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Christiane Schnurbein



As Fräuleins esquecidas Preceptoras alemãs nos Açores

Testemunhas relatam


 Índice  As Fräuleins esquecidas dos Açores Prólogo da autora

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Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 De Prof a. Dr a. Fátima Sequeira Dias do Departamento de Economia e Gestão da Universidade dos Açores As Fräuleins alemãs nos Açores – beatas fervorosas ou contadoras de anecdotas atrevidas Entrevista com Gabriela Vasconcelos Rieff, nascida em 1920 Porque é que os alemães beijam de maneira diferente? Entrevista com Clara Agnelo Borges (1921–2002)

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Os gémeos «mauzinhos« . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 Entrevista com Bruno Tavares Carreiro, nascido em 1922 O Pai Natal e anjinhos inocentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 Entrevista com Berta da Câmara Homem de Noronha, nascida em 1923 Um nome multinacional e geometria na escola infantil alemã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 Entrevista com Maria da Luz Fisher Berquó de Aguiar Wallenstein, nascida em 1924 Um milagre de Fátima ou porque é que as moscas têm culpa de tudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 Entrevista com Margarida Teresa Machado de Faria e Maia Alves Mendes, nascida em 1923 De sofrimento prematuro, festas exóticas e um «tio de mármore» Relatório sobre sua a estadia nos Açores (1930 – 1933) Por Clara Thust nasc. Krönig (1908 – 1990)

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A «última desilusão» e como sabe banana com queijo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 Entrevista com Regina Arruda Bensaúde, nascida em 1923 A «Senhora Doutora» muito desejada e as chinelas mal-entendidas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Entrevista com Emília («Mimi») Freitas da Silva Oliveira Rodrigues, nascida em 1915 A loira fria do norte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 Entrevista com Veríssimo Freitas da Silva, nascido em 1923

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 �ndice  Grande viagem e correspondência poÊtica Hildegard Weiz (1897 – 1940)

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Supostos espiþes e virtudes prussianas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145 Entrevista com Hartmut Schaale, nascido em 1941, acerca de sua mãe, D. Ortrud (1914 – 1986) Saias curtinhas e disciplina alemã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161 Entrevista com colegas e alunas da D. Ortrud (1914 – 1986) De uma Fräulein aristocråtica e da vida de uma família alemã em Lisboa na segunda guerra mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175 Entrevista com Margarida von Massenbach Neppach da Veiga, nascida em 1929 Veleiro de bonecas e tomateiros açorianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187 Entrevista com Erich Hausen, filho de Marie Luise (Minga) Lang (1908 – 1999) De chås dançantes, festas a bordo, matinÊs e bailes de måscaras Notas do diårio de 1933 de Marie Luise Lang

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O que tem o chå dos Açores a ver com um preceptor alemão? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 Entrevista com Berta Maria Ferreira Meirelles Hintze e Margarida Hintze Mota Dotti ou a obrigação familiar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 Relatório do Herbert Ernst, nascido em 1946, sobrinho de Ottilie Heilmeier, sobre a sua tia (1902 – 1977) A tabuada a passear ou o que Ê a saudade? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217 Extracto das memórias de Ayres d’Aguiar (1896 – 2000) Mapa da Ilha de São Miguel

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Vista geral das Fräuleins, os seus patrþes e alunos

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Sobre a autora . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224          

              

                               

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As Fräuleins esquecidas dos Açores Prólogo da autora

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räulein», hoje, na Alemanha, é uma expressão desaprovada, politicamente incorrecta e antiquada. Relaciona-se esta palavra com as velhas solteironas dos tempos antigos, cheirando a lavanda, sentadas nos cafés a comer bolos, ajudando as suas famílias como «baby sitters» e, quando velhas, atiradas para os lares de idosos. Durante muitos anos, por exemplo nas repartições públicas da Baviera, todos os funcionários do sexo feminino, solteiras, com idades compreendidas entre dezassete e setenta anos, eram intituladas «Fräulein». No dia 19 de Agosto de 1973 a «Fräulein» (menina) torna-se «Frau» (senhora), através de uma ordem do ministro do interior da Baviera, Dr. Bruno Merk, destinada a todos os funcionários. Citação: «Na correspondência e durante a conversação é obrigatório utilizar o título «Frau»...» Contudo, a palavra Fräulein era, em tempos antigos, um título de honra e espelhava consideração e respeito, lembrámo-nos de «Fausto», de Goethe: MEFISTÓFELES (baixinho, para Marta) Já vos conheço agora, era o que queria Hoje tendes visita de cerimónia. Desculpai a liberdade que tomei, Logo à tarde por cá passarei MARTA (em voz alta) Deus nos valha, filha! Ouviste bem? Este senhor por fidalga te tem!

(Tradução do «Fausto» de Johann Wolfgang von Goethe por João Barrento, Círculo de Leitores, 1999. A palavra «fidalga» no texto original alemão é «Fräulein»)

A lisonja de Mefistófeles torna o sentido muito claro: uma Fräulein é uma visita «nobre», ou seja, da fidalguia, o que nos mostra que a palavra Fräulein sofreu desde 1808, ano em que foi publicado o «Fausto», uma grande transformação relativamente ao seu conteúdo e significação. De facto, era verdadeiramente lisonjeante ser-se intitulada Fräulein. É interessante verificar-se que esta tradição se manteve em Portugal. Senhoras idosas, casadas ou não, gostam de ser intituladas de «menina», especialmente se provêm das classes mais altas, quer pelos seus empregados, quer pelas gentes humildes. Ademais, em geral, «menina» pode ser uma expressão de ternura e de cortesia, até eu sou, por vezes, intitulada de «menina», nos Açores. Na Alemanha, porém, a referida mudança no sentido da palavra começou, em especial, após a II Guerra. Dentro deste contexto, muitas pessoas pensam, quando ouvem esta palavra, no «Fräulein-Wunder» (Milagre das meninas) – neste caso, porém, a palavra era escrita «Frowlein». Esta expressão, como se sabe, é uma invenção dos ocupantes americanos da Alemanha, após a II Guerra Mundial, que ficaram muito admirados com o facto das mulheres alemães não serem só pessoas extenuadas, apagadas, comuns, marcadas por uma má alimentação e por uma crónica falta de vitaminas. Estas eram as chamadas «mulheres dos destroços» que usavam um xaile na cabeça como um turbante, pelas quais, naturalmente, não se manifestava qualquer atracção erótica. Assim, é natural

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 As Fräuleins esquecidas dos Açores  que os soldados se tenham surpreendido com o facto de existirem exemplares francamente aceitáveis da espécie «Frowlein» que condiziam com o gosto americano que já na altura estava marcado pelos filmes glamorosos de Hollywood. Figuras de proa deste fenómeno eram, claro, a Marlene Dietrich e Hildegard Knef. Eu também fui considerada Fräulein assim que atingi a maioridade – que, na altura, era só aos 21 anos. Mas a minha filha de quinze anos recebe hoje em dia cartas nas quais é intitulada «Frau». As encarregadas da igualdade da mulher na Alemanha conseguiram fazer com que não seja possível saber através do nome escrito de uma mulher se esta é ou não casada, e isso acho que talvez seja bom – o que diriam os homens solteiros se fossem intitulados «Herrlein» (senhorito)? Não, decididamente, Fräulein é uma «outword» e relaciona-se, hoje em dia, com uma profissão, mas só quando se recua bastante no tempo. Uma Fräulein era uma professora. Quando eu fui para a escola primária na Baviera todas as professoras eram chamadas, por princípio, «Fräulein», independentemente de serem ou não casadas. (Isso tem a sua origem no «celibato das professoras» que vigorou na Alemanha – com uma interrupção na República de Weimar – até ao princípio dos anos cinquenta: funcionárias públicas eram despedidas mal casavam!). Assim, chegamos ao tema: as Fräuleins em São Miguel eram preceptoras alemãs. Começaram já nos finais do século XIX as contratações de preceptoras estrangeiras, sobretudo alemãs, pelos açorianos cosmopolitas para que elas educassem os seus filhos. Todavia, esta «moda» atingiu o seu auge nos anos 20 e 30 do último século,

portanto, no tempo da «República de Weimar» na Alemanha. A documentação apresentada no nosso livro tratará essencialmente desta época. Para além disso, estas Fräuleins, quando chegavam aos Açores, deveriam ser solteiras e, como iremos saber por várias entrevistas, alguns dos pais que contratavam Fräuleins para os seus filhos achavam muito importante que elas não fossem bonitas (uma exigência que nem sempre era cumprida!). Também queriam que as Fräuleins fossem protestantes, apesar das famílias nos Açores serem católicas, mas iremos tomar conhecimento do motivo para esse facto e como isso acarretou uma certa confusão. (Veja entrevista com Gabriela Rieff, Clara Borges e, especialmente, com Veríssimo Freitas da Silva!) Quem eram estas corajosas mulheres que se entregavam às adversidades do Atlântico sobre tábuas pranchadas de navios sacudidos pelas vagas, para chegarem a este arquipélago «esquecido por Deus» e ensinarem a língua alemã? (Também foram elas as responsáveis por um «Milagre das meninas» avançado, pois a liberdade relativa com a qual se movimentavam publicamente, era, na altura nos Açores, uma coisa nunca antes vista – veja por exemplo a entrevista com Clara Borges e Erich Hausen). «Porque está a escrever um livro sobre um tema tão despropositado? Ninguém vai lê-lo! Já não se usa o termo ‹Fräulein› e quem é que conhece os Açores, se não tiver ouvido falar do anticiclone açoriano no boletim meteorológico?» Comentários como estes e outros parecidos ouvi-os muitas vezes durante as minhas pesquisas e devo confessar que havia momentos em que ficava desencorajada. Quem editará ou imprimirá

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 Prólogo  um trabalho desta índole? Porque faço tudo isto? Para quê importunar as pessoas que entrevisto? Faz sentido a recolha das antigas fotografias desbotadas, cor de sépia? Qual o interesse deste tema? Mas não consegui de deixar de pensar nisso: seguira a profissão de professora, mas, antes de me decidir por esta profissão gostaria de ter estudado línguas romanas – sem ter falado uma única língua romana senão o francês na escola, ainda que de forma muito pobre. Tudo isso mudaria, porém, na minha vida, ainda que relativamente. Quando visitei os Açores em 1988, comecei um caso de amor com estas ilhas e queria aprender a língua dos seus amáveis habitantes. Porém, como nunca na minha vida poderei conhecer toda a riqueza da língua portuguesa, foi necessário recorrer à ajuda de um profissional para a versão portuguesa deste livro. A língua portuguesa é uma amante traiçoeira e estou para sempre condenada a um amor não correspondido. Como fiquei admirada e aliviada quando reparei que havia pessoas na ilha que falavam um alemão impecável, embora, e note bem, não fossem pessoas novas, mas no outono da vida. Da primeira vez fiquei apenas surpreendida com a pronúncia alemã tão clara, mas quanto mais isso acontecia, mais eu me interrogava acerca da origem desse fenómeno. Zumbiam à minha volta frases em alemão como ditados, citados, citações, provérbios, rimas, frases feitas, trava línguas, expressões, tudo num alemão perfeito e encontrava-me imersa num enorme estado de confusão. Onde é que todas estas pessoas aprenderam estas coisas e como é que têm uma pronúncia tão boa? «Bem, tínhamos uma Fräulein quando éramos pequenos» era a simples

resposta, como se se tratasse da coisa mais simples de compreender no mundo. (Acho notável que na Alemanha, entretanto, se comece com a primeira língua estrangeira logo na escola primária, até nas escolas infantis, e isso considera-se muito desejável e progressista – mas é de facto, como se vê, uma ideia recuperada do passado. Porém, uma ideia de sucesso, visto a habilidade dos alunos das Fräuleins, ainda hoje, na língua e isso mesmo quando já não estavam habituados a usá-la há décadas!). No meio do Atlântico – com o Árctico a norte e com a Antárctica a sul, Lisboa a este e Boston a oeste – será que existiu a pedagogia alemã? Tive de ir ao cerne da questão. O meu instinto para a pesquisa foi despertado! – Da decisão até à execução passou, no entanto, bastante tempo e nem sempre existia encorajamento, como já disse. Todavia, existiam pessoas que me inspiravam alento para não desistir; a primeira foi uma jornalista do «Süddeutsche Zeitung» (Jornal do Sul da Alemanha) que visitou os meus terrenos em São Miguel para fazer uma reportagem e que ficou completamente entusiasmada com esta ideia. Foi esta senhora, que entretanto perdi da vista totalmente, quem me deu o empurrão inicial. Costumamos dizer que não há coincidências. Mas imaginem o meu espanto, quando soube no meio das minhas pesquisas que a mãe da minha prima por casamento, Gisela von Schnurbein, também fora Fräulein nos Açores! (Veja o relatório sobre Hildegard Weiz!) Muitas vezes são estas «coincidências» que têm o efeito mais estimulante! Eu tinha também a convicção de que esta pequena pedra do mosaico da história lusoalemã não se deveria perder, ao mesmo tempo que existia também uma certa pressão

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 As Fräuleins esquecidas dos Açores  quanto ao tempo, pois as próprias Fräuleins já tinham morrido e também os seus alunos não estavam a ficar mais novos. Portanto, era importante agarrar estas informações. Aqui deparámo-nos com uma fraqueza deste livrinho: estou consciente de que cheguei (quase) tarde de mais, pois muitas das coisas que me interessaria ardentemente saber já não estavam ao meu alcance. Por exemplo, quanto aos métodos pedagógicos utilizados não consegui saber quase nada, simplesmente porque os alunos na época eram novos demais para reflectir sobre isso e para manter tais factos na memória. Igualmente o material de ensino já não existia, embora alguns dos interlocutores achassem que teriam «algures alguns cadernos». Infelizmente nunca se encontrou nada, com uma excepção: Maria da Luz Wallenstein que encontrou numa gaveta antigos cadernos de exercícios escritos do Kindergarten alemão da Fräulein Brassert em Ponta Delgada, que são interessantes do ponto de vista didáctico e que serão apresentados neste livro. Um dos principais problemas consistiu no facto de muitas moradas e números de telefone se terem perdido ou de os contactos se terem refreado, até desaparecerem. Assim, histórias trágicas como a de Fräulein Maaß não puderam ser esclarecidas na sua totalidade. Por outro lado, cada uma das entrevistas abria novas pistas, as quais nem sempre podiam ser seguidas, porque tecnicamente impraticáveis. Desta forma, fiquei sempre com a impressão de que o livro jamais estaria terminado o que, de facto, é verdade. Desse modo, a palavra «documentação» talvez seja um pouco patética para pôr na capa desta obra incompleta. Esta obra consta somente de um pequeno foco que deverá iluminar uma época

que, quer na Alemanha, quer nos Açores, está completamente imersa. «Era um hábito da época» disse a Sra. D. Emília, que também foi entrevistada (ela teve quatro Fräuleins!) e é este «hábito», em São Miguel, de deixar a educação dos filhos nas mãos dos pedagogos alemães que gostaria de deixar ressuscitar nestas humildes páginas por forma a torná-lo inesquecível. Para alcançar alguma autenticidade, apesar de todas as dificuldades acima mencionadas e de já não poder falar com as protagonistas desta documentação – as Fräuleins – servi-me das entrevistas como modelo. Tudo deveria chegar ao leitor como me foi relatado, mas mesmo assim não foi possível excluir malentendidos – muitas vezes por razões de ordem linguística. Contudo, se não conseguir evitar algumas falhas (apesar de ter conferenciado várias vezes com os interlocutores) isso será da minha responsabilidade e não das testemunhas coevas. Naturalmente, as memórias podem esbater-se e se um(a) entrevistado(a) não tinha a certeza de alguma coisa apontei-o, ou então não incluí essa informação, seguindo a vontade expressa pelos meus interlocutores. Algumas entrevistas são claramente contraditórias – sempre marquei essas partes – mas conscientemente deixei que estas contradições aqui constassem, pois, como saber, tanto tempo passado, quais dos testemunhos são fidedignos? Muitas vezes é interessante ver como as vivências subjectivas de um indivíduo são apreendidas diferentemente por diferentes pessoas. Por essa mesma razão nem sempre se conseguiu evitar repetições pois alguns dos meus interlocutores tinham lembranças parecidas e, por vezes, até iguais. Assim, a repetição que fiz de algumas perguntas veio a revelar-se

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 Prólogo  uma boa ideia, dado que as respostas, a essas mesmas perguntas, variam de entrevista para entrevista – mas nem sempre! Continuando, acho que, hoje em dia, na época da multimédia, seria importante mostrar material visual, neste caso fotografias das quais encontrei uma vasta multidão nos velhos álbuns. Destas imagens, a preto e branco e cor de sépia, olham-nos mulheres interessantes e auto-conscientes, olham-nos crianças que no entretanto se tornaram pessoas de uma certa idade, mas que foram educadas de uma maneira assaz progressista e, finalmente, ressuscita destas imagens um tempo desaparecido da rica existência das casas aristocráticas da ilha de São Miguel. Estas imagens também deverão proporcionar autenticidade e vivacidade que, de outro modo e passado tanto tempo, seriam difíceis de mostrar. Com certeza que o círculo de pessoas para quem este livro é de real interesse é muito pequeno, seja no lado português, seja no lado alemão. Mas, caso este livro se perca, alguma vez, na mão de uma pessoa que não esteja de alguma forma relacionada com o tema, ela poderá testemunhar que na Alemanha, muito antes de acontecer o «Wirtschaftswunder» («O Milagre da Economia» no pós-II Guerra Mundial) ou até mesmo pesquisas como o «Estudo de PISA» (uma comparação internacional a respeito da educação escolar, na qual a Alemanha, como se sabe, ficou mal colocada) existia um pico na exportação: pedagogia alemã, exportada pelas Fräuleins alemãs! De facto, não era um fenómeno meramente açoriano. Uma pessoa que conheci e faz visitas guiadas na Bulgária contou-me, uma vez, que no seu autocarro estavam duas senhoras alemães idosas que falavam correntemente búlgaro, mas que

espreitavam a paisagem da Bulgária como se fosse uma coisa completamente nova. Quando as questionou elas responderam-lhe que tinham sido preceptoras alemãs em famílias aristocratas búlgaras onde eram sobre protegidas e que, por causa disso, nunca tinham visto o país e que agora queriam conhecê-lo na velhice. Também soube pelo Embaixador do Brasil em Portugal que existiam muitas preceptoras alemães no seu país no princípio do último século. Provavelmente existiam Fräuleins alemãs em muitos países. Como iremos ver nas entrevistas, não era apenas a língua alemã que aliciava os pais na contratação de preceptoras alemãs, muito pelo contrário, às vezes deviam falar com os seus pupilos em qualquer outra língua que não o alemão (como acontecia, por exemplo, na casa do Dr. Augusto Arruda: veja entrevista com Regina Bensaúde Arruda!), pois o alemão, para os comerciantes açorianos, não era uma língua importante. Porém, as Fräuleins alemãs eram consideradas, no sentido clássico, como de confiança, profissionais e dotadas de virtudes prussianas, virtudes essas que na altura, em Portugal, eram tidas em alta conta. A sociedade açoriana, antes e durante a II Guerra, estava separada em «germanófilos» e «anglófilos» e foram, com certeza, os germanófilos a ter, de preferência,, preceptoras alemãs nas suas casas, mas existiam excepções. Até hoje existem nos Açores famílias que se orgulham de terem estado, na guerra, na «Lista Negra», porque os seus pais tinham sido germanófilos. Como é conhecido, Salazar conseguiu manter Portugal como país neutro na II guerra, mas os Açores tinham, para os Aliados, uma grande preponderância estratégica, de

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 As Fräuleins esquecidas dos Açores  maneira que ser germanófilo era sinónimo de se ser sujeito a uma certa discriminação. Pessoas que eram suspeitas de fazer espionagem para a Alemanha foram mandadas embora e as suas propriedades foram «congeladas» (veja entrevista com Hartmut Schaale e Margarida Neppach da Veiga). Mantém-se até hoje nas famílias germanófilas este orgulho perante a sua situação de martírio, o que quase deixa parecer as atrocidades de Hitler inofensivas! De maneira que, curiosamente, sendo-se alemão, muitas vezes não se concorda com os germanófilos, ao invés do que acontece com os antigos anglófilos. Todavia, a fidelidade quase trágica com a qual os germanófilos acreditam nos antigos valores prussianos – valores esses que na Alemanha, na actualidade, não são muito bem considerados – é tocante. É interessante que o espírito fechado e «tapado» presente nesta época, como por exemplo o anti-semitismo – que, de facto,

não foi inventado por Hitler – do qual nem sempre as Fräuleins estavam livres, fosse, obviamente, esbatido pelo ambiente culto e cosmopolita das famílias açoreanas (veja o exemplo da Fräulein Maaß, na entrevista com Gabriela Rieff e Clara Borges). A influência pedagógica entre a família e Fräulein não era unilateral. Isso persiste até hoje: actualmente sou eu que recebo imensas coisas dos alunos das Fräuleins, daquilo que elas lhes tinham ensinado, ou seja, não é preciso ter vergonha de se ser alemão, como é hábito persistente da minha geração, até porque muitas das virtudes que nós temos interiorizadas e até praticamos todos os dias e não são, necessariamente, as de que gostamos, foram e são, para outros, como um bem valioso.

São Vicente Ferreira, 2002 Christiane Schnurbein

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Supostos espiões e virtudes prussianas Entrevista com Hartmut Schaale, nascido em 1941, acerca de sua mãe, «D. Ortrud» (1914 – 1986)

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taxi leva-me a um calmo subúrbio em Hamburgo, eu encontraria um genuíno Hamburgo, onde sou recebida pelo «açoriano»? Senhor Schaale e sua mulher brasileira    com imenso calor e acolhimento. Pretendo Quando é que seus avôs foram para os Açores saber alguma coisa acerca da professora alemã e quanto tempo eles lá ficaram? Senhora D. Ortrud Schaale e seus pais, que Isto é uma história bastante comprida. Meus viveram muito tempo em São Miguel e acerca avôs são oriundos da Pomerânia e eles dos quais ouvi tantas pequenas observações em emigraram antes da primeira guerra mundial outras entrevistas (por exemplo na entrevista para a África Oriental Alemã. Creio que foi com Gabriela Rieff e Regina Arruda Bensaúde). no ano de 1905. Aí, o meu avô estabeleceu A D. Ortrud não era de facto uma Fräulein, uma criação de gado e uma fazenda de café. pois nos anos 50, quando foi para os Açores, Lá, em Moshi, nasceram a minha mãe e os esta tradição das Fräuleins já não estava na seus quatro irmãos. A minha mãe foi a moda. Porém, era professora numa escola segunda mais nova e ela nasceu em pública e, dessa forma, trouxe pedagogia alemã Dezembro de 1914, quando a guerra já tinha para São Miguel, por esse motivo parece-se ser rebentado. Meu avô fez parte da tropa de digna de constar neste livro. Após longas protecção alemã sob o comando do famoso pesquisas consegui o endereço em Hamburgo, general von Lettow-Vorbeck e foi aprisionado do filho de Senhora D. Ortrud Schaale, o qual em 1916 pelos ingleses, tendo sido internado também passou bastante no Egipto. Todas as tempo nos Açores e onde famílias alemãs da África fez a escola. Agora, Oriental Alemã foram estamos sentados debaixo repatriadas para a dum tecto inclinado, com Alemanha em 1918. Aí, a uma das paredes do família encontrou-se quarto adornada com um então de novo, meu avô grande mapa de São vindo do Egipto e os Miguel e rodeados de outros regressando da documentos e álbuns de África Oriental. Na fotografias. Os dois gatos Alemanha, que tinha caseiros, cujo miado se perdido a guerra, a vida ouve na gravação, estão naquela altura não era indignados, pois o dono nada fácil e, assim, o da casa não tem tempo meu avô resolveu para eles. Quem teria emigrar de novo em Hartmut Schaale, agosto 2001 dito que aqui no meio de 1920 para a Venezuela.  145 


 Supostos espiões e virtudes prussianas 

Bruno Heinrich Eduard Domke, em 1945. Nascido 1876 na Pomeránia, falecido 1962 em São Miguel

Lá ele começou de novo com uma fazenda de café num sítio chamado Los Teques e, depois de algum tempo, construiu um hotel em Caracas, provavelmente por volta de 1925.

Magdalene Irmgard Domke «née» Schönberg (1882 – 1976) em Venezuela, 1928

Quando eu estive na Venezuela em 1974, o edifício de três andares da antiga «Casa

Domke» ainda existia inalterado, porém ladeado por gigantescos arranha-céus. No fim da década de vinte, a família voltou para a Alemanha, pois que durante o serviço militar com von Lettow-Vorbeck meu avô adquiriu um problema cardíaco. Esse se manifestou de maneira crescente em Caracas, visto que a cidade fica bastante alta. Ele, entretanto, estava numa situação confortável, podendo chamar-se de «abastado». Sua filha mais velha ficou na Venezuela, pois tinha entretanto lá casado; os outros três irmãos voltaram juntos para a Alemanha para a escola ou estudo. Meu avô fixou-se em Holstein numa cidadezinha chamada Malente, próxima do lago de Ploen. Minha mãe visitou a escola comercial em Lubeque e, em 1933, passou-se alguma coisa que eu nunca entendi direito. Meu avô provavelmente teve problemas com os nazis; em todo o caso ele partiu de novo em 1934 segundo o lema: «Eu não tenho que ficar neste país!» Ele foi um tipo bem aventureiro. Emigrar para ele não era nada de especial, pois antes da primeira guerra mundial ele já tinha feito isso em condições bastante precárias. Assim, ele começou em 1934 com uma viagem em volta ao mundo por navio – ela durou mais ou menos meio ano – onde ele chegou até à Nova Zelândia. Ele simplesmente foi à procura dum novo canto para viver e isso ele fez de maneira bem metódica. O mundo é grande e, naquela altura, ele foi ainda maior, pois mal havia aviões e viajava-se lentamente de navio. Assim aconteceu que ele passou por Lisboa e lá um dia ele passeou na margem do Tejo, encontrando e metendo conversa com um senhor idoso que disse que era capitão. Meu avô queria saber qual era o navio dele e para onde ele fazia carreira. O capitão apontou um navio no cais e explicou, que ele iria aos

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 Entrevista com Hartmut Schaale  Açores. O meu avô pensou consigo: «Lá ainda não estive, vamos até lá!». Ele marcou imediatamente passagem no navio, chegou aos Açores e disse: «É isso que eu estava procurando!» Ele então mandou chamar sua mulher. Os filhos ficaram na Alemanha, porque eles entretanto tinham lá todos começado as suas vidas. Ambos os meus tios fizeram parte da SS, o que naquela altura não era considerado nada pejorativo. (Mais tarde ambos deixaram voluntariamente a SS, pois não gostavam do mau espírito que lá reinava). A minha mãe trabalhava como secretária num estaleiro em Kiel, morando com um tio que era oficial de marinha. Lá, ela também conheceu o seu futuro marido, meu pai, Hans Karl Richard Schaale (nascido em 1917). Eles casaram em 1940.

Casamento de Ortrud Domke com Hans Schaale, inverno 1940

Eu nasci «após o tempo conveniente» (citado das memórias escritas de Hartmut Schaale) em outubro de 1941.

Hartmut Schaale com os seus pais em 1943

Desculpe a minha interrupção, mas, na entrevista com a Gabriela Rieff, na qual ela também fala de sua mãe, ela menciona que sua mãe noivou ou casou com o pretendente ao trono da Polónia. O que é que me pode contar sobre isso? Confesso que isto é completamente novo para mim. De certeza ela não casou com o pretendente ao trono, pois isto é totalmente impossível do meu lado paterno. Quanto às razões que possam ter originado esta suposição só posso imaginar, que isso está ligado ao facto de que nós, ou seja o lado materno Domke, descendermos da família real polaca. Tenho isso bem documentado na nossa árvore genealógica e suponho que alguma coisa foi mal entendida neste contexto. Nunca me preocupei antigamente com este tema. Lembro-me, no entanto, que, quando meu avô morreu em 1962, no «Diário dos Açores», apareceu um necrológio com a informação de que ele descendia de uma velha família e tinha algum direito ao trono polaco o que é certamente algo exagerado. Naturalmente isso não tem nada a ver com o casamento da minha mãe. Minha tia (que na altura ficou na Venezuela) lembra-se que o avô nunca escondeu o facto de que ele descendia de reis da Polónia. Ela contou ainda que a irmã (a minha mãe) em Caracas, na tenra idade de 17 ou 18 anos, noivou com um

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 Supostos espiões e virtudes prussianas 

Necrológio para Bruno Domke no «Diário dos Açores», no qual está mencionado o facto de que o falecido é descendente da família real polaca.

«senhor de brilhante aparência, chamado Karven». O pai terminou com o noivado, alegando que o jovem pretendente «se preocupava pouco com a moça e não lhe trazia flores»! Interessante na história da descendência da casa real polaca é só um aspecto: lembro-me ainda, que na década dos anos cinquenta, quando a guerra tinha terminado há pouco tempo, parte da população açoriana tinha preconceitos e certa aversão contra os «maus alemães». Quando eu cheguei à ilha em 1950 também sofri disso na escola e de vez em quando tive que defender a honra alemã bastante concretamente, isto é eu geralmente recebia uma boa tareia. Eu reclamava: «Não, nós alemães não somos assim!» a que eles respondiam: «Sim, vocês perderam a guerra!». Certamente havia ressentimentos em certos círculos. Eu simplesmente tomei nota do facto e, como mais tarde se viu, esses círculos eram os mais influentes da sociedade

açoriana, digamos a aristocracia da ilha. Aparentemente havia um certo medo de contacto.    Nalgumas entrevistas foi sempre mencionado de novo a diferença entre os «anglófilos» e os «germanófilos» … Sim, isso certamente fazia parte do quadro. Eu evidentemente conhecia as pessoas. Numa ilha tão pequena todo o mundo se conhece, mas eu também sabia exactamente: com esses podes falar, com aqueles não, eles não querem saber de ti. Isso não me tocou muito, pois eu tinha a minha grande malta que estava sempre aumentando. Porém, na altura da morte do meu avô, em 1962, deu-se de repente uma mudança no sentido de que esses jovens da minha idade, que antes me tinham rejeitado e não me queriam conhecer, de repente ficaram muito meus amigos. Na altura fiquei admirado perante essa brusca mudança de atitude para comigo, até que a minha mãe um dia me disse, que isso provavelmente teria que ver com esse artigo de jornal sobre a descendência do avô, o que fez com que essas pessoas então me vissem como igual, por assim dizer. Depois disso tivemos realmente belíssimos tempos na ilha, com muitos amigos.    Depois desta pequena digressão, permita que voltemos de novo para o ano 1934. Como é que seu avô tomou a decisão de se radicar nos Açores? Deve ter sido no ano 1935 ou 36 que meus avós decidiram definitivamente se estabelecer na ilha. Nas Furnas o avô construiu a sua casa num grande prédio florestal na margem do lago. Além disso, ele adquiriu nas proximidades de Ponta Delgada, na Abelheira, uma plantação de ananases.

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 Entrevista com Hartmut Schaale 

A casa «Monteverde», construída por Bruno Domke na Lagoa das Furnas

Naturalmente ele queria de novo ter alguma coisa com uma plantação, visto que era disso que ele mais entendia. Naquela altura, o ananás era muito lucrativa nos Açores, o que hoje já não parece ser o caso. Depois de eu ter experimentado o ananás africano, especialmente na República dos Camarões, tenho que dizer que os ananases açorianos são de segunda qualidade. Em 1941, no meio da guerra, meu avô foi de repente acusado de ser espião alemão.    Havia alguma justificação para tal acusação? Aí só posso dizer que «em tempos do guerra o juízo é o primeiro a se despedir». Eu não acredito que ele tenha espiado para uma Alemanha que lhe era profundamente suspeita no plano político. Em todo o caso, ele foi expulso dentro de curto tempo, mas ele não quis voltar para a Alemanha, já que, na altura, tinha saído da Alemanha porque não se sentia mais à vontade lá. Assim, ele foi para a Jugoslávia para lá se radicar, mas algumas semanas mais tarde os alemães invadiram a Jugoslávia. Aí ele se conformou de voltar ao império! Ele regressou à nativa Pomeránia, aonde comprou uma propriedade em 1942/43. Em 1945 ele teve que sair de lá no meio das longas colunas dos fugitivos alemães e apareceu com a sua mulher e com a famosa

mala de mão à porta da casa da minha mãe, que entretanto estava casada em Holstein e vivia na fazenda em Ottendorf junto a Eutin, na terra do marido dela. Os dois irmãos da minha mãe morreram como soldados em 1941 e 1943 na Rússia. A minha mãe era a única filha sobrevivente na Alemanha, já que a filha mais velha continuava vivendo na Venezuela. Lá, ela também foi temporariamente internada, mas este problema foi solucionado relativamente rápido, «à moda sul-americana». Essa tia ainda hoje vive com 92 anos perto de Munique. Os avôs ficaram então connosco na fazenda até mais ou menos 1947 ou 1949. Lembro-me – naquela altura era um rapazinho – que eles iam de repente voltar aos Açores, pois que na fazenda em Ottendorf eles sentiam-se provavelmente um pouco supérfluos.    As propriedades nas Furnas e na Abelheira não foram confiscadas por ocasião da expulsão? As propriedades tinham sido de facto congeladas, isto é meus avôs não podiam dispor delas. Não podiam vendê-las, nem penhorá-las, nada. Mas eles, pelo menos, podiam viver de novo nelas após a guerra.    Isso ficou assim até ao fim da vida deles, ou eles conseguiram «descongelar» as suas propriedades? Efectivamente eles conseguiram rehavê-las sem restrições, em 1957. Na altura, a minha mãe e eu já estávamos nos Açores. Até hoje a casa nas Furnas pertence-me, tal como a duas primas. A plantação na Abelheira foi vendida logo após a liberação em 1958, pois o meu avô precisava de dinheiro, visto ele não ter entradas na altura. Além disso a minha mãe e a minha avó ainda

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 Supostos espiões e virtudes prussianas 

Ortrud Schaale no aeroporto de Lisboa durante uma escala na viagem para os Açores em 1955

Bruno Domke no seu jardim nas Furnas, ca. 1955. Nesta altura a propriedade era ainda «congelada».

tinham uma casa próxima da praia do Pópulo, que o meu avô ainda tinha começado a construir com o seus avançados 80 anos. Ela foi depois vendida à Nestlé.    Os seus avôs ficaram até ao fim de sua vida nos Açores – após tantos anos de peregrinação? Sim, o meu avô morreu em1962 e a minha avó ainda viveu até 1975, quando ela morreu com 93 anos. Eles estão ambos enterrados nos Açores.    E como é que aconteceu que você foi para os Açores? Foi em 1950 que a minha mãe foi para os Açores comigo, quando eu tinha oito anos depois do marido dela (o meu pai) ter ficado prisioneiro de guerra russo em 1945 e ter desaparecido em seguida. Eu era o seu único filho, pois minha irmã mais nova, Walburg, morreu 1944, em

consequência duma queda na escada. No princípio a ida aos Açores estava planeado apenas como uma visita aos meus avôs de três meses mas daí resultaram afinal oito anos, os mais belos da minha vida. (Sobre essa época Hartmut Schaale escreveu um livro «Juventude no Paraíso», no qual ele relata os anos de juventude encantada nas Furnas, evocando uma época desaparecida – digno de ser lido, mas infelizmente não publicado!).

Capa da autobiografia não publicada de Hartmut Schaale sobre a sua infância nos Açores

Para a minha mãe foram afinal 30 anos, pois que ela ficou até 1980, exercendo a sua profissão quase até ao fim desta temporada. Em 1950, após três meses, minha mãe decidiu que iria ficar junto dos pais para assisti-los – eles já não eram jovens e as circunstâncias com as propriedades congeladas eram bem

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 Entrevista com Hartmut Schaale  difíceis de maneira que ela achou que seus pais precisariam dela mais que seus sogros, que afinal ainda tinham outros filhos para administrar a fazenda em Holstein. Assim ela também decidiu mandar-me para a escola nos Açores e eu lá fiquei até 1958.

Hartmut Schaale com os seus avós Domke em 1951

Hartmut Schaale 1951

Nos Açores terminei o curso de serralharia e em seguida, a minha mãe resolveu mandar-me para a Alemanha pois que, como muitos alemães residentes no exterior, achava que se devia fazer o curso superior no país natal. A alternativa teria sido eu ir para

Lisboa, o que eu teria naturalmente preferido, visto que todos meus amigos tinham ido para lá e após oito anos nos Açores eu sentia-me mais português do que alemão. Mas, a minha mãe ficou firme na sua decisão – e aí tive que ir mesmo para a Alemanha!    Voltando mais uma vez para 1950: o começo numa escola portuguesa não foi difícil para um rapaz de oito anos, sobretudo porque que não falava a língua naquela altura? Sim, no princípio foi realmente duro. Houve problemas com mal-entendidos e pancadaria, mas naquela idade aprende-se rápido, de maneira que não me lembro de muitas dificuldades mais tarde.    Ccomo desenvolveu-se a situação mais tarde? Evidentemente eu não posso comparar as escolas portuguesas com as alemãs, pois até ao fim do meu curso eu não tinha nenhuma experiência com as escolas alemãs. Só fiz dois anos na escola primária em Ottendorf antes de ir para os Açores, mas disto mal tenho memória e as poucas que tenho também não são especialmente positivas. Assim, as minhas recordações escolares começam em 1950, na ilha. Como já disse, no princípio foi duro e tive que lutar no sentido da palavra pela minha merenda, pois diziam que alemão não tinha direito a ela – assim lutei pela minha merenda e defendia a honra alemã! Mas, lentamente, a situação melhorou e a minha integração fez progresso. Não me esforcei muito na escola, pois não levava as coisas muito a sério. Como resultado tive notas muito díspares, o que irritava a minha mãe, que achava que eu podia conseguir muito mais se tivesse um pouco mais de esforço. Porém, naquela altura eu tinha alguns outros interesses em direcção a aventuras e à

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 Supostos espiões e virtudes prussianas  reabilitação da Alemanha. Na mentalidade provocante da juventude, eu tinha constituído com amigos o meu exército «neo-prussiano», tendo para isso recrutado alguns colegas de turma.

Os porta bandeiras do exército «neo-prussiano» nos Açores

Houve escaramuças selvagens contra outras maltas juvenis na «Mata da Doca», uma região de má fama atrás do porto. Atirámos uns aos outros com fundas e espingardas de ar comprimido e houve mesmo feridos. Mas assim também obtive respeito pois dizia-se: «Não te metas com aquele, porque senão ele mobiliza o seu exército!» Esta minha tropa proporcionou-me um certo respeito. Fomos mais ou menos uma dúzia de rapazes, com rigorosa organização militar em infantaria e artilharia, a última escalonada conforme o tamanho das fundas e o seu poder de penetração. Tudo estava meticulosamente organizado como era velho hábito na Prússia! Assim os tempos iam ficando cada vez melhores e quando eu tive de me ir embora em 1958 fiquei com o coração despedaçado. Depois voltei sempre à ilha nas férias escolares e mais tarde universitárias. O começo na Alemanha também foi muito duro, pois eu era visto mais como português do que como alemão. Não pela língua, pois sempre tinha falado alemão com meus avôs e

O Hartmut nas férias em São Miguel em 1960

minha mãe, mas era mais uma questão da mentalidade das pessoas. Os portugueses são muito educados e cerimoniosos, dão muitos rodeios antes de chegarem ao ponto importante. Na Alemanha foi bastante diferente e tive que me habituar «à paulada». Aqui na escola em Hamburgo naturalmente também fui «o estrangeiro» e não me levaram muito a sério como no princípio em Portugal. Também houve ressentimentos por parte dos alemães contra mim segundo o lema: «Coitado, não deves ter aprendido nada de jeito com aqueles portugueses!» Foi praticamente uma discriminação inversa o que me feriu muito naquela altura, já que eu tinha sempre defendido nos Açores a honra alemã por assim dizer com o arma na mão! E, quando falei na escola de coisas da Prússia os meus colegas olhavam para mim como se eu fosse débil mental. Naquela altura nada da Prússia era considerado positivo e isso apanhou-me completamente de surpresa, pois que para mim era uma ideia quase

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 Entrevista com Hartmut Schaale  sagrada. Em todo o caso sempre com uma conotação positiva. Meu avô era prussiano de corpo e alma; ainda havia uma águia talhada em madeira e pendurada na parede que «supervisava» o nosso pequeno almoço de maneira que essa mentalidade era uma coisa totalmente normal para mim. Perdi completamente o novo desenvolvimento na Alemanha após-guerra e assim ficava bastante «venenoso» quando me atacavam como eterno retrógrado, nazi, etc. A partir daquela época comecei a estudar a fundo o que significava a Prússia, a sua maneira de ser e também a sua problemática e afirmo que actualmente sou bastante competente nesta matéria. Consequentemente também me engajei politicamente aqui na universidade de Hamburgo, fazendo parte dum grupo político universitário do qual mais tarde fui presidente. Na década de sessenta até à revolução dos estudantes no ano sessenta e oito, houve muita agitação política e o grupo marxista SDS foi naturalmente o nosso grande adversário. Foi uma época muito interessante e parcialmente também violenta com demonstrações aqui no centro da cidade de Hamburgo, com polícia e tudo. Além disso, também cheguei a estudar economia política e geografia económica. No fim do ano 1969 fiz os meus exames e comecei a trabalhar num banco privado em Hamburgo, que planejava e construía em Lisboa e no Algarve projectos turísticos. Graças ao meu português fui então transferido como assistente de administração para Portugal.    Como é que sua conheceu a sua mulher? Conheci a minha mulher aqui, em Hamburgo. Meu sogro estava empregado no Instituto Brasileiro de Café e tinha trazido para a Alemanha duas filhas bonitas que aqui

casaram e aqui ficaram. Nós casámos em Abril de 1970.

Casamento de Hartmut Schaale e a brasileira Irene Claudia Lopes Albuquerque em 1970

Fomos então juntos para Portugal, tendo voltado para a Alemanha após a revolução, em 1975. Nos últimos anos em Portugal tive uma empresa própria, uma lavandaria industrial, mas depois da revolução tudo foi por águas abaixo, em primeiro lugar o turismo. Como em 1975 também tive que fechar a minha empresa, aí então voltei à Alemanha e, por acaso, comecei a trabalhar na navegação que já nos Açores tinha sido a minha paixão e nela continuo activo até hoje.    Mencionando os Açores chegamos de novo ao sujeito principal desta entrevista – além de você – a sua mãe, a «Dona Ortrud» celebre nos Açores até hoje! Como é que ela chegou a ser professora numa escola açoriana?

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 Supostos espiões e virtudes prussianas  No princípio foi simplesmente uma necessidade financeira – a situação difícil dos bens dos avôs já descrevi – e no fim também foi uma certa questão de fidelidade para com o seu bom amigo, meu pai de criação, o Dr. Aníbal Cymbron Barbosa. Em 1974 houve em Portugal a revolução e também nos Açores houve muitos problemas e o Dr. Aníbal, como director da «Escola Industrial e Comercial» na qual ela dava aulas, foi muito atacado com as usuais mesquinhices. Assim, a minha mãe não o queria abandonar e se manteve leal para com ele quando foi deposto, em 1977 ou 78.

Dr. Aníbal Barbosa, amigo de muitos anos da Senhora D. Ortrud e importante no seu papel de padrasto para o Hartmut

Você no princípio contou que sua mãe tinha frequentado uma escola comercial, não sendo assim professora formada. Como é que ela então exerceu a profissão? Ela certamente não era formada profissionalmente, pois que depois do seu tempo no estaleiro em Kiel ela foi a dona da fazenda do marido dela em Holstein. Talvez o encontro com a célebre «Tia Käthe» (veja

entrevista com a Margarida) a tenha influenciado no sentido de ser professora. Mas ela também tinha uma certa facilidade de aprender coisas novas e era muito prussiana no sentido da palavra: «o que é inevitável tem que ser feito!». O cumprimento do dever era um motivo primordial para ela e assim ela então também conseguiu sucesso. A propósito: a Tia Käthe foi das primeiras pessoas que nós conhecemos na ilha, logo em 1950. Ela era alemã e havia muito poucos alemães naquela altura, talvez meia dúzia. Ela foi uma mulher muito enérgica e a minha mãe que naquela altura tinha uns trinta e poucos anos, estava insegura numa terra desconhecida e sem falar a língua. E aí a Tia Käthe deu-lhe muitos conselhos. Ela era muito solícita.

Katharina Fritz de Faria e Maia, a assim chamada «Tia Käthe», antiga Fräulein na casa Wallenstein, com Bruno e Magdalene Domke com o neto deles, o Hartmut.

Além disso, a minha mãe também tinha que fazer alguma coisa, ela não queria ficar o tempo inteiro com os pais nas Furnas e eu tinha que frequentar uma escola, o que nas Furnas não era possível. Assim, mudámo-nos em fins de 1950 para a plantação de ananases do meu avô para a Abelheira. Daí eram só

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 Entrevista com Hartmut Schaale  cinco ou seis quilómetros para a cidade e eu ia em camioneta para a escola. No princípio a minha mãe dava aulas privadas em alemão, inglês e educação física. Lembro-me bem como ela preparava cartazes nos quais ela anunciava as aulas. Ela tinha primeiro que estabelecer-se no mercado. Mais tarde, ela candidatou-se ao Liceu, sendo o director o Dr. Anglin. Ele era meio inglês – e naturalmente muito orgulhoso das suas raízes inglesas – e eu no fundo fiquei um pouco admirado por ele a ter aceite como professora. Lá ela também deu aulas de inglês, alemão e educação física. Em 1951 conhecemos então o já mencionado Dr. Aníbal, que era director da Escola Industrial e que a convenceu a ir para a sua escola. Ela aceitou este convite e tudo se desenvolveu muito bem sem maiores problemas até ao fim da década de setenta. Ela chegou a ser uma espécie de «instituição» na escola. Ela formou gerações inteiras de

D. Ortrud (no estrado) dando educação física

jovens que se lembram até hoje dela e foi uma personalidade muito reconhecida. Ela educava segundo o lema: «Sigam o meu exemplo!» Ela tinha uma autoridade calma e era muito procurada na escola o que lhe deixava pouco tempo em casa. Nos meus dois últimos anos eu tive-a também como professora de inglês e ela puxou bastante por mim, pois ela não queria

Ortrud Schaale (4. d. e.) ao lado do Dr. Aníbal Cymbron com os colegas na «Escola Industrial e Comercial»

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 Supostos espiões e virtudes prussianas 

D. Ortrud com «antigas» alunas na Lagoa das Furnas, em 1960

dar a aparência de me preferir. Naquela altura isso chateou-me muito. Hoje compreendo os motivos dela.    Além das cadeiras mencionadas ela ainda deu outras aulas? Além de inglês, alemão e educação física ela mais tarde também deu aulas de música. Assim ela começou a ensinar danças

folclóricas e também escreveu alguns pequenos livros sobre o folclore açoriano que eu infelizmente não encontrei mais, embora ela me os tenha dado. Ela realmente foi uma especialista do folclore local, pelo que os portugueses lhe ficaram muito gratos. Ela se interessou profundamente, convocava as pessoas, organizava o tocador de guitarra, deixava-se mostrar as danças, falava com as pessoas velhas nas aldeias, pedindo-lhes de mostrar os passos correspondentes e assistia às danças. Eu presenciei algumas vezes quando pessoas idosas apresentaram suas danças para ela. Sei que com um dos seus grupos – que eu saiba, ela fundou dois ou três grupos folclóricos – ela se apresentou na televisão portuguesa. Deve ter sido no fim da década dos anos sessenta. Ela se tornou realmente uma autoridade nisso e foi altamente respeitada. As pessoas diziam: «Será que tem que vir uma estrangeira para

D. Ortrud com um dos seus grupos folclóricos

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 Entrevista com Hartmut Schaale  ensinar às nossas crianças a suas próprias tradições?»    Você pode contar um pouco que tipo de pessoa era sua mãe? Aí gostaria de citar Christian Conde Krockow, que no seu livro «Prússia – uma conclusão» (publicado na editora alemã DVA em 1992, pp. 125 seguintes A. A.) caracterizou a mulher prussiana tão bem que eu pouco posso ajuntar: As mulheres porém foram desde do começo educadas de forma a nunca serem levianas e a considerarem a economia e a renúncia ao prazer como uma virtude principal. Mesmo assim elas não se tornaram de modo algum acabrunhadas ou hipócritas, muito pelo contrário elas desenvolveram-se sendo personalidades impressionantes com forte consciência do seu valor pessoal. Elas dirigiam com vastas

obrigações grandes casas com numeroso pessoal – e assim a aldeia inteira. Elas se ocupavam tanto dos velhos e doentes como também dos problemas emocionais da gente jovem e dos nascimentos. Onde o pietismo fincou pé, como por exemplo em especial na Pomeránia, elas também davam as horas semanais de leitura da Bíblia que vieram a ser lições bem práticas, pois deram ocasião às mulheres da aldeia de falar das sua preocupações e pedir auxílio. Em tempos difíceis – e qual era a geração que os não conhecia? – as mulheres da nobreza na ausência dos seus maridos frequentemente dirigiam toda a grande herdade e muitas vezes com excelentes resultados. Elas certamente não eram »emancipadas« no sentido moderno da palavra, elas eram somente disciplinadas. Elas emprestaram aos seus maridos a sua própria força. Elas eram as

D. Otrud num ensaio do seu grupo folclórico

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 Supostos espiões e virtudes prussianas  guardiãs das tradições e passaram para gerações futuras o que elas mesmo aprenderam: uma conduta muito recta, consigo e com os outros. Manter uma atitude impecável e nunca se lamuriar, nunca perder a cabeça nem a coragem, mas sim fazer todos os esforços para que a ordem natural das coisas e a ordem entre os seres humanos não saiam dos trilhos ou que elas sejam restabelecidas – isso era o que importava.

lagoa e desaparecia de vez em quando durante dias no meio das montanhas, onde nenhuma pessoa me teria encontrado se algo me tivesse acontecido. Poucas vezes ela perguntou se era necessário que eu passasse noites inteiras na «selva» ou que eu saísse com o meu pequeno caiaque para a lagoa com tempo tempestuoso.

O caiaque muito amado do Hartmut na Lagoa das Furnas, um presente de sua mãe. Faz um papel importante nas em cima mencionadas recoradações «Juventude no Paraíso»

D. Ortrud a montar

Estas observações descrevem-na de maneira perfeita. Na minha recordação como filho a minha mãe era muito afectuosa, mas era um amor reservado, ela nunca fez espalhafato quando sentia receio por mim. Naquela altura, como jovem, eu tinha uma marcada inclinação aventureira; tinha as minhas espingardas, saía com o meu barco para a

Raramente ela deu a entender que não gostava disso. Mas ela nunca me proibiu nada e sempre só falou depois dos acontecimentos. Assim, ela nunca me reteve. Como já disse, ela era bastante reservada. Eu também nunca a vi chorar nem me lembro de alguma explosão de emoções da parte dela. Ela foi sempre equilibrada, simpática, muito cortês, o que ela certamente tinha adoptado dos portugueses, que são o povo mais cortês da terra. Mas ela também podia ser bem viva, principalmente quando dançava! Ela gostava mesmo muito de dançar e adorava a dança folclórica. Aí ela participava e liderava na dança, sempre dando o exemplo. Ela foi uma pessoa imensamente disciplinada – uma prussiana no melhor sentido da palavra.

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 Entrevista com Hartmut Schaale  Camarões na África, onde por conta dum grupo de navegação Unimar (Kühne & Nagel) de Hamburgo fui director financeiro adjunto do armador estatal Camship. A minha mãe foi connosco para a África e viveu lá um ano. Ela começou a não se sentir bem, de maneira que resolvemos mandá-la para a Alemanha para uma prima minha em Munique. Após as análises e os controles usuais descobriu-se rapidamente que ela estava com cancro e daí mal durou um ano até à morte dela, em 1986.

D. Ortrud em 1960 nos Açores

Tinha ela um círculo de amigos nos Açores? Ela realmente tinha muitos amigos e tenho aqui uma lista ordenada em ordem alfabética (de Aguiar, até Weitzenbaur) das pessoas, com as quais nós tivemos contacto e que são 35 famílias. Alguns amigos ainda eram «legados» dos pais dela, mas muitos ela mesmo fez, o que então levou a novas amizades entre mim e as crianças respectivas. A fidelidade da minha mãe como amiga foi notável, como já contei no caso do Dr. Aníbal. Houve amizades começadas em 1950 que duraram até à morte dela e que ela manteve o tempo inteiro mesmo depois da sua partida dos Açores. Ela fazia muita correspondência e ficava sempre muito triste quando vinha tão pouco eco; mesmo com toda a cortesia, corresponder-se provavelmente não é o ponto forte dos portugueses. Em 1980 ela veio para a Alemanha juntar-se a mim e à minha mulher. Em 1983 fomos para a República dos

Ortrud Schaale, anos 70

Talvez ainda possa mencionar que ela recebeu duas distinções na sua vida. Em primeiro lugar ela foi condecorada com a Cruz de Mérito da República Federal da Alemanha que guardo até hoje. É característico dela que ela mal perdeu uma palavra sobre isso, por isso também não sei muitos pormenores acerca das razões. Assumo, porém, que foi de algum modo um gesto de simpatia do cônsul

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 Supostos espiões e virtudes prussianas  Weitzenbaur. Nos anos setenta, ela fez praticamente o serviço de escritório para o senhor Weitzenbaur. Quando ele não estava lá e vinham, por exemplo, navios alemães, então ela ia a bordo quase como seu representante. E, por isso, ele, provavelmente, queria mostrar o seu reconhecimento. Por outro lado, ela foi mencionada no «Who is Who of Women» com fotografia e descrição da sua actividade (Edição 1978, página 1035). Também neste caso ela evidentemente nunca me contou pormenores, como isso veio a acontecer. Ela não achava muito apropriado perder palavras sobre tais coisas, também isto é muito prussiano.    Para concluir ainda tenho uma pergunta pessoal: até que ponto o seu período nos Açores o marcou? Acha, que teria sido uma pessoa diferente se tivesse ficado o tempo todo na Alemanha? Mas com toda a certeza! No começo de uma maneira inconsciente, mas, mais tarde, com cada vez mais consciência, esforcei-me de adquirir um pouco da flexibilidade e simpatia portuguesa perante o nosso próximo e do qual fazem parte uma certa reserva e um maneira cerimoniosa. Acho que isso faz muita falta aqui na Alemanha. É um pouco como o lubrificante no motor: não é absolutamente necessário, mas alivia tudo

muitíssimo. Esta maneira directa e frontal que é característica dos alemães me irrita um pouco. Eu mesmo não sou assim e isso, certamente, aprendi em Portugal. Se eu tivesse ficado aqui, vivendo junto da minha família paterna que tinha tendência bastante nazi, eu teria uma visão política completamente diferente. Já só por isso estou muito contente que a mudança em 1950 tenha transformado a minha vida, me abrindo para um maior cosmopolitismo e me fazendo pertencer aos portugueses, um povo que aprecio imenso. Até hoje sinto-me mais português do que alemão e sinto-me cem por cento «açoriano», embora não tenha ido lá há mais de onze anos. Em breve: eu teria sido uma pessoa completamente diferente. Eu, provavelmente, nem me reconheceria a mim mesmo.

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Entrevista com Hartmut Schaale em agosto de 2001.


As Fräuleins esquecidas