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O pensamento de Michel Foucault As palavras e as coisas (1967)


Diego Velรกzquez, Las meninas


Da Idade Média ao final do século XVI: a semelhança convenientia

São convenientes as coisas que, aproximandose umas das outras, vêm a se emparelhar; vizinhança; ajustamento


Da Idade Média ao final do século XVI: a semelhança aemulatio

Similitude sem vizinhança: “por ela, as coisas dispersas através do mundo se correspondem”. PC:35


Da Idade Média ao final do século XVI: a semelhança analogia Superpõe a conveniência e a aemulatio.


Da Idade Média ao final do século XVI: a semelhança simpatias

“(...) suscita o movimento das coisas no mundo e provoca a aproximação das mais distantes. Ela é princípio de mobilidade.” PC:40


Da Idade Média ao final do século XVI

“As línguas estão com o mundo numa relação mais de analogia que de significação; ou, antes, seu valor de signo e sua função de duplicação se sobrepõem. (...) A linguagem tem por natureza primeira ser escrita.” PC:54


No Renascimento, a organização é diferente e muito mais complexa; (...) apela para o domínio formal das marcas, para o conteúdo que se acha por ela assinalado e para as similitudes que ligam as marcas às coisas designadas.

Michel Foucault, As palavras e as coisas, 1967


A Idade Clássica e a linguagem No século XVII, as palavras e as coisas separam-se.

“O louco é o jogador desregrado do Mesmo e do Outro.”


A Idade Clássica 

Bacon: os quatro ídolos  Ídolos da caverna e do teatro – fazem-nos crer que as coisas se assemelham ao que aprendemos e às teorias que formamos para nós. 

Ídolos da tribo – ficções espontâneas do espírito

Ídolos do fórum - um só e mesmo nome se aplica a coisas que não são da mesma natureza.


A Idade Clássica 

Descartes: recusa da semelhança como forma do saber; cabe analisá-la em termos de identidades e diferenças, de medida e de ordem.

E é nisto justamente que consistem o método e seu ‘progresso’: reduzir toda medida a uma colocação em série que, partindo do simples faz aparecer as diferenças como graus de continuidade. PC:69


A Idade Clássica e os signos

Quanto à existência da ligação: um signo pode ser natural ou de convenção. Quanto ao tipo da ligação: um signo pode pertencer ao conjunto que ele designa ou ser dele separado. Quanto à certeza da ligação: um signo pode ser constante (fiel) ou provável.


A Idade Clássica e os signos: o poder de representação 

Os signos só se constituem por um ato de conhecimento.

No classicismo, o signo se caracteriza por sua natural dispersão. A constituição do signo é inseparável da análise.

O signo de convenção prevalece sobre o natural (conhecimento racional).


A epistême clássica e a ciência geral da ordem Naturezas simples

Representações complexas

Máthêsis

Taxinomia

Álgebra

Signos


A linguagem na Idade Clássica 

A linguagem (na sua quase invisibilidade) tem valor de representação do pensamento: o discurso. Ela assume, então, quatro formas:

1.

3.

Na ordem reflexiva, como uma crítica das palavras. Na ordem gramatical como uma análise dos valores representativos da sintaxe, da frase. No exame das formas da retórica: análise das figuras.

4.

No estudo da relação da linguagem com o que ela representa.

2.


A linguagem na Idade Clássica: a gramática geral 

O que é próprio da linguagem: a sucessão.

A gramática geral é o estudo da ordem verbal na sua relação com a simultaneidade que ela era encarregada de representar. PC:98


A história natural

Novo método de misturar as coisas ao mesmo tempo ao olhar e ao discurso: um olhar meticuloso e um nome, a nomeação do visível.


A história natural Os seres da natureza são afetados por quatro variáveis:    

forma dos elementos; quantidade dos elementos; maneira como eles se distribuem no espaço; grandeza relativa de cada um.


A história natural Os seres da natureza são afetados por quatro variáveis:   

forma dos elementos; quantidade dos elementos; maneira como eles se distribuem no espaço; grandeza relativa de cada um.


A história natural

ESTRUTURA

LINGUAGEM: o visível descrito

linhas

formas

superfícies

relevos


A história natural 

O caráter é a designação do visível transcrito na linguagem.

A análise e descrição são feitas conforme as semelhanças e diferenças.

A continuidade garante que a natureza se repita e que a estrutura possa tornar-se caráter.

A imbricação dos seres na natureza torna necessária uma ciência capaz de ordenar os seres.


A história natural: o visível descrito

Na décima edição do “Sistema da Natureza”, em 1758, Linneu dá início à moderna técnica de classificação biológica, incluindo a nomenclatura binária – as bases de um sistema de classificação para o reino animal – criando as categorias de ordem, gênero e espécie.


A história natural: o visível descrito Classificação científica Reino: Plantae Divisão: Magnoliophyta Classe: Magnoliopsida Ordem: Malvales Família: Malvaceae Género: Hibiscus Espécie: H. syriacus Nome binomial Hibiscus syriacus

Hibisco da Síria


A história natural

A história natural supõe dois conjuntos: 1. A série contínua dos seres, a continuidade taxonômica; 2. A descontinuidade da série de acontecimentos que se desenha na linha do tempo. A natureza se aloja inteira entre a superfície da taxonomia e a linha das revoluções.


A história natural: fixismo versus evolucionismo

Não há nem pode haver sequer a suspeita de um evolucionismo ou de um transformismo no pensamento clássico, pois o tempo jamais é concebido como princípio de desenvolvimento para os seres vivos na sua organização interna; só é percebido a título de revolução possível no espaço exterior em que eles vivem.

INTEMPÉRIES DA NATUREZA

SERES VIVOS

dispersão destruição mistura separação entrelaçamento


A história natural

Até o fim do século XVIII, a vida não existe. Apenas existem seres vivos. Se se pode falar da vida, é somente como de um caráter na universal distribuição dos seres. (...) O naturalista é o homem do visível estruturado e da denominação característica. Não da vida.

M. Foucault, As palavras e as coisas, 1967


Cuvier libertou de sua função taxonômica a subordinação dos caracteres para fazê-la entrar nos diversos planos de organização dos seres vivos.


Ora, esta investigação arqueológica mostrou duas grandes descontinuidades na epistémê da cultura ocidental: aquela que inaugura a idade clássica (por volta de meados do século XVII) e aquela que, no início do século XIX, marca o limiar de nossa modernidade. A ordem, sobre cujo fundamento pensamos, não tem o mesmo modo de ser que a dos clássicos. (...) Não que a razão tenha feito progressos; mas o modo de ser das coisas e da ordem que, distribuindo-as, oferece-as ao saber, é que foi profundamente alterado. FOUCAULT, As palavras e as coisas


A que acontecimento ou a que lei obedecem essas mutações que fazem com que de súbito as coisas não sejam mais percebidas, descritas, enunciadas, caracterizadas, classificadas e sabidas do mesmo modo e que, no interstício das palavras ou sob sua transparência, não sejam mais as riquezas, os seres vivos, o discurso que se oferecem ao saber, mas seres radicalmente diferentes? Michel Foucault, 1967


Vida

A invisibilidade da função independe da identidade visível.

A biologia e o órgão: coexistência: os órgãos de um animal formam um sistema único cujas partes agem e reagem umas sobre as outras

  

hierarquia interna dependência plano de organização

As funções se ajustam, se ordenam umas às outras conforme sua importância. Há funções essenciais.


VIDA HISTÓRIA

CONDIÇÕES EXTERIORES


Vida

Para o pensamento do século XVIII, as seqüências cronológicas não passam de uma propriedade e de uma manifestação mais ou menos confusa da ordem dos seres; a partir do século XIX, elas exprimem, de um modo mais ou menos direto e até na sua interrupção, o modo de ser profundamente histórico das coisas e dos homens.

Michel Foucault, 1967


Hรก uma originalidade da vida que o meio ignora. Jean-Baptiste Lamarck


O vivo e seu meio O indivíduo e seu meio: o evolucionismo

Lamarck

Darwin

o meio domina a evolução do vivo:

a relação entre os viventes supera a relação entre o vivo e o meio

MEIO

NECESSIDADE

AÇÃO

a adaptação é um esforço da vida para manter-se em um meio indiferente

viver é submeter ao juízo do conjunto dos seres viventes uma diferença individual

a vida segundo a duração

a vida segundo a interdependência

meio físico-químico

meio biogeográfico


As espécies, ao contrário da crença quase universal, não são estáticas e imutáveis, mas se modificam através de longos períodos de tempo, pela seleção natural, permanecendo vivo o mais apto. Charles Darwin


Transição Idade Clássica - Modernidade

Gramática Geral

História Natural

(séculos XVII – XVIII)

Análise das riquezas

Modernidade

Economia

Filologia

Biologia

Trabalho

Linguagem

Vida

Idade Clássica

(séculos XIX - ...)

empiricidades


Da Ideologia à Crítica Ideologia (1775-1795) Representantes Destutt de Tracy

Filosofia Crítica (1795- ...) Immanuel Kant

Objeto

Busca do fundamento filosófico do conhecimento e a relação das representações entre si.

Método

Não

interroga os fundamentos, os limites ou a raiz da representação O pensamento em geral é uma sensação.

Somente

juízos de experiência ou constatações CAMPOS empíricas podem fundar-se sobre oEMPÍRICOS conteúdo das representações. Qualquer outra ligação, para ser universal, deve fundar-se no a prioriCAMPO que a torna TRANSCENDENTAL possível.


A crĂ­tica kantiana e os princĂ­pios da modernidade

Immanuel Kant (1724-1804)


A Crítica da Razão Pura: a primeira crítica

Que podemos saber? Há duas formas de saber: 1.O conhecimento empírico, relacionado às percepções, posterior à experiência. 2. O conhecimento puro, anterior à experiência, a priori.


O idealismo transcendental ou crítico: Podemos ter conhecimento dos fenômenos mas não das coisas em si mesmas. 1.

Coisas reais existem.

2.

Elas causam representações em nós.

3.

Objetos de nosso conhecimento nos são dados através dos sentidos e pensados através do entendimento.

4.

Sentir e pensar estão sujeitos às mesmas condições que tornam cognições sintéticas a priori possíveis.


O conhecimento Todos os corpos são extensos. Todo efeito tem uma causa.

Toda mudança tem uma causa.

proposições analíticas a priori

proposição sintética a priori princípios constitutivos da ciência

A metafísica é a ciência de conhecimentos sintéticos a priori* através de conceitos. *não empíricos


Como são possíveis juízos sintéticos a priori?

1ª tese: O conhecimento sintético a priori é possível porque o que conhecemos dos objetos a priori não depende deles, mas de nossas próprias faculdades e de seu exercício. condições de possibilidade de nossa própria experiência FILOSOFIA TRANSCENDENTAL

Os conhecimentos a priori nada mais são que o nosso exercício de nossas faculdades sobre o que é dado empiricamente, nossa contribuição ativa ao processo de conhecimento.


Como devem ser os objetos do conhecimento a priori?

2ª tese: Temos conhecimento somente de “fenômenos”, não das “coisas em si mesmas”. Revolução coperniciana do conhecimento: os objetos que conhecemos dependem do modo como conhecemos os objetos. IDEALISMO TRANSCENDENTAL


Os critérios do a priori são o necessário e o universal e não derivam da experiência

SUBJETIVIDADE TRANSCENDENTAL 

“Transcendental” designa o princípio do qual a experiência é necessariamente submetida às nossas representações a priori e, correlativamente, de uma aplicação necessária das representações a priori à experiência.


A Crítica da Razão Pura: a primeira crítica

Não é empírico; jamais é dado à experiência. SUJEITO DO CONHECIMENTO transcendental

É finito, pois não tem intuição intelectual. Condições formais da experiência em geral. substância objeto = x

FENÔMENOS


A dualidade kantiana Perspectivismo 

Contato individual entre o conhecedor e o objeto

Objetividade 

O “eu” como sujeito das experiências ocupa uma perspectiva particular Todo experienciador está localizado em uma posição no espaço e em um determinado momento do tempo

INTUIÇÃO

Os “conceitos” permitem aos ocupantes de qualquer perspectiva possível a oportunidade de fazer juízos verdadeiros, válidos para todas as perspectivas As experiências, mesmo as subjetivas, devem ter objetos que constituem um mundo governado por leis causais, isto é, há um mundo empiricamente ordenado de substâncias distinto das representações mentais de cada sujeito PENSAMENTO


“Do esquematismo dos conceitos puros do entendimento”  O “esquema” de um conceito é uma condição de sensibilidade sob a qual um conceito pode ser aplicado a um objeto.  Um conceito é uma regra para combinar outras representações sob uma representação comum. Esquemas são regras para mostrar ou reconhecer exemplos de um conceito na intuição sensível. “padrão reconhecível na experiência”

habilidade do sujeito


A revolução coperniciana

Kant substitui a idéia de uma harmonia entre sujeito e objeto pelo princípio de uma submissão necessária do objeto ao sujeito. A faculdade de conhecer é legisladora:

“Nós, os legisladores da natureza.”


A revolução coperniciana “A síntese é um ato da imaginação.”

Uma diversidade é representada, encerrada numa representação.

apreensão, fixando o diverso em um certo espaço e um certo tempo

reprodução das partes precedentes na medida que chegamos às seguintes


Imaginação a priori

espaço IMAGINAÇÃO forma do objeto FENÔMENO tempo

Natureza sensível em geral

julga e submete os fenômenos

síntese dos objetos

ENTENDIMENTO conceitos a priori ou categorias


A Crítica da Razão Pura: a primeira crítica

Não é empírico; jamais é dado à experiência. SUJEITO DO CONHECIMENTO transcendental

É finito, pois não tem intuição intelectual. Condições formais da experiência em geral. substância objeto = x

FENÔMENOS


A filosofia crítica de Kant 

As condições de uma relação entre as representações do lado do que as torna possíveis – CAMPO TRANSCENDENTAL – onde o sujeito, que jamais é dado à experiência, mas que é finito pois não tem intuição intelectual, determina sua relação com um objeto=x todas as condições da experiência em geral.

a potência do trabalho

a força da vida

o poder de falar


A filosofia crítica de Kant

A positividade nova das ciências da vida, da linguagem e da economia está em correspondência com a instauração de uma filosofia transcendental. As palavras e as coisas: 261


A epistémê moderna Idade Clássica

Modernidade

espaço do saber

superfície

profundeza

natureza do saber

máthêsis

origem, causalidade e história

análise das riquezas, história natural e gramática geral

economia, biologia e filologia

troca, seres vivos, discurso

produção, vida, linguagem

forma do saber

categorias do saber


objetos de troca palavras

seres vivos

linguagem

leis da vida EMPIRICIDADES

produção - trabalhoprofundidade HISTÓRIA, FILOSOFIA, LITERATURA

IDADE MODERNA

superfície

REPRESENTAÇÃO

IDADE CLÁSSICA

O homem, as empiricidades, a finitude


Cantillon - Análise das riquezas

trabalho

necessidade

valor - uso valor - troca

TRABALHO

valor - uso valor - troca

IDADE CLÁSSICA

REPRESENTAÇÃO

O homem, as empiricidades, a finitude

tempo e fadiga

forma do trabalho e capital

Ricardo, Marx Economia

HISTÓRIA, FILOSOFIA, LITERATURA

IDADE MODERNA

EMPIRICIDADES

1775-1795


A epistême moderna: da história natural à biologia representantes fundamento

objeto

Jussieu (Idade Clássica)

Cuvier (Modernidade)

estrutura dos caracteres; o que se dá ao olhar

órgãos submetidos à soberania da função

os órgãos como unidades independentes

coexistência; correlação; hierarquia

o ser vivo

a vida

continuidade essencial da cadeia dos seres

descontinuidade; fragmentação

vizinhanças taxinômicas

coerências anatômicas e compatibilidades fisiológicas


seres vivos

Jussieu Tournefort Lineu

HISTÓRIA NATURAL 1775-1795

EMPIRICIDADES

quadro

CLASSIFICAÇÃO caráter-função hierarquização

leis da vida BIOLOGIA

HISTÓRIA, FILOSOFIA, LITERATURA

Cuvier Darwin

IDADE CLÁSSICA

CLASSIFICAÇÃO caráter visível

IDADE MODERNA

REPRESENTAÇÃO

O homem, as empiricidades, a finitude


Da história natural à biologia: a noção de vida

A partir de Cuvier, é a vida, no que tem de não perceptível, de puramente funcional, que funda a possibilidade exterior de uma classificação. Não há mais, sobre a grande superfície da ordem, a classe daquilo que pode viver, mas sim, vindo da profundidade da vida, do que há de mais longínquo para o olhar, a possibilidade de classificar.

Michel Foucault, 1967


Confrontação das línguas: Língua primitiva

ação do tempo

fatores externos

Elementos formais Análise dos sons

GRAMÁTICA COMPARADA Confrontação das línguas: Língua primitiva

ação do tempo

discurso

fatores internos

HISTÓRIA, FILOSOFIA, LITERATURA

linguagem

IDADE CLÁSSICA

Teoria do nome Representação

GRAMÁTICA GERAL

IDADE MODERNA

EMPIRICIDADES

REPRESENTAÇÃO

O homem, as empiricidades, a finitude


O limiar do classicismo para a modernidade formalização filologia

literatura exegese


As ciências humanas Tomam por objeto o homem no que ele tem de empírico:   

Psicologia Sociologia Análise das literaturas e mitologias

MATEMATIZAÇÃO ou INTERPRETAÇÃO?


A psicanálise, a etnologia e o fim do homem

O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia do nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim próximo. Se estas disposições viessem a desaparecer tal como apareceram (...) se pode apostar que o homem desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto de areia. Michel FOUCAULT, As palavras e as coisas, 1967


Se estas disposiçþes viessem a desaparecer tal como apareceram (...) se pode apostar que o homem desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto de areia. Michel FOUCAULT, As palavras e as coisas, 1967

As palavras e as coisas  

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