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E STA D O D E M I N A S

D O M I N G O ,

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MUITO

prazer EDUARDO AVELAR

D E

degusta

Mesas de mãe São três as principais comemorações ao longo do ano nas quais reunimos as famílias em grande estilo e o ponto alto dos encontros é sempre a mesa. A despeito da exploração comercial destas datas, o Natal e a Páscoa ainda trazem um importante componente religioso. Nessas ocasiões, a maioria das mesas mantém a tradição, com algumas variações sobre os mesmos temas e sabores, como o peru, castanha e bacalhau. Na terceira grande reunião familiar, que comemoramos neste segundo domingo de maio, homenageamos as mães e as avós, numa festa recheada de componentes mais do que

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especiais. Quando falamos de costumes e tradições à mesa, o Dia das Mães proporciona a cada comensal lembranças e sabores bem particulares e diversos. Nesse dia, as histórias de cada um são afloradas e revisitadas por meio dos mais variados pratos e receitas, dos mais singelos aos mais sofisticados, que retratam os momentos importantes no convívio familiar. Os sabores quentinhos e aconchegantes com gosto de mãe ou avó, desde o leite no peito, se perpetuam diferentemente na memória de cada um de nós, mas sempre tendo em comum a associação ou harmonização entre o amor e o alimento. Não

M A I O

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poderia deixar de homenagear hoje, em nome de todas as mães e avós mineiras, a minha querida dona Eunice, que não somente me ensinou o respeito pelos alimentos, mas principalmente a paixão pela mesa e pelo ato de transformar para compartilhar. Busquei no meu baú de emoções alguns momentos inesquecíveis. Momentos esses que tenho a certeza de que são compartilhados e exaltados por meus sete irmãos, dois primos, a saudosa Marina e os três agregados que se sentavam conosco ao redor daquela mesa enorme e comprida na casa do finado Zezé. Do cozimento da fatídica dobradinha, que antes era obrigado a comer e pela qual, agora, tenho verdadeira adoração, aos bifes contados em dia de visitas, as lembranças temperam a minha história. Mingaus quentinhos com

RAFAEL MOTTA/TV ALTEROSA RO ED :P OS T FO

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pedacinhos puxentos de queijo e o leite com açúcar queimado e canela aquecem as lembranças dos momentos adoentados, mas cheios do dengo materno. Das pipocas e dos bolos intermináveis nos castigos a que éramos submetidos na infância, obrigados a comer até enfarar por causa das brigas gulosas com os irmãos, ficam as lições de uma educação severa, mas pela qual somos eternamente gratos. Há ainda as compras racionadas mas felizes, aos sábados, na feira da Rua São Domingos do Prata, no Santo Antônio, que logo se transformavam como num passe de mágica pela máquina de moer carne ou de fazer massa de macarrão para alegrar a mesa de domingo. E, por falar nela, a mesa é que melhor conta a história dos domingos barulhentos e felizes

preparados por dona Eunice, sempre sob a minha implacável supervisão e, lógico, experimentação. Posso até sentir os sabores ao descrever: tutu de feijão com molhinho de tomate, cebola fatiada e rodelas de ovo cozido, a travessa gigante de macarronada caseira e as imperdíveis costelinhas de porco para agradar ao Zezé. Sem falar nos torresminhos de boi, na farofa e no arroz de forno. Portanto, amigo da cozinha, busque em sua memória todos os momentos saborosos que sua mãe lhe proporcionou e ponha a mesa hoje em sua homenagem, mesmo que ela já esteja compartilhando as suas receitas lá no céu, com a nossa grande mãe. Um beijo carinhoso a todas as mães e avós e, para você, dona Eunice, a minha gratidão e meu amor eternos.

M .E SP /E A T T MO

Cônsul da Alemanha sente prazer em cozinhar e aproveita cada oportunidade para experimentar receitas que aprende durante suas constantes viagens

Reunificando

sabores MÍRIAN PINHEIRO

Desde outubro do ano passado, Victor Sterzik é cônsulhonoráriodaAlemanhaemMinasGerais.Administrador de empresas, o executivo do ramo de importações, de 40 anos e pai de dois filhos, nasceu e cresceu dentro da colônia alemã que, entre os anos 70 e 90, foi muito representativa em Belo Horizonte. O pai veio para o Brasil na década de 60, como presidente de uma multinacional alemã, e a mãe, brasileira, médica, o fez vivenciar a cultura dos dois países. Mesmo sendo apreciador do bom arroz com feijão e do churrasco, que muitas vezes animavam os encontros da família, o pai fazia questão que o dia a dia em casa fosse pautado pela gastronomia germânica: muitas batatas, legumes, embutidos, carnes marinadas ou defumadas etc. Victor conta que, nos fins de semana, a cozinha era dos homens: “Meu pai assumia os trabalhos e, para que eu ficasse ocupado, me mandava descascar as batatas, picar as cebolas e lavar os legumes”. A tarefa acabou despertando nele o prazer pela gastronomia. Como viaja muito a trabalho e as oportunidades de conhecer culturas e culinárias diferentes são constantes, o gosto de Victor foi se aperfeiçoando. Hoje, a gastronomia e a cozinha, para ele, viraram terapia. “Depois de um longo dia de trabalho, nada melhor que uma boa garrafa de vinho, uma receita nova na mão e a companhia da esposa e de amigos com muito apetite”, revela o cônsul. Aliás, confessa que sua mulher, de paladar apurado e exigente, sempre torna o desafio mais interessante.

Para Victor Sterzik, não há nada melhor para relaxar do que ter “uma receita nova na mão”

OUTRAS DELÍCIAS Victor resolveu aproveitar o espaço do Degusta para mostrar aos leitores que a

culinária germânica não se resume ao tradicional joelho de porco e às salsichas, tão apreciados entre nós – e, é claro, muito comuns na Alemanha. “São ingredientes culinários que vieram com os antigos imigrantes alemães, como meu pai”, analisa. Mas é claro que em meio século isso mudou muito: hoje, a Alemanha oferece um cardápio variado, com influências de toda a Europa e do mundo e sabores surpreendentes. Há quem atribua os prazeres oferecidos pela boa mesa germânica ao sal usado por lá, que não vem do mar, mas das minas de sal dos Alpes. Isso não é tudo, porém. “A Alemanha é um país de boa comida e o turista não paga um preço caro”, afirma Victor Sterzik. Nos pubs locais, o visitante vai encontrar comida boa, diversão e músicas típicas, tudo regado a muita cerveja. Nos restaurantes, é costume as pessoas se sentarem às mesas umas das outras: há lugares que oferecem mesas gigantes para os clientes compartilharem sabores e firmarem bons e longos bate-papos. Para aproximar os gourmands do país que representa oficialmente em Minas, o cônsul escolheu uma receita que transita entre o antigo e o moderno para ensinar aos leitores: truta defumada com salada de batata coberta com amêndoas laminadas. “Tenho certo carinho por esse prato, pois me faz lembrar algumas viagens que fiz com meu pai. Costumo servi-lo em ocasiões especiais, quando tenho visitas formais”, conta. Na último jantar em sua residência, com a presença do embaixador e do cônsulgeral da Alemanha, Victor serviu a iguaria como prato principal.

Truta defumada com salada de batata coberta com amêndoas laminadas INGREDIENTES PARA 2 PORÇÕES

1 truta defumada inteira ou 2 filés de truta defumada resfriados; 3 batatas grandes para a salada; 100ml de mostarda amarela; 100ml de óleo de canola; sal; pimenta-do-reino e molho de raiz-forte (encontrado em supermercados gourmet).

MODO DE FAZER

Como se trata de um peixe defumado, a truta teoricamente está pronta e só precisa ser aquecida no forno. Pôr o peixe no prato em que será servido, espalhando as amêndoas por cima, para decorar. Levar o prato ao forno para aquecer. Salada: cozinhar as batatas até que fiquem macias, mas sem se desmanchar ao ser misturadas. Adicionar o óleo de canola e a mostarda e mexer até que fique uma mistura homogênea. Pôr sal e pimenta a gosto. Se quiser, ponha mais mostarda ou acrescente cebola picadinha.

MONTAGEM

Quando a truta estiver quente, sirva com uma porção de salada de batatas e uma colher de sopa do molho de raiz-forte para acompanhar.


Coluna Muito Prazer