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A CABEÇA NA CAMA

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A CABEÇA NA CAMA F I L I P E

L A R Ê D O

2018

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Duas espécies de portas existem, dos sonhos falazes: uma, é de chifre composta; de puro marfim, a segunda. Os sonhos, pois, que nos vêm através do marfim trabalhado, são aparência enganosa e nos falam de coisas vazias; mas os que vêm através dos batentes de chifre polido, para os que os veem, verdade anunciam de coisas futuras. - Homero, Odisseia, canto XIX, 562-567


PRÓLOGO

Nunca imaginei que a história de minha vida mereceria ser contada. Ainda que apenas uma pequena parte dela, ocorrida em um curto espaço de tempo, seja digna de curiosidade creio que a gravidade dos fatos justifique a narrativa que você agora tem em mãos. Antes de mais nada, preciso dizer que, embora possa parecer um relato absurdo, muitas vezes talvez esquizofrênico — e nada seria de meu maior desejo senão que fosse mesmo mera ficção —, garanto que é real. Foi devastador, para mim e para aqueles que me acompanharam durante o período, aceitar que tamanho deslocamento da realidade pudesse estar impondo-se a mim e minha família. Ver o esfacelamento de meus relacionamentos, trabalho, finanças, tudo ao meu redor, 11


foi extremamente doloroso a princípio, mas aprendi a aceitar que eram sofrimentos necessários, ou que, pelo menos, não poderiam ser evitados, e criei justificativas que, naquele momento, pareciam-me adiar o completo colapso de minha sanidade. Decidi contar esta história enquanto ainda tenho lampejos esporádicos de lucidez. Aqui não recebo mais visitas de familiares. Creio que ninguém mais deseje aproximar-se do que me tornei, como se tivessem desistido de alcançar o velho Tomás, habilidoso consultor de investimentos, esposo fiel de Elisa, pai de Simão e Sarah. A única pessoa com quem tenho contato é Alfredo, o rapaz que me faz companhia diariamente. É ele quem transcreve, com muita dificuldade, as palavras que agora alcançam o leitor. Eu conto, a cada visita, no espaço que a sanidade, minha e dele, permite, fragmentos do que me recordo, desde quem eu era antes até as vésperas da grande tragédia e o que me trouxe a este quarto. Serei eternamente grato a Alfredo. Com a naturalidade que Alfredo tem para escrever — algo que eu, homem de números, não de letras, nunca tive —, sinto que meus relatos tendem a parecer menos inverossímeis, como se o que eu conto ganhasse vida e pudesse chegar àqueles que amo e também àqueles que possam passar por uma destruição bizarra da realidade, como a minha. Desde já advirto: não sou louco. Meus familiares e amigos mais próximos sabem disso. Viram e participaram dos acontecimentos; estavam bem próximos a 12


mim e confirmariam, em absoluto, tudo o que manifesto aqui. Talvez, se procurados, queiram evitar falar sobre o assunto. Eu os entendo e os apoio. É saudável para eles que haja certa distância das memórias, e assim eu faria se pudesse. Entretanto, infelizmente me apeguei a elas, desejei permanecer próximo demais. E são essas memórias que chegam até vocês, leitores, com o máximo de rigor que eu e Alfredo podemos ter. Como abandonei os afetos de meu passado, nada mais me angustia. Sinto-me livre quando vejo as palavras que digo servirem aos escritos de meu companheiro, que, a cada dia que passa, parece estar mais interessado e me procura com muita avidez, para perguntar e tentar entender os pontos da história. Assumo que tenho sido um perfeito narrador e me satisfaz ver a ânsia manifesta nele quando lhe conto certos detalhes sobre como acabei preso a um quarto, sem possibilidade de contato com o mundo exterior. A essa altura, imagino que o leitor já esteja curioso para saber os motivos que me trouxeram até aqui. Pois então, a partir de agora, dentro dos limites que a memória me permite, retrocedendo em alguns trechos, avançando em outros e, na medida do possível, remetendo à minha atual situação, passo a contar a história de quando uma cabeça surgiu em minha cama.

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CAPÍTULO 1

Tinha quarenta anos completos quando tudo começou. Trabalhara como bancário por quinze anos, com certa estabilidade e competência que me permitiram ocupar cargos de gerência desde o início da carreira. Sempre disciplinado, e detentor de uma boa habilidade com cálculos e estratégias financeiras, rapidamente angariei rechonchudas bonificações ao bater as metas estipuladas por meus superiores. Além de ser afiado nos cálculos, também tinha facilidade em convencer meus clientes de que os investimentos que propunha eram vantajosos, apesar de nunca serem tão bons para eles quanto eram para mim. Por vezes, especialmente no começo da carreira, sentia-me incomodado em manipular as expectativas 15


das pessoas que se sentavam à minha mesa de agência bancária, fazendo-as acreditar que teriam bons retornos nas transações que lhes mostrava. Grande parte daquelas pessoas eram simples, com graus de inocência que me ajudavam a confundi-las. Eu percebia facilmente o momento exato quando elas paravam de entender o que eu estava explicando e passavam a confiar cegamente nas orientações que lhes dava. Bastava montar números em cima uns dos outros, mostrar tabelas e câmbios, ser convincente e recolher uma assinatura. Daquela forma, eu conseguia os adicionais que me permitiriam viajar e comprar relógios. Um fator que também contava para o meu sucesso era a beleza. Quando comecei a trabalhar em bancos, no auge de minha juventude, a altura, a cor dos cabelos e o porte atlético foram importantes, tanto para a entrada no primeiro emprego quanto para o desenrolar de minha carreira. Era certo que essa beleza não duraria muito tempo, visto que as bebedeiras, farras e noites maldormidas trariam seus efeitos antes que eu completasse trinta anos. As rugas prematuras, a barriga saliente e o fedor de cigarro passaram, então, a afetar minha performance de conquistador. Apesar disso, naquele momento, eu era somente um jovem com um bom emprego, boas bonificações e prazerosas noitadas. Essas práticas exerceram um papel fundamental na transição de um bancário jovem e parcamente idealista para um indivíduo pouco sensível às dificuldades de desconhecidos. Um belo relógio era uma boa 16


justificativa para fazer aposentados assinarem empréstimos, mesmo que não precisassem. Lembro-me perfeitamente de um caso que marcou essa transição — Dona Ofélia, uma senhora de setenta anos, funcionária aposentada da Fazenda Estadual, com uma renda de bom porte e dois ou três imóveis em seu nome. Alguns anos antes, eu a havia convencido a migrar sua conta para um modelo diferenciado de atendimento, com o qual ela teria tratamento exclusivo e redução nas taxas de juros e no tempo de espera nos caixas, tudo isso por um valor um pouco maior do que pagava habitualmente. Ela confiava em mim. Depois de cinco anos como gerente de sua conta, qualquer proposta que eu fizesse a ela era rapidamente aceita. — Dona Ofélia, o que a senhora acha de usar esse valor que está parado na sua conta para investir num seguro de vida? — Claro, Tomás. Mas para que serviria? — Investimento importante para seus filhos... Nunca se sabe o dia de amanhã. Era só mandar o contrato para a impressora e pronto. Ela assinava, com um sorriso brilhante, quase infantil. Até que, passando a conta de Dona Ofélia em meu sistema, verifiquei que, depois de tantos anos, ela estava no negativo. Mas como, com uma renda tão boa? Depois de alguns dias, tudo se normalizou. Entretanto, no outro mês, novamente a conta ficou negativa. E, mais uma vez, foi restabelecida. 17


Depois de três meses, finalmente encontrei-me com Dona Ofélia na agência. Ela me parecia cansada na fila do caixa para clientes diferenciados — que deveria ser pequena, mas não era. Sua visita ao banco visivelmente não era para falar comigo. Mesmo assim, dirigi-me a ela, cumprimentei-a com gentileza, e convidei-a para tomar um café à minha mesa. Ao sentarmos, falamos sobre amenidades, enquanto eu abria, sem que ela percebesse, os dados de sua conta, transações, valores. Sua conta estava no negativo, e o valor era bem maior do que das vezes anteriores. Naquela ocasião, duas coisas dominavam minha cabeça: a viagem de férias, que ocorreria dali a alguns dias, e as metas que eu deveria bater para financiar minha diversão no estrangeiro. Assim, minha atenção à Dona Ofélia era constantemente abalada, e, ao perceber a oportunidade que ela me dera, num átimo montei a estratégia perfeita. Depois de alguns minutos de conversa simpática, abordei: — Dona Ofélia, vejo aqui que a senhora está no negativo. É algum problema com que eu possa lhe ajudar? — Problema nenhum, Tomás. Apenas umas questões financeiras que já estão sendo resolvidas. — Que bom! De qualquer forma acho que tive uma ideia aqui. — Troquei o jeito meigo, de alguém sensibilizado pela dificuldade do outro, para o olhar assertivo, de quem sabe exatamente o que fazer. Precisei de poucas consultas ao sistema para propor: 18


— Pelos juros do cheque especial que a senhora está pagando neste momento, eu acho que a melhor saída é fazermos um empréstimo, para entrar dinheiro na sua conta. Consigo fazer com que os juros do empréstimo sejam mais baixos do que os que a senhora está pagando hoje. E, já que a senhora me disse que as questões financeiras estão sendo resolvidas, o quanto antes a senhora quitar o empréstimo, melhor. Pura manipulação de dados. Em termos de juros, o que estava oferecendo a ela era quase a mesma coisa, a diferença era que, além de me ajudar a bater a meta do mês, ela também correria o risco de, caso não conseguisse quitar o débito logo, ficar bem enrolada em dívidas. Pelo valor substancial do empréstimo, Dona Ofélia, a princípio, ficou um pouco reticente. Afinal de contas, nunca havia estado em uma situação como aquela. Entretanto, bastaram as investidas certeiras, pinceladas com cálculos complicados demais para ela entender e intercaladas com alguns “só quero lhe ajudar” da minha parte, para amaciá-la e convencê-la de que era um bom negócio. Assinaturas recolhidas. Viagem para Miami garantida. Meses depois, descobri. Dessa vez, era o filho de Dona Ofélia que se sentava à minha frente. A mãe tivera um grave problema de saúde e havia falecido. Ele estava ali para encerrar a conta dela. E qual não foi sua surpresa ao constatar o valor devido, que ganhara 19


bastante corpo nos meses em que Dona Ofélia não conseguira pagar. Apesar da consternação do filho, entendi que ele tinha de onde tirar, provavelmente dos imóveis que havia recebido de herança. Em poucos dias, a conta estava regularizada e encerrada. Em minha consciência, ecoava: paciência... antes o meu, depois o dele.

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A cabeça na cama (páginas iniciais)  

"A cabeça na cama" é um romance com pitadas de nonsense e narrativa neofantástica. A trama se constrói em torno da vida de Tomás, rico geren...

A cabeça na cama (páginas iniciais)  

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