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Texto: Filipe Gil Fotografia: Isa Silva

Perfil Küng

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Küng! Design Depois de ter passado pelos ateliers da RMAC, Mola e Alva, Valdemar Lamego lança atelier Küng Design Bureau. O objetivo passa por trabalhar a um nível internacional em busca dos trabalhos mais ligados ao espetro cultural. Algo que a crise tem privado de fazer à maioria dos designers portugueses Computer Arts Portugal (CA): A primeira pergunta é óbvia: qual a razão do nome Küng? Valdemar Lamengo (VL): Em primeiro lugar queria um nome internacional já que um dos objetivos é trabalhar para fora de Portugal, e depois o nome Küng tem origens nórdicas e as minhas influências de trabalho veem muito dos países do norte da Europa, como a Alemanha, Holanda ou Suécia. E ainda porque, uma vez, ao fazer uma pesquisa pela Internet descobri uma rua na Dinamarca que se chama Küng Valdemars e achei interessante (risos). No início ainda pensei em criar uma personagem fictícia de um designer que se chamaria Ivar Küng, mas depois desisti dessa ideia e ficou apenas Küng Design Bureau. CA: Como é que tem sido feita a divulgação do atelier? VL: A primeira coisa que fiz foi criar o site, que surgiu em Setembro passado. Tive que me meter nas Redes Sociais que ajudam muito a divulgar o que se anda a fazer, e tenho tido alguma visibilidade com o meu trabalho para a revista Parq. CA: Tal como indicas no site, o Küng é um atelier de uma só pessoa, ou seja trabalhas sozinho. Vais aumentar a estrutura em breve ou vais continuar a solo? VL: Por enquanto quero continuar sozinho já que me dá mais liberdade, quer em tempo, quer em criatividade, mas talvez

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aumente a estrutura daqui a uns anos se surgir mais trabalho. Mas logo se vê, sobretudo porque os ateliers com mais pessoas têm o problema de terem que aceitar trabalhos para pagar as contas. CA: Já passaste por pequenos e por grandes ateliers, achas que em estruturas maiores a criatividade e a vontade do designer perde para a vontade do cliente? VL: Isso acontece sempre, uma vez que o cliente tem sempre a última palavra. Nos ateliers mais pequenos existe um maior poder na escolha dos clientes já que não tens de ter dez clientes para pagar a estrutura. Tens de ter, claramente, alguns clientes que te paguem as contas. Mas, no geral, a génese dos clientes dos pequenos ateliers é diferente e menos comercial do que das estruturas maiores. CA: No teu site indicas que estás disponível para colaborar com outros ateliers, designers, etc. Que tipo de colaborações tens feito e procuras fazer? VL: Ainda há pouco tempo colaborei com o atelier “This Is Pacifica” para o Festival Fitei do ano passado. Fiz o catálogo e o flyer. Também tenho colaborado em algumas coisas com a Mola. Às vezes também procuro colaborações para trabalhos que estou a desenvolver. Sou designer mas não sei fazer tudo e sei até onde posso chegar.

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01-02 Capas revista Parq Nº24 e 29 (respetivamente) 03 e 05-06 Layouts da revista Parq números 27, 30 e 31 04 Logótipo Parq

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CA: Antes de lançares o teu atelier, passaste pela RMAC, Mola e Alva. O que retiraste dessas experiências? VL: De todos retirei coisas, a minha passagem por cada um deles foi sempre boa, aprendi sempre coisas novas e fiz amigos, o que também é importante. CA: Mas a tua passagem pelos Alva não durou muito, porquê? VL: Durou um ano e pouco, sempre pensei em trabalhar sozinho ou estar numa estrutura como os Alva, contudo quando lá estava surgiu a oportunidade de trabalhar sozinho e foi por isso que saí. CA: E destes três ateliers que mencionei, com qual te identificas mais? VL: Se calhar identifico-me mais com o trabalhos dos Alva, mas todos eles contribuíram para eu ser o designer que sou agora. CA: Trabalhas em várias áreas do design: ilustração, design editorial, tipografia, webdesign. Há alguma destas, ou outras áreas, que te sintas mais à vontade e te dê mais prazer a desenvolver?

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VL: O design editorial é a área em que tenho desenvolvido mais trabalho, mas gosto muito de fazer tipografia. Aliás, estou a começar a fazer coisas com resultado final. Antes só fazia algumas letras para logótipos, mas agora já faço algumas fontes completas, apesar de ter a noção que ainda me falta aprender algumas coisas. Criei fontes para usar na criação da revista Parq, criei uma fonte quando estava na Alva para o Festival Materiais Diversos, etc. Mas são coisas controladas, sou eu que as uso e que conheço os seus defeitos e qualidades, e tento aproveitar isso ao máximo.

para o design editorial, vai ser uma mistura muito grande entre várias disciplinas do design. Não quero com isto dizer que não são bem executadas, mas são um pouco limitadas. E acho que falta um pouco de arrojo às publicações portuguesas, se compararmos as revistas feitas em Portugal com algumas revistas estrangeiras que têm fatores que te atraem, como as fotos, as capas, a infografia utilizada, etc., há grandes diferenças. Revistas como a Fast Company, a New Yorker, a Bloomberg Businessweek ou a Wired são revistas com as quais podíamos aprender muito.

CA: Como “especialista” em design editorial, gostava de saber a tua opinião, do ponto de vista geral, do design editorial, sobretudo de publicações e revistas, feito em Portugal? VL: O problema do design editorial é que é muitas vezes limitado e muito restringido e, salvo algumas, poucas, exceções, a maior parte das revistas em Portugal são muito iguais. E isso tem a ver com a liberdade que o cliente dá para criar a própria revista. Mas agora com as novas tecnologias e com os tablets – embora prefira o papel –, irão surgir outras possibilidades que irão completar mais a revista e abrir um novo mundo

CA: Mas achas que essa “diferença” é culpa do ensino do design editorial, de quem faz as revistas, do cliente, dos designers? VL: Em Portugal não há um ensino do Design Editorial. O ensino do Design em Portugal, na maioria dos casos, pecava por ser demasiado antiquado. Agora algumas instituições apostam na renovação do plano curricular, ajustando-o às novas necessidades, casos da ESAD de Matosinhos, ou o curso de Design e Multimédia da Universidade de Coimbra. Que apostam em bons professores e bons designers, pessoas com experiência. Há grandes mestres do Design Editorial em Portugal,

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07 Typeface Hulk 08 Revista Parq 28

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veja-se o caso da Silva!Designers, ou da +2 Designers, entre outros. Os designers portugueses são bons, os grandes grupos editoriais não deveriam ter medo de apostar em nós. Os clientes somos nós, os leitores, e os leitores é que têm de escolher. Escolher a revista com melhor conteúdo editorial e o melhor design. Como leitor, posso dizer que raramente leio uma revista portuguesa porque não são interessantes para mim. Jornais... leio, e acho que no geral são muito bons, apenas tenho saudades do Y antigo. CA: Em jeito de provação: o teu trabalho com a Parq não será demasiado arrojado? O design que crias não causa alguma dificuldade a ler os textos, por exemplo? VL: Já tive algumas discussões saudáveis com o diretor da Parq não por ele não gostar da revista, mas porque alguns leitores já se queixaram do design. Mas a Parq é um caso especial já que é uma revista que para além de ser lida em papel é muito lida online, e muitas das minhas opções são para melhorar a presença online. E também para quando dermos o salto para o formato tablet, a edição digital seja mais próxima da revista impressa. Para além disso, quero mesmo obrigar os leitores a prestarem mais atenção ao texto com algumas das opções que eu faço. Quero que as pessoas façam a sua escolha de ler ou não a revista. Atualmente temos muita informação em todo o lado, na Internet, no Facebook, etc., ao mesmo tempo as pessoas leem cada vez menos e estão mais interessadas em fotos, música ou vídeos. A revista está pensada e feita para quem quiser ler ter de se esforçar um pouco, e quando o faz é porque quer ler mesmo, o que é bom porque a revista tem artigos muito bons. Se não quiser ler, pode-se optar por ver a Parq como um objeto gráfico. Acho que, como designer, tenho de dar aos leitores uma experiência nova em todas as edições, e dar-lhes o que não estão à espera de ver. CA: Para além da Parq o que tens ultimamente desenvolvido? VL: Tenho feito alguns logótipos, mas que ainda estão em standby, e tenho alguns clientes fixos, como a Parq. Para além disso tenho feito uns websites e estou a preparar uma fonte. CA: No início da conversa falámos na influência que o design nórdico tem no teu trabalho, aliás, até no nome do teu atelier. Mas, mais concretamente, quais são essas influências? VL: Tudo! Dou um exemplo, o design holandês é muito arrojado, muito gritante, eu não sou assim tanto, mas inspira-me. Mas eu não vou buscar influências apenas ao design também as vou buscar à arte, à arquitetura, à fotografia, ao design industrial. Aliás tenho uns esboços de design industrial que um dia gostava de desenvolver...

Lissitzky, Ed Fella, Dieter Rams, Bruno Munari e Charles Eames. E artistas como László Moholy-Nagy, Jean Michel Basquiat, Gerhard Richter, Lawrence Weiner. CA: E qual é a tua avaliação ao estado atual do design em Portugal? VL: Acho que está muito bom. Há ateliers muito bons em Portugal e há muito bons designers portugueses que até exportamos para grandes empresas, como o Rui Vieira que é agora é diretor criativo internacional da Fullsix. CA: E existe um “design português”? VL: Não! Já houve quando o design era feito por artistas, pintores, agora não. Cada vez vez mais, vemos a aldeia global a funcionar, e o design de cá tem cada vez mais uma influência internacional. CA: Vivemos tempos económicos difíceis, aliás, lançaste o atelier em ano de crise, como é possível um designer viver em Portugal com estas condições? VL: A crise devia ser a altura ideal para um designer ganhar muito dinheiro, já que as empresas quando estão a viver tempos de crise deviam comunicar muito, pois uma empresa sem comunicar não vende. Aliás, já li em artigos que é em momentos de crise que as empresas tendem a mudar as identidades para se humanizarem um pouco mais e comunicar com os clientes de outra forma. Acho que devia ser uma boa altura para haver um crescimento do trabalho para os designers portugueses. Outra das vantagens é podermos trabalhar para fora do país porque temos salários muito mais baixos do que, por exemplo, um designer inglês. CA: E já sabes qual o mercado em que queres apostar? VL: O local é indiferente, gostava de trabalhar uma área mais cultural ou editorial, no que respeita à criação de livros, capas de livros, capas de CD’s, etc. Com a crise corta-se muito na cultura e nesta altura esses são os trabalhos mais difíceis de arranjar. CA: Que conselho dás a quem se queira lançar sozinho no mercado ou montar atelier? VL: Quem tiver um emprego fixo e goste do que faz deve manter-se por lá, porque nesta altura o salto para trabalhar sozinho ou montar estrutura é muito difícil. Quem o quiser fazer, deve já ter alguma experiência e ter um ou dois possíveis clientes fixos mensais. Deve também divulgar ao máximo os seus trabalhos, quer nas redes sociais, quer em sites especializados. É muito, muito importante mostrar o nosso trabalho! www.k-u-n-g.com

CA: Mas tens nomes que te influenciam ou é uma influência mais geral? VL: Sim, influenciam-me ateliers/designers como os Metahaven, Irma Boom, Michiel Schuurman, MM Paris, Hort. Nomes de mais velhos, ou já falecidos, como Josef Müller-Brockman, Anton Stankonski, Paul Rand,Saul Bass, Milton Glaser, Alexey Brodovitch, Win Crouwel, El 07

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