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E STA D O D E M I N A S

D O M I N G O ,

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MUITO

prazer EDUARDO AVELAR

RAFAEL MOTTA/TV ALTEROSA

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degusta

Tropeiro ficha limpa Muito se tem falado sobre esse polêmico assunto da ficha limpa. Em minha gastronômica opinião, se a lei vale para políticos, devemos partir para o princípio da isonomia e estendê-la a todas as áreas da sociedade. Isso pode gerar uma grande economia para a nação, ao não necessitarmos mais dos tribunais superiores e do Supremo, uma vez que os processos julgados e já declarados culpados em segunda instância determinam a ficha suja. Bom, isso é assunto para

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eles, e o nosso é o tropeiro, que está na pauta dos parlamentares. Teremos ou não o tropeiro com a cervejinha, e, por que não, também a nossa cachaça nos estádios? Não somente na Copa, mas sempre? A violência é assunto deles! Essa prática de não dar conta das suas obrigações tem levado nossos governantes a adotarem regras restritivas aos cidadãos. A lei seca é uma delas, ao nos privar do prazer de jantar com a esposa, na companhia de um bom vinho, e ir para casa em paz. Será que somos to-

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dos irresponsáveis e criminosos do trânsito? Aliás, quantos são punidos? Voltando ao tropeiro no Mineirão, consideroo tão importante para a nossa cultura e prazer quanto um pênalti – que deveria ser batido pelo presidente – para o nosso time. Sobre a cerveja e o álcool, as estatísticas nunca apontaram para grandes ocorrências devido ao seu abuso dentro dos estádios, mas sim nas imediações deles. O cidadão cumpre a sua obrigação pagando o ingresso, que gera milhões para a economia do país, e cabe ao Estado proporcionar a segurança. Mais uma vez bato na tecla da ineficiência no cumprimento de atribuições básicas como saúde, segurança, educação, saneamento e transporte. Proíbe-se e restringe-se tudo e cada vez mais se interfere no nosso direito de escolha. O cigarro, que comprova-

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damente faz tanto mal quanto as estatísticas apontam, hipocritamente é legal. Já em se tratando de queijos, tachos de cobre e colheres de pau, não se tem notícia de mortes atribuídas a eles. A galinha caipira, patrimônio mineiro, e o seu sangue têm sido comercializados sob os balcões, mas quantos já morreram “de cabidela”? Devemos nos espelhar nos exemplos de países que respeitam a sua cultura. Recentemente, estive em Burgos, na Espanha, onde o lechazo, ou cordeiro de leite, certificado pelo governo, além de cumprir várias exigências para ser considerado patrimônio local somente é reconhecido como tal se abatido em abatedouro controlado pelo próprio Estado. Podemos fazer assim com o sangue de porco, a despeito da proibição do tão apreciado chouriço, e com tantos outros

produtos que já tem gente por aqui querendo taxar de ficha sujas. Portanto, acredito que a polêmica da ficha limpa deve ser tratada com mais responsabilidade em todos os segmentos, e que nossos representantes deveriam se preocupar com assuntos mais relevantes, como, por exemplo, cuidar para que se ofereça aos cidadãos o que lhes é de direito. Queremos o tropeiro e a cerveja no Mineirão já! Por falar nisso, que tal preparar um tropeiro para os jogos do domingo? Cozinhe o feijão, deixando-o al dente. Escorra bem. Em uma panela, refogue cebola e alho, acrescente ovos caipiras, lingüiça e o feijão. Acerte o tempero e a farinha, junte um pouco de cheiro verde e, se gostar, uma pimentinha malagueta. Abra uma cerveja para acompanhar e torça por seu time do coração.

Roupas com o toque do chef MÍRIAN PINHEIRO

O pernambucano Leandro Ricardo descobriu o gosto pela cozinha aos 15 anos

SUPERAÇÃO Esse chef, que também faz moda

com os alimentos, não vive só de arte. Até porque, na vida, precisou de muito mais que sensibilidade para chegar aonde chegou. Superou a pobreza, o abandono paterno, o preconceito contra a orientação sexual e toda a sorte de dificuldades para, com coragem e determinação, tomar as ré-

deas do próprio destino. Nunca fez faculdade na verdade estudou só até a antiga 8ª série, mas a capacidade de observar, ler e perguntar fizeram a diferença. Aos 13 anos virou jardineiro e, acidentalmente, durante uma crucial ausência do cozinheiro oficial da casa, se ofereceu para fazer uma carne guisada que aprendeu ao observar uma vizinha cozinhar. A tal receita impressionou. Os donos da casa começaram a chamá-lo de “meu chef”. E ele, que nem sonhava que este seria o seu futuro, foi trabalhar, aos 15 anos, em um restaurante, como auxiliar administrativo. Um ano depois estava na cozinha, descobriu a paixão. De lá para cá, recebeu muitos prêmios, teve restaurante próprio e hoje se dedica à consultoria, algo que também adora fazer. Cria conceitos de casas pelo Brasil, monta cardápios, recruta e treina equipes. Andanças que já o levaram para perto de astros famosos, como Penélope Cruz e Javier Baden. Recém-casados, os atores passaram férias no arquipelágo de Fernando de Noronha sob a tutela gastronômica do chef Leandro Ricardo. Arquiteto, pianista, designer, estilista, todas essaspossibilidadespassarampelacabeçadeLeandro Ricardo na infância pobre no Recife, época de muitas descobertas e sofrimentos. Os desenhos que criava já demostravam que ele jamais seria uma coisa só. E é assim que o chef traduz o mundo que o cerca: pelo nariz, com os perfumes que fabrica, e pelas mãos que insistem em cozinhar, desenhar,pintareescrever,nãosóreceitasmaspoemas e palavras – que, segundo ele, escorrem direto de sua alma para o papel, e, às vezes, para os quadros. “Tudo que é belo me toca e me acerta como uma flecha afiada no coração”, poetiza. Em outra frente, o chef-artista plástico-estilista atua com ações que revelam uma grande responsabilidade social. A RH Gourmet tem como objetivo inserir jovens no mercado de trabalho por meio de cursos de cozinha. “Gosto de poder retribuir um pouco do que fizeram por mim, dando aos outros uma oportunidade de vencer na vida”, diz, orgulhoso da própria história. Os leitores do Degusta têm agora a chance de provar o toque de midas desse artista inquieto, por meio de uma de suas maravilhosas receitas..

Unindo a moda e a comida, Leandro Ricardo criou vestido feito com chocolate

EMMANUEL PINHEIRO/EM - 24/5/07

Sabores da gastronomia dão pitadas generosas de sensações ao mundo fashion

Autodidata, o chef pernambucano Leandro Ricardo é dono de uma história ímpar no mundo da gastronomia nacional. Com mais de 20 anos de carreira, uma trajetória de sucesso, vale ressaltar, ele segue surpreendendo e se superando. Hoje, prefere se ocupar com as consultorias técnicas que faz pelo Brasil a comandar as panelas que lhe renderam fama e prestígio, dedicando também boa parte de seu tempo às artes plásticas. Não que fuja da cozinha, mas descobriu alegria em outras frentes, como na mais recente empreitada: produzir artisticamente roupas para comer. Ancorado no conceito da iconofagia (corpos devorando imagens ou imagens devorando corpos), ele vem dando asas à imaginação e colocando a mão na massa para dar forma a looks criados com alimentos. O chef tenta explicar a sua arte pontuando diversos aspectos do comportamento humano. Com a simplicidade de quem cozinha um ovo, ele diz que quando associa a gastronomia à moda coloca no cardápio das emoções sensações, apelos visuais, aromas e texturas. Pensando nessas subjetividades, cria seus “gastrolooks” como quem experimenta receitas. A partir de palavras-conceito, Leandro Ricardo parte para a criação de telas, perfumes e roupas. Em recente exposição realizada dentro de uma faculdade do Recife, mostrou como os alimentos emprestam charme à moda. Confeccionou, com os alunos do curso de moda da instituição, peças irreverentes, como vestidos de chocolate, para fazer alusão à compulsão. Em outra composição, uma saia incrustada de pimentas fazia referência ao prazer. Para lembrar a necessidade, criou um look com pães. As interferências artísticas chamaram a atenção, ganhando repercussão até nas redes sociais. Um dos mais criativos chefs da culinária pernambucana era redescoberto, com um novo talento .

SERGIO LOBO/DIVULGACAO

Mil folhas de bolachas shayat e frutas secas com sorvete de mel INGREDIENTES PARA 4 PORÇÕES

4 grandes bolachas shayat ou fatias de pão integral cortadas em triângulos e assadas; 1 xícara de frutas secas a gosto picadas; 1 ameixa fresca picada; 1 maçã verde picada; 1 punhado de uvas sem sementes cortadas ao meio e sorvete de mel ou baunilha a gosto.

MODO DE FAZER

Misture as frutas secas e frescas e deixe num recipiente por algumas horas. Escorra a água que minar das frutas e arrume-as, sobrepondo uma camada de pão ou bolacha com uma de fruta. Decore com folhas de hortelã e filetes de mel. Sirva porções individuais, com uma bola de sorvete em cada uma .


Coluna Muito Prazer