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Os 3 desejos Camponesa – Oh Zeca somos mesmo pobres, vivemos aqui pobremente nesta aldeia serrana muito isolada. Camponês – Não te queixes, temos umas pequenas belgas de terra, uma casita de pedra e umas galinhas que até vivem em liberdade. Camponesa – Tens razão, as galinhas assim até nim dão mto trabalho… Camponês – Que maldito frio veio hoje à nossa terra! Até parece que tem dentes, o maldito! Sinto picadas nas pernas! (homem embrulha-se numa manta velha). Camponesa – O pior é que isto vai continuar e eu não me sinto com forças para ir buscar uns cavaquinhos para o lume e a lenha está mesmo a acabar. Que pena não estarmos no tempo das fadas e conhecer uma que fosse tão boa, que, com as suas magias, me fizesse quanto eu lhe pedisse! Camponês – O que é que tu lhe pedirias, mulher? Camponesa – Eu sei lá! Precisava de tanta coisa!... Camponês – E eu também. Achas que ela vai aparecer por aqui… Camponesa – Ó homem, mas tu duvidas das fadas? Ainda há pouco a nossa comadre me disse que lhe apareceu uma, quando ia lavar a roupa ao rio. Camponês – Isso deve ser andança de bruxa, pois, como bem sabes, o caminho é de encruzilhada. Camponesa – Ò Zeca, deita aí uns gravetos no lume que se está a apagar e depois lá ficamos sem sopa esta noite. Camponês – Também não se perdia muito…Um caldo destes só com um pouco de unto e umas reles couves não abre o apetite a ninguém. Camponesa – Ah! Se a fada aparecesse aqui, pedia-lhe um pouco de toucinho… Fada – Quereis então conhecer uma Fada? Pois, aqui me têm. Eu sou uma delas e venho-vos ajudar. Que quereis, boa gente? Ouvi a vossa conversa e achei que podia satisfazer alguns dos vossos desejos, mas o meu poder não vai além dos três dons. Escolhei pois o que quiserdes que vos faça. (desapareceu) Camponesa – Cá por mim, se me deixasses pedir, sei muito bem o que queria, pois me pareceu que não há anda tão bom como ter beleza e riqueza. Camponês – Ora essa! Para que serve isso, se a gente estiver doente, triste e morrer cedo? No meu entender, acho melhor desejar saúde, alegria e uma longa vida.
Camponesa – Lá isso é verdade!...A fada fez muito mal em só nos dar três coisas. Devia conceder-nos, ao menos doze, para podermos ficar satisfeitos. Camponês – Olha, mulher, vamos pensar melhor…Vê lá se o caldo já está cozido! Camponesa – Que belas brasas! Quem me dera aqui um chouriço que bem o assávamos e comíamos com gosto. (Dito isto caí um chouriço pela chaminé). Camponês – Forte parva! Ó mulher, pois tu não tinhas nada melhor a pedir do que esses simples chouriço? Agora por causa dessa tua parvoíce, só podemos pedir mais duas coisas… Camponesa – Ó Zeca, toma lá tento nessa cabeça e no que estás aí a praguejar…Então, ainda há poucochinho, me dizias que o caldo era uma pouca de água e que, se tivesse mais gordura, se comeria melhor e agora estás aí a chatear-me… Camponês – Grande gulosa! És mesmo uma sonsa. Com isto, já fizeste com que se perdesse um dom! Era bem feito que o chouriço se fosse pendurar no teu nariz, por castigo. Camponesa – Ai a minha vida! Ai o meu rico narizinho! Santo António me acuda!... Camponês – Mas eu vou pedir para ser muito rico e depois mando-te fazer uma caixinha de oiro para lá o guardares. Verás que, lá pelo São João, não haverá moça que te ganhe no arraial. Camponesa – nada, não quero! Ou desejas que fique como era, ou então prefiro morrer…Então, havia de ficar assim toda a vida, eu que nasci sãzinha que nem um pêro! Não, não e não! Quero isto fora do meu nariz! Camponês – É uma pena! Vê lá…Não percas casamento! Maldita vaidade…Com penduricalho no nariz, ou sem ele, não passas de uma velha. Camponesa – Ó minha rica santinha! Por alma dos que lá tem, pela luz dos meus olhos, tiremme esta pendura que tanta impressão me faz! (chouriço desaparece) Camponês – Olha, mulher, eu desconfio que a fada esteve a fazer mangação connosco. Mas deixa lá, talvez tenhas razão! Quem sabe se seríamos felizes, escolhendo mais coisas!...Temos a graça de vivermos, até hoje em paz e com saúde. Olha que são dois grandes bens que muitos ricos não têm!