Concurso de Escrita 2022

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Escola Secundária de Paredes

Junho 2022


Índice

Nota Introdutória ............................................................................................................ 3 Laura Teixeira Mendes (Primeiro Lugar) ........................................................................... 4 Ana Carolina Mendes (Segundo Lugar) ............................................................................. 6 Sandra Beatriz Machado Santos (Terceiro Lugar) .............................................................. 8 Ana Rita Dias Bessa (Menção Honrosa) ............................................................................ 9 Joana Alves (Menção Honrosa) ...................................................................................... 11 Afonso Oliveira .............................................................................................................. 13 Ana Sofia dos Santos Luís ............................................................................................... 15 Ana Torres ..................................................................................................................... 17 Beatriz Ribeiro Bessa ..................................................................................................... 19 Bruno Daniel Ferreira Barros .......................................................................................... 21 Carolina Castro Santos Costa .......................................................................................... 23 Cláudia Gomes .............................................................................................................. 25 Diana Ferreira Ribeiro .................................................................................................... 26 Diana Filipa Alves Reis ................................................................................................... 27 Fabiano Barbosa ............................................................................................................ 29 Filipa Neto ..................................................................................................................... 30 Filipe Vasconcelos Neto ................................................................................................. 31 Helena Sofia Fernandes Bessa ........................................................................................ 32 Hugo Couto ................................................................................................................... 33 Inês Isabel da Costa Barros............................................................................................. 34 Joana Alexandra Dias Mendes ........................................................................................ 35 Joana Beatriz Melo da Silva ............................................................................................ 36 João Sousa .................................................................................................................... 37 José Luís Sousa Moreira ................................................................................................. 39

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Luís Bessa ...................................................................................................................... 40 Marco António Nunes Ribeiro ........................................................................................ 42 Maria Gomes Pereira ..................................................................................................... 44 Maria Miguel Leal Alves ................................................................................................. 46 Paulo Silva ..................................................................................................................... 48 Pedro Filipe Nunes Carneiro ........................................................................................... 50 Pedro Gil Pedrosa Oliveira ............................................................................................. 52 Raquel Maria Teixeira Pacheco ...................................................................................... 53 Sabina Mendonça da Costa ............................................................................................ 55 Sérgio Leandro Magalhães de Brito ................................................................................ 57 Sofia Barros Leal Figueira ............................................................................................... 58

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Nota Introdutória Na quinta-feira, 8 de outubro de 1998, no aeroporto de Frankfurt, ao final da manhã, um homem aguarda sozinho a hora de embarcar no avião que o conduzirá a Madrid e, posteriormente, à ilha espanhola de Lanzarote. Acaba de deixar a Feira do Livro local e está pronto para voltar a casa. Não lhe passa pela cabeça que está a ser procurado. – Senhor José Saramago! – chama uma voz de mulher pelo altifalante na sala de embarque. O sobressalto leva a que uma hospedeira se aproxime: – É o senhor? E continua: – É que está aqui uma jornalista que quer falar consigo. O senhor ganhou o Prémio Nobel! As grandes novidades da vida chegam-nos muitas vezes nas ocasiões mais triviais. E é assim, sem protocolos ou formalidades, que José Saramago recebe a notícia de que é o primeiro escritor de língua portuguesa a vencer o prestigiante Nobel da Literatura. Decorridos vinte e três anos, a Escola Secundária de Paredes decidiu associar-se à Fundação José Saramago na comemoração do centenário do nascimento do Prémio Nobel da Literatura 1998. A efeméride constitui uma oportunidade privilegiada para a consolidação da presença do escritor na história cultural e literária. E é neste contexto que surge o Concurso de Escrita "As Pequenas Memórias". Destinado aos alunos do ensino secundário, pretendeu, sobretudo, estimular o gosto pela escrita. A edição deste livro revela o olhar analítico e o espírito crítico dos jovens que aqui expressam os seus sentimentos e a sua criatividade. É um bonito elogio a Saramago.

O Comissariado para a Comemoração do Centenário de José Saramago

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Primeiro Lugar

Laura Teixeira Mendes

Atrás

Havia um lugar Que já não recordo Ou não quero recordar Ou recordo até sem saber.

Havia uma casa De campo, de cidade, de Mundo, de Universo. Uma casa num lugar que desconheço Ou quero desconhecer Ou será que conheço até sem saber?

Vejo com clareza e saudade Os jardins, as flores, a água Os prédios, as ruas, os astros e os forasteiros.

Vejo refletidos neste espelho em que me olho Os movimentos efémeros dos peixes e dos pássaros Que habitavam lugar nenhum Exceto o rio do meu sangue E o céu da minha alma.

Olho nos olhos os rostos familiares Consumidos pelo tempo.

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Cadáveres trazidos à luz Pela força do desassossego Essa força que arranca as raízes do coração.

Ouço ainda (Ou é ilusão dos sentidos?) A melodia branca O canto negro Essa voz de mágoa Que me persegue nos sonhos de noite fechada.

Agora é o violino que chora por estar em mãos desalmadas É o piano de emoções descontroladas. É esta a música, vinda daquele lugar, que paira no ar À espera de compaixão.

Sinto na pele arrepiada O vento forte, fraco. Brisa de mar ou de montanha? Certamente brisa de Lua cheia.

É este frio desconhecido Que acalma o ardor do coração Que quer lembrar o que esqueceu. Que quer lembrar o lugar Aonde nunca estando, esteve.

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Segundo Lugar

Ana Carolina Mendes

As memórias que nos unem

As memórias são um tema enigmático. A origem da palavra ‘memória’ é incerta, pois pode ter sido criada a partir de várias fontes e influências, desde o grego mnemis até ao latim memoria e memo. Ambos remetem para conceitos como ‘pensar’ e ‘mente’. Por definição, memória é a habilidade de reter ideias, sensações, impressões adquiridas anteriormente. Efeito da habilidade de lembrar e, maioritariamente, de esquecer. No entanto, mais importante do que o que são é o que representam na vida de uma pessoa. Memórias são lições! São experiências que permitem aprender sobre as pessoas que nos rodeiam e sobre o mundo em que vivemos. Penso que existem dois tipos de memórias: as memórias preciosas que estão guardadas para nos fazer sorrir mais tarde, e as memórias que são aprendizagens e nos impedem de cometer os mesmos erros. As memórias acompanham-nos ao longo da nossa vida, da primeira até à última, da mais feliz à mais triste. Memórias são oportunidades de rever pessoas e momentos queridos do passado, através do coração. Por exemplo, a nossa primeira memória é sempre preciosa. Dizem que é aquela memória que iremos criar através dos nossos próprios olhos e que nunca irá desaparecer. É uma memória pessoal e única, que reflete o que é mais importante para cada pessoa. Pode ser a lembrança de um familiar, de uma situação específica, uma sensação ou um sentimento. Como qualquer ser humano também tenho algumas dessas! Todavia não é de uma pessoa ou uma sensação, mas sim de um animal. Uma pequena bolinha de pelo, tão branca quanto a neve acabada de cair. Bastante semelhante a um dente-de-leão sozinho, frágil e perdido, olhando ao seu redor à espera de que a brisa o guie. Assim, com um laço vermelho tão vivo quanto as cerejas banhadas pelo sol de junho, à volta do seu pescoço, a pequena criatura inquieta, até então, finalmente parou e os nossos olhos

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cruzaram-se pela primeira vez. Sem hesitação, aquele minúsculo e adorável ser correu, desde o outro lado da divisão, para os meus braços com o seu pequeno tufo de pelo, que era a sua cauda, a dançar de um lado para outro. O pormenor mais memorável daquele momento foram aqueles grandes e negros olhos que refletiam a luz do velho candeeiro pendurado no teto da divisão em que nos encontrávamos. É curioso lembrar-me disto, porque naquela altura não imaginava que o mesmo par de obsidianas reluzentes, que se enchiam de felicidade sempre que pousavam em mim, iam continuar rigorosamente iguais e intocáveis até hoje. Todos nós precisamos de conhecer uma alma que se conecte com a nossa e nos acompanhe ao longo desta aventura que é crescer. É provável que alguns ainda não a tenham encontrado, mas certamente acontecerá! O ato de comunicar é imprescindível para o ser humano e, por isso, existe a necessidade de encontrar alguém com quem se estabeleça uma ligação. A caminhada que une essas almas será reforçada pelas memórias que criam e partilham juntas. E, assim, as pequenas memórias tornam-se grandes.

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Terceiro Lugar

Sandra Beatriz Machado Santos

As janelas da infância

As memórias abrem-nos janelas, janelas essas que podem mostrar a escuridão da noite ou a luz do dia. Para muitos, memórias são algo bom. Outros preferem não as ter. Existe quem viva amarrado a elas. Há também quem não lhes atribua nenhuma relevância. A verdade é que elas podem ter diferentes efeitos nas pessoas: podem causar tristeza, saudade, felicidade, arrependimento, entre muitos outros sentimentos. Normalmente, a infância é ou deve ser um conjunto de boas recordações. Afinal, o trabalho de uma criança é divertir-se e brincar sem preocupações, sem problemas. É neste período que nos aproximamos daqueles que hoje nos são muito queridos, daqueles que brincam connosco, nos dão carinho e cuidam de nós. Esta é a fase mágica da vida, na qual a imaginação toma conta de nós. Tenho várias janelas na minha infância que mostram luz. Estas são as memórias felizes, de quando ía ao parque com a minha mãe, andava de bicicleta com o meu irmão ou brincava com a minha tia. Mas há uma janela que, quando se abre, consegue cobrir toda essa luz de escuridão. A mesma pessoa que abre uma janela iluminada também consegue abrir uma obscura: a minha tia. Desde a sua partida, a minha infância mudou. Perguntava-me onde estava a pessoa que me abraçava no dia a dia, que brincava comigo e me dava todo o amor que conseguia. Iniciou-se uma espera sem fim. “Será que vai voltar?”. “Onde está?”. “Não quer mais brincar comigo?”, perguntava-me várias vezes. Não sabia lidar com um assunto tão delicado. Aceitar que não a voltaria a ver não foi algo fácil. Gostava de poder trancar algumas das janelas que se abrem na minha memória. Gostava de conseguir abrir todas as janelas de luz e fechar esta enorme janela de escuridão. Talvez assim pensasse na infância como os melhores anos da minha vida.

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Menção Honrosa

Ana Rita Dias Bessa

O hoje, depois da Maria Inês

O hoje vem a seguir ao ontem e o ontem ao anteontem! E como o ser humano não é diferente, o que somos hoje é fruto do que fomos nos vários “ontens” que vivemos. Somos feitos de momentos! Somos uma escultura esculpida pelo tempo. Por falar em momentos que nos transformam… O meu coração foi esculpido por este: A Maria Inês. Quando era pequena, inconscientemente, eu tinha medo das crianças e adultos “diferentes” de mim, que hoje sei que eram normalmente pessoas com deficiência física e mental. Não entendia porque era assim, mas a única coisa que sei é que fugia para o lugar mais longe possível. Os meus pais nunca perceberam o motivo deste “medo” e a verdade é que não havia muito que eles me pudessem dizer para mudar a minha forma de agir. No entanto, no meu 4º ano, a minha turma recebeu uma menina muito especial, a Maria Inês, que tinha uma deficiência física e mental. Não posso negar que me senti incomodada, afinal iria conviver com alguém de quem tinha “medo”. Hoje, olho para trás e não me reconheço, mas só houve uma coisa que me fez mudar. A entrada da Maria Inês para a minha turma. Não foi por acaso! A Maria Inês trazia com ela uma missão guardada num dos compartimentos da sua cadeira roxa e preta, onde ela estava todo o dia… Ela contribuiu para o meu crescimento, amadurecimento e para ultrapassar qualquer barreira que eu tivesse, mesmo não sendo consciente. De facto, durante os dias de escola, eu e a Maria Inês interagíamos muito, eu estava sempre com ela, dava-lhe a comida, limpava-lhe a boca, passeávamos juntas e fazíamos muitas outras coisas… ficamos cada vez mais próximas e era uma alegria quando ela me via. Ela não falava muito bem, mas naquele momento eu sentia a felicidade nos olhos dela e nos sons que ela fazia. Sons esses que foram se transformando em

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palavras que eu e outras amigas lhe íamos ensinando devagarinho e pacientemente. Mais tarde, a Maria Inês estava em casa, no conforto do seu lar, quando começou a dizer algumas palavras sozinha, contou-nos a mãe, que nos agradeceu fortemente, uma vez que pela primeira vez a filha estava com um brilho no olhar. A verdade é que o brilho não estava só na Maria Inês, estava em todos que por ela passavam. Era como uma fada com o seu pó cintilante e mágico. Deixou marcas profundas no meu coração, bem como noutras tantas pessoas. Contudo, no meu caso, acabou com qualquer tipo de bloqueio que eu tinha e fez me sentir útil e realizada. Cresci e contribui para o crescimento! Enquanto houver momentos destes, a memória tratará de nos “alimentar” a alma.

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Menção Honrosa

Joana Alves

O Antigo Guarda-Roupa

Pormenores. Dizem que fazem a diferença. Ao escrever este texto percebi que nunca tinha verdadeiramente refletido sobre isto. Surgiram imediatamente na minha mente, vários fragmentos do que seriam memórias da minha infância,pouco definidos e não muito específicos, mas que me causaram uma nostalgia arrebatadora. Ao folhear o velho álbum de fotografias cá de casa senti, por instantes, o cheiro do guarda-roupa do meu avô, era o meu sítio preferido para me esconderdele depois de fazer asneiras, que sabia que o irritavam. Relembro-me ainda dosom da bengala dele a bater na porta, o que era um mau sinal já que indicava que o meu esconderijo havia sido descoberto; recordo-me nitidamente da cara de mau que ele fazia durante breves segundos antes de me tirar de lá e de me fazer um ataque de cócegas, como forma de “castigo”. Todas estas pequenas recordações, que, por vezes, ficam perdidas no esquecimento, fizeram de mim quem sou hoje. Por muitas vezes acontecem situações que me fazem sentir vontade de ir a correr para o guarda-roupa do meu avô, não fosse ele agora meras ripas de madeiras sem qualquer valor. Agora restam apenas as memórias do belo esconderijo que foi em tempos. Não me recordo, em pormenor, da morte do meu avô, mas lembro-me dos dias em que aquele roupeiro foi esvaziado e posteriormente destruído. Será a destruição deste roupeiro o meu próprio eufemismo da morte? Talvez… Com o decorrer do tempo fui percebendo que aprendi bastante com o meu avô, contudo acredito que das coisas mais importantes que ele me ensinou terásido que por mais difícil que seja uma situação existe sempre uma forma leve desair dela. Ver as coisas desta forma tem me ajudado bastante a ultrapassar algumas situações típicas da adolescência e creio que continuará a ser-me útil pelo resto da vida. Assim, entendi que são estas singelas memórias as mais valiosas de todas, por

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mais simples ou mínimas que sejam tornam-se de um enorme poder e significado. Hoje consigo ver que sou um conjunto de todos estes momentos; sou o sorriso das minhas afilhadas, os olhos brilhantes do meu namorado, a gargalhada da minha mãe, a irritação estampada da cara do meu pai, a tranquilidade das minhas irmãs e a união e felicidade da minha família. No final das contas, no fim do dia, no cessar das primaveras, só isto me importa. Afinal, o que seria de mim se não fosse tudo isto?

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Afonso Oliveira

Memórias turvas

Cada memória que se prende na minha mente é como um pequeno passarinho a voar pelo céu, livre e sem limites, surge quando quer e dirige-se para onde lhe é mais favorável. Comparo as memórias a um simples pássaro, elas que vagueiam por toda a minha mente e estão sempre lá, nunca passo umdia sem as ver. Tento descrever aquela que me é mais feliz, aquela que me aquece o coração sempre que me invade a mente, percebi que não era essa que eu procurava. Conseguia começar com um simples “Lembro-me…”, mas sei que não éeste o vocábulo que aqui se aplica, por isso mudei-o. “Vivi tempos pacíficos onde só conhecia, maioritariamente, a felicidade, eassim continua, porém não posso pensar que a vida é um mar de rosas, pois existem aqueles dias em que não estou bem, mas não me quero desviar do assunto. Ainda era um miúdo pequeno, criativo, se o posso dizer, e crente em todas as formas de magia do mundo. Via o mundo como uma criança o vê onde tudo é eterno e todos são felizes, mas é isso que se espera duma criança, que tenha a sua inocência, pois é muito pequena para perceber certos assuntos. Andava na escola primária sempre acompanhado pelo meu primo, éramos como irmãos, mas a vida tinha outros planos para os dois, e tudo o quese aproxima também se afasta. Saímos das aulas felizes por aquele dia ter corrido bem, ou porque, simplesmente, tínhamos brincado com os nossos amigos, e tudo parecia perfeito. Fomos ter com a minha irmã que estava à nossa espera, coisa que não era normal porque geralmente não íamos os dois juntos, mas nem dei muito importância. Além de nós os dois também levámos a minha prima, com menos umavolta à da Terra do que nós, era a nossa “mana mais nova”. Desde que me lembro éramos como os três mosqueteiros. Chegamos a minha casa, mas continuei a achar que estava tudo normal e que estávamos ali para brincar ou para fazer um jantar com toda a família.

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Contudo, quando partilhávamos os acontecimentos do nosso dia e remexíamos nos nossos livros, a minha irmã aproximou-se da mesa e disse: - Olhem… - fez uma pausa para ganhar a coragem necessária para continuar e prosseguiu com a voz a tremer – Um anjinho levou o avô para o céu... Lembro-me do silêncio que se fez a seguir a esta frase e das lágrimas que escorreram pelas nossas bochechas avermelhadas, mas compreendi quefoi melhor para ele, porque ele estava muito doente e era preferível do que sofrer por mais tempo e aceitei. Concluo com uma vivência presente, pois fez oito anos que não o vejo, que não ouço a sua voz, e pensei numa forma de honrar a sua memória, por isso olho para esta memória como um interruptor para todas as memórias quetive com ele, até para aquelas que não me lembro, porque sei que ele, assim, nunca será esquecido e será eterno.

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Ana Sofia dos Santos Luís

Doce Passado

Verão de 2012. O calor proliferava em ondas curtas e abafadas, turvando a visão do horizonte. As árvores a toda a volta da humilde residência campestre estavam estáticas, à espera de uma mísera brisa de vento que aliviasse o calor dos seus troncos carnudos. O ambiente na cidade era calmo, por vezes, até melancólico, já que a maioria das pessoas aproveitava o tempo quente como pretexto para umas férias à beira-mar, restando somente alguns idosos que arrastavam as pernas pela rua enquanto assobiavam baixinho. Ao longe, a subir energicamente as escadas da entrada, conseguimos perceber a presença de uma menina pequena, de cabelo castanho escuro, longo, preso em duas trancinhas como habitualmente. Os seus olhos eram grandes e expressivos, contrastando com o seu nariz achatado e com a sua tez branca e suave. Nesse dia, vestia uma saia rodada de cor rosa, que tocava levemente os seus joelhos e uma camisola branca com um desenho simples, conferindo-lhe o ar angelical de uma criança de oito anos. Porém, o que mais brilhava na sua aparência era um sorriso esperançoso e sincero, ainda que levemente envergonhado. Ela subia apressadamente os degraus, porque a mãe a chamava e a menina sempre obedecia aos mais velhos, independentemente do que pedissem, porque queria ser considerada uma menina bem-comportada perante os que a rodeavam. De forma breve e sem uma única palavra, a mãe entregou-lhe um embrulho verde-claro, pequeno e com uma grande fita vermelha, porém, em vez de assistir a uma explosão de felicidade incontrolável à sua frente, observou somente uma face incrédula, talvez porque o motivo se sobrepôs à ação na cabeça da sua filha peculiar. Logo de seguida, a mãe explicou-lhe que o seu desempenho na escola combinado com uma conduta correta foram a razão para esta surpresa fora de horas. Ao abrir o presente, a criança ficou maravilhada: era um livro pequeno, de capa brilhante, que mostrava duas gémeas altas e esguias, vestidas com trajes académicos e que se encontravam em frente a um grande edifício como nunca antes havia visto. O

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livro intitulava-se As gémeas no colégio de Santa Clara e era o seu primeiro livro sem ilustrações! A felicidade que inundou o coração da pequena era indescritível não só porque adorava histórias como também pelo gesto de carinho que a sua família demonstrou. De facto, nos dias de calor seguintes, o quintal daquela casa era silêncio puro e se procurássemos a menina, não a encontraríamos. Ela estava num plano muito distante, um sítio aprazível e só dela, onde conhecia pessoas inspiradoras diariamente e criava os seus próprios ideais. A viagem pela sua imaginação era sempre muito longa e interessante, embora nunca saísse do seu quarto. Agora, quatorze anos depois, essa menina das fantasias e dos sonhos intermináveis cresceu, mas, no meio da maturidade e da responsabilidade, encontra sempre espaço no seu coração para os livros e na sua cabeça para a imaginação. O seu nome é Ana Sofia.

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Ana Torres

Tristes Pequenas Memórias

Numa pequena localidade do concelho de Paredes é onde encontro o início das minhas pequenas memórias. Apesar de serem maioritariamente felizes, há algumas mais tristes. No conjunto das recordações da minha vida, existem pessoas e locais que nunca me deixaram esquecer a minha vivência, pois, para além de me lembrar de episódios marcantes, também continuam presentes no meu círculo de amizades, na minha família, até aos dias de hoje. As memórias podem ser pequenas, mas perduram até hoje e, de certa maneira, ajudam a traçar a mulher em que me tornei. Os episódios infelizes relacionam-se com os comentários acerca do meu corpo e com o falecimento do meu avô, de quem eu era muito próxima. De uma forma muito resumida, ao longo da minha vida, várias pessoas, quer familiares, quer colegas de turma, teciam comentários e davam opiniões acerca do meu corpo, de como ele devia ser, o que, durante muitos anos, abalou a minha autoestima e agravava a minha opinião acerca do meu corpo. A minha confiança foi pouca durante muitos e, até hoje, sinto os ecos desses juízos em muitas situações e abordagens do quotidiano. O falecimento do meu avô foi um dos momentos mais marcantes da minha vida, pois foi o meu primeiro contacto com a morte, pois, até então, nunca tinha estado tão próxima da perda de alguém tão especial para mim. Magoou-me imenso. Fez-me perceber a finitude da vida. Recordo-me do aperto que senti no coração sempre que me lembrava dele. A vida, agora, segue com a dor da perda mais adormecida, e sinto que devo aproveitar a vida da melhor maneira possível. Mas nem todas as minhas pequenas memórias são tristes. Existem muitas felizes, como as idas à praia com os meus pais ou o dia em que eles adotaram os meus animais de estimação, assim com as minhas festas de aniversário, que sempre revelaram alegria e satisfação, entre outros momentos. As memórias diferem de pessoa para pessoa, tornando-as únicas e importantes à sua maneira, mas o que faz delas um elemento importante na minha vida é a forma

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como influenciarem a minha maneira de ser e de agir e me ensinaram a ultrapassar muitos obstáculos que foram surgindo, tornando-me, assim, numa pessoa única e especial.

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Beatriz Ribeiro Bessa

Os prédios

Na cidade onde cresci não havia tantos prédios, mas árvores a perder de vista e muitas do tamanho dos prédios. Lembro-me de brincar nessas árvores com os meus amigos. Na minha casa de infância havia sempre algo para fazer, pois era uma casa de campo e animais não faltavam. A avó levava-me a ir buscar os ovos às galinhas, pediame que tivesse cuidado e dizia-me “Não os deixes cair”. Nunca falhei. O avô faleceu antes de ter tido oportunidade de o conhecer, mas a avó costumava dizer que éramos iguais, impacientes e persistentes. Sempre levei isso como um elogio e ficava muito orgulhosa, até descobrir que a avó não gostava muito do avô. Talvez não apreciasse pessoas impacientes e persistentes. Nunca lhe perguntei e agora também já não vou a tempo. Agora os ovos são do supermercado e já ninguém me pede que tenha cuidado com eles. Quando brincava no jardim da casa pedia aos meus pais um irmãozinho, mas eles nunca me deram um. A mãe respondia sempre “Um bebé é muita responsabilidade, querida, vai lá brincar com a Bela”. O problema é que a Bela era uma boneca de trapos e o cão, que ela me deu no aniversário seguinte, acabou por a comer. Eu gostava da Bela, costumava levá-la comigo quando ia brincar nas árvores da cidade com os meus amigos. Na festa do meu sétimo aniversário, todos os meus amigos foram convidados. Depois de cantarmos os parabéns, a mãe deu-me uma pequena e estranha caixa, “Abre com cuidado”, e eu assim o fiz. Foi assim que conheci o meu melhor amigo, um pequeno cachorrinho que parecia estar sujo com carvão. Crescemos juntos e eu nunca mais pedi um irmão quando brincava no jardim. Sai de casa dez anos depois, quando decidi que ia estudar arquitetura. O pai tinha acabado de vender a casa de campo e levou a mãe, a avó e o cachorrinho para o apartamento onde passei a viver todos os dias. Às vezes, ainda considero voltar a comprar a casa de campo. Contudo, agora sou só eu. O pai e a mãe partiram uma semana após eu ter terminado o curso num infeliz acidente de viação.

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Agora sou arquiteta, vivo numa pequena casa com vista para aqueles prédios e tenho saudades dos tempos em que a minha única preocupação era não deixar cair os ovos e fazer a avó orgulhosa.

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Bruno Daniel Ferreira Barros

As memórias que não tivemos

No Natal, na Páscoa, nas romarias e em várias outras festividades que, tradicionalmente, reúnem as nossas famílias num único sítio, existe uma grande, ou várias mesas, com a comida típica de qualquer casa portuguesa - um pouco de enchidos, vinho e queijo, por exemplo. As crianças a correr à volta, enquanto brincam, ou sentadas a ouvir muito atentamente as histórias que os mais velhos têm para contar. A típica história que não falta é sempre como era a vida antigamente. Era eu como essas crianças que se sentavam a ouvir as histórias dos adultos, as suas lições de vida e o quão felizes um dia eles foram. O nosso Portugal mudou bastante em poucas décadas. Antes havia poucas escolas e poucos transportes, não havia supermercados nem restaurantes internacionais. A vida rural era a realidade da maioria dos portugueses, e fazia com que pequenas comunidades fossem relativamente isoladas e autossustentáveis. Recordo-me das vezes em que ouço o meu pai dizer os quilómetros que fazia para chegar à escola, as aventuras que tinha só para ir buscar leite e farinha. Como tal, a ruralidade do passado, continua presente na memória dos nossos pais e avós, que nos transmitem as suas memórias e a felicidade do seu quotidiano. No livro “Dom Casmurro”, Machado de Assis escreve: «Mas a saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das memórias antigas», e em concordância com a frase, percebemos que aquela saudade, presente nas pessoas que nos contam as suas memórias, não fica só nelas. Ela passa para nós. Quantas vezes não saímos de casa e ouvimos “antigamente isto era assim...”, “antigamente não existia isto...” e quantas vezes não nos perdemos a imaginar como realmente seria, se seria bom, se seria mau, se seria bonito, se seria feio, mas principalmente, se seria melhor do que aquilo que é hoje. Assim, percebemos que quando nos contam uma memória, damos por nós a imaginá-la e, por fim, se gostarmos daquilo que imaginamos, acabamos por interiorizá-la. Aceitamo-la como nossa, porque gostaríamos de ter vivido tal realidade e como tal, um sentimento de nostalgia acaba por se criar em nós. Apesar de não termos vivido tal

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realidade, acabamos por gostar dela, por nos identificarmos com ela e por sentir saudade dela. Conclui-se, então, que podemos ter uma memória, mesmo que não vivida, e que iremos sempre sentir saudade, pois gostamos da realidade exposta. Para terminar, deixo a seguinte frase de Bernardo Soares (semi-heterónimo de Fernando Pessoa): «Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.»

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Carolina Castro Santos Costa

A casa da avó São

Infância, a fase da vida onde podemos brincar, sujar, saltar e correr por todo o lado sem sermos julgados por nada, onde somos muito felizes e livres de rotinas definidas. A minha, pelo menos, foi assim. E então os sábados e domingos eram do que eu mais gostava. Muitos foram os fins de semana em que ía ao sábado, pela manhã, a casa da avó São. Quando lá chegava, parecia que entrava num mundo totalmente diferente do que vivia durante a semana. Apesar de morar numa cidade bem pequenina, os meus avós moravam numa típica aldeia portuguesa onde todos os moradores se conheciam e a maior parte vivia da agricultura, o que me dava, e continua a dar, uma sensação de uma vida tranquila e sem correrias, onde era possível descansar a cabeça e não pensar em nada. O que eu mais gostava era de ir a correr para o campo e brincar no meio das plantações de legumes, frutas e das flores. Lá, também havia vários animais, nomeadamente cavalos, mas, não sei bem o porquê, nunca gostei de equitação, apesar de já ter nascido naquele meio e dos meus irmãos a praticarem. Eu preferia brincar com os coelhos mais pequeninos e apanhar os ovos das galinhas. Plantar morangos, acompanhar o seu crescimento, depois colhê-los e poder saboreálos era também do que eu mais gostava de fazer. O melhor de tudo era quando a sobremesa do almoço eram os morangos que eu tinha plantado. Era como se o meu pequeno esforço fosse reconhecido pelos meus familiares, o que me deixava muito feliz. Quando o tempo aquecia, eu, os meus irmãos e o meu primo gostávamos de nos refrescar no tanque onde éramos capazes de passar horas e só sair quando já estava escuro. Tudo isto faz com que a casa da minha avó esteja associada a imagens e recordações positivas, onde ainda hoje gosto muito de ir, cada vez com mais frequência, pois lá come-se do que a terra dá e, por isso, a comida da minha avó é muito saborosa. Também a reunião de família acontece quase sempre aos domingos, logo, mais um motivo que me leva a gostar de ir.

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Todas estas experiências e vivências associadas ao campo e à natureza resultaram numa vontade constante de passear por sítios mais tranquilos e ligados a ela, onde é possível observar os seus incríveis fenómenos e recordar os dias que passava em casa da avó São.

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Cláudia Gomes

Reviver a felicidade

A vida era simples, na altura não chovia, apareciam pelas ruas vagas de calor e toda a gente procurava a frescura. Os encontros ficavam marcados de um dia para o outro e, todos os dias, eu e os meus amigos nos encontrávamos no largo para jogarmos “à bola”. Durante aquelas horas, todos nós éramos felizes e não havia cansaço que nos fizesse parar de rir, de brincar e de sorrir. A minha mãe começava logo a chamar-me quando o céu começava a ficar escuro, não podia demorar a ir para casa depois do aviso, caso contrário, já sabia que iria apanhar um belo castigo. Um novo dia começava e a rotina mantinha-se: de manhã ia para a escola, quando chegava a casa, fazia logo os trabalhos de casa para ir ajudar o meu pai no trabalho do campo. No fim do dia, as minhas mãos tinham calos e os meus pés passavam a ser castanhos. Sentia-me cansado, e, às vezes, revoltado por achar que a liberdade que eu tinha era muito reduzida. Sabia que os meus pais faziam o que podiam por mim, à maneira deles, mas faziam. A adolescência apoderou-se de mim e uma nova realidade surgiu. Já tinha deixado a escola e arranjei um trabalho, o meu primeiro trabalho, numa fábrica de móveis. No início foi difícil habituar-me a todas aquelas tarefas que os meus colegas já sabiam fazer de olhos fechados. Com o tempo, comecei a ser bom no que fazia e dei o grande passo da minha vida: abrir o meu próprio negócio. Foram anos muito trabalhosos, de muita luta e de muita felicidade. Criei o meu próprio lar, com tudo o que sempre desejei na minha vida, e a estabilidade fez de mim uma pessoa feliz. Hoje, limito-me a recordar e fico à espera do dia em que deixe de conseguir lembrar-me de todo este percurso. Enquanto ele não chega, continuo a reviver a felicidade.

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Diana Ferreira Ribeiro

Caixinha cor-de-rosa cintilante

Memórias. Palavra morfologicamente curta e simples, mas etimologicamente tão complexa e difícil de ser definida. Provocam, pois, um conjunto de emoções singulares e de diferentes dimensões em cada sujeito. Vários são os sentidos que nos levam à criação de memórias. O olfato é, para mim, o que mais memórias me gera. O cheiro intenso e maravilhoso de comida caseira que rondava a habitação de casa dos meus avós, durante um longo período de tempo permanecerá para sempre nas minhas lembranças. As inúmeras brincadeiras, naqueles dias de calor, com brinquedos construídos através de materiais que porventura ia encontrando, enquanto passeava e cantava alegremente nos vastos e planos terrenos, constituem também outra memória que sempre guardarei cuidadosamente. Confesso que ainda guardo, numa caixinha cor-derosa e repleta de pequenos brilhantes no exterior, os colares e pulseiras por mim e pelos meus avós feitos através de flores perdidas no campo, assim como uma garrafa de plástico com pedrinhas no interior, de inúmeras formas, que se tornou no meu primeiro instrumento musical e a qual me fez acreditar ser uma cantora de sucesso. Em suma, a caixinha cor-de-rosa cintilante nada mais é do que o porto seguro de pequenas memórias que me fazem sentir saudades. Sinto falta das corridas. Sinto falta das brincadeiras e das cantorias. Sinto falta daquela paz e inocência. E, apesar de ver os meus avós constantemente, sinto falta deles e de tudo acerca deles.

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Diana Filipa Alves Reis

Avós

As minhas recordações mais remotas levam-me à pequena vila no norte do país, uma daquelas onde toda a gente se conhece, onde cresci e onde fui criada pelos meus avós maternos. De facto, ainda hoje me anima pensar no caráter caricato que tinha enquanto criança. Naquela altura, com cerca de 5 anos, não deixava que ninguém me penteasse o cabelo antes de ir para a escola. Lembro-me, era o meu avô o único que eu permitia que arranjasse o meu desajeitado cabelo castanho claro, que ele prendia ridiculamente bem usando dois elásticos cor-de-rosa, um para cada lado do cabelo. Fazia-me sempre sentir bonita. Íamos para o pátio da nossa casa, na maioria das vezes iluminado com o alegre sol matinal, ouvia-se o cantar buliçoso dos galos dos vizinhos, os passarinhos que por ali voavam e o som relaxante do rio que se via ligeiramente abaixo da nossa casa. Tudo isso me redobrava o entusiasmo para o novo dia que se iniciava e que prometia ser carregado de brincadeiras com os meus belos amiguinhos da escola. Sempre que não ia para a escola, passava o dia a tentar, inocentemente, ajudar a minha avó em todas as tarefas que ela fazia, e ela deixava-me porque via a minha felicidade por poder sentir-me útil. O que ela mais gostava de fazer era tentar ensinarme a costurar porque acreditava em mim, achava que eu conseguiria fazer roupas para as minhas bonecas tão bonitas como as que ela fazia, pensava que talvez até me viesse a tornar uma modista. No entanto, o que eu adorava mesmo era, de forma muito traquinas e disfarçada, arrancar as flores coloridas dos seus vasos ou canteiros, separar as suas pétalas (os meus vegetais frescos) e colocá-las a todas numa minúscula panela do conjunto de cozinha de brincar que me dera num aniversário. Nela, fazia a minha “sopa arco-íris” que servia com todo o agrado aos meus peluches. Ao mesmo tempo, sonhava avidamente em tornar-me uma das maiores chefes de cozinha quando fosse “crescida”. Muitas das vivências mudaram e restam apenas as memórias dos pequenos momentos.

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Afinal, esse sonho não permaneceu e não me tornei nessa chefe muitíssimo reconhecida, mas o amor por esses segundos pais ainda se mantém, mesmo que há algum tempo tenham partido, e quando olho em volta, tristemente, ainda os recordo e ainda os sinto.

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Fabiano Barbosa

Memórias De Gran Canárias

No ano de 2019, tinha férias marcadas para uma ilha espanhola chamada Gran Canária. Na altura, estava muito ansioso e feliz. Iria andar de avião e conhecer novos lugares como praias, paisagens e uma nova cultura. As férias estavam marcadas de dia 23 de agosto a 1 de setembro. Elas começaram logo mal, no primeiro dia, já no aeroporto com a minha família, minha avó inesperadamente caiu sobre o pulso provocando uma entorse grave. Visto que já tínhamos a viagem paga e já estávamos no aeroporto decidimos continuar e embarcar no avião e quando chegássemos às Canárias iríamos ao hospital. A viagem, digamos, por um lado estava feliz e ansioso, mas por outro triste pelo que a minha avó estava a passar. De facto, aterramos em Gran Canárias e ao ir para o hotel que estávamos hospedados reparei que, literalmente, era uma ilha muito deserta, o caminho inteiro até chegar ao local era de areia e rochas não havia casas, prédios e nem sinal de vida (isto durante umas 3 horas), olhávamos uns para os outros com um olhar de arrependimento e a pensar que tínhamos viajado para uma ilha deserta e que não iríamos ver nada demais. No entanto, passado umas boas horas de autocarro, tínhamos chegado à cidade em que íamos ficar e já era completamente o oposto do que tínhamos visto. Isto é, já era uma zona com bastante turismo e movimentada. O que mais me fascinava eram as praias, tinha cada praia que era ficar de boca aberta, de todas tinha uma que se destacava mais, não sei o nome dela, mas tinha areia preta e água clarinha, era das melhores e a que mais íamos, além de ficar perto do hotel. Além disso, um outro momento que vai ficar na minha memória foi quando alugámos uma carrinha para toda a família e fomos explorar a ilha. Vi paisagens magníficas, praias novas, sítios novos entre outras coisas, definitivamente, um dos melhores momentos da minha vida. Assim, uma aventura que começou de uma maneira triste acabou por ser um dos melhores momentos da minha vida e irá ficar para sempre na minha memória.

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Filipa Neto

Marcas da minha vida Sobrosa é a terra em que nasci, vivo lá desde então. A minha família é numerosa e eu sou a irmã mais velha de cinco irmãos, além de ser a mais responsável desde pequena. Desde os meus dez, onze anos, sou eu que trato de tudo em casa, desde a quarta classe, pois a minha mãe já não consegue fazer muita coisa, devido a problemas de saúde, e o meu pai trabalha numa mercearia que temos na parte de baixo da casa. A minha casa tem um estilo antigo, com um grande jardim onde brincava com os meus irmãos. Tínhamos um quintal atrás da casa onde passava tardes a ajudar a minha mãe e as minhas tias nas plantações, pois tínhamos de tudo um pouco: batata, repolho, alface, cenoura, tínhamos videiras e mais algumas árvores. A minha época do ano favorita era a do magusto, altura em que fazíamos o vinho e eu podia calcar as uvas. Tenho várias memórias desse tempo e uma das melhores é a de apanhar malmequeres num jardim perto da escola onde eu estudava. Era um jardim cheio de flores diferentes, e eu adorava fazer coroas de flores. Normalmente, fazia isso com as minhas irmãs. Márcia, a segunda mais velha, contava anedotas que só ela sabia e tinha jeito para o fazer. Como sou a mais velha, sempre tive mais responsabilidades e era eu que cuidava dos meus irmãos, vestia as minhas irmãs para irem para a escola, preparava-lhes o lanche e ainda lhes arranjava o cabelo. Só quando saíam é que ia tratar das lides da casa. Foram passados assim os dias da minha adolescência. Ansiava pelas férias de verão para ir para a Foz e ver o mar. A tranquilidade desse ambiente apagava todas as mágoas e esforços vividos ao longo dos anos. Por isso, ainda hoje vou até lá com os meus filhos e netos. Tive uma infância que, para a época, foi maravilhosa! Fui feliz, brinquei muito, tenho umas memórias incríveis daquilo que fui enquanto pequena e estou orgulhosa da pessoa em que me tornei, agora adulta.

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Filipe Vasconcelos Neto

Das recordações que nunca tive

Naquele verão de 2018, consegui, por fim, convencer os meus pais a levarem-me à Agrival para me encontrar com uma pessoa. Sempre gostei do estilo campestre a ser invadido pelos civilizados que olhavam para aquilo como algo do “antigamente”. Porém, fiz questão de ir pelos artistas que iam atuar, em especial o Rui Veloso. Essa noite levou-me a uma viagem por entre lembranças que antecederam esse momento. Ao luar da noite, sem estrelas no céu, recordei o momento em que passava a maior parte do meu tempo sozinho. Não era algo que me incomodasse, mas convencerem-me de que eu precisava de me tornar mais sociável, que estava numa idade em que precisava de crescer. Não me entrava na cabeça de que forma faria isso sentido, no entanto, dei ouvidos a esses conselhos. Para mim, ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto parecia-me uma dura realidade. Decidi, portanto, tomar a iniciativa de conhecer pessoas novas. Aproximei-me de um grupo com o qual me identificava. No grupo, uma cara bonita conquistou a minha atenção. Fazíamos planos todos juntos e às vezes só os dois. Surgiu-me a ideia de irmos à Agrival. Finalmente, iria aproveitar um dia com amigos ao meu lado, para mais tarde relembrar. Dou por mim a retornar ao consciente, a ouvir os maiores êxitos daquele cantor. Da história que recordo, só as memórias foram comigo ao evento. Os momentos que pensei viver com aquela gente, não passaram das recordações que nunca tive. Quanto à rapariga, tinha combinado com ela juntarmo-nos a ouvir “Anel de Rubi/ Paixão” no verão. Porém, ela não aparecera naquela noite. Era tarde e ela não apreciava os meus gostos musicais. Já nem me importava, estava onde queria. No meio da multidão, algo preencheria a minha solidão, pensei eu.

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Helena Sofia Fernandes Bessa

Gargalhadas de Rua

Era terra batida no sítio onde hoje está construída a churrasqueira junto à casa. Nos dias de verão, após o jantar, aproveitávamos a brisa quente e colhíamos as flores silvestres, eu e a minha irmã. Éramos duas pequenas floristas, felizes com tão pouco e as nossas gargalhadas enchiam a rua. Acabávamos de jantar e saíamos à rua, íamos para o quintal brincar ou ajudar o pai a tirar as daninhas nas cebolas ou nos pimentos. Quando ele não precisava de ajuda, íamos ter com os vizinhos. Jogávamos à bola na rua, às cartas, ao esconde-esconde, à apanhada, andávamos de bicicleta e gargalhávamos muito. Éramos meia dúzia e já sabíamos como funcionava. Jantávamos e sentávamo-nos à porta de casa à espera dos outros. Era tudo tão simples! Hoje a rua está vazia. Há miúdos, mas os miúdos hoje não brincam. Hoje para eles é sempre inverno, não vão para o campo, não sujam as mãos, não correm nem gritam nem saltam como nós fazíamos há dez pequenos anos atrás. Hoje não há gargalhadas na rua. Que memórias vou guardar para o futuro? A rua que preenchi com gargalhadas e joelhos esmurrados? Sim, porque cada esquina tem uma história para contar. Espero que na minha memória não fique este silêncio, o silêncio que apenas deixa ouvir os pássaros cantar e a vizinha que grita constantemente “Star, anda cá” de cada vez que foge a cadela. Que as gargalhadas sejam eternas, pelo menos no coração de quem as viveu.

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Hugo Couto

Infância

A memórias de criança podem ser belas ou feias, vagas ou marcantes, fazer rir ou chorar, de momentos importantes ou simples. A infância é uma das alturas da vida que mais marca, desde traços importantes da nossapersonalidade como traumas e medos que levaremos para o futuro. Brincar de manhã à noite são as memórias que todos se recordam quando se fala na infância, momentos de pura diversão e felicidade que já não voltam mais. Bons tempos, quando se acreditava que o Pai natal era real, um ano inteiro a portar-se bem para receber as prendas desejadas no dia de Natal. Lembro-me como se fosse hoje, um pequeno miúdo encantado no meio de uma Disney gigantesca e magnífica. Encantado com tudoao seu redor, desde castelos gigantescos a personagens que só se viam nos filmes, e lá eram reais (Mickey, Pato Donald, Pluto, Buzz Lightyear, etc…). Mas nem tudo são boas memórias, um dos meus maiores medos deriva de um trauma de infância, um pequeno susto na infância causou-me um medo enorme de alturasque carrego comigo até hoje. Contudo, as memórias não passam de memórias e vão ficar gravadas nas nossas mentes para o resto das nossas vidas, mas já não voltam mais.

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Inês Isabel da Costa Barros

O pesadelo em crescer

A memória remonta-me para os dias de verão, em que o calor era tanto que o único sítio decente que se encontrava, era a esplanada do café da minha família. Era muito barulhento. Os homens a discutir o resultado dos jogos de futebol do fim de semana passado, com opiniões muito diferentes umas das outras e a coerência dos árbitros era sempre posta em causa. As mulheres a conversarem sobre coisas que não lembram nem ao diabo, e as crianças a correrem umas atrás das outras a ver quem vai chegar primeiro, para não ser o próximo a contar. A minha família juntava-se na cozinha, já que esta pertencia ao mesmo café a observar as crianças e a ver quando é que uma delas iria cair. Era o habitual. Eram tempos em que os telemóveis não estavam presentes e a conversa era o que fortalecia a família. A nossa única preocupação era fazer o tempo da digestão para depois ir para a piscina. Eram também tempos em que não faltava ninguém importante. Por vezes tomamos a vida como garantida e esquecemo-nos que a qualquer momento tudo pode mudar. Agora tudo é diferente. Fui tomada pelos pesadelos do que é crescer. Hoje só pedia para reviver esses dias nem que fosse só por uma hora.

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Joana Alexandra Dias Mendes

Memórias de uma leitora

Tal como todas as crianças de cinco anos, eu gostava de brincar com bonecas e de jogar à bola. No entanto, nada me trazia mais ânimo do que os livros. Peguei num livro pela primeira vez quando estava no infantário, não sabia ler e tudo o que via parecia um conjunto de letras organizado sem qualquer sentido. A partir daí, passava os meus dias na biblioteca, a folhear todos os livros que me aparecessem à frente e a imaginar as possíveis histórias que aquelas palavras contavam, tudo através das ilustrações. Tenho uma leve ideia que foi este meu interesse desde pequenina que fez com que aprendesse a ler tão rapidamente. Tinha orgulho em mostrar aos adultos à minha volta as letras que aprendia na escola e as palavras que ia conseguindo ler aos poucos. Deixei de pedir brinquedos como prendas de aniversário e quando recebia um livro novo sentia-me a menina mais sortuda do mundo. Lembro-me, especificamente, do meu décimo aniversário. Os meus pais tinham-me dito que não conseguiram comprarme uma prenda, mas acabaram por me surpreender com o livro “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry. A melhor prenda que alguma vez recebi, durante uns tempos não era capaz de largar o livro. Entretanto, fui crescendo, e durante a adolescência, passei por alguns momentos complicados. A leitura era como uma espécie de fuga da realidade. Conseguia sempre distrair-me e até mesmo animar-me. Ganhei então esse hábito, ler para evitar os meus problemas. Se calhar, não era a melhor maneira de lidar com as minhas preocupações, mas foi a que encontrei naquela altura. Ao olhar para trás, não sei se este gosto pela leitura teria nascido se eu não tivesse pegado naquele livro de histórias para crianças quando tinha cinco anos. Quero tê-lo comigo para sempre e mostrá-lo aos meus futuros filhos, para que eles possam sentir o que senti a primeira vez que abri aquelas páginas.

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Joana Beatriz Melo da Silva

Um texto para recordar

As memórias que mais estimo foram passadas em família, desprezando tecnologias, bens materiais e preocupações. Recordo com especial apreço as vindimas e os Natais. A mesa rodeada de pessoas apertadas, o ruído das numerosas gargalhadas, o cheiro a comida acabada de fazer, as pessoas genuinamente felizes. Este é o poder e riqueza das memórias, faz-nos recordar com tal minúcia que chegamos a ter sensações físicas. Lembro-me dos verões em que acordava cedo para ter longos dias na praia, de fazer castelos na areia e ter uma energia infindável para nadar e correr. Lembro-me de ter um pequeno Ferrari a bateria, que era, sem dúvida, o meu maior luxo, e que levava até casa da minha avó que morava mesmo ao meu lado, tudo para me gabar e poder ouvir aquela gargalhada cheia de orgulho mais uma vez. Lembro-me de ser desde nova obcecada por animais e levar uma ninhada de três gatos bebés que encontrei na rua para casa, onde obviamente ouvi um sermão da minha mãe. Lembro-me de fugir da minha mãe quando ela me levava ao infantário para poder voltar para casa e ficar a fazer-lhe companhia o dia todo. Talvez as memórias só tenham relevância, porque tendemos a não lhes dar valor até elas fazerem parte do passado, mas elas são tão mais do que isso... São elas que nos transportam para determinadas realidades, são como viajar sem sair do lugar, são fotografias que a mente tira e guarda, são a tristeza de relembrar e a alegria de reviver. Um exemplo desta importância, são os doentes com Alzheimer. São a prova de que sem as memórias não somos ninguém, não temos identidade, somos meros seres a ser levados pela vida. No final, as pessoas vão-se afastando, as tradições vão desaparecendo e tudo a que nos podemos agarrar são essas pequenas memórias que nos aquecem o coração.

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João Sousa

À descoberta de Barcelona

John Steinbeck disse “As pessoas não fazem as viagens, as viagens é que fazem as pessoas”. No meu caso, esta frase não poderia ser tão verdadeira. Se não tivesse realizado esta viagem, seria uma pessoa diferente, com perspetivas diferentes. Lembro-me daquele dia como se tivesse sido ontem. Recordo-me de ter acordado por volta das 7h30 da manhã, entusiasmado e com vontade de experienciar coisas novas. Acordar e perceber que ia conhecer Barcelona transformou aquela ensolarada manhã de verão num dos melhores dias alguma vez vividos por mim. Depois de toda a minha família estar acordada, fomos tomar o pequeno-almoço no restaurante do hotel, onde tentamos comer o mais depressa possível com o objetivo de embarcarmos cedo no comboio que nos levaria a Barcelona. Apesar de serem 8 horas da manhã, de um sábado, o comboio já estava apinhado de pessoas e tivemos de nos esforçar para encontrarmos lugares vagos (para uma viagem que viria a ser bastante desagradável). No momento em que chegamos a Barcelona, pensei que aquele dia seria um dos melhores da minha vida (estava certo). Ouvir um dialeto parecido ao espanhol (em vez do meu querido português) fez-me sentir confuso e como um estrangeiro (afinal de contas, era mesmo isso que eu era!). Contudo, com o passar do tempo, lá me fui acostumando. Recordo-me de, depois de termos saído do comboio, começarmos a explorar a cidade e de visitar os diversos pontos turísticos relevantes. Após um longo período de tempo a visitar monumentos interessantes (trajeto que poderia ter sido mais curto, pois perdemo-nos várias vezes), lá conseguimos alcançar a atração principal: A Sagrada Família. Tenho na memória a imagem de uma catedral imponente, magnífica e única! Lembro-me da imensidão de formas presentes na arquitetura e da sua grandiosidade me ter deixado nervoso e ao mesmo tempo entusiasmado.

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Já dentro da catedral, com o nervosismo completamente dissipado, a beleza das formas contribuiu para aumentar o meu entusiasmo. O interior ainda era melhor do que aquilo que eu esperava. Durante essa tarde, vi coisas tão belas que nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria que chegaria a ver. Era tudo magnífico e tão diferente do comum! Após algumas horas nas nuvens, senti um misto de emoções. Por um lado, estava triste por ir embora; por outro, senti-me realizado, pois acabara de cumprir um sonho. Voltamos depois para Santa Susana, cidade onde aproveitei o resto das férias. Estas foram as melhores férias vivenciadas por mim e, por este motivo, vou relembrá-las para sempre.

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José Luís Sousa Moreira

As pequenas memórias

As minhas pequenas memórias não estão todas presentes na minha cabeça, algumas das memórias que eu vivenciei ao longo dos meus dezoito anos são fruto da minha imaginação, pois, na maioria, resultam dos relatos que me vão fazendo e eu imagino como foi, mas simplesmente são imaginações e não recordações. Para mim, memórias são como um álbum de fotografias que nos aquecem a alma quando pretendemos recordar alguma coisa que vivemos ou recordar alguém que já não poderemos abraçar. Estas ajudam a ultrapassar momentos difíceis que todo o ser humano mais cedo ou mais tarde sofre na vida. As memórias são a nossa identidade pessoal tal como um currículo, que podemos passar de geração em geração como se fosse uma herança material, mas esta não é menos importante, pois traz sentimentos e emoções, que fazem manter viva a cultura de uma família. As memórias que mais tenho presentes são dos meus aniversários rodeados dos meus familiares mais chegados; o meu primeiro dia de escola, o dia em que aprendi a andar de bicicleta, o meu primeiro animal de estimação, os natais de quando eu ainda acreditava no pai natal, o primeiro dente de leite que me caiu, o meu primeiro telemóvel, o meu primeiro computador. Mas as minhas memórias ainda são memórias muito banais, porque ainda não tenho idade suficiente para vivenciar memórias diferentes, mas, no geral, as memórias são como ervas daninhas que, por mais que nos tentem arrancar, voltam a aparecer.

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Luís Bessa

A minha primeira visita ao Algarve

Quando me questiono acerca das minhas primeiras memórias, aquelas que tenho mais presentes são os convívios e as viagens em família, nomeadamente, a minha primeira viagem ao Algarve. Recordo-me que parti, juntamente com os meus pais e avós, de madrugada e, por isso, dormi durante a maior parte da viagem. Apesar disso, com o calor que se fazia sentir na altura, inúmeros foram os incêndios que se iniciaram, possíveis de ser vistos no rebordo da autoestrada. Como à altura era a única criança da família, decidiram que ao invés de arrendar um quarto de hotel, seria melhor uma casa. Sobre esta pouco me recordo, apenas por relatos dos presentes me surge uma fosca memória de algum dos seus aspetos. Quem fala do Algarve e não recorda as suas belas praias de águas quentes não pode dizer que sabe do que fala. Foi nestas mesmas praias que passei a maioria do tempo. Apesar de ser um local de repouso, é possível observar a presença de vários aspetos culturais, entre eles a venda das Bolas de Berlim. Ainda me recordo dos vendedores com as suas cestas de vime a proclamarem o seu slogan musicalizado: “Olha a Bola de Berlim, com creme e sem creme!”. Podemos ainda constatar a vasta presença de turistas estrangeiros com os seus diferenciados idiomas (o que lhes provocava uma certa dificuldade de comunicação). Um dos locais de maior atratividade da zona é o “Zoomarine”, com os seus famosos espetáculos de golfinhos, leões marinhos, saltos para a piscina, espetáculos temáticos ... Existem também uma inúmera quantidade de escorregas aquáticos e piscinas. É nesta última que guardo o episódio mais hilariante, quando, num destes escorregas denominados por “Cobra”, ouvia as raparigas que nele andavam a gritar desesperadas. Por fora, parecia um pouco alto, mas quando me atrevi a andar nele, não percebi a justificação do desespero, nada mais era do que um escorrega de água, fechado na sua totalidade e que à passagem emanava cores como um arco-íris.

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Também me recordo do espaço noturno, onde a rua se enchia de gente para observar os espetáculos. Desde pinturas a spray a espetáculos musicais, poderia dizer-se que satisfazia qualquer orientação cultural. São estas as memórias que guardo de um bom tempo passado em família!

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Marco António Nunes Ribeiro

Onde tudo começou!

O ano era 2014, frequentava o 4º ano e surgiu a oportunidade de me inscrever no Conservatório de Música para frequentar o regime articulado quando começasse o 5º ano. Fiquei muito entusiasmado assim que a minha mãe me disse que me ia inscrever e que poderia ter a oportunidade de fazer aquilo de que gostava, que era tocar música. O dia da inscrição chegou e estava ansioso por ir pela primeira vez ao conservatório. Quando soube que precisava de fazer provas para ficar com uma vaga e para decidirem que instrumento iria tocar, o medo de não conseguir entrar sobrepôs-se ao entusiasmo. Lembro-me como se fosse hoje. Antes de sabermos que era preciso fazer uma prova para saber que instrumento iria tocar, a minha mãe perguntou à senhora da receção se podia tocar cavaquinho porque tinha um em casa, ou se poderia ser concertina porque o meu tio tinha uma e não lhe dava uso. Porém, sempre quis tocar saxofone porque sempre foi um instrumento de que gostei. O dia das provas tinha chegado, estava muito nervoso com o que poderia acontecer. De manhã, foi a prova experimental de instrumentos e, à tarde, foi a prova teórica. No fim do dia, não sabia o que esperar, se tinha corrido bem ou mal, porque tinha sido o meu primeiro contacto com todos aqueles instrumentos. Alguns dias depois, saíram os resultados e quando o meu irmão me disse que tinha conseguido uma vaga fiquei extremamente feliz. O entusiasmo para iniciar esta nova aventura voltou. Depois, houve uma reunião em que juntaram todos os alunos que passaram nas provas para dizer qual seria o instrumento atribuído a cada um. A diretora começou a dizer os nomes e o instrumento de cada um. Quando chegou a minha vez, percebi que ela disse que o meu instrumento seria o saxofone, aquele de que eu gostava. Ao início, fiquei muito contente e festejei porque tinha ficado com o instrumento que queria, mas no fim da reunião decidi ir perguntar novamente para ter a certeza e foi aí que descobri que tinha percebido mal e que afinal o meu instrumento era o trombone.

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Fiquei desiludido, mas depois comecei a conhecer melhor o instrumento e notei que se encaixava perfeitamente em mim. Hoje sou super feliz a tocar trombone e é algo que quero fazer até não poder mais. Recordo-me sempre desta história quando imagino uma coisa e ela não acontece, porque se algo acontece é porque existe um propósito e temos de aprender o que de bom nos traz.

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Maria Gomes Pereira

Momentos a recordar

As memórias são recordações que nos permitem relembrar momentos que vivemos, positivos ou negativos, e que nos transformam nas pessoas que somos hoje. A infância é um período no qual construímos algumas bases que sustentam tudo o que vier depois. É também um período mágico onde brincamos e a nossa imaginação constrói memórias cheias de significado que irão perdurar durante toda a nossa existência. Na memória ficaram os amigos de escola, as brincadeiras e os bons momentos. Ainda hoje tenho amigos e amigas do tempo do infantário e quando nos encontramos falamos com o enorme carinho de uma linda amizade. Recordo com muita alegria todas as brincadeiras que tinha com os meus amigos. Adorava ir para o infantário, tanto que fui um ano mais cedo, porque as minhas irmãs iam para a escola e eu também queria ir. Gostava muito de jogar à macaca e de ir para a praia com o infantário. Quando estava no segundo ano da primária, a escola que eu frequentava fechou e, por isso, eu e os meus amigos passamos para uma escola maior. Então eu comecei a ir para a escola de autocarro, o que era muito animado porque o condutor do autocarro e os rapazes que tomavam conta de nós eram muito divertidos. Chegavam ao ponto de colocar música e depois fazíamos karaoke dentro do autocarro. Eu adorava ser a última da minha paragem a entrar no autocarro e, assim, tentava sempre pedir para ocupar os lugares mais atrás, porque, nessa altura, considerava-os melhores. Durante o tempo de aulas, tanto eu como os meus amigos ficávamos sempre ansiosos que chegasse a hora de almoço, pois era o momento na escola em que tínhamos mais tempo livre para brincar. Chegávamos ao ponto de comer bastante rápido para parecer que era mais longo o tempo que tínhamos. Quando eu tinha cinco anos, decidi ir para a escola de música, onde tinha aulas de formação musical e aulas de violino, instrumento que escolhi para aprender a tocar.

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Nos anos 2014 e 2015, tinha eu onze anos, fiquei bastante nervosa durante uma audição porque tinha receio de que algo não corresse bem. Este momento foi um dos mais importantes para mim, pois não só correu bastante bem, como também ganhei o prémio “Dedicação e Interesse”, prémio atribuído ao aluno que, ao longo do ano, demonstrasse empenho, interesse e uma boa prestação nas aulas e nas audições. Uma das recordações mais tristes de que me recordo em relação à escola de música foi o facto de ela, mais tarde, ter fechado.

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Maria Miguel Leal Alves

As memórias de infância

A infância é uma das alturas mais marcantes das nossas vidas, apesar de muitas vezes só nos lembrarmos dos momentos traumáticos e os mais felizes ficarem por detrás da sombra do mal que nos aconteceu. A infância é também a altura em que começamos a pensar sobre os nossos sonhos e desejos e é a altura em que começamos a definir uma parte da nossa identidade, mesmo que seja algo que não afeta a nossa personalidade futura, é algo importante para a criança que somos. Posso dizer que tenho muitas memórias da minha infância, mas nem todas boas, uma parte delas são de momentos que são bastante traumatizantes. As melhores memórias que tenho foram passadas com a minha família e amigos, lembro-me que sempre fui uma criança muito ativa e divertida e que entrava em qualquer brincadeira que os meus amigos e primos se lembrassem. Quando andava no jardim de infância, lembro-me de que fui picada por uma abelha no pé, isto porque decidi, junto com os meus amigos, ir correr para a relva com o chafariz ligado, obviamente estava sem sapatos e a abelha decidiu picar o meu pé. O meu grupo de amigos sempre foi praticamente o mesmo desde que me lembro de ter amigos, partilhamos praticamente todos as mesmas histórias. Lembro-me como se fosse hoje dos desfiles de moda que fazia com as minhas amigas na primária, quando imitávamos o cenário inclinado e o The voice. Algo que também permanece comigo são as brincadeiras que fazia com os meus primos no café do meu padrinho, jogávamos muitas vezes às escondidas, mesmo sabendo que a minha mãe não gostava, jogávamos ao caça-caça e tentávamos jogar cartas. Algumas destas memórias vão aparecendo ao longo dos meus dias e automaticamente fico a sentir uma nostalgia incrível. Em dias de calor, lembro-me sempre de quando, no ciclo, os meus amigos me molhavam a mim e às minhas amigas com garrafas de água, quando nos dias de sol almoçávamos todos juntos ou mesmo no inverno quando passávamos os intervalos todos juntinhos a rirmo-nos e a tentar aquecer-nos. Tenho a sorte de ainda ter junto de mim praticamente todas as pessoas

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que cresceram comigo ao longos destes 18 anos, e de saber que ainda hoje posso contar com eles para o que precisar. Acredito que a infância seja uma das melhores fases da nossa vida e quando temos a sorte de a partilhar com pessoas incríveis torna-a ainda mais especial. São estas pequenas memórias que nos fazem ser quem somos e que nos fazem dar valor à nossa vida e amigos, sem elas quem seríamos nós? As memórias são uma forma de termos sempre o nosso eu pequenino próximo de nós e são também uma maneira de mantermos a nossa identidade.

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Paulo Silva

Anamnese Própria

Basta! Só já não as sinto. Ora, alma culposa fosse sem fim. Não digo que o espírito fosse em mim extinto. Lembro, só não as mais sinto.

Julgar quem não sente é julgar o surdo por não ouvir, o cego por nada ver e o mentiroso por em nada mentir.

Ainda a vejo, longe, mas vejo Recordo o soalho, as folhas, o som dos pássaros e o vento. Oh! Vil alma, que já nada mais sente. Só resta o pensamento.

Porque tua partida fez isto? Recusar que já não sinto é recusar tua ida Denegar que nada foste.

Porque permaneces? Que banzo me incutes sentir. Permaneces na tentativa de anular o imutável. O definido, o persistente e tudo aquilo que minha alma nega.

Quem afirma que tudo recorda

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nada verdadeiramente lembra. Já só resta em mim tua sombra e teu deambular entre os cornizos.

“Que rico menino, está tao alto!” Porque tudo corróis? Sendo que teu sorriso tudo curava. Apenas tenho medo de um dia te alcançar E deixar de sentir.

O voltar, entre os paralelos desorganizados Do centro do mundo, e te ver à espera. Oh! Quão afortunado fui! O tanto que iria gratular. Caso soubesse que tua ida Assim tudo deixasse.

Porque menti em dizer que nada sentia? Será ignorância? Pavor ou Angústia? Tentarei alcançar-te, tal como Ícaro o sol desejou. Só não me deixeis cair.

Cai! Sobre tudo oque lembro e sinto As memórias tornam-nos cera Quanto mais se rememora o retroativo Mais rápida ela se derrete. Oh, poder do sol! Para.

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Pedro Filipe Nunes Carneiro

As Pequenas Memórias

Os tempos remontam para um par de anos atrás onde, um menino jovem de cabelo castanho e com inúmeros sonhos por realizar, se divertia com os seus amigos a brincar com uma simples bola branca manchada pela terra trazida pelos carros quando passavam na estrada de alcatrão. Relembro todos estes momentos como se estivesse ainda presentes neles: os jogos de futebol nas quartas-feiras à tarde, depois das aulas, onde tornávamos o jogo tão competitivo que, por vezes, acabávamos por ter aquelas discussões de criança que se resolviam muito rapidamente para poder continuar aqueles momentos de diversão que todas as crianças gostam. As horas maravilhosas passadas em conjunto com os amigos a usufruir dos jogos, que os nossos pais nos tinham ensinado nomeadamente, o saltar à corda, o jogo das escondidas, entre outros jogos que faziam parecer que nada de mal nos podia acontecer, mesmo que por vezes as brincadeiras não corressem da melhor forma e saísse alguém magoado. Mas do que tenho mais saudades dos meus tempos de infância é da facilidade com que fazíamos as asneiras que todas as crianças fazem, mas que não sofrem consequências. Agora que escrevo esta frase, surge-me na memória alguns momentos em que, parecendo ainda ouvir a voz da minha mãe frustrada com a ingenuidade dos meus atos, ficava de castigo: pelas calças novas que me tinha dado na semana passada e eu tinha rasgado enquanto jogava futebol, das sapatilhas que sujavam a carpete da sala com lama por ter andado na terra do jardim da escola, bem como dos recados escritos pela professora por ter começado uma luta de pedras com os colegas de outras turmas e alguém se ter magoado. Agora, que já se passaram uns largos anos, tenho saudades desta fase da minha vida, uma

fase em que, dentro da liberdade que nos era concebida, podíamos fazer

tudo sem sofrer consequências, porque éramos crianças, sem noção do perigo e só com o objetivo de sermos felizes e de nos divertirmos com os nossos colegas brincando com

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o que tínhamos disponível na nossa infância, deixando assim, muitas memórias das brincadeiras que construíram a pessoa que sou hoje.

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Pedro Gil Pedrosa Oliveira

Viagem pelas memórias

Por ruas estreitas e degradadas, por campos agrícolas e áreas florestais, pessoas simpáticas e simples, caminhavam por uma vila no norte de Portugal, onde deixei o meu coração. Lembro-me, como se fosse ontem, do dia em que parti e nunca mais voltei. Já se passaram vários anos e as ruas onde eu brincava e os montes em que eu passeava já não existem. Aquela fantástica rua de terra e cheia de buracos, onde o João partiu a perna a jogar à bola, agora esta alcatroada e é muito movimentada. Chamam-lhe a rua principal da vila. As pessoas. Ai as pessoas! Mudaram tanto a sua personalidade, já não são o que eram. Aquelas pessoas simpáticas e simples transformaram-se completamente. Agora são tudo menos simpáticas, são arrogantes, muitas ignoram-nos, e sinto que um simples “Bom dia” tem de ser arrancado a ferros. Não conheço esta vila. A que conhecia como a palma da minha mão foi derrubada. O campo do avô Delfino, recordo-o cheio de cor, cultivado, cheio de árvores de fruto e legumes. Lembro-me de brincar na lama e no riacho que lá havia, e o que resta desse campo é só mesmo o local, pois está a ser lá agora construído um edifício. Terrinha a minha, que não conheço! O que resta dela? Só as memórias.

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Raquel Maria Teixeira Pacheco

A carta

É o início da primavera. Abro a janela da minha antiga casa para deixar o sol entrar e dar luz ao ambiente sombrio e deteriorado. Eis que me deparo com uma carta perdida no móvel velho e já esquecido e decido começar a ler o que havia escrito naquela carta, do tempo em que era feliz, na minha infância. Leio com cuidado para não desfazer o objeto frágil e já amarelado com o qual me deparava. “Brinco com a minha avó” é a primeira frase que leio. Os pensamentos daquela época começam automaticamente a florescer em todas as direções, à semelhança das flores que aguardam ansiosamente e percorrem todas as estações para aparecerem novamente. Instala-se dentro de mim uma estranha sensação de saudade, muito distante da esperança de que poderia ter sido tudo diferente. Vêm-me à memória, ainda que já de meia-idade e um pouco enferrujada, todos os episódios que passei quando era ainda um ser humano ingénuo. Lembro-me das noites à varanda com a minha avó e das festas que organizava com os meus primos nos domingos em que se reunia toda a família nesta humilde casa. Vou já a meio da carta e recordo-me do aniversário do primo André, o mais velho de todos. Estava a escurecer e toda a família evacuou a mesa de jantar, lotada, para sair e ver o pôr de sol. Admito que, com aquela idade, achei um aborrecimento ficar parada a observar esse fenómeno da natureza e preferi estar a correr e fazer palhaçada com os meus primos. “Estou muito feliz com a vida que tenho, junto daqueles de quem mais gosto” é o que leio já no fim da carta. Era realmente uma criança realizada, tinha uma família que me amava e que fazia de tudo para que eu estivesse bem. Toca então o despertador que eu havia anteriormente programado. Estava na hora de ir embora, de partir desta casa e voltar para o presente, de deixar todas as memórias guardadas neste móvel e regressar ao mundo real. Ai, como voa o tempo… E olho para mim agora e sinto falta dessa felicidade adquirida sem esforço, uma felicidade que chegava naturalmente às mãos de uma

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criança e que se desvanecia ao longo do dia com o cansaço acumulado de todas as brincadeiras. Agora o meu olhar é vazio e vaga é a minha alma, ao ver que a mesa de jantar onde se sentava toda a família está despovoada e despida de sentimento algum. E que o pôr do sol que antes não era apreciado, é agora a minha fonte de paz, tranquilidade e felicidade.

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Sabina Mendonça da Costa

Memórias da crise

Em 2008 a grande crise atingiu-nos, a minha família foi severamente afetada, recordo-me de ser pequena (tinha quatro anos) e de assistir à tristeza do meu pai, o chefe de família que não conseguia trazer dinheiro para casa, a minha mãe exausta tanto do trabalho como da vida, o meu irmão sem ter ainda a verdadeira noção do que o rodeava e eu, eu, que não entendia nada, mas sentia, sentia a tristeza e o desgaste. O meu pai, no ano seguinte, decidiu emigrar. Foi com esperança, mas revoltado por ter de o fazer, no entanto, amava-nos tanto que o fez. Entretanto, tinha eu sete quando me disseram que íamos para França ao encontro do meu pai, fui só eu e a minha mãe. Creio que então se deu a minha primeira sensação de tristeza consciente, o meu irmão e avó não foram e ainda me recordo do meu choro ao partir. Não me recordo se foram três ou quatro dias de viagem num autocarro em que os meus pais me tentaram animar e conseguiram-no. Chegamos, eu com a minha inocente felicidade e os meus pais com uma enorme esperança. Nunca me esqueci do apartamento para o qual fomos: só tinha um quarto, o meu pai dormia num colchão no chão, e havia uma cama para mim e para a minha mãe. O meu primeiro banho foi de água fria e mal entrei na banheira encontrei baratas. Os meus pais fizeram-me rir da situação, ri tanto que acabei por ter vizinhos à porta a queixaremse, e lá se foi a minha felicidade novamente. Esses dez dias foram um autêntico carrossel de emoções. Claro que nem tudo foi mau, aliás, como nada na vida pode ser apenas mau, a minha estadia em França também se encheu de momentos engraçados. Recordo-me de tantas e tantas histórias alegres e acabo por sentir que é graças a elas que aprendi uma enorme lição: a vida pode levar-nos para situações difíceis e tristes, no entanto, a felicidade depende imensamente de nós e muito pouco das situações, nunca podemos ser os nossos próprios inimigos. As saudades foram também acumulando. Eu não as sentia, aliás penso que, se fosse hoje em dia, sentiria de forma profunda, mas a minha mãe morria de saudades e eu não

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consigo contar com os dedos das mãos a quantidade de vezes que a apanhei a chorar. Decidi contar ao meu pai, que não pensou duas vezes em voltar para Portugal. Portugal era de novo a minha casa, acabamos por não juntar muito dinheiro e, entretanto, passou a ser apenas o meu pai a trabalhar fora do País. Atualmente, conseguimos dar a volta à situação e Portugal é também, de novo a casa do meu pai. Estas memórias espelham-se na minha personalidade e, apesar de me recordarem de tempos difíceis, mostram-me sobretudo as consequências de uma crise que até hoje nos assombra e nos faz diariamente conviver com a ideia de não visualizar um futuro na nossa Nação.

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Sérgio Leandro Magalhães de Brito

Pequenas Memórias

O tempo passa e nós nem damos por isso e tudo que nos resta são as eternas memórias sejam elas felizes ou até mesmo tristes. Normalmente as memórias que mais ficam presentes na nossa mente são as memórias da nossa infância, principalmente as boas. Ainda não vivi muito, mas, mesmo assim, tenho imensas memórias boas da minha infância. Lembro-me que, quando era mais pequeno, adorava ir ao parque nos dias de verão apenas para comer um gelado e ficar a olhar para os animais que lá passavam, isso fazia-me muito feliz. Eram coisas simples, mas que conseguiam pôr um sorriso no meu rosto. Por mais fútil ou insignificante que seja essa memória, sempre que me lembro dela, sinto um conforto enorme, pois lembro-me de como eram bons esses tempos que acabariam eventualmente por ter um fim. Nem todas as memórias podem ser boas, mas os meus maus momentos ficaram no passado, já os ultrapassei completamente quer tenha sido sozinho ou com ajuda, e, devido a isso, não me lembro de quase nenhum momento menos bom que tenha passado, porque foi isso mesmo que aconteceu, eles passaram e eu consegui seguir em frente. As memórias não são sempre boas, mas podem ficar para sempre connosco, servem para nos lembrarmos de momentos passados e deixar um sentimento nostálgico que, de certa forma, é reconfortante. As memórias devem ser vistas como algo bom, pois ficarão sempre connosco quer sejam de momentos felizes ou tristes.

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Sofia Barros Leal Figueira

Uma ida que se tornou uma chegada

Antigamente, eram inúmeros “adeus”. Nos dias de hoje, dizemos-te um “até já” amedrontado, com medo de reviver o passado, medo de que voltes a ir embora sem uma data de retorno marcada. Eu era inocente, uma simples criança, não percebia o que se estava a passar, porque estavas tão amigo e risonho mas com um ar esmorecido que me intrigava. Era como se aqueles momentos pudessem ser os últimos. No entanto, no dia da despedida, eu entendi qual seria a minha realidade a partir do momento em que pisasses aquele avião. Ias para longe, apenas com bilhete de ida, e o teu regresso era incerto. Lembro-me de a ouvir lacrimejar sozinha, dentro das suas quatro paredes. Recordo-me de olhar o seu rosto e ver uma falsa alegria e um olhar vazio. Dentro das minhas paredes, só queria uma solução para curar esta mágoa, a minha e a dela, uma vez que foi para longe o meu melhor amigo e o seu companheiro. Teria eu, uma menina de apenas seis anos, capacidade de resolver um problema causado pelo governo, pela corrupção política, pela crise de 2008? Pelo menos, cresci, física e psicologicamente, visto que não queria preocupar a minha mãe com coisas de criança. Não sei se consegui alcançar plenamente esse meu objetivo, mas tentei. Depois voltaste, passados anos neste sofrimento de retornos instáveis e idas melancólicas, mas voltaste.

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Livro apresentado na Cerimónia de Entrega de Prémios do Concurso de Escrita da Escola Secundária de Paredes, no dia 14 de junho de 2022.

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