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Perfil Marco Balesteros

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Self Publishing A tipografia e a edição independente têm sido as áreas de eleição nos últimos tempos do designer gráfico Marco Balesteros. São vários os projetos em que está envolvido, desde o atelier Letra à Random Press, editora dedicada a criar pontes entre várias áreas culturais, feita com mais dois designers entre Lisboa e Frankfurt. A sua passagem pela escola Werkplaats Typografie continua a marcar a sua forma de pensar e de fazer design

Computer Arts Portugal: Qual foi o teu percurso antes de fundares o atelier Letra? Marco Balesteros: Depois de ter feito Belas-Artes passei pela RMAC e colaborei com alguns estúdios de design como, por exemplo, o atelier Barbara Says. Depois estive dois anos a estudar na escola Werkplaats Typografie, na Holanda, e quando regressei a Portugal, há cerca de dois anos, fundei o atelier Letra. CA: Porém, para além da Letra, também existe a Random Press? Qual é o propósito desta editora? MB: A editora Random Press é um projeto que tenho em conjunto com os designers Michael Satter e Sandra Doeller e que coexiste entre Lisboa e Frankfurt. É um “espaço” dedicado a publicações irregulares, e focamo-nos na publicação independente, no self publishing. Embora possa parecer pelo nome, a arbitrariedade não é o lema da Random Press e, na realidade, é totalmente o oposto, mas quisemos usá-la como uma asserção. O self publishing é atualmente um fenómeno e toda gente publica. Designers, artistas, curadores, escritores redescobriram o potencial da publicação e da impressão e encontram nesse espaço uma via para instar o pensamento

e a abordagem crítica, experimental e especulativa. Usam-na para estabelecer novas redes, novas ligações e novos contatos. E exatamente porque hoje em dia “todos” editam, a sobrevivência nesta área é uma constante. Há que nos adaptarmos a isso, encontrar novas estratégias, quer no que respeita a conteúdos, quer no que respeita à distribuição e produção. Um dos maiores desafios de quem produz conhecimento é encontrar novas relações que ultrapassem as barreiras do pensamento especializado, o ato da edição é uma maneira de o fazer. A Random Press lida com algumas dificuldades, mas simultaneamente essas dificuldades são vistas como vantagens visto que todos os que estão envolvidos na Random Press têm interesses particulares, levando a que todas as decisões tenham de ser bem pensadas e refletidas. Para além de termos o nosso tempo limitado devido à prática profissional o resultado final é também resultado disso. No futuro, a Random Press será delineada pelas publicações que serão publicadas sob a sua chancela. Iremos usar os títulos não tanto como uma estratégia para ter lucro, mas como trampolim para estabelecer diálogos com potenciais leitores e colaboradores.

Texto: Filipe Gil Fotografia: Isa Silva

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Perfil Marco Balesteros

31 01 WTX – Werkplaats Typografie Party, Poster 2009

05 Livro “Habitar Portugal”, Dutch Art Institute, 2009

02 e 04 LH2O, Poster e Garrafa, respetivamente, 2009 (com Pedrita)

06 “Jane Fonda”, Random Press#4, 2011

03 Cartaz Sophie

07 WTatNEON – Werkplaats Typografie at Neon, Flyer 2009

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CA: Como já foi referido frequentaste a Werkplaats Typografie, na Holanda? Como foi essa experiência? MB: O curso na Werkplaats Typografie, que não tem propriamente um nome, é um Mestrado em Design Gráfico e Tipografia. A escola foi fundada por Karel Martens há cerca de 14 anos. Iniciou-se como um espaço de trabalho (werkplaats quer dizer local de trabalho em holandês), os participantes dos primeiros anos foram convidados por Martens para partilhar um espaço, projetos e uma “atitude de fazer”. Mais tarde a escola evoluiu para um mestrado oficial reconhecido pelas instituições oficiais holandesas, mas sem nunca perder o seu espírito inicial. A escola possui um edifício próprio, no qual havia funcionado uma estação de rádio nos anos trinta. Aceita apenas seis a nove alunos por ano com a particularidade destes terem a chave do espaço, que para além de um espaço de trabalho que se torna também uma espécie de segunda casa. Os alunos trabalham em comissões reais ou em projetos auto iniciados, e a escola não gira apenas em torno do design gráfico, já que tenta “tocar” nas artes plásticas, literatura e cinema como forma de alimentar conceptual e formalmente os projetos.

permitem uma reprodução muito rápida (cerca de 130 cópias por minuto), o uso de cores puras para além de trabalharem com gramagens de papel entre as 50 e as 250 gramas, aproximadamente. A aparência da cópia é muito semelhante à de uma serigrafia. E é, quanto a mim, a ferramenta ideal para imprimir um livro com poucos exemplares, flyers ou cartazes. O que me agrada, sobretudo, é a materialidade das cópias e a vibração das cores e, obviamente, o seu baixo custo.

CA: Alguns dos trabalhos que realizas são impressos em Risografia. Explica-nos um pouco esse método e qual a razão de o usares? MB: A Risografia é um processo algo arcaico. Tem origem no Mimeógrafo, um aparelho duplicador de material impresso inventado por Thomas Edison em 1887. Foi utilizado para reprodução de uma imensidade de documentos que vão desde os oficiais a fanzines. A RISO (marca japonesa de duplicadores) desenvolveu um sistema mais evoluído. Os duplicadores da RISO já não são estritamente analógicos, pois

CA: A tua proposta para a imagem para o projeto de Sofia 2019, Capital Europeia da Cultura, foi um dos três finalistas, sendo que este concurso teve a particularidade do vencedor ter sido escolhido por voto público. Qual era o conceito da tua proposta? MB: Criei um sistema que pudesse existir em vários suportes, mas que, em simultâneo, tivesse uma flexibilidade muito grande. Aliás essa é uma das tónica dos meus trabalhos. Há uma frase da qual gosto muito, e de que se desconhece o autor, que é: “Fiz esta carta muito longa porque não

CA: Para além das aulas na ESAD das Caldas da Rainha, continuas a dar worshops. Sobre que temas? E onde os costumas dar? MB: Os workshops são sempre em torno da publicação própria, não como um fim em si. Relacionam-se com as Artes Plásticas, arquitetura, fotografia, etc. Têm sido também uma oportunidade para viajar e trabalhar com pessoas fora e dentro do país. Em conjunto com a Sofia Gonçalves, fiz alguns em Portugal, nomeadamente na Faculdade de Belas-Artes, o “Samizdat”, para a Trienal de Arquitetura, o projeto “House on Demand”. No estrangeiro fiz os workshops “Second Circulation”, em Darmstadt, na Alemanha; o “Low High”, em Madrid e o “Hard Edit” em Bucareste.

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tive tempo de a fazer mais curta”. E é verdade! A síntese é um processo muito complicado de conseguir, e é isso que tento fazer. Tento sempre fazer algo muito simples que se possa depois desdobrar. A proposta para Sofia 2019 necessitava de ter uma linguagem intemporal mas, ao mesmo tempo, tinha que ser contemporânea, não podendo ser um exagero de artifícios gráficos. Foi um exercício de depuração completa. CA: E que projetos tens atualmente em mãos? MB: Ultimamente estou a finalizar um livro, “Samizdat”, e a preparar um workshop relacionado com curadoria e publicação própria, para além das aulas que dou na ESAD das Caldas da Rainha. CA: E como é o teu processo criativo, fazes esboços ou trabalhas mais no computador? MB: Não tenho um método de trabalho clássico... faço uns esboços, mas não tenho aquela coisa de começar a desenhar à mão. Na maioria das vezes até passa mais por ler determinado livro ou ver um determinado filme, que influencia o meu trabalho, outras vezes é andar na rua. Às vezes, numa primeira fase, prefiro afastar-me do computador. Inspiro-me muito na literatura, nas artes visuais, também gosto muito de cultura popular, e estou sempre a registar com o telemóvel coisas interessantes que vejo na rua, como por exemplo, os menús dos restaurante, as ementas, e esse tipo de coisas. Tenho até uma espécie de metáfora em comparação com o “soldado desconhecido” que é o “designer desconhecido” que é aquela pessoa que desenha 07

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32 08 Exposição “O Povo”, 2010

09 The Party, Poster 2008

10 “O Livro do Meio”, 2010. Com Sofia Gonçalves

Perfil Marco Balesteros 11 Poster 2010, Sala Polivalente

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12 Sala Polivalente, Galeria Vera Cortês, 2010

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os menús e as ementas dos restaurantes, ou os posters dos concertos de uma forma muito interessante. Ninguém sabe ao certo quem são esses artistas e que por vezes fazem trabalhos incríveis. Ultimamente descobri umas casas na Costa da Caparica, perto da praia, que foram construídas pelos pescadores e que são feitas de retalhos e de objetos. São objetos de arquitetura incríveis. Aliás, estou a pensar fazer uma publicação sobre essa arquitetura feita por não arquitetos o que é algo muito interessante do ponto de vista ideológico.

MB: Sim bastante. Penso que foi com o propósito de trazer algo daquilo que aprendi na Holanda, e do modo de fazer holandês, que me convidaram para dar aulas lá. O único problema é que o sistema de ensino português é ainda muito rígido e conservador. Gostava de ter uma máquina Xerox na sala e dizer aos alunos para deixar os computadores, mas depois há a questão prática... e as turmas têm muitos alunos. Faço um esforço para não lhes dar exercícios reais mas coisas que tenham algo mais experimental. Para que saiam do convencional e derrubarem barreiras que eles próprios têm, o que é difícil porque muitos alunos são um pouco conservadores porque ainda não conhecem muita coisa e torna-se difícil encaixar certo tipo de exercícios. Mas no final quando conseguem derrubar essas barreiras ficam muito surpreendidos com o resultado final, o que é gratificante, até para mim. www.letra.com.pt

CA: Que conselhos dás a quem queira enveredar pela tipografia? MB: Nas minhas aulas digo sempre aos meus alunos que tenham paixão pelo que fazem Ao contrário do que possa parecer não é a questão da linguagem gráfica evoluída que é importante, isso é ganho ao longo do tempo. Importa a paixão, a bagagem cultural e a curiosidade. É algo que implica um grande esforço e que implica ler muito, ver muitos filmes e sair da bolha do design gráfico. A partir daí é trabalhar bastante e ter um carinho especial pelo trabalho – algo que se nota sempre. Tento indicar-lhes que não devem separar a vida pessoal do trabalho e deixem que uma coisa influencie a outra. Comigo acontece muitas vezes estar a jantar com amigos e daí surgirem-me ideias para trabalhos. CA: Indicaste que na Werkplaats trabalhavam o ensino de forma diferente do que se faz em Portugal, nas tuas aulas no ESAD aplicas aquilo que aprendeste na Holanda? 09

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Marco Balesteros  

Entrevista para a Computer Arts edição de Fevereiro de 2012

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