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A21 / CIDADES CRIATIVAS

Texto: José Romano, Filipe Gil e Dr. Bakali Fotos: Catarina Botelho (excepto quando mencionadas)

LX Factory

José Romano

Nos terrenos para onde Manuel Mateus e Frederico Valsassina começaram por desenhar o plano “Alcântara XXI”, agora a cargo de Manuel Fernandes de Sá, existem diversos espaços industriais devolutos ou desinteressantes para as funções originais, que aguardam por autorização para edificar novos empreendimentos imobiliários. No entretanto, enquanto não chega a autorização, (que pode demorar uns meses, ou alguns anos: 5, 10,… - ninguém sabe!), uma empresa de gestão de activos, a Mainside SGPS, alugou alguns dos edifícios, anteriormente ocupados pela gráfica Mirandela, para ai albergar um “cluster de empresas criativas” designado de “Lx Factory”. O projecto lançado em 2007 tem essa marca identitária do efémero. Trata-se

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de um lugar cheio de memória, marcadamente eficaz e industrial, constituído por grandes edifícios de alvenaria de pedra com estruturas portantes periféricas, pontuados com pórticos metálicos e/ou de betão armado onde convinha, em função do elevado peso das máquinas da gráfica que se distribuíam pelos vários pesos. Este tipo de ocupação original determinou a existência de um pé-direito generoso e de lajes, entre pisos, de grande resistência mecânica, que agora são uma interessante oportunidade de apropriação livre, facilmente transformáveis em qualquer função urbana: escritórios, ateliers, habitação, escolas ou hotelaria. Seria virtualmente possível albergar qualquer destas funções nestes edifícios. Toda a apropriação do edifício, decorre, como explica a arquitecta gestora do espaço - Filipa Baptista da Mainside - desta característica temporária, que todos os inquilinos aceitam contratualmente e que salvaguarda que a qualquer momento, face ao licenciamento do “Alcântara XXI”, todos os espaços terão que ser libertados. O lugar foi por isso tratado com simplicidade e descrição pelos arquitectos João Alves e Ana Pinto, mantendo a sua essência original, os seus volumes, a fenestração, a materialidade, mas acrescentando cor e alguns apontamentos de desenho mais cuidado numa ou outra caixilharia, ou nas paredes divisórias de um corredor. Em todo o edifício é patente a preocupação da parcimónia de recursos, dando origem a interessantes reutilizações de portas e elementos construtivos que existiam pela fábrica. Estas velhas peças que agora readquirem significados e funções, emprestam, por seu lado, uma particular patine de memória e textura a todo o conjunto, conferindo-lhe verdade tectónica e a dignidade que o tempo reserva às coisas puras e genuínas. Despido de ornamentos e artificialismos

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A21 / CIDADES CRIATIVAS

LX Factory / A21

legenda: Portaria / recepção Restaurante/ Cafetaria

Espaço show-room Test on art-Galeria de arte contemporânea

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espaço multiusos / sala polivalente Lojas/ showroom/ outros de natureza comercial Átrios comuns circulações verticais instalações sanitárias escritórios / ateliers / oficinas - tipo 1 escritórios / ateliers / oficinas - tipo 2 jardins semi-exteriores

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R 1 de Maio

Imagens: Ana Pinto e João Alves

verdes contíguos, (alegadamente em curso) e que muito poderão contribuir para essa função de contaminante social. Por outras palavras, a qualidade e o potencial do espaço privado ainda não é acompanhada pelo conforto e qualificação do espaço colectivo, o que naturalmente encontra fácil explicação nas particularidades efémeras da intervenção e também no modelo do negócio que consiste no aluguer dos espaços privados, que assumem por isso a primazia dos recursos e da atenção. Os promotores garantem tratar-se de uma caso interessante de sucesso, atestado pelo facto de estarem já a ocupar um piso superior que ainda estava vago. Segundo Filipa Baptista a taxa de ocupação actual supera os 75%, estando para breve a instalação de diversas novas empresas, nomeadamente da Livraria “Ler devagar” que se junta a outras marcas de referência como a “Paris7” ou da “Biodroid”. No final de Maio, os promotores repetem a iniciativa do “open-day”, abrindo todo o espaço ao público, permitindo que se transforme, por momentos, numa grande galeria da criatividade. Nesse período e tal como aconteceu com a interessante exposição que albergou de Peter Zumthor e em outras iniciativas abertas ao público, a LX Factory presta um importante serviço público à cidade de Lisboa, contaminandoa com energia criativa, rompendo preconceitos e agitando mentes. Este é, por todas as razões, um lugar a visitar. (www.lxfactory.com)

P.T.

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N

marginais ou supérfluos, o edifício mostrase agora na sua forma mais bela e pura, disponível para ser usado. Provocador, sensual e disponível, aceita o seu lugar de suporte discreto, das várias assinaturas (tags) de criatividade e de singularidade de cada um dos seus ocupantes. Os traços de identidade e de contemporaneidade são assim assinalados pela cor, pela iluminação artificial, ou pela materialidade dos elementos novos – sobretudo das paredes divisórias, colocadas a dividir as grandes naves originais - que eram em regra espaços amplos e não compartimentados, divididos agora em pequenas áreas de trabalho, individuais, alugáveis às várias empresas que ali se querem instalar. Por isso, embora os espaços comuns tenham um certo sentido unitário, os espaços individuais, dentro de portas, são arranjados com grande liberdade conceptual e criativa pelos seus próprios ocupantes, ou por alguém, por eles convidado a faze-lo. As funções que ali encontraram lugar são bastante diversas, indo desde o design, à publicidade, ou à arquitectura, até aos jogos virtuais, cinema, livrarias, ou aos “showrooms” de marcas mais conceituadas. “Start-ups”, micro-empresas, ou empresas mais sólidas e com um maior número de colaboradores, encontraram forma de se alojar, porque as grandes naves permitem, com muita facilidade, moldar as paredes divisórias às necessidades de espaço da empresa. O espaço, globalmente considerado, peca ainda por ser tímido a promover o encontro entre os diferentes ocupantes. Há poucos espaços de contaminação de ideias e de encontro ou simples conversas. Nesta área assinalam-se os interessantes espaços cobertos de restaurante e cafetaria e as respectivas esplanadas ao ar livre, mas fica a apetecer encontrar mais espaços que convidem ao encontro informal e casuístico entre corredores ou no meio de algumas salas, que promovam a troca de ideias de forma informal ou espontânea, enquanto se fuma um cigarro ou se descontrai um pouco. Este mesmo raciocínio é valido para o mobiliário colectivo que escasseia no edifício – interior e exterior - e para a falta que faz a remodelação dos espaços

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A21 / CIDADES CRIATIVAS

Filipe Gil

Vox Pop

LX Factory / A21

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“A LX Factory vem responder a diferentes necessidades da cidade proporcionando aos lisboetas a possibilidade de uma nova descoberta: um complexo industrial do final do século XIX com uma arquitectura particular no qual trabalha uma comunidade criativa jovem”, quem o afirma é Sara Battesti que, em conjunto com Bruno Cecílio, criou o atelier-loja “E Viveram Felizes Para Sempre”, um dos primeiros habitantes do espaço da LX Factory. Outro dos residentes desde os primeiros tempos é o atelier de decoração de Bárbara Bliebernicht e Rita Cabral. As reponsáveis sublinham a importância de se trabalhar e “beber criatividade” naquele espaço, e indicam que uma das vantagens de se trabalhar naquele local passa muito pela troca de experiências com pessoas com o mesmo espírito empreendedor, dinâmico e criativo. “Existe muita gente a entrar pelo atelier a dentro para saber de que forma podemos trabalhar juntos”, sublinha Bárbara. Também a empresa Knotkids que cria roupa para crianças está presente no espaço da LX Factory desde Junho de 2008. Carla Caetano responsável da KnotKids indica que a experiência de ali estar sedeada é “óptima já que permite conhecer pessoas de outras empresas e fazer trabalhos em conjunto, isto apesar das condições físicas não serem as melhores”, e acrescenta “criase uma dinâmica interessante quando as empresas começam a trabalhar em conjunto, pois há sempre alguém que faz o que precisamos”. Apesar dessas sinergias elas deviam ser mais regulares, pelo menos é a opinião de Sara Battesti. No entanto, a responsável pelo atelier-loja que renova peças de mobiliário tem esperança que com a entrada de novos residentes possa existir um “potenciar das sinergias para trazer efeitos positivos reforçando-se a dinâmica da LXFactory”. A LX Factory não é apenas um local de trabalho mas um espaço onde acontecem exposições, ciclos e projecções. Representando um espaço cultural alternativo que, nas

palavras de Battesti “estimula a dinâmica criativa de Lisboa”. Umas dessas iniciativas, o Open Day, surge como uma das preferidas pelos vários residentes do espaço. Neste dia é estimulado o desenvolvimento de actividades e exposições efémeras dando outro ritmo e pulso ao espaço de Alcântara e, por positiva contaminação, ao resto da cidade, cooperando para a criação e efectivação de uma cidade mais criativa. “A LXFactory contribui activamente para posicionar Lisboa como cidade criativa na medida em que dá voz a talentos emergentes e projectos frescos, fora dos circuitos mais institucionalizados, sublinha Battesti”. Na opinião de Carla Caetano essa contribuição para a criatividade da capital portuguesa é importante notando que “actualmente começa-se a ver pessoas que trabalham noutros tipos de negócios a visitar a LX Factory à hora de almoço, ou seja, a LX Factory tornou-se um espaço agradável para a cidade”. Mas nem tudo é fácil para os residentes da fábrica das industrias criativas à beira Tejo, o projecto é a prazo e, um dia, estas empresas terão que rumar a outras paragens. Carla Caetano indica que pelo menos irão ficar as recordações da agradável experiência. “Será mais uma fase da vida das empresas e esperamos que possamos todos crescer com esta experiência e procurar alternativas igualmente enriquecedoras no futuro”. Já Sara Battesti indica que existe a consciência presente de que é um projecto a prazo e reforça a ideia que até isso acontecer talvez surjam outras opções com o mesmo espírito noutro local da cidade. “Esperemos que esta experiência sirva de exemplo e que outros espaços fechados, incluindo os da câmara (de Lisboa), possam ser relançados com esta mesma abordagem. Só temos que esperar que a moda pegue, dando maior amplitude ao fenómeno tal como acontece em várias capitais, europeias e não só”. Por sua vez, Bárbara Bliebernicht mantém a esperança na permanência da LX Factory como pólo criativo: “em Portugal nada é decisivo e talvez nem saíamos deste lugar, logo se vê!” Info: www.eviveramfelizesparasempre.com www.knotkids.com www.barbarab.org 35


A21 / CIDADES CRIATIVAS

LX Factory / A21

“vive-se um ambiente informal como nenhum outro no país”

Mas se vivemos, os emparedados, Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...

Cesário Verde

Dr. Bakali

Numa rua de sentido único escondida atrás do Largo do Calvário encontra-se hoje uma ilha invulgar no que foi outrora foi uma espaçosa tipografia. Quem aqui chegou há um ano atrás – num Inverno duro – e encontrou edíficios vazios, corredores longos e monótonos, paredes corroídas e o silêncio só interrompido pelo marulhar automatizado da ponte 25 de Abril, dificilmente imaginaria a LX Factory d’hoje, plena de reboliço, a ecoar estrofes antigas de Cesário Verde. A citação não é inocente: aqui sentimo-nos realmente Ocidentais. Numa era em que a telemática (e a política, é preciso não esquecê-lo) fomentou parques tecnológicos, clusters e outros prodígios arquitectónicos (inserir ironia!); em que se acreditou que as indústrias criativas poderiam cumprir-se em teletrabalho com gente de roupão e pantufas; e, finalmente, que o luxo tecnológico estaria na base do conhecimento – é tranquilizador verificar a modernidade absoluta deste espaço em vias de destruição. O facto de tratar de um lugar a prazo não deixa de estimular uma certa sofreguidão, uma sensação de estarmos a explorar uma brecha no tempo. E, concerteza, também a de assistirmos a um estranho fenómeno metropolitano: a LX Factory é absolutamente central a Lisboa: transportes públicos (incluindo o acesso à outra margem do Tejo), serviços, restau-

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ração; tudo isto existe a poucos minutos de distância. Tais condições ou vantagens são, noutros pontos da cidade, pressuposto para preços proibitivos. Ao invés, aqui acorre gente empreendedora e pequenas empresas, atraídos pela viabilidade dos espaços. Aos poucos, desde a desolação desse primeiro Inverno, foram chegando e tecendo uma malha de relações, criando uma espécie de culto em torno do lugar, alicerçando a certeza de que se é mais moderno quando as paredes e o chão respiram história. Diria que há dois factores fundamentais que ajudaram a definir a LX Factory e que precisam ser preservados: a presença de estúdios de artistas (talvez as primeiras vítimas da agora crescente procura de espaços), exposições temporárias e outras festas que estimulam o trânsito desde fora para dentro; e a manutenção da variedade de construções desde o gigantesco e nobre edíficio principal aos barracões semi-improvisados, sem qualquer tentação de normalização. Em suma, vive-se um ambiente informal como nenhum outro no país – um espaço sem excesso de códigos (pese embora a recente sinalética para circulação automóvel) promove-o. Saber se a LX Factory resiste e tem realmente capacidade de mudar alguma coisa depende agora de transformar estas relações informais

em relações de negócios, em combustão criativa, em partilha de visões. A LX Factory é, em minha modesta opinião, um laboratório, uma hipótese urbana, a que convém, o mais cedo possível, dar a devida importância. O Verão que se aproxima será definitivo, agora que o espaço está quase preenchido, para determinar se ainda se sonha na cidade.

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LX Factory  

Artigo para a revista Arquitectura 21, feito com outros autores.

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