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REVISTA ENCARTADA NO JORNAL O LIBERAL. NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE.

JULHO 2012 EDIÇÃO Nº 11 ANO I ISSN 2237-2962

REALIZAÇÃO

PATROCÍNIO

JUNHO 2012

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JULHO 2012 EDIÇÃO Nº 11 ANO I

16 Nos beijos de O pequeno pássaro que habita a Amazônia encanta pela sua beleza e voo agitado na floresta

23 O criador

O arqueólogo Domingos Ferreira Pena idealizou e fundou o famoso Museu Paraense, no século XIX

56 Vamos dar

INOCÊNCIO GORAYEB

de museu

HELY PAMPLONA

um beija-flor

um passeio?

A pacata e rústica ilha de Algodoal vai receber visitantes de vários lugares nestas férias. Consciência ambiental não pode faltar na bagagem.

Com o maior OSWALDO FORTE / O LIBERAL

IGOR MOTA / ARQUIVO O LIBERAL

destaque

A região amazônica apresenta números superlativos em relação ao planeta Página 24

HELY PAMPLONA

Hora de brincar

Saiba mais sobre a planta ninfeia vermelha na seção Coisas de Criança. Página 65.

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JULHO 2012

Beija-flor-de-garganta-azul (Chlorostilbon notatus) Foto de Hely Pamplona


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Para ver o arrastão passar

TARSO SARRAF

Arraial do Pavulagem reúne uma comunidade de desconhecidos em torno da cultura popular

60 Sem medo

46

Longa guinada à arborização

Com os 40 anos do livro “Visagens e Assombrações de Belém”, o escritor Walcyr Monteiro faz parte da história

HELY PAMPLONA

GUGA PIMENTEL

de cara feia

Um projeto de plantar árvores na capital paraense promete mudar a cara da cidade radicalmente JULHO 2012

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A Amazônia que somos

A

o prepararmos esta edição, sentimos a necessidade de falar sobre a magnitude da Amazônia, de sua importância para o mundo e por que ela se destaca em números em relação a outras regiões do planeta. Mesmo fora do documento final da Rio+20, “O futuro que queremos”, não devemos abandonar a bandeira que sempre levantamos, de que a Amazônia, por sua grandeza e particularidades, é indispensável para o futuro do nosso planeta. Precisamos continuar fazendo a nossa parte. Em nossa reportagem principal, listamos dez particularidades da região que fazem da Amazônia ser especialmente exclusiva. Pois, de detentores do maior rio do mundo a maior província mineral da Terra, somos grandes por natureza. Vez em quando é comum progra-

mas de reportagens de televisão apresentarem ao telespectador “uma descoberta inédita na Amazônia”. O que vamos mostrar aqui são conceitos e informações que muitas vezes já “se ouve falar” sobre a região, mas que podem passar como mitos ou autopromoção dos defensores da Amazônia. Então, buscamos confirmar aos leitores, através de números e informações abalizadas por institutos de peso internacional, que a região é superlativa e importante para o planeta. E lembramos que mesmo não tendo seu devido reconhecimento na conferência mundial sobre desenvolvimento sustentável promovida no Rio de Janeiro, há muito tempo deixou de ser vista como o “pulmão do mundo”. Aliás, temos muito mais fôlego a dar ao futuro que queremos para a Terra.

PUBLICAÇÃO MENSAL DA DELTA PUBLICIDADE - RM GRAPH EDITORA JULHO 2012 / EDIÇÃO Nº 11 ANO I ISSN 2237-2962

Presidente LUCIDÉA BATISTA MAIORANA Presidente Executivo ROMULO MAIORANA JR. Diretor Jurídico RONALDO MAIORANA Diretora Administrativa ROSÂNGELA MAIORANA KZAN Diretora Comercial ROSEMARY MAIORANA Diretor Industrial JOÃO POJUCAM DE MORAES FILHO Diretor Corporativo de Jornalismo WALMIR BOTELHO D’OLIVEIRA Diretor de Novos Negócios RIBAMAR GOMES Diretor de Marketing GUARANY JÚNIOR Diretores JOSÉ EDSON SALAME JOSÉ LUIZ SÁ PEREIRA Conselho editorial RONALDO MAIORANA JOÃO POJUCAM DE MORAES FILHO WALMIR BOTELHO D’OLIVEIRA GUARANY JÚNIOR REDAÇÃO

Grandeza

Na Amazônia, entre outras peculiaridades, a bacia hidrográfica é a maior do mundo

FELIPE MELO editor chefe

Coordenador e editor chefe FELIPE MELO (SRT-PA 1769) Pesquisador e consultor técnico INOCÊNCIO GORAYEB

WARNER. TELEVISION

Colaboraram para esta edição O Liberal, Vale, Agência Pará, Agência Brasil, Museu Paraense Emílio Goeldi, Embrapa, Grupo Marenteza, Movimento Pró-Pirá (acervo); Filipe Sanches (edição de arte); Oswaldo Forte, Igor Mota, Paula Sampaio, Hely Pamplona, Tarso Sarraf, Henrique Felício (fotos); Alexsandro Santos (tratamento de imagem). AMAZÔNIA VIVA é editada por RM Graph Ltda. CNPJ (MF) 03.547.690/0001-91. Nire: 15.2.007.1152-3 Inscrição estadual: 158.028-9 Avenida Romulo Maiorana, 2473, Marco - Belém - Pará. Email: amazoniaviva@orm.com.br Impressão

REVISTA IMPRESSA COM O PAPEL CERTIFICADO PELO FSC - FOREST STEWARDSHIP COUNCIL

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O QUE É NOTÍCIA PARA A AMAZÔNIA

FOTOS: TARSO SARRAF

Consciência ecológica está dando a maior onda na Amazônia As águas tranquilas do rio Guamá, em Belém, tiveram um dia de agitação com o evento “Amazônia Wake Surf” (fotos) em junho. Cerca de 30 surfistas de todo o país se reuniram em frente à Estação das Docas para disputar esportes radicais aquáticos nas modalidades wakesurf, wakeboard, kitesurf, skysurf e jet ski. O evento foi promovido pela Associação Brasileira de Surf na Pororoca (Abraspo) e realizado no Dia Mundial de Limpeza dos Rios, tendo também como objetivo a conscientização ecológica dos participantes e do público, chamando a atenção para a poluição das águas da Amazônia. JULHO 2012

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HENRIQUE FELÍCIO / O LIBERAL

FOTOS: DIVULGAÇÃO / CLEAN UP DAY

Ruas de água

Governo federal vai liberar R$ 350 milhões para ajudar Trabalho as vítimas conjunto das enchentes Cerca de 200 voluntários que praticam canoagem recolheram 1,5 tonelada de lixo das águas do Maguari

CLEAN UP DAY

Lixo é recolhido no rio Maguari por canoístas O rio Maguari agora tem cerca de uma tonelada e meia de lixo a menos, graças ao Clean Up Day Belém, realizado no dia 17 de junho. A ideia foi chamar a atenção da sociedade para as condições em que se encontram os rios que cercam a Região Metropolitana de Belém. Duzentas pessoas remaram pelo rio Maguari, munidas de luvas e sacos plásticos, recolhendo o material que foi enviado ao Projeto Seletiva para ser triado e reciclado. A ação foi uma prévia da mobilização mundial, que acontece no terceiro fim de semana de setembro.

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ESTÍMULO

PIB VERDE

Para atingir o ideal de sustentabilidade, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, defende “um corte mais agressivo de impostos para quem utilizar recursos naturais de maneira eficiente”. A medida faria parte de um melhor tratamento tributário, necessário para que o País e a indústria alcancem metas de desenvolvimento sustentável. Segundo Andrade, alterações em rotas tecnológicas e altos investimentos industriais são demandas de um crescimento sustentável.

Um novo indicador de sustentabilidade está sendo preparado pelo governo brasileiro. O índice seria um complemento ao Produto Interno Bruto (PIB) e possibilitaria saber quanto do capital ambiental do país foi usado para produzir riquezas. Quantitativos referentes às águas, florestas e energia entrariam na “conta ambiental”, que ajudaria a dirigir as políticas públicas, segundo a presidente do IBGE, Wasmália Bivar. A ideia é construir um modelo internacional que leve em conta o capital natural de cada país.

Redução de impostos para quem cuidar mais da natureza

Governo federal cria indicador econômico de sustentabilidade


HUMOR

Cartuns ecológicos ganham exposição em setembro

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Para rir e pensar

Salão internacional de humor levanta questões sobre a biodiversidade amazônica

LIVRO

Catálogo apresenta animais da Floresta Nacional de Carajás O livro “Fauna da Floresta Nacional de Carajás – Estudos sobre os vertebrados terrestres”, lançado no mês de junho em Parauapebas, reúne os dados dos estudos de fauna realizados na Floresta Nacional de Carajás (Flona). A obra é resultado de uma parceria entre a Vale e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). No total, 945 espécies, entre elas a arara vermelha (à esquerda), estão catalogadas na obra. Frederico Drumond, analista ambiental do ICMBio e chefe da Flona, espera que o livro contribua para a gestão e proteção da área.

Como surgiu a ideia de incentivar a instalação de bibliotecas em hotéis?

Na falta de políticas públicas que promovam a leitura, nós temos que fazer a nossa parte. Precisamos deixar os livros ao alcance dos outros. Todo leitor se preocupa em formar mais leitores. Em 2008, fiquei hospedado em um hotel que alugava filmes para os hóspedes e perguntei “Por que não emprestar livros?”. Os donos aceitaram a sugestão.

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Criar um acervo de livros pode parecer fácil. Então, como colocar a ideia em prática?

Através da colaboração entre amigos é possível multiplicar os espaços de leitura. Mesmo que não tenha como coletar livros entre os conhecidos, dá para oferecer gibis e revistas. O importante é cultivar a leitura, tornando-a um hábito prazeroso. É o primeiro passo para a formação de uma consciência crítica.

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Quais os benefícios que um leitor consciente pode trazer para a preservação ambiental?

A leitura humaniza e ajuda a desenvolver gestos concretos de amor e cuidado. Ela também gera um maior respeito pelas pessoas, animais e plantas. Além disso, o leitor crítico entende que precisa incentivar a cultura e o conhecimento para que as gerações futuras entendam a importância da questão ambiental.

O sábio Salomão O escritor e jornalista Salomão Laredo incentiva a leitura em hotéis

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FERNANDO ARAÚJO

HELY PAMPLONA

Salomão Laredo é um apaixonado pela leitura. Com quase 50 livros publicados, ele é membro da Academia Paraense de Letras. O escritor, ao acreditar que a leitura é a chave para uma sociedade melhor, incentiva proprietários de hotéis a disponibilizarem livros para seus hóspedes.

DIVULGAÇÃO

“Ecologia no traço” é o tema do IV Salão Internacional de Humor da Amazônia, que vai acontecer paralelamente à XVI Feira Pan-Amazônica do Livro, no período de 21 a 30 de setembro. O coordenador do evento, Biratan Porto, conta que o “árduo trabalho” de selecionar as 140 obras que serão expostas já começou. A mostra de humor terá quatro exposições: Cartum Ecológico, Caricatura, Tema Livre e Humor nas Entrelinhas, que fará alusão a alguns autores e livros. O filósofo paraense Benedito Nunes será o homenageado desta edição. A presença de renomados cartunistas como o colombiano Turcios e o peruano Karry está confirmada, além dos brasileiros Paulo Caruso e Gualberto Costa. Os artistas selecionados disputam R$ 16 mil em prêmios e os visitantes poderão participar de palestras e debates.

TRÊS QUESTÕES


TECNOLOGIA

Estrada de ferro ganha melhorias na manutenção

UNIÃO

CONSCIÊNCIA

Novas terras para indígenas do Norte

Cidades deixam lista de desmatamento

Sete novas terras indígenas foram homologadas pelo governo na região Norte. Cinco ficam no Amazonas, uma no Pará e uma no Acre. A terra do povo Xipaya fica em Altamira (PA), com uma área de 178,7 mil hectares. Também foi instituída a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). É a primeira política nacional unificada para orientar ações referentes à questão indígena.

As cidades de Alta Floresta (MT) e Santana do Araguaia (PA) deixaram a lista dos maiores desmatadores da floresta amazônica. Os municípios estavam desde 2008 na relação de cidades prioritárias às ações de controle e desmatamento pelo governo federal. Agora, podem receber uma série de vantagens, como abertura para incentivos econômicos e fiscais. Entre os requisitos que cumpriram para sair da “lista negra” está a cobertura de 80% das propriedades com o Cadastro Ambiental Rural.

EM 23 ANOS

Amazônia tem menor índice de devastação

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PRÓ-PIRÁ

Municípios paraenses abordam preservação Cerca de 1,5 mil pessoas compareceram aos dois dias de evento do 6º Festival Pró-Ambiente de Inhangapi (PA). A programação contou com exposição de plantas medicinais, concurso de jardinagem, campanha de limpeza do rio Inhangapi e outras atividades. O ponto alto do evento foi a confraternização e troca de ideias entre estudantes de municípios vizinhos durante as discussões sobre meio ambiente. O festival faz parte do programa Pró-Pirá e teve como tema “Preservação ambiental: desafio mundial”.

Comunidade

Em Inhangapi, população participa de atividades em favor do meio ambiente

DIVULGAÇÃO / PROPIRÁ

Entre agosto de 2010 e julho de 2011, a Amazônia Legal apresentou o menor índice de desmatamento dos últimos 23 anos. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), neste período, a região teve 6.418 km² de floresta desmatada. Houve uma redução de 8% em relação ao mesmo período entre 2009 e 2010.

ARQUIVO VALE

Olha o trem - Material reciclado está sendo usado na Estrada de Ferro de Carajás

A manutenção das vias da Estrada de Ferro Carajás ganhou um reforço: a PN Sustentável, que garante sustentabilidade, mais segurança e redução nos custos. A nova passagem em nível (PN) é feita com sucata de correia transportadora e requer menos manutenção que as tradicionais em madeira. O município de Parauapebas (PA) foi o primeiro a receber a substituição. Segundo a supervisão de Infraestrutura da EFC, os maquinistas que trafegam no local aprovaram o conforto e a segurança.


DANIEL BELTRA / GREENPEACE / ARQUIVO O LIBERAL

DAQUI A 100 ANOS

Mudanças climáticas anunciam período de longa seca na região A temperatura na Amazônia deve aumentar de 5ºC a 6ºC até o fim do século, de acordo com o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC). No mesmo período, está prevista uma diminuição de 40% a 45% das chuvas na região. Estas transformações podem gerar “mudanças drásticas” no ciclo hidrológico, provocando uma seca mais longa, até a chamada “savanização” da parte leste da floresta amazônica. O estudo, divulgado durante a Rio+20, destaca o “inegável sucesso” brasileiro na recente redução da área desmatada na Amazônia. O documento também chama a atenção para o fato de que a área desmatada continuará diminuindo até que o Brasil atinja as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa assumidas oficialmente.

Secura - Variações meteorológicas já foram sentidas em Santarém (PA), em 2005 MUNDO

MEIO AMBIENTE

O Brasil tem o quinto maior crescimento sustentável anual per capita do mundo, segundo o Índice de Riqueza Inclusiva (IRI). O indicador reúne dados relacionados aos recursos florestais, produção industrial, educação e expectativa de vida. A ferramenta foi desenvolvida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O objetivo é incentivar a sustentabilidade dos governos. O relatório analisou de 1990 a 2008 e mostrou o Brasil atrás de países como China e Alemanha, mas à frente do Canadá e Estados Unidos.

O governo federal vai lançar o programa Brasil Sustentável, que destinará R$ 2 bilhões para projetos de inovação tecnológica com perfil social e ambiental. Uma das linhas de crédito do novo programa vai atender ao estudo e produção de ônibus híbridos, para o transporte de passageiros. O programa funcionará no âmbito da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A ideia é estimular o desenvolvimento de produtos que consumam menos energia e que não agridam o ambiente.

Brasil está entre os dez países mais sustentáveis

Governo federal incentiva projetos de inovação tecnológica

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PECUÁRIA VERDE

Pará divulga bom exemplo agropecuário na Rio+20

EU DISSE

“Modelo sustentável é usar com sabedoria recursos de milhares de anos. Temos de ser persistentes. O ser humano tem a capacidade incrível de acreditar criando, não de forma ingênua, como num pensamento mágico, mas criando o futuro que queremos.”

O produtor rural e diretor executivo do projeto Pecuária Verde, Mauro Costa, apresentou a iniciativa paraense como um das principais propostas de um evento promovido na Rio+20 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Intitulada “Agropecuária e Sustentabilidade: exemplos de sucesso”, a mesa buscou discutir alternativas econômicas verdes para o setor nos próximos 20 anos. Desenvolvido pelo Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, com o apoio do Fundo Vale e da empresa Dow AgroSciences, o trabalho já é considerado um modelo de sucesso no setor de produção bovina e tem sido realizado por meio de seis fazendas modelos, selecionadas para mostrar que as boas práticas nas relações trabalhistas, ambientais e no manejo racional do gado podem contribuir para tornar ultrapassada a visão da pecuária como sinônimo de desmatamento, maus tratos com animais e trabalho ilegal.

PROTEÇÃO

Estado promete zerar o desmatamento no Pará a partir de 2020

Países discutem o manejo ambiental dos oceanos

O governador do Pará, Simão Jatene, firmou o compromisso de zerar o desmatamento no Estado a partir de 2020. O objetivo é que até lá, a cada árvore derrubada, uma nova seja plantada. “A partir de 2020, qualquer desmatamento terá de ser obrigatoriamente compensado com a restauração do que foi derrubado em alguma outra área já alterada”, explicou. Medidas como aumento na fiscalização e monitoramento da Amazônia, criação de áreas protegidas e incentivos para a economia de base florestal ajudarão a atingir a meta.

Uma aliança global para preservação dos oceanos, lançada durante a Rio+20 reúniu países, empresas privadas e ONGs, totalizando 83 assinaturas. O Banco Mundial deverá investir US$ 1,2 bilhão em projetos de proteção e recuperação das águas marítimas. A declaração tem o apoio de 13 nações, mas sem a participação do Brasil. O documento dá ênfase a ações como a promoção da pesca sustentável, proteção de ambientes críticos (que estejam perdendo biodiversidade) e redução da poluição marinha.

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AGÊNCIA BRASIL

COMPROMISSO

JAIME SOUZA / IMAGEM PECUÁRIA VERDE

Iniciativa - Mauro Costa dirige o programa “Pecuária Verde” no Estado

MARINA SILVA, ex-ministra do Meio Ambiente, ao explicar que aplicar a sustentabilidade também requer mudanças de comportamento social

EFEITO ESTUFA

Especialistas estudam a redução de gases Uma metodologia capaz de medir as emissões de gases do efeito estufa está sendo elaborada por pesquisadores nacionais e internacionais. A previsão é que em dois anos, os agropecuaristas possam usar a tecnologia, segundo o World Resources Institute (WRI). Para ele, o controle das emissões ajudará o Brasil a diminuir o impacto ambiental, identificando novas oportunidades de crescimento econômico e de corte de custos.


Disfarçado de caranguejo Jussara Moretto e Dalila Costa Silva

E

sse animal, na foto ao lado, muito parecido com um caranguejo, vive em praticamente toda a região costeira mundial e não passa de 18mm de comprimento máximo do cefalotórax (a parte do corpo do animal que agrupa a cabeça e o tórax) sem considerar as “patas”. Ele é menor que uma moeda de R$ 1. E por que ele não é um caranguejo verdadeiro? Diferentemente do caranguejo-uçá, aquele comido no toc-toc, o último par de patas dessa espécie não é bem desenvolvido, o que o torna parente mais próximo de um ermitão, aquele crustáceo que vive em uma concha. Centenas deles podem ser vistos na região costeira amazônica, principalmente embaixo de fragmentos rochosos, que é um local que propicia abrigo e proteção contra seus maiores predadores, os peixes, que vêm junto com as marés cheias para alimentarem-se desse banquete. Existem muitas espécies deste grupo de crustáceos que são chamados de porcelanídeos porque sua carapaça assemelhase a uma porcelana, não sendo tão rígida quanto a de um caranguejo ou siri. Em uma pesquisa recente efetuada no estuário de Marapanim, litoral nordeste do Pará, foram estimados mais de 1,4 mil porcelanídeos por metro quadrado, um número superior ao encontrado em outras regiões do Brasil e do mundo. Este porcelanídeo se

REFERÊNCIAS: - OLIVEIRA, D.B. Variação mensal da densidade das larvas de Anomura Macleay, 1838, Axiidea Saint Laurent, 1979 e Gebiidea Saint Laurent, 1979 (Crustacea, Decapoda) em um estuário amazônico (Pará, Brasil), com descrição dos primeiros estágios larvais de Upogebia vasquezi Ngoc-Ho, 1989 obtidos em laboratório. - Dissertação de Mestrado (Ecologia Aquática e Pesca). Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências Biológicas,

reproduz durante o ano inteiro no estuário de Marapanim, sendo a reprodução mais intensa em agosto (período menos chuvoso) e junho (transição do período chuvoso para o menos chuvoso). O período chuvoso é importante para a captura dos porcelanídeos jovens. Foi verificado que a salinidade é o fator que determina a distribuição desse organismo tanto na fase larval quanto adulta, e que eles vivem em média de dois a três anos. Essa espécie da foto se mantém no estuário durante todo o seu ciclo de vida que envolve estágios larvais planctônicos, ou seja, as larvas eclodem do ovo que a fêmea carrega em seu abdome e passam a viver na coluna d’água até que estejam prontas para retornar ao assoalho bentônico (praia, afloramentos

Longe do toc-toc

Crustáceo que se parece com um caranguejo. Habita o estuário de Marapanim (PA)

rochosos etc) e continuar a crescer e se tornarem adultos. Isso significa que o estuário é muito importante para a conservação desse crustáceo, assim como para outros organismos aquáticos, a exemplo de siris, ermitões, caranguejos e peixes. *As autoras são pesquisadoras do Laboratório de Biologia Pesqueira e Manejo dos Recursos Aquáticos e do Grupo de Pesquisa em Ecologia de Crustáceos da Amazônia (GPECA)

Belém-Pará. 2010. 128p. SILVA, D.C. Dinâmica populacional e distribuição espacial de Petrolisthes armatus - (GIBBES, 1850) (Crustacea; Porcellanidae) do estuário de Marapanim, litoral amazônico. Dissertação de Mestrado (Ecologia Aquática e Pesca). Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências Biológicas, Belém-Pará. 2011. 82p.

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ARQUIVO VALE

RIO +20 Parabéns à Revista Amazônia Viva que em seu último número trouxe à tona os meandros da Rio+20 com um olhar amazônico (“Chegou a era da economia verde”, Assunto do Mês, edição nº 10, junho 2012). É importante sabermos que os assuntos tratados na megarreunião dos senhores engravatados e de olhos azuis respingam em nossa região. Precisamos estar cada vez mais atentos. Miroslav Batista Belém-Pará

Vemos o mundo discutindo o futuro do planeta nessa Rio+20, mas me pergunto se essa conferência global vai dar em alguma coisa. À época da Eco 92, eu morava no Rio de Janeiro e tinha 17 anos. Via o agito da cidade, mas, na verdade, nós, estudantes, estávamos muito mais preocupados com a consolidação do movimento dos caras-pintadas, muito importante para o impeachment do presidente Collor. De

lá para cá, vi mudanças sérias na política brasileira, mas poucos avanços no quesito sustentabilidade. Enfim, surge uma nova esperança com a Rio+20. Maria Júlia Machado Belém-Pará

Parabéns à edição bem planejada sobre a Rio+20. Mas senti falta de informações sobre o evento paralelo que acontece aqui mesmo em nossa região, a “Xingu+23”. Este evento em Altamira é importantíssimo para a discussão sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte em nossa região. Cinira Fernandes Santarém-Pará

Sou estudante de jornalismo e confesso que nunca havia escutado falar sobre a “Economia Azul”, sobre a gestão de águas no planeta. Por isso, sugiro à Revista Amazônia Viva que aprofunde mais o tema, em uma edição especial sobre o assunto, já que somos grandes detentores dessa riqueza natural. Uma reportagem desse porte será de grande valor para a classe acadêmica da Amazônia. Viviane Alencastro Castanhal-Pará

GLOBAL

A edição nº 10 da Revista Amazônia Viva apresentou a Rio+20 aos amazônidas

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Boa ação

A soltura de tartarugas e tracajás nas praias de Marabá e Itupiranga, ambas no Pará, são alternativas para a preservação de espécies

QUELÔNIOS Atitudes como a soltura de quelônios na natureza são de grande valor para a biodiversidade do planeta. Na reportagem “De volta para casa” (Comportamento Sustentável, edição nº 10, junho 2012), vemos o quão importante é a relação de parceria entre o setor privado e a comunidade na preservação das espécies. Rafaela Baldin Castanhal-Pará

Projetos de educação ambiental, como o de incentivar a comunidade a preservar tartarugas e tracajás na Amazônia, são muito importantes para a preservação da nossa fauna aquática. Empresas como a Vale poderiam estimular cada vez mais a população nessa questão. Carlos Lourenço de Mattos Belém-Pará


SHIRLEY PENAFORTE

REPRODUÇÃO

Túnel do tempo

O leitor Caíto Lanhoso Martins elogiou a foto de Hely Pamplona sobre

Cinema - O crítico Pedro Veriano lembrou os bons tempos do Cine Olympia (no detalhe)

SÉTIMA ARTE Moro em São Paulo, capital, e fiquei emocionada ao ler a reportagem sobre o Cine Olympia (“Vida de Cinema”, Um Dedo de Prosa, edição nº 10, junho 2012). A matéria me trouxe de volta as lembranças da infância, quando cinema era programa de família aos domingos. É uma pena que os cinemas antigos e de rua estão quase extintos hoje. Mas, aos 73 anos, sei que aqueles momentos de infância foram muito importantes para minha formação familiar.

Sou fã do crítico de cinema Pedro Veriano e adorei vê-lo nas páginas da Revista Amazônia Viva. Foi uma homenagem à altura desse grande mestre que muito bem sabe que “a felicidade não se compra”, mas se faz de hábitos de sabedoria, como cultivar o gosto pelo cinema. Parabéns. Jorge Moraes Belém-Pará

VIGIA Bela lembrança à histórica Igreja de Pedra, localizada no município de Vigia de Nazaré, no nordeste paraense (“Unidade feita pedra por pedra”, Vida em Comunidade, edição nº 10, junho 2012). Essa igreja representa muito para a vida de nós, vigienses. Gumercindo do Carmo Vigia-Pará

Geraldine Ribeiro São Paulo-São Paulo

Não acredito no potencial da Amazônia para o cinema. Para mim, infelizmente, a região vai continuar sendo vista, ainda por longos anos, como um lugar onde se pode filmar floresta, bicho exóticos e índios seminus equiparados a homens da caverna. Airton Simões Belém-Pará IGOR MOTA / ARQUIVO O LIBERAL

Cartão-postal

A Igreja de Pedra, em Vigia, é uma das sete maravilhas do Pará

CARTAS PARA A REVISTA AMAZÔNIA VIVA

Para se corresponder com a redação da Revista Amazônia Viva envie comentários, dúvidas, críticas e sugestões para o email: amazoniaviva@orm.com.br ou escreva para o endereço: Avenida Romulo Maiorana, 2473, Marco, Belém - Pará, CEP 66 093-000 ou FAX: 3216-1143. JULHO 2012

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O balé do beija-flor Inocêncio Gorayeb

Hely Pamplona

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onos de uma beleza frágil e de voo coreografado com raro bater das asas – numa velocidade de cerca de 90 batidas por segundo, os beija-flores são também conhecidos como colibri, cuitelo, chupa-flor, binga e guanambi. São da ordem Apodiformes, que inclui apenas a família Trochilidae em seus 108 gêneros. Existem 322 espécies conhecidas. A maior biodiversidade do grupo encontra-se no Brasil e no Equador, que contam com cerca de metade das espécies conhecidas. O grupo é originário das Américas e ocorre desde o Alasca à Terra do Fogo. A maioria das espécies é tropical e subtropical. As características principais do beija-flor são o bico alongado, a alimentação à base de néctar, plumagem iridescente (que se reflete com várias cores) e uma língua extensível e bifurcada. É

uma ave de pequeno porte, que mede em média de seis a doze centímetros de comprimento e que pesa de duas a seis gramas. Como a maioria das aves, o sentido do olfato não está muito desenvolvido nos beija-flores; a visão, no entanto, é muito apurada. Uma característica menos perceptível é o sono do beija-flor. Ao escurecer, ele pousa num galho fino onde possa ficar agarrado por seus pés pequeninos. Para descansar tranquilo, começa um ritual que visa economizar energia. Diminui gradativamente a temperatura corporal, dos 40 graus a algo próximo à do ambiente. Se atingir 15,6 graus, por exemplo, gasta cerca de 50 a 60 vezes menos energia. Uma redução como essa, de mais de 50%, seria fatal para o homem. O coração desacelera a 36 batidas por minuto. O sono profundo o torna presa fácil de corujas, gambás e serpentes.

BEIJA-FLOR-PRETO Anthracothotax nigricollis (Vieillot) 1817. Essa espécie também se alimenta de pequenos mosquitos. Ela voa alto. Um ninho foi encontrado a 15 metros de altura em uma árvore sem folhas.

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BEIJA-FLOR-DE-GARGANTA-VERDE Amazilia fimbriata (Gmelin) 1788. É a espécie de beija-flor médio mais encontrada nos ambientes abertos e bordas de matas. Adapta-se a ambientes urbanos.

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BESOURINHO-DA-MATA Phaethornis ruber (L.) Também conhecido como “rabo-branco-rubro”. Oniki (1970) observou que essa espécie vive no estrato inferior das florestas úmidas e áreas abertas. Ocorre das Guianas e Venezuela a Bolívia e Brasil até a região de São Paulo.

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BALANÇA-RABO-DEBICO-TORTO Glaucishir sutus (Gmelin)1788 É comum em árvores de jucá e hibisco. Ninhos foram encontrados em folíolos de palmeiras (mais frequentes em açaizeiros). Ocorre do Panamá a Bolívia e em quase todo o Brasil.

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BEIJA-FLOR-DE-GARGANTA-AZUL Chlorostilbon notatus (Reichenbach) 1795 É muito avistado em ingazeiros em flor. Ocorre na Amazônia e na faixa atlântica do Brasil oriental, desde o nordeste até São Paulo.

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BALANÇA-RABO-DE-BICO-TORTO Glaucis hirsutus (Gmelin) 1788

A revista Amazônia Viva abre espaço para publicação de fotos com temáticas amazônicas na seção “Olhares Nativos”. Entre em contato e saiba como participar.

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amazoniaviva@orm.com.br Av. Romulo Maiorana, 2473, Marco, Belém - Pará CEP 66 093-000


O fundador do Museu Paraense Como secretário da província do Grão-Pará, em pleno Brasil Imperial, o arqueólogo mineiro Domingos Soares Ferreira Pena criou na Amazônia um dos institutos de pesquisa científica de maior referência do Brasil e do mundo. Ferreira Pena foi incumbido de executar uma missão reservada do governo no médio Amazonas para criar, em 1867, a comarca de Óbidos. No mesmo período estudou dados geográficos, históricos e estatísticos da comarca de Santarém, publicados pelo governo no documento “A Região Ocidental da Província do Pará”. Foi diretor da Biblioteca Pública do Estado. Em 1882 foi diretor do Museu Paraense, período quando denunciou os saques aos sítios arqueológicos que levaram material científico para outros estados e países. Ocupou cargos e funções públicas além de várias comissões do governo. Foi membro destacado do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Mas, por que, o Museu Paraense faz referência a Emílio Goeldi e não a Ferreira Pena,

que foi seu idealizador e fundador? O naturalista suíço Emílio Goeldi chegou a Belém em 1893 a convite do então governador do Pará Lauro Sodré. O zoólogo imprimiu ao museu um crescimento radical nos primeiros cinco anos de sua gestão pós-Ferreira Pena, que durou 13 anos. A fama da instituição correu o mundo. Ao investir altos recursos financeiros, o governo do Pará “recriou” o Museu Paraense como um novo museu. Seu fundador foi sendo esquecido na história. Ferreira Pena morreu pobre em 1888 e foi sepultado em cova simples e seus restos se perderam com o tempo. Mas, por apelo do escritor obidense José Veríssimo, em 1894 foi construído um monumento com o busto do idealizador do museu e que se encontra instalado no Parque Zoobotânico Emílio Goeldi desde 1908.

Domingos Soares Ferreira Pena (1818-1888)

JOCELYN ALENCAR

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omingos Soares Ferreira Pena nasceu no antigo distrito de Oliveira, município de Mariana, em Minas Gerais. Em 1885, já com 40 anos, saiu do Rio de Janeiro para Belém, convidado pelo tenentecoronel Frias e Vasconcelos, recém nomeado presidente da província do Pará, para servir como secretário de seu governo. Com boa conduta, autodidata, inteligente, interessado em história e geografia, tornouse um autêntico cientista pesquisador das coisas que diziam respeito ao homem préhistórico americano, dos eventos históricos, da natureza amazônica, desde geografia à história natural. Desenvolveu estudos sobre geografia física, geomorfologia, geologia, geografia econômica do Pará e da Amazônia. Foi arqueólogo pioneiro na região, etnógrafo e historiador. Atuou como professor, jornalista e naturalista viajante do Museu Nacional do Rio de Janeiro na Amazônia por muitos anos. A decisão de Ferreira Pena de fundar um museu paraense foi acelerada com a estada em Belém do célebre naturalista suíço Louis Agassiz, em 1866. Com isso, foi instalada a Associação Filomática como núcleo do futuro museu, um instituto dedicado aos estudos científicos regionais, tendo como base a história natural e a etnografia do vale amazônico. A associação serviu também para ministrar aulas de Ciências Naturais a alunos de Belém, atraindo a vocação para a ciência. Essa foi a maior contribuição de Ferreira Pena para o desenvolvimento da cultura do Pará, fundando, com parcos recursos e quase nenhum apoio político, o “Museu Paraense” em 25 de março de 1871.

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Amazônia

grande que te quero Carlos Henrique Gondim

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A Amazônia se destaca mundialmente por particularidades que só são encontradas por aqui dadas às suas especificidades e números superlativos. Na reportagem a seguir, selecionamos dez verdades sobre a importância da região para o planeta.


Entre céu e mata

Cortada por vários rios, como o Guamá, em Belém, a área verde da Amazônia soma 6,6 milhões de km², distribuídos entre nove países sul-americanos

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OSWALDO FORTE

assado o calor das discussões nas mesas de debate da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, pouca importância se deu à Amazônia. Mas, a bem da verdade, a região continua tendo significado inestimável para o planeta, pois é detentora de números impressionantes, que fazem dela um bioma de interesse internacional. A maior floresta tropical do planeta, a maior biodiversidade da Terra, a maior quantidade de água doce do mundo... Estas são apenas algumas das principais peculiaridades da região amazônica, que abrange nove países da América do Sul – Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Nós somos, de longe, o país que detém a maior parte da floresta em seu território, 60%, seguido pelo Peru, com 13%. Graças aos avanços do conhecimento científico e sua difusão na sociedade muitos mitos sobre a região já foram derrubados, como é a tese de “pulmão do mundo” ou da suposta tentativa dos Estados Unidos de internacionalizar a Amazônia. Mas muitas outras coisas que só ouvimos falar sobre essa região tão rica e tão vasta são verdades incontestáveis – apesar de não parecer, tamanho o grau superlativo de suas características. Nesta reportagem especial destacamos dez especialidades que só encontramos na Amazônia e que fazem dela uma região muito importante para o mundo.

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ILUSTRAÇÕES MÁRCIO EUCLIDES

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A maior floresta tropical do mundo O bioma amazônico ocupa cerca de 6,6 milhões de km² espalhados por nove países sul-americanos. Para tornar mais clara a dimensão desse gigante, pense que todos os países da Europa (excluindo os da antiga União Soviética) caberiam com folga dentro da Amazônia. Esses números, computados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), delegam à região o título de maior floresta tropical úmida do planeta, ficando muito à frente da segunda colocada, a selva do Congo, tanto em extensão (1,7 milhão de km²) quanto em número de espécies. Esse mosaico de florestas é tão extenso que as 23,5 milhões de pessoas que vivem na região (dados do último censo do IBGE, de 2010) ocupam apenas 13% do seu espaço. O Brasil é responsável por salvaguardar 65% do território amazônico, que possui em sua composição cerca de 4 milhões de km² de floresta. Além de grande, a Amazônia é complexa. O que de longe parece um homogêneo tapete verde trata-se, na verdade, de um conjunto de paisagens e ecossistemas altamente diferenciados. São planaltos, depressões, montanhas, terrenos alagados e de terra firme, rios de diferentes tamanhos, águas de todas as cores, ácidas e alcalinas, florestas úmidas e secas, manguezais, pântanos e savanas. Cada pedaço de floresta tem sua especificidade, seu conjunto próprio de espécies e interações biológicas. A faixa de florestas de manguezais da costa amazônica também é a maior do mundo, com 14 mil km², do litoral do Amapá, Pará e Maranhão. No interior da floresta tropical úmida se abrem grandes manchas de savanas semelhantes às africanas. A maior montanha do Brasil, o Pico da Neblina, com 2.993 m, também está na Amazônia.

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HELY PAMPLONA

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A maior biodiversidade do planeta está aqui A Amazônia abriga a maior concentração de diversidade biológica da Terra. A região contém mais de 200 espécies diferentes de árvores por hectare (algumas com mais de 50 m de altura), cerca de 1,4 mil espécies de peixes, 1,3 mil variedades de pássaros e 300 espécies de mamíferos, além de uma gama de diferentes répteis, insetos e anfíbios, totalizando mais de dois milhões de espécies, segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A diferenciação entre os ecossistemas da região, que variam de paisagens alagadas a grandes savanas, propicia esta riqueza de espécies. Por isso, a biodiversidade amazônica ainda é um desafio para os pesquisadores. Estima-se que as florestas da região concentrem 60% de todas as formas de vida do planeta, mas que somente 30% de todas elas são conhecidas pela ciência. Os pesquisadores também acreditam que esse cenário diverso de ambientes na Amazônia pode justificar o desenvolvimento de novas espécies endêmicas (espécies localizadas e particulares, que só se desenvolvem em determinada região). Instituições de pesquisa, como o Museu Paraense Emílio Goeldi, levaram para debate, na Rio +20, o panorama da ciência, das estratégias de conservação e do modelo de desenvolvimento adequado para a Amazônia. Durante a mesa-redonda “A biodiversidade da Amazônia no contexto da Rio +20”, promovida em Belém pelo museu em maio com a participação de vários estudiosos, ficou clara a necessidade de mobilizar mais pesquisas para a região, na tentativa de manter viva sua riqueza natural num contexto de mudanças climáticas e desmatamentos.

Espécies

Uma infinidade de animais vertebrados e invertebrados e plantas habitam a região. Na foto, um lagarto da espécie Iguana iguana, rodeado por folhas de Heliconia psittacorum e flores de um cipó do gênero Ruelia sp. da família Acanthaceae.

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A região de maior peso no equilíbrio do clima da Terra A avaliação sobre as proporções da influência da Amazônia sobre o clima mundial ainda é controversa, mas os pesquisadores são unânimes sobre o risco do desmatamento dessa região contribuir para um colapso no equilíbrio do nosso ambiente. A maior influência da Amazônia sobre o clima, e também a mais discutida, segundo dados do Inpe, refere-se à produção e retenção de gases, em especial o oxigênio (O2) e os chamados gases estufa, como o gás carbônico (CO2), o vapor de água (H2O) e o metano (CH4). Diferentemente do que por muito tempo se acreditou, a Amazônia não funciona como um “pulmão” para o planeta por produzir altos níveis de O2. Durante o dia, a vegetação libera para a atmosfera imensa quantidade de oxigênio e absorve gás carbônico, através do processo de fotossíntese. Porém, o mesmo gás é reabsorvido durante a noite, em quantidade proporcional, num processo inverso: a grande massa verde absorve oxigênio e libera gás carbônico. Essa troca, no entanto, não é perfeita. A maior produção ou absorção de CO2 e O2 dependerá de outros processos, como as queimadas e o reflorestamento. E é a quantidade de liberação de gás CO2 resultante de queimadas uma das principais preocupações dos estudiosos. O composto está entre os gases estufas, elemento que em menor ou maior quantidade pode ser um dos determinantes para a elevação da temperatura na Terra. Uma concentração baixa dos gases estufa implica em uma superfície mais fria, o aumento da concentração provocará o seu aquecimento. Um aumento da temperatura terrestre em poucos graus teria consequências graves, como a elevação do nível dos oceanos devido à expansão térmica e o derretimento de gelo nas calotas polares e nas geleiras, submergindo parte das cidades costeiras.

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Imensidão

A bacia hidrográfica da região alcança 7 milhões de km² em extensão

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A maior reserva de água doce A Amazônia, de acordo com o Inpe, concentra 20% da água doce do planeta, cerca de 1/5 de toda a forma potável que se detém, atualmente, desse mineral. A bacia hidrográfica da Amazônia é a maior do mundo, possuindo 7 milhões de km² de extensão (4 milhões em território brasileiro). O rio principal deste complexo fluvial é o Amazonas. Além dele, outros 23 mil km de rios navegáveis ocupam a bacia hidrográfica amazônica, dentre eles os diversos afluentes do rio Amazonas, como os rios Negro, Solimões, Branco, Juruá, Xingu e Japurá. Além dessa reserva que podemos visualizar na superfície, a Amazônia ainda possui no subterrâneo o maior reservatório aquífero de todo o planeta. Em pesquisa recen-


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te foi descoberto que o aquífero Alter do Chão guarda em seu subsolo volume de água equivalente a 86 mil km³, um lago gigante que se estende debaixo do estados do Pará, Amapá e Amazonas. O aquífero Alter do Chão recebeu esse nome pelo ponto de estudo estar situado nas proximidades de Alter do Chão, um balneário turístico próximo de Santarém, no oeste paraense. Os dados da pesquisa foram colhidos ao longo de 30 anos por cientistas da Universidade Federal do Pará. O aquífero Guarani – entre o centro-sudoeste do Brasil, o nordeste da Argentina, noroeste do Uruguai e sudeste do Paraguai - que até então figurava como o maior do Brasil, tem em torno de 45 mil km³. Em nível de capacidade hídrica, estima-se que o aquífero amazônico ocupe uma área de 437,5 mil km² e espessura média de 545 m, em com-

paração ao Guarani é menor em extensão e maior em espessura. O fato mais importante sobre alguns aquíferos, como o Alter do Chão, é o fornecimento de água livre de qualquer contaminação, diferentemente das águas da superfície, constantemente sujeitas às ações humanas que desencadeiam processos poluentes. Em tempos que países desenvolvidos se apropriam de recursos de outros para continuar crescendo, o Brasil é responsável por um bem precioso. Mas, para manter essa imensa reserva de água, o próximo desafio é criar meios de gestão para conservá-la limpa. Pela sua qualidade fundamental, especialistas veem na água um bem econômico. Cabe ao Brasil, que detém na Amazônia uma imensa reserva desse recurso, criar estratégias que garantam sua boa gestão.

O maior rio do mundo Imagens de satélites confirmaram que o rio Amazonas é o mais extenso do mundo. Segundo pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), além de ser o mais caudaloso, o rio que corta todo o norte da América do Sul também é o mais extenso, com 6.992,06 km, superando o rio Nilo, na África, que tem pouco mais de 6.800 km. A descoberta só foi possível após uma grande expedição de cientistas brasileiros e peruanos em busca da verdadeira cabeceira do rio. Após investigar as quebradas de Carhuasanta, no Peru, onde se presumia encontrar as nascentes do Amazonas, e fazer uma série de medições, concluiu-se que a cabeceira do rio estava a mais de 5.000 m de altura acima do nível do mar e que a extensão do rio era maior que a do Nilo. A pesquisa foi desenvolvida durante 16 anos pelos cientistas do Inpe e foi reconhecida pelo Instituto Nacional Geográfico do Peru e a Agência Nacional de Águas. Além de ser o mais extenso e o mais caudaloso rio do mundo, o Amazonas traz outras características grandiosas. Sua profundidade máxima chega a 120 m, o que equivale a um edifício de 33 andares. A Estátua da Liberdade, de Nova York (EUA), ficaria inteiramente submersa se fosse colocada num dos trechos mais fundos do rio. O volume de água que despeja no mar é de 200 mil m³ por segundo e o seu trecho de maior largura, em períodos de cheia, chega a 50 km. O rio é tão extenso, que ao longo de seu percurso, dentro do Peru, por exemplo, recebe outros nomes como Carhuasanta, Lloqueta, Apurímac, Ene, Tambo e Ucayali. Entra em território brasileiro com o nome de rio Solimões e, finalmente, em Manaus, após a junção com o rio Negro, recebe o nome de Amazonas, e, como tal, segue até a sua foz no Oceano Atlântico. Devido a grande quantidade de sedimentos carregada por suas águas e depositada em sua foz, ainda se estima que sua extensão possa aumentar cerca de 1 km por ano. Além de extenso, o rio Amazonas é fonte de recursos e benefícios para toda a América do Sul e é considerado uma das últimas grandes reservas naturais do mundo.

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TARSO SARRAF

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O maior número de tribos indígenas isoladas do mundo A Amazônia concentra a maior quantidade de tribos indígenas isoladas do planeta. De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), 77 tribos vivem em isolamento voluntário na região. Em todo o mundo, esse número ultrapassa uma centena. Por isso, a Amazônia é considerada um dos poucos redutos do planeta onde ainda vivem povos humanos primitivos. De acordo com a ONG Survival International, a decisão desses índios de não manter contato com outras tribos e não-índios é quase certamente resultado de anteriores encontros desastrosos e da contínua invasão e destruição de sua floresta. Alguns, como os Awá, são caçadores-coletores nômades em constante movimento, capazes de construir uma casa dentro de horas e abandoná-la dias depois. Outros são mais sedentários, vivendo em casas comunitárias e cultivando plantações de mandioca e outros vegetais em clareiras na floresta, bem como praticando a caça e a pesca. No Acre, estima-se que existam cerca de 600 índios pertencentes a quatro grupos diferentes. Eles vivem em relativa tranquilidade em vários territórios demarcados, que são praticamente intocados. É possível que 300 índios vivam isolados no território Massaco, em Rondônia. Eles usam enormes arcos e flechas – um arco foi encontrado medindo mais de 4 m – muito semelhante em tamanho e formato com os arcos produzidos pela tribo Sirionó, que vive na vizinha Bolívia. Antropólogos acreditam que ainda existam povos primitivos desconhecidos, vivendo nas regiões mais inóspitas e inacessíveis. No entanto, outros grupos isolados estão oscilando à beira da extinção tendo poucos indivíduos restantes.

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Sobrevivência Por opção, algumas tribos indígenas buscam isolamento voluntário para evitar problemas com outras tribos e não-índios


INOCÊNCIO GORAYEB

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Temos a maior área de preservação ambiental A Amazônia brasileira detém também a maior área de preservação ambiental do planeta, sem contar as reservas indígenas, afirma o Ministério do Meio Ambiente. Trata-se de um corredor de 3 mil km de extensão que abrange um território maior que o da França. Ele é duas vezes maior do que a faixa formada pelas reservas VilcabambaAmboró, na Bolívia e no Peru, até então a mais extensa do mundo. Boa parte da área de conservação brasileira já havia sido criada nos estados do Amazonas e do Amapá, mas foi aumentada por cinco reservas instituídas pelo Pará na margem norte do rio Amazonas. Este trecho é conhecido como “Escudo das Guianas” e está situado na parte mais

alta da Amazônia. A região é montanhosa e, ao contrário do resto da floresta, não chegou a ser inundada nem mesmo durante os períodos de degelo que se seguiram às eras glaciais. Como permaneceu seca por dez milhões de anos, tornou-se o berço de boa parte das espécies da fauna e da flora que formam a exuberante biodiversidade amazônica. Vivem nessa região mais de mil espécies de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e insetos. Algumas delas ainda não foram catalogadas pelos biólogos. A sobrevivência desses animais depende de um delicado equilíbrio ambiental, que só permaneceu intacto até hoje porque a margem norte do rio Amazonas está longe de áreas exploradas economicamente. Em termos de preservação, a região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, em Roraima, também traz dados impressionantes, pois ocupa uma área equivalente à Alemanha (350 mil km²). As primeiras conclusões indicam que, ali, a floresta está mais preservada do que há 30 anos, possui inúmeros igarapés que jamais foram visualizados, mesmo por imagens de satélites.

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Harmonia

Crianças da vila de Santa Cruz, às margens do rio Araguaia, moram em uma área de proteção ambiental (APA)

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A maior ilha fluviomarítima Com 49 mil km², a ilha de Marajó, no Pará, é a maior ilha fluviomarítima (cercada por rio e mar) do mundo, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Considerado Área de Proteção Ambiental (APA), o arquipélago abriga o maior rebanho de búfalos do Brasil, com cerca de 600 mil cabeças. O Marajó é um dos mais importantes cenários ecológicos do Brasil. Com cerca de 3 mil ilhas e ilhotas, o arquipélago possui exuberantes riquezas naturais espalhadas por lagos, manguezais, igarapés, sítios arqueológicos, pântanos e praias de rio. A ilha é composta por 16 municípios distribuídos em três microrregiões: microrregião do Arari (Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure), microrregião dos Furos de Breves (Afuá, Anajás, Breves, Curralinho e São Sebastião da Boa Vista) e microrregião de Portel (Bagre, Gurupá, Melgaço e Portel). A paisagem no Marajó varia de acordo com a época do ano. Durante o verão amazônico (de junho a novembro), é possível percorrer os campos onde garças, guarás e dezenas de outros pássaros procuram alimento. No inverno (de janeiro a maio), período em que mais chove no Marajó, o mesmo percurso precisa ser feito de barco, contemplando deslumbrantes jardins aquáticos. Povos extintos, conhecidos como marajoaras, deixaram seus traços nas cerâmicas com desenhos que inspiram artistas até os dias atuais. Estima-se que esse legado artístico e cultural remonta cerca de três mil anos. As danças típicas do povo marajoara, como o carimbó e o lundu, são tradições que se mantêm vivas geração a geração. A culinária marajoara merece um capítulo à parte, com uma grande variedade de peixes e frutas. O queijo feito artesanalmente com leite de búfala é um produto tipo exportação que conquistou os consumidores mais exigentes.

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Beleza

Além de ser a maior ilha do mundo, o Marajó é um dos cenários ecológicos mais importantes do Brasil


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O maior arquipélago fluvial da Terra

HELY PAMPLONA

Mais de 1,4 mil ilhas compõem o arquipélago Mariuá, o que faz dele o maior conjunto de ilhas fluviais do planeta. São 140 km de extensão e 20 km de largura, nas margens do rio Negro, no município de Barcelos, no Amazonas. O arquipélago reúne vários ecossistemas de águas pretas que estão entre os mais frágeis da Amazônia. Os dados são do Inpe. Essas áreas são consideradas armazéns naturais de diversidade biológica. Além disso, cerca de 30 comunidades, detentoras de uma variedade sociocultural única. A região também se caracteriza por um alto grau de dependência de suas populações, principalmente ribeirinhos e indígenas, com relação aos recursos naturais do arquipélago, o que propicia o surgimento de conflitos diversos. Para preservar essa riqueza, o Brasil propôs à Unesco a inclusão de Mariuá na lista das Zonas Úmidas de Importância Internacional (ou Sítio Ramsar). Atualmente, onze biomas brasileiros são reconhecidos com este título – o único na Amazônia é a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá, também no Amazonas. A designação do arquipélago Mariuá como Sítio Ramsar pode trazer benefícios financeiros ou relacionados à assessoria técnica para o planejamento de ações voltadas à sua proteção. Ao mesmo tempo, o título de Sítio Ramsar confere às áreas úmidas prioridade na implementação de políticas governamentais e reconhecimento público, tanto por parte da sociedade nacional como por parte da comunidade internacional, o que contribui para fortalecer sua proteção. No caso de Mariuá, o título significará uma contribuição para o zoneamento da região em diferentes categorias de áreas protegidas, formando um mosaico composto por unidades de conservação de uso sustentável, de proteção integral e de territórios indígenas. Essas ações vão contribuir para a manutenção das áreas úmidas do médio rio Negro, consideradas prioritárias para a conservação no Brasil. O 2º maior arquipélago fluvial, o das Anavilhanas, está próximo ao Mariuá, também no Rio Negro.

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A maior reserva mineral de ferro do mundo A Amazônia abriga a maior reserva de minério de ferro de alto teor do mundo: a Serra de Carajás. A reserva, de acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), contém 18 milhões toneladas do minério, além de grandes depósitos de manganês, zinco, níquel, cobre, ouro, prata, bauxita, cromo, estanho, tungstênio e urânio. A área se estende por 900 mil km², o que corresponde a 1/10 do território brasileiro. Deste total, a Vale ocupa aproximadamente 4 mil km² com o Complexo Minerador de Carajás. A reserva é cortada pelos rios Xingu, Tocantins e Araguaia e abrange terras do sudeste do Pará, norte de Tocantins e sudoeste do Maranhão. O minério de ferro é largamente utilizado no setor metalúrgico, considerados um dos mais importantes do mundo. As siderúrgicas asiáticas, em especial as chinesas, são as principais importadoras do ferro produzido no Pará. Essas empresas consomem, em média, mais da metade da produção brasileira. O minério de ferro é uma mistura de dois minerais bastante comuns na natureza: a hematita e o quartzo, que constituem a rocha de nome itabirito. Depois de retirado do solo e beneficiado, o minério de ferro é vendido para as indústrias siderúrgicas, onde irá se juntar a outras substâncias e se transformar em aço. Entre as utilizações do aço, estão automóveis, eletrodomésticos, grandes construções e muitos outros usos.

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Grandiosidade Caminhão fora de estrada carrega o minério de ferro extraído em Carajás, no Estado do Pará

Compromisso com o meio ambiente

ARQUIVO VALE

As ações da Vale no Complexo Minerador de Carajás são pautadas pelo compromisso socioambiental e levam em conta o fato de que a área fica localizada na Floresta Nacional (Flona) de Carajás, que se estende por mais de 400 mil hectares. Em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Vale contribui para a conservação de uma área três vezes maior que a área ocupada pela empresa, a Floresta de Carajás, com cerca de 1,2 milhão de hectares, que equivalem a 10 vezes o tamanho de Belém. As operações da Vale nas minas de minério de ferro de Carajás estão alicerçadas em um Sistema de Gestão da Qualidade Ambiental (SGQA), implementado e certificado dentro dos padrões e procedimentos das

Normas ISO 9000 (qualidade da produção) e ISO 14001 (qualidade ambiental). Dentre as ações em Carajás, a Vale desenvolve um amplo programa de recuperação de áreas que têm como objetivo a recomposição vegetal das áreas já mineradas com a utilização de espécies nativas da floresta de Carajás. A empresa mantém ainda uma estruturada rede de monitoramento ambiental que avalia, sistematicamente, aspectos como a qualidade do ar, dos ruídos e vibrações e da água. Em parceria com o ICMBio, a Vale colabora com a gestão da Flona e no desenvolvimento de pesquisa e, com isso, com a ampliação do conhecimento da biodiversidade na região. Essa parceria permite também a realização de vigilância do território que auxilia no monitoramento e combate a incêndios florestais.

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A importância do Código Florestal para a conservação da biodiversidade

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Leandro Valle Ferreira é biólogo, doutor em ecologia e pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi

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ecentemente houve uma grande discussão sobre as modificações do Código Florestal Brasileiro, uma lei que tem como objetivo principal conciliar a produção de bens de consumo com a base ambiental e social. A questão é complexa e, infelizmente, ainda vivemos em um mundo onde produção e conservação parecem ser duas variáveis opostas quando na verdade são complementares. O que está em discussão atualmente são as modificações propostas para dois tipos de áreas protegidas pelo Código Florestal, as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e as Reservas Legais (RL). As APPs são definidas como áreas recobertas por floresta ou outro tipo de vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos em qualidade e quantidade, bem como, a estabilidade, a fertilidade do solo, a biodiversidade, e também, proteger a fauna e a flora, assegurando o bem-estar das populações humanas. Portanto, essas áreas não deveriam ser utilizadas nas propriedades rurais. A área de preservação permanente é intocável e a sua supressão total ou parcial só será autorizada em caso de utilidade pública ou de interesse social. As RLs são uma área de preservação ambiental dentro de propriedades cuja proporção varia de acordo com a região, desde 80% da propriedade na Amazônia Legal, 35% no Cerrado e 20% para o restante do país. As APPs e RLs são fundamentais para

a conservação da biodiversidade e produção. Há consenso entre os pesquisadores de que a garantia de manutenção das APPs ao longo das margens de rio e corpos d’água, de topos de morros e de encostas com declividade superior a 30 graus, bem como a conservação das áreas de RL nos diferentes biomas são de fundamental importância para a conservação da biodiversidade brasileira. Entre os impactos negativos da redução de APPs e de RL estão a extinção de espécies de muitos grupos de plantas e animais (vertebrados e invertebrados); o aumento de emissão de CO2 e a redução de serviços ecossistêmicos, tais como o controle de pragas, a polinização de plantas cultivadas ou selvagens e a proteção de recursos hídricos. A RL tem funções ambientais e características biológicas distintas das APPs em termos da composição e estrutura de sua biota. Na Amazônia, a redução das RLs diminuiria a cobertura florestal para níveis que comprometeriam a continuidade física da floresta aumentando o risco de extinção de espécies e comprometeria a efetividade dessas áreas como ecossistemas funcionais e seus serviços ecossistêmicos e ambientais. Por se localizarem fora das áreas frágeis que caracterizam as APPs, as RLs são um instrumento adicional que amplia o leque de ecossistemas e espécies nativas conservadas. São áreas complementares que devem coexistir nas paisagens para assegurar sua sustentabilidade biológica e ecológica em longo prazo.


ANDRÉ ABREU INOCÊNCIO GORAYEB

Cabe destacar ainda que, ao contrário das APPs, as RLs podem ser manejadas pelos proprietários que delas podem extrair recursos. Portanto, as RLs são fonte de trabalho e renda para o proprietário, desde que as atividades exercidas não comprometam a sobrevivência das espécies nativas que abrigam. Infelizmente, o descumprimento do Código Florestal vigente no que tange às APPs e RLs é um dos principais fatores responsáveis pelo contínuo aumento no número de espécies brasileiras vulneráveis e ameaçadas de extinção nas listas atualizadas periodicamente pelas sociedades científicas e adotadas pelos órgãos e instituições da área ambiental. O Estado do Pará detém uma rica diversidade de ecossistemas e uma das maiores riquezas biológicas do Brasil. Contudo, junto com os estados do Mato Grosso e Rondônia são responsáveis por mais de 80% do desflorestamento na Amazônia Legal nos últimos dez anos. Atualmente cerca 249 mil km2 já foram desflorestados correspondendo a 22% do total da

área do Estado, levando os governos federais e estaduais a propor políticas para a diminuição desse desflorestamento, sendo uma destas, a implantação do Zoneamento Ecológico do estado do Pará, concluído em 2010. Em muitas regiões do Pará já há uma intensa fragmentação da paisagem que está resultando na perda de espécies. Uma maneira de reverter esse cenário é aplicar o conceito de “territórios sustentáveis” onde as áreas para atividades econômicas estão situadas em lugares estratégicos e apropriadas, a fim de impulsionar o desenvolvimento regional e não promover a desestruturação do meio físico e biótico, pois vegetação natural remanescente deve estar conectada por de corredores de vegetação usando as APPs ou RLs previstas no código florestal brasileiro. Concluindo, a manutenção do Código Florestal Brasileiro é fundamental para a conservação da biodiversidade e a promoção de um desenvolvimento econômico e social em bases sustentáveis no Estado do Pará e na Amazônia.

Referências: FERREIRA, L.V.; PEREIRA, J.L.G.; CUNHA, D.A.; MATOS, D.C.L.; SANJUAN, P.M. 2012. A vocação da Amazônia é florestal e a criação de novos Estados pode levar ao aumento do desflorestamento na Amazônia brasileira. ESTUDOS AVANÇADOS 26 (74): 187-200.

S.; MAY, P.H.; SÁ, T.D.A.; CUNHA, M.C.; RECH FILHO, E.L. 2011. O Código Florestal e a Ciência: contribuições para o diálogo, São Paulo: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, SBPC; Academia Brasileira de Ciências, ABC, 124p.

SILVA, J.A.A.; NOBRE, A.D.; MANZATTO, C.V.; JOLY, C.A.; RODRIGUES, R.R.; SKORUPA, L.A.; NOBRE, C.A.; AHRENS,

Relação ecológica Áreas de proteção ambiental podem abrigar a pecuária, mas com projetos sustentáveis

“Infelizmente ainda vivemos em um mundo onde produção e conservação parecem ser duas variáveis opostas quando na verdade são complementares”

VIEIRA, I.C.G.; SILVA, J.M.C; TOLEDO, P.M. Estratégias para evitar a perda de biodiversidade na Amazônia. 2005. ESTUDOS AVANÇADOS 19 (54): 153-164.

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Um novo modelo de parceria O Fundo Vale foi implantado há dois anos no Pará é já acumula grandes resultados em relação ao monitoramento estratégico do desmatamento na Amazônia, como a consolidação do Programa Municípios Verdes

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A senhora está no Fundo Vale desde a sua criação, em 2009. Como foi esse processo? Para nós, esses três anos foram de construção de um novo modelo de parceria. O Fundo Vale foi criado pela Vale para investir em projetos de desenvolvimento sustentável. É uma iniciativa pioneira de investimento social no Brasil. Nossa primeira decisão foi escolher o bioma da Amazônia como foco dos investimentos; uma região com muitas demandas e pressões sociais e ambientais. Também definimos nossas três linhas de ação: monitoramento estratégico do desmatamento, áreas protegidas e biodiversidade e municípios verdes. A escolha dos projetos apoiados é resultado da construção de parcerias com diferentes segmentos da sociedade civil que já tinham atuação nessas áreas. O Fundo Vale se define como uma iniciativa de investimento social privado. O que isso significa na prática? Investimento social é toda a iniciativa que busca alcançar resultados alinhados com o tripé social, econômico e ambiental. Isso é sustentabilidade. O Fundo Vale é uma Organização Social de Interesse Público (Oscip), sem fins lucrativos, que aporta

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FOTOS: ARQUIVO VALE

ara a diretora de Operações do Fundo Vale, Mirela Sandrini, o cenário socioeconômico e ambiental na Amazônia, hoje, é outro. Graças a projetos de parceria entre o Fundo, governo e sociedade, para ela, “depois de um grande movimento, o Pará está conseguindo mudar o seu rumo”, a exemplo do Programa Estadual Municípios Verdes, o qual apóiam com o objetivo de erradicar modelos de desenvolvimento econômico insustentáveis do ponto de vista ambiental, que colocam a população em risco social.

“Nossa primeira decisão foi escolher o bioma da Amazônia como foco dos investimentos; uma região com muitas demandas e pressões sociais e ambientais”

Gestão verde

Mirela Sandrini: investimentos em favor do meio ambiente. À direita, equipe do Fundo Vale e do Instituto de Desenvolvimento da Amazônia (Idesam) em viagem a campo para Apuí, no sul do Amazonas.


“Investimento social é toda a iniciativa que busca alcançar resultados alinhados com o tripé social, econômico e ambiental. Isso é sustentabilidade”

os recursos recebidos de seus mantenedores em iniciativas com esse perfil. Por isso somos um fundo de sustentabilidade e não apenas ambiental. Além disso, nos envolvemos muito na execução dos projetos, apoiando as organizações responsáveis pela execução na gestão dos projetos, com foco no resultado final. Por que o Pará foi o primeiro Estado de atuação do Fundo Vale? Porque era o que demandava uma ação mais imediata, dentro dos principais critérios de seleção adotados pelo Fundo. Estava com imensa pressão de desmatamento, com alguns dos municípios que mais desmatam no país e outros que já haviam ultrapassado essa fase. Estavam sufocados economicamente por terem explorado de forma indiscriminada os recursos da floresta, ou terem apostado em modelos produtivos insustentáveis no longo prazo, como a pecuária extensiva. Além disso, já havia diversas iniciativas para reverter essa situação. Hoje, o cenário é outro. Depois de um grande movimento, o Pará está conseguindo mudar o seu rumo. O Programa Estadual Municípios Verdes, o qual apoiamos sua estruturação e hoje fazemos parte do Conselho Gestor, é um ótimo exemplo. Por isso, desde o ano passado, começamos a investir em outros territórios na Amazônia, que ainda demandam atenção, nos estados do Amazonas, Mato Grosso, Acre e, mais recentemente, Amapá.

Quais territórios do Pará ainda são considerados estratégicos para o Fundo Vale? Um dos nossos primeiros projetos foi em Paragominas (PA), porque identificamos uma oportunidade de apoiar o município a sair da lista dos maiores desmatadores do país e a identificar novos modelos de desenvolvimento. Depois começamos a identificar oportunidades para replicar esse modelo em regiões como a Calha Norte, a Terra do Meio Paraense e o Marajó. Todos eles têm características semelhantes: modelos de desenvolvimento econômico insustentáveis do ponto de vista ambiental, que colocam a população em risco social. Nesses quase quatro anos de atuação no Pará, quais as principais oportunidades de desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis foram identificadas? O Pará já tem cadeias produtivas estruturadas, como a do açaí e da castanha. Nesses casos, o que fazemos é avaliar o tipo de manejo adotado, os impactos no longo prazo e, principalmente, como agregar valor para que uma parcela maior dos rendimentos fique nas comunidades. Com esse foco, já estudamos também a cadeia do cacau, da mandioca, da pecuária. Acreditamos que o impacto social dos projetos sempre se reverte em um maior controle ambiental.

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A reinvenção do capital na Rio+20

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Thiago Barros é mestre em Planejamento do Desenvolvimento Sustentável (Naea-UFPA) e professor da Universidade da Amazônia (Unama).

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relação entre custos sociais da economia privada e custos globais da sociedade industrial ganhou corpo ao longo das grandes conferências internacionais sobre meio ambiente, de Estocolmo (em 1972) à Rio-92 (também conhecida como Eco-92). Mas a saída encontrada para reduzir os impactos desenfreados das atividades produtivas no mundo se mostrou defasada no século XXI, quando lideranças mundiais voltaram a se reunir no Brasil para a Rio+20. Há duas décadas, sob a chancela da sociedade civil organizada, a Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu na conferência do Rio de Janeiro com o “Leviatã” responsável pela gerência dos atores sociais diante da crise ambiental. A sociedade avançou em relação ao conceito e prática do desenvolvimento sustentável, mas a solidificação deste processo sofreu uma fissura quando a falsa soberania da ONU foi escancarada. Hoje, está ainda mais evidente. Após a Rio-92, países como os Estados Unidos se arvoraram em busca do posto de regulador – por conta de grande poder econômico e bélico –, inclusive renegando a assinatura de acordos para a diminuição de emissão de gases poluentes, como o Protocolo de Kioto. Vinte anos depois, fica claro, mesmo nas entrelinhas, que a ação particular de países diante das metas estabelecidas nas conferências da ONU é uma fachada para a intervenção de grupos econômicos multinacionais. Daí o protesto de grupos opositores, sobretudo na Cúpula dos Povos, acerca das discussões sobre o que seria a economia verde: uma saída para o desenvolvimento sustentável ou uma artimanha do mercado, uma reinvenção do capital diante de mais uma crise cíclica, de acordo com a teoria marxista? Na Rio+20, a discussão sobre a governança global foi colocada à mesa, mas sequer

recebeu atenção. Temas fundamentais, como a diminuição da pobreza para a geração de desenvolvimento e a preocupação com a exploração intensiva dos recursos da floresta amazônica, foram tratados de forma superficial – o termo Amazônia sequer foi citado no documento final da Rio+20 com as diretrizes para o “futuro que queremos”. A conferência deste ano não levou em consideração o crescimento da sociedade civil organizada, a diminuição da forças políticas e econômicas de muitos países e as novas relações de poder mundiais: o mercado tem mais espaço e os efeitos do neoliberalismo alertados na Rio-92 têm gerado impactos socioambientais nefastos. Oficialmente, as conferências da ONU não tratam de comércio, mas a questão econômica paira sobre a cúpula. E atravanca avanços em áreas-chaves. A questão econômica ganhou destaque de forma latente nas discussões financeiras da cúpula: os países desenvolvidos cresceram de forma “suja” e pressionam os países em desenvolvimento a crescerem de forma limpa. Mas quem vai pagar a conta? É interessante para o mercado que nações em crise financiem o desenvolvimento sustentável de nações subdesenvolvidas? Se a Rio+20 foi rápida em diplomacia e consensos, pisou no freio da cooperação. Em 1968, no artigo “The Tragedy of the Commons” (A tragédia dos Comuns, publicado originalmente na revista Science), o ecologista norte-americano Garrett Hardin já levantava a questão da cooperação entre atores sociais com fundamental para que o conflito por uso da matriz natural fosse “disciplinado”. Quase cinco décadas depois, cresceu o esforço pela regulamentação do uso dos recursos naturais, mas esta questão esbarra em interesses econômicos e não primordialmente em necessidades comuns.


N

ós, arqueólogos, costumamos dizer, que apesar do salário de pesquisador, nos divertimos muito. Mas essa diversão tem mais a ver com aventura do que com entretenimento. E elas, às vezes, são bastante perigosas. Aí até parecemos Indianas Jones mesmo, mas sem arcas ou tesouros perdidos. Quer dizer, um achado importante para um bom pesquisador é o maior tesouro que ele pode encontrar. E quando acontece é uma tremenda satisfação. Ouro e joias para a grande maioria de nós é mera fantasia. Porém, há situações nem um pouco glamorosas. Pois bem, em 1984 fazíamos pesquisas no rio Parauapebas no atual município de Parauapebas. Mas na época poucas pessoas moravam ao longo dele. A nossa base ficava em um hotel localizado no alto da Serra de Carajás. Para chegar à margem do rio, uma Kombi rebocava uma voadeira e nos deixava em uma casa ribeirinha distante uma hora e meia dabase. Dali, a gente descia o rio parando toda vez que encontrávamos um local adequado para o assentamento de um sítio arqueológico. Com o tempo a gente ia cada vez mais longe. A gente ia parando até chegar a certo ponto de onde retornávamos. No dia seguinte seguíamos examinando os locais promissores a partir da última parada. O retorno era sem escala, só parava quando vez ou outra a gente tinha que atravessar corredeiras e cachoeiras com o barco nas

costas. Invariavelmente era só chegar na Kombi que a chuva caía. Um dia passamos por um local onde tinha um remanso. Nele notei o que parecia ser um grande tronco de árvore caído sobre o leito raso do rio. Acontece que nos dias seguintes percebi que o tronco nunca estava no mesmo lugar. Aí descobrimos que aquilo era um jacaré. Ele era inacreditavelmente enorme! Desde então passávamos por ali com muito cuidado para não incomodar o bicho. Mas o pior estava por acontecer. Quatro horas depois, paramos em um local onde poderia existir um sítio arqueológico. Na verdade, achamos um sítio, só que de caboclos, que estava abandonado, mas repleto de árvores carregadas de frutas. Fizemos a feira e enchemos a pança. Quando voltamos ao barco o motor não funcionou de jeito nenhum. Como foram esquecidos levamos mais de uma hora confeccionado dois remos com facão. Assim, por volta das cinco horas da tarde finalmente iniciamos nosso retorno rio acima. E não foi fácil. Quando a noite chegou não enxergávamos nada e, por isso, muitas vezes entramos igapós adentro. Sem falar que tínhamos que subir cachoeiras no escuro. Mas a maior preocupação era com a chuva e, claro, com o jacaré gigante. Por volta das nove da noite, a lua surgiu cheia e grandiosa numa curva do rio. Foi um alívio: passamos pelo jacaré sob o luar e o céu carregado de estrelas. São os ossos do ofício...

LEONARDO NUNES

Os Indianas Jones modernos

Marcos Pereira Magalhães é graduado em Ciências Sociais, mestre em História Antiga e Medieval, doutor em História Social e pesquisador arqueólogo do Museu Paraense Emílio Goedi

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Um plano verde para Belém Pesquisadores apostam na arborização crescente da capital paraense para amenizar o calor na cidade e aproximar as futuras gerações com a natureza Graziella Mendonça

Tarso Sarraf

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Praça da República A arborizada cidade de Belém, ao anoitecer. Ao centro, o Theatro da Paz cercado por árvores.

esde a era da borracha, Belém carrega consigo o título de Cidade das Mangueiras. A exuberância das frondosas copas e o charme dos túneis de mangueiras que marcam o centro da cidade até hoje não deixam dúvidas sobre o merecimento deste título. No entanto, mais de cem anos se passaram desde que o intendente Antônio Lemos promoveu a revitalização urbanística que conferiu o título à capital paraense. Hoje, os tempos são outros: a população cresceu exponencialmente, a cidade se desenvolveu e se modernizou, a dinâmica urbana se alterou completamente. Essas mudanças trouxeram a necessidade de se planejar, novamente, a arborização de Belém, de forma adequada às características da metrópole. Por pensar na arborização da capital de modo planejado e sustentável que doze instituições se uniram para elaborar e implantar o Plano de Arborização Urbana de Belém, que pretende garantir a preservação e o manejo sustentável das árvores na cidade e expandir cada vez mais as áreas verdes na cidade. Aprovada a lei, os pesquisadores estão agora debruçados na elaboração do Manual de Orientação Técnica, que deve ser lançado até agosto e vai especificar como o plano será colocado em prática.

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ARBORIZAR É PRECISO Saiba quais são as dez espécies de árvores mais indicadas para a arborização de Belém

Pequeno porte

Médio porte

(Indicadas para estacionamentos, calçadas com mais de 1,20m de espaço livre para circulação de pedestres, praças e parques)

Originária do Amazonas e Pará, essa árvore é pequena de 9 m de altura. Os frutos são utilizados na fabricação de cuias que servem par beber o tacacá, e para instrumentos musicais como o maracá.

Ipê-rosa

(Tabebuia roseo-alba Sandwith)

Ingazeiro

(Inga edulis Mart.)

Essa espécie alcança de 12 a 25 m de altura, em floresta primária e secundária. Os frutos, chamados de ingás, são vagens estreitas de 20 cm de comprimento, contendo muitas sementes envoltas por uma polpa doce comestível.

(Tecoma stans)

Pequena e muito ramificada, esta árvore adequa-se a pequenos espaços, podendo ser plantada em bairros sem planejamento urbano, que não comportam espécies de médio e grande porte.

Alcança de 6 a 17 m de altura, com folhas compostas e flores brancas ou rosadas. Essa árvore de regiões frias se adaptou muito no Pará. É usada em paisagismo e no reflorestamento.

Flamboyant

Araçá-boi

(Delonix regia)

(Eugenia stipitata Mc Vaugh)

A árvore pode atingir até 15 m de altura e 90 cm de diâmetro. Pode ser utilizada na arborização de estacionamentos, parques e avenidas com canteiros centrais.

É um arbusto com cerca de 3 m de altura, com ramos desde o solo. Nativa da Amazônia, tem função ornamental por apresentar porte baixo e frutos maduros exuberantes.

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De copa ampla e frondosa, pode alcançar até 20 m de altura. O tronco possui casca fina e lisa. Pode ser usada na arborização de praças e jardins devido ao rápido crescimento e floração vistosa.

(Crescentia cujete L.)

Ipezinho

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(Cenostigma tocantinum Ducke)

Cuieira

(Indicadas para ruas de calçadas estreitas)

A implantação de um plano de arborização é o ponto de partida para tornar Belém uma cidade mais verde. E, sim, ela precisa de muito mais verde: a meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) é de uma árvore para cada habitante. Segundo a engenheira florestal e pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, Noemi Vianna, estamos a anosluz deste patamar. “No último levantamento feito, Belém tinha apenas cerca de 120 mil árvores”, observa, reforçando que os dados não são recentes. Cidades brasileiras como Curitiba, João Pessoa e Campinas podem servir de espelho para Belém, já que são consideradas modelo em arborização no Brasil e no mundo. No entanto, promover a arborização de uma cidade é mais complexo do que pode parecer. Existem várias peculiaridades que devem ser levadas em consideração

Pau-preto

na hora de planejar a arborização de uma cidade. O Manual de Orientação Técnica terá a função de detalhar de que forma a lei irá ser aplicada. “O documento que estamos elaborando traz uma relação de mais de 60 espécies que podem ser utilizadas na arborização da cidade. Temos que levar vários fatores em conta, como as características de cada espécie, tempo de crescimento, exigências nutricionais”, explica Noemi, que esteve diretamente envolvida na elaboração do Plano de Arborização o e, agora, do Manual Técnico.

SOMBRA Cada espaço da cidade demanda um determinado tipo de árvore. No caso de Belém, a preferência deve ser por árvores com bastante sombra, por conta do forte calor característico da cidade. Para esta finalidade, existem várias espécies que

FONTE: NOEMI VIANA, PESQUISADORA DA EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL. FOTOS: EMBRAPA E HELY PAMPLONA

podem ser utilizadas, como as próprias mangueiras, o pau-preto e o flamboyant. “Em praças e locais abertos, é possível optar por árvores frondosas, como a sumaúma, por exemplo”, detalha Noemi Viana, da Embrapa. Alguns lugares da cidade, no entanto, não permitem o plantio de árvores de grande porte. É o caso de bairros periféricos, que se desenvolveram a partir de ocupações sem planejamento. “Nesses locais é impossível plantar árvores de grande porte, mas isso não quer dizer que não podem ter verde. Então, podem ser plantados arbustos, arvoretas de pequeno porte, herbáceas. Uma boa opção é o ipezinho”, diz a pesquisadora. Outra saída apontada pelo plano para ampliar a arborização de Belém são os chamados corredores ecológicos. “São opções em que você pode planejar a arborização. Já temos alguns exemplos em


Grande porte

(Indicadas para canteiros centrais de avenidas, parques e praças)

Mangueira

(Mangifera indica L)

Essa espécie, que compõe um dos cartões-postais mais famosos de Belém, o “Túnel de Mangueiras”, na praça da República, pode atingir até 30 metros. Apresenta copa arredondada e simétrica, variando de baixa e densa a ereta e aberta e adquirindo, eventualmente, forma piramidal.

Samaúma

(Ceiba pentandra (L.) Gaertn)

Também conhecida por sumaúma, é uma espécie de crescimento rápido, podendo atingir 45 a 50 m de altura, com diâmetro com 80 a 160 cm. Garante ampla sombra e acomodação de aves. Em Belém, é encontrada em frente à Basílica de Nazaré e ao Hangar Centro de Convenções da Amazônia.

Ipê-amarelo

(Tabebuia serratifolia (Vahl) Nichols)

Espécie de porte alto que alcança posição de dossel superior ou emergente em florestas primárias ou secundárias. A copa é alongada e larga, com folhas compostas, opostas e inflorescência em panículas. Durante a estação seca, a planta fica totalmente despida de folhagem e com floração totalmente amarela. Muito usada no paisagismo em geral.

Belém, como a avenida Duque de Caxias e a Marquês de Herval”, lembra. Noemi Vianna explica ainda que o plano prevê a utilização da maior quantidade possível de espécies nativas em detrimento das exóticas. “Foi estabelecido um patamar de 70% nativas e 30% exóticas”, detalha.

BENEFÍCIOS A arborização de uma cidade influencia diretamente na vida da população, embora, na correria do dia a dia, boa parte das pessoas não se deem conta disso. A qualidade de vida e a arborização de uma cidade estão intimamente ligadas – não é à toa que as grandes construtoras têm apostado cada vez mais nos chamados “condomínios verdes”. “Uma cidade arborizada oferece maior qualidade de vida, porque melhora o dia das pessoas, nos transporta para a exuberân-

cia da natureza”, acredita Noemi Vianna. Outro benefício que virá com a arborização em Belém está relacionado ao conforto térmico. Marcada por altas temperaturas o ano inteiro, a capital paraense carece de mais árvores para garantir mais um clima mais ameno à população. “Do ponto de vista prático, de quem anda na cidade, as árvores são essenciais para amenização do calor”, observa a pesquisadora. Noemi destaca ainda que, além dos benefícios práticos e das implicações naturais, a presença das árvores na cidade também ajuda a manter a cultura da região. Através das espécies, as tradições e origens culturais são reforçadas - daí a importância de se primar por espécies nativas. “Árvores como o pau-brasil, que deu origem ao nome de nosso país, e a cuieira, de onde vem a cuia do tacacá, devem ser conhecidas pelas crianças”, conclui a pesquisadora.

Marabá também investe em plano de arborização A cidade de Marabá, no sudeste paraense, também tem buscado formas de regulamentar sua política de arborização e ampliar a área verde do município. Instituições de pesquisa, empresas privadas e órgãos municipais estão unidos em torno do futuro Plano Diretor de Arborização Urbana e Áreas Verdes de Marabá que, assim como ocorreu em Belém, deverá virar lei e nortear as políticas de arborização da cidade. A iniciativa tem o apoio da Vale. As discussões sobre o plano estão em fase inicial, de acordo com a analista de responsabilidade social da Vale, Nívia Costa. “Em abril, realizamos o primeiro evento para apresentar a ideia à população, e já fizemos duas reuniões de trabalho com a comissão. A intenção é de que, até o final do ano, o projeto de lei esteja aprovado pela Câmara de Marabá”, pontua Nívia. A Vale irá contribuir com a realização de um inventário das espécies florestais existentes no município, proporcionando assim um diagnóstico completo da situação de Marabá. A pesquisadora Noemi Vianna, da Embrapa, também está envolvida neste projeto e afirma que trabalhar com a realidade de Marabá será um grande desafio. “É um município muito diferente de Belém, possui suas peculiaridades e, por isso, temos que pensar a arborização de um modo específico. Marabá possui cinco núcleos e 16 distritos, e todos eles serão contemplados no plano”, explica Noemi Viana.

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Sob o sol, chapéus e fitas coloridas Todo ano, nos domingos de junho, uma multidão de 20 mil pessoas segue o Boi Pavulagem no centro histórico de Belém, formando uma grande comunidade de brincantes, que mantêm a cultura popular paraense viva, forte e única. Moisés Sarraf

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Tarso Sarraf

m som forte de percussão sobe a avenida Presidente Vargas, em Belém, rumo à praça da República durante os domingos de junho. Às vezes toada, outras xote e, no meio disso tudo, o carimbó ritmando cerca de 20 mil pessoas que compõem o cortejo do Arraial do Pavulagem, num caldeirão de expressões culturais amazônicas que convergem para um arrastão de arte, cultura e lazer. Criada por músicos e compositores afinados na revalorização do que é produzido dentro da região, este ano essa expressão cultural se consolida com respeito na fase adulta. São 25 anos da festa que reúne pessoas de variadas idades, em grupos, casais ou famílias, formando uma grande comunidade cultural que tem como marca o chapéu de palha com fitas coloridas. No início, Boi Pavulagem do Teu Coração, que passou a ser Arraial do

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Subindo a avenida

Boi Pavulagem, até se tornar apenas Arraial do Pavulagem. Quando se anuncia a partida do cortejo, um público disperso de repente se transforma em multidão, misturada a cabeçudos e cavalinhos – personagens da cultura do município de São Caetano de Odivelas, no nordeste paraense -, ao lado de outro boi-bumbá, o Boi Malhadinho, do bairro do Guamá, em Belém. E para comandar a festa, o Batalhão das Estrelas, grupo composto por percussionistas, dançarinos e artistas de circo. A festa está montada e o trecho entre a avenida Presidente Vargas e a praça da República se torna um grande palco. No meio do caminho, enquanto xotes, retumbões, toadas e carimbós marcam a partitura da cultura popular, um grito se destaca no meio do povo já contagiado: “Chamou Pavulagem, vaqueiro”. E a resposta, em uníssono ecoa da garganta de milhares de brincantes: “Terra vai tremer!” Já na praça da República, a comunidade do arraial se mistura à tradicional feira de artesanato da praça e a banda do Pavulagem comanda o show, ampliando o repertório com música popular paraense.

Centenas de pessoas acompanham os bois do Pavulagem na avenida Presidente Vargas. Um misto de emoção e amor à cultura paraense.

ARY SOUZA

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A guitarra elétrica se interpõe à onça e à barrica, enquanto o público sacode os chapéus de um lado para o outro. A estudante Paola Faro, de 17 anos, saltitava ao som da toada “Iniciais BP”, de autoria do compositor Ronaldo Silva, um dos fundadores do arraial. “O sol esquenta, mas tá firme”, disse rapidamente a estudante, saindo para lateral e gritando, junto dos demais: “Estrelinhas tão cintilantes, que é pra todo mundo ver”.

POR BAIXO DO BOI O modelo do cortejo está dentro da chamada “cena carnavalesca”, onde não há divisão entre público e organizadores, ou plateia e artistas; todos se misturam em um só amontoado de brincantes sem função pré-determinada. A improvisação é a participação, um dos objetivos de quem organiza a festa há 25 anos. Ressaltar a beleza das manifestações populares e transmiti-las aos mais novos são alvos almejados, mas há algo que concede ao Arraial do Pavulagem o poder transformador da cultura do povo: a ocupação do espaço público pela comunidade cultural que se forma em torno do boi. “O público tem um carinho enorme com a nossa cultura. Isso é um patrimônio do povo”, avaliou Ronaldo Silva, do arraial. O professor Agnaldo Ramos, de 32 anos, participou do arrastão com a esposa, os dois filhos, um irmão e uma tia. Ele era a materialização do colorido da praça: chapéu com fitinhas, camisa do Pavulagem e garrafinha de água em formato de boi. “Já acompanho há anos. Depois que meus filhos cresceram, passei a trazê-los também. O arraial reacendeu essa cultura do povo”, avalia o professor, que diz utilizar o exemplo do arrastão em suas aulas sobre cultura regional. Uma cultura que, para Ronaldo Silva, “tem de ser fortalecida sempre”. “Estamos em busca da liberdade pelo direito à cultura. A sabedoria do povo não envelhece”, opina.

HISTÓRICO O imaginário amazônico está em cada metro quadrado de cores e sons do cortejo. O arrastão é um porta-voz da quadra

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Catarse

O clima de festa toma conta dos brincantes que, em uníssono, cantam as toadas do Arraial, formando uma grande comunidade

junina amazônida em terras belenenses. Uma cultura tão híbrida, resultado do intercâmbio entre branco, negro e índio, que, nas palavras do poeta e filósofo João de Jesus Paes Loureiro é “semelhante à do encontro das águas (de cores diferentes) de certos rios amazônicos, como as do Amazonas com o Negro, ou do Amazonas com o Tapajós”. “Fizemos um grande apanhado de expressões cultu-

rais da Amazônia”, afirma Ronaldo Silva. E, durante a década de 1980, quando não havia espaço para a música regional em teatros e tampouco nas rádios, a cultura amazônida foi “salva pelo povo”. Segundo ele, a primeira apresentação, em 1987, foi realizada já na praça da República. “Essa primeira apresentação foi cheia de vontade de um grupo de artistas. No primeiro dia, tivemos só dois


Brincadeira

Raízes

Os participantes reforçam a cada encontro a valorização da regionalidade amazônica

tambores”, conta. “Percebemos que poderíamos trazer muito da cultura amazônica através do boi. Ele foi nossa entrada para a cultura popular”. Desde 2003, os arrastões são resguardados pelo Instituto Arraial do Pavulagem, criado para fomentar a educação cultural da Amazônia. A riqueza da cultura e o histórico dão à festividade dez arraiais em um. Um deles é o Arraial

Ao seguir o boi Malhadinho, a multidão confirma a peculiaridade do folclore paraense

da Aprendizagem, quando se realizam atividades no decorrer do ano, não apenas nos arrastões, como visitas à Santa Casa de Misericórdia e outros hospitais, além de apresentações em vários outros eventos e em escolas. Arraial da Coragem, que em 25 anos lutou contra a falta de recursos e a dificuldade na gestão de multidões que cresciam a cada ano. E o Arraial da Panfletagem,

quando se incorpora a preservação do meio ambiente e cuidado com a praça. Todos no Arraial de Belém. Um clima de fraternidade paraense numa comunidade formada por pessoas que, muitas das vezes, se encontram e se conhecem em um único domingo de junho. Nada melhor para um folguedo que reinterpreta a Amazônia e escreverá os novos capítulos da cultura popular.

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Arquitetos da natureza Profissionais formados em Arquitetura e Urbanismo estão cada vez mais interessados em projetos que respeitam a relação entre homem e meio ambiente Fabrício Queiroz

Igor Mota

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empre conectada ao contexto social e cultural, e de olho nas mudanças que ocorrem no mundo, uma das mais antigas formas de expressão humana – a arquitetura -, hoje, busca uma constante atualização do papel dos profissionais e de sua função no mercado. De acordo com o professor doutor Juliano Ximenes Ponte, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará, um dos aspectos em que se visualizam essas mudanças é no aprofundamento de uma abordagem ambiental nos cursos de graduação da área. Ximenes diz que essa constante atualização, hoje com um foco mais sustentável, ocorre “por conta das exigências curriculares do Ministério da Educação (MEC), mas também por causa de uma sensibilidade que nós tivemos em relação às demandas da própria região”. Isso porque o arquiteto urbanista

pode empregar seu trabalho em diversas escalas, desde um móvel até uma cidade inteira, como explica o professor. “Por lei é um profissional capaz de projetar, de avaliar ou analisar e de executar ou construir estruturas. O arquiteto também deve ser responsável pela restauração e preservação do patrimônio histórico. Também é incumbência do arquiteto emitir laudos técnicos e fazer a consideração da avaliação de impacto socioambiental das suas intervenções”, completa. O profissional de hoje também se preocupa com planejamento das cidades ligado ao meio ambiente. A arquiteta urbanista Annya Oliveira acredita ser imprescindível a preocupação com alternativas sustentáveis na área. Para ela, a incorporação de práticas que visam à eficiência energética e o reaproveitamento de água, por exemplo, crescem gradativamente. Ainda falta, entretanto, maior conscientização dos clientes dos benefícios em longo prazo

que essas soluções podem oferecer. “Muitas vezes, o cliente não aceita bem o que é inovador porque tem um custo elevado. Então, parte do profissional passar as vantagens, mas a gente espera que no futuro o cliente tenha uma consciência maior”, afirma Annya. Na UFPA, o curso está prestes a implantar uma mudança de currículo a partir de 2013. Com a alteração, devem-se aprofundar os estudos e pesquisas em áreas relacionadas ao meio ambiente. Hoje, a grade curricular apresenta disciplinas como Ecologia Urbana e discussões sobre planejamento urbano e regional e sobre a racionalização do processo de construção civil. Segundo o professor Juliano Ximenes, a ideia é aproximar o universitário da realidade da atuação técnica e prover um contato maior com a prática, mas também para permitir que o acadêmico seja mais crítico em relação a sua atuação na sociedade.

ONDE CURSAR?

Instituições públicas que oferecem curso de Arquitetura e Urbanismo

Universidade Federal do Pará (UFPA) Informações: www.portal.ufpa.br Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Informações: www.ufam.edu.br Universidade Federal de Roraima (UFRR) Informações: www.ufrr.br Universidade Federal do Amapá (Unifap) Informações: www.unifap.br Universidade Federal do Tocantins (UFT) Informações: www.uft.edu.br

Estudo - O professor Juliano Ximenes (à direita) leva alunos de Arquitetura para atividades extra sala de aula

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Universidade Estadual do Maranhão (Uema) Informações: www.uema.br


PASSEIO DE BARCO

Estímulo à leitura e à criatividade

ELISEU DIAS / AGÊNCIA PARÁ

Os leitos dos rios serão o cenário do XVI Encontro do Projeto Integrado “O Imaginário nas Narrativas Orais Populares da Amazônia Paraense” (IFNOPAP) e do VI Campus Flutuante. Os eventos acontecerão de 2 a 11 de agosto, em diversas cidades da região nordeste do Pará. Com o tema “Da PréHistória à Modernidade: Navegando entre o rio e a floresta em busca das origens”, o evento aceita inscrições até o dia 12 deste mês. O pacote completo custa R$ 600 e inclui transporte, hospedagem e alimentação. Mais informações no site do evento: www.ifnopap. blogspot.com.br.

SOLO E ÁGUA

FAUNA

FICOLOGIA

A XIX Reunião Brasileira de Manejo e Conservação do Solo e da Água acontecerá na cidade de Lages (SC), entre 29 de julho e 3 de agosto. O evento vai discutir problemas e soluções para o ensino, a pesquisa e a transferência de tecnologias e conhecimentos relativos à conservação do solo e da água. As inscrições podem ser feitas pelo site www. rbmcsa.com.br até o início do evento e variam entre R$ 150 e R$ 540.

A cidade de Monte Belo, em Minas Gerais, sediará o 4º Curso de Ecologia e Conservação do Instituto Sul Mineiro (IV Ecosul-MG) no período de 11 a 15 de julho. Durante o evento acontecerão cursos teóricos e práticos sobre amostragem de fauna em paisagens fragmentadas. A inscrição custa R$ 450 e é feita exclusivamente pelo e-mail ecosulmg@gmail.com. Para efetivar a inscrição, os alunos inscritos deverão enviar link de curriculo lattes atualizado.

O XIV Congresso Brasileiro de Ficologia (CBFic) será realizado em João Pessoa (PB), na Estação Cabo Branco de Ciência Cultura e Artes, no período de 17 a 21 deste mês. As inscrições podem ser feitas até a véspera do evento, através do site www.sbfic.org.br, com uma taxa que varia de R$120 a R$ 360, ou R$ 50 por minicurso. O tema central é “O Universo da Ficologia” e vai abordar questões como biologia molecular, biotecnologia, controle e monitoramento ambiental.

CIÊNCIA AGRÁRIA

ENGENHARIA AMBIENTAL

BIOLOGIA CELULAR

A 12ª Semana de Integração das Ciências Agrárias, realizada pela UFPA, acontece apenas em novembro, mas as inscrições e o envio de trabalhos se encerram neste mês. Este ano, o tema explorado é “Organização Produtiva para o Desenvolvimento Rural na Amazônia”. Os interessados podem se inscrever até o dia 15 de julho, a R$ 30 por trabalho inscrito. O edital com todas as instruções para quem vai participar do evento está disponível no endereço www.ascom. ufpa.br/links/sica.pdf. Os três melhores trabalhos serão premiados e todos os inscritos serão publicados.

O Encontro Nacional dos Estudantes de Engenharia Ambiental chega à 10º edição. Organizado pelos estudantes da Universidade Federal Rural da Amazônia e da Universidade Estadual do Pará, o encontro será de 22 a 27 de julho, em Belém. As inscrições podem ser feitas até a véspera do evento, por R$ 340 no site www.eneeamb.com. Através de painéis de discussão e grupos de trabalho, serão discutidos temas como o modelo de exploração da Amazônia, impactos socioambientais da agropecuária no ecossistema amazônico e conservação ambiental.

De 25 a 28 de julho acontecerá o 10º Congresso Internacional de Biologia Celular, paralelamente ao 16º Congresso Brasileiro de Biologia Celular. Os eventos serão realizados no Rio de Janeiro e contará com cursos, palestras, mesas-redondas e conferências. O objetivo é discutir novos temas, técnicas e abordagens que consolidem colaborações nacionais e internacionais no setor. O congresso trará convidados estrangeiros como Bruce Alberts, da University of California (EUA); Daniel St. Johnston, da University of Cambridge (Inglaterra). Inscrições podem ser feitas pelo site www.sbbc.org.br. JULHO 2012

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Férias com consciência ambiental Em julho, quem for visitar os encantos naturais do Estado deve levar na bagagem a responsabilidade da preservação e conservação do meio ambiente. Victor Furtado

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/ ARQUIVO

Acima, Algodoal em vista aérea, com suas águas paradisíacas. No detalhe, turistas chegam ao trapiche do lugar e andam de charretes, típicas da ilha.

IGOR MOT A

Perto do mar

O LIBERAL

HENRIQUE FELÍCIO / ARQUIVO O LIBERAL

C

om o mês de julho a todo vapor, o Pará oferece inúmeras opções para quem quer ter pelo menos um final de semana de folga nesse período de férias escolares. Os balneários com praias ou igarapés são os mais procurados e geralmente ficam lotados e muito agitados. Há, também, quem prefira passeios mais calmos e relaxantes em contato com a natureza. Em ambos os casos, visitar esses locais requer cuidado com o meio ambiente para que as belezas do destino de férias permaneçam intactas para outros visitantes nos anos seguintes. Algumas áreas de proteção ambiental (APA, que fazem parte de unidades de conservação com o objetivo de proteger reservas, mas permitindo o convívio humano) são muito procuradas para o veraneio, como a ilha de Algodoal, São Geraldo do Araguaia e a ilha do Combu. A Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), que administra as APAs, diz que visitantes são bem-vindos nesses locais e diz que é possível se divertir sem degradar o meio ambiente.


Algodoal, a ilha

IGOR MOTA / ARQUIVO O LIBERAL

A gerente da APA Algodoal, Adriana Maués, explica que a ilha é totalmente protegida ambientalmente desde 1990. A localidade fica no nordeste paraense, no território do município de Maracanã, apesar de estar geograficamente mais próxima de Marapanim. A ilha é mais voltada para quem gosta de praias, com destaque para a praia da Princesa e praia da Caixa d’Água. As águas sofrem influência das marés, num sistema de transição entre água doce e água salgada a cada seis horas. Na maré baixa, a praia forma vários pequenos lagos. A praia da Princesa possui 14 km de extensão e já foi mencionada por revistas de circulação mundial e nacional como uma das mais bonitas do País. A água é bem escura e fria. O banho permite o contato com pequenas formas de vida marinha. O lago é uma das sete maravilhas paraenses. “É preciso cuidar dessa maravilha deixando de sujar o lago e os arredores. Nessa alta temporada temos muitos visitantes que deixam garrafas e latas de bebidas por lá, o que polui o ambiente e deixa uma péssima imagem para os turistas, principalmente os de fora”, ressaltou Adriana Maués. Pelo menos 50% do território de Algodoal é formado por mangues. Por isso uma das atividades permitidas, fora do período de defeso, é a coleta de caranguejo. O lugar é um habitat de várias espécies de aves, crustáceos e peixes. Temos a presença de botos, tartarugas marinhas e peixes-bois. A ilha funciona como berçário para esses animais. Mas um dos maiores perigos que temos é o saco plástico. Cerca de 90 % a 95% dos animais mortos que encontramos foi por asfixia ao comer sacos plásticos. Os animais confundem com algas e os comem.

Como chegar

O principal acesso à ilha se dá por Belém. São 163 quilômetros das rodovias BR-316, PA-136 e PA-318 até o porto de Marudá. As vans que fazem o transporte Belém-Marudá também partem do terminal rodoviário sem previsão de horário. Quem vai de carro próprio até Marudá, deve utilizar os estacionamentos que existem próximo ao porto de Marudá e de lá atravessar de barco e pegar as tradicionais charretes do outro lado da ilha.

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As cachoeiras do Araguaia

Como chegar

O município mais próximo das cachoeiras do Araguaia é Marabá, no sudeste paraense. O acesso rodoviário até a cidade é a BR-222 e a PA-150. Também há voos partindo de Belém e ônibus nos terminais rodoviários.

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FOTOS INOCÊNCIO GORAYEB

O município de São Geraldo do Araguaia, no sudeste paraense (a 160 quilômetros de Marabá), é uma grande APA (APA Araguaia) que além das praias movimentadas em julho (quando as águas do rio Araguaia baixam), oferece o Parque Estadual Serra das Andorinhas e Martírios (Pesam). Ambas as atrações fazem a cabeça de milhares de turistas em busca de traquilidade ou de agitação junto às cachoeiras do lugar. Uma das praias mais conhecidas é a praia das Gaivotas, que tem uma grande estrutura de atendimento aos veranistas. Já uma praia mais calma, apesar de bem próxima do centro da cidade é a Santa Cruz. Há quem diga que o nascer do sol acompanhado do canto das gaivotas por trás da serra das Andorinhas é uma experiência inesquecível. O turista, para manter a integridade da natureza das praias, deve estar atento às mesmas recomendações dadas pela gerente da APA Algodoal Adriana Maués para preservar as praias daquela ilha. O parque fica na Serra das Andorinhas, que por isso recebe esse nome, graças à intensa presença dessas aves. O gerente da APA Araguaia e do Pesam, Abel Pojo, explica que para entrar no local apenas é preciso que o visitante, ao chegar no centro do município, se dirija ao escritório da Sema para algumas informações e instruções prévias. Depois, é só seguir rumo a uma das comunidades do entorno do parque. Geralmente a mais visitada (pelo acesso mais fácil) é a Vila Santa Cruz dos Martírios, que fica a 39 quilômetros por terra (um dos acessos em condições mais razoáveis) ou a uma hora de barco pelo rio (pode levar mais tempo, dependendo da época e volume das águas).

Queda d’água

Em São Geraldo do Araguaia, igarapés e cachoeiras são um dos maiores atrativos turísticos do Pará


Do outro lado de Belém

A ilha do Combu fica a poucos minutos da capital paraense e oferece muitas opções de lazer, até mesmo para os pilotos de jet-ski

FOTOS OSWALDO FORTE

Passeio no Combu O coordenador da APA ilha do Combu, em Belém, Manoel Cristino Rego, destaca que normalmente aos finais de semana do ano inteiro a ilha já tem movimento de visitantes. Porém é nas férias que a APA recebe um fluxo mais intenso. A ilha é uma área de várzea, banhada pelo rio Guajará, e por isso possui muitos igarapés. Alguns dos pontos mais aproveitados para o turismo nessa época são o furo da Paciência e os igarapés Combu e Piriquitaquara. A visita também permite o encontro com vida aquática e terrestre. Alguns dos anfitriões mais presentes são os papagaios. O passeio também

oferece o contato com ribeirinhos coletando camarão, açaí e pupunha, produtos que geralmente estão na mesa do paraense e saem de lá. Os piqueniques são mais comuns ao redor das águas com os vários bares e restaurantes, mas há passeios ecoturísticos contemplativos que ficam mais distantes da agitação. “É um lugar muito bonito. Geralmente os comerciantes e ribeirinhos já trabalham essa noção de preservação e consciência ambiental com os visitantes porque já passaram por projetos e capacitações”, diz Rego, ao afirmar que ainda falta a ciração de regras para o uso de lanchas e jet-skis nas águas do Guajará.

Como chegar

A ilha pode ser vista do outro lado da Universidade Federal do Pará. A distância é de 1,5 quilômetro do sul de Belém. É possível chegar a partir dos portos na avenida Bernardo Sayão, mas a principal saída é da praça Princesa Isabel, no cruzamento com a avenida Alcindo Cacela. Todos os dias há viagens. Muitas pessoas chegam com barcos, lanchas e jet-skis.

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Mistérios

Em sentido horário: Lobisomem, Moça do Táxi, Matinta-Pereira, Uirapuru e Curupira. As histórias mais famosas do autor que abriu a mente dos leitores para um mundo sobrenatural da região amazônica.

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ILUSTRAÇÃO GUGA PIMENTEL

A estranha Amazônia de

Walcyr Monteiro Há 40 anos, o jovem escritor Walcyr Monteiro abriu as portas do imaginário popular e publicou um livro que revolucionou o mercado editorial da região. “Visagens e Assombrações de Belém” ainda é um marco da literatura amazônica e referência para as próximas gerações. Anderson Araújo

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Tarso Sarraf

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Passado glorioso

Acima, os primeiros anos de funcionamento do Cine Olympia. À direita, fachada revitalizada e sala moderna

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“Não me impressiono, não. O meu olhar é de pesquisador. Agora, é interessante que a história mais conhecida, que mais chama atenção das pessoas, é a Moça do Táxi”


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ez anos depois do nosso primeiro encontro, voltei à casa do escritor Walcyr Monteiro e encontrei a mesma receptividade e o entusiasmo para falar sobre o que move sua paixão como artífice da palavra e como filho da Amazônia. Em 2002, conversamos para produzir um pequeno curta-metragem a efeito de trabalho para o curso de Jornalismo da Universidade Federal do Pará (UFPA). Uma década depois, em uma noite qualquer de quarta-feira de junho, ele abriu as portas de sua casa, cada vez mais atulhada por suas pesquisas, pilhas de papéis, livros, revistas, cartazes e imagens de fantasmas e símbolos das lendas nossas, dos causos fantásticos, tudo espalhado desde a porta da sala até sua cozinha na metódica desordem de 40 anos de função. Ao 72 anos, Walcyr se denomina um “sobrevivente” e conta que, sem patrocínio algum, alimenta o amor pela pesquisa de mitos e lendas da Amazônia com o dinheiro de sua aposentadoria, que lhe proporciona uma vida sem luxos, porém confortável. Entusiasmado sempre, o escritor não para nunca de trabalhar no que mais gosta: colher e contar relatos de assombros e casos incríveis ocorridos na região. Quarenta anos depois da publicação da primeira história do livro “Visagens e assombrações de Belém”, ele conta os desdobramentos da obra e de sua vida como pesquisador e escritor e anuncia um segundo volume do seu best seller: serão cerca de 25 histórias totalmente inéditas para arrepiar os cabelos e lembrar que vivemos em uma região encantada e cheia de seres deste e do outro mundo. Como foi publicado pela primeira vez o livro “Visagens e Assombrações de Belém”? Há muitos anos em Belém, antes de a televisão chegar por aqui, as pessoas colocavam as cadeiras nas calçadas, defronte das portas, e conversavam sobre as notícias do dia. E, invariavelmente, vinha a conversa sobre os mitos da Amazônia, aquele desfilar de iaras, botos, cobra-grande, matintas-pereiras,

lobisomens etc. Com a chegada da televisão, quem tinha dinheiro comprou televisão, quem não tinha virou “televizinho”, ou seja, ia assistir à televisão na casa do vizinho. E com isso essas histórias pararam de ser contadas. Eu sou um apaixonado pela Amazônia , pelo seu povo, pela sua história, pela sua cultura e achei que essas histórias iam se perder no tempo, como realmente muita coisa se perdeu em Belém, como outras no interior também estão se perdendo. Não somente nesse traço cultural nosso, que é a oralidade, as histórias transmitidas de boca em boca, mas do nosso folclore também.

“Eu não tenho intimidade com o computador, não sou bom... Mas às vezes eu vou pesquisar alguma coisa na internet e tem alguns milhares de sites mencionando o livro”

Aí surgiu a ideia do livro? Eu comecei a publicar aos domingos, com o apoio do Cláudio de Sá Leal, que era secretário de redação do jornal A Província do Pará, as “Visagens e Assombrações de Belém”, justamente para preservar um traço da nossa cultura e, na certa forma, um movimento de resistência cultural. Então comecei a receber centenas de cartas que ora parabenizavam, ora contavam novas histórias, ora pediam um livro. Foi assim que surgiu o “Visagens...”. Qual foi a primeira história? Foi a “Matinta-Pereira do Acampamento”, em maio de 1972. Sei que o livro não foi publicado em 1972. Quando foi a primeira publicação? O livro ficou pronto em 1972, mas a publicação veio ocorrer só 16 anos depois, em 1986, graças ao apoio do secretário de Cultura, Esporte e Turismo naquela época, o Acyr Castro. Foi assim que saiu a primeira edição da Editora Falângula.

Best seller

O livro “Visagens e Assombrações de Belém” foi lançado há 40 anos e é um dos mais vendidos da história da região amazônica

O senhor foi colaborador de jornal, não é mesmo? Eu fui colaborador de jornais da grande imprensa desde os 16 anos, como A Província do Pará, a Folha do Norte e também de jornais estudantis. Profissionalmente, eu colaborei com o Jornal do Dia.

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As histórias de visagens e assombrações tomaram conta da tua vida. Estás aqui com 72 anos falando sobre o tema. Como observas isso? Desde que as histórias começaram a ser publicadas em jornal, elas foram adotadas pela Universidade Federal do Pará, no curso de Letras. Depois que saiu o livro, as histórias começaram a ser adotadas em oito cursos diferentes da UFPA (Universidade Federal do Pará), mas também em centenas de escolas. O livro já foi adaptado para o rádio, transformado em peças teatrais, quer amadoras, quer profissionais; já foi objeto de três escolas de samba - a “Mocidade Botafoguense” (1998), a “Parafuseta de Caratateua” (2008) e a “Rosas de Ouro”, em 2011. Foi transformado também em números de dança e em filmes também. Tem vários vídeos de curtas-metragens, principalmente, sobre a Moça do Táxi. Tu és um homem do século passado. Tu acompanhas como a tua obra tem se espalhado na internet, nas redes sociais? Eu não tenho intimidade com o computador, não sou bom de computador, mas às vezes eu vou pesquisar alguma coisa sobre o tema e tem alguns milhares de sites mencionando o livro e dezenas de vídeos feitos por alunos sobre o conteúdo da obra. Tem muita coisa na internet sobre isso.

“A atração pelo livro é a atração pelo sobrenatural que existe em todo o mundo, em qualquer lugar, e também uma linguagem acessível” 64

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O que mais te impressionou nessas histórias que chegaram a ti depois que publicaste o livro? Não me impressiono, não. O meu olhar é de pesquisador. Eu olho para cada trabalho publicado como um filho que tive e sempre acho que o melhor livro é o próximo a ser publicado. Agora, é interessante que a história mais conhecida, que mais chama atenção das pessoas, principalmente dos jovens, é a “Moça do Táxi”. Eu tenho impressão que há uma identificação entre os jovens e essa moça que viria a ser a moça do táxi, a Josefina Comte, que faleceu em 1931, aos 16 anos. É uma moça bonita e acho que tem uma identificação aí. A mim, a meu ver, não é uma das histórias mais intrigantes. Eu diria que o “Noivado Sobrenatural” e “O Estranho Cliente do Doutor X” são muito mais intrigantes.

As histórias continuam chegando? Ah, sim, eu viajo toda Amazônia coletando isso. Mas, o mais surpreendente de tudo é isso aqui (buscando uma medalha em seu armário). Muitas pessoas do Norte que aparecem no Sul pegaram o “Ita no Norte”. José Veríssimo, Inglês de Souza, o próprio Dalcídio Jurandir, a Eneida de Moraes. Eu não peguei, nem pretendo pegar. Minha trincheira é aqui em Belém do Pará. Mas o que me foi muito gratificante foi receber essa medalha da Comissão Nacional do Folclore, em uma cerimônia pública, em São Paulo. É a medalha brasileira como Folclorista Emérito. Nesses 40 anos, o que tem de diferente nas histórias que chegam a ti? Em 1972, quando escrevi o livro, em Belém não havia motéis. Hoje já temos histórias de visagens e assombrações em motéis. Eu estou preparando um segundo volume do livro que vai incluir essas novas histórias. Tu vais fazer um segundo livro só com histórias novas ou vai mesclar com as que já estão na primeira versão? Só novas. Entre 20 e 25 histórias. Algumas dessas histórias foram publicadas em 1972, mas não entraram no livro, porque só foram incluídas na época 25 histórias. Tem história de coisas novas como visagem em shopping center? Olha, eu ainda não tenho. Mas deve ter, com certeza. Dificilmente tem um lugar público que não tenha. Como enxergas essa repercussão, essa identificação com o livro, de querer ler e também contar as tuas próprias histórias? Acho que aqui exige uma resposta mais complexa. É voz comum dizer que no Brasil as pessoas não gostam de ler. Eu não compartilho desse ponto de vista. Eu acho que se derem oportunidade de ler, se derem mais bibliotecas, melhores escolas, enfim, as pessoas vão ler mais. Se não temos bibliotecas nas escolas, como é que se quer que o povo leia mais livros?


VAMOS COLORIR?

Ninfeia

Nome vulgar

Ninfeia vermelha Nome científico

Nymphaea rubra DESENHO DE MÁRCIO EUCLIDES SOBRE FOTO DE HELY PAMPLONA

Planta aquática originária da Índia é muito utilizada em decoração. Geralmente é confundida com a vitória-régia. Ela acrescenta beleza aos jardins com lagos. Suas folhas flutuantes são grandes, redondas e com bordas serrilhadas. As flores, elevadas acima do nível da água, são formadas no verão, e se abrem brancas, tornando-se róseas e vermelhas com o passar do tempo.

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Nome vulgar

Olho-de-coruja Nome científico

Caligo eurilochus FOTO HELY PAMPLONA

Os falsos nas asas posteriores dessas borboletas da espécie Caligo eurilochus e de outras espécies são muito importantes para a sobrevivência, porque além de serem camufladas com o ambiente, dão a ideia de um animal grande . São conhecidas como borboleta. Pertencem à família , ocorrem desde o , passando e pela América Central até a bacia amazônica na América do Sul. Elas bebem os sucos de frutas fermentadas e néctar de uma grande variedade de plantas.No do Mangal das Garças, em Belém, elas podem ser vistas de perto e em grupo, o que possibilitou ao fotógrafo combiná-las com a beleza da jovem desta foto. 66

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OUTUBRO 2011

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André Abreu


Amazônia Viva  

Edição de julho de 2012. Revista Amazônia Viva

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