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Ano 1 Dezembro de 2009

#1

[ ] in

sub ordin ação


submissão

para edição

#2 até 24/01

contato@plur1verso.com

As imagens devem ser enviadas em baixa resolução, inicialmente, para seleção com um texto de até 1200 caracteres relacionando-a ao tema proposto.


trônicos dos bancos. Apresentações pirotécnicas não autorizadas.

“A Arte-Sabotagem é o lado negro do Terrorismo Poético

nas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez

– criação-através-da-destruição –, mas não pode servir a ne-

de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas. Seqüestre alguém e o faça feliz.

nhum partido ou niilismo, nem mesmo à própria arte. Assim

Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme,

como a destruição da ilusão eleva a consciência, a demoli-

inútil e impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilômetros quadra-

ção da praga estética adoça o ar no mundo do discurso, do Outro.

dos na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim

A Arte-Sabotagem serve apenas à percepção, atenção, consciência.

ou uma coleção de manuscritos de alquimia. Mais tarde, essa pessoa

A AS vai além da paranóia, além da desconstrução – a critica defi-

perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário

nitica – ataque físico à arte ofensiva – cruzada estética. O menor

e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de

indício de um egotismo mesquinho ou mesmo de um gosto pessoal

existência.”

estraga sua pureza e vicia sua força. A AS não pode nunca procurar

O ETERNO CAPACHO INSUBORDINADO

ganda de suas mercadorias mais caras com

imagens de morte e mutilação, enviada diretamente para a parte sub-reptícia do cérebro

o poder – apenas renunciar a ele.”

das multidões através de aparelhos carcinógenos geradores de ondas alfa que distorcem a realidade – enquanto algumas imagens da vida (como a nosnidas e punidas com uma ferocidade incrível. Não é preciso coragem para ser um Sádico da Arte, pois a morte libidinosa está no centro estético do Paradigma do Consenso.”

H

13

CAOS Terrorismo Poético e Outros Crimes Exemplares Hakim Bey Livro lançado pela Conrad Editora do Brasil, em 2003, com tradução de Patricia Decia e Renato Resende. Original em inglês disponível em http://www.hermetic.com/bey/taz_cont.html

“A Associação para a Anarquia Ontológica conclama um boicote de todos os produtos comercializados sob a senha de LIGHT

Lucas Guerra

– cerveja, carne, doces, cosméticos, música, ‘estilos de vida’ préfabricados, o que for. O conceito de LIGHT (no jargão situacio-

nista) desdobra um complexo de simbolismo através do qual o Espetáculo espera controlar toda a repulsa contra o seu mercantilismo do desejo. O produto “natural”, “orgânico”, “saudável”, é designado para um setor do mercado constituído por pessoas levemente insatisfeitas que apresentam um quadro mediano de horror do futuro e possuem uma aspiração mediana por uma autenticidade tépida. Um nicho foi preparado para você, suavemente iluminado pelas ilusões de simplicidade, limpeza, elegância, uma pitada de ascetismo e autonegação. Claro, custa um

FESTIVAL DE FILMES DO BROOKLYN

pouco mais... afinal, o que é LIGHT não foi feito para primitivos pobre e famintos que ainda consideram comida nutrição e não décor. Tem de custar mais – senão, você não compraria.”

“Sem o conhecimento da escu-

Guilherme Förster

p.32

Seus escritos são marcados por um profundo radicalismo estético

p.40

“Vivemos numa sociedade que faz propa-

sa favorita, de uma criança se masturbando) são ba-

akim Bey é o pseudônimo de Peter Lamborn Wilson, historiador, ensaísta e poeta americano nascido em 1945. Inicialmente pesquisador do sufismo (corrente mística derivada do islamisco que acredita na possibilidade de uma relação direta com deus através de rituais de canto e dança), morou em diversos países do oriente médio até ser expulso do Irã à época da Revolução Iraniana, em 1979.

p.11

Land-art, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alieníge-

10

HAKIM BEY E OS ATOS NÃO EXEMPLARES

DE TRÁS 08 LINHA Bruno Fonseca

“Dançar de forma bizarra durante a noite inteira nos caixas ele-

p.30

16

p.6

06 EDITORIAL

ridão (“conhecimento carnal”) não pode existir o conheci-

delas. Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, então

mento da luz (“gnose”). Os dois

alguém precisa cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que

conhecimentos não são meramente

próprio Bey: personagem enigmático, que raramente aparece em públi-

possuam a ressonância do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer preço.

complementares: são idênticos, como

co, “acusado” de estimular atos de guerrilha simbólica e midiática.

Não crimes contra o corpo, mas contra Idéias (e Idéias-dentro-das-coisas) que sejam

a mesma nota tocada em duas oita-

hackers, cultura rave, anarquismo ontológico, terrorismo poético, teoria do caos, pornografia (e pedofilia), tecnologia, ludismo...

letais e asfixiantes. Não libertinagem estúpida, mas crimes exemplares, estéticos, crimes

vas diferentes. Heráclito afirma que

por amor. Na Inglaterra, alguns livros pornográficos ainda estão banidos. A pornogra-

a realidade persiste num estado de

fia produz um efeito físico mensurável em seus leitores.”

“guerra”. Apenas notas opostas podem

p.17

“A poesia está morta novamente – e mesmo que a múmia do seu cadáver possua

ainda algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressureição não é uma

e ideológico, um anarquismo quase a-político, e pela profusão de referências a correntes ideológicas, culturas e movimentos underground. A polêmica levantada por livros como CAOS: terrorismo poético e outros atos exemplares, publicado em 1985, iguala-se à polêmica acerca do

A coleção de ideias que o acompanha é extensa

Hakim Bey descarta convenções e exalta a insubordinação - em seu sentido mais amplo.

14

MALDITO ESCRITÓRIO

construir a harmonia. (“O Caos ´e a soma de todas as ordens.”)”.

Guilherme Förster

18 25

HELIO OITICICA

Gabriela Rabelo

A SUPER PRODUÇÃO Kauê Garcia

26

ADEUS, BONECA DE PANO!

Adriana Mitre Mariana Garcia

UM POUCO PRO 29 SANTO-EX-PEDINTE

Kauê Garcia

32

À PROCURA DE BRESSONS

Lorena Galery

CAPA, MÚSICA 30 E INCONSTÂNCIA

Délio Faleiro


: O REFÚGIO DO FRACO; A COVARDIA IMPRESSA;

36 Otávio Cohen

CAMINHO SUPER-

DOGVILLE

PALAVRA

FICIAL;

Lucas Lima Luiz Felipe

O DINAMISMO MORTO. MONÓTONO, CO-

54

DIFICADO. _ _

_ EVIL LOVE

42

FAKE

56

Matheus Lopes Castro

Cristóbal Schmal

HELVETICA FRIES Andréa Miranda

44

ANOTHER DRAWING IN THE WALL

HOUSTON

57

Matheus Lopes Castro

46

Mariana Garcia

SÉRIE COR[AÇÕES] Gabriela Rabelo

Abbas Kiarostami 63 Acaso 17, 56 Açúcar 44 Admoestações 18 Afeganistão 61 Afro- americano 13 Ahmadinejad 60, 63 Alfabetos 44 Allah 60 Alquimia 17 Amilcar de Castro 19 Amor 17, 18 Anarquismo 16 Antártica 17 Antídoto 62 Antonioni 42 Aparência 20 Apolíneo 21 Apropriação 20, 61 Árabes 61 Arábia Saudita 61 Aristocracia 22 Arquitetura 20, 23 Arrogância 29 Arte 18, 22, 54, 56 Arte ambiental 22 Arte-sabotagem 17 Ascetismo 17 Auto- ressurreição 17 Automatismo psíquico 56 Autonegação 17 Autorais 57 Bandeira 54 Banksy 47, 49 Batalhas 62

1

CTRL+F

Carcinógenos 17 Carioca 21 Carisma 60 Carnal 17 Carne 22 Cartaz 13, 54 Cenografia 37, 38, 39, 40 Chacrinha 23 Cidade 46, 47, 48, 49 Ciências 56 Cinema 13, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 59, 63 Circo 17 Circunvoluções 22 Clero 60 Comédia 14, 15 Comportamento 21, 61, 53 Composição 19 Comunicação 22, 45 Conceito 54 Concretista 20 Consciência 20 Consumismo 57 Contato 22 Contestação 18 Continuidade 37, 38, 39, 40 Contraste 22 Cor 22 Coração 50, 51, 52, 53 Coragem 17 Corão 60 Corpo 17, 22, 61 Corrupção 60, 62, 63 Corte 37, 38,40 Crimes 16 Crítica 19

2

Fruição 22 Futuro 17 Gays 26 Geométricas 19 Gilmar Mendes 11 Gnose 17 Godard 37 Golpe 8, 9 Gordura 44 Governo 18 Grafite 46, 47, 48, 49 Grau-zero 41 Grupo Frente 19 Grupo Ruptura 19 Guaches 19 Guerra 17 Guerrilha 16 Hacker 16 Hakim Bey 16, 53 Hápticas 22 Harmonia 17 Harper’s Bazaar 33 Hejab 61 Hélio Oiticica 18, 19, 20, 21, 22, 23, 31 Helvética 44, 45 Helvética fries 44, 45 Henri Cartier-Bresson 32 Heráclito 17 Hierarquia 22 Hip hop 13 Hipocrisia 51, 62, 63 História em quadrinhos 57 Hollywood 13 Homosexualidade 8, 9 Homossexualismo 62

Dogma 95 – 37, 40 Dogville 36, 37, 38, 39, 40, 41 Drogas 62 Durex 29 ECA-USP 59 Economia 62 Efervescência 19 Eisenstein 37 Ejaculação 27 Elegância 17 Elipse 38, 39, 40 Elvis Presley 42 Emoção 20 Engajado 29 Enquadramento 38 Entrevista 59 Ereção 27 Escola de samba 21 Escritório 14, 15 Escultor 23 Escuridão 17 Espacialidade 22 Espaço 20, 22 Espectador 22 Espetáculo 17 Estandartes 22 Estereótipos 61 Estetas 22 Estética 17 Estilo 20 Estrutura 19 EUA 56 Europa 56, 62 Expectativas 60 Experiência 22

3

4

5

50

Ivan Serpa 19 Ivonete Pinto 59 Jackson Ribeiro 21 Jacques Aumont 37, 40 Jarmusch 42 Jornalista 10 Jump-cut 39, 41 Junk food 44, 45 Kaurismaki 42 Khatami 63 Khomeini 60 Kwuait 61 Land-art 17 Lars Von Trier 36, 37, 38, 40, 41 Legibilidade 44 Lei 63 Lésbicas 26 Letras 44 Letraset 29 Liberal 63 Liberdade 18, 22, 31, 60, 62, 63 Liberdade de expressão 11 Libertinagem 17 Libidinosa 17 Life 33 Light 17 Livros 54 Ludismo 16 Luis XV 22 Lygia Clark 19, 23 Lygia Pape 19, 21 Maconha 63 Macrocosmo 22 Madeira 22 Magnum 33 Mangueira 21 Manifestações Ambientais 20 Manifesto 19, 37 Maomé 62 Marjane Satrapi 62

Monarquia 59 Monocromismo 20 Morro 21 Morte 17 Movimento 22, 30, 31 Muçulmano 61, 62, 63 Mulher 61 Museu Nacional 21 Música 21, 31, 51 Mutilação 17 Mutilação 27 Nacionalistas 62 Narrativa 38, 39, 40, 41 Negro 13 Neoconcretismo 19 Neoconcreto 21 Neue Haas Grotesk 44 Neutro 45 Noel Burch 36, 37, 38, 39, 40, 41 Núcleos 22 O Clone 61 Obama 12 Ocidental 60 Ocidente 62 Office Space 14, 15 Ordem 21 Orgânico 17 Orgulho 62 Oriente médio 60, 61 Ortodoxos 21, 61 Ostensivos 56 Outro Sentido 26 Padronização 45 Pahlavi 59, 60 Palavra 54 Paquistão 61 Paradigma 35 Paradigma do consenso 17 Parangolé 30, 31 Parangolé 20, 22

ISLÃ, UM REGIME DE SUBMISSÃO?

CTRL+F

64

58

Plebeu 22 Pó 22 Poder 17, 54, 63 Poesia 17, 20, 54 Poeta 18 Polêmica 16 Política 18 Políticos 62 Pop arte 56, 57 Pornografia 16, 1 Porta 31, 37, 38, 3 Preciosismo 20 Presidente 63 Proficiência 18 Propaganda 17, 56 Prostituição 28, 62 Psicanalíticos 57 Psíquico 20 Public Enemy 13 Pulsante 22 Pungia 22 Punk 42 Quartéis 28 Raccord 37, 38, 39 Racionalista 19, 5 Radicalismo 16 Realidade 17 Rebelde 25 Regime 62, 63 Rejeição 60 Relevos 22 Religião 56, 60, 61 República 59 Resistência 62 Ressonância 17 Revolta 18 Revolução Iranian Revolução Islâmic Revolucionário 19 Revoluções 35

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W Beach Boys 42 Beleza 18 Belo 20 Belo Horizonte 46, 47,48, 49 Bin Laden 61 Bissexuais 26 Boemia 29 Boicote 17 Bold 45 Bólide 20, 22 Bombadeiras 27 Bombaim 17 Boneca 26, 27 Brooklyn 13 Burguesa 21 Burka 61

Cronenberg 42 Cultura 16, 21, 60, 61, 62, 63 Cultura contemporânea 45 Cultura européia 57 Cultura popular 56 Dadaísmo 56, 57 Debate 61 Democracia 63 Desajuste 25 Descobrindo o Irã 59 Desconstrução 17 Desejo 17 Desenho 45, 57 Design Grafico 57 Diálogo 20 Diferenciação 45

Experimentação 22, 57, 63 Expressão 18 Fake 56 Farabi Foundation 60 Farj Film Festival 60 FENAJ 12 Férias 62 Ferocidade 17 Ferreira Gullar 20 Festival 60 Festival de Cannes 63 Filme 62, 63 Filólogo 18 Filosofia 56 Foda-se 25 Força 55

Hormônio 27 Houston 57 Imagem 20, 44, 55 In-corporação 22 Individualista 20 Inglaterra 17 Insólito 20, 22 Insubmissão 60 Insubordinação 16, 25 Insubordinado 10 Intelectuais 62 Intolerância 60 Introspecção 57 Irã 16, 59, 60, 61, 63 Iraque 62 Ironia 40

6 Marker 42 Massificada 45 Max Miedinger 44 Menosprezar 55 Mercantilismo 17 Merda 25 Metaesquemas 19 Metodologia 21 Michel Foucault 60 Michel Melamed 51 Mídias 44 Mike Judge 14

7

8 Paranóia 17 Patrícia Azevedo 47, 49 Pecado 18 Pedro Carneiro 14, 15 Peixe 5 Penetrável 20, 22 Percepção 17, 45 Persa 62 Persépolis 62 Personagem 61 Perspectiva 22 Perverso 22

9

Ricardo Portilho 4 Rigor 21, 61 Ritmo 21 Rockabilly 42 Romântica 20 Rotina 14, 15 Ruptura 21 Sádico 17 Sagrado 62 Sal 44 Salve o cinema 62 Santo 29


Editorial

A revista que você tem em mãos não é uma revista.

aberto em resgate às idéias e conceitos, às referências e técnicas das práticas de comunicação visual.

Nosso objetivo é dar a palavra às imagens, transformar as palavras em imagens e palavrear as imagens, fazer as palavras discutirem tudo o que for visual. Este editorial pede desculpas por ser texto – recorte-o e rasgue-o depois de ler.

Revista Plur1verso é um

Ilustração Capa: Filipe Alonso

projeto de conclusão de curso

Colaboradores dessa edição:

apresentado ao Departamento

Bruno Barros, Lucas Guerra,

de Comunicação Social da

Guilherme Föster, Gabriela

UFMG. Realizado pelos alunos

Rabelo, Kauê Garcia, Mariana

de graduação:

Garcia, Délio Faleiro, Lorena

Andréa Miranda (Publicidade

Galery, Otavio Cohen, Cristóbal

e Propaganda); Bruna Araújo

Schmal, Andréa Miranda, Lucas

(Publicidade e Propaganda); Filipe

Lima, Matheus Lopes Castro.

Alonso (Publicidade e Propaganda); João Vitor Leal (Jornalismo). Sob orientação do professor Carlos Magno Mendonça.

Plur1verso é um espaço

Os trabalhos publicados na revista são colaborações e expressam a opinião de seus autores.

contato@plur1verso.com

Nesta primeira edição, trazemos como tema a [in] subordinação, em sentido amplo. Lançado o tema, pescamos trabalhos que têm em comum uma inquietação contra o que é fácil. São trabalhos que recusam presets, plugins e idéias prontas, que questionam formas e conteúdos. Nosso desejo é mudar a comunicação visual de lugar, ainda que apenas por segundos, e vê-la se debatendo para sobreviver e apontando, assim, novas possibilidades.

Créditos

6-7. Editorial Ilustração: Bruna Araújo

19. Helio Oiticica Fotos: Coleção The Museum of Modern Art Nova Iorque 20. Fotos: Paloma Parentoni 21-23. Fotos: divulgação 24. Foto: baixacultura.org

10-12. O eterno capacho insubordinado Ilustração: Filipe Alonso

26-28. Adeus, boneca de pano Ilustração: Filipe Alonso

14-17. Maldito Escritório Fotomontagem: Bruna Araújo

30-31. Capa D9 Fotos: Mariana Garcia

2-3. Maniqueísmo Filipe Alonso 4-5. Índice Colagem: Andréa Miranda

16-17. Hakim Bey Ilustração: Andréa Miranda

35-39. Dogville Fotos: divulgação Imovision Ilustração: Bruna Araújo

44-45. Helvetica Fries Fotos: Andréa Miranda 58-63. Islã Colagens: Andréa Miranda 64-65. CTRL+F Fotomontagem: Filipe Alonso 66-67. Maniqueísmo Bruna Araújo


Nosso desejo é materializar possibilidades em papel e tinta. Os colaboradores desta edição são estudantes e jovens profissionais com coisas a dizer e talento para dizê-las – ou mostrá-las. Será assim a cada edição de Plur1verso: um tema único e vários colaboradores, vários pontos de vista e focos de interesse, em uma coleção de páginas como esta.

Como cada tema sugere estéticas distintas, Plur1verso se fará única a cada edição: projetos gráficos sempre inéditos, sempre insubordinados. Aproveite a visita aos espaços das páginas a seguir. Observe bem as arestas, sinta o clima, aproprie-se dos sentidos. E, se quiser ocupar algum desses espaços em nossa próxima edição, entre em contato conosco.

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trás

Bruno Henrique Barros Fonseca

Estudante de Jornalismo

Linha

obruno10@gmail.com

de

[In]

subordinação vem de dentro. É golpe do golpe do golpe. Insubordi[nação] não é passar para o lado inimigo. É passar para seu próprio lado. In[sub]ordinação. Para alguns, não deixa de ser uma falta de noção. Insubordin [ação]!


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M

uitos ainda se lembram da figura do jornalista em épocas passadas. Este era tido como subversivo, inteligente, perspicaz, o modificador de uma realidade. O próprio profissional sentia-se dono de tais características. Era comum os jornalistas carregarem consigo um quê de arrogância derivada do status do seu ofício. Afinal, achavam-se a única figura capaz de tornar público um fato (definição de comunicação?), além de o formador de opinião de toda uma sociedade. Caso paremos para pensar nessas características passadas (hoje anacrônicas), o que sobrou daquele profissional insubordinado nos jornalistas de hoje? A poesia do uso da máquina de escrever, o prestígio da profissão, o ideário filosófico de mudar o mundo perderam parte de seu valor e deram lugar às árduas exigências de mercado, a uma classe individualista e um temor acerca do futuro profissional.

Após queda do diploma e de uma campanha rumo à banalização da profissão parte dos jornalistas ainda se excluem da tentativa de mudança

O eterno

Lucas Guerra Estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Viçosa

lucguerramg@hotmail.com


Por que nada fora feito por considerável parte

de São Paulo”, até mesmo antes de se cogitar a promulgação do

dos jornalistas para impedir que a profissão se tor-

fim do certificado do ofício, já possuía, em suas redações, número

nasse chacota nacional? O jornalista, outrora Davi

considerável de não jornalistas exercendo a profissão. E, quando se

de Michelangelo, vivencia uma Guernica Picas-

promove o mais esperado espetáculo de todo o circo montado por

siana vendo seu império esfacelar-se à sua volta e

Gilmar Mendes – a concretização do fim do diploma por decisão

andando a passo de tartaruga para impedir o fim da

do Supremo Tribunal Federal – a Folha

profissão.

ainda é condescendente com a atitude.

“A grama é sempre mais verde do outro lado...”

Seria possível indicar alguém como instaura-

O jornalista que comenta, observa,

dor desse colapso jornalístico? Pergunte isso a um

acompanha tantas campanhas contra

profissional da área e a universitários aspirantes

qualquer tipo de censura ou arbitrarieda-

que todos lhe darão uma única resposta, ou melhor,

de não se apresentou eficiente para propor

um único nome: Gilmar Mendes. Gil... o “você sabe

alternativas viáveis para alterar essa nova

quem” das fantasiosas páginas da história atual do

configuração que atinge do ofício. Quando

jornalismo é um nome a ser esquecido por aqueles que prota-

algo ocorre em seu próprio espaço, o

gonizam a rotina do ofício. Fora a partir do infundado argumento de que

periodista não possuiu o mínimo de orga-

o direito de publicar notícias apenas por periodistas graduados fere o direito a

nização para incitar na sociedade repulsa

liberdade de expressão que o diploma nos foi retirado.

à decisão.

Para desorganizar ainda mais a classe, os grandes meios de comunicação impressos, e também de outras áreas, foram a favor da decisão. O jornal “Folha

Na verdade, é possível enxergar um pouco desse cálice do qual o jornalismo

insubordinado…

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se serviu. “Pai tente afastá-lo de nós.” Uma briga de frente com as empresas jornalísticas iria certamente salgar ainda mais o apimentado tempero da grave crise de contratação do ofício. Além disso, muitos são os jornalistas já estabelecidos e integrantes do sonhado mercado de trabalho que preferem não agir, e fingir que nada está acontecendo, uma vez que tais alterações acarretam poucas mudanças na sua estrutura aparentemente segura. Aquela velha política ainda faz efeito – “Não vejo, Não ouço, Não falo”. Será que ainda pensam? Presidente do Superior Tribunal Federal, relator do recurso que põe fim à obrigatoriedade do diploma de jornalista, em 2009. Mendes comparou a profissão à de cozinheiro.

Gilmar Mendes

A profissão hoje vive uma campanha presidencialista aos moldes de Obama. O disseminar das frases “Yes we can” que o fim do diploma proporcionou no cenário jornalístico – sim podemos todos ser jornalistas – foi completamente mal interpretado pelos seus integrantes do partido. Estes, na verdade, montaram esquema que contribui para banalizar o ofício. É comum aos estudantes de comunicação ouvir piadas que questionam a existência do curso e até mesmo da profissão.

FENAJ

Federação Nacional dos Jornalistas, criada em 1946 para representar a categoria.

Os leigos ainda não entendem o real valor do que o fazer jornalismo é. A profissão contempla conceitos éticos e filosóficos que vão muito além do que o primeiro parecer sobre o ofício pode enxergar. A maneira inteligente de se escrever, as várias repercussões que uma notícia pode causar, a visão aprimorada e reveladora do jornalista sobre um fato, certamen-

te o põe milhas à frente de um simples individuo que se considera escritor. Além disso, a universidade é a estrada de tijolos amarelos de um bom profissional, independente da área. É o caminho que o estudante possui para visualizar a importância do ofício e obter aptidão para exercer o mesmo. Não se defende um diploma pelo simples fato deste ser um indicador da possibilidade de exercer uma profissão. O certificado de jornalista não é apenas um mero papel que indica especialização em uma área específica do saber. Ele representa toda aspiração, trabalho e esforço necessário para se alcançar um ofício. Indica não só nossos conhecimentos práticos acerca de um campo de estudo, mas também toda carga teórica, humanística, além dos mais vastos aprendizados que retiramos da vivência durante os anos de estudo na instituição. Na censura em que alguns jornalistas preferem se inserir, tornase realmente difícil alcançar a possibilidade de alteração no roteiro da novela do jornalismo. Ainda há tempo para mudança, ainda há condições de perpetuar os valores que o ofício possuiu. Todavia, é necessário, mais do que apenas discussões, precisamos de atitude. Nesse sentido, nem mesmo a Fenaj nos ofereceu alguma defesa realmente eficiente. Sem uma previsão de uma articulação de mudança enfática, fica aí uma dica retirada do manual sociopolítico brasileiro:

“Vamos deixar como está para ver no que dá.”


k Spi

e Ícon do afro ma ano. e n i c ric ame ordou b a e pr ciais Sem ticas ra em s á tem o porta uma d a n i r r a ab od p o sobre ywo ã Holl entizaç sociais. s ci a s n m o c le prob hop hip as e d su po Gru o pelas tica á d i s tem hec con tras de las sua e e le ca, p a i d mí ti polí icas à ivismo crít seu at as da pelo as caus dade n uni com gra dos . ne EUA

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Poster desenvolvido para um festival de filmes do Brooklyn, que exibiria filmes que retrataram a cultura do Bairro Nova-Iorquino, em sua grande maioria sobre a cultura negra. Spike Lee é um dos diretores que representou toda essa onda do Orgulho Negro na década de 80, junto com o Public Enemy, este referenciado por trechos de suas letras no cartaz.

Guilher

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Office Space

“Como Enlouquecer Seu Chefe”, comédia americana, de 1999, escrita e dirigida por Mike Judge. Satiriza a vida no trabalho de uma típica companhia de desenvolvimento de software durante o final da década de 90, focando na exaustão dos indivíduos que estão cheios do seu trabalho rotineiro.


Comunicação Visual.

tor de arte numa agência de

almente trabalha como dire-

anos de Design Gráfico, atu-

nacional. Já são longos cinco

Os trabalhos para a peça de Pedro Carneiro relatam o dia-a-dia em um escritório. A peça conta sobre um homem que odiava o seu trabalho, nos moldes de Office Space.

bém possui muita influência visual

Brasil, como muitos no Sul do país, tam-

tetura alemã. Apesar de ser um alemão no

maior influência é o Design e a Arqui-

grande parte do seu trabalho. Sua

retas, o minimalismo é o que rege

trabalhar com formas simples e

então não largou mais. Costuma

meçou no Design em 2004 e desde

Morador de Curitiba, Paraná. Co-

Maldito Escritório Guilherme Heise Förster

guilherme.foerster@gmail.com

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H

akim Bey é o pseudônimo de Peter Lamborn Wilson, historiador, ensaísta e poeta americano nascido em 1945. Inicialmente pesquisador do sufismo (corrente mística derivada do islamismo que acredita na possibilidade de uma relação direta com deus através de rituais de canto e dança), morou em diversos países do oriente médio até ser expulso do Irã à época da Revolução Iraniana, em 1979.

CAOS Terrorismo Poético e Outros Crimes Exemplares Hakim Bey Livro lançado pela Conrad Editora do Brasil, em 2003, com tradução de Patricia Decia e Renato Resende. Original em inglês disponível em http://www.hermetic.com/bey/taz_cont.html Seus escritos são marcados por um profundo radicalismo estético e ideológico, um anarquismo quase a-político, e pela profusão de referências a correntes ideológicas, culturas e movimentos underground. A polêmica levantada por livros como CAOS: terrorismo poético e outros atos exemplares, publicado em 1985, iguala-se à polêmica acerca do próprio Bey: personagem enigmático, que raramente aparece em público, “acusado” de estimular atos de guerrilha simbólica e midiática.

A coleção de ideias que o acompanha é extensa hackers, cultura rave, anarquismo ontológico, terrorismo poético, teoria do caos, pornografia (e pedofilia), tecnologia, ludismo... Hakim Bey descarta convenções e exalta a insubordinação - em seu sentido mais amplo.


p.6

“Dançar de forma bizarra durante a noite inteira nos caixas eletrônicos dos bancos. Apresentações pirotécnicas não autorizadas. “A Arte-Sabotagem é o lado negro do Terrorismo Poético – criação-através-da-destruição –, mas não pode servir a ne-

de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas. Seqüestre alguém e o faça feliz.

nhum partido ou niilismo, nem mesmo à própria arte. Assim

Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme,

como a destruição da ilusão eleva a consciência, a demoli-

inútil e impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilômetros quadra-

ção da praga estética adoça o ar no mundo do discurso, do Outro.

dos na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim

A Arte-Sabotagem serve apenas à percepção, atenção, consciência.

ou uma coleção de manuscritos de alquimia. Mais tarde, essa pessoa

A AS vai além da paranóia, além da desconstrução – a critica defi-

perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário

nitiv a – ataque físico à arte ofensiva – cruzada estética. O menor

e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de

indício de um egotismo mesquinho ou mesmo de um gosto pessoal

existência.”

estraga sua pureza e vicia sua força. A AS não pode nunca procurar

p.11

Land-art, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alieníge-

nas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez

ganda de suas mercadorias mais caras com imagens de morte e mutilação, enviada diretamente para a parte sub-reptícia do cérebro

p.30

“Vivemos numa sociedade que faz propa-

das multidões através de aparelhos carcinógenos geradores de ondas alfa que distorcem a realidade – enquanto algumas imagens da vida (como a nossa favorita, de uma criança se masturbando) são banidas e punidas com uma ferocidade incrível. Não é preciso coragem para ser um Sádico da Arte, pois a morte libidinosa está no centro estético do Paradigma do Consenso.”

p.40

o poder – apenas renunciar a ele.”

“A Associação para a Anarquia Ontológica conclama um boicote de todos os produtos comercializados sob a senha de LIGHT – cerveja, carne, doces, cosméticos, música, ‘estilos de vida’ préfabricados, o que for. O conceito de LIGHT (no jargão situacio-

nista) desdobra um complexo de simbolismo através do qual o Espetáculo espera controlar toda a repulsa contra o seu mercantilismo do desejo. O produto “natural”, “orgânico”, “saudável”, é designado para um setor do mercado constituído por pessoas levemente insatisfeitas que apresentam um quadro mediano de horror do futuro e possuem uma aspiração mediana por uma autenticidade tépida. Um nicho foi preparado para você, suavemente iluminado pelas ilusões de simplicidade, limpeza, elegância, uma pitada de ascetismo e autonegação. Claro, custa um pouco mais... afinal, o que é LIGHT não foi feito para primitivos pobre e famintos que ainda consideram comida nutrição e não décor. Tem de custar mais – senão, você não compraria.”

p.32

“Sem o conhecimento da escuridão (“conhecimento carnal”)

ainda algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressureição não é uma

não pode existir o conheci-

delas. Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, então

mento da luz (“gnose”). Os dois

alguém precisa cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que

conhecimentos não são meramente

possuam a ressonância do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer preço.

complementares: são idênticos, como

Não crimes contra o corpo, mas contra Idéias (e Idéias-dentro-das-coisas) que sejam

a mesma nota tocada em duas oita-

letais e asfixiantes. Não libertinagem estúpida, mas crimes exemplares, estéticos, crimes

vas diferentes. Heráclito afirma que

por amor. Na Inglaterra, alguns livros pornográficos ainda estão banidos. A pornogra-

a realidade persiste num estado de

fia produz um efeito físico mensurável em seus leitores.”

“guerra”. Apenas notas opostas podem

p.17

“A poesia está morta novamente – e mesmo que a múmia do seu cadáver possua

construir a harmonia. (“O Caos ´e a soma de todas as ordens.”)”.

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A beleza, o pecado, a revolta, o amor dão à arte desse rapaz um acento novo na arte brasileira. Não adiantam admoestações morais. Se querem antecedentes, talvez este seja um: Hélio é neto de anarquista.” Mário Pedrosa, no artigo “Arte ambiental, arte pós-moderna, Helio Oiticica”. In: Correio da Manhã, 26/06/1966.

H

élio Oiticica nasceu em 26 de julho de 1937, no Rio de Janeiro e foi criado em uma família da qual herdou sua liberdade de expressão e contestação. Oiticica tinha um engajamento político anarquista, não partidário, envolvido apenas em suas escolhas pessoais, avesso a palavras de ordem e que desconfiava de organizações de esquerda e partidos comunistas. Essa orientação política (ou, por que não dizer, não-política), Hélio atribuía ao avô, José Oiticica - professor, poeta, filólogo e notável anarquista brasileiro -, autor do livro “A doutrina anarquista ao alcance de todos” (1945) e um dos principais articuladores da Insurreição Anarquista de 1918, que pretendia derrubar o governo central na capital do país. Também ao avô, Oiticica atribuía sua proficiência lingüística “Devo a ele saber todas as línguas latinas bem. Eu falo bem francês – aliás, o francês eu falo desde os sete anos; eu leio bem o italiano. E eu estudava latim com meu avô, que falava onze línguas”. É notável a admiração de Oiticica pelo avô, que, também segundo ele, “tinha comportamentos que, para mim, eram valores que me guiavam, que eu nunca mais esqueci e que meu pai me contou”.

Gabriela Rabelo Publicitária e designer gráfico

gabrielarabelo@gmail.com Colaboração: Marcos Franchini Mayra Milena


Hélio Oiticica é considerado um dos artistas mais revolucionários de seu tempo; em sintonia constante com a efervescência artística mundial das épocas de 1950, 1960 e 1970 e, de acordo

Luciano Figueiredo apud OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

com Luciano Figueiredo, “participou ativamente de um dos períodos mais fortes da crítica de arte no Brasil: os anos neoconcretos”. HO possuía uma visão tão ampla que, à sua época, seu trabalho foi apenas parcialmente compreendido. Além de sua percepção extremamente vanguardista, Oiticica, como chama atenção Luciano Figueiredo, é “um dos casos raros na arte brasileira de artista que elabora teorias, conceitua e pensa a própria obra”.

O início dos estudos Em 1954, HO iniciou seus estudos de pintura com Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Entre 1957 e 1958, produziu uma série de guaches onde figuras geométricas procuram romper a estrutura formal das composições nas quais estão inseridas, que foram denominados posteriormente pelo próprio artista como Metaesquemas, resultando em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados ‘Sêcos’. Esse trabalho participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956/57, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Untitled No. 348”, aguada sobre cartolina, 46 x 58 cm, de 1958.

Essa produção artística, entretanto, já foi questionada pelo próprio artista, em um texto de 1972, em que dizia que “Não há porque levar a sério a minha produção pré-59”, ressaltando a importância para o artista de sua participação na experiência Neoconcreta e nos desdobramentos de sua produção.

A experiência neoconcreta HO fundou, em 1959, o Grupo Neoconcreto, ao lado de artistas como Amilcar de Castro, Lygia Clark, Lygia Pape e Franz Weissmann. O grupo originou-se a partir da cisão do movimento concreto, resultante das divergências entre os trabalhos dos artistas paulistas do Grupo Ruptura, e cariocas, do Grupo Frente, com o qual HO expunha. Em março de 1959, o Grupo publicou o “Manifesto Neoconcreto”, e colocava-se contra a exacerbação racionalista a que os concretistas haviam levado sua obra. Manifesto do Grupo Ruptura.

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Neste momento, a obra de Hélio Oiticica ganhou espaço e tridimensionalidade sem, no entanto, abrir mão de um preciosismo plástico. Em Aspiro ao Grande Labirinto, Mário Pedrosa descreve esta fase do trabalho do artista:

O jovem Oiticica já em 1959, quando pelo mundo dominava a vaga romântica do informal e do tachismo, indiferente à moda, abandonara o quadro para armar seu primeiro objetivo insólito, ou relevo no espaço, num monocromismo violento e franco. Tendo partido naturalmente da gratuidade dos valores plásticos, já hoje rara entre os artistas vanguardeiros atuais, se mantém fiel àqueles valores, pelo rigor estrutural de seus objetos, o disciplinamento das formas, a suntuosidade das cores e combinações de materiais, pela pureza em suma de suas confecções. Ele quer tudo belo, impecavelmente puro e intratavelmente precioso. (...) O aprendizado concretista quase o impedia de alcançar o estágio primaveril, ingênuo da experiência primeira. Sua expressão toma um caráter extremamente individualista e, ao mesmo tempo, vai até a pura exaltação sensorial, sem alcançar no entanto o sólio propriamente psíquico, onde se dá a passagem à imagem, ao signo, à emoção, à consciência.

Sua produção artística também ganhou diálogo com outras artes como a poesia – a palavra tornou-se elemento marcante em sua obra:

Oiticica começa a desenvolver diálogo e possibilidades de trabalho com outras artes ao incluir em sua obra de 1960, Projeto Cães de Caça, o Poema Enterrado, de Ferreira Gullar e o Teatro Integral, de Reynaldo Jardim. A partir daí, a presença da poesia será marcante em todas as suas ordens conceituais e programas como Penetrável, Bólide, Parangolé, Manifestações Ambientais, Apropriações.

Como está tudo claro agora: que a pintura teria de sair do espaço,

Mário Pedrosa apud OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. P.10.

ser completa, não em superfície, em aparência, mas na sua integridade profunda.(...) Evidentemente esta solução está de pé de igualdade com a arquitetura, pois “funda o espaço”. A arquitetura é o sentimento sublime de todas as épocas, é a visão de um estilo, é a síntese de todas as aspirações individuais e a sua justificação mais alta. Luciano Figueiredo apud OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

Penetrável de Oiticica no Instituto Inhotim, em Brumadinho/MG.


Hélio Oiticica e a ginga da Mangueira Hélio era um jovem apolíneo, até um pouco pedante, que tra-

O ano de 1964 representou mais um momento-chave na trajetória artística e na vida de Hélio Oiticica. A morte de seu pai – com quem havia aprendido o rigor e a ordem – e a descoberta da Mangueira, à qual foi levado pelo escultor Jackson Ribeiro, criaram mais um ponto de ruptura em sua carreira artística. Conforme descreveu Lygia Pape, também do grupo Neoconcreto e amiga

balhava com o seu pai na documentação do Museu Nacional, onde aprendeu uma metodologia: era muito organizado, disciplinado [...] Em 1964, seu pai morreu; um amigo nosso, o Jackson, então, levou o Hélio para a Mangueira, para pintar os carros, foi aí que ele descobriu um espaço dionisíaco, que não conhecia, não tinha a menor experiência. (...) Descobriu, aí, o ritmo, a música. Ficou tão entusiasmado que começou

próxima de Oiticica:

a aprender a dançar, para poder participar dos desfiles, dos ensaios; se integrou na escola de samba, fez grandes amigos, ele descobriu o sexo (...) Hélio virou uma outra pessoa (...) Isso começa a interferir na obra dele em 1964. A morte do pai coincidiu com o fim do movimento neoconcreto, já não havia aqueles compromissos mais ortodoxos. Aí ele começou a incorporar essa experiência do morro (...), aquilo começa a fazer parte dos conceitos dele, da vivência dele (...). Ele muda radicalA mudança também é apontada

mente, até eticamente; ele era um apolíneo e passa a ser dionisíaco (...).

por Mário Pedrosa como a iniciação a

Essas barreiras da cultura burguesa se rompem lá, é como se ele vestisse

uma nova fase na vida de Hélio:

um outro Hélio, um Hélio do “morro”, que passou a invadir tudo: sua casa, sua vida e sua obra.

Mas seu comportamento subitamente mudou: um dia, deixa sua torre de marfim, seu estúdio, e integra-se na Estação Primeira, onde fez sua iniciação popular dolorosa e grave, aos pés do morro da Mangueira, mito carioca. Ao entregar-se, então,

Lygia Pape apud JACQUES, Paola Berenstein. Estética da Ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. P.27.

a um verdadeiro rito de iniciação, carregou, entretanto, consigo para o samba da Mangueira e adjacências, onde a “barra” é constantemente “pesada”, seu impenitente Mário Pedrosa apud OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. P.10.

inconformismo estético.

Box Bólide nº17. Variação do Box Bólide nº1 1965-1966.

Glass Bólide nº05. Homenagem a Mondrian, de 1965.

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Arte ambiental: “in-corporação”, espacialidade e sensorialidade na obra de Hélio Oiticica As obras de Oiticica passaram a se preocupar com o corpo em ações diretas nas obras de arte, lutando contra a atitude contemplativa por parte do espectador. A cor ganhou liberdade e, não mais trancada em formas, tornou-se substância, elemento pulsante da obra, que pungia aquele que a contemplava. Mário Pedrosa prossegue descrevendo essas relações:

A arte de Hélio Oiticica tornou-se Deixara em casa os Relevos e os Núcleos no espaço, prosseguimento de uma pri-

experiência, experimentação na es-

meira experiência de cor a que chamou de penetrável: uma construção de madeira, com

pacialidade, no movimento e na tem-

porta deslizante, em que o sujeito se fechava em cor. Invadia-se de cor, sentia o contato

poralidade. O artista criava mundos

físico da cor, ponderava a cor, tocava, pisava, respirava cor. Como na experiência dos

ambientais - conjuntos penetráveis

bichos de Clark, o espectador deixava de ser um contemplador passivo; para ser atraído a uma opção que não estava na área de suas cogitações convencionais cotidianas, mas na área das cogitações do artista, e destas participava, numa comunicação direta pelo gesto e pela ação. (...) A cor não está mais trancada, mas no espaço circundante abrasado de um amarelo ou de um laranja violento. São cores-substâncias que se desgarram e tomam o ambiente, e se respondem no espaço, como a carne também se colore, os vestidos, os panos se inflamam, as reverberações tocam as coisas. O ambiente arde, incandescente, a atmosfera é de um preciosismo decorativo ao mesmo tempo aristocrático e com algo de plebeu e de perverso.

plenos de potencialidades sensoriais, que se concretizavam através da presença do espectador dentro da obra. Esta presença não era passiva, tampouco estritamente espacial - de estar dentro ou passar pela obra - mas de tornar-se parte dela e deixar que ela se torne uma parte em si, o que Oiticica denominava incorporação (ou, grafada a sua maneira, “in-corporação”).

Arte ambiental é como Oiticica chamou sua arte. Não é com efeito

entranhas, gavetas se enchem de pó, e depois são os vidros nos primeiros

outra coisa. Nela nada é isolado. Não há uma obra que se aprecie em

dos quais ele reduziu a cor a puro pigmento. Os materiais mais diversos

si mesma, como um quadro. O conjunto perceptivo sensorial domina.

se sucedem, tijolo amassado, zarcão, terra, pigmentos, plástico, telas,

Nesse conjunto criou o artista uma “hierarquia de ordens” — Relevos,

carvão, água, anilina, conchas trituradas. Há espelhos como base

Núcleos, Bólides (caixas) e capas, estandartes, tendas (Parangolés) —

de núcleos, há espelhos no interior das caixas para novas dimensões

“todas dirigidas para a criação de um mundo ambiental”. Foi durante a

espaciais internas. De uma garrafa de uma forma caprichosa, como

iniciação ao samba, que o artista passou da experiência visual, em sua

uma licoreira, cheia de um líquido verde translúcido, saem pela boca

pureza, para uma experiência de tato, do movimento, da fruição sensu-

do gargalo, como flores artificiais, telas luxuriantes porosas, amarelas,

al dos materiais, em que o corpo inteiro, antes resumido na aristocracia

verdes, de um preciosismo absurdo. É um desafio inconsciente ao gosto

distante do visual, entra como fonte total da sensorialidade. Com as

refinado dos estetas. A esse vaso decorativo insólito, chamou de Home-

caixas de madeira, que se abrem como escaninhos de onde uma lumi-

nagem a Mondrian, um de seus deuses. Sobre uma mesa, aquele frasco,

nosidade interior sugere outras impressões e abre perspectivas através

em meio daquelas caixas, vidros, núcleos, capas, é como uma pretensão

de pranchas que se deslocam, gavetas cheias de terra ou de pó colorido

de luxo à Luís XV, num interior suburbano. Uma das caixas, das mais

que se abrem, etc, é evidente aquela passagem do domínio das impres-

surpreendentes e belas, o interior cheio de circunvoluções irisadas (telas)

sões visuais às impressões hápticas ou táteis. O contraste simultâneo

é iluminado a luz neon. A variação desses bólides em caixas e em vidros

das cores passa a contrastes sucessivos do contato, da fricção entre

é enorme. Como que deixando o macrocosmo, tudo agora se passa no

sólido e líquido, quente e frio, liso e rigoroso, áspero e macio, poroso e

interior desses objetos, tocados de uma vivência estranha.

consistente. De dentro das caixas saem telas rugosas e coloridas, como


Descrição e conceito das principais obras: A descrição das obras a seguir foi retirada do artigo “Corpo + Arte = Arquitetura. As proposições de Hélio Oiticica e Lygia Clark”, Isso é genial. A maneira como as

de David Sperling, presente no livro “Fios soltos: a arte de Hélio

pessoas se referem a mim é ótimo. Alguns

Bólides

Oiticica” .

me chamavam de pintor, outros de escultor. E, pior ainda, me chamaram de

Os Bólides trazem a diferenciação da noção de trans-objeto.

Realizados a partir de objetos “identificados” – não “encontrados” – e recolhidos pelo artista. Ao serem identificados, no momento mesmo de sua identificação, já se encontram implícitos na idéia e, nessa condição, tensionam a relação sujeito-objeto. A associação de materiais brutos propõe ativar a percepção e o retorno do sujeito

arquiteto! E isso chegou ao máximo no programa do Chacrinha, que me chamou de costureiro. Ninguém acha uma Entrevista para Jorge Guinle Filho, “A última entrevista de Hélio Oiticica”, in Interview, abril de 1980.

definição. Ah, Ah, Ah!

Tropicália propõe mais uma diferenciação ao rea-

lizar a obra como totalidade propositiva de um estado brasileiro da arte de vanguarda, confrontadora dos condicionamentos da arte de representação, a qual Oiticica julgava alienante. Como ápice de seu programa ambiental, Tropicália sugere a participação do sujeito e a ativação do corpo como única forma possível de desnaturalização de hábitos e descolonização do imaginário. A ação do sujeito torna-se totalidade sensorial, sígnica e política.

Parangolé

Tropicália

às coisas mesmas.

Com o conceito Parangolé e a proposição das ca-

pas ou parangolés, o grande salto da criação do objeto para a proposição vivencial do corpo é a diferenciação. Como resposta aos condicionamentos impostos pela cultura e pelo sistema da arte e instigação à desprogramação do sujeito, o Parangolé se efetiva na duração de sua apropriação pelo público chamado a vesti-lo e assisti-lo coletivamente. Forma, tempo e limites espaciais não são dados prévios, são conquistas do processo de ação coletiva. Sujeito e parangolé formam um todo centrífugo, que extravasa para o exterior, em limites fluidos desenhados pela experiência. Na arquitetura da favela está implicito um caráter do Parangolé, tal a organicidade estrutural entre os elementos que o constituem e a circulação interna e o desmembramento externo dessas construções; não há passagens bruscas do quarto para a sala ou cozinha, mas o essencial que define cada parte que se liga à outra continuidade. E aí ele formou os seus movimentos de Parangolé, admitindo a possibilidade de se imitar os favelados do Rio de Janeiro, quando com o mínimo de disponibilidade, criam, também, artes. Vivenciam artes. Isso é profundamente verdadeiro. Basta que se veja quantas vezes a favela comparece ou visita temas de artistas ou pintores da categoria dos renomados, para sentir que naquela figura da geometricidade simples

Parangolé Tent 01, 1964 Pintura; madeira; plástico; 264 x 120 x 120 mm

dos morros cariocas já trazem em si o princípio estético universal na sua arquitetura.”

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diferenciação da experiência de manifestação pública coletiva, integrada por ações de múltiplos agentes – artistas e público – de modo simultâneo e descontínuo, em diálogo não linear. Tática de descentramento e construção de múltiplos sentidos frente a habitualização do cotidiano. O sujeito configura-se como agente transformador de uma realidade múltipla.

Éden

Apocalipopótese

Com Apocalipopótese tem-se a

Éden, mais que a síntese de sua trajetória, o que pela primeira impres-

são a montagem de diversas de suas obras no recinto da Whitechapel Gallery deixaria supor, gera um novo brotamento. O próprio artista revela que a experiência confirmou algumas idéias e derrubou outras, indicando-lhe a meta “do que pensar” e “de para onde ir” (Oiticica, 1986: 115). Com ele formula a idéia de Crelazer, o puro “lazer-prazer-fazer” inerente ao viver não-programado e não-planejado, ao lazer criador acessado em estados de repouso. O viver desinteressado, não objetivado, torna-se a senha para o ato criador, disponível a qualquer sujeito sem a mediação do objeto, não que seja prévio a este, mas que deste prescinde. O sujeito na ação mesma do viver é o ser criador e o próprio “objeto” da arte. Éden não é concebido como exposição de arte destinada a apresentar a trajetória de um artista em terra estrangeira ou ainda como cenografia exótica para “ambientar” obras e público. Nem mesmo como aposto às obras ou seu complemento. Éden é um projeto, brotamento de brotamentos, patamar

Suprassensorial

extremo das reflexões do artista naquele momento, planejamento ambiental.

Com Suprassensorial a diferenciação produzida é a busca da dilatação das

capacidades sensoriais habituais do sujeito, em direção ao que chamou “suprasensação”. Prescindindo muitas vezes do objeto, propõe exercícios criativos em que o que conta é a simultaneidade da vivência com a percepção do viver. Tal processo visa a descoberta do comportamento individual, movendo o sujeito do condicionamento inconsciente. Sujeito e ação suprassensorial processam uma meta-vivência, “objeto” da proposição artística. Outra diferenciação, o desenvolvimento do conceito de Probjeto é considera-

do por Favaretto o momento de completude da abertura estrutural do programa vivencial de Oiticica (Favaretto, 1992: 178). O objeto ampliado em escala, proposições de Ninhos, tendas e camas, é concebido como receptáculo de vivências

e comportamentos. O objeto não é o alvo da participação, mas campo comportamental, espaço destinado à criação coletiva. Sujeito e Probjeto formam uma totalidade centrípeta, dirigida a um âmago, espaço interno protegido.


[

I

continua na página 29

enxergar nas colagens, e isso me torna apto para participar

foda-se, devo ter um pouco de cada coisa ruim que possam

bobagem assim, devem tem alguma razão, porém na boa,

Todos que me subestimam e acham um trabalho

]

juvenil, rebelde sem causa, comercial ou qualquer outra

merda

A Super Produção

Kauê Garcia www.flickr.com/kauegarcia

nsubordinação, bom tema, talvez meu trabalho se encaixe perfeitamente com essa proposta, como também se adequaria para qualquer que aponte alguma forma de desajuste com a sociedade.

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Lá em São João Del Rei eu quis continuar a fazer terapia e, desta vez, a minha psicóloga não quis me consertar. Quis me escutar. Um dia ela pediu para eu deitar no chão em cima de um papel. Desenhou o contorno do meu corpo e me deu um tanto de revista. ‘Agora você recorta as figuras que quiser e cole no desenho’. No meio do meu peito eu colei uma mulher e desenhei com um lápis uma grade de cadeia. ‘Tem uma mulher aprisionada dentro de você que está querendo sair’, ela falou”.

Adeus boneca de pano! Quem conta essa história é Sarug Dagir Ribeiro. Enquanto fala, é impossível deixar de reparar em suas longas pernas, lábios fartos, maquiagem impecável, voz suave e num quê de interrogação que traz. Desde a infância era diferente. Tinha trejeitos femininos. Sabia que gostava de homens, mas não se identificava com o grupo dos gays. Com quase 25 anos, Sarug se descobriu

Mariana Garcia Adriana Mitre Estudante de Comunicação Social da UFMG

http://www.flickr.com/photos/marianagarcia/ Reportagem produzida para o Laboratório Outro Sentido, do curso de Comunicação Social da UFMG

uma transexual: anatomicamente um homem, mas com desejo profundo de ser uma mulher. Liliane Anderson, mais conhecida como Lili, é vice-presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Foi dentro do movimento que ela percebeu ser transexual. “Eu falava que era travesti. Dentro daquele


espaço fui descobrindo que eu realmente era uma mulher, uma transexual. Uma travesti não quer ser nem homem, nem mulher. Ela quer ter a identidade dela como travesti. É diferente de nós, transexuais, que queremos ter uma identidade de mulher”, diz. Segundo Lili, as transexuais desejam estar inseridas, por exemplo, no movimento feminista, enquanto as travestis preferem transitar por todos os espaços. “Mas é claro que ela [a travesti] não pode ir ao banheiro masculino porque pode ser agredida”, comenta.

Espelho, espelho

meu…

Sarug e Lili, assim como outras transexuais, passaram muito tempo

tentando entender seus sentimentos que não condiziam com o seu corpo. “Eu não queria mais ser uma boneca de pano. Eu queria mudar”, lembra Sarug. O processo de descoberta implicou em mudanças físicas. Sarug começou a tomar hormônio feminino, a fazer maquiagem diariamente e a deixar o cabelo crescer. No início ela chegava a tomar uma cartela inteira de anticoncepcional de uma vez, mas as reações alérgicas a fizeram procurar uma endocrinologista. O hormônio feminino evita a ereção, a ejaculação e diminui o crescimento de pêlos. Sarug explica que o hormônio permitiu que seu

letra ‘g’ no final”. Apesar disso, em determinados

corpo mudasse de forma harmônica e natural: “nada

lugares é conhecida como Daniele ou Everlin.

agressivo demais. Apesar de aumentar o risco de

Já Lili teve vários nomes. “Não compensa

ter uma trombose e um AVC”. Ela investiu nos

falar. Hoje todo mundo me conhece como

hábitos de embelezamento, fez curso de maquiagem

Liliane Anderson”. De nome de batismo,

e aprendeu a cuidar da pele e do cabelo. Preferiu

Anderson passou a sobrenome.

não recorrer ao silicone cirúrgico para moldar seu

Muitos transexuais ainda

corpo. Menos ainda ao industrial, e mesmo usado

sentem a necessidade de mudanças

para lustrar peças de avião, limpar pneus e painéis

mais profundas. Para esses ca-

de automóveis. Trata-se de um processo clandestino

sos existe a opção da cirurgia de

feito pelas “bombadeiras”, travestis ou transexuais

correção de sexo, que já pode ser

que realizam cirurgias plásticas improvisadas, sem

feita pelo SUS. O paciente precisa

nenhuma formação médica. Para fechar os bura-

ser acompanhado não só por um

quinhos por onde o silicone entrou, é preciso cola

cirurgião, como também por uma

super bonder e repouso absoluto por cerca de dois

equipe de psicólogos e psiquiatras

meses. Esse procedimento cirúrgico pode levar à

durante pelo menos dois anos. Marina

morte. “Isto é comum na realidade de trans e traves-

Caldas Teixeira, psicanalista que atende

tis. A gente busca o corpo perfeito, a auto-estima.

a casos do SUS em Belo Horizonte, afirma que

Não tem dinheiro, procura as bombadeiras”, conta

o acompanhamento é importante por se tratar de

Lili, que já se submeteu a esse procedimento para

uma mutilação. “O objetivo do meu trabalho é fazer

turbinar o bumbum.

o sujeito passar pela cirurgia da melhor forma pos-

Não basta mudar o corpo. Trocar o nome tam-

sível, porque é irreversível e não vai dar pra ele se

bém é quase sempre indispensável. Sarug é exceção:

arrepender e pedir pra retornar”, diz ela. O professor

ela usa seu nome de registro. Diz que não incomoda

do Departamento de Psicologia da UFMG, Marco

porque “não é completamente masculino graças à

Aurélio Prado, comenta que o acompanhamento é

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interessante exatamente porque ele funciona como uma espécie de interrogatório para o paciente: “são cirurgias muito definitivas sobre o corpo e você não tem nada nem ninguém que coloque a

Mudar o corpo

mão no fogo e comprove que aquela cirurgia pode garantir zonas erógenas de prazer. É interessante que as pessoas não embarquem

não basta

Transformar o corpo está longe de ser o ponto

nisso apenas como uma forma relativamente rápida de resolver

final para todos os problemas. Pode ser apenas o

um conflito”. Marco Aurélio é membro do Núcleo de Direitos

começo de outras dificuldades. Para Marina Caldas,

Humanos e Cidadania GLBT.

“é um equívoco o transexual achar que todo o problema dele é o órgão. O órgão está ali só de bode expiatório”. Segundo ela, outras querelas vão aparecendo. A questão da afetividade é uma delas. Um

Reconstrução

total

exemplo dado pela psicóloga é o de uma transexual

A cirurgia, no caso do masculino

que não conseguia aceitar que, mesmo após de ter

para o feminino, consiste na transfor-

feito a cirurgia, apenas homossexuais se interessas-

mação do pênis em uma vagina estética.

sem por ela. Este é um sentimento que a cirurgia

“Primeira coisa na cirurgia é a retirada dos testículos. Nós pegamos o órgão sexual, esvaziamos o pênis e tiramos a

não apazigua. Além de nem sempre conseguir suprir todas

parte que dá a ereção. Com a pele do pênis se constrói a vagina,

as demandas dos transexuais, a cirurgia dificilmen-

com a do saco escrotal é feito os grandes e os pequenos lábios e com a

te facilita uma inserção social igualitária. Marco

parte da uretra, o clitóris”, explica o Dr. Carlos Cury, coordenador da Unidade de

Aurélio diz que a sociedade normalmente relaciona

Mudança de Sexo da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

a transexualidade à prostituição. Essa visão estere-

Já no caso da transformação do feminino para o masculino, mamas, ovários,

otipada seria, para o pesquisador, uma das grandes

trompas e útero são retirados. “Quando o paciente toma o hormônio masculi-

causas do preconceito. “Se abrirmos os olhos para a

no, o clitóris começa a crescer e aumenta de tamanho. A cirurgia alonga esse

riqueza das experiências, a gente vai ver que não é

clitóris e fica um pênis bem razoável de três a quatro centímetros”, conta Carlos

isso. Acho que estamos distantes de reconhecer uma

Cury.

igualdade do ponto de vista da convivência, da socia-

Sarug chegou a entrar na fila do SUS e consultar um médico. Desistiu. “A cirurgia que ele faz é puramente estética, não é uma vagina funcional. É indicada para transexuais que tem uma aversão muito grande pelo corpo e feita para ver se salva o sujeito de uma psicose”, diz Sarug. Lili não entrou na fila. Ela reclama das burocracias e afirma que algumas pessoas

bilidade, da escuta dessa experiência”, afirma. Sarug se formou em Psicologia na UFMG e concluiu o mestrado na Faculdade de Letras. Optou pela prostituição para sobreviver. Ela conta que a abertura para o transexual ingressar no mercado formal de trabalho é mínima. “Muitas trans e travestis

ficam mais de cinco anos esperando pela

são expulsas de casa muito jovens e são abrigadas

cirurgia: “muita gente se prostitui para

nas casas de cafetinas. Além disso, a rua é o local

pagar a operação, ou junta dois mil reais

onde elas se sentem valorizadas. Que seja pelos 30

e se sujeita a uma cirurgia ilegal”.

reais que ganham por programa”, reflete Sarug. Ela conta que agora está se articulando para retornar à

mento traz o prazer sexual, pois o órgão

universidade e sair da prostituição. Pretende tentar

fica totalmente sensibilizado, mas Marina

doutorado e depois um concurso público para ser

Caldas aponta a cirurgia como a constru-

professora universitária. O tema para a tese, Sarug já

ção de um órgão artificial, não inervado:

tem. Deverá pesquisar a relação entre a prostituição

“do ponto de vista fisiológico, não tem

e um tipo de cliente costumeiro em seu cotidiano, o

possibilidade, mas tem paciente que diz

militar. Ela também está em fase de produção de um

que tem muito prazer. Não cabe à gente

livro que conta suas próprias experiências com esses

ficar julgando”.

homens dos quartéis.

]

Carlos Cury garante que o procedi-


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instituição.

letraset, boemia, durex e total falta de respeito a qualquer

dos no lixo, Xerox mais barato da cidade, mente perturbada,

Enfim, Arte Punk para vocês, com materiais encontra-

para que ?

zando a situação cairia melhor, e me respeitassem mais, mas

bonito, com um discurso engajado, romantizando e politi-

juro que estou sendo sincero, pode ser que se eu falasse

padrões, pode soar como uma arrogância prepotente, mas

uma extensão do que eu sou, mal educada, suja e fora dos

Isso fica claro na minha arte, que nada é mais do que

tendências.

de obrigação ou compromisso, inclusive para as terríveis

sempre com o dedo médio em riste para qualquer tipo

da revista, pois sempre estive na contramão da história,

continua na página 25

santo-ex-pedinte

Um pouco pro


lvido como uma O trabalho foi desenvo revela características prancha conceito que nhas. Inspirado em físicas e psicológicas mi um parangolé, rodei e Hélio Oiticica construi Oiticica refletiria em dancei. A “anti-arte” de a ncia, a musicalidade e sua essência a inconstâ rta po a to à liberdade. Um insubordinação. Um gri ”. “para o êxtase asa-delta aberta para o delírio e

Minhas experiênc ias têm mais a ver hoje com circo do que com promotores de arte; não estou a fim de alegrar as burguesias intere ssadas em arte. São uns chatos, alé m das conhecidas qualidades reacionárias; porta nto basta.

ica Helio Oitic

Helio Oiticica, de

Trecho de texto

na Procure 8 página 1

Nova York.

publicado na col

una Geleia Neto, no jornal Úl tima Hora, em 29 de set embro de 1971.

Geral, de Torquato

Parangolé Música

e Inconstância.

Délio Faleiro Estudante de

Comunicação

D9

Capa

Social

tos/faleiro

flickr.com/pho

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N

o início do século XX, uma criança de uma tradicional família francesa ganhou uma câmera fotográfica. Talvez esse seja “o momento decisivo” mais decisivo da história da fotografia.

((

À procura

de

Bresson Lorena Galery

Estudante de Artes Visuais e Design Gráfico

http://www.flickr.com/photos/logalery/

O menino, Henri Cartier-Bresson, tornou-se pouco tempo depois um dos mais importantes e inovadores fotógrafos da história, desenvolvendo um estilo completamente livre e único, que só uma criança poderia ter. Mas o que teria sido de Cartier-Bresson – e da história da fotografia – se o menino francês tivesse sido proibido de brincar com esse equipamento caro e destinado para adultos, como acontece normalmente?


((

{ }

ns Henri Cartier-Bresson

Fotógrafo francês, nascido em 1908. Bresson é considerado por muitos o pai do fotojornalismo. É um dos fundadores da agência fotográfica Magnum em 1947. Viajou o mundo fotografando por revistas como Life, Vogue e Harper’s Bazaar.

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)

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Isso não importa, já que não foi assim que se sucedeu. Mas será que diversas revoluções artísticas não estão sendo extintas, ou no mínimo proteladas todas as vezes que dissemos não às travessuras de uma criança? Esse ensaio fotográfico propõe subverter o principal paradigma da criação das crianças ocidentais: o de dizer não. Aqui, tudo pode. Roubar biscoito, rabiscar a parede ou brincar com fogo.

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O

infinito que (não) se enxerga entre um quadro e outro na película cinematográfica é o que inspira o trabalho de teóricos, estudiosos e curiosos em relação ao cinema. Os espaços de não-imagem que intercalam cada fotograma trazem o sentido do filme para uma dimensão mais profunda, onde a análise e o conseguinte diagnóstico merecem cuidado especial. É a partir dessa idéia, intervalos invisíveis entre o que se visualiza na tela, que se procura, neste texto, a analisar breve e despretensiosamente, como são articulados os planos em certas seqüência do filme Dogville Lars Von Trier, 2003.

Otavio Cohen jornalista e crítico de cinema

twitter.com/otaviocohen | sala2084.blogspot.com


Filmado num galpão na Suécia, Dogville é um reflexo da obra anterior de Von Trier, um diretor famoso por ter feito parte do conjunto de cineastas responsáveis pelo Manifesto Dogma 95. Dogville não se enquadra em todas as exigências do manifesto, mas traz certos elementos que deixam claras as influências, como por exemplo, a ausência de cenografia – apenas alguns objetos cênicos e marcas no chão constituem o “cenário” onde se desenvolve a história. A quase total ausência de câmeras fixas e o abuso dos cortes rápidos são marcas inconfundíveis de que Dogville trouxe alguma inovação à história do cinema.

O fim da porta de Burch Falando sobre a articulação do espaço-tempo no filme, e a maneira como os planos se organizam na montagem causando efeitos de continuidade, Noel Burch cita o exemplo da porta. Um personagem passando por uma porta que liga dois ambientes, sendo filmado em um espaço ao abri-la e seguidamente no outro é certamente um

Crítico e teórico de cinema estadunidense. É internacionalmente conhecido por seu conceito de decupagem, pelo termo Modo de Representação Institucional e por suas teorias, compiladas em obras como “Práxis do cinema” (1969), “Teoria da prática do filme” (1981), e “A Clarabóia do infinito” (1991).

Noel Burch

Von Trier

À luz das postulações de Noel Burch no texto “Elementos básicos”, do livro “Práxis do Cinema”, constata-se que, antes de compreender os intervalos mínimos entre os fotogramas, devemos elucidar certas questões dentro do conceito chamado de raccord. O termo, cuja acepção está próxima do que seria o intervalo entre um plano e outro, principalmente no que tange o tempo e o espaço dentro da estrutura do filme, torna-se central para a perspectiva que se pretende adotar na análise dos trechos do filme.

Cineastra dinamarques. Fundou juntamente com Thomas Vinterberg o manifesto Dogma 95. Além de Dogville dirigiu também Anticristo (2008), Dançando no Escuro (2000), Os Idiotas (1998) dentro outros.

Deixando de lado questões de enredo ou críticas em relação à interpretação que se faz da obra, passamos então a analisar como a estrutura do filme pode ser vista, levando em conta a idéia de raccord, como descrita em Burch, aplicada por Jacques Aumont, e fortemente executada de maneira “incomum” por cineastas como Eisenstein e Godard, principalmente.

exemplo frutífero, embora simples, para falar sobre raccords de tempo e de espaço. É em cima desse exemplo que o autor desdobra praticaponto, tomamos como incontestáveis as palavras do próprio Burch ao afirmar de que há inúmeras possibilidades de se articular espaço e tempo e que as quinze que seu texto traz à tona não são completamente estáveis ou limitadoras).

Dogma 95

mente todos os tipos de raccord citados no texto em questão (nesse

Manifesto escrito para a criação de um cinema mais realista e menos comercial. Foi uma tentativa de resgate do cinema como feito antes da exploração industrial. Nele está expresso uma série de restrições técnicas e tecnologias nos filmes, e éticas, com regras quanto ao conteúdo dos filmes e seus diretores.

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espaço mínimo de tempo/espaço entre dois planos, na montagem de um filme. É a ligação abstrata entre planos, que produz o sentido para que a ação descrita em B esteja colada com a ação descrita em A.

Raccord

Na maioria dos filmes que mostram cenas com portas – e personagens passando por elas – os exemplos de Burch se verificam, independente da maneira como as cenas são decupadas (apresentando elipses de tempo, “descontinuidades” espaciais, etc). O que se observa em Dogville, por exemplo, é uma maneira diferente de passar pelas portas, já que as mesmas não existem – ao menos não como elementos do cenário. Correndo o risco de cairmos numa análise simplista e reduzida, podemos considerar que o espectador chegaria à conclusão de que as idéias descritas aqui são óbvias. Não se pode aplicar uma idéia de como os planos são trabalhados na passagem de um personagem por uma porta quando não se tem

Quebra que gera elipses na narrativa. Ocorre quando, na edição, uma ação filmada sofre uma ruptura e, no plano seguinte, é retomada por um ângulo e/ou um enquadramento ligeiramente diferente.

porta. Entretanto, levando em conta os aspectos do filme de Von

jump-cut

Trier, podemos dizer que sim, a porta está lá. Só sua representação visual como um objeto cênico foi suprimida. Mas a maçaneta faz barulho quando um personagem a manuseia. A porta range e produz som ao ser batida. E, de uma maneira ou de outra, na dimensão do mundo concebido dentro da narrativa, os personagens “sabem” que é por ali que se passa para entrar ou sair de uma casa.

algumas palmadas por ter sido malcriado. Quando ela recusa, ele ameaça a contar para sua mãe. Contrariada, Grace bate em Jason. Então, o garoto se levanta para sair da casa. O final da cena é filmado em plano geral, portanto, podemos ver a ação de outros Retomando a discussão, percebemos que muito

personagens num plano mais adian-

poucas vezes ao longo das quase três horas de duração

tado do que o de Grace e Jason, já que

do filme ocorrem cortes enquanto personagens passam

não há paredes entre eles. Os outros

por portas. Há certas seqüências, porém, que saltam

personagens, portanto, parecem estar

aos olhos por apresentarem situações diferentes. Uma

completamente alheios a tudo. Jason

delas está presente no primeiro ato, ao capítulo 6 (Dogville mostra os dentes): o desfecho da seqüência em que Grace (a personagem de Nicole Kidman) tenta

“abre” a porta enquanto

se esquivar das ameaças de Jason, filho de Vera (Pa-

vemos que Chuck, seu pai,

tricia Clarkson) e Chuck (Stellan Skarsgard). O garoto

se aproxima da casa. No

deseja receber um castigo de Grace, quer que ela lhe dê

plano seguinte, em que a câmera está praticamente na mesma posição, Jason já está na rua, há alguns metros da casa, enquanto Chuck já passou pela porta.

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O que vemos nessa cena é um jump-cut, uma pequena fração de tempo elipsada por um corte, em que os planos são praticamente idênticos. Nesse tipo de raccord, o que ocorre é que a ação de Jason (abrir a porta) não foi completada, ou melhor, não foi completamente mostrada num plano, ao passo de que no plano seguinte o garoto já corria livremente pela rua. Jump-cuts e raccords deste tipo estão presentes durante todo o filme, exercendo efeitos dramáticos na narrativa. Ainda na mesma seqüência, alguns minutos atrás na ação, Grace discute com Jason. Em uma tomada, Grace

plano, no lado direito do quadro, olhando obliquamente para um lugar que estaria “à esquerda” da câmera. Pressupõe-se, então, o lugar em que o garoto está. Na tomada seguinte, Jason está de pé, filmado em plano americano, centralizado olhando para um lugar completamente oposto ao que se espera que Grace esteja. As quebras na continuidade perduram ao longo das tomadas seguintes, em que vemos Grace novamente sentada, e novamente de pé, enquanto a discussão parece seguir uma seqüência lógica de ordenamento no tempo, como se não houvesse elipses no diálogo.

está de pé, apoiada nos joelhos enquanto fala com o garoto. Na seguinte, está sentada na parte debaixo do beliche, enquanto começa uma fala. Na tomada

2 espaços em 1

seguinte, está sentada em um banco, de onde termina a fala. Os raccords de direção, posição e de olhar são quase totalmente contrariados nessa seqüência, pois cada vez que um dos personagens é filmado em primeiro plano, não se sabe ao certo em

plano americano

posicionamento de câmera no cinema e vídeo em que se enquadra a personagem dos joelhos para cima. Foi disseminado em filmes de faroeste norte-americanos, onde a câmera mostra a expressão do ator e também a arma que ele carrega na cintura.

que parte da pequena

Há outras seqüências no filme em que, sem fugir à regra, as elipses de tempo são amplamente utilizadas, ainda que outro elemento capital previsto por Burch se faça presente. O fora-decampo em Dogville ganha uma outra dimensão quando é colocado em perspectiva não o que escapa ao quadro em um de seus

casa ele está. Em certo

seis espaços possíveis de fuga, em que os objetos permanecem

momento, Grace está

em constante latência enquanto não voltam a ser enquadrados.

de pé, em primeiro

A ausência de cenários e paredes faz com que, muitas vezes, personagens fora da ação principal que se descreve na tela em determinado momento sejam vistos em segundo e terceiro pla-

no, alheios ao que ocorre no primeiro. Verifica-se também o oposto, quando a ação acontece no segundo ou terceiro plano enquanto os demais personagens habitam o primeiro, como o que se vê na seqüência descrita anteriormente. Em ambos os casos, personagens que estariam “desenquadrados” aparecem persistindo no quadro. O

fora-de-campo aqui, então, refere-se aos elementos que simplesmente estão excluídos da ação principal, mesmo que em um momento ou outro, possam vir a participar dela (o que ocorre de maneira análoga ao fora-de-campo habitual). 03 • 04 • 05 • 06 • 07 • 08 • 09 • 10 • 11 • 12 • 13 • 14 • 15 • 16 • 17 • 18 • 19 • 20 • 21 • 22 • 23 • 24 • 25 • 26 • 27 • 28 • 29 • 30 • 31 • 32 • 33 • 34 • 35 • 36 • 37 • 38 • 39


Bibliografia

Possivelmente, trechos de Dogville comprovam a suspeita de Burch: “(por definição, não se pode “ver” o espaço-fora-de-

AUMONT, Jacques. A imagem. São Paulo: Papirus, 1990. BURCH, Noel. Praxis do Cinema. São Paulo: Perspectivas, 1979. DOGVILLE. Lars Von Trier. Suécia/Dinamarca/EUA. 2003. Lions Gate Entertainment. Cor. VALIM, Alexandre. O dogmatismo de Dogville. In: Revista Espaço Acadêmico, Julho de 2004. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/038/38cult_valim.htm>. Acessado em 01/07/08 às 04h11min.

tela), mas é importante saber que este tipo de inversão é concebível”.

Uma das funções da ausência de paredes na narrativa reside no campo da sintaxe. Vê-se aqui uma das metáforas críticas construídas por Von Trier: muitas vezes as pessoas fingem não ver o que acontecem debaixo de seus narizes – ou

está disposto a assumir o roman-

mesmo através das paredes – e não

ce com a forasteira que, para os

fazem nada a respeito. Exemplo gritante

demais, é apenas uma serviçal. Entretanto, a

disso é a cena em que Grace é estuprada

ironia é que, ao fundo do quadro, atrás de Gra-

por Chuck, enquanto vários personagens

ce e Tom, vemos todos os outros personagens.

estão por perto, alienados, separados dessa ação por paredes

Enquanto o diálogo dos dois é focalizado em primeiro

“imaginárias”. Entretanto,

plano, por entre elipses e jump-cuts, a ação no plano

devemos olhar além da

posterior permanece contínua. Um dos pequenos “sal-

interpretação para que

tos” no tempo frequentes no filme acontece aqui. Numa

possamos analisar o efeito que se tem

tomada, Tom está ao lado de Grace, enquanto ela reage

colocando “dois espaços” (de acordo com

à declaração e diz que também o ama, e no seguinte,

o que é dito por Burch) em um.

ele passa pela frente dela, saindo pela direita, numa ação cujo início foi suprimido

Uma seqüencia ideal para que possamos

pelo corte.

perceber tal coisa é aquela no capítulo 5 (4 de Julho) em que Tom (Paul Bettany) se declara para Grace. Ele não deseja que o momento seja testemunhado pelos demais habitantes da cidade, que festejam ao redor de uma mesa na rua principal, porque não

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“(...) é inegável que, apenas através da exploração sistemática das possibilidades estruturais inerentes aos parâmetros cinematográficos, poderá o cinema libertar-se das formas antigas de narrativas e desenvolver novas. (...) É este tipo de cinema do futuro que nós esperamos que venha logo”

Esta breve análise está longe de querer concluir que uma obra como Dogville seja o melhor exemplo para demonstrar as especificações de Burch.

Conclusão

Ainda há outras combinações e articulações

A partir dos exemplos dados, situados

de raccords que não foram exploradas por Von

sob a esfera de análise de Noel Burch, somos

Trier por falta de oportunidade, acaso ou simples

levados a crer que os dois elementos principais

inadequação. Contudo, as seqüências analisadas

aqui discutidos (os raccords e a questão do fora-de-campo) são utilizados, em

aqui (assim como as demais, que ficaram “fora-do-

Dogville, com fins estruturais, e também contribuem para o que se pode

campo” deste texto) parecem suficientes para uma

chamar de plástica da imagem. Raccords dinâmicos ou estáticos, de tem-

maior compreensão das articulações do tempo-espaço

po ou de espaço, jump-cuts e falsos-raccords permeiam toda a obra,

descritas pelo autor.

colocando-a num patamar de um tipo de cinema que se desprende Apesar de trazer elementos certamente pioneiros no cinema, importando do teatro alguns deles,

Registro puro da realidade. No cinema, o grau zero é a transposição meramente reflexiva dessa realidade sem os elementos que quebram a lógica naturalista e realista da narrativa.

grau-zero

dos valores do “grau-zero”.

Dogville não é um filme completamente inovador. Persistem certos elementos dramáticos e técnicos habituais. Entretanto, as possibilidades de estruturação e continuidade são exploradas até o limite do que se pode ver num filme de distribuição mundial, o que vai de encontro às expectativas de Burch:

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T

rabalhei por seis anos como Designer Gráfico e os dois últimos dois como Ilustrador. Trabalho no meu escritório no bairro de Neukölln em Berlim.

Evil

Lov Tenho interesse pelos processos

de produção e minhas influências vem das gravuras, dos posters, das tipografias antigas, o Modernismo alemão, a arquitetura, as artes gráficas populares e espontáneas, os ícones religiosos, os filmes de Jarmusch, Antonioni, Kaurismaki, Cronenberg, Marker. A música punk, rockabilly, surf rock, Elvis Presley, The Cramps e Beach Boys.

666

Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.

666

Samuel Beckett

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Cristóbal Schmal Designer Gráfico e Ilustrador

www.artnomono.com

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Helvetica

Em 1957, Max Miedinger criou a família tipográfica Neue Haas Grotesk. Difundida como um símbolo de tecnologia de ponta suíça, a Helvetica se tornou reconhecida e utilizada mundialmente. Seu objetivo era de criar um tipo claro, sem significados culturais, de fácil legibilidade e que pudesse ser usado em diferentes tipos de suporte: de sinais de trânsito a impressos em papel.

Junk Food

A junk food contém altos níveis de gordura saturada, sal ou açúcar e numerosos aditivos alimentares como glutamato monossódico e tartrazina; ao mesmo tempo, é carente de proteínas, vitaminas e fibras dietéticas. Popularizou-se porque é barata de produzir, possui prazo de validade prolongado e pode não precisar de refrigeração. É fácil de encontrar, requer um mínimo preparo e pode exibir uma vasta gama de sabores.

Andréa Miranda Designer gráfico www.andreamiranda.net

Helvetica Fries

Tipografia Experimental

Tipografia e comunicação visual. Usos canônicos e não canônicos. O desenho e a representação das letras e suas possibilidades expressivas. Letras como imagens. Imagens como letras. Técnicas e ferramentas para pesquisa e elaboração de signos tipográficos, letras e alfabetos. Utilização da Tipografia em diferentes mídias.

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A

Helvetica Fries foi criada atendendo a proposta de exercício feita pelo professor Ricardo Portilho, na disciplina de Tipografia Experimental ministrada no curso de Comunicação da UFMG, no semestre passado. A proposta era a seguinte: “Helvetica Modificada - Faça um nova variação para a Helvetica que não seja do tipo bold ou itálico. Sua abordagem deve adicionar, complicar ou personalizar a Helvetica de alguma maneira, lidando com a relação entre padronização e diferenciação no desenho de um caractere, e dialogando com a percepção da Helvetica como representante de um desenho de tipos ‘neutro’ e ‘universal’.”

Assim, a Helvetica Fries foi criada tendo como base as batatas fritas, escolhidas por serem, de certa forma, símbolo de uma cultura contemporânea massificada, do junk

food e da aceleração do nosso

cotidiano, que muitas vezes não nos deixa ver o que está a nossa volta e o que acontece com nós mesmos.

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Another drawing in the wall Mariana Garcia | estudante de Comunicação Social da UFMG

Mariana Garcia, gosta de um aparente paradoxo, das letras, dos livros, do jornalismo, das lentes (menos as da miopia), das imagens e da fotografia. Por agora busca apaziguar a vontade de fazer essas coisas conviverem em harmonia. Tudo no fim das contas é só mais uma forma de expressão e é isso que importa.

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A

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té então, Belo Horizonte era para mim uma cidade de paredes monótonas. Iguais àquelas de boa parte das grandes cidades. Não me entenda errado. Sabia que os grafites estavam por aí, mas é que nunca tinha parado para reparar. E as coisas são assim. Estão no mundo à espera de um olhar atento. A oportunidade para reparar nesses outros desenhos que compõe a paisagem urbana surgiu em uma aula do Atelier de Ensaio Fotográfico, na Escola de Belas Artes da UFMG. A professora e fotógrafa Patrícia Azevedo levou alguns livros para subsidiar as nossas ideias. Escolhi o já clichê Banksy, o menos fotógrafo de todos, se é que me entendem. A primeira vez que escutei esse nome foi há três anos e desde então ele nunca mais saiu da minha lista de referências.

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]

Decidi, sem grandes pretensões, fazer um pequeno inventário do grafite em Belo Horizonte, assim como o livro do Bansky trazia um inventário de sua “arte de guerrilha”. E a partir daí aquela frase pronta “quem procura acha” nunca foi tão verdadeira para mim: passei a ver grafite em todo e qualquer lugar, seja nos muros de uma grande casa no Bairro Cidade Jardim ou na Praça da Estação e arredores. Essa é minha coleção inacabada e espero que fique assim por um bom tempo. Por sorte, essas paredes costumam mudar.

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artista de rua inglês de renome internacional. Suas obras, grande maioria em stencils, stickers ou grafite, são carregadas de conteúdo social expondo claramente uma total aversão aos conceitos de autoridade e poder.

Bansky

Patrícia Azevedo

Fotógrafa e professora efetiva da Escola de Belas Artes - UFMG. Uma de suas mais recentes exposições foi NORTHERN ART PRIZE, em Leeds, Inglaterra. Coordenou coletivamente o projeto NO OLHO DA RUA.

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e i r é S rr[[aaççõeesss]]

CCCooor E

ssa série surgiu a p artir de a que trazia lguns tra m pequen balhos as declara em forma ções de a de desenh mor o. Nesses nomeei d esboços [q e Anatom u e eu y of Love como um ] eu trata sentimen va o amo to r que vinha dentro, de literalme cada um n te d o d s e ó acabou se rgãos do corpo. De tornando senhar uma nece – uma fo ssidade p rma de co ra m locar pra im que me p fora senti reocupav m e n to a m s , deprimia ficavam m m ou idéia artelando s que na minha minimam c abeça e e ente inte u achava ressantes .

[GABRI

Gabriela

ELA RA

é aquari

BELO]

ana, na

e deixa scida e de dorm m 1987 ir em h . Flutua mente o rá ouvindo rios no as idéia rmais p música s que lh ara exp Gradua e vem à ressar da pela cabeça g ra ficaU . FMG em momen Publicid to ela s a d e e Pro e dedic pagand dução d a ao cu a, neste rso de e sticke D rs esign d p a ra sere de idéia e Produ m colad (in)cons to e a p os por tantem roaí, enqu Portfó ente so lio: ww a n to b re os p m w.coro u d a lanos p flot.co ara o fu m/gabi_ rabelo turo.

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incênrelatando um uma matéria o çã en at a e Chamou-m de espetáculos s em uma casa ica ág tr s ia nc uê americana. o e suas conseq

di

parte chamas eram as e qu u ho ac ”. “O público orou a reagir do show e dem

o refinada

tã ria dotado de Quem afinal se . . o o t t s s u entretenido JJu , ia Ju da pirotecn ver os limites

ante treTETAnisintonia para o pensar no en é impossível nã e m , Tv, m ré Po ? mento s programas da grande parte do em , do to o p, um o po mento com da música ueis, em parcela íq -n ça ca s lo ia nos espetácu indo a tragéd e todos aplaud nda a segunda gu se de os conta. l bo te fu sem nos darm

a parte e a miséria er qu u ho ac o ic “O públ público achou a reagir”. “O ou or m de e da e demorou a da vi a parte da vida er a ci ên ol vi orância era que a hou que a ign ac o ic bl pú agir”. reagir”. “O e demorou a re parte da vida

esmo assim se dá. M e a impunidade qu ão aç ns se Tenho a emos que os o se acreditáss dia-a-dia. Com do as en amarão a qu pe as crisias, não ch , as nossas hipo os eit nc co épr nossos dos tempos. eio ao turbilhão atenção em m Michel

.zip.net]

elmelamed Melamed [mich

O primeiro desenho foi lovin’ with all my heart, seguido pelo lovin’ with all my kidney. A partir daí seguiram outros, que em geral utilizavam algum trecho de música, algumas vezes com uma palavra ou outra modificadas, ou com alguma delas substituída aleatoriamente por um sinônimo. O intuito era criar uma mensagem enigmática, aparentemente sem sentido (ou escrita de forma errada), mas que, depois de algum tempo observando, permitisse ao interlocutor decifrar a mensagem. Essa série de esboços circulou pelo corpo até o pulmão; a partir daí, me apaixonei [graficamente] pelo coração e em vez de me declarar pra alguém eu adotei o símbolo gráfico do coração para tratar de assuntos diferentes, apelando à emoção do interlocutor.

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Na série Cor[a ções] eu busq uei um tratam melhor, me pr ento gráfico eocupei mais com harmonia de cores do qu s formais e e nos esboços que deram or verdade, essa igem a ela [n a preocupação foi mais o resu evolução atra ltado de uma vés dos experi mentalismos da Anatomy Love do que um of a decisão, prop riamente]. Ai essa preocupa nda que haja ção estética, o eixo do meu apropriar de trabalho é me elementos gr áficos para cr ia r signos e men sagens textua is que propõe m ações. A té cnica em si nã importa muito o .

amise r em c a r a , p indo corpo para o baram a o c n a r ] o ad ões ntro como Cor[aç m. De agens os dos nsage m h e i n s m e a s a ara sagem Os de áfico d orte p r men lor gr o o sup alque m elo va u o p q c o e s, com o ã tas, n corpo erente o corp f d i o d r o o t o l s ão, otaçã elo va ssupo quest u con mas p tá pre ie em ação o r c é a já es t s fi i e a n s lado i re sig caso d ão do da cam adqui s. No entaç s n e l e e r e g eu p n a da o-re tatu orma, inseri coraçã m das uma f é o g b l r a a m eria c a e i so t se, d ual. S te apl é o ca no vis , como ressan g l i e a s t e n r i ele, de um u-se corpo olar n torno to e c través ito do a je e l o b p a o e o sentad ção-r e um rdo d [repre o cora esque ome d l n a a r e o r o f bjeto o cora a com se pra no e o a plac gem d g a puxas i m s m u i e r r a e ent oisa pei escrev idade uma c estam como mbigü os eu ação é a r h o n a c e nte, , m s l a ou s de afina eress criand um do m int seta – e i m b E m o a ]. t c i efe igno tro da i esse pelo s e den e ache ado d – l o o r l t e . e den ção p futuro lado d or no ca do h l fi e e O vestuário te m u q lorar m um caráter o exp comunicativo d n e re t ss e an bem intete – a moda o pr tem, na verdad e, só que em mais amplo. um âmbito Tenho consci ência de que Pseudônimo de Peter o que eu faço é moda - e ne não m é a idéia qu Lamborn Wilson, historiador, e o seja. Tratauma idéia us se de expressa escritor e poeta, pesquisador ando o corpo r como suporte. do Sufismo bem como da orQuando algu veste uma m ém ensagem, ela ganização social dos Piratas atinge outro nível de intens de e de signifi idacação: um co do século XVII. Veja mais nas ração desenh ad o real e o text o bate junto co páginas 16,17. o se torna um m a fala repetid a ininterrupta mente pelo qu e veste a cam isa.

seu

Sinta

Hakim Bey

CCCooorrr[[aççããooo]]]

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escritos do s, descobri os Dois anos atrá ado eu tenho pens tei que o que no e y Be com im Hak muito grande uma conexão m te do ta di por e acre ético proposto Terrorismo Po ndo o gu o conceito de se e, mpreend mo Poético co ele. O Terroris

e com camisetas udar o mundo m de o sã en pret el fazer as Não tenho a ação é possív sei que tipo de o nã m bé m pero que desenhos. Ta m elas, mas es do contato co ir rt pa a em mudar pessoas tomar e pensar em façam refletir as ns ge sa en a coisa as m amento é um ça de comport an ud M o . de de atitu em geral. Tend de acontecer, il fíc di e l oa que não é tão muito pess ei aprendendo ab ac e, ad id ic uzir uma estudado publ então, é prod e tento fazer, qu O . m si s - de as l fáci ngir as pessoa tencial para pu po m co m ue a ge mensa ensagem cheg r com que a m ze fa , ra ei an das alguma m sintam obriga ento, elas se om m um r elas e, po bre o assunto. a refletirem so

m próprio autor, escala que pode entas em larga de r “ações não-viol rável ao pode icológico compa ps o ct pa im ter um e o ato é uma a diferença qu m co a ist or rr um ato te nsciência” . mudança de co e te ligado ao qu está fortemen de da Esse conceito ci A . na arte urba centemente na aix de temos visto re e anônimos mensagens qu ntura, está repleta de r, desenho, pi stencil, sticke de a rm fo ram em cidade como portes. Usar a su os tr ou s to é entre mui ar mensagens meio para lanç is po o, tic te democrá absolutamen r le e pode produzir qualquer um o ns e, ao mesm essas mensage ual, at m de or te a tempo, subver até s ze ve e as competindo – i- a comun combatendo das placas e cação oficial outdoors.

Propor açõe s novas é um a forma de mostrar aos outros uma realid ade que você ac redita que é possível e lhor que a meatual. Quem sabe, fazend a pessoa ac o reditar que o mundo po ser algo dife de rente e extr aordinário, você conseg ue fazer, co mo escreve Hakim Bey , que ela “s e sinta mot ivada a procurar um modo m ais interess de existênc ante ia” .

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O REFÚGIO DO FRACO; A COVARDIA IMPRESSA; CAMINHO SUPERFICIAL; O DINAMISMO MORTO.

“Lembrando que, eu sei o poder da palavra e, se for pra ser sincero, é claro que não penso dessa forma tão extrema mas era pra ser arte então a gente tem levantar uma bandeira!”

MONÓTONO, CODIFICADO. _ _ _ : O REFÚGIO DO FRACO; A COVARDIA IMPRESSA;

boa forma de traçar um paralelo com o que faço.

_

pudesse me guiar na criação. Sendo assim, vi na

_

alguma relação com o evento em questão que

_

Como não costumo fazer arte ou trabalhos

DIFICADO.

aleatórios, busquei desenvolver um conceito ou

MONÓTONO, CO-

O DINAMISMO MORTO.

Fomos convidados (eu e o Braca, meu amigo - Luiz Felipe) para expor ao lado de diversos outros artistas em um lançamento de um livro de poesias.

FICIAL;

palavra escrita, utilizada na poesia e nos livros, uma

CAMINHO SUPER-

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Lucas Lima DESIGNER GRÁFICO

www.luklima.com

Luiz Felipe

DESIGNER GRÁFICO

www.flickr.com/lbracadesign

: O REFÚGIO DO FRACO; A COVARDIA IMPRESSA;

PRESSA;

CAMINHO SUPERFICIAL;

maior do que o significado de um texto escrito.”

COVARDIA IM-

carrega muitas vezes um significado forte, bem

FRACO; A

mostrar a força da imagem e como a mesma

O REFÚGIO DO

demonstrei o que ela significava pra mim. Quis

de importância. Tornei-a o mesmo que nada e

pra isso, transferi-la para o mais baixo patamar

:

FICIAL;

Na realidade, tentei menosprezar a palavra e,

Tentei com esse trabalho valorizar a imagem.

CAMINHO SUPER-

O DINAMISMO MORTO. MONÓTONO, CODIFICADO. _ _ _

O DINAMISMO MORTO. MONÓTONO, CODIFICADO. _ _ _

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fake Matheus Lopes Castro

DESIGNER GRÁFICO

mathiole@gmail.com

Dadaísmo

Formado em Zurique por franceses e alemães, o Dada foi um movimento de negação. Fundaramno para expressar suas decepções em relação a incapacidade da ciências, religião, filosofia em evitar a destruição da Europa. Sua proposta é que a arte ficasse solta das amarras racionalistas e fosse apenas o resultado do automatismo psíquico, selecionado e combinando elementos por acaso.

Pop art

Com raízes no dadaísmo, a pop art começou a tomar forma na década de 1950, quando alguns artistas, após estudar os símbolos e produtos da propaganda nos EUA, passaram a transformálos em tema de suas obras. Representavam, assim, os componentes mais ostensivos da cultura popular, de poderosa influência na vida cotidiana na segunda metade do século XX.

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Trabalho com design desde os 14 anos (nessa época por pura diversão), fiz um curso de desenho e história em quadrinhos por 3 anos, e em seguida cursei faculdade de design gráfico. Atualmente trabalho como freelancer, desenvolvendo trabalhos autorais. Sou influenciado pelo dadaísmo (buscando a experimentação), surrealismo (buscando introspecção) e pela pop art (buscando criticar o consumismo). Trabalho muito com técnicas mistas, aliando o tradicional, feito a mão, com o digital.”

Surrealismo

houston Nas primeiras décadas do século XX, os estudos psicanalíticos e as incertezas políticas criaram um clima favorável para o desenvolvimento de uma arte que criticava a cultura européia e a frágil condição humana diante de um mundo cada vez mais complexo. O surrealismo foi por excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente.

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Ivonete Pinto é jornalista e doutora em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Publicou diversos trabalhos, dentre os quais o livro “Descobrindo o Irã”, de 1999. Nesta entrevista, ela fala de cinema e conta um pouco de sua experiência no Irã e comenta as condições de vida e os hábitos dos iranianos após a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou a monarquia então exercida por Pahlavi e instituiu a República Islâmica.


(...) vida privada e vida pública tornam-se uma só. PLUR1VERSO - CONTE UM POUCO DA SUA EXPERIÊNCIA NO IRÃ, O QUE A MOTIVOU A IR ATÉ LÁ? QUAIS ERAM AS SUAS EXPECTAIvonete Pinto - A primeira foi como turista, com meu marido, mas já fiz

TIVAS?

entrevistas na Farabi Foundation e, como era a época do Fajr Film Festival, já vi alguns filmes. Retornei outras duas vezes para cobrir o festival como crítica. Desde o início da Revolução Islâmica, em 1979, o Irã chama a atenção do mundo. Na verdade, sempre chamou por sua posição estratégica no Oriente Médio e pelas idiossincrasias da dinastia Pahlavi. Mas com a Revolução, o país se tornou infinitamente mais interessante. Não é à toa que pensadores como Michel Foucault foram para lá ver de perto os acontecimentos.

Farabi Foundation

Fajr Film Festival

Produtora e distribuidora de filmes iraniana fundada em 1983. É uma das grandes responsáveis pelo destaque do cinema iraniano fora do país através de acordos de financiamento e exibição e, sobretudo, da realização e participação em festivais.

Maior festival internacional de cinema do Irã, ocorre em Teerã desde 1982. É realizado sempre no mês de fevereiro, ocasião em que se comemora também o aniversário da Revolução Iraniana de 1979.

O OLHAR OCIDENTAL ENTENDE A RELAÇÃO DOS POVOS ISLÂMICOS COM A ORDEM POLÍTICO-RELIGIOSA ISLÂMICA COMO UMA RELAÇÃO DE SUBMISSÃO. ESTE OLHAR É MUITO CRITICADO POR DEMONSTRAR UMA INTOLERÂNCIA CONTRA UMA CULTURA DIFERENTE. NO ENTANTO, O PRÓPRIO TERMO “ISLÔ SIGNIFICA, AO PÉ DA LETRA, “SUBMISSÃO”. COMO VOCÊ COMPREENDE ESSA IMPLICAÇÃO DA IDEIA DE “SUBMISSÃO” NA

Submissão, sim, a Allah e ao Corão, mas em tese não há uma submissão po-

CULTURA ISLÂMICA?

lítica, tanto que a revolução foi feita. A questão é que como agora trata-se de uma teocracia, liderada pelo clero, e a constituição sendo a Sharia, vida privada e vida pública tornam-se uma só. Em tese, ir contra a política implementada pelo clero seria então um ato de insubmissão intolerável. No entanto, a revolução já fez 30 anos e os jovens do país, que são maioria absoluta, não viveram os primeiros anos da revolução e não foram “contaminados” pelo carisma do líder Khomeini. Têm outra cabeça e, embora sigam a religião de uma forma muito séria e de fato fiel, preferem ter mais liberdade. Por outro lado, há muita corrupção no governo e a rejeição a esta última eleição de Ahmadinejad só demonstra o quanto eles estão insatisfeitos. Não acredito, porém, que o regime teocrático mude a curto ou médio prazo. Se houver transformações, serão lentas.

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A “IMAGEM” DO ISLÃ PARECE SER, JÁ HÁ ALGUM TEMPO, AQUELA DE UMA MULHER COBERTA DA CABEÇA AOS PÉS. VOCÊ CONCORDA COM ESTA IDEIA? QUAIS SERIAM, NO SEU ENTENDER OUTRAS [NOVAS] IMAGENS DO ISLÃ?

Cada país islâmico tem suas características, seu perfil de comportamento. A posição da mulher nas diferentes sociedades islâmicas muda de acordo mais com a cultura local do que propriamente em função da religião. No Irã, país onde as mulheres, mesmo sob o rigor religioso, sempre trabalharam e tiveram seus direitos, não se vê os absurdos de uma Arábia Saudita ou Kwuait, onde as mulheres sequer dirigem automóveis. A própria roupa no Irã não é a burka (e a ignorâncias dos ocidentais em relação a isto é enorme. Até hoje me perguntam como era usar a burka no Irã...). No Irã nem mesmo o shador é obrigatório, ele só é obrigatório em escolas públicas e para as mulheres que trabalham para o governo (e, naturalmente, para entrar nas mesquitas). No mais, usa-se o hejab, que é um modo de vestir e de se comportar que envolve não mostrar as curvas do corpo e não mostrar o cabelo.

AS TELENOVELAS BRASILEIRAS, COMO A RECENTE O CLONE, TÊM SE APROPRIADO FREQÜENTEMENTE DE ELEMENTOS DA CULTURA ISLÂMICA NA CONSTRUÇÃO DE

Burka

Shador

Hejab

Vestido utilizado por mulheres de alguns países islâmicos como o Afeganistão e o Paquistão. Cobre todo o corpo da mulher, inclusive os olhos.

Vestido que cobre todo o corpo à exceção dos olhos, menos “radical”, portanto, que a burka. É utilizado pelas mulheres em países islâmicos como o Irã e a Arábia Saudita.

Manto que cobre o cabelo, o pescoço e parte do peito, é a vestimenta mais utilizadas pelas mulheres em países islâmicos como o Irã.

PERSONAGENS E TRAMAS. COMO VOCÊ ENXERGA ESSAS APROPRIAÇÕES?

São interessantes para a divulgação de certas culturas, mas de fato acabam deformando estas culturas através dos estereótipos. Fazem uma mistura incrível entre árabes e muçulmanos e é como se todos países do Oriente Médio fossem ortodoxos e de alguma forma seguidores de Bin Laden. O Clone era tão risível quanto foi esta novela sobre a Índia [Caminho das Índias]. O lado bom é justamente a oportunidade de, em espaços mais sérios, como alguns programas de TV, alguns jornais e alguns cursos universitários, promover o debate chamando pessoas mais esclarecidas.

O Clone era tão risível quanto foi esta novela sobre a Índia. 25 • 26 • 27 • 28 • 29 • 30 • 31 • 32 • 33 • 34 • 35 • 36 • 37 • 38 • 39 • 40 • 41 • 42 • 43 • 44 • 45 • 46 • 47 • 48 • 49 • 50 • 51 • 52 • 53 • 54 • 55 • 56 • 57 • 58 • 59 • 60 • 61


O FILME IRANIANO SALVE O CINEMA (DIR. MOHSEN MALKHMALBAF) PROVOCA UMA

Mohsen Malkhmalbaf Popular diretor de cinema iraniano e atual presidente da Academia Asiática de Cinema. Em sua juventude como militante político, foi

preso aos 17 anos e solto à época da Revolução Iraniana. Seu filme Salve o cinema foi realizado para celebrar o centenário do cinema.

DISCUSSÃO SOBRE SUBORDINAÇÃO/INSUBORDINAÇÃO AO TRAZER A FIGURA DE UM DIRETOR (O PRÓPRIO MAKHMALBAF) ARBITRÁRIO DIANTE DOS ATORES AMADORES CANDIDATOS A UM PAPEL EM SEU SUPOSTO PRÓXIMO FILME. PELA LÓGICA DO FILME, A INCITAÇÃO À INSUBORDINAÇÃO PODE SER UMA FERRAMENTA DE RESISTÊNCIA AO REGIME ISLÂMI-

Sem dúvida os muçulmanos, pela sua história de invasões, lá no início com

CO. COMO VOCÊ COMPREENDE ESTA LÓGICA?

Maomé, forjaram um espírito guerreiro. Os iranianos, por terem sofrido, no século passado, vamos chamar de interferências da Inglaterra e da Rússia, precisaram criar mecanismos de defesa. Eles são muito nacionalistas, têm muito orgulho de sua pátria. Foram invadidos pelos árabes, mas mantiveram a língua persa e não gostam nem um pouco quando são confundidos com os árabes. É claro que os governos se aproveitam deste espírito para empreender batalhas políticas – às vezes literais, como na guerra contra o Iraque, às vezes no campo (ainda) da retórica contra Israel. Mas a desobediência só faz sentido se não for contra algo sagrado.

PERSÉPOLIS, BASEADOS EM UMA HISTÓRIA

Marjane Satrapi Artista iraniana Autora da série em quadrinhos autobiográfica Persépolis, publicada em 2000 transformada em filme de animação em 2007. Persépolis conta a história

NA HISTÓRIA EM QUADRINHOS E NO FILME

de sua infância, passada em um período de guerra entre o Irã e o Iraque, e sua adolescência passada na Áustria. Atualmente, mora e trabalha na França.

REAL, UMA JOVEM IRANIANA TESTEMUNHA DA REVOLUÇÃO IRANIANA (1979) É ENVIADA À EUROPA PARA FUGIR DOS CONFLITOS POLÍTICOS DE SEU PAÍS. NO CONTEXTO DA TRAMA, A CULTURA EUROPÉIA É APRESENTADA, EM CERTOS MOMENTOS, COMO “ANTÍDOTO” À ISLÂMICA. VOCÊ CONCORDA COM ESTA

É preciso analisar o contexto daquela família do filme, no caso da Marjane

APRESENTAÇÃO? POR QUÊ?

Satrapi. Eram políticos, intelectuais, tinham estudo, cultura e experiência no exterior. Portanto, uma visão de mundo diferente. Ainda hoje, claro, famílias buscam alívio para as pressões passando férias na Europa. Tanto para as mulheres, que podem andar mais à vontade, quanto para os homens, por razões óbvias. Mas isto não se estende a todo país. São classes privilegiadas que têm recursos para isto e, mais importante, têm um pensamento diferente da média. A impressão que temos quando passamos um tempo lá, convivendo com pessoas comuns, é que se a corrupção for controlada e a economia voltar a crescer, não haverá tantos problemas. Falta de dinheiro e falta de liberdade é que não dá. Esta é, claro, uma visão de fora, de alguém que não mora lá. Tenho certeza que você poderia encontrar posições diametralmente opostas. É um país complexo, cheio de contradições. Escrevi uma reportagem para a Gazeta Mercantil em 2001 que eu chamei de Por trás dos véus, que justamente chamava a atenção para as contradições do país e para o fato de que há algo por trás do que vemos. A prostituição, o homossexualismo e as drogas, por exemplo, não são visíveis num primeiro momento, mas existem de forma crescente. A hipocrisia não é um atributo só do Ocidente.

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A hipocrisia não é um atributo só do Ocidente. PASSADOS DEZ ANOS DA PUBLICAÇÃO DE SEU LIVRO DESCOBRINDO O IRÃ, VOCÊ PERCEBE ALGUMA MUDANÇA COM RELAÇÃO À IMAGEM DO PAÍS E DA CULTURA ISLÂMICA EM GERAL?

Escrevi o livro durante o primeiro período do governo Khatami. Um governo mais liberal, ou moderado, ao menos. A primeira vez que estive lá, não via mulheres mostrando cabelo, nem casais de mãos dadas. Na segunda e terceira vez isto já foi visto nas ruas. Na terceira vez, fui numa festa que rolou vinho e maconha. Hoje, com Ahmadinejad, isto ainda acontece, mas as regras voltaram a ser mais rígidas. Na verdade, a lei não mudou, o que havia antes era um pouco mais de tolerância que agora o presidente não tem. Ou por crença, ou para fazer média com os aiatolás que o mantém no poder. Ou as duas coisas.

ALÉM DE SALVE O CINEMA E PERSÉPOLIS,

Abbas Kiarostami

VÁRIOS OUTROS FILMES TÊM RETRATADO

Talvez o mais influente diretor de cinema iraniano, é da mesma geração que Mohsen Makhmalbaf (que, aliás, foi tema de um de seus filmes, Close

O MUNDO ISLÂMICO COM ALGUMA VISIBILIDADE INTERNACIONAL - POR EXEMPLO O DIRETOR ABBAS KIAROSTAMI, QUE FOI TEMA DE SUA TESE DE DOUTORADO. NO SEU ENTENDER, HÁ UMA “IMAGEM” DO MUNDO

up). Ganhou diversos prêmios internacionais importantes, e foi presidente do júri do Festival de Cannes em 2005.

ISLÂMICO PROPOSTA POR ESTES FILMES? QUAL SERIA ESTA “IMAGEM”?

Kiarostami tenta fugir disto. Seus filmes, tirando Dez, que mostrava a situação das mulheres de forma explícita, têm sido mais universais, mais voltados à experimentação formal. Mas não nos enganemos: Kiarostami, como boa parte dos iranianos, é um muçulmano que apenas não tolera mais o regime corrupto, a hipocrisia, a falta de liberdade. Há cabeças mais arejadas no Irã e o que se quer é que elas alcancem o poder – em eleições limpas – e promovam a democracia.

(...) fui numa festa que rolou vinho e maconha. 27 • 28 • 29 • 30 • 31 • 32 • 33 • 34 • 35 • 36 • 37 • 38 • 39 • 40 • 41 • 42 • 43 • 44 • 45 • 46 • 47 • 48 • 49 • 50 • 51 • 52 • 53 • 54 • 55 • 56 • 57 • 58 • 59 • 60 • 61 • 62 • 63


Abbas Kiarostami 63 Acaso 17, 56 Açúcar 44 Admoestações 18 Afeganistão 61 Afro- americano 13 Ahmadinejad 60, 63 Alfabetos 44 Allah 60 Alquimia 17 Amilcar de Castro 19 Amor 17, 18 Anarquismo 16 Antártica 17 Antídoto 62 Antonioni 42 Aparência 20 Apolíneo 21 Apropriação 20, 61 Árabes 61 Arábia Saudita 61 Aristocracia 22 Arquitetura 20, 23 Arrogância 29 Arte 18, 22, 54, 56 Arte ambiental 22 Arte-sabotagem 17 Ascetismo 17 Auto- ressurreição 17 Automatismo psíquico 56 Autonegação 17 Autorais 57 Bandeira 54 Banksy 47, 49 Batalhas 62

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Carcinógenos 17 Carioca 21 Carisma 60 Carnal 17 Carne 22 Cartaz 13, 54 Cenografia 37, 38, 39, 40 Chacrinha 23 Cidade 46, 47, 48, 49 Ciências 56 Cinema 13, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 59, 63 Circo 17 Circunvoluções 22 Clero 60 Comédia 14, 15 Comportamento 21, 61, 53 Composição 19 Comunicação 22, 45 Conceito 54 Concretista 20 Consciência 20 Consumismo 57 Contato 22 Contestação 18 Continuidade 37, 38, 39, 40 Contraste 22 Cor 22 Coração 50, 51, 52, 53 Coragem 17 Corão 60 Corpo 17, 22, 61 Corrupção 60, 62, 63 Corte 37, 38,40 Crimes 16 Crítica 19

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Dogma 95 – 37, 40 Dogville 36, 37, 38, 39, 40, 41 Drogas 62 Durex 29 ECA-USP 59 Economia 62 Efervescência 19 Eisenstein 37 Ejaculação 27 Elegância 17 Elipse 38, 39, 40 Elvis Presley 42 Emoção 20 Engajado 29 Enquadramento 38 Entrevista 59 Ereção 27 Escola de samba 21 Escritório 14, 15 Escultor 23 Escuridão 17 Espacialidade 22 Espaço 20, 22 Espectador 22 Espetáculo 17 Estandartes 22 Estereótipos 61 Estetas 22 Estética 17 Estilo 20 Estrutura 19 EUA 56 Europa 56, 62 Expectativas 60 Experiência 22

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Fruição 22 Futuro 17 Gays 26 Geométricas 19 Gilmar Mendes 11 Gnose 17 Godard 37 Golpe 8, 9 Gordura 44 Governo 18 Grafite 46, 47, 48, 49 Grau-zero 41 Grupo Frente 19 Grupo Ruptura 19 Guaches 19 Guerra 17 Guerrilha 16 Hacker 16 Hakim Bey 16, 53 Hápticas 22 Harmonia 17 Harper’s Bazaar 33 Hejab 61 Hélio Oiticica 18, 19, 20, 21, 22, 23, 31 Helvética 44, 45 Helvética fries 44, 45 Henri Cartier-Bresson 32 Heráclito 17 Hierarquia 22 Hip hop 13 Hipocrisia 51, 62, 63 História em quadrinhos 57 Hollywood 13 Homosexualidade 8, 9 Homossexualismo 62

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a b c d e f g h i j k l m n Beach Boys 42 Beleza 18 Belo 20 Belo Horizonte 46, 47,48, 49 Bin Laden 61 Bissexuais 26 Boemia 29 Boicote 17 Bold 45 Bólide 20, 22 Bombadeiras 27 Bombaim 17 Boneca 26, 27 Brooklyn 13 Burguesa 21 Burka 61 Cafetinas 28 Campo 39, 40, 41 Caos 16, 17 Capacho 10 Caractere 45

Cronenberg 42 Cultura 16, 21, 60, 61, 62, 63 Cultura contemporânea 45 Cultura européia 57 Cultura popular 56 Dadaísmo 56, 57 Debate 61 Democracia 63 Desajuste 25 Descobrindo o Irã 59 Desconstrução 17 Desejo 17 Desenho 45, 57 Design Grafico 57 Diálogo 20 Diferenciação 45 Digital 57 Dinheiro 62 Dionisíaco 21 Diploma 10 Diversão 57

Experimentação 22, 57, 63 Expressão 18 Fake 56 Farabi Foundation 60 Farj Film Festival 60 FENAJ 12 Férias 62 Ferocidade 17 Ferreira Gullar 20 Festival 60 Festival de Cannes 63 Filme 62, 63 Filólogo 18 Filosofia 56 Foda-se 25 Força 55 Forças armadas 8, 9 Formas 22 Fotografia 30, 31, 32, 46, 47, 48, 49 Fotojornalismo 33 Franz Weissmann 19

Hormônio 27 Houston 57 Imagem 20, 44, 55 In-corporação 22 Individualista 20 Inglaterra 17 Insólito 20, 22 Insubmissão 60 Insubordinação 16, 25 Insubordinado 10 Intelectuais 62 Intolerância 60 Introspecção 57 Irã 16, 59, 60, 61, 63 Iraque 62 Ironia 40 Irracional 57 Islã 60, 61 Islamismo 16 Israel 62 Itálico 45


Ivan Serpa 19 Ivonete Pinto 59 Jackson Ribeiro 21 Jacques Aumont 37, 40 Jarmusch 42 Jornalista 10 Jump-cut 39, 41 Junk food 44, 45 Kaurismaki 42 Khatami 63 Khomeini 60 Kwuait 61 Land-art 17 Lars Von Trier 36, 37, 38, 40, 41 Legibilidade 44 Lei 63 Lésbicas 26 Letras 44 Letraset 29 Liberal 63 Liberdade 18, 22, 31, 60, 62, 63 Liberdade de expressão 11 Libertinagem 17 Libidinosa 17 Life 33 Light 17 Livros 54 Ludismo 16 Luis XV 22 Lygia Clark 19, 23 Lygia Pape 19, 21 Maconha 63 Macrocosmo 22 Madeira 22 Magnum 33 Mangueira 21 Manifestações Ambientais 20 Manifesto 19, 37 Maomé 62 Marjane Satrapi 62

Monarquia 59 Monocromismo 20 Morro 21 Morte 17 Movimento 22, 30, 31 Muçulmano 61, 62, 63 Mulher 61 Museu Nacional 21 Música 21, 31, 51 Mutilação 17 Mutilação 27 Nacionalistas 62 Narrativa 38, 39, 40, 41 Negro 13 Neoconcretismo 19 Neoconcreto 21 Neue Haas Grotesk 44 Neutro 45 Noel Burch 36, 37, 38, 39, 40, 41 Núcleos 22 O Clone 61 Obama 12 Ocidental 60 Ocidente 62 Office Space 14, 15 Ordem 21 Orgânico 17 Orgulho 62 Oriente médio 60, 61 Ortodoxos 21, 61 Ostensivos 56 Outro Sentido 26 Padronização 45 Pahlavi 59, 60 Palavra 54 Paquistão 61 Paradigma 35 Paradigma do consenso 17 Parangolé 30, 31 Parangolé 20, 22

Plebeu 22 Pó 22 Poder 17, 54, 63 Poesia 17, 20, 54 Poeta 18 Polêmica 16 Política 18 Políticos 62 Pop arte 56, 57 Pornografia 16, 17 Porta 31, 37, 38, 39 Preciosismo 20 Presidente 63 Proficiência 18 Propaganda 17, 56 Prostituição 28, 62 Psicanalíticos 57 Psíquico 20 Public Enemy 13 Pulsante 22 Pungia 22 Punk 42 Quartéis 28 Raccord 37, 38, 39, 41 Racionalista 19, 56 Radicalismo 16 Realidade 17 Rebelde 25 Regime 62, 63 Rejeição 60 Relevos 22 Religião 56, 60, 61 República 59 Resistência 62 Ressonância 17 Revolta 18 Revolução Iraniana 16, 59, 62 Revolução Islâmica 60 Revolucionário 19 Revoluções 35

Sharia 60 Significado 55 Signo 20, 44 Silicone 27 Simbolismo 17 Símbolo 44, 45 Simplicidade 17 Sintonia 19 Solução 20 Spike Lee 13 Sub-reptícia 17 Subconsciente 57 Submissão 60 Suburbano 22 Subversivo 10 Sufismo 16 Suíça 44 Suntuosidade 20 Superfície 20 Suporte 44 Surf rock 42 Surrealismo 57 Tachismo 20 Tato 22 Teatro 14, 15 Teatro Inaugural 20 Técnicas 57 Tecnologia 16, 44 Telenovela 61 Temporalidade 22 Teocracia 60 Terrorismo 17 Terrorismo poético 16, 17, 53 The Cramps 42 Tipografia 44 Tipografia Experimental 45 Tipográficos 44 Tolerância 63 Tradicional 57 Transexuais 26

n o p q r s t u v w x y z 6 Marker 42 Massificada 45 Max Miedinger 44 Menosprezar 55 Mercantilismo 17 Merda 25 Metaesquemas 19 Metodologia 21 Michel Foucault 60 Michel Melamed 51 Mídias 44 Mike Judge 14 Militar 28 Moda 20, 52 Moderado 63 Moderna 57 Mohsen Malkhmalbaf 62, 63

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8 Paranóia 17 Patrícia Azevedo 47, 49 Pecado 18 Pedro Carneiro 14, 15 Peixe 5 Penetrável 20, 22 Percepção 17, 45 Persa 62 Persépolis 62 Personagem 61 Perspectiva 22 Perverso 22 Peter Lamborn Wilson 16 Pintos 23 Pintura 19, 20 Plano 36, 37, 38, 39, 40 Plano americano 39

9 Ricardo Portilho 45 Rigor 21, 61 Ritmo 21 Rockabilly 42 Romântica 20 Rotina 14, 15 Ruptura 21 Sádico 17 Sagrado 62 Sal 44 Salve o cinema 62 Santo 29 Sensorial 20, 22 Sensorialidade 22 Sensual 22 Sexo 21 Shador 61

0 Travessuras 35 Travestis 26 Tridimensionalidade 20 Turista 60 Underground 16 Universal 45 Valorizar 55 Vanguardista 19 Visibilidade 63 Vogue 33 Xerox 29 Zurique 56


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