. No entanto, a demarcação espacial em termos de urbanidade faz claro um fragmentado da cidade e se faz impossível não perceber uma demarcação espacial, onde apesar das redes de comunicações não representarem nenhuma fronteira, justamente pela proximidade, a postura de recusa da cota baixa e a própria configuração do artefato acabam por se tornarem a principal cicatriz e vilã da unidade espacial e social. Talvez a Galeria pode ainda não estar perdida, a medida que existem nela alguns espaços vazios parecendo esperar por lojas ou outros usos que possam tentar dar um fio de esperança para uma relativa constituição daquele lugar como de fato um lugar de urbanidade. Contudo, o tentar salvar esse fragmento ainda parece ser insuficiente perto do restante do contexto das transposições desse lugar, que se fazem através de escadarias e do próprio contexto do Anhangabaú. Talvez o mais importante de se notar no percurso foi quase que uma prova da potencialidade de uma infra-estrutura de transposição com uma tentativa de embasamento programático em detrimento de uma murada de contenção da cota alta. Mesmo com a fragilidade do programa, o lado do baixio do Viaduto do Chá que a Galeria está instalada apresentou um contingente de moradores de rua bem menor do que o outro lado do baixio do Viaduto. É verdade que nesse lado há uma instalação que se caracteriza por prestar algum serviço da prefeitura, contudo a não dinâmica da passagem faz com que esse espaço ainda seja exclusivo de permanências periódicas, configurandose como residual e morada dos habitantes das ruas. POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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Não tinha como não desejar voltar para a cota alta. Desejavase voltar para a cota onde havia gente, onde havia de tudo. Havia gente vendendo, gente fugindo da guarda civil, gente que oferecia empréstimos pelas ruas, gente que andava em grupos rindo e falando alto, gente que pregava a Deus, jogava búzios, retratava rostos e gente a estudar aquele lugar. Havia principalmente gente artista. Havia estátuas humanas e cantores sertanejos na frente do Teatro Municipal, que reuniam mulheres com flores na cabeça a dançar nas calçadas. Havia gente que sentava na escadaria do Teatro para olhar a essas danças, fazendo dela uma verdadeira platéia urbana. No entanto, é verdade que às vezes era muita gente. Enquanto no Vale do Anhangabaú era quase ninguém. Pode-se atribuir a sensação de não consideração dessa Galeria como um lugar pelos seus usuários também pela sua ambientação. A tal transição entre as escalas da cidade e de um lugar parece existir em termos nesse projeto de galeria. A transição que a boca de entrada da Praça do Patriarca confere com certa iluminação natural e alargamento, que vai se afunilando em termos de pé direito para o interior da galeria, se aproxima a esse processo de transição. É verdade que em certo momento parece haver uma ruptura desse processo para com o interior extremamente alongado, baixo e escuro, que pode causar a sensação de estranhamento na ambientação. No sentido inverso, a entrada pelo Vale do Anhangabaú é estabelecida pelos vãos das portas, mas que tem em seu interior um saguão relativamente bem alargado, que vai se afunilando, agora em pé direito e largura, para o corpo de transição da galeria. Pode ser que por isso, tal transposição possa ser resgatada com sério debate e intenção de postura...

A | 3. Estação São Bento do Metrô Marcelo Fragelli, 1968. Talvez o melhor exemplo da relação de postura de quem discute e propõe para a postura de quem aceita e executa seja a Estação São Bento do Metrô de São Paulo, bastante próxima da Praça do Patriarca, no que diz respeito à cota alta, e parte do Vale do Anhangabaú na cota baixa. A Rua São Bento, onde o tráfego é apenas humano e bastante intenso, digno de um contexto de cidade de urbanidade acentuada, onde os olhares se cruzam em frações de segundos e as conversas se sobrepõem, interliga os dois espaços e foi escolhida para percurso, ao invés da cota baixa do vale, justamente pela segurança que 106

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parecia oferecer em detrimento do Anhangabaú. Isso porque aquele que acompanhava não estava disposto a embarcar nas aventuras dos percursos sem urbanidade da cidade, tão pouco estudava arquitetura a ponto de fazer com que isso o encorajasse. A Estação São Bento, implantada no Largo São Bento, local exato da fundação jesuíta, é na cota alta o perímetro de encontro e dissolução das ruas Boa Vista, que, diga-se de passagem, vista nenhuma faz mirar, Libero Badaró, Florêncio de Abreu, da própria São Bento e do Viaduto Santa Ifigênia. Mas também é encontro e dissolução da Ladeira Porto Geral, do Anhangabaú e de tantas outras ruas ao ser encontro e dissolução do metrô. A estação é um jogo de conexões corajoso e necessário. Necessário, pois é um nó de cotas da cidade, num espaço característico como mobilis, que um dia, os jesuítas tentaram fazer parecer pólis. Representa uma postura de consideração com a cota baixa totalmente inversa da que os colonizadores tiveram ao negar os vales. Claro que aqui não se fala em termos de resultados formais de projetos, existe a noção das limitações das construções da época. Mas como o que se deseja discutir na dissertação não são somente os resultados finais formais e sim suas posturas de processo, aqui vale a comparação que percebe a postura de integração da cota baixa como ideologia da estação. Apesar da conceituação de pólis ter como essência a raiz étnica e com isso a consideração da cidade como sede, afastando de primeira essa possibilidade no momento que a colonização foi instaurada como o domínio de um povo, talvez a não segregação das cotas por posturas de recusa e falsa idéia de segurança ao bloqueálas, pudesse ter instaurado uma unidade urbana que se associasse à essência de pertencimento da cidade. No entanto, percebe-se, ao vivenciar o projeto atual, que algo ficou pelo caminho. Talvez fosse a potencialidade de tornar aquela estação algo de dimensão de lugar, vivência, pertencimento, escala humana e ao mesmo tempo de dinâmica inteligente em suas conexões. Esse algo que ficou no caminho parece ser a tal da postura, ou como diria o próprio autor do projeto original, Marcelo Fragelli, “por uma solução alheia ao espírito do projeto.” 50 Esse é o tal projeto que permite uma dupla análise, tanto das estratégias que engendra como transposição entre cotas, em sua versão atual e original, como a dissonante postura de quem discute e propõe para quem viabiliza. É nesse sentido que se faz importante colocar como seria o projeto caso a idéia de Fragelli, pautada por um discurso de condição 50. FRAGELLI, Marcello. Quarenta anos de prancheta, p. 297. POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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programática, tivesse sido realizada. O próprio autor mostra lamentação diante do engavetamento de seu projeto na fase executiva, mesmo com aprovação do anteprojeto. Uma substituição dos arquitetos durante essa fase fez com que as intenções iniciais, que inclusive em termos de programa eram dadas pela própria companhia do metrô, fossem arquivadas para se materializarem em 1978. Parece uma justificativa vazia, e, no entanto, talvez isso seja justamente o que relaciona ao vazio que a importância das estratégias de projetos de infra-estrutura de transposição, pautadas pelo programa arquitetônico, tem deixado de gerar como discussão e pela forte crença na cidade apenas como um espaço de produção e mobilidade. Pela própria solicitação da CPTM, Fragelli estabelecia no início um edifício sede para a companhia de metrô, com altura significativa, somado a um amplo programa comercial que era distribuído pelas lajes das transposições, que deveriam estabelecer acessos entre as cotas das ruas citadas. O que, no entanto, poderia fazer com que não fosse um projeto exclusivamente de transposições a priori foi o arranjo espacial ao qual Fragelli pretendia locar sua condição programática. Foram projetadas quatro lajes abaixo do largo, sendo a primeira, logo abaixo, algo como uma praça rebaixada, numa extensão do tecido urbano, porém com tal proporção espacial e relação à cota do largo que se fazia sutilmente afastada do contexto de urbanidade acentuada, porém ainda se relacionava com ela. Era uma espécie de transição de escalas, de contextos, devido às suas grandes aberturas circulares ao contexto externo, de modo que até o som desse ambiente fazia-se mais confortável para o estar. Era nessa cota do projeto e num pedaço da própria cota do largo que estava apoiado o prédio da CPTM, com um térreo visivelmente acolhedor e com clara relação de camuflagem entre os níveis. Essas lajes eram rodeadas por estabelecimentos que poderiam ser preenchidos com comércio e serviços, e continham uma potencialidade ao, através de recortes também nas demais lajes, se relacionarem visualmente umas com as outras, trazendo a discussão da unidade espacial para dentro do próprio projeto. Todos conseguem se olhar, nas pretensões de Fragelli, e todos olham para a cota baixa de acesso ao Vale do Anhangabaú, seja dentro do próprio projeto com os recortes, seja para o próprio vale através de varandas que as lajes configuravam, compondo o inverso da negação da cota baixa. O subterrâneo era e é destinado às plataformas do metrô. De fato as conexões se mantiveram no projeto construído, feitas em momentos por escadarias que contornam o raio do vazio, quando se 108

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chega pela cota alta, ou por agradáveis rampas quando se vem do Vale do Anhangabaú, sendo a mecânica das escadas rolantes reservadas à Ladeira Porto Geral e ao subterrâneo do metrô. É verdade que um dos momentos mais interessantes do projeto, mesmo com a inexistência do prédio da CPTM e com alguns recortes de lajes eliminados, são as rampas que conectam o Anhangabaú a laje intermediária. São relativamente bem dimensionadas, pontuadas por um paisagismo que se camufla, ora escondendo, ora mostrando, as visuais do Viaduto Santa Ifigênia e todo aquele contingente de caminhantes sobre o seu tabuleiro. O silêncio se faz agradável, se ouvem passos, mostrando que no meio do silêncio existe a passagem e se ouvem vozes, mostrando que as dimensões das rampas fazem com que casais e grupos encostem-se a seus guarda-corpos para conversar. Também houve outros cortes de intenções, quando a extensão das lajes rebaixadas até o baixio da cabeceira do Viaduto Santa Ifigênia foram vetadas, limitando o perímetro da estação, reduzindo-a ao máximo ao pragmatismo. Também foi vetada aquela relação de permeabilidade visual e sensação de unidade espacial ao serem vetados vários dos recortes nas lajes propostos por Fragelli, que em intenção inicial faria chegar luz até a cota subterrânea das plataformas do metrô. Não há como não pensar aqui que esse tal pragmatismo seja resultado da maneira como a cidade foi visualizada por tempos, reduzida à sua condição de produção, pois parece não haver espaço para que as discussões de novas estratégias de materializem, mesmo projetadas. Não é só a questão da condição programática que possibilita acontecimentos, mas ela somada à própria ambientação espacial. Não é difícil comparar a sensação de agradabilidade que se tem na plataforma do contemporâneo projeto da Estação SantosImigrantes, da linha verde, que por questões de sondagem e do Tamanduateí precisou ficar em cota alta, à sensação das plataformas subterrâneas. A permeabilidade da luz, com as devidas proteções das chuvas, camufla a espera, por vezes agonizante, dos subterrâneos, causam novas sensações sensoriais e espaciais. Não se faz aqui uma campanha ou um discurso de que todas as estações devam e precisem ter permeabilidade de iluminação e visuais e de que todas tenham de ter tais recortes como as das lajes de Fragelli, até porque seria contradição tamanha esquecer as condições de cada lugar como fonte, meio e alvo. Mas diante de tal projeto desenhado, aprovado e possível, por que continuar a dar passos para trás e não investir em projetos com estratégias outras que não as redutivas... A situação atual da estação também luta contra questões 110

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burocráticas. É bem verdade que apesar do prédio de serviços não ter sido construído e o perímetro da estação ter sido reduzido, ainda há alguns estabelecimentos que cercam essas lajes. No entanto, estão em tramites de licitação e permanecem quase em totalidade fechados. Claro que aí já é uma questão administrativa, mas que faz mostrar a relação quase de dependência de condições de passagem e permanência para que um lugar possa configurar urbanidade. Se não há comércio e não há serviços, o estar na estação fica defasado, não são todos que se propõem a admirar árvores por fragmentos de tempos sem poder, em paralelo, tomar seus cafés ou comprar um doce para esperar o término do horário de almoço, fazer seus jogos nas lotéricas ou paquerar uma peça de roupa. Talvez seja esse um projeto de inspiração de discussão. Serve, sem dúvidas, para beber na fonte de sua versão original, mas serve também para analisar as patologias das aprovações e execuções de projetos. Não há como negar sua dinâmica de conexões, de modo à por vezes surpreender usuários de primeira viagem ao verem suas múltiplas saídas e seus encontros, mas ainda sim, também parece não ter como negar que falta mesmo aquele espírito do projeto original.

B | Ficaram no papel. Edifício Guaianases e Prédio do IAPI. Esses seriam, a nível de titulo, dois exemplos elencados de transposições entre cotas urbanas pautadas por arquitetura e que, por não terem sido materializadas, acabaram por permitir suas analises apenas nos papéis onde estão seus croquis, desenhos técnicos e comentários pessoais dos arquitetos. No entanto, vale a discussão. Investigações de projetos não materializados, por mais que se fale em postura de processo muito mais do que resultados finais, não conseguem afirmar seu sucesso ou fracasso quanto ao engendrar de urbanidade. Ficam no campo das apostas e das discussões servindo como reflexões, principalmente em um campo escasso em termos de projetos existentes. Apesar da boa vontade de discutir, escrever, questionar e refletir, a fim de reunir boas intenções de estratégias no campo do processo da postura, não se pode deixar de lado o significado de uma construção para quem a usufrui. É preciso materializar. É preciso fazer vivenciar o que tanto se aposta e se condena, ver se de fato essas posturas aparentemente coesas, ou não, realmente possibilitam o que se predispõem. Nesse sentido, e no, mais uma vez, raciocínio de aprender no POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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laboratório das cidades, é que a análise de projetos arquivados deva fazer um esforço para se livrar de julgamentos. As verdades absolutas tão condenadas como afastamento da complexidade das coisas e dos seres humanos não podem se fazer escapar em afirmações de que esse ou aquele projeto traria bons resultados urbanos. Por isso é que são apostas, cheias de significados, mas não deixam de serem apostas. Cabe saber aproveitar a discussão para colocar o assunto em pauta e embasá-lo nos poucos exemplos que se tem. Por mais que se estude, a cidade é feita de vivências. De emoções e sensações sim, mas não deixam de ter relação com a vivência. Dispensar essa consideração e abstrair a importância da materialidade não é um caminho que se deseja. E para essa temática, não se pode negar que falta tanto a discussão no campo abstrato quanto a materialidade.

B | 1.Conjunto Comercial do IAPI Rino Levi, 1939. O conjunto que Rino Levi projetou em 1939, para sediar as atividades do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, não poderia ser deixado de fora da discussão, por apresentar datação dentro do período em que foi feito o Plano de Avenidas e por estar implantado justamente na colina de fundação, praticamente na mesma localização do projeto da Estação São Bento. Essas duas considerações fazem ver, respectivamente, que a lógica automobilística que se tinha na cidade naquela época realmente faria condicionar uma patologia no cenário das cotas baixas e que aquele fragmento de colina era realmente pedinte de transposições, visto que mesmo esse projeto não sendo construído, a estação foi materializada para suprir a demanda da transposição entre os níveis urbanos. O que marca fortemente esse projeto é seu térreo do Anhangabaú como um túnel para automóveis que pretendia conectar o vale à Rua 25 de Março, assim como previsto no Plano de Avenidas, mas que como o conjunto, nunca foi construído, tão pouco o Vale do Anhangabaú se transformou em um lugar para automóveis. O arquiteto precisava implantar o programa do instituto que lhe foi solicitado a cima desse nível de térreo-túnel juntamente com um programa de estacionamentos. No entanto, essas condicionantes automobilísticas somadas a implantação do edifício adjacente ao viaduto Santa Ifigênia, que na época permitia a passagem dos carros, fizeram com que o arquiteto sugerisse a implantação de uma condição programática de 112

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comércios e serviços, pelo menos no térreo do Largo São Bento, para tentar conferir urbanidade ao local. O diálogo com o Plano de Avenidas no que diz respeito à forte pauta automobilística para acesso e permanência do carro no contexto da cidade foi importada aos edifícios com caráter de lugar. Com a setorização que Rino Levi propôs, o estacionamento, para atender a demanda solicitada, ficou disposto nos dois níveis intermediários aos térreos. O próprio corte do projeto demonstra uma clara desproporção da escala do habitar nesses pavimentos, e sobressai a condição humana no pavimento de acesso do Largo São Bento, onde esse sim, teve uma preocupação com a condição da dimensão humana. Aqui não cabe julgamento para com o arquiteto, na verdade parece que ele se fez ouvir ao reivindicar a pauta da urbanidade em um projeto que lhe foi encomendado. No entanto, se essa dimensão humana através da condição programática em um projeto de transposição foi conferida, ela o foi na cota alta. Para a cota baixa ficou tanto o acesso ao túnel, que é em si o próprio projeto, quanto o acesso para os estacionamentos nos níveis superiores e para o resto do chão espesso, os estacionamentos. A postura de quem viabiliza os projetos não deixou de ouvir o arquiteto, de fato incorporou um programa público naquele térreo, mas o que não se consegue saber é se não aceitou esse mesmo programa na cota baixa, nem se o próprio arquiteto o reivindicou. O que se sabe é que possivelmente, tal requerimento não seria atendido, diante de uma ligação que dialogava com a imagem de cidade que estava sendo feito para a cidade de São Paulo. Diante disso, as transposições ficam comprometidas, no sentido de sua urbanidade. Por mais que haja ligações na escala humana entre os níveis, como escadas e elevadores, elas se tornam pragmáticas demais, não tem espaço para se permitirem como um significado que não aquele a priori. As rampas, tão agradáveis da Estação São Bento, que fazem passar e permanecer, não conseguiriam existir nesse ambiente de solo espesso tão fragmentado e comprimido pelos estacionamentos e pelo térreo- túnel. Da mesma forma que a unidade espacial interna, onde todos se olham e são olhados através das lajes recortadas, no projeto do IAPI se torna inviabilizada. No entanto, não há como negar que na análise do fragmento da cota alta percebese uma intenção clara de urbanidade e consegue-se até apostar que ela aconteceria, mesmo que só naquele pavimento. A preocupação da adjacência com o viaduto faz com que o projeto se abra para essa lateral e crie acessos em meio às lojas, com espacialidade que parecem possibilitar a transição das escalas do contexto de cidade para o POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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contexto de lugar. São largas, altas e pautadas por lajes varandas que as olham em momentos da implantação. Mais do que isso, ao prestar atenção no corte uma sensação de lamento pode ser conferida ao perceber o manuseio da espacialidade do arquiteto. O escalonamento das lajes que começam a partir do acesso do Anhangabaú faz pensar que outra condição programática pudesse fazer daquele espaço algo próximo de lugar agragado espacialmente. O projeto não foi construído, e a princípio, diante da escassez de materiais mais relatados a justificativa disso não é colocada aqui, entretanto, cabe mais uma observação, mais especificamente, agora, a escala da mobilidade e da produtividade. O projeto do IAPI foi regido por um sistema de transporte limitado quanto aos usuários e menos ágil do que as conexões que os trens do metrô são capazes de fazer. Claro que isso tem total relação com a São Paulo automobilística que era respirada na época, mas quando se fala em potencialidade de mobilidade e conexões, em termos de contingente de usuários e de distâncias, os trens das estações de metrô parecem suprir bem mais a demanda da mobilidade. É justamente por isso que a Estação São Bento não conecta apenas as ruas que estão beirando seu perímetro, nas mais diferentes cotas, mas uma infinidade de ruas que chegam a e partem da estação. É como se o projeto da Estação abraçasse muito mais a cidade do que o projeto do IAPI, fosse de fato potente na escala conectora que se propõe a assumir nesse sentido. Quanto às transposições em menor escala, o conjunto de Rino Levi atende em menor grau do que a Estação São Bento, que parece se esparramar um pouco mais abaixo do Largo São Bento, de modo a alcançar a Ladeira Porto Geral, que encaminha à 25 de Março, e que como praça rebaixada parece ter maior significado no tecido urbano parecendo ser, de fato, acessível a todas aquelas ruas próximas, descritas no tópico anterior, como que se dissolvessem naquele rebaixo. Quanto aos prédios, propriamente ditos, a discussão não se estenderá, apenas faz uma observação em relação ao momento do projeto em que começam a ser erguidos, podendo coibir a condição do mirar como unidade espacial, agora urbana. A perspectiva do arquiteto pode causar enganação pois parece que quase não há permeabilidade urbana nesse sentido de mirante, na cota do Largo, no entanto, o olhar do corte faz perceber que há sim uma intenção de unidade, mesmo que um pouco coibida pela conformação do programa comercial e serviços implantado ali.

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6. Para acabar em... Projeto. EstratĂŠgias de Posturas de processos.


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Justiça seja feita que a expressão desse título foi tomada em partes como empréstimo do último capítulo do livro ‘A Cidade’, 51 de Massimo Cacciari, “Para acabar em... beleza” . A discussão das posturas, que se transformam em estratégias, só ganha prova quando materializadas. O campo das idéias é extremamente válido, levanta pautas e debate processos, mas é na real inserção de um contexto que as estratégias se fazem ou não pertinentes com o que se deseja engendrar. Pode-se discutir a fundo a mente humana, mas é na vivência que esse comportamento humano é exercido, é na relação que a dimensão humana tem com o objeto construído no contexto de cidade. A arquitetura é dúbia nesse sentido, fazendo-se como discurso e materialidade, sendo um, conseqüência do outro, como resultados de propostas e como referências para novas discussões. Nesse sentido, aqui é colocada a reunião do que foi discutido na dissertação, sendo apresentada sim como um resultado final e formal de projeto, mas que carrega as tais das estratégias discutidas como postura dos processos. O projeto acadêmico compõe-se por uma Faculdade de Artes Edifício de Transposições entre Cotas Urbanas. O desnível aqui se faz com vinte metros de altura, sendo a Nove de Julho, chamada no projeto de cota 0.00, e a Rua Álvaro de Carvalho, como cota +20.00, paralelas e separadas por cerca de 120 metros. A corriqueira junção de terrenos com fachadas para as ruas dos diferentes níveis foi adotada para fazer a transposição entre os dois. O terreno está inserido naquele contexto de falta urbanidade tal como foi descrito no último relato do capítulo da Re-Inversão das Posturas [C. Quanto a Urbanidade – Cenário Destacado], com viadutos que transpõem em nível as cotas superiores, escadarias residuais e prédios bastante altos que chegam até a testada e se se encostam às laterais até um primeiro escalonamento, como peças únicas sem qualquer possibilidade de unidade espacial com a cota alta. A cota alta, por sua vez, apresenta urbanidade bem mais acentuada, com atividades que garantem a permanência e passagem de pessoas, em horários e dias diferentes, sendo, inclusive, bastante próxima da conhecida rua gastronômica, a Rua Avanhandava. Talvez, a escolha desse terreno quis fazer uma contraposição das posturas de processos, pois na fachada da Nove de Julho está o atual prédio do INSS, com mesma tipologia que os prédios descritos e com vulnerabilidade tal, resultante de uma ausência administrativa e de devida apropriação. Nem mesmo os discursos de aproveitamento de habitações no centro da cidade ou políticas de recuperação do 33 MAIA, Francisco Prestes. Estudo de um Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo. p,12 POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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artefato conseguem recuperar o prédio, tamanha é a sua degradação estrutural. É o abandono da cota materializado em edifício. Se de tanto se falou da condição programática, essa teria que ser bem pensada, ainda mais com a liberdade que se tem na escolha do tema do trabalho de graduação. A Faculdade Artes é a opção por concentrar alguns elementos que condizem com as questões de urbanidade. De imediato, a faculdade com suas aulas em vários momentos do dia, até a noite concentra um público diverso, com diversas finalidades, seja o corpo docente, o corpo discente, os outros funcionários. As possíveis extensões dentro do próprio projeto e para com o ambiente urbano também se fizeram forte na escolha, uma vez que o chão espesso, essencialmente público, poderia concentrar galerias e auditório, além da possibilidade que os espaços não programados têm de assumiremse como locais de exposições e outras manifestações. Esse programa da faculdade e sua extensão pública no chão espesso possibilitaram que na fachada sul da avenida, a elevação fosse praticamente um retrato fiel do que acontecia lá dentro, sem bloqueios, de modo que a dinâmica da faculdade pudesse ser vista da calçada e que essa fachada fosse constantemente modificada à medida que se modificavam as apropriações do espaço interno. No que diz respeito às atitudes projetuais carregadas de posturas, foi logo no começo do processo que um arranjo arquitetônico, através de um incorporar a localidade como fonte e usá-la como meio, fez possível alcançar uma série de objetivos, usando uma condição encarada nesse trecho como patológica. A ausência de recuos laterais até determinada altura (superior à da altura da cota alta) e a ausência de recuos frontais, fazem com que a cota baixa implore por respiro. Diante disso, foi entendida a necessidade de um recuo frontal, um desafogar da murada dos prédios para o percorrer das calçadas. Foi diante disso que um paredão em cada extremidade das laterais do projeto foi implantado, de modo a chegar às laterais e na testada da avenida, cumprindo a legislação, e podendo, com isso, recuar o volume do prédio, tal como se achasse necessário. É visivelmente perceptível que o paredão não se alinha com a altura máxima dos prédios, equiparando-se ao primeiro escalonamento dos edifícios, comportando todo o programa e amarrando a condição da espacialidade de mirante e unidade da geografia da cidade. Claro que tal paredão não poderia chegar até a testada da Rua Álvaro de Carvalho, também por uma questão de legislação, fazendo com que outra solução viesse através dessa fonte, tornando o acesso da Rua Álvaro como um largo arborizado, da mesma maneira que se 136

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desejava configurar um largo no acesso da cota baixa, ambos como extensão do tecido urbano. O tratamento que se desejava, de igualdade com os acessos das cotas, claro que cada um com resultados finais formais diferentes do outro, fez com que ao paredão fosse conferida uma importante condição arquitetônica, que fez engendrar mais ainda o permear público para permanecer e transpor no projeto. Uma estrutura que pendurasse as lajes de modo a não representar barreiras marcadas fisicamente nesses largos, e no restante do projeto, fez com que fossem usados tirantes em dois momentos de vigas protendidas, um na cobertura do projeto e o outro na altura da cota alta. Essa atitude liberava de estruturas os dois térreos tratando-os novamente por igual e ainda fazia conferir no restante do projeto a unicidade que tanto se desejava, dialogando com todo o discurso poético, onde o espaço não se fazia demarcado, apenas a ocorrência do tempo. Foram esses dois largos, dentro do pensar a diferença de cotas como um chão espesso público, que na verdade, todo esse chão se tornou um largo, e com isso, todo o desnível passou a ser extensão do tecido urbano, acentuado por um grande vazio interno, onde todas as lajes se entreolham e olham para a cota a baixa. O paredão, que tanto se assemelha em sua existência como artefato aos edifícios e infra-estruturas de transposição murados, tão criticados no estudo, desejava ter efeito contrário. Desejava-se que o paredão representasse em si um paradoxo, pois a disposição das lajes, os térreos livres de estruturas e as condições programáticas, que embasavam o projeto, se tornavam quase à parte do paredão, uma vez que mesmo com textura própria ele estava adjacente às laterais dos edifícios. É como se o paredão se dissolvesse nas pré-existências e conferisse ao projeto uma sensação de levitar e respirar meio àquele contexto tão pesado, marcado pela ausência de urbanidade. Já na cota alta, o paredão chega até o antigo limite dos loteamentos, estando no meio dos fundos dos terrenos da cota baixa. Deixando um pouco a poética urbana que esse paredão aposta em proporcionar, a parte funcional, interpretada nos primórdios da geografia, também foi motivo de tal recurso arquitetônico. Claro que se pode dizer que a funcionalidade de uma cidade está em sua urbanidade, mas a funcionalidade aqui se relaciona àquela condição de drenagem que a cidade, ao formar-se em um espigão central e platôs escalonados como calhas-eixos, conferia a si própria. Nesse sentido, na cobertura do projeto foram implantadas uma série de calhas que se encaminham aos paredões. Cada um dos paredões é duplo, concentrando em si tubulações, shafts e prumadas que recolhem as águas pluviais e que POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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também suprem a funcionalidade de circulações de emergência e sanitários, que se quis livrar das únicas duas fachadas. À condição de drenagem, no sentido do percurso natural das águas, que é por natureza escalonada, conferindo uma velocidade que é acentuada quando são feitas contenções de 90ª graus, e ao respeito com a condição topográfica da cidade, aquela espessura de terra foi contida em um talude de 45º que se divide em dois fragmentos. Esse talude concretado foi deixado em evidência dentro do projeto, de modo que se percebam as paredes inclinadas e a relação geográfica da onde se está na galeria de exposições, na livraria, no café e no auditório, que inclusive usa parte do talude para apoiar sua platéia. Há ainda um programa nesse chão espesso público que não está implantado com o talude, mas na fachada da avenida, uma galeria de exposições que recebe iluminação da fachada sul. O térreo livre com ausência programática dos modernos não condizia com o diálogo da urbanidade. Além de ser em si um nível de extensão do tecido urbano, de mirante como unidade espacial, o térreo da cota alta havia de locar condições programáticas, tais como, diretório acadêmico, café e a parte de apoio para a faculdade – papelaria e gráfica. A cima desse térreo está o corpo da faculdade de artes, com espaços que além de se refletirem para o ambiente externo, através das fachadas, pretendiam se configurar, assim como os programas do solo espesso, em ambiente de lugar com dimensão humana. A transição das ambientações e escalas é feita pelo primeiro pavimento, com saguões que possibilitam qualquer tipo de produção, com pés direitos altos, que vão diminuindo conforme o percurso de subida, onde estão locadas a biblioteca, oficinas, salas de aula e os ateliers. Todos os pavimentos configuram-se como varandas que olham entre si e olham para o primeiro nível do projeto, para poeticamente falando, a cota baixa. A conformação desse programa tende, em sua implantação, a tônica da unidade espacial, seja pela flexibilidade dos ateliers, seja pelo recurso de só chegar com as divisórias até certa altura e completar com caixilharia, até por conta da questão da iluminação, além da própria questão da unicidade. Aliás, iluminação tal que é zenital em toda a cobertura, justamente pelas únicas duas fachadas estreitas de iluminação, de modo que o vazio interno dissipe essa fonte de luz que o último pavimento recebe. Comentado no final, mas como algo pensado juntamente ao processo inteiro do projeto, a condição de mobilidade como transposição entre cotas urbanas deveria ser algo potente, que além da resolução pragmática, pudesse incorporar através dos elementos 138

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arquitetônicos, possibilidades outras, atingindo a dimensão humana de lugar. Havia também a necessidade de compatibilização diante dos diferentes programas e momentos do projeto, mostrada em diagrama na apresentação do trabalho final. No que diz respeito ao solo espesso que precisava transpor os vinte metros, foram usadas escadas rolantes de modo que proporcionassem um percorrer fluído, distante do entroncado percorrer urbano nesse trecho. Estão dispostas em seqüência e não em zig-zag para que a percepção da espacialidade seja feita à medida que acontece o deslocar. Desejava-se, no entanto, trazer o debate das escadarias, com outras estratégias que possibilitassem uma real sensação de pertencimento. Super dimensionada, a escadaria, que foi colocada entre o térreo da avenida e o pavimento da livraria, admite-se como passagem, como platéia para possíveis acontecimentos no largo térreo, como bancos de leitura para quem compra na livraria. É programaticamente embasada, deixa de ser resíduo, para ser parte. Do mais, no que diz respeito ao acesso à faculdade a partir do térreo da cota alta e dentro dessa espacialidade, foram adotadas rampas, também bem dimensionadas, que interligam as lajes pautadas pelo grande vazio. São, dentro do que uma faculdade se propõe a ser, ambientes de encontro, de diálogo, de estar, onde além da permanência, a passagem pode ser observada por todos os espaços e sua movimentação conforma paisagens internas múltiplas. É nesse sentido que a materialidade também se faz aproximar do que pode ser como essência. Usar o discurso de que tecnologias avançadas possam estimular a produção do ambiente artístico não se faz como verdade absoluta. Parece que na essência das materialidades, poeticamente falando, a essência da produtividade artística possa fluir agradavelmente. O concreto dos paredões foi pigmentado, e as vigas metálicas se mesclam à textura de concreto das lajes, que somadas à cerâmica contrapõem-se em texturas, condição térmica e cores. Foram essas as posturas de processos...

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7. conclusão COMO ÁSPAS

Estratégias de Posturas DE PROCESSOS.

As aspas relembram a busca por uma discussão e construção de um processo de postura antes de qualquer resultado final. Lembram que é preciso repensar o papel do indivíduo, como ser humano, em sua condição de mobilidade, produtividade e dimensão humana para questionar verdades instauradas do fazer a cidade. Entender a complexidade da composição humana, com seus elementos constitutivos, é que pode ser o passo para colocar o indivíduo como fonte, alvo e meio no fazer das cidades. Relembram a postura de consideração dessa cidade como, também, fonte, alvo e meio. Olhar para ela através da sua composição constitutiva faz perceber a importância de considerar sua geografia como algo primeiro e primordial, que traz em sua natureza suas próprias condições para sua existência. É entender com isso, que é necessário combinar os elementos constitutivos da geografia com os dos indivíduos para moldar estratégias espaciais. No caso de São Paulo, é entender que essa geografia traz consigo questões funcionais e poéticas de drenagem, mirante e unidade espacial, com seus eixos horizontais e verticais. Olhar para isso a fim de responder às necessidades de deslocamento e espaços com dimensão de lugar é que podem fazer combinar a transposição entre as cotas urbanas e os programas arquitetônicos, a fim de buscar resultados de urbanidade e conforto de passagens e permanências urbanas. Dentro de uma temática que carrega ausências de discussões, a transposição de diferentes cotas urbanas, aqui é embasada pela arquitetura como condição programática e espacial de lugar, e dá seqüência aos estudos escassos, onde só vêem respostas à priori. O que no fundo se deseja é a atenção para o tema, em paralelo à construção de uma postura, que possa embasar processos, que conformem resultados finais de urbanidade para a cidade.

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ARQUITETURA COMO TRANSPOSIÇÃO ENTRE COTAS URBANAS


8. bibliografia AB’SABER, Aziz Nacib. Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo. BOTTON, Alain De, 1969 - Desejo de Status / Alain de Botton; tradução de Ryta Vinagre - Rio de Janeiro: Rocco, 2005. PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens Urbanas - São Paulo: Senac, 1996. BUCCI, Angelo. São Paulo, razões da arquitetura: da Dissolução dos edifícios e de como atravessar paredes - São Paulo: Romano Guerra, 2010 (Coleção RG bolso; 6). CACCIARI, Massimo. A Cidade. FERRAZ, Marcelo Carvalho. Lina Bo Bardi / Instituto Lina Bo Bardi - São Paulo: imprensa oficial, 2008. FRAGELLI, Marcello. Quarenta anos de prancheta - São Paulo: Romano Guerra, 2010. GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares: sobre a importância do trabalho conceitual / Igor Guatelli - São Paulo: Editora Senac, 2012. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna - São Paulo: Edições Loyola, 6ª edição, 1996. JACOBS, Janes. A Morte e Vida das Grandes Cidades - São Paulo: Martins Fontes, 2000. LEITE, Carlos. Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes / Carlos Leite, Julia di Cesar Marques Awad - Porto Alegre: Bookman, 2012. MAIA, Francisco Prestes. Estudo de um Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: Técnica, Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos - 4 ed. 2 reimpr. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006 (Coleção Milton Santos; 1). SULLIVAM, Louis H. (1896). Charlas com um arquitecto. El alto edifício de oficinas considerado. Buenos Aires: Ediciones Infinito, 1957. VELHO, Gilberto. “Observando o familiar”. – A Aventura Sociológica. Objetividade, Paixão, Improviso e Método na Pesquisa Social. Rio de Janeiro: Zahar YAZIGI, Eduardo. O Mundo das Calçadas / Eduardo Yazigi - São Paulo: Humanitas / FFLCH6/USP; Imprensa Oficial do Estado, 2000. Documentário Entre Rios, 2009 [acesso pelo youtube.com] Entrevista do Álvaro Puntoni para documentário da Nova Biblioteca Brasiliana da USP. [exibido em sala de aula]

POSTURAS DOS PROCESSOS do fragmento à totalidade | do temporal ao espacial.

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Trabalho Final de Graduação Monografia 2013


309 0791 8


Mono flavia marques(issuu)  
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