Page 1

Bรกrbara e a baleia Flรกvia Muniz Cirilo


Flรกvia Muniz Cirilo

Bรกrbara ea

baleia

Editora Multifoco Rio de Janeiro, 2010


editora multifoco Simmer & Amorim Edição e Comunicação Ltda. Av. Mem de Sá, 126, Lapa Rio de Janeiro - RJ CEP 20230-152

revisão

Marina Vargas diagramação

Guilherme Peres arte da capa

Juliana Cioffi ilustração

Ana Muniz foto

Juliana Cioffi Bárbara e a baleia-1ª edição Dezembro de 2010 Cirilo, Flávia Muniz ISBN: 978-85-7961-269-5

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução deste livro com fins comerciais sem prévia autorização do autor e da Editora Multifoco.


Prefácio Em suas mãos, o exercício de construir a vitória sobre o abandono, graças à verdejante coragem encontrada no alto das árvores e ajoelhada ao pé das palavras, com tal força criativa que faz jorrar de mim palavras de Bárbara e a Baleia. Flávia Muniz sabe que se o amor (este outro nome das políticas públicas e dos direitos e deveres humanos, entre eles o primordial desafio-direito, o da Comunicação) cabe bem na casa dos fonemas, é na maneira como contamos a nossa história que criamos nosso destino e o do coletivo-embarcação que é a sociedade. Ela faz a pergunta-raiz-rizoma que muitos desistiram de fazer: porque-o-sofrimento? É assim que feita de


nenhum silêncio, à busca da voz da Mãe Terra, a menina Bárbara-nós encontra como fazer o amor espalhar-se até o horizonte, inventar outros mundos e superar o entreaberto das feridas humanas, que, claro, não pode ser curado pelo consumo. Este livro é uma linda lição e uma surpreendente escrita-testemunha de que podemos ser mamíferos-caravela a navegar na abundância da terra, na fartura de alimentos, na região dos desejos sustentáveis e democráticos que fazem o peito bater vivo na alegria dos olhos. Como Flávia bem diz, com o sol sobre a consciência e o fogo em seu coração: gargalhemos alegrias, comamos vegetais e cuidemos de nossos filhos com a cantiga de roda de nossos ancestrais, pois assim “Eu proclamo outro mundo”. Evandro Vieira Ouriques


Apresentação O começo de uma história se assemelha a um nascimento: compreender o mundo é função do ser humano, esta espécie em extinção. Buscar nos animais nossa contraparte divina é a forma mais simples de se conhecer. De todos os mamíferos, o maior deles é a baleia – este ser aquático como os botos-tucuxis que emergem para atrair os homens de volta às águas. A natureza humana é celestial e aquática. Tanto os céus quanto os mares nos fascinam e nem sabemos por quê. A baleia é a voz da Mãe Terra. A Terra que sobrenada em dois terços de água, é o macrocosmo de nosso corpo aquoso. Os dias são líquidos e escorremos sobre eles como placas tectôni-


cas sobre o magma. Compreender, compreender tudo, é o destino dos homens. Destino, missão, fado. Aos mares lançaram-se os portugueses em busca de horizontes. Sua terra tão franzina fez com que quisessem conquistar o mundo. É o mesmo que fazem os homens em sua ânsia pelo mar. Um amor deve alargar – alargar horizontes, alargar vidas, abrir portas, enseadas, baías, descer rios, encostas, enfrentar abismos, escalar montanhas, quantas descobertas, meu Deus! São todas essas descobertas que fazem parte do mundo de Bárbara, que, até pelo nome, já nasceu desbravadora. Por que a escrita, por que os sentimentos, por que as bombas, por que as guerras, por que as causas humanas, por que tudo isso que faz parte da vida? São muitas as línguas e os alfabetos existentes no mundo, mas se todos são provenientes da mesma raiz, a língua comum existente é o amor. O amor é


a maior descoberta. Para isso vivem os homens – para amar e ser amados – e descobrir o preço desse amor, nem que seja à custa de muito sofrimento. A redenção de todas as dores, pelo renascimento nas águas, de onde vieram, certamente. Thereza Christina Rocque da Motta


11

O começo de uma história se assemelha a um nasci-

mento – chegar ao mundo, abrir os olhos e chorar como quem diz: Eis-me aqui! Estou na Terra! A garganta abre espaço, um som agudo e estridente sai da boca, a chegada traz um quê de “aqui tem festa”. Não chorar é quase o mesmo que nascer morto. Nascer morto é como terminar uma história no primeiro parágrafo. Uma história sem história. Entretanto, a história de Bárbara é dessas que na imaginação tem gosto de amora e o chão do pé parece areia: as pegadas são o próprio tempo da vida. Quando a olhei pela primeira vez, jurei que ela não havia nascido. Quer


12

dizer, para mim, ela saiu de dentro de uma baleia, veio das profundezas do mar e contava na língua dos peixes as palavras do centro da Terra. Minha admiração por Bárbara é feita de nenhum silêncio e por isso vou contar tudinho tim-tim por tim-tim. Você já ouviu falar de gente que nasce em berço de ouro? Gente rica, que tem muito dinheiro? Eu nunca entendi uma pessoa ter muito dinheiro e outra não. Digame quem foi que dividiu as fatias do planeta. A injustiça usa quantos anéis de pérola? O que há dentro do humano capaz de diferenciá-lo das outras espécies? Ouvi falar que é a razão. E por isso ele pode aprender a seguir por muitos caminhos. Hoje em dia já se conhece bem a cartilha com a linguagem das baleias. A baleia é a voz da Mãe Terra. E Bárbara teve certeza disso quando conheceu Yawá. Ele sabe


13

do tempo e do relógio sem ponteiros. Yawá significa queixada, um bicho responsável pela limpeza da mata. Ele é pajé. Pajé é ganhar de presente o invisível e distribuílo entre as pessoas. O sol nasce todo dia, e os pássaros cantam quando clareia, e a mandioca sabe alimentar a nação Yawanawá. Essa nação fica no Acre, no alto Juruá – um rio amazônico. Nascer na Amazônia é o mesmo que vir em berço que vale muito mais do que ouro. A mãe de Bárbara teve a menina antes do tempo. Ela é prematura. Nasceu tão pequena, tão pequena, que mais parecia boneca de brinquedo, e ainda foi parar numa caixa de sapato. O leito de Bárbara foi uma caixa pequena. O berço de ouro de Bárbara não era de ouro, e sim de papelão! Era como se aquele bebê fosse os pés da barriga de sua mãe. Ela foi abandonada no hospital no interior da caixa. Bárbara carregou a vida


14

inteira um buraco no peito chamado abandono. Abandono é um vazio. Sabem bem os cães sem dono, as crianças de rua, os mendigos de praça. Bárbara tem cabelo de mola e isso também confunde a cabeça da gente. Parece uma boneca grande, com braços e pernas grandes, língua a dar nos dentes. Mas Bárbara é ser humano, e ser humano é gente! É pessoa de carne e osso, pescoço, olhos, nariz, boca, tronco e membros, músculos para conter os órgãos, pele para enfeitar o esqueleto. Melhor dizendo: pele é o embrulho do presente. O presente é Bárbara. Menina das façanhas, moça dos cata-ventos. Mulher Bárbara de todos os tamanhos. O coração é de um vermelho pôr do sol, e o amor dentro dele é de espalhar até o horizonte e fazer cantar os peixes. Você já recebeu um amor assim? Então, aproveite. Um amor deve alargar ou conter-se?


15

A infância Os líquidos quentes e o conforto. Talvez fosse azul por ali. Aquele aquário oferecia a proteção necessária. O feto apenas sabia dos alimentos. Tudo em volta água. Nascer é a passagem do estado líquido para o gasoso. Respirar sozinha, a primeira prova de independência. Depois as paredes da caixa e mais tarde as asas. Quando voava alto, os pés jamais se dissolviam, porque na verdade não saíam do chão. Ela se confundia com as pedras. Sentia-se rocha. Dureza de rebater o vaivém das ondas. Isso era motivo para uma lágrima grande e salgada com sabor de mar inteiro. Choro engolido e preso, abaixo da garganta, dentro do pulmão dela, onde o ar dormia e acordava todo


16

dia. Respirava fundo e prendia o choro. E amargava um jiló para dentro com aquela dor dura de não ter mãe. Por isso desenhava baleias. Baleia na geladeira. Baleia embaixo do travesseiro. Nos lugares inimagináveis, baleia. Era assim que amamentava a si mesma. Nos dias ímpares inventava um navio e nos pares, baleia. Era filha de navio e baleia. Se o dia era de sol, passava a conversar com a sombra conversas de vendaval e fúria, pois para ela ruptura tinha sabor de caixa de sapato e abandono sensação-espeto feito ponta de agulha. Caso o dia fosse chuvoso, o guarda-chuva servia-lhe de melhor amigo, e contava segredos de coisas feitas às escuras e embaixo das escadas vazias, depois inventava pingos de sim e não. Pingos de sim para sorvete sem gordura hidrogenada, cheiro de pata de cachorro, educação e saúde para todos, biscoito de polvilho na praia, e pingos de não para


17

as injustiças sociais, para os crimes contra a humanidade, para as bombas nucleares e para os alimentos cheios de corantes. Para falar dos medos, procurava orelhas de tijolo em obras e terrenos baldios. Via os meninos a soltar pipa e jogar bola de gude. Quando o assunto era coragem, o alto das árvores servia-lhe de torre. E passava horas sobre os galhos do flamboyant vendo o mundo com o olhar das copas. Já pensava como árvore e até inventou um dicionário de vegetais. Chamava o céu de casa de nuvem; nuvem de pensamento avoado de gigante; as pessoas na rua de formigas escravas das horas; e silêncio, de boca ao contrário do barulho. Criar novos mundos era como digerir os cabelos esticados da carência. Então pensava em não dizer mais nada. E ficavam ela e seu silêncio, um a olhar para o outro. Isso lhe doía tanto, que furava os pêssegos do peito. E então fundou o clube dos filhos de


18

navio e baleia, do qual ela era presidente e membro do mais alto escalão. Ia a todas as reuniões e criou até um estatuto. O clube funcionava no sótão da casa de Seu Amadeu. Ele era surdo-mudo. Era a referência adulta da vida de Bárbara. Campeão de dança, ouvia com os pés a vibração do chão de madeira. A menina adorava dançar com Seu Amadeu. Entre as brincadeiras, as invenções e o colégio, eles movimentavam o corpo em rodopios e reboladas. Ah! Claro! Isso quando ele não estava viajando. O bom de rodopiar com Seu Amadeu era poder falar com o corpo o que a fala não diz. Eram passos de balé e gingado, remelexo e sacudidela, tremelique e espasmo. Era poder escrever com o pé o que, às vezes, a mão quer calar. Ele colocava para tocar as músicas de Pixinguinha, e Bárbara adorava. Mas era horrível quando Seu Amadeu


19

ia competir com outros dançarinos. O calendário ficava grande e o relógio, mais que depressa, dilatava. E lá estava a ausência. Para onde olhasse, a ausência. No espelho refletido, o buraco. No buraco dentro dela, ela mesma. Todas as mulas sem cabeça e sacis estavam ali. Todas as fadas encantadas estavam onde? Por que não lhe deram um berço de ouro e uma fada madrinha para realizar seus desejos? Por que as crianças moravam nas ruas? Por que lhes faltavam alimentos? Suas perguntas estavam num labirinto sem saída, e esse era seu mundo fantástico: a realidade de aprender na rua as coisas cruas e duras da vida.


20

Vírus Dado que era impossível voar, deveria descobrir algo: o que alarga e o que encurta. Os caminhos dos pés eram guiados pelos impulsos, e o buraco sabia cavar Bárbara por dentro. Cavernas, estalactites, grutas e galerias. O vão era um lugar impenetrável pela palavra. Carinho desconhecia o rosto, e o resto era justamente a ponte que levou Bárbara a pisar pé, no chão do chão. Paralelepípedos falam por ela. Beiras de calçada, pedras portuguesas, tampas de esgoto, asfalto de piche. Boca de pedra a balbuciar a mulher Bárbara. Chegavam aos seus assentamentos os primeiros habitantes. O início daquela civilização: construções em tor-


21

no do grande lago, bem no meio da barriga de Bárbara. No baixo ventre, os trigais. Quem poderia fixar vida ali? Os nômades passavam sem deixar rastro. Muros altos separavam os sonhos da crueza. Eram tempos difíceis aqueles, de crescer. Outro corpo se revelava e engolia a criança. Agora seios, pentelhos e sangue no lugar de tranças. E não tinha com quem falar das coisas do sexo. Os tabus e pudores. O corpo queria colo de mãe. E já nem podia mais brincar de desenhar baleias. Foi então que resolveu redigir cartas. Mas quem Bárbara conhecia? Primeiro inventou amigos distantes. Amigos que falavam a sua língua em outros continentes. Escreveu a um amigo imaginário de Angola chamado Paulo, que tinha os olhos grandes e corpo magro de tão magro. Correspondeu-se durante dezessete meses com Paulo dos olhos grandes, por meio de cartas que iam e não voltavam. Contava de


22

seus estados e suas fases, seus sonhos e medos. Escrevia com canetas de cores. Quando se sentia nuvem, uma cor mais clara; quando sentia tristeza, qualquer cor servia, porque o que queria mesmo era falar com alguém. Ela não achava que tristeza era cinza. Poderia ser de todas as cores, mas não que ficar triste fosse o mesmo que arco-íris. “Tristeza é um rio que dá na gente.” Considerava que várias cores poderiam colorir o mesmo sentimento. Por exemplo, um dia enviou a Paulo uma carta que dizia assim: “Amigo Paulo, hoje acordei verde-escuro e estava bem alegre. Você pode achar estranha minha alegria verde-escura; é que eu estava verdejante com as coisas da vida. Foi abrir os olhos assim, e plim! Verdejei. E sorri, e escovei os dentes sorrindo, e em frente ao espelho disse para mim mesma: quando for mais velha quero ser humanista. Estou inconformada com as coisas. O mun-


23

do do jeito que está não está bom para todos. Sei que a África é o continente mais afetado pelas desigualdades e injustiças. Quero poder fazer algo. Ainda não sei bem o que, nem como, mas já ouvi falar que o diálogo é a única coisa capaz de aproximar as pessoas, mesmo que elas discordem. O meu país é o Brasil. A independência aqui foi proclamada mais de cem anos antes de em Angola. O país é muito grande. É aqui que está a Amazônia. A Amazônia tem a maior biodiversidade do planeta e muita água potável. O desmatamento é um problema. Você consegue imaginar que é uma árvore, um dia o derrubam e você não é mais árvore? Você agora é madeira de construção! E em breve será um móvel da sala. Pelo menos que seja da casa de um poeta! Paulo, acho que o mal do mundo são as armas. Eles gastam muito dinheiro com isso... Acho que esse papo está me desbotando.... Eu que-


24

ria mesmo falar um pouco de mim. Não sou mais criança, e meu corpo está cheio de curvas. Meus seios cresceram bastante, e todo mês eu sangro. Isso significa que eu posso ser mãe se transar. Você já transou com alguém? Em Angola os jovens falam abertamente sobre sexo? Você conhece alguma pessoa que tem aids? Lá na escola, colocaram uma camisinha numa banana. Eu achei engraçado, mas tenho um pouco de vergonha... Vou ficando por aqui com as bochechas rosadas. Um beijo estalado, Bárbara.” Depois ela passou a criar dialetos, então inventava amigos em qualquer lugar do mapa. Foi quando a menina tinha quinze anos que Seu Amadeu morreu. Um vizinho da rua deu a notícia de supetão: “O surdo bateu as botas...” Primeiro ela prendeu o fôlego e deixou escapar: “Como”? “É, minha filha, o dançarino que ouve com os pés morreu... de piripaque...” Correu e


25

correu mais, com um berro a gritar dentro. O berro ecoava nas paredes do crânio, reverberava no corpo e descosturava as carnes dos ossos. “Como se não bastasse não ter pai nem mãe, ficar sem o melhor amigo? E anunciar a morte do meu amigo assim? Como se ele nem tivesse nome? Surdo... Ele ouve com os pés! E me ama mais que a capacidade da fala!” Chegou ofegante ao fim da ladeira, onde ficava o campinho. E o choro não mais podia conter. “A dor transborda a represa. A morte escabela a paz da gente.” Soluçava e engasgava. Concluiu: “Existem muitos tipos de ausência, de tristeza, de alegria, de medo, de amor... Dá até para ficar alegre e triste ao mesmo tempo. Perda e ausência são coisas diferentes.” Seu coração cuspia fogo. Havia um dragão dentro dela. “Saudade de alguém que morre é diferente de saudade de quem a gente nunca conheceu.” Era a primei-


26

ra vez que tinha contato com a morte, por isso sentia tanta falta daquele silêncio cheio de amor. Porque havia gente que falava monólogos inteiros, e era o mesmo que deixar o ouvinte com cara de máquina desligada. “Maciez é qualidade dos sábios.” E sabedoria era coisa que Seu Amadeu tinha em cada palavra que não dizia. Mas foi apenas bem mais tarde que Bárbara percebeu que a morte parecia uma viagem muito longa, para um país ao qual se ia somente com passagem de ida. Nesse lugar, os telefones não funcionavam, não havia fábricas de lápis nem de papel, e nos correios todos os dias eram feriados – por esse motivo não podíamos nos corresponder com as pessoas que viajavam para lá. “Deve ser por isso que dizem que o amor é maior que a morte. O amor inventa outros mundos, não tem fronteiras.” Ela guardava o amor por Seu Amadeu na primeira gaveta da escrivaninha. Foram muitas cartas escritas para


27

aquele país ingrato do eterno feriado dos correios. “Seu Amadeu: esta é a última carta que escrevo; minha saudade está muito grande; o seu país deveria rever as leis. Guardo na lembrança os passos e o ritmo dos seus pés; seu silêncio segue comigo por aonde vou. Tenho algo a dizer: descobri que tenho o vírus HIV. No início, achei que iríamos nos ver rapidinho aí no seu país. Sabe... Eu transei sem preservativo e quando olhei os exames estava lá: positivo. Agora vou ter que descobrir uma maneira de me comunicar melhor com a vida. Portanto, esta é a minha última carta para o senhor. Um abraço com braços maiores que a distância. Sua amiga, Bárbara.” Solidão nunca foi esse gigante sem fala. Solidão era toda a cidade a cruzar para lá e para cá, e ela mesma não saber se era dia ou noite dentro, se era macio ou gasto, rarefeito ou denso. Havia desadornado as pétalas e ras-


28

gado os buquês de rosas. Batom carmim escreveu certa vez no espelho: “AMOR É UM LEÃO IMENSO A RASGAR O PEITO.” Quis ter boca de sorriso, mas era sexta-feira e nada disso cabe quando se vai embora com a mala pronta e não se deixam as chaves. As lágrimas repetiam o gosto de uma única dor. Conta mal feita de inexistência e orifício. Variações inteligentes de um mesmo discurso. Artimanhas do cérebro para contar as variáveis cujo tema é o abandono. Tudo isso ficava tão no canto da lembrança que já não lembrava. Castigava as injúrias do tempo com o guarda-roupa cheio de solidão e lástima. E das gavetas retirava a poeira do desgastado amor barato. E outro e outro. E somando todos os beijos que deu, com a ferida que se abriu, sangrou todas as letras escritas, maiúsculas e minúsculas, num tiro certeiro de papel timbrado, aquele


29

sangue contaminado com vírus sem cura. E os homens da Terra ainda matavam uns aos outros e disparavam bombas e ameaçavam guerras e destruíam os recursos naturais do planeta e escravizavam uns aos outros, e ela se olhava no mesmo abandono-caixa-de-sapato renitente. O mundo inteiro era a caixa de sapato. Todos os pés de todos os habitantes cabiam ali dentro. Uma imensa passeata sairia dali com megafones e bandeiras a dizer: “TODOS NASCEM LIVRES E IGUAIS EM DIGNIDADE E DIREITOS.” O entreaberto das feridas do homem não poderia ser guardado em caixotes. Nem as cicatrizes da vida, nem a finitude da morte. A morte era pequena demais para caber num caixão. “A morte não cabe em nenhum caixão. A morte não cabe. A morte não cabe na palavra. A palavra transcende toda a dor. Supurar alfabetos inteiros é pouco para dizer: Estou viva!”


30

Solidariedade “Todo cão conhece o amor antes dos homens.” Estava escrito no caderno. “Observo os atos de Maria... Quem me dera ser um babuíno.” Mais uma frase escrita no canto da página com letras enrugadas, com caneta preta. Ela se perguntava outra vez por que os macacos não desenvolvem o vírus. Era uma questão e tanto, mas depois passou a olhá-la com certa distância. Revirou a história dos homens de ponta-cabeça, como um detetive a analisar a sangue frio o caso. A questão era muito maior que o resultado positivo ou negativo do vírus. Era o preconceito implícito, o desprezo pelos povos, a condição imposta ao continente africano, as populações carentes das favelas,


31

as condições subumanas dos guetos, a má distribuição de renda e a lista interminável de atos inomináveis. Um olhar dentro do olhar. Como se houvesse dois olhos antes e quatro depois. Como se a vida não tivesse começado nunca. A vida sem solidariedade era o mesmo que noite sem amanhecer. “Aquela terra de todos. De longe vejo aquela terra onde todos são responsáveis por todos. Os homens a sair dos homens a sair dos homens... de suas cascas, de suas armaduras de ferro, de seus contornos de plástico, de suas táticas e armas de guerra.” Bárbara começava a desconfiar que o tempo fosse grande demais, ou talvez nem existisse. Calculava noites em claro com as páginas do livro vermelho. O livro do sangue. O livro da vida que começou a escrever quando nem sabia ler, falar ou andar. Ali escreveu sua primeira


32

página. O primeiro berreiro – o borrão de tinta necessário para que existisse um início. E foi deixando cair mais tinta e grafite e lápis de cera e giz pastel. Uma obra não poderia ser feita apenas em preto e branco ou em cores. A própria vida deveria ser o pigmento da escrita. O preconceito era a maior doença. Essa, sim, poderia contaminar gente e beira de gente. Esquinas de gente e olhar de gente. Olhos, sorrisos, mãos, pés, saliva e língua. Aquela ideia preconcebida que se tem das pessoas sem as conhecer por trás de suas paredes-carnes. Solidariedade poderia ser o mesmo que o exercício do tempo todo, enquanto nos deslocamos pelo mundo e nos relacionamos entre nós. “Mesmo nas diferenças de cor, credo ou gênero somos hermanamente humanos. Não para que sejamos uns melhores que os outros, mas para que sejamos.” Bárbara se confundia com palavras e entreli-


33

nhas que rabiscava nas linhas do livro vermelho. “Antes de saber o nome, observo os arquivos do homem. Peles macias e rugas contam-me confidências de suas alegrias e danças. Ajoelho-me ao pé da palavra. O verbo encarna a plenitude da língua. Borbulho letras. A paz habita o ponto culminante da colina. O amor é o alimento do pé do peregrino.” Era uma curiosa acerca da experiência humana e do que motivava as pessoas em seus caminhos. Não era possível que houvesse uma história idêntica a outra. Bárbara queria os rios das pessoas para molhar as pontas dos cabelos de mola e poderia nadar sem pés de pato, tardes inteiras, naquelas águas de carne e osso – máquina humana. Aquela engrenagem funcionava tão perfeitamente, nenhuma tecnologia poderia imitá-la. A ciência era capaz de melhorar a condição da vida na Terra, mas os sentidos


34

são do departamento das coisas ambíguas. As experiências tornam as pessoas únicas, nenhum chip pode recriar o mar do homem. O modo de ser humano é o próprio modo de ser humano. Entender o outro a partir da sua própria vida é o mesmo que saber respeitar as diferenças. E isso sim faria jorrar do peito o sentido de toda liberdade.


35

Liberdade Era assim desde menina. Seus sins e nãos dos pingos das chuvas prateavam as poças com anseio de independência. E pensava com o pensamento das fechaduras: “Por que apenas uma chave pode abrir determinada porta?” E se lembrava das ocas dos índios e das aldeias e das trocas. Era uma recordação-escambo. Não era possível que o valor da vida estivesse nas superficialidades. A quantidade de dinheiro não poderia medir o tamanho do coração de cada gente. E Bárbara pensava na única herança que não recebera, uma balança herdada do avô, (porque na imaginação ela possuía um avô, um avô dono de quitanda) e pesava as grandes invenções, equilibrava


36

os produtos, examinava as peças e observava cada material, e analisava, ainda, o que era comércio justo, consumo responsável e economia solidária. Em seguida, media alegrias e tristezas com suas pequenas polegadas. Um ser humano valorizado vale mais que a face de qualquer moeda. E conversava com as caras das notas. Dizia em língua de cifrão que não era justo um pedaço de papel comprar as horas e a força de trabalho dos homens. “Para que nascem as pessoas? Se trabalham tantas horas no que gostam ou não gostam, recebem papel-moeda em troca. Se não trabalham, não recebem e não comem. O sistema transforma homens na escória do mundo. E mesmo hoje há gente que trabalha em troca de nada. Hoje ainda existem escravos. Mas por que escravizá-los se nasceram livres? Com que finalidade produzir e consumir mais? Por que fazer tantas coisas de que não precisamos? Diga-me


37

de que realmente precisamos para viver. O homem é útil na medida em que investe seu tempo naquilo que o alegra.” E Bárbara adormeceu sobre a balança imaginária herdada de seu avô fictício. Começou a analisar a história do país para tentar entender o que aprisionou o Brasil. “Se os índios eram livres a viver na terra e os negros ainda nem estavam aqui, a escravidão dos povos vinha de muito longe na linha do tempo. Quando os homens brancos chegaram ao Brasil, catequizaram os índios. Eles achavam que o deus do índio era muito pequeno e por isso os peles-vermelhas precisavam aprender com os brancos. A sabedoria dos índios foi espremida junto com o espaço de suas terras. O conhecimento dos índios sempre foi passado de uma geração para outra. A natureza é o universo sagrado do índio: as lendas, os cantos, os trançados, as pinturas. Os


38

índios sabiam da terra com os pés e as mãos. A pele dos índios era sua roupa. O homem branco se veste de índio na nudez do banho, quando faz amor e também quando é carnaval. Os índios viviam livres na natureza, com suas crenças e seu balanço de rede.” “Mais tarde, as terras brasileiras precisaram ser ocupadas, porque se os portugueses não tomassem conta do terreno conquistado, os franceses, ou espanhóis, ou ingleses tomariam conta da ilha do pau-brasil. E Bárbara diria buenos dias ou bonjour ou good morning no lugar de bom-dia. Porém, os portugueses achavam os índios preguiçosos, e para cuidar de um quintal tão grande teria que haver gente bem forte. Então eles pegaram uma “boa mercadoria” no continente vizinho. Os negros chegaram ao Brasil. A mercadoria humana tinha força braçal e lombo “bom de bater”. Os negros valiam dinheiro. De que


39

jeito pode uma pessoa valer dinheiro? Quem colocou o homem branco no lugar de dono de outro homem? A cor da pele não determina o valor de uma pessoa. O que uma pessoa tem dentro que faz com que ela seja ela mesma? E o negro trouxe as cantigas de quadris e os batuques, o gingado e a alegria. Para fugir dos maus-tratos e ter uma vida digna, ele inventou os quilombos – uma organização comunitária que permitia a vida em liberdade.” Bárbara pensou no sabor da liberdade. Era um gosto assim: paladar confortante da arte da boa vizinhança. Era como se a tolerância pudesse preencher os vãos entre os dedos e todos os espaços entre um ser e outro. Um respeito mútuo tão grande, que o coração não pudesse caber no tórax. Braço no braço, mão estendida na outra, um abraço no corpo do próximo, uma grande roda a girar ciranda. Era sua vontade aquarela, maneira de ser que não se explica...


40

Igualdade Os grafites e carvões vieram antes das ideias, e ela saía a inventar a ordem das coisas. O amor cabia bem na casa dos fonemas. Rabiscos de residências, vilas inventadas, bicicletas nas ruas, crianças de mãos dadas, sorrisos e festejos, temperos e iguarias, poesias e canções. O mundo cabia na mão, e as linhas da palma eram as ruas. Cada aplauso dado, um lampejo de nova aldeia. Ser cidadão era ocupar os espaços e as praças. Pessoas moradoras do vão das pálpebras a participar ativamente da vida. Carvão e grafite a desenhar sonhos: técnica mista de saberes e inventos. E desmanchava os fios do imenso tear das horas, paleozoica a recriar futuros para


41

a Terra. Embrulhava o presente da vida no papel de pisar chão. Entre o corpo e a estrada, havia o mundo onírico de Bárbara. A imaginação era lugar sem paredes, onde esticava a rede e dizia palavras de quem tem pressa e seguia a carregar dentro os ossos e a viver a vida movida pela sede. O combustível da curiosidade fazia com que saísse pelo mundo a inventar teias de afeto. Fios estreitos e fibras. Enseada de braço e mar aberto. Cantava com os peixes. Aqueles olhos arregalados, o oceano imenso a conter as margens de terra, os navios naufragados, as cidades submersas, as histórias de piratas e o silêncio profundo das regiões abissais. Assim, sua cantiga de contar o mundo. Servia-se de letras porque as letras eram tentáculos de polvos. Os oito tentáculos cutucavam o coraçãomolusco dos homens.


42

“A visão dos polvos se assemelha bastante à visão humana.” Bárbara recordou esta frase escrita no grande aquário do museu da ciência, enquanto via pela primeira vez o futebol para cegos. Dentro da bola havia guizos, e o chamador ficava atrás do goleiro para dizer onde a bola iria ser chutada. Pensou enquanto acompanhava de olhos fechados os guizos da bola. Abriu os olhos e olhou fixamente para o sol, e foi tanta claridade que não enxergou mais nada. “Os olhos dos cegos são os outros sentidos.” Teve um lampejo de cegueira. “Como sonham os cegos? Como imaginam o mundo? A imaginação do cego é diferente? De que maneira entendem a beleza?” Sentiu vontade de perguntar aos jogadores tudo aquilo. Queria entrevistar as pessoas. Desejava ouvi-las. As histórias, as páginas, os escritos, os rabiscos, os rascunhos, até mesmo as folhas arrancadas delas. “Não existem pes-


43

soas com todas as folhas em branco. Basta nascer para escrever um livro vermelho.” Naquele dia ela estava especialmente intimista. Queria mesmo ficar num diálogo interno, a conversar com o próprio pensamento. Mas lá foi ela... “Olá, meu nome é Bárbara. Parabéns pelas jogadas. Sou muito curiosa... Como sonham os cegos?” “Oi. Eu sou o Léo.” Tocou-lhe o rosto e disse: ”Você é bonita.” “Nossa! Isso é outra coisa que quero saber! Como os cegos percebem a beleza?” Ele sorriu um sorriso grande. “Fiquei cego aos 15 anos. Aprendi a perceber as coisas de outra forma. Conheço as pessoas pela descrição que os outros me fazem delas. Construo em minha mente uma espécie de progressão visual dos rostos.” “Interessante!” “E sobre a percepção da beleza: ela está na audição, no tato, no paladar e no olfato. Percebi você através da audição, do tato e do olfato. Posso dizer que


44

uma mulher é bonita, tatilmente bonita... Logo que fiquei cego, enxergava tudo na minha imaginação. Agora ela está cada vez mais fugindo de mim. Então cada pessoa tem uma presença particular. Posso saber, ouvindo seus passos, se está calma ou nervosa, por exemplo.” “Nossa sociedade é muito presa ao olhar...” “Todo cego antes de ser cego é um homem. Além de ser homem, é uma pessoa. E uma pessoa sempre é capaz de reestruturar sua vida!” Ela sorriu e agradeceu. “Trocar experiências humaniza a gente!” Naquela tarde, resolveu visitar o mar e pensou nos surdos (lembrou-se bastante de Seu Amadeu), nos mudos, nos deficientes, nos esquizofrênicos, nos negros, nos sem-terra, nos sem-teto, nos homossexuais, nos povos indígenas e no que teria acontecido com sua mãe depois de abandoná-la na caixa de sapato.


45

Mulheres violentadas Bárbara nunca soube a história de sua mãe, e nunca saberá, mas vou contá-la para vocês. A avó de Bárbara casou-se novamente quando estava grávida. Conforme a mãe crescia, a casa da infância ficava pequena demais para conter os anseios e desejos da menina. Um dia, um dia bem feio, a mãe de Bárbara foi violentada pelo padrasto. Ele a estuprou e a obrigou a nunca contar nada a ninguém. Uma ameaça calou a voz, emudeceu o doce do olhar, trancou as janelas e grades com um cadeado tão grande que o coração ficou preso na areia movediça do medo. Quanto mais a barriga crescia, mais a dor esperneava no travesseiro duro do isolamento e no silêncio amargo do segredo.


46

Havia um filme recorrente, uma história-carimbo a marcar o peso dos instantes: a porta se abria, sua ingenuidade inventava um motivo, a lágrima escorria no rosto, os dentes mordiam os lábios a sufocar o grito. A porta se abria, sua ingenuidade inventava um motivo, a lágrima escorria pelo rosto, os dentes mordiam os lábios a sufocar o grito. A porta se abria, sua ingenuidade inventava um motivo, a lágrima escorria pelo rosto... Depois chorava no chuveiro, enquanto refogava o arroz, na beira da estrada, nos lugares escondidos, onde todo soluço era só dela. Passava as primeiras horas da manhã de olhos fixos nas mãos da mãe. Aquelas mãos ressecadas pelo sol, pelo vento, pelo trabalho em excesso nos canaviais. Chegou a pensar em aborto, mas seria tão humilhante passar por aquilo que escolheu um sofrimento mudo. Escondeu a barriga enquanto pôde, e talvez


47

por isso Bárbara tenha nascido prematura... Depois de colocá-la na caixa de sapato, sua mãe foi embora e não se ouviu falar mais dela. Desconfio que foi engolida por uma enorme baleia.


48

Filha das águas “Encontrar o amor seria encontrar a mãe e o pai dentro da gente?” Ela precisava descobrir seus próprios continentes. A mulher dentro da mulher: sua expansão ultramarina. O feminino mar, infinito das emoções, redemoinhos e correntes. Uma grande viagem de sal e areia. Pai navio e mãe baleia. O pai, aquele imenso barco a motor. E não era pelo tamanho do navio, e sim pelas âncoras. Cada cais por onde passou. Porto, tonéis, tripulação a bordo e o medo da tempestade. No convés todos os sonhos espalhados. Cordas, botes salva-vidas, mastro, velas e albatrozes. A estibordo, as desanuviações: lembranças leves e sadias esquecidas em algum canto abaixo da es-


49

cotilha. Na proa, o memorável dos horizontes e o porvir. Na ponte de comando, o capitão, o leme, a bússola, o astrolábio, as iguarias. Um pai feito da instabilidade das marés. Insígnia de almirante a conduzi-la pelas turbulências oceânicas. Bárbara era um mamífero-caravela que guardava os tesouros e os manuscritos orientais dos séculos. Nos porões do corsário, os vendavais aprisionados, os mapas, as rotas, a ampulheta. Timidez e coragem a guiá-la na travessia marítima. Baleia. Baleia. Baleia. Poderia escrever mil vezes baleia. O papel era pequeno demais para conter as dimensões do lugar que ocupava a falta da mãe. Mesmo que visitasse os museus e visse a ossada de variadas espécies do mamífero, de que forma poderia entender o vácuo do amor deixado pelo abandono? Costelas, mandíbula, dimensões ósseas, toneladas de carcaça. Procurava as


50

gorduras e o sangue quente para aquecer os batimentos do próprio coração. Uma mulher a desejar seus espaços inabitados, seus recônditos lugarejos, suas rotas desertas e seus arquipélagos mais distantes. Até então, Bárbara não havia se dado conta: a água que inunda a grandeza do mar é inversamente proporcional à aridez e ao silêncio do deserto. Por ali andava desde pequena: mares de areia, dunas, cactos, planícies gigantescas de sal, artefatos humanos sob o chão, serpentes e lagartos, insetos e processos intermináveis de erosão. Em virtude do clima seco, os artefatos se conservavam facilmente. Deserto é o mesmo que mar sem mar, amor sem colo, vida sem pulso, dicionário sem palavra, silêncio sem solidão. Sua umidade vivia guardada nas profundezas da noite, e o vento, que sempre foi seu amigo, contava os enigmas das antigas civilizações, de


51

enormes templos e pirâmides. No calor incisivo do sol dos dias, um navio aparecia em miragem. Seu pai, navio encalhado estranhamente nas areias. Sentia sede. Queria a abundância da terra, a fartura de alimentos, a sustentabilidade daquela região. Bárbara sentada olhando o mar mais parecia ele mesmo. Mulher e oceano olhos nos olhos. Aquela tarde era dessas em que os respingos das ondas sopram a beira. Inclusive os lugares da alma. E como tudo que anima inspira, o lápis tocou-lhe a mão, fazendo caracóis com as palavras. Riscava folhas, era a ostra que sai da concha para ouvir os zunidos do vento, e declamava os sussurros do ar no ouvido do horizonte. “Esse mar grande, essas paragens da imensidão, o infinito, a vastidão, minha aprendizagem de acordar o riso com a simplicidade de um dia após o outro e saudar a manhã de sol com o cor-


52

po a estalar os ossos. Ouvir o murmúrio das águas, o canto da sereia. Perder o olhar no voo das gaivotas, sentir no pé a espuma branca. Balançar para lá e para cá na beira da saia do amor. Algas, algas e mais algas, alguma maré as trouxe. À sombra dos coqueirais tem brisa. Eu tenho uma saudade grande que aperta o peito e não tem jeito de afrouxar. Nenhuma estrela do mar ou barco pesqueiro me trouxe notícia sua...” O farol da barra girou e iluminou. Havia anoitecido. Bárbara foi para casa.


53

Fraternidade Eram as voltas. Quanto mais adentrava as alamedas, mais se aproximava da praça central: “Nascemos um, existimos únicos, morreremos. Esticamos os membros, espreguiçamos o esqueleto do tempo, caminhamos braços, dedos e pés até que alcancemos a receptividade recíproca, o amor do outro.” A própria infância guardava os carretéis de linha do fogo. Lembrava mais dos nós da dor do que das fitas coloridas usadas nas festas de São João. Desatá-los era rever os medos, tornando-se mais humana. E saía a entrecortar espantos, bordava indignação em emblemas de cidadania. Porque se todos eram iguais e livres, onde estava escondido o tesouro comum a cada um


54

que nasce? Bárbara estava destemida. “Coragem abrasa as cores quentes do fogo. Dignidade alarga os espaços vivos do homem. A vida é o espetáculo de tornar-se cada vez mais solidário. Estamos todos juntos nessa imensa bola flutuante de ar, água, fogo e terra.” “Todos os dias desde o começo do mundo, os olhos do tempo foram os únicos que viram tudo. E foi início e fim de era, gelo e degelo, dinossauro e tigre-dentes-desabre, seca e dilúvio, até chegar o homem. Se fosse um jogo de futebol o homem teria aparecido sobre a terra aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo, no final da partida. No começo, a população era bem menor, não havia tanta fumaça, as coisas eram feitas pelas mãos, os homens já queriam conquistar outras terras. O homem sempre quis expandir seus impérios, e sem cessar precisou de escravos para construir novas cidades e obras


55

grandiosas. A expansão marítima, a revolução industrial, a revolução francesa, o imperialismo, todos os atos em busca de poder fizeram os homens conhecerem as guerras. A realidade parece um grande filme de aventura, mas conta a ferida aberta da falta de amor ao próximo.”


56

Yawanawás Foi em uma dessas noites que a lua chega bem tarde no céu. As baleias estavam por perto, soprando mistérios e lendas. A Terra era puro afago na face. Biraci Brasil chegou com Vicente Yawá. Traziam as revoadas de pássaros nos cocares de penas vermelhas sobre as cabeças. Era a primeira vez que aquela nação ficava sem os pajés. Eles traziam o peito batendo vivo na alegria dos olhos. Bárbara chorava e ria ao mesmo tempo, feito arco-íris quando tem sol e chuva. Biraci contou sua história com palavras de homem branco: “Os pajés são filhos de pajés, porque é hereditário. Minha mãe foi a primeira pajé mulher. Mas ela queria ter um filho homem. E teve mesmo, mas aos


57

seis anos ele se foi. Depois outro filho homem, e aos seis meses ele também morreu. Um terceiro filho veio, mas esse foi embora mais cedo ainda, aos dois meses. Foi aí que ela resolveu se consultar com outro conselheiro, pois somos muito supersticiosos. Ele disse que, para o filho homem dela viver, ela teria que dá-lo. Não poderia nem amamentar. Eu nasci e nunca conheci minha mãe.” Bárbara estremeceu na cadeira de tanta identificação. Ele também era filho de baleia. Biraci prosseguiu com sua história: “Eu fui estudar na cidade e depois voltei para ajudar e lutar pelos direitos de minha nação. Fui um dos primeiros índios a participar das negociações das nossas terras com o governo. Hoje sou representante do movimento indígena para políticas externas e atuo junto à união das nações indígenas. Em 1982, criei a Aldeia Nova Esperança. Estou lutando pelos direitos dos índios, de


58

olho na demarcação das terras. Somos como queixadas: todos juntos. Estou muito agradecido por compartilhar as histórias dos índios com vocês. Precisamos nos unir em torno do bem da humanidade. Há uma desarmonia generalizada entre o homem e a natureza. Temos que rever nossa maneira de cuidar do meio ambiente: os rios poluídos, as florestas destruídas, as plantas sagradas sendo devastadas. Nós, os yawanawás, gostaríamos de convidar todos os que se preocupam com o futuro da humanidade a celebrar uma grande festa para o nosso criador. É um festejo de respeito e união. Cantamos e dançamos durante cinco dias no nosso grande Festival Yawá.” Bárbara ouviu os cânticos daquela nação com os tímpanos bem atentos. Sentia-se como se fosse o pássaro que sabe voar mais alto e quando pousa sabe mais sobre os caminhos de pisar sem machucar o chão ou ferir o coração dos


59

habitantes do planeta. Esse pássaro chama-se canindé – a arara-amarela. E uma das músicas falava assim: “Arara-amarela/ arara-amarela/ rio de águas cristalinas é voz do silêncio/ cri cri cri cri cri/ a noite é senhora da alma/ arara-amarela/ arara-amarela/ suave é o vento/ suave é o vento.” Biraci contou mais uma lenda, e mais outra. A lenda do menino chamado Trovão dizia assim: “Ele saiu pelo oceano na sua canoa. E lá bem longe, onde o céu encontra a terra, o menino sumiu. Dizem que quando a tempestade chega e os raios riscam o céu e troveja é porque Trovão quer voltar à Terra. Então ele volta e brinca de assustar as crianças...” Na manhã seguinte, Bárbara recebeu uma carta da Alemanha. Seu amigo da tribo karajá foi convidado para fazer uma exposição dos seus trabalhos no além-mar. Ele queria lançar um livro de lendas e histórias de seu


60

povo. Era um defensor da diversidade de saberes. Queria a transformação social, que todas as culturas pudessem interagir e conviver de forma harmônica, e todos pudessem aprender a respeitar a natureza, transformando o nosso planeta em um lugar de boa convivência e paz entre os povos. Ela começou a pensar em todas as tribos que conseguia lembrar: ashaninka, shawadawa, katukina, kaxinawá, hunikuin, guarani, tupinambá, tamoio, yanomami, tikuna, suyá, xavante, fulni-ô, caraíba, jê, kariri-xocó, apurinã, pataxó, potiguara, tapuya, ava-canoeiro, gavião, juruna, wai-wai, mutum e muitas outras cujos nomes não sabia.


61

Cultura Numa noite de trovoadas, viu um menino a chorar. E se aproximou com seu jeito de mãe. Sua paixão pelas baleias a fez adquirir certos traquejos maternos. O menino chamado Vitor pulou em seu pescoço. Ela sorriu e ofertoulhe a cantiga de mar que inventava dentro da cabeça. Primeiro ele quis colo e depois ouviu a voz doce de Bárbara. “Menino pequeno/ olha o mar/ sente o vento/ o sol sabe bem iluminar/ a terra tem um segredo/ mas quem tem medo da vida não pode saber/ o mistério é viver passo a passo/ engraçado é que o tempo é mesmo engraçado/ e o sangue vermelho é vermelho em qualquer país/ menino pequeno/ olha o mar/ sente o vento/ as estrelas do céu


62

bem fazem sorrir/ minha alegria é a arte é a arte/ é a parte que tenho pra dar/ menino pequeno/ olha o mar/ sente o vento/ menino pequeno/ sente o mar/ olha o vento...” Vitor dormiu e sonhou um sonho com crianças a cantar uma música oceânica e etérea. Elas estavam de mãos dadas e eram diferentes e eram iguais. Gargalhavam alegrias e comiam vegetais. No sonho de Vitor brócolis eram melhores que biscoito industrializado e cada folha de couve era um leque para abrandar o calor. Todas as mães das crianças estavam boquiabertas. Cuidariam dos seus filhos com a cantiga de roda dos ancestrais. Bárbara percebeu que Vitor sonhava um sonho bem verde, porque seus olhos piscavam rápido e os murmúrios do seu sono pareciam conversas de golfinhos a nadar com os peixes. Ela o colocou na rede e deixou que o embalo da noite contasse os mistérios dos antepassados: os saberes dos avós dos avós dos avós.


63

Bem comum Enquanto andava pelas ruas, a ventania beijava o seu rosto e tudo que sentia no peito era porque estava viva. “O FOGO AQUECE A CANTIGA DOS SOBREVIVENTES COM A CHAMA ACESA DA LUTA PELAS CAUSAS HUMANAS.” E todas as suas manias e todos os seus medos, a angústia passageira, a alegria do frevo, o rufar das caixas claras, a melodia inexistente, o inventado e o verdadeiro faziam parte dela. O que fosse a vida era ela a viver. Era como preservar o que havia conquistado. As nações também fazem isso com os patrimônios culturais e naturais da humanidade. Como se cada homem e cada mulher fosse um país. Se Bárbara fosse um lugar, seria um vilare-


64

jo bem perto do mar, e o grande patrimônio dali seriam as falésias. Ela seria uma península na costa do Atlântico chamada Arabab. O Cruzeiro do Sul e as Três Marias seriam a paisagem cristalina no céu da madrugada. O raiar dos dias teria o brilho do sol no peito de cada cidadão. As paredes das casas seriam feitas de respeito e reverência à Mãe Terra. O grande monumento seria uma imensa baleia no centro da praça principal. E a praça seria a própria oração de joelhos a pedir pelos direitos fundamentais de todos. Esse seria o grande templo de Arabab. E, ateu ou não, qualquer um teria sua crença na capacidade dos homens e das mulheres de realizarem a plenitude de estar no mundo.


65

A Ética Alguma

coisa lhe dizia que algo estava torto no globo terrestre, e não era somente a Torre de Pisa. O rascunho do mundo eram os próprios homens a riscar a história da vida no planeta. A produção de armas nucleares relembrava Hiroshima e Nagasaki na pele e fazia sentir o horror desumano nos membros do corpo. Bárbara tornara-se humanista. Primeiro queria salvar as baleias (a baleia é o maior mamífero do mundo, e preservá-las é preservar também a vida humana). Depois quis mudar o bairro e dentro dela mesma – aquele lugar organizado, suas células em plena harmonia e convivência.


66

Todavia, foi o amor. “O amor dilatou-me o deus humano. Esse sentimento oceânico. Não sou capaz de explicar racionalmente por que amo. A alma traz seus mistérios indecifráveis e encantos. Ordem de grandeza das coisas imensas. Papéis em branco a guardar escrita e sangue, sopro e espera, silêncio e amanhã. Assoalho, tábua corrida, lajotas de barro, ladrilhos enfeitados – quantos metros distanciam os lençóis de nossas camas? Pulso, desejo. Pulso, desejo. Pulso. As veias, rios de minhas florestas cheias de vida. Eu proclamo outro mundo. Mulher e homem renascem: porta-estandarte do amor.” Foi então que entendeu o que era ser gente. Gente de braço afluente, caminho de rio, água corrente, coletivo embarcação. Realizar a si mesma. Pegou a luneta. “Avistar terras distantes e hastear bandeira. Cada um que conquista sou eu mesma a conquistar.” Lado a lado, adquiria seu lugar.


67

Assim podia repartir com seu povo as histórias e os escritos cartográficos. Já eram quantas luas e sóis, primaveras e verões? Incalculáveis as labaredas da braveza. Rito de passagem: suas origens são as vísceras de seu chão de liberdade. E ressoam os hinos dessa pátria nas bocas das gentes, nos lábios dos moços, nas línguas e nos sons das primeiras fagulhas desde a criação do fogo.


68

Novos paradigmas Ela

queria extrair o subterrâneo dos sentimentos: abaixo das folhas secas, onde as minhocas cavam e descobrem os segredos da decomposição da matéria. Era como se ela mesma fosse toda a Terra. Se houvesse uma unidade para medir a profundidade dos anéis do tempo, seria Bárbara a pisar pé ante pé o barro do chão. E se toda a gente fosse Bárbara a emitir o som primordial da criação, boca aberta, laringe larga, diafragma presente a trocar ar pelas narinas, ela afinaria o mundo com o diapasão circular das esferas. “O infinito é pleno em si mesmo. Ouruborus, a serpente a morder a própria cauda, traz as ideias cíclicas do movimento.” Ela transbordaria as páginas da história


69

do mundo. Escreveria pergaminhos a revelar agricultura e economia das áreas férteis do Delta. Ciência oculta falaria a linguagem das coisas simples. Hieróglifos escritos em papiro seriam decifrados. Tâmaras, figos, romãs e uvas – cardápio servido sobre a mesa. Os escribas inventariam os novos rumos da grande aldeia. E toda a gente participaria ativamente das resoluções do presente. Os jornais anunciariam a cura das doenças, que seria as pessoas a transformarem a si mesmas. As emissoras de TV educariam, dizendo: “O dia hoje está para mergulho na praia, o céu azul convida, e a vida é bela! Plante uma árvore, adote uma criança, vá ao jardim botânico, visite uma biblioteca!” Os governantes trabalhariam pela justiça, pela ética, pela paz, pelos cidadãos e pela preservação dos recursos naturais do planeta. E então Bárbara seria a menina dos olhos a refletir o espelho da humanidade inteira.


70

A grande mãe E se a tristeza era um rio a nascer nas profundezas da gente, as inundações da terra abrigavam fertilidade e abundância a envolver maternalmente as sementes e raízes. O início da vida e tudo aquilo que a sustenta no útero, toda proteção e toda capacidade de afeto. Do abandono ao regresso aos lugares da criança. O eco pulsante do coração materno a bater no mesmo ritmo que o dela. “O feminino nutre e ampara. A palavra na boca fala. O corpo-cântaro e a forma oca contêm os limites do pequeno.” Desde menina tornava-se futuro e não sabia disso. A unidade da vida a expandir-se na aliança: a construção de outro mundo possível. A


71

criança filha de baleia e navio a tornar-se humanamente a mulher Bárbara. Essa mulher era feita de todos os tempos e de todas as cidades. Muitos costumes e crenças. Suas paisagens formadas de memórias e o que há de suceder. Por isso mesmo não há recanto intacto, nem povos desconhecidos. Artefatos, objetos de cerâmica, utensílios de beleza, perfumes, trabalhos ornamentados, vestidos bordados com contas e ametistas, tudo isso foi encontrado nas escavações arqueológicas dessa bárbara civilização. Um grande rei conquistou essas terras, construiu um palácio e unificou os vários reinos. Havia ali jardins frondosos. A sala era a zona de convívio principal, e uma escada levava a uma enorme varanda, onde se passavam tardes inteiras. Temperos tinham cheiros de dias felizes e os cafés da manhã eram frugais. Os alimentos vinham


72

servidos em cuias e mantinham-se nos campos os vastos cultivos de gr達os. Presume-se que esses gr達os eram sementes da paz.


73

A Paz Imaginava a paz feita de muitos degraus de pedras reluzentes. “Quiçá são pedras feitas de sal. Atravesso as duzentas milhas até o mar. Sigo os passos de Mahatma Gandhi. Meus pés estão cheios de bolhas devido ao meu empenho nas andanças. Parei algumas vezes para descanso e escrevi no livro vermelho: DIZEM QUE A PAZ É BRANCA. ENTRETANTO, PARECE MAIS QUE SEJA TRANSPARENTE OU DE TODAS AS CORES. PAZ É UM GRANDE ABRAÇO EM TODA A FAMÍLIA TERRESTRE.” “Ao chegar bem perto da praia depois de longa marcha, avistei uma embarcação ao longe. Poderia ser meu pai. Meu pai navio. Fui até lá (na minha imaginação) e en-


74

contrei o comandante. Ele me deu uma responsabilidade grande: eu deveria assumir a direção do leme. E no meio de todas as pessoas que marchavam pela não violência, levantei uma bandeira lá no alto: O AMOR É GRANDE E MAIOR QUE TODA A ÁGUA DO MAR. O SAL DA TERRA É A VIDA A GRITAR PELOS OPRIMIDOS. TODOS SOMOS IGUAIS, E MEU PEITO CARREGA O PESO DE TODA GENTE QUE CHORA. MINHA POESIA ALIMENTA-SE DE TODAS AS COISAS QUE VEJO. A JUSTIÇA HÁ DE HABITAR MEU PLANETA. A BARRIGA DA FOME É SEM LETRAS...” Nunca compreenderia a produção de armas. O dinheiro gasto nisso matava a fome do mundo. Sempre recordava uma frase: “O problema do Brasil não é a seca e sim as cercas.” E então lá vinha tudo enfileirado: a manutenção da pobreza, os crimes impunes, o caixa dois das empresas, a especulação imobiliária e seu sangue contaminado


75

a correr nas veias. Veias de seu próprio país. Seu belo país das praias e do futebol, do samba e do carnaval, das matas e dos muitos brasis. A beleza de um lugar não poderia ser suas contradições. Mas sim cada um a realizar-se plenamente. Bárbara estava motivada a lutar pela causa humana com seus cabelos de mola e seu jeito de gente.


76

Ser humano Conforme caminhava, seus ossos se adaptavam sobre a cabeça do chão. Os pés andavam íntimos da terra, da areia, do barro e do asfalto. Ela não era uma caveira a andar por aí. Era uma bípede. Braços para manipular objetos e polegares opostos para pinçar ferramentas. Além de ossos havia músculos, órgãos, sangue, vísceras, razão e sentimentos. Os sentimentos ela dizia que eram o suprassumo do ser. Sentir seria estar vivo no mundo – consciente das coisas – ser. E foi então que descobriu que são as palavras que sustentam tudo. “As palavras são os andaimes da civilização. E só chegamos até aqui porque criamos códigos, ideias e


77

conceitos.” Nesse momento, fechou os olhos e lembrouse de Seu Amadeu. A linguagem gestual da comunidade surda é uma língua. Uma vez ele disse que em outros países essa comunicação ficava mais difícil, porque era como um ouvinte a comunicar-se em outro idioma. “Somos quase sete bilhões de indivíduos na face da Terra. Fomos batizados como Homo sapiens: temos a capacidade do raciocínio abstrato, de desenvolver linguagem, refletir sobre as coisas e resolver problemas. Somos seres sociais, e por isso nos comunicamos e trocamos ideias e nos organizamos. Criamos tradições, rituais, normas sociais e éticas, leis e valores. Impulsionados pelo desejo e pela autoexpressão inovamos com a arte, a escrita, a leitura e a música. Somos a única espécie capaz de criar o fogo e escolhemos quais conhecimentos deixaremos para as próximas gerações!” O livro vermelho de Bárba-


78

ra estava cada vez mais interessante. A possibilidade de ser ela mesma e escrever sua história com a tinta de seu sangue era o que tornava Bárbara cada vez mais humana. Traduzir-se em linguagem reinventava suas avenidas e seus bulevares. Recriava as placas e as sinalizações de sua cidade. Relacionava-se com a comunidade, utilizando a fala em seu tempo. E assim podia interferir no mundo e transformá-lo. Sua experiência de vida era única. Assim como qualquer ser de nossa espécie, cada indivíduo tem uma história para contar.


79

O Universo Os humanos sempre observaram o céu. Antigas civilizações, filósofos, pensadores, astrônomos, matemáticos e casais de namorados quiseram entender os mistérios do cosmos. Essa estrutura que engloba a totalidade das coisas, desde as grandezas dos corpos celestes até as partículas subatômicas das matérias de que são feitos. Naquela noite de inverno, o universo não tinha tamanho dentro de Bárbara. O amor em seu peito era o que iluminava a Estrela Dalva, que não é uma estrela. Vênus é um planeta e também deusa do amor. Reza a lenda que ela nasceu de uma concha de madrepérola, gerada pelas espumas.


80

Era como se, naquele momento, Bárbara pudesse esticar-se e integrar-se a todos os pontos da Galáxia ou mesmo a Via Láctea estivesse ali em seu ventre. E estrelas, cometas, meteoros, buracos negros, nebulosas e planetas fossem a grande explosão que deu origem ao universo. Ao inventar-se, Bárbara era o tempo zero. O big bang no útero dela a deixar escapar letras e mais letras. Ela sentiase a própria deusa a criar novos rumos para humanizar a Terra. Tinha nas mãos o poder de reorganizar o caos. E como deusa da beleza e da sabedoria restabeleceria a idade do ouro, quando reinariam o amor, a justiça, o equilíbrio e a verdade. Sua morada seria na Acrópole de Atenas, bem próxima às praças públicas, aos estádios e aos palácios. O oráculo diria em dia de grandes comemorações: “É TEMPO DE CIDADANIA E PAZ. O SOL BRILHA SOBRE A TERRA, O FOGO EM NOSSOS CORA-


81

ÇÕES. O SOM DO AULO E DA LIRA TOCAM OS DITIRAMBOS ACOMPANHADOS DE TAMBORES. O ALFABETO É A CASA DA PALAVRA. ENTREM TODOS E PARTICIPEM DESTA FESTA!”


82

A Escrita Sabe quando você está distraído a riscar formas abstratas no papel? Foi assim que Bárbara começou a se perguntar como nasceu a escrita. Em sua pesquisa, descobriu que na pré-história os primatas desenhavam figuras nas paredes das cavernas como forma de comunicação. Era uma espécie de agenda, e deram a isso o nome de pintura rupestre. Retratavam cenas do cotidiano: caça, animais, descobertas, plantas e rituais. O surgimento da escrita propriamente dita marca o começo da história do homem no Ocidente. O povo fenício vivia bem ali onde hoje é o Oriente Médio. Eles aperfeiçoaram o sistema da escrita cuneiforme dos sumérios, que escreviam em


83

argila. O alfabeto servia para registrar as transações comerciais, e assim foi possível construir as primeiras cidades. Os fenícios eram grandes navegadores. Depois os gregos desenvolveram esse sistema de letras. Letras são símbolos. Consoantes e vogais que formam palavras e constituem a linguagem escrita. Então ela riscou no papel as duas primeiras letras do alfabeto grego – α (alfa) e β (beta) – e fechou os olhos feito alguém que medita: “A fala se perde no tempo. O espaço conserva a escrita.” Bárbara continuou a mergulhar fundo na sua pesquisa e viu que há indícios de que as línguas europeias possuem semelhanças com o sânscrito – a língua antiga da Índia. A maneira de grafar uma língua é o que caracteriza o alfabeto. A escrita pode ocorrer da esquerda para a direita, ou vice-versa. E pensou: “São muitas as línguas e os alfabetos existentes no mundo, mas se to-


84

dos são provenientes da mesma raiz, a língua comum existente é o amor.” E descobriu uma coisa tão importante que rabiscou em letras grandes: LÍNGUA E RAÇA NÃO DEVEM SER CONFUNDIDAS. Formato do crânio, cor da pele, cor dos olhos, textura do cabelo, tudo isso não identifica a inteligência e o potencial cultural de um indivíduo ou de uma população. Percebeu que foi dessa ideia que veio o racismo. Embora não possam ser considerados iguais, o conceito de raça confunde-se com o de etnia. Esta compreende os fatores culturais, como a nacionalidade, a religião, a língua e as tradições. Todas as etnias do planeta com seus costumes, línguas e crenças formam a imensa aldeia global – a mesma raça humana. Conforme acrescentava palavras ao livro vermelho, a vida organizava-se. Compreendia a si mesma ao ouvir


85

seus próprios sons e silêncios. “Meu coração aninha um pássaro livre. A rosa dos ventos guia o rumo da revoada. Este manuscrito é a alma a cantar seus muitos lugares. Uma ode ao fim e ao começo, um tratado ao que se pode decifrar da língua. Meu pássaro mergulha nas águas e alimenta-se de peixes. O silêncio do mar é grande. Sou passageira do tempo nos limites do corpo. Estas palavras inventam a sinfonia harmoniosa do fogo. O conhecimento é um caminho solitário, reparti-lo é solidariedade. A aids coloca a sociedade em xeque-mate. Não por ser uma doença mortal, pois hoje se vive com o HIV normalmente. Meu livro vermelho é escrito com o meu sangue de gente. A aids nos recorda o debate da alteridade. A democracia é para todos.”


86

O SilĂŞncio


87

Terra Bárbara se lembrou de Yawá. Eles gostaram muito um do outro! Para os índios, o silêncio explica muita coisa. E falar é como plantar sementes. Os ancestrais dos índios diziam que a terra sempre está dizendo algo, e para ouvir é preciso calar. Ela descobriu nos últimos dias que a baleia tem o poder da sabedoria dos antigos registros da Mãe Terra. Ficou tão impressionada com isso que teve um sonho fantástico: Estava na praia de Ipanema e encontrava a mãe baleia no mar. Nadava até ela e penetrava seu ventre. Dentro da barriga do grande mamífero passava o filme de toda a sua vida. Na língua da baleia estavam todas


88

as pessoas que ela havia conhecido durante sua trajetória no planeta. Elas estavam sentadas como num cinema de poltronas acolchoadas vendo o filme “BÁRBARA E A BALEIA” – e tinha até pipoca! Antes de rodar a película, uma voz grave falava bem alto: CINE BALEIA APRESENTA A HISTÓRIA FANTÁSTICA DA VIDA DE BÁRBARA – UMA AVENTURA COMOVENTE QUE PODERIA SER A SUA. DESLIGUEM SEUS CELULARES E BOA DIVERSÃO! Bárbara acordou num susto e até riu do sonho, e depois começou a rever em silêncio as páginas do livro vermelho. Naquele momento, havia um sentimento de gratidão pela vida. Sua declaração de amor à Terra expandia-se rumo à humanidade. Sua única certeza era de que não dava para fugir daquele país ao qual se ia somente com a passagem de ida, mas faria de tudo para distanciar a data da viagem. E mesmo com todo


89

aquele mar, navio e baleia, um dia ela seria novamente terra. Por isso eu digo certamente: UM AMOR DEVE ALARGAR, JAMAIS CONTER-SE...


Posfácio-Carta Oi, Flavia, aproveitei o final de semana de Halloween por aqui para ler o livro, gostei bastante, mas acho que acrescentar um comentário específico sobre HIV, no tom biomédico em que normalmente escrevo, vai estragar e não ajudar o trabalho. Acho que os comentários que já constam do livro são muito apropriados, o mais longo deles, poético, como o livro em si. Sigo muito a teoria do Nijinsky, o grande bailarino russo, que uma vez respondeu a um jornalista que se soubesse traduzir em palavras o que é a dança, não dançava, da mesma forma, traduzir em linguagem cartesiana o que esta expresso em linguagem poética, e mesmo mítica, só faz estragar o original,


que é sempre bem melhor e mais criativo do que a eventual paráfrase. Parabéns e sucesso ao livro, daqui de Providence. Bom feriado aí, que é o Haloween aqui!

Francisco I. Pinkusfeld M. Bastos MD, PhD Pesquisador Senior FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz


Este livro foi composto em ITC Usherwood pela Editora Multifoco e impresso em papel offset 75 g/m².

Bárbara e a baleia - Flávia Muniz Cirilo  

Bárbara é uma menina que não conhece os pais. Imagina que é filha de navio e baleia. Anda pelo mundo, pela história da humanidade e por dent...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you